quarta-feira, janeiro 20

Leitura cruzada

iosonorockmaballoiltango:

Lorenzo Mattotti
Lorenzo Mattotti

Os primeiros livros

Começando a ler 

fleurdulys:

The Library - Elizabeth Shippen Green
1905
O livro entrou muito tarde na minha vida. Comecei pelas histórias em quadrinhos, com as quais fui alfabetizado. Eu era louco por histórias em quadrinhos, e achava os livros muito chatos, porque não tinham figuras. Eu queria ver as figuras, não sabia ler. Lembro de um sujeito que foi à minha casa e levou uma edição do Tarzan, escrito pelo Edgar Rice Burroughs. Resolvi ler e descobri uma coisa fascinante: era muito melhor do que qualquer gibi do Tarzan, do que qualquer filme do Tarzan, porque a história se passava dentro da minha cabeça. Eu fiz a transição – abandonei os quadrinhos e passei para os livros, ali pelos dez anos. Foi a curiosidade que me levou a abrir um livro. Nunca tive um adulto dizendo para eu ler. Então li às cegas, durante muitos anos. Li errado, como se diz. Embora não exista isso de ler errado, o importante é ler. Mas eu li Nietzsche com 13 anos. Não entendi nada, achava curiosíssimo aquilo. Por que aquilo era importante? Li Machado de Assis muito cedo: achei uma droga. Dom Casmurro, durante muitos anos, considerei um engodo. Aí fui ler mais tarde, com uma experiência de vida maior, e, claro, encontrei um grande autor. Mas li de forma desordenada.


História oral

Eu fui muito pobre. Ainda sou, mas hoje pelo menos consigo pagar as contas. Nasci numa fazenda. Então essa história de que tem que ter livros em casa para o cara enveredar para a literatura não é verdade. Meu pai tem terceiro ano do antigo primário, minha mãe tem ginasial incompleto. Mas há vantagens e desvantagens nisso. A primeira televisão que entrou na minha casa foi quando eu tinha 14 anos. Então, eu sou uma raridade: vi cinema antes de ver TV. Isso é impossível hoje em dia, qualquer criança nasce vendo TV. Eu vi cinema primeiro, e fiquei encantado com aquilo. Toda a mitologia das histórias para mim está ligada à coisa oral, em que as pessoas se reuniam no final da noite e comentavam as histórias e os causos. Como eu era muito fã desse tipo de conversa, ficava perto dos adultos, então comecei a aprender técnicas narrativas inconscientemente. Meu pai, por exemplo, é um grande contador de histórias. Ele contava a mesma história meses seguidos. Só que cada vez que contava o causo, ele se modificava. Ele usava técnicas que aprendi ouvindo. Quando vou escrever, automaticamente penso no que pode e no que não pode ser revelado. Isso que você aprende depois nos grandes livros, sobre linguagem e tal.

Primeiros livros

Nunca vou esquecer: mentia minha idade para poder pegar livros proibidos. A biblioteca de Amparo (cidade a 140 quilômetros da capital São Paulo, onde nasceu o escritor), que na época tinha um acervo de uns 13 mil exemplares, era uma biblioteca bacana. Não sei como ela está hoje, mas para mim aquilo foi fundamental, porque eu não tinha dinheiro para comprar livros. E queria e precisava ler. Desesperadamente. Então, fui aquele rato de biblioteca. Houve momentos em que o bibliotecário me orientava, indicando autores e tal, mas na maior parte das vezes eu chegava lá e pensava: “isso aqui é um supermercado, posso ler tudo o que quiser”. Entrei pela primeira vez nessa biblioteca quando tinha onze anos. Outro dia eles me mandaram a minha ficha. Pude ver o que eu andava lendo naqueles anos. Pude ver que eu era um leitor onívoro, porque lia filosofia, poesia, prosa, policial, não tinha uma linha de leitura. Não era orientado para um só lado da literatura. Acho que isso me tornou um leitor sem preconceitos, um leitor que, para saber se um livro era bom ou não, tinha que ler. Houve um momento em que descobri Raymond Chandler, e aí li toda sua obra. Por sorte, tinha lá na biblioteca de Amparo. Descobri autores policiais e fiquei anos lendo romance policial. Lembro também quando li Moby Dick — eu estava na escola e torcia para a aula terminar logo. Quando todo mundo ia jogar bola, eu ia para casa terminar de ler Moby Dick. Estava encantado com aquilo. Então, há momentos e livros que foram muito marcantes na minha trajetória.

