terça-feira, junho 16
A solidão
Disse-me um jornalista filantropo que a solidão é prejudicial ao homem. E, em apoio de sua tese, citou-me, como todos os incrédulos, palavras dos Pais da Igreja.
Eu sei que o Demônio gosta de frequentar os lugares áridos e que o Espírito do crime e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas, é possível que essa solidão só seja perigosa para as almas indolentes e extravagantes que a povoam com suas paixões e quimeras.
É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, estaria bastante arriscado a ficar louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço-lhe que não condene os amantes da solidão e do mistério.
Há, em nossas raças palradoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma arenga interminável, sem recear que os tambores de Santerre lhes cortasse intempestivamente a palavra.
Não os lastimo, porque percebo que suas efusões oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento. Mas os desprezo.
Desejo, sobretudo, que o meu maldito jornalista me deixe divertir-me à vontade.
— Então, — perguntou-me num tom fanhoso e muito apostólico, — jamais experimenta você a necessidade de partilhar suas alegrias? Sutil invejoso! Como sabe que desprezo as dele, vem insinuar-se nas minhas! Hediondo desmancha-prazeres! “A grande felicidade de não poder estar só!” — diz algures La Bruyère, como para envergonhar todos aqueles que procuram esquecer-se na multidão, decerto com receio de não poderem suportar a si mesmos.
"Quase todas as nossas desgraças provêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, — diz outro sábio, Pascal, parece, evocando assim, na cela do recolhimento, todos os alucinados que buscam a felicidade no movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar a bela língua do meu século.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Eu sei que o Demônio gosta de frequentar os lugares áridos e que o Espírito do crime e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas, é possível que essa solidão só seja perigosa para as almas indolentes e extravagantes que a povoam com suas paixões e quimeras.
É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, estaria bastante arriscado a ficar louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço-lhe que não condene os amantes da solidão e do mistério.
Há, em nossas raças palradoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma arenga interminável, sem recear que os tambores de Santerre lhes cortasse intempestivamente a palavra.
Não os lastimo, porque percebo que suas efusões oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento. Mas os desprezo.
Desejo, sobretudo, que o meu maldito jornalista me deixe divertir-me à vontade.
— Então, — perguntou-me num tom fanhoso e muito apostólico, — jamais experimenta você a necessidade de partilhar suas alegrias? Sutil invejoso! Como sabe que desprezo as dele, vem insinuar-se nas minhas! Hediondo desmancha-prazeres! “A grande felicidade de não poder estar só!” — diz algures La Bruyère, como para envergonhar todos aqueles que procuram esquecer-se na multidão, decerto com receio de não poderem suportar a si mesmos.
"Quase todas as nossas desgraças provêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, — diz outro sábio, Pascal, parece, evocando assim, na cela do recolhimento, todos os alucinados que buscam a felicidade no movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar a bela língua do meu século.
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
Retrato do artista quando coisa
Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"
O burguês e o crime
O burguês
Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:
— Por que não?
A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça de sucesso, com artistas de sucesso, estreia recente e também de sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:
— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser hoje.
Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.
Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça, mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e, presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima de suas possibilidades e de seu interesse.
Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca. Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora ainda pelo pigarro de um velho na plateia, ou pelo sapato um pouco apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.
Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas. Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.
A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando ouviu alguém falar em morte.
Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial, não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim como “não devemos matar a velha de susto”, ou “se a velha souber disso pode morrer”.
Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas, os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os tiranos, os motoristas de ônibus.
Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua opção e ficou apenas com o matar.
Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma excelente pessoa.
Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?
Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido, confiante: sou um caráter!
Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.
Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.
Teve coragem para o comentário.
— Uma peça muito profunda!
A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:
— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!
Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre estranhos, bebeu um gole d’água gelada, sem sede mesmo, só para passar o tempo.
Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele mesmo — se não tivesse voz.
Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era dispensável, uma responsabilidade incômoda.
Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial, sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava, ele apenas ouvia.
A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que suspendesse o vidro da porta:
— Suspenda o seu vidro, Ema.
Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado por sedimentações calcareas que prenunciavam um respeitável bico-de-papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.
Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas, tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.
Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase sempre incompleto da parte dela.
Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono, teve um pensamento também definitivo:
— “Se não fosse a polícia, eu matava!”
O crime
A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse dele, no dia do enterro: “Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de perder!”.
No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.
À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo “não fizesse uma besteira”.
Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa disso!
No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos, o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.
Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos, principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão rudes eventos.
Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia, vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como convinha a um homem que sofrera tanto:
— “Aquela cachorra!”
Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro. Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo, detalhadamente, como num passo heroico de sua vida.
Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade foi devidamente provada.
A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que, “após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente cumprido”.
Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a polícia os encontraram.
No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como “Ocorrência nº. 53.697” e arquivado após despacho do delegado-auxiliar, cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.
O crime e o burguês
— “Se não fosse a polícia eu matava!”.
Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.
Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas, tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.
Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha apenas surpreendida e irritada.
Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e o desperdiçara, sem lucro algum.
E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro, com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a seu lado.
— “Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário suspeito serei eu mesmo”.
Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro evidente, agressivo.
Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida. Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites, mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o garagista.
Surpreendeu a esposa:
— Uê? Você já voltou?
— Você está vendo.
Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo, tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano. Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo levou a mão ao peito:
— Ema, o enfarte!
Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da cama, nua.
— Vou buscar a coramina!
— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode perder tudo!
Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:
— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a ninguém. As hipotecas!
A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um grito:
— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!
Ema foi à cozinha, apanhou um copo d’água. Quando voltou ao quarto, pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um copo na mão.
— Uê? Já ficou bom?
Figueiredo avançou para ela.
— Beba isso!
— Mas…
— Beba, sua idiota!
Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu um gole e ainda teve tempo de perguntar:
— Para que é isso?
— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.
Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.
— E o enfarte?
— Entre depressa!
Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.
— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?
Figueiredo estendeu-lhe o copo.
— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.
Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa, deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no chão.
Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua, atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra, quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para que o homem lhe abrisse a porta dos carros.
Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis. Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um crime que se explicava por si mesmo.
Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio — São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para abastecer o carro.
— Tem mecânico aí?
O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.
— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.
Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o tanque,
tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São Paulo.
Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:
— Boa viagem, doutor!
Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.
Moral
Carlos Heitor Cony, “Babilônia, Babilônia”
Calça literária
É assíduo leitor de blusas, camisas, saias, calças estampadas. Não lhe escapa um exemplar novo. Parece desligado, e observa tudo. Segundo ele, as peças de indumentária, masculina e feminina, ostentando símbolos e nomes de universidades americanas, manchetes, páginas de jornal, retratos de Pelé e Jimi Hendrix, apelos ao amor que não à guerra etc., há muito deixaram de ser originais. Constituem invólucros rotineiros de pessoas de qualquer idade. A gente estranha é uma camisa inteiramente nua de dizeres ou figuras, a roupa que não diz nada, só roupa. Hoje, lê-se mais nos tecidos do que nos livros, e não é ler apenas, é ver cinema e televisão, pois os corpos, ao se moverem, dinamizam as figuras estampadas. O que, de um modo ou de outro, contribui para a cultura de massas. Informa:
— Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus — que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.
— Você sozinho é um Mobral 1971.
— Ontem eu li uma calça comprida, de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinicius.
— Tomou nota?
— Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: “Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.
— Tudo?
— Tudo não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.
— Estou vendo.
— Foi a primeira calça literária, totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…
— Beleza.
— Não é? Tem mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do caminho.
— Isso já é prosa, amizade.
— É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
— Estou pensando em aproveitar esse material para fins especificamente didáticos. Através dele, ensinar geografia, história, matemática, medicina de urgência, imposto de renda, ortografia desmistificada, essas coisas. O indivíduo cobre-se e vai distribuindo ciência. Ou aprendendo. Vinte minutos no ônibus — que aula! Classes ao ar livre, na feira, na fila. Escola dinâmica.
— Você sozinho é um Mobral 1971.
— Ontem eu li uma calça comprida, de mulher que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são literárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinicius.
— Tomou nota?
— Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: “Pode mirar mais”. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: “Pode copiar também”. Copiei.
— Tudo?
— Tudo não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido.
— Estou vendo.
— Foi a primeira calça literária, totalmente poética, do meu conhecimento. Feita em São Paulo? Talvez. Caracteres pretos sobre fundo branco. Versos em todas as direções. De Bilac, de Cecília, de Bandeira, de Castro Alves, de Fernando Pessoa. Uma antologia, bicho. Sem ordem, naturalmente. Escuta aí: Onde vais à tardezinha, morena flor do sertão? O que eu adoro em ti é a vida. Aqui outrora retumbaram hinos. Oh abelha imaginativa! o que o desejo inventa… Vou-me embora pra Pasárgada. Amor é fogo que arde sem se ver. Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho. No monte de amor andei, por ter de monteiro fama, sem tomar gamo nem gama. Clorindas e Belindas brincam no tempo das berlindas. Eu tenho amado tanto e não conheço o amor. Estrela Vésper do pastor errante. ‘Tamos em pleno mar: dois infinitos ali se alteiam…
— Beleza.
