segunda-feira, fevereiro 8

Você ao lado que não me vê

Respeito o seu silêncio, seu olhar vidrado no seu aparelho, como numa hipnose mágica. Confesso que queria uma prosa, uma conversa à toa, apenas estabelecer um contato. Saiba que nascemos para nos espelhar, aprender com o outro, estabelecer comunicação, criar comunhão.
Cada um de nós é um universo com leis e encantos próprios, mistérios, dons muitas vezes não percebidos. 

Você que está ao meu lado e não me vê, não me escuta, não me nota. Tenho muito a te dizer, histórias maravilhosas para contar, mesmo que algumas delas possam te parecer exageradas. 

Permito até que escolha o tema. Afinal, meus casos têm enredos que vão do mais trágico ao mais cômico, perpassando por outros românticos, cheios de suspense ou drama. 

Sim, todos nós somos um grande enredo, que daria ótimas novelas ou filmes. Mas que pena que estamos cada vez mais sozinhos, sem tempo, indiferentes ao sofrimento e à carência afetiva que assolam os nossos dias.

Ouvir

Queria muito te ouvir, compartilhar suas emoções, ser solidário nas suas angústias, acolher no seu sofrimento, vibrar com suas conquistas. Te passar, generosamente, a sabedoria que mais de meio século me contemplaram, contar rindo de mim mesmo, dos meus fracassos, de erros bobos ou imaturos que cometi na vida, da mesma forma que corro o risco de falar inspirado de grandes feitos e conquistas.

Olhar

Mas precisamos nos olhar, desconectar de todas as coisas às quais nos viciamos, em conteúdos tão estressantes. Estamos lado a lado, e só isso já traz uma energia e um mundo de possibilidades.
Sei, e nisso não sou ingênuo, que estando bem ao seu lado concorro com o WhatsApp, o Facebook, com games e não sei o mais o quê que está à sua frente, te seduzindo e te sugando.

Desleal?

Concorrência desleal? Não. Me sinto capaz de ter um conteúdo atraente, diversificado aqui ao seu lado, disposto a esperar que a bateria descarregue. Seres humanos têm cinco antenas parabólicas para captar e tomar consciência de sua existência: os órgãos do sentido. A riqueza, a verdadeira riqueza, é ampliar cada vez mais tudo aquilo que vejo, ouço, degusto, cheiro ou tateio, deixando que o universo que me envolve penetre em mim despertando sensações que ampliarão minha experiência de vida.

Quanto à tela, que não cheira, não tem gosto nem acaricia, ela te limita ou ilude com imagens ou sons. Sim, eu sei a importância e o impacto da vida cibernética. Não quero excluí-la. Apenas quero me incluir na sua vida.

Destino

E você ao meu lado, meu filho, ou um amigo, companheiro de viagem, um desconhecido, uma mulher que possa me encantar ou vice-versa, apenas peço que olhe para o lado de vez em quando. Quem sabe a riqueza que o “outro” pode ter na sua vida e você nem tinha notado? O destino é feito pelas oportunidades e detalhes que vivem mais perto do que pensamos. Experimente olhar ao redor. No mínimo, você terá grandes surpresas, e de quem menos se espera!

R2D2 para livros

Assim começa o livro ...

Todas as manhãs se erguiam sete sóis sobre a planície de Inharrime. Nesses tempos, o firmamento era bem maior e nele cabiam todos os astros, os vivos e os que morreram. Nua como havia dormido, a nossa mãe saía de casa com uma peneira na mão. Ia escolher o melhor dos sóis. Com a peneira recolhia as restantes seis estrelas e trazia -as para a aldeia. Enterrava -as junto à termiteira, por trás da nossa casa. Aquele era o nosso cemitério de criaturas celestiais. Um dia, caso precisássemos, iríamos lá desenterrar estrelas. Por motivo desse património, nós não éramos pobres. Assim dizia a nossa mãe, Chikazi Makwakwa. Ou simplesmente a mame, na nossa língua materna.