Biblioteca em casa

Chegou um momento na minha vida em que eu tinha quatro mil livros, o que não é muito. O problema é que, quando ia procurar um livro, dava tanto trabalho que eu preferia ir comprar outro. Porque eu não ia achar naquele manancial. Morei num apartamento em que a coisa ficou tão feia, que o Beto Brant foi lá e disse: “os livros vão acabar botando você para fora”. Eu tinha livros em tudo que era canto, adoro isso, livros na sala, na cozinha. Gosto da presença do livro. No meu quarto, hoje, tenho várias estantes. Essa conversa mole de e-book não pega em mim. Vou morrer antes, então não tem problema. Fiquei feliz tal como os livros existem hoje. Um formato invencível.
Leia mais Um Escritor na Biblioteca: Marçal Aquino

segunda-feira, janeiro 18

Leitura pública no metro

De volta ao futuro

Em artigo publicado esta semana na “Folha de S.Paulo”, o professor Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mário de Andrade, lamenta o fato de pedras, pichações e vandalismo voltarem a acertar a fachada da instituição. Já em 2013, também no rastro dos protestos estudantis contra o aumento de tarifas do transporte urbano, a mais importante e querida biblioteca pública de São Paulo fora danificada por black blocks ou jovens sem-noção.

Nem durante a chienlit do Maio de 1968 em Paris as manifestações visaram bibliotecas públicas. Durante o interminável movimento Occupy, que em 2011 se alastrou por 600 comunidades nos Estados Unidos, e nas incendiárias respostas da população negra americana aos abusos da polícia branca ao longo de 2014 e 2015 também não.

Ainda bem, pois hoje mais do que nunca elas talvez sejam os últimos espaços não comerciais nem religiosos, nem partidários ou excludentes que ainda podem ser frequentados sem receio por qualquer tipo de cidadão.


Um aviso para quem pensa que a geração Google e Wikipedia não tem tempo nem interesse em explorar tais espaços: pelo menos em países desenvolvidos, eles continuam a florescer, adaptados aos tempos modernos, é claro. O Pew Research Internet Project, com sede em Washington, há quatro anos estuda a mudança de papel das bibliotecas públicas na sociedade dos Estados Unidos. Segundo seu último relatório, 90% dos frequentadores mais assíduos de bibliotecas também acessam a internet diariamente, 95% deles possuem telefone celular, 46% usam tablets ou computador e 33% leem livros em e-readers.

Ou seja, mesmo tendo ao alcance da mão todo um universo de informação digital, eles não se furtam ao hábito do convívio físico com o local. Representam 30% da amostra, o que não é pouco, e foram classificados como “amantes de biblioteca” e “onívoros de informação” pelo instituto Pew.

Dois anos atrás, a centenária New York Public Library (NYPL), tão reverenciada pelos nativos quanto as catedrais europeias o são pelos seus fiéis, deu um presente de fim de ano aos 30,8 milhões de visitantes de seu website.

A equipe de bibliotecários da instituição havia descoberto uma caixa contendo um tesouro de fichas referentes a consultas recebidas entre as décadas de 1940 e 1980. Além da pergunta, cada ficha continha a data da consulta, quem a recebera, se fora feita por telefone ou pessoalmente.

À época, como hoje, o sistema consistia em tentar atender o cliente de imediato. Quando isso se revelava impossível ou quando a fonte consultada não parecia 100% confiável, a consulta permanecia em aberto para apuração posterior — uma delas por exemplo, recebida em 1940, só conseguiu ser respondida 30 anos mais tarde.

O fichário encontrado pertencia a essa categoria de consultas pendentes, e a NYPL começou a fazer postagens semanais do precioso conteúdo no Instagram, com a hashtag #letmelibrarianthatforyou. Sucesso instantâneo.

Alguns exemplos dessas inquietações de antanho deixadas em aberto:

Qual o ciclo de vida de um cílio?

Os Estados Unidos têm qual porcentagem de banheiras existentes no mundo?

Existe alguma estatística sobre longevidade de mulheres abandonadas? (consulta recebida entre 1h e 2h da madrugada de 15 de fevereiro de 1963)

Quantos grãos contém uma tonelada de trigo?

Qual a espessura de um selo americano, já com a cola adicionada? Resposta: “Não conseguiremos fornecer a informação exata rapidamente. Sugerimos recorrer ao Serviço Postal dos Estados Unidos”. Tréplica: “Aqui é o Serviço Postal dos Estados Unidos.”