— Não é? Tem mais. Transforma-se o amador na coisa amada. Antônia, você parece uma lagarta listrada. D. Janaína, rainha do mar, dai-me licença para eu também brincar no vosso reinado. Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Não queiras indagar do meu segredo. Mas que seja infinito enquanto dure. Cantando espalharei por toda parte. Tudo não escondido perde a graça. O cinamomo floresce em frente do teu postigo. Crisântemo divino aberto em meio da solidão… Tinha uma pedra no meio do caminho.
— Isso já é prosa, amizade.
— É mesmo. Em todo caso, trata-se da primeira calça poética luso-brasileira. Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
segunda-feira, junho 15
O cego e o guia
Se o cego Marujo não enxergava, os olhos esbranquiçados nas órbitas graúdas, submersos nas sombras, cobertos por uns óculos de lente escura, como é que conseguia contar aquelas histórias adquiridas com os trovadores da cidade? Comentava-se que o seu guia, um menino de cor, apelidado de Zoinho por causa dos olhos pequenos sumidos na cara, era quem lia as histórias de cordel para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição.
Ele fazia a música que se encaixava perfeita na letra do cordel cujo conteúdo mais marcava a alma cantante acostumada nas visões alegres e sentimentos tristes. Sua memória prodigiosa gravava a história do cordel lida pelo menino, sem perder um detalhe, mas também gostava de improvisar com cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.
Além de guia, o menino Zoinho chamava o povo para escutar mais uma cantoria do cego Marujo. Aquele menino esperto não tinha pai nem mãe, vivia sem rumo, fazendo biscates na feira aos sábados e no terminal das marinetes na semana. Pedia comida na porta da família rica. Dormia embaixo da ponte numa cama improvisada com papelão grosso. Se cobria com uma coberta de lã velha, tinha vários furos no pano puído.
Até que um dia pediu ao cego Marujo para ser seu guia e fazer a limpeza no barraco. Não só fazia isso, preparava o café pela manhã e a comida à noite. Fazia a feirinha de mercado no armazém do português. De tal sorte um pegou afeição pelo outro, que o cego Marujo dizia que o menino era o filho que não teve, este dizia que ele era o pai que sempre quis ter. Antes de dormir e depois de acordar no outro dia, o menino Zoinho não esquecia de dizer:
– Benção, pai Marujo.
Chamava o povo para assistir mais uma cantoria do cego Marujo, que de repente gostava de tirar do sério o público, escutando-o em silêncio o que cantava em tom lamentoso. Terminava a cantoria com um gracejo que fazia a plateia cair na gargalhada. Não deixava de ressaltar alguma façanha que fazia no tempo de pescador. Certa vez, ouvi o cego Marujo falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, e o que mais gostava, o mar como uma piscina sem fim alagado de azul. Era pescador que saía cedo para pegar o peixe nos longes mares bravios de Ilhéus.
O barco feito brinquedo
Indo pra lá e pra cá
Em cada onda gigante
Assombrando a tripulação,
Só Marujo não tinha medo
Quanto maior fosse o perigo
Causando enorme aflição.
Cyro de Mattos
________
Ele fazia a música que se encaixava perfeita na letra do cordel cujo conteúdo mais marcava a alma cantante acostumada nas visões alegres e sentimentos tristes. Sua memória prodigiosa gravava a história do cordel lida pelo menino, sem perder um detalhe, mas também gostava de improvisar com cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.
Além de guia, o menino Zoinho chamava o povo para escutar mais uma cantoria do cego Marujo. Aquele menino esperto não tinha pai nem mãe, vivia sem rumo, fazendo biscates na feira aos sábados e no terminal das marinetes na semana. Pedia comida na porta da família rica. Dormia embaixo da ponte numa cama improvisada com papelão grosso. Se cobria com uma coberta de lã velha, tinha vários furos no pano puído.
Até que um dia pediu ao cego Marujo para ser seu guia e fazer a limpeza no barraco. Não só fazia isso, preparava o café pela manhã e a comida à noite. Fazia a feirinha de mercado no armazém do português. De tal sorte um pegou afeição pelo outro, que o cego Marujo dizia que o menino era o filho que não teve, este dizia que ele era o pai que sempre quis ter. Antes de dormir e depois de acordar no outro dia, o menino Zoinho não esquecia de dizer:
– Benção, pai Marujo.
Chamava o povo para assistir mais uma cantoria do cego Marujo, que de repente gostava de tirar do sério o público, escutando-o em silêncio o que cantava em tom lamentoso. Terminava a cantoria com um gracejo que fazia a plateia cair na gargalhada. Não deixava de ressaltar alguma façanha que fazia no tempo de pescador. Certa vez, ouvi o cego Marujo falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, e o que mais gostava, o mar como uma piscina sem fim alagado de azul. Era pescador que saía cedo para pegar o peixe nos longes mares bravios de Ilhéus.
O barco feito brinquedo
Indo pra lá e pra cá
Em cada onda gigante
Assombrando a tripulação,
Só Marujo não tinha medo
Quanto maior fosse o perigo
Causando enorme aflição.
Cyro de Mattos
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Minha hospedeira
E antes que me desse conta peguei no sono e dormi durante quatro ou cinco horas. Eram mais de dez da manhã quando acordei, com as roupas todas amarrotadas, exausto, e em minha cabeça a memória semiesquecida da sensação horrível do dia anterior; mas estava vivo, tinha esperança e felizes pensamentos.
Na escada, no andar acima do pinheirinho, dei de encontro com a “tia”, minha hospedeira, a quem via de raro em raro, mas cuja amistosa presença me era muito agradável. Tal encontro não fora muito oportuno, pois estava sujo e tresnoitado, despenteado e com a barba por fazer. Cumprimentou-se e quis passar adiante. Ela sempre respeitava meu desejo de estar sozinho e de não ser observado continuamente, mas hoje parecia ter-se rompido um véu entre mim e o mundo em redor, ter-se desmoronado a barreira — ela sorriu e permaneceu parada.
— Divertiu-se esta noite, hein, Sr. Haller? Não desfez a cama e decerto deve estar cansado, não?
— Sim — disse eu, e tive de sorrir também — a noite de ontem foi animada e, como não quisesse interromper a paz de sua casa, acabei dormindo num hotel. Meu respeito pela calma e a honorabilidade de sua casa é muito grande, e às vezes me sinto como um “corpo estranho” nela.
— Não faça pouco, Sr. Haller.
— Eu só faço pouco de mim mesmo.