Quem nos visitasse saberia a outra razão dessa cren ça. Era na termiteira que se enterravam as placentas dos recém -nascidos. Sobre o morro de muchém crescera uma mafurreira. No seu tronco amarrávamos os panos brancos. Ali falávamos com os nossos defuntos.

A termiteira era, contudo, o contrário de um cemitério. Guardiã das chuvas, nela morava a nossa eternidade. Certa vez, já a manhã peneirada, uma bota pisou o Sol, esse Sol que a mãe havia eleito. Era uma bota militar, igual à que os portugueses usavam. Desta vez, porém, quem a trazia calçada era um soldado nguni. O soldado vinha a mando do imperador Ngungunyane.


Os imperadores têm fome de terra e os seus soldados são bocas devorando nações. Aquela bota quebrou o Sol em mil estilhaços. E o dia ficou escuro. Os restantes dias também. Os sete sóis morriam debaixo das botas dos militares. A nossa terra estava a ser abocanhada. Sem estrelas para alimentar os nossos sonhos, nós aprendíamos a ser pobres. E nos perdíamos da eternidade. Sabendo
que a eternidade é apenas o outro nome da Vida.

domingo, fevereiro 7

O que ler nestes dias?

Una tarde en la biblioteca (ilustración de Laura Catalán)
Laura Catalán

Seu Funéreo

Carnaval? Nunca gostei! Cheio de gente chata pra caramba. Aquele povo sem noção, que fica sorrindo à toa, jogando confete, lançando serpentinas, sabe? Porque uma serpentina daquelas pode fazer mal, disso ninguém fala, né? Vai que bate no olho de um menino. O que que a gente faz? Quem é o culpado?

Aí esses chatos inventam de se fantasiar. Essa gente tem cocô na cabeça, né, só pode ser. O cidadão se veste de mulher! Coloca todos os acessórios, diadema, brincos, colar, top, meia-calça, saia e sapato, se maquia todo e vai pra rua! Se o sujeito ficasse na dele, não incomodasse ninguém, eu até aguentava, juro, aguentava mesmo. Mas aí ele inventa de se juntar a outros delinquentes que também se vestiram de mulher, de Zorro, de Elza, de Pikachu, de Batman, de bailarina, do diabo que o carregue e formam um bloco. O cordão dos idiotas. Saem em bando, azucrinando a vida de quem não tem nada a ver com pierrô e colombina e não faz ideia do que raios venha a ser uma cabrocha.

Pra piorar, porque pode piorar, acredite, pra piorar tem aquela zoeira musical, um bando de gente que acredita ter samba no pé, cada um tamborinando seu tamborim, se achando o novo Naná Vasconcelos, que é outro chato e ainda bem que só existe um. Uma batida no agogô dessa gente jovem reunida é uma marretada na minha cabeça. Por dentro.

Quando eles finalmente acertam dois compassos seguidos, surge o coro, porque a estupidez é coletiva, né? Os burros andam em manada e no carnaval também relincham em sincronia. E ficam zurrando aquelas músicas velhas, aquela goteira sem fim. As mesmas da juventude da minha avó, que aconteceu há tanto tempo que a rainha da bateria era a Dercy Gonçalves. Ala lá ô, mas que calor, olha a cabeleira do Zézé, será que ele gosta de mim, hoje os dois mascarados procuram mamãe eu quero mamar, mande água pra iá iá. Sério, olha o nível da coisa. Tão ruim que nem o Lulu Santos, nem ele!, teve coragem de fazer pot-pourri disso.

E esse bando de animais sai desfilando pelas ruas, atrapalhando o trânsito, causando transtorno em quem precisa ir à padaria, à farmácia, ao banco, essas coisas do dia-a-dia que não dá pra parar só porque a Turma do Chaves está colocando o bloco na rua.

Carnaval é essa falta de respeito com o cidadão. Não sou obrigado a aguentar alegria e barulho, atrapalham a televisão. Outro dia tinha uns jovens ensaiando aqui embaixo e eu não consegui escutar a voz da menina no concurso de cantores pirralhos. A Ivete virou pra ela e eu fiquei sem saber por quê. E agora, quem vai pagar por isso, hein?