NYPL outdoor reading room
No Verão, sala de leitura ao ar livre
Para deleite de quem quer dar uma espiadela nessa cápsula do tempo — uma era em que humanos confiavam em outros humanos — há de tudo um pouco. No lugar de aplicativos para questões profundas, comezinhas, incompreensíveis, utilitárias, de etiqueta, existenciais, bastava um bibliotecário do outro lado da mesa ou da linha telefônica.

Eles eram o Google antes do Google existir.

Segundo a bibliotecária Rosa Caballeri-Li, ainda hoje a equipe de atendentes do Departamento de Referência e Pesquisa da NYPL continua a receber uma média de 1.700 consultas por mês, seja através de chat, e-mail ou telefone, em inglês ou espanhol. “Num país tão informatizado como os Estados Unidos”, explicou à época do lançamento da hashtag no Instagram, “pode soar espantoso as pessoas procurarem refúgio na NYPL. Mas quando há respostas em demasia na internet e você não consegue distinguir o que é ficção de fato, você se sente mais seguro recorrendo a nossos serviços”.

Ou, como já disse o escritor britânico Neil Gaiman, “se o Google te dá cem mil respostas, o bom bibliotecário vai te dar uma, a resposta certa”.

Na NYPL, nenhum atendente considera consulta alguma estúpida. Procuram responder sem arrogância. “Tudo pode ser transformado em momento de aprendizado para quem não sabe”, diz Caballeri-Li. “Não estamos aqui para constranger quem quer aprender”.

É claro que nem todas as bibliotecas públicas são uma NYPL. Tampouco precisam ou poderiam ser. Mas é bom ficar de olho no que resta das nossas. Nestes tempos de blocos nas ruas brasileiras, elas precisam e devem ser protegidas dos black blocks — protegidas tanto pela polícia como pelos estudantes.

Defenda-se

Conselhos dos 'superleitores' para ler mais rápido


Agatha Christie lia 200 livros por ano, enquanto que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, termina um a cada duas semanas. O ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt lia um livro por dia e até dois ou três, se tinha uma noite mais tranquila. Mas como as pessoas em geral podem conseguir fazer isso?

Harriet Klausner, uma bibliotecária de escola americana que morreu no ano passado era ou uma das leitoras mais rápidas da história ou alguém que "economizava" bastante na hora de falar a verdade.

Ela fez surpreendentes 31.014 críticas de livros na Amazon, o que significava que chegou a ler seis livros por dia. Mas nem todos aceitam este número e um grupo de críticos chegou a tentar desacreditá-la.

Klausner se defendeu dizendo que alguns dos romances que lia eram tão curtos e fáceis que lhe tomavam apenas uma hora. E ofereceu outra explicação simples para sua rapidez de leitura: "Se um livro não me interessa até chegar na página 50, deixo de lê-lo", afirmou ao jornal americano Wall Street Journal.

Seus feitos podem ser fantásticos, mas a vontade de poder ler mais é comum a muitos de uma geração frequentemente distraída por séries de televisão, jogos de futebol e tópicos mais comentados no Twitter, que tem cada vez mais dificuldade de encaixar a leitura em suas vidas.
Um livro a cada 2,4 dias

John Sutherland, autor, crítico de livros colunista e professor emérito de Literatura Inglesa Moderna na universidade UCL, em Londres, diz que em 2015 leu aproximadamente 150 livros.

"É bastante", afirma. E o fato de que ele os lê em seu tablet permite passar as páginas em alta velocidade.

"Desse jeito não fico com o dedo dormente e também evito que o próximo leitor contraia uma doença", brinca.

A vida de um leitor profissional, no entanto, depende de sua capacidade de avançar pelas palavras o mais rápido possível, retendo o máximo de conhecimento que puder.

No ano passado, Sutherland terminou um livro aproximadamente a cada 2,4 dias. "Passo quatro páginas de vez se tiver que fazê-lo", afirma.
Dois mil em uma vida

Quando estava na escola, o britânico Tony Buzan fez um teste de velocidade de leitura, que detectou sua capacidade de ler 213 palavras por minuto. "Pensei que era um leitor muito rápido. Mas perguntei a uma garota da minha sala o resultado dela, e ela tinha conseguido 300. Me senti péssimo."