— Pois não devia fazê-lo. Não devia sentir-se em minha casa como um “corpo estranho”. Pode viver como melhor lhe convenha e fazer o que bem entenda. Já tive muitos inquilinos distintos, verdadeiras joias de amabilidade, mas nenhum era tão sossegado ou nos incomodou menos que o senhor. E agora, quer tomar uma chávena de chá? Não me opus. Na sala de jantar, entre formosos retratos de seus antepassados e os móveis de seus avós, tomei um chá excelente e conversamos um pouco; a amável senhora, sem que o perguntasse expressamente, ficou sabendo algumas coisas a respeito de minha vida e de meus pensamentos, e ouviu-me com esse misto de respeito e de indulgência maternal que as mulheres prudentes têm para com as complicações dos homens. Falou-me também de seu sobrinho e me mostrou num quarto contíguo o trabalho que este fizera durante as últimas férias: um aparelho de rádio. Ali o esforçado jovem passava seus momentos de ócio e montara aquela máquina, seduzido pela telegrafia sem fios, prostrado de joelhos diante do deus da técnica, cujo poder possibilitou o descobrimento, após milhares de anos, de um fato que todos os pensadores sempre souberam e do qual fizeram melhor uso do que neste recente e muito imperfeito estágio atual. Falamos a propósito disso, pois a senhora era inclinada à devoção e os temas religiosos não lhe eram desagradáveis. Disse-lhe que a onipresença de todas as forças e ações eram bem conhecidas pelos antigos hindus, e a técnica havia simplesmente trazido um pouco desse fato à consciência comum, e por esse meio, no que se refere às ondas sonoras, havia construído um emissor e um receptor que ainda estavam totalmente imperfeitos. A base daquela ideia antiga, a irrealidade do tempo, não fora ainda observada pela técnica, mas naturalmente viria a ser finalmente "descoberta" e cairia nas mãos dos laboriosos engenheiros. Seria descoberto, talvez muito em breve, pois não só as imagens e acontecimentos presentes e momentâneos poderiam chegar continuamente até nós, como a música de Paris ou de Berlim se faz agora audível em Frankfurt ou em Munique, mas também tudo o que já aconteceu fica registrado e pode tornar-se atual; e que um dia, com fios ou sem eles, com ou sem ruídos, chegaremos a ouvir a voz do rei Salomão ou a de Walter von der Vogelwide. E que tudo isto, como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais cerrada de distrações e ocupações inúteis. Mas disse todas essas coisas não no costumeiro tom de amargura e desdém contra os tempos atuais e a técnica, mas em tom de pilhéria e com ar de brincalhão; a senhora se ria e passamos assim uma hora juntos, a tomar chá e a nos divertirmos. Havia convidado a admirável jovem do Águia Negra para a noite de terça-feira, e não me foi fácil esperar que chegasse aquele dia; quando por fim chegou a terça-feira, tive perfeita noção da importância que tinham para mim as relações com aquela moça, uma simples desconhecida, e isso me encheu de espanto. Só pensava nela, e esperava tudo dela, estava disposto a sacrificar-lhe tudo e pôr tudo a seus pés, embora não estivesse em absoluto enamorado dela. Bastava imaginar que não compareceria ao encontro ou que dele se houvesse esquecido, para ver claramente o que ela representava para mim; o mundo me parecia então novamente vazio, os dias eram escuros e destituídos de encanto, voltava a envolver-me a cruel quietude e a morte, e não via outra saída daquele inferno silencioso senão a navalha de barbear. E a navalha de barbear não fora nada agradável para mim nestes dias, não havia perdido nada de seu antigo horror. Isto era exatamente o mais terrível: sentia uma profunda e opressiva angústia em cortar a garganta, temia a morte como uma força tão obstinada e selvagem, como se fosse o homem mais saudável do mundo e minha vida um verdadeiro paraíso. Conhecia meu estado com plena e brutal clareza e reconhecia que a tensão insuportável entre o não poder viver e o não poder morrer era o que me fazia dar tanta importância à desconhecida, à linda bailarina do Águia Negra. Era a única janela, a luminosa e diminuta abertura em minha sombria e angustiosa caverna. Era a salvação, o caminho para a liberdade. Haveria de ensinar-me a viver ou ensinar-me a morrer, haveria de tocar com sua mão firme e formosa meu coração transido, para que ele, em contato com a vida, de novo florescesse ou se tornasse em cinzas. De onde tirava ela essa força, de onde lhe vinha a magia, de que profundos abismos se elevava até ela essa profunda significação que tinha para mim? Não sabia e não me importava sabê-lo. Bastava-me saber de sua existência. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento me importara tanto; estava saciado deles, precisamente nisto consistia a ignomínia e o tormento mais agudos de que eu padecia: ver tão claramente meu próprio estado, ter perfeita consciência dele. Via a este infeliz, a este Lobo da Estepe diante de mim como uma mosca numa teia de aranha, e contemplava como seu destino forçava o desenlace, como pendia da teia enlaçado e indefeso, como a aranha se dispunha a devorá-lo, como aparecia também uma salvadora mão. Poderia dizer as coisas mais racionais e inteligentes sobre a concatenação e os motivos do meu padecimento, da enfermidade de minha alma, de meu enfeitiçamento e de minha neurose, pois a mecânica era evidente para mim. O que mais me fazia falta, aquilo por que suspirava tão desesperadamente, não era saber e compreender, mas vida, decisão, movimento e impulso. Embora durante aqueles dois dias de espera nunca duvidasse de que minha amiga cumpriria o prometido, às últimas horas estive muito excitado e inseguro; nunca na vida esperara com tamanha ansiedade a noite de nenhum dia. E embora a tensão e a impaciência se me tornassem quase insuportáveis, aquilo me causou um grande bem: era indizivelmente formoso e novo para mim, para o desiludido que há muito tempo nada mais esperava, que não se satisfazia com o que quer que fosse; era maravilhoso correr daqui para ali o dia todo, cheio de impaciência, de inquietude e veemente expectativa, imaginar antecipadamente o encontro, a conversação, os acontecimentos da noite, barbear se e vestir-se para o encontro (com muito apuro, camisa nova, gravata nova, cordões novos nos sapatos). Fosse quem fosse aquela moça inteligente e misteriosa, que tivesse chegado até mim por este ou aquele caminho, tudo me era indiferente; ali estava, e realizara-se o prodígio de eu voltar a sentir-me um ser humano e encontrar novamente interesse na vida! Só me importava que tudo prosseguisse, abandonar-me àquela atração, seguir aquela estrela! Momento inesquecível em que tornei a vê-la! Estava sentado junto a uma mesinha no antigo e confortável restaurante, a qual eu reservara pelo telefone, sem que houvesse necessidade; examinei o cardápio e coloquei no jarro duas formosas orquídeas que comprara para presentear minha amiga. Tive de esperá-la algum tempo, mas sempre na certeza de que viria, e não me angustiei. E chegou, e deteve-se junto ao vestiário e me cumprimentou somente com um olhar atento, um tanto inquisitivo, de seus claros olhos cor de cinza. Desconfiado, fiquei observando como o moço do vestuário se comportaria com ela. Não, graças a Deus, não houve qualquer intimidade entre eles, qualquer falta de respeito; mostrou-se impecavelmente correto. E, no entanto, se conheciam, pois ela o chamou por Emil.
Quando lhe dei as orquídeas, alegrou-se e sorriu.
— Muito obrigada pela sua atenção, Harry. Você queria me dar um presente, não é? E não sabia exatamente o que escolher. Não estava certo se eu ficaria satisfeita em receber o presente ou se me ofenderia, por isso escolheu orquídeas, que não passam de flores, mas são sempre muito apreciadas. Portanto, muito, muito grata. E aproveito para dizer-lhe que não quero que me traga presentes. Vivo à custa dos homens, mas não quero viver à sua custa. Mas, como você está diferente! Parece até outra pessoa! Outro dia estava como alguém que foi salvo da forca e agora já está quase um homem outra vez.
Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"
Ao voltar para casa, já não sentia aquele terror que teria sentido se regressasse na véspera.
Na escada, no andar acima do pinheirinho, dei de encontro com a “tia”, minha hospedeira, a quem via de raro em raro, mas cuja amistosa presença me era muito agradável. Tal encontro não fora muito oportuno, pois estava sujo e tresnoitado, despenteado e com a barba por fazer. Cumprimentou-se e quis passar adiante. Ela sempre respeitava meu desejo de estar sozinho e de não ser observado continuamente, mas hoje parecia ter-se rompido um véu entre mim e o mundo em redor, ter-se desmoronado a barreira — ela sorriu e permaneceu parada.
— Divertiu-se esta noite, hein, Sr. Haller? Não desfez a cama e decerto deve estar cansado, não?
— Sim — disse eu, e tive de sorrir também — a noite de ontem foi animada e, como não quisesse interromper a paz de sua casa, acabei dormindo num hotel. Meu respeito pela calma e a honorabilidade de sua casa é muito grande, e às vezes me sinto como um “corpo estranho” nela.
— Não faça pouco, Sr. Haller.
— Eu só faço pouco de mim mesmo.