Daniel Cariello

(Crônica inspirada na marchinha "Seu Funéreo", de Pedro Cariello. em protesto contra a intransigente lei do silêncio que vem sufocando as nossas cidades até no Carnaval)

sábado, fevereiro 6

Bloco na rua

Bloco das Emílias e Viscondes, da biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo, foi às ruas

Preparação para o dia

Lulu Bergantim

Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:

- Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
- Ou vai ou racha!
E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:
- Agora a gente vai fazer serviço de tatu!
O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição, quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
- Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.
Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:
- Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!
Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim!

sexta-feira, fevereiro 5

Café da manhã

offinherownmind:

Perfect. Coffee and books

Assim começa o livro...

Você teria que procurar muito tempo para encontrar algo parecido com as veredas sinuosas ou os prados tranquilos pelos quais a Inglaterra mais tarde se tornaria célebre. Em vez disso, o que havia eram quilômetros de terra desolada e inculta; por todo lado, trilhas toscas que atravessavam colinas escarpadas ou charnecas áridas. A maior parte das estradas deixadas pelos romanos já teria àquela altura se fragmentado ou ficado coberta de vegetação, muitas delas desaparecendo em meio ao mato. Uma névoa gelada pairava sobre rios e pântanos, muito útil aos ogros que ainda eram nativos daquela terra. As pessoas que moravam ali perto — e pode-se imaginar o grau de desespero que as teria levado a se estabelecer num lugar tão soturno — teriam razão de sobra para temer essas criaturas, cuja respiração ofegante se fazia ouvir muito antes de seus corpos deformados emergirem da neblina. Mas esses monstros não causavam espanto. As pessoas da época os teriam encarado como perigos cotidianos, e naquele tempo havia uma infinidade de outras coisas com que se preocupar: como obter alimentos do solo duro; como não deixar que a lenha acabasse; como curar a doença que podia matar uma dúzia de porcos num único dia e provocar brotoejas esverdeadas nas bochechas das crianças.


De qualquer forma, os ogros não eram tão ruins assim, desde que ninguém os provocasse. Era preciso aceitar que, de vez em quando — talvez depois de alguma obscura desavença entre eles próprios —, um desses monstros, tomado de uma fúria terrível, iria entrar atabalhoadamente numa aldeia e, apesar dos gritos e das armas brandidas em sua direção, acabaria destruindo tudo o que lhe aparecesse pela frente e ferindo quem demorasse a sair de seu caminho. Ou que, de vez em quando, um ogro poderia
agarrar uma criança e sumir neblina adentro. As pessoas da época tinham que se resignar com essas atrocidades. 

quinta-feira, fevereiro 4

O feiticeiro de Praga

oldbookillustrations:

Keyork Arabian in his study.

W. Hennessy, from The witch of Prague, by Francis Marion Crawford, New York, 1901.

(Source: archive.org)
W. Hennessy, para The witch of Prague, de Francis Marion Crawford (1901)

Ler nos torna mais felizes

“A leitura nos torna mais felizes e nos ajuda a enfrentar melhor a nossa existência. Os leitores vivem mais contentes e satisfeitos do que os não leitores, e são, em geral, menos agressivos e mais otimistas”. A afirmação é dos responsáveis por uma análise efetuada recentemente pela Universidade de Roma III a partir de entrevistas com 1.100 pessoas. Aplicando índices como o da medição da felicidade de Vennhoven e escalas como a Diener para medir o grau de satisfação com a vida, os pesquisadores chegaram a essas conclusões, que demonstram, como afirma Nuccio Ordine, autor do manifesto A Utilidade do Inútil, que “alimentar o espírito pode ser tão importante quanto alimentar o corpo”. E que precisamos, bem mais do que se imagina, dessas experiências e conhecimentos que não se traduzem em benefícios econômicos.

Como nos sentimos e quais mudanças experimentamos ao mergulhar em uma história? Há um efeito transformador? Os protagonistas das ficções nos levam a que enxerguemos as nossas contradições e nossos desejos? Fazem com que nos recordemos de coisas essenciais, talvez esquecidas?