Decidido a melhorar suas habilidades, Buzan praticou leitura rápida em casa e pesquisou sobre a física do olho. Ele também aprendeu sobre focalização ocular e sobre o agrupamento de palavras para poder lê-las como um só fragmento.

Ele descobriu, por exemplo, que era possível ler mais rápido depois de fazer exercícios físicos. E em pouco tempo dobrou sua velocidade de leitura.

Hoje ele é consultor de leitura rápida e memorização, e acredita que o número de livros que lemos é, sim, importante.

"Em vez de ler, não sei, mil livros na minha vida, agora talvez leia dois mil. Isso pode mudar minha existência", afirma.

Eis os seus conselhos para ler mais livros:

*Aprenda a usar seus olhos para ler mais rapidamente;
*Fique em boa forma física, para que o seu cérebro tenha mais oxigênio;
*Aprenda a memorizar capítulos e até livros inteiros;
*Leia sobre o cérebro e seu funcionamento;
*Crie um grupo de leitura rápida e estudo com seus amigos.

Considerando a velocidade média com a qual alguém diz 300 palavras por minuto, um leitor leva cerca de um minuto para terminar uma página. Portanto, para ler um livro de 300 páginas por dia, o leitor médio deveria reservar 35 horas semanais.

"Há uma quantidade de livros limitada que eu consigo ler ao longo da minha vida, e não vou perder tempo com lixo", afirma o colunista do jornal britânico Sunday Times e crítico de livros Jenni Russell. Ele acredita que, com a idade, devemos nos tornar mais seletivos.

"Quando somos jovens sentimos uma curiosidade grande por outras pessoas, como elas pensam e o que sentem. Agora, um escritor precisa ter uma habilidade exemplar ou uma perspectiva interessante para chamar minha atenção."

Quando era criança, Russell lia até 20 livros por semana. Agora, lê três por mês.

E qual seria o melhor conselho de um dos superleitores para enfrentar um ano de leitura?

Durante período na prisão, Trotsky lia sobre mais variados assuntos, da manhã até a noite
"Meu conselho é entediar-se", afirma o professor John Sutherland. "Minha infância foi muito entediante, e ler foi uma boa maneira de passar por grandes períodos de tédio."

O revolucionário russo Leon Trostsky também se aproveitou do tédio para ler. Durante os dois anos que passou na prisão, lia da manhã até a noite. Desde a ficção clássica europeia, passando pelas pesquisas de Darwin até as teorias de Lênin sobre o comunismo.

A ex-professora de leitura da universidade de Dorchester, na Inglaterra, Ginny Williams-Ellis fundou a organização beneficente Read Easy para ajudar pessoas analfabetas.

"Os livros não são prioridade para as pessoas com quem trabalhamos. A motivação delas é aprender a ler listas de compras, etiquetas de latas, jornais, as palavras da vida diária", explica.

Mas o aprendizado frequentemente leva alunos a se tornarem aspirantes a superleitores.

"Muita gente se emociona quando aprende a ler. Trabalhamos com uma cabeleireira que agora lê um romance por noite."

Russell entende a fascinação. "Nas nossas vidas, só vemos a superfície das pessoas. A ficção nos leva a suas mentes, a seus pensamentos e motivações. Os romances nos levam a lugares que de outra forma nunca veríamos. A leitura pode ter um efeito surpreendente sobre nós."

A jornalista e "treinadora" literária Glynis Kozma aconselha os leitores a tirarem alguns minutos de cada um dos seus compromissos para ler.

"Em vez de pensar que o que você precisa é sentar-se e ler durante uma hora, tente utilizar pequenas quantidades de tempo", diz,

"Leia durante 20 minutos, enquanto espera o jantar ficar pronto no forno. Use cada 15 minutos livres que tiver."

Kozma tenta ler um livro por mês, mas nem sempre consegue. "Acho que muita gente se sente culpada com relação à leitura. Estamos todos tão ocupados que fica difícil justificar o uso do tempo livre", conclui.
Hannah Sander

domingo, janeiro 17

Hora de passear

No puedo parar de leer (ilustración de Simon Cooper)
 Simon Cooper

O leitor

Devorava, no começo rudemente, como numa orgia, sem foco definido, como um porco – para mim dava na mesma mordiscar pedaços de Faulkner ou de Flaubert -, embora logo tenha começado a notar sutis diferenças. Percebi, primeiro, que cada livro tinha um gosto diferente – doce, amargo, azedo, doce-amargo, rançoso, salgado, ácido. Notei também que cada sabor – e, com o passar do tempo a minha sensibilidade se tornando mais apurada, o sabor de cada página, de cada frase e, ao fim, de cada palavra – trazia consigo uma carga de imagens, representações mentais de coisas sobre as quais eu não sabia nada, devido à minha muito limitada experiência com o chamado mundo real: arranha-céus, portos, cavalos, canibais, uma árvore florida, uma cama desarrumada (…) 