— Pois não devia fazê-lo. Não devia sentir-se em minha casa como um “corpo estranho”. Pode viver como melhor lhe convenha e fazer o que bem entenda. Já tive muitos inquilinos distintos, verdadeiras joias de amabilidade, mas nenhum era tão sossegado ou nos incomodou menos que o senhor. E agora, quer tomar uma chávena de chá? Não me opus. Na sala de jantar, entre formosos retratos de seus antepassados e os móveis de seus avós, tomei um chá excelente e conversamos um pouco; a amável senhora, sem que o perguntasse expressamente, ficou sabendo algumas coisas a respeito de minha vida e de meus pensamentos, e ouviu-me com esse misto de respeito e de indulgência maternal que as mulheres prudentes têm para com as complicações dos homens. Falou-me também de seu sobrinho e me mostrou num quarto contíguo o trabalho que este fizera durante as últimas férias: um aparelho de rádio. Ali o esforçado jovem passava seus momentos de ócio e montara aquela máquina, seduzido pela telegrafia sem fios, prostrado de joelhos diante do deus da técnica, cujo poder possibilitou o descobrimento, após milhares de anos, de um fato que todos os pensadores sempre souberam e do qual fizeram melhor uso do que neste recente e muito imperfeito estágio atual. Falamos a propósito disso, pois a senhora era inclinada à devoção e os temas religiosos não lhe eram desagradáveis. Disse-lhe que a onipresença de todas as forças e ações eram bem conhecidas pelos antigos hindus, e a técnica havia simplesmente trazido um pouco desse fato à consciência comum, e por esse meio, no que se refere às ondas sonoras, havia construído um emissor e um receptor que ainda estavam totalmente imperfeitos. A base daquela ideia antiga, a irrealidade do tempo, não fora ainda observada pela técnica, mas naturalmente viria a ser finalmente "descoberta" e cairia nas mãos dos laboriosos engenheiros. Seria descoberto, talvez muito em breve, pois não só as imagens e acontecimentos presentes e momentâneos poderiam chegar continuamente até nós, como a música de Paris ou de Berlim se faz agora audível em Frankfurt ou em Munique, mas também tudo o que já aconteceu fica registrado e pode tornar-se atual; e que um dia, com fios ou sem eles, com ou sem ruídos, chegaremos a ouvir a voz do rei Salomão ou a de Walter von der Vogelwide. E que tudo isto, como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais cerrada de distrações e ocupações inúteis. Mas disse todas essas coisas não no costumeiro tom de amargura e desdém contra os tempos atuais e a técnica, mas em tom de pilhéria e com ar de brincalhão; a senhora se ria e passamos assim uma hora juntos, a tomar chá e a nos divertirmos. Havia convidado a admirável jovem do Águia Negra para a noite de terça-feira, e não me foi fácil esperar que chegasse aquele dia; quando por fim chegou a terça-feira, tive perfeita noção da importância que tinham para mim as relações com aquela moça, uma simples desconhecida, e isso me encheu de espanto. Só pensava nela, e esperava tudo dela, estava disposto a sacrificar-lhe tudo e pôr tudo a seus pés, embora não estivesse em absoluto enamorado dela. Bastava imaginar que não compareceria ao encontro ou que dele se houvesse esquecido, para ver claramente o que ela representava para mim; o mundo me parecia então novamente vazio, os dias eram escuros e destituídos de encanto, voltava a envolver-me a cruel quietude e a morte, e não via outra saída daquele inferno silencioso senão a navalha de barbear. E a navalha de barbear não fora nada agradável para mim nestes dias, não havia perdido nada de seu antigo horror. Isto era exatamente o mais terrível: sentia uma profunda e opressiva angústia em cortar a garganta, temia a morte como uma força tão obstinada e selvagem, como se fosse o homem mais saudável do mundo e minha vida um verdadeiro paraíso. Conhecia meu estado com plena e brutal clareza e reconhecia que a tensão insuportável entre o não poder viver e o não poder morrer era o que me fazia dar tanta importância à desconhecida, à linda bailarina do Águia Negra. Era a única janela, a luminosa e diminuta abertura em minha sombria e angustiosa caverna. Era a salvação, o caminho para a liberdade. Haveria de ensinar-me a viver ou ensinar-me a morrer, haveria de tocar com sua mão firme e formosa meu coração transido, para que ele, em contato com a vida, de novo florescesse ou se tornasse em cinzas. De onde tirava ela essa força, de onde lhe vinha a magia, de que profundos abismos se elevava até ela essa profunda significação que tinha para mim? Não sabia e não me importava sabê-lo. Bastava-me saber de sua existência. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento me importara tanto; estava saciado deles, precisamente nisto consistia a ignomínia e o tormento mais agudos de que eu padecia: ver tão claramente meu próprio estado, ter perfeita consciência dele. Via a este infeliz, a este Lobo da Estepe diante de mim como uma mosca numa teia de aranha, e contemplava como seu destino forçava o desenlace, como pendia da teia enlaçado e indefeso, como a aranha se dispunha a devorá-lo, como aparecia também uma salvadora mão. Poderia dizer as coisas mais racionais e inteligentes sobre a concatenação e os motivos do meu padecimento, da enfermidade de minha alma, de meu enfeitiçamento e de minha neurose, pois a mecânica era evidente para mim. O que mais me fazia falta, aquilo por que suspirava tão desesperadamente, não era saber e compreender, mas vida, decisão, movimento e impulso. Embora durante aqueles dois dias de espera nunca duvidasse de que minha amiga cumpriria o prometido, às últimas horas estive muito excitado e inseguro; nunca na vida esperara com tamanha ansiedade a noite de nenhum dia. E embora a tensão e a impaciência se me tornassem quase insuportáveis, aquilo me causou um grande bem: era indizivelmente formoso e novo para mim, para o desiludido que há muito tempo nada mais esperava, que não se satisfazia com o que quer que fosse; era maravilhoso correr daqui para ali o dia todo, cheio de impaciência, de inquietude e veemente expectativa, imaginar antecipadamente o encontro, a conversação, os acontecimentos da noite, barbear se e vestir-se para o encontro (com muito apuro, camisa nova, gravata nova, cordões novos nos sapatos). Fosse quem fosse aquela moça inteligente e misteriosa, que tivesse chegado até mim por este ou aquele caminho, tudo me era indiferente; ali estava, e realizara-se o prodígio de eu voltar a sentir-me um ser humano e encontrar novamente interesse na vida! Só me importava que tudo prosseguisse, abandonar-me àquela atração, seguir aquela estrela! Momento inesquecível em que tornei a vê-la! Estava sentado junto a uma mesinha no antigo e confortável restaurante, a qual eu reservara pelo telefone, sem que houvesse necessidade; examinei o cardápio e coloquei no jarro duas formosas orquídeas que comprara para presentear minha amiga. Tive de esperá-la algum tempo, mas sempre na certeza de que viria, e não me angustiei. E chegou, e deteve-se junto ao vestiário e me cumprimentou somente com um olhar atento, um tanto inquisitivo, de seus claros olhos cor de cinza. Desconfiado, fiquei observando como o moço do vestuário se comportaria com ela. Não, graças a Deus, não houve qualquer intimidade entre eles, qualquer falta de respeito; mostrou-se impecavelmente correto. E, no entanto, se conheciam, pois ela o chamou por Emil.
Quando lhe dei as orquídeas, alegrou-se e sorriu.
— Muito obrigada pela sua atenção, Harry. Você queria me dar um presente, não é? E não sabia exatamente o que escolher. Não estava certo se eu ficaria satisfeita em receber o presente ou se me ofenderia, por isso escolheu orquídeas, que não passam de flores, mas são sempre muito apreciadas. Portanto, muito, muito grata. E aproveito para dizer-lhe que não quero que me traga presentes. Vivo à custa dos homens, mas não quero viver à sua custa. Mas, como você está diferente! Parece até outra pessoa! Outro dia estava como alguém que foi salvo da forca e agora já está quase um homem outra vez.
Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"
Estranheza do Mundo
Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
Ferreira Gullar
Júpiter
Nunca me esquecerei da sua imagem à beira do canal, contemplando a obra que ele – aquele criminoso, aquele monstro! – realizara. Só Deus sabe que, naquele momento, nenhum de nós era capaz de raciocinar. Ainda assim, lembro de saber muito bem o que se passava em seu pequeno cérebro vingativo e extraordinário.
Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.
Quando me retirei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Encontramos o que procurávamos próximo do vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o tráfego no canal diminuiu, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.
Ali, num morro perto do canal, ficava a casa que compráramos, a poucas milhas da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na suave superfície da água. Não estávamos completamente isolados, pois a algumas centenas de jardas de distância havia outra casa, bastante parecida com a nossa.
Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como mrs. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpática, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Mr. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.
Achei estranha a maneira como a jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.
Quando, alguns dias depois, passeávamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e apertou nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprimentar. E não era uma linda manhã? Também não achávamos que aquele era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?
Ele falava com tanto entusiasmo que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. E que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos encantados em ter um vizinho tão jovial.
Mas nosso entusiasmo não durou muito tempo. Na realidade, não havia a menor objeção a fazer a Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…
Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre estava ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imaginara como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.
Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que podia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com pessoa tão devotada.
Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que lhes fazia falta um filho. Ela me contou que mrs. Surgis desejava engravidar, e que aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já haviam perdido as esperanças.
Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditava ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar cria. Betty recusara um dos filhotes que a amiga quis lhe oferecer por achar que não poderíamos cuidar adequadamente dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para mrs. Surgis. Concordei, e na mesma noite perguntei o que achariam de ter um filhote de cachorro. Mrs. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não haviam pensado nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.
Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu o exato contrário daquilo que pensáramos.
Havíamos imaginado o cachorro como companheiro para a mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contava, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.
Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. À vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal informou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.
Havia uma única vantagem para nós: com Surgis concentrado no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que mrs. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrara um novo ídolo para adorar, o que foi um imenso alívio para ela.
Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi inevitável.
Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa precisava girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.
Preguiçoso, ficava deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abanar o rabo em resposta à saudação.
Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobriu uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto delas, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n’água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando conseguiam não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Elas acabaram indo lavar sua roupa em outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.
Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.
Então chegou o dia em que tudo mudaria.
Havia algum tempo tínhamos a impressão de que mrs. Surgis evitava qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.
– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolvi quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.
Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou a grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmara suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela temia um pouco a virulência da sua reação. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procurasse tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.
– Roger – eu lhe disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediria se tivesse direito a um desejo?
Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.
– Quer saber o que eu pediria? Por quê?
– Certamente deve ter algum sonho!
– Mas o que é isso?
– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.
– Ai de mim se eu soubesse o que quero… Tenho tudo de que necessito: minha mulher, minha casa, minha profissão e meu…
Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos daquele animal diabólico.
– Bem, e o que será que mrs. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.
– O que ela poderia querer?
– Talvez algo mais que um cachorro.
Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.
Rimos. Sua reação não nos surpreendeu.
Mas houve quem ficasse surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe devia. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse a seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.
Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem passou correndo por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.
Passou-se uma hora. A empregada lhe trouxe a tigela com a ração. Ele a desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.
Mas esperou em vão.
Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A mesma sensação amarga ele teria à noite, e na manhã e na noite seguintes – dia após dia.
O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreender. Ficou nervoso e irritadiço. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e desse o primeiro passo para aproximar-se dele.
Na terceira semana, começou a mancar. Em circunstâncias normais, Surgis teria chamado um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou naquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentou uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também desses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele recusou qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.
Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhinhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontrávamos, baixava a cabeça e passava direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.
Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques haviam sido inúteis. Algo mudara naquela casa que ele dominara. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter estava condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.
Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria cometido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saíra de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tinha cruzado o seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as piores profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.
Foi uma decisão acertada, pois o parto de mrs. Surgis estava por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordara. Assim, todos estávamos reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe de mrs. Surgis, minha mulher e eu.
E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele ficava atravancando o caminho de todos.
E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!
O que acontecia ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passava ali que ele não entendia, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causara sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.
No momento em que a porta se abrisse, aquele ser apareceria – e não haveria de lhe escapar.
Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.
Dentro de casa, nem imaginávamos nada daquilo. Betty e eu havíamos sido incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua excitação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico a seguiu, sorridente.
– Bem, mr. Surgis – disse –, venha e segure sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.
Trêmulo, o homem imenso estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.
O médico calçou as luvas para sair.
– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.
Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e eis que Júpiter estava no meio da sala.
Encarou Surgis. Seus pequenos olhinhos cor-de-rosa estavam fixados na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.
Atacou, latindo furioso.
E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentou instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava a seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.
Enquanto isso, Surgis recuperara o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caía nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos as suas patas e o arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou a sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.
E o que devia acontecer com Júpiter?
– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso Surgis teria que ser submetido a um tratamento especial.
Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.
Mais tarde soubemos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da absoluta normalidade. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por um acaso, o médico soube que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.
Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobria novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele de manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua idolatria era total.
Todos esquecemos de Júpiter – ele não passava de um pesadelo –, até, certa noite, eu ser lembrado dele por um acaso.
Por algum motivo, eu não conseguia dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.
Assustei-me ao notar de repente uma sombra se mexendo sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.
Era Júpiter.
Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizavam antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Meu cotovelo bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão desapareceu no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.
Fechei a janela, trancando-a.
No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passava de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi a empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntei se ela vira Júpiter nos últimos tempos.
Ela respondeu que não quisera contar nada para mrs. Surgis para não deixá-la preocupada, mas que há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando estava passeando com o bebê, um carro passara por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouvira um latido nervoso. Olhando para cima viu um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.
Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e reconhecera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquecera nada. Eu o vira casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?
– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.
Mas me fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?
Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu o odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.
O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impedissem a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu demasiado absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.
– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou o seu dono? E pensava também no comerciante de artigos de ferro:
– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganhei de presente e quero ficar com ele.
Assim, nada fiz. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.
Era uma belíssima tarde e nós tínhamos ido visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.
Depois de algum tempo, mrs. Surgis nos chamou para a casa, que ficava uns cem pés acima do terraço interior:
– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!
Nós subimos e Surgis nos seguiu alguns instantes depois. Já estávamos sentados à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.
– A bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.
Jamais nos acorda à noite, nunca chora…
– Ela está no sol? – perguntou mrs. Surgis.
– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.
– Você a deixou no terraço? – perguntei, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.
– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…
Tive um pressentimento ruim. Ele percebeu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor incomensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.
– Oh, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse mrs. Surgis. – Você realmente é mais preocupado do que uma avó!
Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentasse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se sentou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então escutamos o seu grito terrível e desesperado.
Ele não gritou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais escutei – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.
– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – berrei.
Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.
O carrinho de bebê não estava mais no terraço.
Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.
E Júpiter estava ali.
Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia- se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d’água, empurrando- os com seus poderosos músculos.
Ali estava ele, assistindo como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.
O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo n’água.
Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deitou o bebê na margem. E Surgis já chegara. Ele abraçou a criança e a apertou contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.
Surgis se ajoelhou. Os músculos de seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:
– Júpiter.
A mão estava estendida para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.
– Vem, meu velho!
Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.
Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.
Quando me retirei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Encontramos o que procurávamos próximo do vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o tráfego no canal diminuiu, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.
Ali, num morro perto do canal, ficava a casa que compráramos, a poucas milhas da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na suave superfície da água. Não estávamos completamente isolados, pois a algumas centenas de jardas de distância havia outra casa, bastante parecida com a nossa.
Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como mrs. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpática, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Mr. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.
Achei estranha a maneira como a jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.
Quando, alguns dias depois, passeávamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e apertou nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprimentar. E não era uma linda manhã? Também não achávamos que aquele era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?
Ele falava com tanto entusiasmo que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. E que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos encantados em ter um vizinho tão jovial.
Mas nosso entusiasmo não durou muito tempo. Na realidade, não havia a menor objeção a fazer a Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…
Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre estava ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imaginara como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.
Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que podia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com pessoa tão devotada.
Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que lhes fazia falta um filho. Ela me contou que mrs. Surgis desejava engravidar, e que aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já haviam perdido as esperanças.
Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditava ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar cria. Betty recusara um dos filhotes que a amiga quis lhe oferecer por achar que não poderíamos cuidar adequadamente dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para mrs. Surgis. Concordei, e na mesma noite perguntei o que achariam de ter um filhote de cachorro. Mrs. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não haviam pensado nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.
Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu o exato contrário daquilo que pensáramos.
Havíamos imaginado o cachorro como companheiro para a mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contava, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.
Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. À vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal informou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.
Havia uma única vantagem para nós: com Surgis concentrado no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que mrs. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrara um novo ídolo para adorar, o que foi um imenso alívio para ela.
Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi inevitável.
Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa precisava girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.
Preguiçoso, ficava deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abanar o rabo em resposta à saudação.
Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobriu uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto delas, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n’água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando conseguiam não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Elas acabaram indo lavar sua roupa em outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.
Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.
Então chegou o dia em que tudo mudaria.
Havia algum tempo tínhamos a impressão de que mrs. Surgis evitava qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.
– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolvi quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.
Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou a grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmara suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela temia um pouco a virulência da sua reação. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procurasse tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.
– Roger – eu lhe disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediria se tivesse direito a um desejo?
Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.
– Quer saber o que eu pediria? Por quê?
– Certamente deve ter algum sonho!
– Mas o que é isso?
– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.
– Ai de mim se eu soubesse o que quero… Tenho tudo de que necessito: minha mulher, minha casa, minha profissão e meu…
Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos daquele animal diabólico.
– Bem, e o que será que mrs. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.
– O que ela poderia querer?
– Talvez algo mais que um cachorro.
Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.
Rimos. Sua reação não nos surpreendeu.
Mas houve quem ficasse surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe devia. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse a seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.
Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem passou correndo por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.
Passou-se uma hora. A empregada lhe trouxe a tigela com a ração. Ele a desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.
Mas esperou em vão.
Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A mesma sensação amarga ele teria à noite, e na manhã e na noite seguintes – dia após dia.
O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreender. Ficou nervoso e irritadiço. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e desse o primeiro passo para aproximar-se dele.
Na terceira semana, começou a mancar. Em circunstâncias normais, Surgis teria chamado um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou naquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentou uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também desses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele recusou qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.
Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhinhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontrávamos, baixava a cabeça e passava direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.
Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques haviam sido inúteis. Algo mudara naquela casa que ele dominara. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter estava condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.
Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria cometido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saíra de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tinha cruzado o seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as piores profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.
Foi uma decisão acertada, pois o parto de mrs. Surgis estava por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordara. Assim, todos estávamos reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe de mrs. Surgis, minha mulher e eu.
E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele ficava atravancando o caminho de todos.
E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!
O que acontecia ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passava ali que ele não entendia, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causara sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.
No momento em que a porta se abrisse, aquele ser apareceria – e não haveria de lhe escapar.
Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.
Dentro de casa, nem imaginávamos nada daquilo. Betty e eu havíamos sido incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua excitação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico a seguiu, sorridente.
– Bem, mr. Surgis – disse –, venha e segure sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.
Trêmulo, o homem imenso estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.
O médico calçou as luvas para sair.
– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.
Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e eis que Júpiter estava no meio da sala.
Encarou Surgis. Seus pequenos olhinhos cor-de-rosa estavam fixados na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.
Atacou, latindo furioso.
E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentou instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava a seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.
Enquanto isso, Surgis recuperara o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caía nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos as suas patas e o arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou a sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.
E o que devia acontecer com Júpiter?
– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso Surgis teria que ser submetido a um tratamento especial.
Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.
Mais tarde soubemos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da absoluta normalidade. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por um acaso, o médico soube que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.
Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobria novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele de manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua idolatria era total.
Todos esquecemos de Júpiter – ele não passava de um pesadelo –, até, certa noite, eu ser lembrado dele por um acaso.
Por algum motivo, eu não conseguia dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.
Assustei-me ao notar de repente uma sombra se mexendo sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.
Era Júpiter.
Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizavam antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Meu cotovelo bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão desapareceu no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.
Fechei a janela, trancando-a.
No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passava de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi a empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntei se ela vira Júpiter nos últimos tempos.
Ela respondeu que não quisera contar nada para mrs. Surgis para não deixá-la preocupada, mas que há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando estava passeando com o bebê, um carro passara por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouvira um latido nervoso. Olhando para cima viu um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.
Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e reconhecera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquecera nada. Eu o vira casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?
– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.
Mas me fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?
Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu o odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.
O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impedissem a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu demasiado absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.
– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou o seu dono? E pensava também no comerciante de artigos de ferro:
– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganhei de presente e quero ficar com ele.
Assim, nada fiz. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.
Era uma belíssima tarde e nós tínhamos ido visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.
Depois de algum tempo, mrs. Surgis nos chamou para a casa, que ficava uns cem pés acima do terraço interior:
– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!
Nós subimos e Surgis nos seguiu alguns instantes depois. Já estávamos sentados à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.
– A bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.
Jamais nos acorda à noite, nunca chora…
– Ela está no sol? – perguntou mrs. Surgis.
– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.
– Você a deixou no terraço? – perguntei, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.
– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…
Tive um pressentimento ruim. Ele percebeu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor incomensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.
– Oh, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse mrs. Surgis. – Você realmente é mais preocupado do que uma avó!
Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentasse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se sentou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então escutamos o seu grito terrível e desesperado.
Ele não gritou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais escutei – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.
– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – berrei.
Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.
O carrinho de bebê não estava mais no terraço.
Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.
E Júpiter estava ali.
Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia- se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d’água, empurrando- os com seus poderosos músculos.
Ali estava ele, assistindo como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.
O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo n’água.
Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deitou o bebê na margem. E Surgis já chegara. Ele abraçou a criança e a apertou contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.
Surgis se ajoelhou. Os músculos de seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:
– Júpiter.
A mão estava estendida para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.
– Vem, meu velho!
Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.
Stefan Zweig
Adão e Eva
Relendo velhos textos, observo que a todo instante me preocupa uma única situação. A solidão do homem, a solidão da mulher. Não a solidão dos homens, do gênero humano: do homem com relação à mulher e vice-versa. Suspeito que o momento supremo da nossa aventura ocorreu quando o Senhor Deus exorbitou de suas funções, por assim dizer. Ele já havia feito tudo e só lhe restava descansar, pois era domingo, e, sábado, toda a Criação tinha passado a noite no Jirau, inclusive Ele. Mas parece que o Homem, Adão, achava aquela festa muito aborrecida, pois não dançou com ninguém, bebeu demais e é possível até que tenha dado um vexame. Suponho que no meio da noite ele tenha decidido apanhar de qualquer maneira a fêmea do Canguru, aliás exímia dançarina de twist, e senhora um tanto leviana, pois mal emergira da argila e já se punha a flertar com o Rei da Criação. Mas não fica bem, a um cavalheiro, estar a julgar a conduta da mulher alheia: esqueçamos isso e voltemos a Adão, ébrio e cafardento, lançado num Paraíso em que todos os bichos estavam acompanhados, menos ele. Todo o mundo reparou que ele não estava feliz. As senhoras, no toalete, não fizeram outro comentário — todas elas dispostas a fazer qualquer coisa para consolá-lo, porque os machos tristonhos sempre gozaram de grande prestígio junta às fêmeas de toda a escala zoológica, e o Senhor Deus, psicólogo de rara penetração, adivinhou que o Paraíso estava resvalando para o perigoso terreno da galhofa — como diria, muitos milhões de anos depois, um cronista particularmente femeeiro… Não apenas estávamos à beira do adultério, como diante de algo muito mais grave — uma degradação. Imaginem se Adão, no auge do pileque, fazendo um papel muito mais feio do que Noé, inaugurasse o cruzamento de homem com, digamos, sapo, ou percevejo, ou jacaré, ou cobra d’água! Felizmente — ou graças a Deus: parece que ele, em sua infinita sabedoria, foi servindo mais e mais uísque à medida que Adão esvaziava o copo, de modo que o velho Adão foi apagando, apagando e — zás! emborcou.
…Foi quando extraímos uma costela, com a qual esculpimos uma forma nova, cheia de graça, com cabelos habilmente manipulados pelo Reinaud e tendo sobre o alvo ventre uma folha de parreira confeccionada por José Ronaldo… Assim nasceu Dona Eva, na intimidade Vivi sem sobrenome, porque não tinha pai nem mãe. E ela chamou Adão para irem ao Bob’s, digo, ao bosque, onde estava a afamada Árvore da Sabedoria. E a serpente disse a Eva: “Olha, Eva, a coisa mais bacaninha que há para fazer, hoje em dia é comer daquela maçã que você vê ali naquela árvore. É a coqueluche de Paris — todo mundo comendo maçã no New Jimmys, no Maxim’s, no Plaza Athenée Rellays, no Bois de Bologne!” Eva achou a idéia fabulosa e perguntou a Adão que tal lhe parecia. Adão no momento não tinha dinheiro no bolso (estava nu, coitado), mas a Serpente emprestou, Adão comprou a maçã e Eva disse: “Morde aqui”.Adão mordeu. Eva também.
Foi quando dos grandes Céus os exércitos de anjos desceram céleres sobre o Paraíso, e suas vozes faziam um clamor de tempestade, e eles clamavam: “Nós também queremos! Nós também queremos!”.
Mas só Adão e Eva tiveram permissão. Na verdade, Eva é que acabou sendo a dona do negócio, tanto que certa ocasião, depois de folhear a revista Playboy, Adão lhe aplicou um beijo no cangote e disse: “Vamos comer maçã? Que dia lindo para comer maçã!” E Eva, bocejante, sob os cabelos enrolados em bob: “Hoje não, Adão. Hoje estou com muita dor de cabeça”.
…Foi quando extraímos uma costela, com a qual esculpimos uma forma nova, cheia de graça, com cabelos habilmente manipulados pelo Reinaud e tendo sobre o alvo ventre uma folha de parreira confeccionada por José Ronaldo… Assim nasceu Dona Eva, na intimidade Vivi sem sobrenome, porque não tinha pai nem mãe. E ela chamou Adão para irem ao Bob’s, digo, ao bosque, onde estava a afamada Árvore da Sabedoria. E a serpente disse a Eva: “Olha, Eva, a coisa mais bacaninha que há para fazer, hoje em dia é comer daquela maçã que você vê ali naquela árvore. É a coqueluche de Paris — todo mundo comendo maçã no New Jimmys, no Maxim’s, no Plaza Athenée Rellays, no Bois de Bologne!” Eva achou a idéia fabulosa e perguntou a Adão que tal lhe parecia. Adão no momento não tinha dinheiro no bolso (estava nu, coitado), mas a Serpente emprestou, Adão comprou a maçã e Eva disse: “Morde aqui”.Adão mordeu. Eva também.
Foi quando dos grandes Céus os exércitos de anjos desceram céleres sobre o Paraíso, e suas vozes faziam um clamor de tempestade, e eles clamavam: “Nós também queremos! Nós também queremos!”.
Mas só Adão e Eva tiveram permissão. Na verdade, Eva é que acabou sendo a dona do negócio, tanto que certa ocasião, depois de folhear a revista Playboy, Adão lhe aplicou um beijo no cangote e disse: “Vamos comer maçã? Que dia lindo para comer maçã!” E Eva, bocejante, sob os cabelos enrolados em bob: “Hoje não, Adão. Hoje estou com muita dor de cabeça”.
José Carlos Oliveira
domingo, junho 14
Com outros olhos
Da ampla janela, aberta sobre o jardinzinho pênsil da casa, via-se, como que pousado no azul vivo da fresca manhã, um ramo de amendoeira florida, e ouvia-se, misturado ao quieto e rouco gotejar do chafariz no meio do jardim, o bimbalhar festivo das igrejas distantes e a garrulice das andorinhas ébrias de ar e de sol.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celerissimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pêlos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Ao retirar-se da janela, suspirando, Ana percebeu que o marido, naquela manhã, esquecera-se de decompor a cama, como fazia sempre, para que os criados não notassem que ele não dormira em seu quarto. Pousou então os cotovelos na cama intacta, depois ali se apoiou com o busto todo, dobrando a bela cabeça loura sobre os travesseiros e semicerrando os olhos, como que para saborear, no frescor do linho, os sonos que ali costumava dormir. Um bando de andorinhas tresmalhadas veio rumorejar diante da janela.
— Teria sido melhor que houvesse deitado aqui — murmurou entre si; e levantou-se cansada.
O marido ia partir naquela mesma noite, e ela entrara no quarto dele a fim de preparar-lhe o necessário para a viagem.
Ao abrir o guarda-roupa, ouviu como que um chiado na gaveta interna e logo se afastou, assustada. Apanhou de um canto do quarto uma bengala de cabo recurvo e, mantendo junto às pernas o vestido, pegou a bengala pela ponta e experimentou abrir com ela, assim afastada, a gaveta. Mas, ao puxar, ao invés da gaveta veio para fora, agilmente, da bengala, uma luzidia e perigosa lâmina. Isso ela não esperava; ficou assustada e deixou cair das mãos a bainha do estoque.
Naquele momento, um outro chiado fê-la voltar-se de repente, na dúvida de que também o primeiro tivesse partido de alguma andorinha batendo nas vidraças.