Julio Cortázar, buscando livros
em Paris.Pierre Boulat (Getty)
A ciência possui cada vez mais recursos para responder a essas perguntas. Artigos publicados em revistas especializadas expõem resultados de ressonâncias magnéticas que revelam a alta conectividade que se estabelece no sulco central do cérebro, região do motor sensorial primário, e no córtex temporal esquerdo, área associada à linguagem, enquanto lemos um livro e depois de acaba-lo.

O estresse se reduz e a inteligência emocional sai ganhando, assim como o desenvolvimento psicossocial, o autoconhecimento e o cultivo da empatia, segundo uma equipe de neurocientistas da Universidade de Emory, em Atlanta, que monitoraram as reações de 21 estudantes durante 19 dias seguidos. A leitura pode até mesmo alterar comportamentos por meio da identificação com os protagonistas das histórias lidas, defende Keith Oatley, romancista e professor de Psicologia Cognitiva da Universidade de Toronto.

“É muito custoso, para nós, colocarmo-nos no lugar do outro no dia a dia, mas quantas vezes já não nos colocamos na pele de um personagem de romance? Criamos uma empatia com ele, e isso nos ajuda a compreender melhor os sinais emitidos pelos outros”, argumenta Antonella Fayer, psicóloga e coach especializada no desenvolvimento de liderança, para quem “as lições sobre dilemas morais e emocionais que encontramos na literatura são necessárias para todas as pessoas, e muito especialmente para líderes e políticos, que estão convencidos de que não têm tempo. Atuam, avaliam e fazem discursos, mas seria conveniente para eles mesmos se conseguissem parar um pouco e fazer leituras para melhorar a sua compreensão dos outros”, assinala Fayer, fazendo uma alusão às palavras de Alan Brew, ex-editor do Financial Times: “Ler os grandes autores faz de você uma pessoa mais bem preparada para tomar decisões criativas, interessantes e educadas”.

O convencimento quanto aos benefícios gerados pela leitura é o que move a School of Life, um centro londrino de biblioterapia que prescreve livros para ajudar na superação de conflitos (rupturas, disputas...). Como diz o filósofo Santiago Alba Rico, autor de Leer con niños (Ler com crianças), um ensaio que estimula nos pais o prazer de compartilhar histórias com seus filhos, a leitura, como a paixão, é um “vício virtuoso”. Quando conhecemos o bem que ela nos proporciona, não conseguimos deixar de praticá-la. Voltemo-nos, portanto, para a literatura, como convidava Cortázar, “como se vai aos encontros mais essenciais da existência, como se vai ao encontro do amor e às vezes da morte, sabendo que fazem parte de um todo indissolúvel e que um livro começa e termina muito antes e muito depois de sua primeira e de sua última página”.

terça-feira, fevereiro 2

Seja o maestro

Concierto de libros (ilustración de Emanuele Luzzati)
Emanuele Luzzati

Amigos epistolares

Não faz tanto tempo – 15 anos? 20 anos? – era a delícia das cartas em papel que faziam chegar o cheiro do outro, os erros e as paixões e as saudades do outro. Pena que tenha ficado raro sentir essas trilhas manuscritas do amigo, seus descaminhos, seus circunlóquios, mas, mesmo assim, por outros meios, sobrevivem os companheiros epistolares. Raros que sejam, eles ainda voltam de quando em quando sem maior interesse que o de se dar à prosa solta, num convívio de que fazem parte os desertos de espera por novas mensagens e os festins de leitura com suas exclamações, suas reticências e as muito francas opiniões sobre tudo.

startwithsunset:Niso Ramponi
Niso Ramponi
O amigo epistolar é aquele que frequenta nossa casa interna, incluindo aí o recinto de pensamentos lunares que, por qualquer razão, não abriríamos num encontro ao vivo. Não que o amigo epistolar seja menos amigo num encontro ao vivo, senão que esse tipo de amizade acontece numa dimensão paralela de existência em quem a palavra por si mesma tem um efeito sortílego de presença. Há amigos epistolares que não encontramos pessoalmente durante anos, ou mesmo por toda uma vida. Existem até os que evitam o cara a cara por medo de que surja uma distância, uma nuvem de cerimônia que nunca antes houve entre as palavras, ou pudor de que rebente uma paixão ou alguma outra surpresa incontornável.