Precocidade

Lector precoz (ilustración de Joost Warte)
Joost Warte

Prioridade para o livro

reading:
Reduzir o acesso gratuito da população aos livros é algo grave num mundo cada vez mais movido à base da informação e do conhecimento — e mais preocupante ainda num país como o Brasil, no qual a concentração de renda confere significado maior à democratização da leitura. Por essa razão, as políticas públicas relativas ao ensino e ao livro, que são congruentes e se complementam, precisam manter-se incluídas dentre as prioridades do Estado, mesmo em meio às crises econômicas como a que o país enfrenta hoje.

Assim, é temerário cortar recursos nesses segmentos, como ocorreu no caso do contingenciamento de aproximadamente R$ 10 bilhões no orçamento do Ministério da Educação, devido ao ajuste fiscal. As políticas públicas relativas ao livro também têm sofrido revezes em distintas instâncias governamentais. A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo cancelou, ano passado, chamada pública para a compra de obras de ficção e não-ficção do Programa Estadual de Livros — Leituras na Escola. À época, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), em comunicado público, lamentou o fato, salientando a importância da leitura para os estudantes de baixa renda.

Também ano passado, o Ministério da Educação atrasou os pagamentos relativos à compra de livros didáticos do ensino médio e do fundamental. Em consequência, há risco de que as editoras tenham sérias dificuldades para entregar parcela dos lotes relativos ao ano letivo de 2016. Segundo informações do mercado, a dívida do governo já atinge R$ 600 milhões.

Os problemas não param por aí. O corte de verbas do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e Plano Nacional de Alfabetização e Cidadania (Pnac) teve grande impacto no mercado editorial ano passado: queda de faturamento superior a R$ 200 milhões, cerca de 12% a menos em relação a 2104. Uma redução desse porte prejudica as editoras, e toda a cadeia produtiva. As compras do poder público chegam a corresponder a até 36% do orçamento das editoras em alguns anos. Por isso, a CBL também se posicionou, em audiência pública na Câmara dos Deputados.

O setor editorial brasileiro, como se observa, não pode ficar na dependência das compras oficiais. Por isso, é preciso que editoras, livrarias, distribuidores, os responsáveis pela comercialização porta a porta e toda a cadeia produtiva mobilizem-se para manter o mercado vivo em meio à crise. No entanto, o acesso gratuito ao livro transcende a questão comercial, pois integra, prioritariamente, um projeto viável de país desenvolvido. Por isso, é inaceitável que crianças e adolescentes pobres deixem de receber livros nas escolas. Trata-se de algo nocivo à qualidade do ensino.

Luís Antonio Torelli

sábado, janeiro 16

Alice

thefaeriefolk:

Alice in Wonderland by Honor C Appleton
Honor C Appleton

Terra dos mil sábios

A la Biblioteca Maravillosa acuden lectores mágicos (ilustración de Teemu Juhani)
 Teemu Juhani
Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
Sem querer mover os lábios,
cada livro é um professor.

A. A. de Assis

Paisagem sem leitor

Dónde está el lector/a? (ilustración de Galya Popova)
Galya Popova

Assim começa o livro...

Já faz quase um ano que ele tira fotografias de coisas abandonadas. No mínimo, tem duas tarefas a cumprir todos os dias, às vezes elas chegam a seis ou sete, e, toda vez que ele e seu séquito entram numa casa, confrontam‑se com as coisas, as inumeráveis coisas rejeitadas, deixadas para trás pelas famílias que se foram. As pessoas ausentes partiram às pressas, todas elas, envergonhadas, confusas, e é certo que, onde quer que estejam morando agora (caso tenham encontrado um lugar para morar e não estejam acampadas no meio da rua), suas novas moradias são menores do que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso — de falência ou de inadimplência, de dívida e de execução de hipoteca — e ele assumiu a missão de documentar os últimos vestígios daquelas vidas desfeitas a fim de provar que as famílias desaparecidas estiveram ali algum dia, que os fantasmas de pessoas que ele nunca vai ver e jamais irá conhecer ainda estão presentes nas coisas descartadas, dispersas em suas casas vazias.