Afastou com o pé a arma desembainhada e puxou para fora, entre as duas portinholas abertas, a gaveta repleta de roupas velhas, ali guardadas pelo marido. Por improvisa curiosidade, passou então a revistá-la e, ao mexer num paletó velho e desbotado, ocorreu-lhe esbarrar nas orlas, sob o forro, como num pedaço de papelão, deslizado para ali do bolso furado; quis ver o que seria aquela carta caída ali, quem sabe há quantos anos, e esquecida; e assim, por acaso, Ana descobriu o retrato da primeira mulher de seu marido.
Empalidecendo, com a vista turva e o coração em suspenso, correu à janela, e ali permaneceu longo tempo, atônita, a contemplar a imagem desconhecida, como que presa de uma sensação de espanto.
O volumoso arranjo do penteado e o vestido de estilo antigo não lhe fizeram notar a princípio a beleza daquele rosto; mas, apenas pôde apanhar-lhe os traços, abstraindo-os dos enfeites, que agora, tantos anos depois, pareciam grotescos, e fixar-lhe especialmente os olhos, sentiu-se quase ofendida, e um ímpeto de ódio lhe saltou do coração ao cérebro: ódio de ciúme póstumo; ódio misto a desprezo, que experimentara por aquela que se enamorara do homem que agora era seu marido, depois de onze anos da tragédia conjugal que destruíra de chofre o primeiro lar dele.
Ana odiara aquela mulher, não sabendo compreender como pudera trair o homem que ela agora adorava e, em segundo lugar, porque seus parentes se haviam oposto ao seu casamento com Brívio, como se este houvesse sido responsável pela infâmia e pela morte violenta da mulher infiel.
Era ela, sim, era, sem dúvida! a primeira mulher de Vittore: aquela que se suicidara!
Teve disso a confirmação pela dedicatória escrita no verso do retrato: Ao meu Vittore, a sua Almira — 11 de novembro de 1873.
Ana tivera notícias muitos vagas a respeito da morta: sabia apenas que o marido, descoberta a traição, obrigara-a, com a impassibilidade de um juiz, a suicidar-se.
Agora, ela evocou com prazer esta condenação do marido, irritada por aquele “meu” e por aquele “sua” da dedicatória, como se a outra houvesse desejado ostentar, assim, estreitamente, o liame que reciprocamente unira ela e Vittore, unicamente para fazer-lhe desaforo.
Ante aquele primeiro relâmpago de ódio, faiscado pela rivalidade para ela agora existente, seguiu-se na alma de Ana a curiosidade feminina de examinar os traços daquele rosto, mas quase contida pela estranha consternação que se experimenta perante um objeto que pertenceu a alguém tragicamente desaparecido; consternação agora mais viva, mas a ela não desconhecida, porque nisso se concentrara todo o seu amor pelo marido, que já pertencera àquela outra mulher.
Ao examinar-lhe o rosto, Ana percebeu logo quanto se diferenciava do seu; e surgiu-lhe ao mesmo tempo do coração a pergunta: como pudera o marido amar aquela mulher, aquela mocinha, certamente mais bonita para ele, e pudesse depois enamorar-se dela, tão diferente?
Parecia-lhe belo, muito mais belo que o seu também, aquele rosto que, pelo retrato, devia ser moreno. Ei-lo: e aqueles lábios se haviam unido, no beijo, aos dele; mas, por que então, nos cantos da boca, aquela prega dolorosa? E porque tão triste o olhar daqueles olhos profundos? O rosto inteiro transpirava uma intensa mágoa; e Ana sentiu quase raiva da bondade humilde e real que aqueles traços exprimiam, e daí um gesto de repulsa e aversão, parecendo-lhe de súbito descobrir no olhar daqueles olhos a mesma expressão dos seus, quando, ao pensar no marido, se olhava ao espelho, pela manhã, depois de se haver arrumado.
Teve o tempo ainda de pôr no bolso o retrato: o marido apareceu, bufando, à entrada do quarto.
— Que fez você? Como sempre? Arrumou? Oh, pobre de mim! Agora não encontro mais nada!
Ao ver o estoque desembainhado no chão:
— Ah! Você brincou também de esgrima, com as roupas do armário?
E riu com aquele seu riso, que partia somente da garganta, como se alguém lha houvesse beliscado; e, ao rir assim, olhou para a mulher, talvez para perguntar-lhe o porquê de seu próprio riso. E, olhando, batia as pálpebras sem cessar, celerissimamente, sobre os olhinhos agudos, negros, irrequietos.
Vittore Brívio tratava a mulher como a uma menina incapaz de outra coisa a não ser daquele amor ingênuo e quase pueril de que se sentia circundado, às vezes com tédio, e ao qual se propusera prestar atenção somente de vez em quando, mostrando, também então, uma condescendência quase embebida de leve ironia, parecendo dizer-lhe: “Pois bem, que seja! durante algum tempo, serei criança também com você: é preciso mesmo fazer isto, mas não percamos demasiado tempo!”
Ana deixara cair a seus pés o velho paletó, onde encontrara o retrato. Ele ergueu-o, metendo-lhe a ponta do estoque, depois chamou da janela o criado, que se achava no jardim e que servia também de cocheiro e que, no momento, estava atrelando o cavalo ao trole. Assim que o rapaz se apresentou, em mangas de camisa, diante da janela, Brívio atirou-lhe à cara, grosseiramente, o paletó espetado, acompanhando a esmola com um: “Tome, isto é para você!”
— Assim você terá menos para escovar — acrescentou, dirigindo-se à mulher — e também para arrumar, esperemos!
E novamente emitiu aquele seu riso forçado, batendo mais e mais as pálpebras.
Outras vezes, o marido afastara-se da cidade e não por poucos dias apenas, partindo mesmo à noite, como desta vez; mas Ana, ainda sob a impressão da descoberta daquele retrato, experimentou um medo estranho, e disse-o, chorando, ao marido.
Vittore Brívio, apressado, receando sair tarde, e todo absorto no pensamento de seus negócios, recebeu com mau humor aquele pranto insólito da mulher.
— Como! Por quê? Vamos, vamos, criancices!
E saiu a toda pressa, sem sequer despedir-se.
Ana estremeceu ao ruído da porta que se lhe fechou empós, com ímpeto; ficou ali com o lampião na mão, na saleta, e sentiu as lágrimas se lhe regelarem nos olhos. Depois reagiu e voltou rápida para seu quarto, a fim de deitar-se logo.
No aposento já arrumado, ardia a lamparina da noite.
— Vá, pode ir dormir — disse Ana à camareira, que a esperava. — Eu mesma me arranjo. Boa noite.
Apagou a luz, mas, ao invés de pousá-la na mísula, como sempre fazia, sobre o criado-mudo, pressentindo — mesmo contra sua própria vontade — que talvez dela necessitaria mais tarde. Começou a despir-se à pressa, conservando os olhos fixos no chão, diante de si. Quando o vestido lhe caiu aos pés, pensou que o retrato estava lá e, com viva raiva, se sentiu olhada e compadecida por aqueles olhos dolentes, que tanta impressão lhe haviam causado. Curvou-se resolutamente, para apanhar do tapete o vestido, e pousou-o, sem dobrar, sobre a poltrona aos pés da cama, como se o bolso que guardava o retrato e o envoltório do pano devessem e pudessem impedir-lhe de reconstruir a imagem daquela morta.
Mal se deitara, fechou os olhos e se propôs a seguir, com o pensamento, o marido pela estrada que levava à estação ferroviária. Impôs-se isso por uma irada revolta ao sentimento que, durante aquele dia todo, a conservara vigilante, a observar, a estudar o marido. Sabia de onde proviera tal sentimento e queria expulsá-lo de si.
No esforço da vontade, que lhe provocava viva super-excitação nervosa, imaginou ter diante dos olhos, com extraordinária evidência, a comprida rua, deserta na noite, iluminada pêlos lampiões que reverberam sua luz trémula na calçada, que parecia palpitar; e aos pés de cada lampião, um círculo de sombra; as lojas, todas fechadas; e eis a carruagem que conduzia Vittore. Como se a houvesse esperado à passagem, passou a segui-la até à estação; viu o trem lúgubre, sob o telhado de vidro; uma grande confusão de pessoas naquele interior vasto, enfumaçado, mal iluminado, sombriamente sonoro: eis que o trem partia; e, como se realmente o visse afastar-se e desaparecer nas trevas, voltou logo a si, abriu os olhos no quarto silencioso e experimentou uma angustiosa sensação de vácuo, como se algo lhe faltasse dentro.
Sentiu, então, confusamente, desnorteando-se, que, desde três anos, talvez desde o momento em que partira da casa paterna, ela estava mergulhada naquele vácuo, de que só agora começava a ter conhecimento. Não notara antes, porque o havia preenchido somente consigo, com seu amor, aquele vazio; percebia-o agora, porque, durante aquele dia todo, conservara quase suspenso seu amor, para ver, para observar, para julgar.
“Nem sequer se despediu de mim!” pensou; e pôs-se a chorar de novo, como se este pensamento fosse determinadamente a causa do pranto.
Sentou-se na cama: mas logo deteve a mão estendida, ao levantar-se, para apanhar o lenço do vestido. Ora, seria mesmo inútil proibir-se de rever aquele retrato, de observá-lo! Apanhou-o. Reacendeu a luz.