É também magicamente físico o convívio entre os amigos epistolares. Um provoca ebulições no outro, ansiedade, euforia, súbitas gargalhadas e, às vezes, uma ligeira mágoa, a que se segue uma inquietude, a que se segue uma compreensão muda, por causa de um silêncio estendido. Há ainda a pedra na garganta quando as mensagens param, ou mais, quando sustam, não por capricho do amigo, não por uma vida atarefada ou por revanche numa guerra de silêncios. Quando as mensagens sustam porque um dia, e desse dia em diante, falta o amigo. Vem alguém falar em nome dele, participar a notícia, e então aquele medo de uma insuspeita distância se concretiza. Das muitas mortes que vamos amealhando nesta vida, essa é a que dói na alma do verbo. É a morte que nos lega um triste espólio de palavras incorrespondidas.

Mariana Ianell

A luz própria da biblioteca

Biblioteca pública de Stuttgart 

Os livros que ganharam uma guerra

Os sites da Organização das Nações Unidas em todo o mundo publicaram com destaque a história emocionante da menina síria Muzon Al Meliha, de 17 anos, que vive há três anos com sua família em um campo de refugiados na Jordânia. Sob condições precárias e longe de seu país devastado pela guerra, a adolescente não abre mão do direito de estudar, a exemplo de Malala Yousafzai, a paquistanesa ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.


Além da vontade de aprender e dedicação à causa do ensino, chama atenção nos conteúdos veiculados nos sites da ONU a foto de Muzon estudando no escuro, sentada num velho colchão, na barraca que divide com sua família, para dormir, cozinhar e viver. É o espaço que lhe cabe num campo onde milhares de sírios sobrevivem com alimentos e água racionados e sem energia elétrica. Para a jovem refugiada, o maior patrimônio são os livros e um caderno, como ela, sobreviventes de uma guerra insana, na qual já morreram mais de 250 mil pessoas.

Com a ajuda de uma lanterna, a menina lê e, em cada página, projeta-se para muito além daquele local, pois o conhecimento não tem fronteiras. Muzon é livre para pensar, defender ideias e ideais, pois a leitura lhe dá asas, e o pensamento voa! Ela não tem internet, celular, tablet ou computador, mas está conectada ao mundo por meio dos livros impressos, que durante séculos, como continua acontecendo, têm sido a grande mídia de acesso ao conhecimento científico e disseminação da cultura.

A jovem refugiada síria é a testemunha maior da inutilidade e improcedência de outra guerra, muito menos cruel no aspecto humanitário, mas contraproducente e inoportuna para a civilização: o combate à comunicação impressa, por segmentos cada vez mais minoritários, sob o falso pretexto da preservação ambiental. A indústria gráfica já demonstrou mundialmente que a sua cadeia produtiva é sustentável, em especial no Brasil, onde o papel de imprimir provém integralmente de floretas plantadas, que, em seu crescimento, ainda sequestram grande volume de carbono na atmosfera.

Não se destroem matas nativas para produzir papel. O desmatamento ilegal em nosso país tem outras origens e destinos, sabidamente muito dissociados da matéria prima utilizada para a produção de livros, jornais, revistas, cadernos, embalagens e outros produtos fundamentais para a sociedade. O impresso é ambientalmente correto e economicamente viável. Além disso, resiste ao tempo, aos ditadores, às guerras e até às crises econômicas do Brasil, onde a indústria gráfica, apesar de tudo, segue seu curso no contexto da economia. Ainda há exemplares em ótimo estado da Bíblia de Gutenberg, primeira obra impressa com os tipos móveis inventados por esse genial alemão, há 565 anos.