O trabalho se chama remover o lixo e ele pertence a uma equipe de quatro homens empregados pela Imobiliária Dunbar, a qual subcontrata seus serviços de “preservação do lar” para os bancos locais que agora detêm a propriedade dos imóveis em questão. As extensas planícies do sul da Flórida estão repletas dessas estruturas órfãs e, como o interesse dos bancos é revendê‑las o mais depressa possível, s casas vagas têm de ser limpas, consertadas e preparadas para então serem apresentadas aos possíveis compradores. Num mundo que desmorona, num mundo de ruína econômica e de agruras implacáveis e cada vez maiores, remover o lixo é um dos poucos negócios prósperos no setor. Não há dúvida de que ele teve muita sorte de ter encontrado esse trabalho. Não sabe quanto tempo mais ele poderá suportá‑lo, mas o pagamento é decente e, numa terra onde os empregos estão cada vez mais raros, qualquer emprego é melhor do que nada.

No início, ficou espantado com a bagunça, a imundície e o desleixo. Rara é a casa que tenha sido deixada em sua condição original por seus antigos donos. Na maioria das vezes, houve uma erupção de raiva e violência, um furor de despedida, um surto de vandalismo arbitrário — desde as torneiras abertas nas pias e nas banheiras, onde a água transborda, até paredes afundadas a golpes de marreta, ou cobertas com pichações obscenas, ou marcadas por furos de bala, para não falar dos canos de cobre arrancados, dos tapetes com manchas de cloro, dos montes de excremento depositados no chão da sala. Esses são, talvez, exemplos extremos, atos impulsivos provocados pela raiva dos expropriados, manifestações de desespero repulsivas, porém compreensíveis, e no entanto, ainda que nem sempre se veja dominado pela repulsa quando entra numa casa, ele nunca abre a porta sem um sentimento de apreensão. Invariavelmente, a primeira coisa que tem de enfrentar é o cheiro, arremetida de um ar azedo que invade suas narinas, os aromas ubíquos, mesclados,de mofo, leite rançoso, palhas bolorentas da caminha de um gato, vasos sanitários com crostas de imundície e comida podre na bancada da pia da cozinha. Nem mesmo o ar fresco que se der rama pelas janelas abertas é capaz de varrer os cheiros. Nemmesmo a mais meticulosa e circunspecta faxina consegue apagar

sexta-feira, janeiro 15

Los sueños se alimentan de las lecturas (ilustración de Gizem Vural)
 Gizem Vural

O que é um bom leitor?

comicshistory: Moebius - O Alquimista (1994)

Aquele que entende que o livro é de quem lê e não de quem escreve.

Lourenço Mutarelli

No metro

lesstalkmoreillustration:

Keith Negley
This is where I admit I am powerless 
Keith Negley

Nu com a mão no livro

(foto: Reprodução)
Depois dos calendários da Pirelli e da revista LOVE, repletos de musas, o mais novo projeto a chamar a atenção de HT é o desenvolvido pelo bibliotecário Cristian Santos, que usou sua indignação com o descaso governamental em relação ao público LGBT e resolveu convidar alguns colegas de profissão para se despirem. Mas tudo por uma boa causa: a turma, que reúne profissionais de São Paulo, do Distrito Federal, do Rio de Janeiro e por aí vai, posou nua para arrecadar fundos para a construção da Biblioteca da Diversidade, um acervo com livros que abordem minorias religiosas e de gênero, assim como quebrar os paradigmas de que a profissão é formada exclusivamente por mulheres.

quinta-feira, janeiro 14

Leitura vampiresca

Vaya lectora-devoradora de libros! (ilustración de Oriol Malet)
Oriol Malet

Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

O escritor belga Emile Verhaeren – Théo Van Rysselberghe
Aprendi que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.

Aprendi que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.


Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

Aprendi que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que – de novo – não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

Aprendi que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito (...)

Aprendi que uma boa ideia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

Aprendi que uma boa ideia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma ideia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

Aprendi que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

Aprendi que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar ideias (é por isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conta bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)

Aprendi que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual – como toda história – pode nos ensinar muito.

Aprendi que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloquente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

Aprendi a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa da autocomiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

Aprendi a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.

Aprendi a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.

Aprendi que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.

Aprendi que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.

Aprendi que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.

Aprendi a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

Aprendi que, para um escritor, frio na barriga ou pelos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.
Moacyr Scliar