Como imaginara diversamente, aquela mulher! Contemplando-lhe agora a verdadeira efígie, sentia remorsos pelos sentimentos que a imaginação lhe sugerira. Pensara sempre nela como uma mulher gorda e corada, com os olhos relampejantes e risonhos, inclinada ao riso, a distrações vulgares. E, ao contrário, ei-la: uma jovem, e dos seus puros traços emanava uma alma profunda e atormentada; diferente dela, sim, mas não no sentido inconveniente de antes: ao contrário, até parecia que aquela boca não houvesse nunca sorrido, ao passo que a sua tantas vezes rira alegremente; e, certamente, se moreno aquele rosto (como pelo retrato parecia) era de um ar menos risonho que o seu, louro e róseo.
Por que, por que tão triste?
Um pensamento odioso atravessou-lhe a mente, e logo desprendeu os olhos da imagem daquela mulher, descobrindo-lhe de improviso um perigo não só à sua paz, ao seu amor, que também naquele dia recebera mais de uma ferida, mas também à sua orgulhosa dignidade de mulher honesta, que jamais se permitira nem mesmo o mínimo pensamento contra o marido. Aquela tivera um amante! E por causa deste, ela talvez estivesse tão triste, por causa daquele amor adúltero, e não pelo marido!
Atirou o retrato sobre o criado-mudo e apagou de novo a luz, esperando adormecer, desta vez, sem mais pensar naquela mulher, com a qual nada podia ter em comum. Mas, fechando as pálpebras, reviu logo, malgrado seu, os olhos da morta, e em vão procurou expulsar aquela visão.
— Não por ele, não por ele! — murmurou, com aflitiva obstinação, como se, injuriando-a, contasse libertar-se dela.
E esforçou-se por trazer de novo à memória quanto sabia sobre o outro, o amante, quase que obrigando o olhar e a tristeza daqueles olhos a se dirigirem não mais a ela mas sim ao antigo amante, do qual conhecia apenas o nome: Artur Valli. Sabia que ele se casara, alguns anos depois, quase para provar que era inocente do crime que lhe queria atribuir Brívio, do qual sempre repelira energicamente o desafio, protestando que jamais se bateria em duelo com um louco assassino. Depois desta recusa, Vittore tinha ameaçado matá-lo onde o encontrasse, até mesmo na igreja; e então ele saíra dali, com a mulher, voltando mais tarde àquela cidade, assim que soubera que Vittore, de novo casado, partira.
Mas da tristeza desses acontecimentos por ela relembrados, pela covardia de Valli e, depois de tantos anos, pelo esquecimento do marido o qual, como se nada fosse, conseguira reabilitar-se na vida e tornar a casar, pela alegria que ela própria sentira ao se tornar sua mulher, por aqueles três anos transcorridos sem jamais se lembrar da outra, inesperadamente, um motivo de compaixão por ela se impôs a Ana espontâneo: reviu-lhe viva a imagem, mas como se estivesse longe, longe, e pareceu-lhe que, com aqueles olhos, de tanta mágoa inundados, ela lhe dissesse, abanando levemente a cabeça:
— Somente eu, porém, morri! Vocês todos vivem!
Viu-se, sentiu-se sozinha em casa; teve medo. Vivia, sim, ela; mas fazia três anos, desde o dia de seu casamento, não mais vira, nem uma só vez, seus pais, sua irmã. Ela, que os adorava, e que sempre tinha sido para com eles dócil e confiante, pudera rebelar-se à sua vontade, aos seus conselhos, por amor àquele homem; por amor àquele homem adoecera mortalmente e teria morrido, se os médicos não houvessem induzido seus pais a condescender no casamento. O pai cedera, não consentindo, porém, e até jurando que ela para ele, para sua casa, depois daquele casamento, deixaria de existir. Além da diferença de idade, dos dezoito anos que o marido tinha mais que ela, obstáculo mais grave para o pai tinha sido a posição financeira do marido, sujeita a rápidas mudanças devido a negócios arriscados a que costumava atirar-se, com temerária confiança em si mesmo e na sorte.
Em três anos de casamento, Ana, rodeada de conforto, pudera considerar injustas ou ditadas por contrárias prevenções as considerações da prudência paterna, quanto à fortuna do marido, na qual, de resto, ela, ignara, depositava a mesma confiança que ele em si próprio; quanto então à diferença de idade, até agora nenhum manifesto argumento de desilusão para ela ou de admiração para os outros, porque, dos anos, Brívio não sentia o mínimo prejuízo nem no corpo vivacíssimo e nervoso, nem muito menos no ânimo, dotado de infatigável energia, de irrequieta alacridade.
De bem outra coisa, agora, pela primeira vez, olhando (sem sequer desconfiar) para sua vida com os olhos da morta, encontrava motivo para queixar-se do marido. Sim, era verdade: da indiferença quase altiva dele ela se sentira ferir já outras vezes: porém, nunca como naquele dia; e agora, pela primeira vez, se sentia tão angustiosamente só, separada dos parentes, os quais, lhe parecia naquele momento, a houvessem abandonado ali, quase que, ao casar com Brívio, tivesse já algo em comum com aquela morta e não fosse mais digna de outra companhia. E o marido, que deveria consolá-la, o próprio marido parecia não dar-lhe mérito algum quanto ao sacrifício que ela fizera de seu amor filial e fraternal, como se a ela nada tivesse custado, como se àquele sacrifício ele tivesse direito, e por isso agora nenhum dever tinha para consolá-la ou compensá-la. Direito, sim, mas porque ela se enamorara tão perdidamente por ele, àquele tempo; então ele tinha agora o dever de compensá-la. E ao invés…
— Sempre assim! — pareceu a Ana que os lábios da morta suspirassem.
Reacendeu a luz e de novo, contemplando a imagem, foi atraída pela expressão daqueles olhos. Também ela, então, deveras, sofrera por ele? Também ela, também ela, ao perceber que não era amada, experimentara aquele angustioso vazio?
— Sim? sim? — perguntou Ana, sufocada pelo pranto, à imagem.
E pareceu-lhe, então, que aqueles olhos bondosos, repletos de paixão, se compadecessem dela por sua vez, tivessem pena dela por aquele abandono, pelo sacrifício não recompensado, pelo amor que lhe ficava preso no seio, qual tesouro no escrínio, do qual ele possuísse as chaves, mas nunca dele se servira, tal como o avarento.
Luigi Pirandello
A menina ensolarada
Era ainda uma menina quando descobriu que por ela é que brilhava o sol todos os dias. Desde aí, para não privá-lo de sua razão de ser e premiá-lo por sua assiduidade, jamais saiu à rua uma manhã sequer sem piscar para ele o olhar esplendidamente verde e cúmplice.
Não tenho brilho nem pompa, tudo que é meu é banal. Nada há meu que não se rompa, nada perene, imortal.
O homem não tinha dado dez passos na primeira calçada da manhã, e o sol frio, e os olhares gelados, e os passarinhos emudecidos já lhe tinham comunicado que qualquer projeto de alegria estava excluído da minuciosa pauta do domingo.
Digam o que disserem, é a tristeza que mantém viva a poesia.
Render-se alguém ao amor não é batalha perdida. Não há prisão mais querida nem tão amável senhor.
Não cumpri jornadas, não segui trajetórias. Fui sempre antônimo de tudo, jamais fui mais do que nada. Aspirei a glórias, não atingi a glória. Minhas histórias todas não formam uma história.
Brasão de um produtor de leite: alea lacta est.
Descobrimos que no final os caminhos tortos e os caminhos retos nos levam todos ao rumo certo, e estamos perto, cada vez mais perto.
Dizem que fui escritor. Acredito. Devo ter feito ontem algo muito ruim para estar sendo castigado hoje assim.
O amor é capaz de tudo. Tudo pode, tudo faz. Transforma o loquaz em mudo, transforma o mudo em loquaz.
***
Não tenho brilho nem pompa, tudo que é meu é banal. Nada há meu que não se rompa, nada perene, imortal.
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O homem não tinha dado dez passos na primeira calçada da manhã, e o sol frio, e os olhares gelados, e os passarinhos emudecidos já lhe tinham comunicado que qualquer projeto de alegria estava excluído da minuciosa pauta do domingo.
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Digam o que disserem, é a tristeza que mantém viva a poesia.
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Render-se alguém ao amor não é batalha perdida. Não há prisão mais querida nem tão amável senhor.
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Não cumpri jornadas, não segui trajetórias. Fui sempre antônimo de tudo, jamais fui mais do que nada. Aspirei a glórias, não atingi a glória. Minhas histórias todas não formam uma história.
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Brasão de um produtor de leite: alea lacta est.
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Descobrimos que no final os caminhos tortos e os caminhos retos nos levam todos ao rumo certo, e estamos perto, cada vez mais perto.
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Dizem que fui escritor. Acredito. Devo ter feito ontem algo muito ruim para estar sendo castigado hoje assim.
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O amor é capaz de tudo. Tudo pode, tudo faz. Transforma o loquaz em mudo, transforma o mudo em loquaz.
Viagem
Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Helena Kolody