Não há rivalidade ou canibalismo entre as mídias. O mais importante é democratizar o acesso à informação e à cultura. Nesse sentido, a comunicação impressa continuará cumprindo missão relevante, como demonstram os livros e o caderno da menina Muzon, produtos gráficos que venceram uma guerra para cumprir sua missão de informar, comunicar e disseminar conhecimento.

Sidney Anversa Victor, presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica-SP.

segunda-feira, fevereiro 1

Alongamento para leitura

magictransistor:

Palmer C. Hayden, Young Girl Reading, 1960.
Palmer C. Hayden 

A língua e a visão do mundo

Al viento de la lectura (ilustración de Gizem)
Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto
Vergílio Ferreira

Ao abrigo das cobertas

Invierno: una buena manta y a leer (ilustración de Ilaria Urbinati)
 Ilaria Urbinati

Alfarrabista, patrono dos perdidos

"Quando Diderot morreu, não se conhecia ainda o "Neveu de Rameau". O seu testamenteiro achou também que não devia publicar essa obra, e ninguém teve notícia della senão quando foi feita e publicada na Allemanha, uma traducção, não sei se por Goethe ou Schiller. Dessa traducção alleman é que se fez uma versão franceza, muito discutida e suspeita. Mas onde estaria o manuscripto original? - Perdera-se, ninguém sabia como, nem onde.

Ora, pelos meados do século passado, um remexedor de alfarrábios do cáes de Pariz encontrou no meio de trezentas tragédias em brochuras, precisamente o manuscripto original do "Neveu de Rameau"! É de se imaginar a regalada surpresa de quem fez esse achado feliz, se é que não desconhecia o grande valor do manuscripto de Diderot.

Os alfarrabistas dão, não poucas vezes, taes surpresas aos fregueses. Ainda ante-hontem, justamente no dia em que chegavam ao Brasil os despojos de Pedro II e Thereza Christina, - quiz o acaso que viesse ter às minhas mãos, na Livraria Gazeau, à rua Marechal Deodoro, um volume muito curioso, em cujas folhas se encontram, além de várias coisas interessantes, alguns exercícios de calligraphia e redacção do último imperador e de suas irmans, princezas Januária, Paula e Francisca. O livro era um caderno de suscripção para as obras completas de Lamartine, subscripção de que o grande poeta, decerto em difficuldades financeiras, como sempre, encarregara, em 1861, no Rio, ao sr. L. A. Boulanger, que devia ter boas relações no Paço de S. Christovam, visto que fôra professor dos principes. Para as obras completas de Lamartine (40 volumes por 160$000), haviam assinado no caderno: o imperador e a imperatriz, representados pelo cons. Mordomo Paulo I. Barbosa; marquez de Caxias, José Ildefonso de Souza Ramos, Sayão Lobato, B. A. de Magalhães Taques, barão de Tamandaré, A. de Araujo Ferreira Jacobina, barão de mauá, barão de Piabanha, cons. T. Franco de Almeida, e poucos mais. Todos estes nomes estão em autographos no livro. Provavelmente, a subscripção não foi por diante, porque os subscriptores, que figuram no caderno, não são muito numerosos. Por esse ou por outro motivo, alguém, talvez o próprio L. A. Boulanger, aproveitou o livro para lhe collar em quasi todas as páginas os primeiros exercicios de Calligraphia de d. Pedro II e das princezas Januária, Paula e Francisca, assim como minutas de cartas escriptas pelos principes e pelo imperador, em 1832 e 1833, a seu pai, D. Pedro I, ao avô, o imperador da Austria, e outras. Há tambem pequenos trechos em portuguez e francez, do proprio punho dos priscipes ou para serem por elles copiados. Certa pagina, por exemplo, tem no alto, em bom cursivo, para ser reproduzida, a phrase: "D. Pedro Segundo, Imperador". E, em seguida, pela mão do menino imperador, a mesma phrase reproduzida cinco vezes, com uma letra de principiante, indecisa, tremula e amedrontadiça. Exercicios semelhantes fazem as princezas Paula, Francisca e Januária, notando-se que esta, a mais velha, já tem letra mais segura.

Revista do Brasil , janeiro 1921