quarta-feira, agosto 16
Tribunal alemão condena jovem a 20 horas de leitura
Um tribunal de Munique condenou um auxiliar de depósito de 19 anos a 20 horas de leitura porque a placa de sua motocicleta não estava perfeitamente visível. A condenação aconteceu em 8 de junho, comunicou o tribunal na última semana.
Segundo o tribunal, o auxiliar de depósito admitiu a sua culpa. O incidente aconteceu em fevereiro deste ano e, por se tratar de reincidência, a juíza de menores responsável pela sentença concluiu que o acusado "obviamente não aprendeu nada" com o primeiro incidente, "exatamente o mesmo ato e com a mesma motocicleta".
Por meio de uma instrução de leitura, o jovem réu deverá agora ser "motivado a se ocupar em nível intelectual com o seu ato", informou o tribunal, acrescentando que não há necessidade de outras medidas educacionais para o acusado.
Segundo o comunicado, a medida educativa será realizada na Universidade de Munique. Numa primeira conversa, o jovem deverá escolher, entre uma série de sugestões, os livros que mais combinam com seus interesses e sua vida. Posteriormente, em entrevistas, ele falará sobre aquilo que leu, também em relação com a própria vida.
A medida se encerra com um trabalho em que o conteúdo da leitura e das discussões são "trabalhados em diversas formas criativas, como, por exemplo, contos, cartazes ou raps".
Segundo o tribunal, o auxiliar de depósito admitiu a sua culpa. O incidente aconteceu em fevereiro deste ano e, por se tratar de reincidência, a juíza de menores responsável pela sentença concluiu que o acusado "obviamente não aprendeu nada" com o primeiro incidente, "exatamente o mesmo ato e com a mesma motocicleta".
Segundo o comunicado, a medida educativa será realizada na Universidade de Munique. Numa primeira conversa, o jovem deverá escolher, entre uma série de sugestões, os livros que mais combinam com seus interesses e sua vida. Posteriormente, em entrevistas, ele falará sobre aquilo que leu, também em relação com a própria vida.
A medida se encerra com um trabalho em que o conteúdo da leitura e das discussões são "trabalhados em diversas formas criativas, como, por exemplo, contos, cartazes ou raps".
terça-feira, agosto 15
Assim começa o livro...

Em algum lugar lá no alto, a lua brilha, gorda e cheia — mas aqui, em Tarker’s Mills, uma nevasca de inverno sufocou o céu com neve. O vento sopra com força pela deserta avenida Center; os limpadores de neve laranja da cidade já desistiram faz tempo.
Arnie Westrum, sinaleiro na Ferrovia gs&wm, ficou preso no pequeno barracão de ferramentas e sinalizadores a quinze quilômetros da cidade; com o carrinho ferroviário movido a gasolina bloqueado pela neve, ele está esperando que a tempestade passe, jogando paciência com um maço de cartas sujas. Do lado de fora, o vento piora até se transformar em um grito agudo. Westrum levanta a cabeça, inquieto, e olha para o jogo novamente. É só o vento, afinal…
Mas o vento não arranha portas… nem chora, pedindo para entrar.
Ele se levanta, um homem alto e magro de jaqueta de lã e macacão da ferrovia, um Camel pendurado no canto da boca, o rosto marcado da Nova Inglaterra iluminado em tons suaves de laranja pelo lampião de querosene pendurado na parede.
Ouve o arranhar de novo. O cachorro de alguém, ele pensa, perdido e querendo entrar. É só isso… Mas, mesmo assim, ele hesita. Seria desumano deixar o animal lá fora, no frio, ele pensa (não que esteja muito mais quente ali dentro; apesar do aquecedor a bateria, ele consegue ver seu hálito condensando), mas hesita mesmo assim. Uma pontada fria de medo o cutuca logo abaixo do coração. Foi uma temporada péssima em Tarker’s Mills; houve presságios de coisas ruins na região. Arnie tem o sangue galês do pai correndo nas veias e não gosta daquela sensação.
Antes que ele possa decidir o que fazer sobre o visitante, o choramingo baixo se transforma em um rosnado. Um baque soa quando uma coisa incrivelmente pesada bate na porta… recua… bate de novo. A porta treme na moldura, e um borrifo de neve entra pelas frestas.
segunda-feira, agosto 14
Deixa-me dizer
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| Charles Burton Barber |
Sandra. Se soubesses como tenho pressa de falar de ti. De estar contigo longamente. De te recuperar desde o teu nome. Não é bonito o teu nome. Explicaste-me como to deram, já não sei se sei. E todavia. Lembra-me uma fruta exótica, talvez oriental . Uma fruta. Coisa de se saborear na boca e ter aí uma cor. Castanho-claro, talvez. E um sabor tenro, de doçura esmaecida. Mas tu eras uma figura breve, toda facetada no teu modo racional de ser. Os teus dentes. Pequena serrilha, não eram bonitos. Cerzidos. Um ou outro já escurecido, tocado pela destruição - tão poucas vezes tos vi. Mas estou a falar de ti e ainda não é tempo - em que tempo é? Estás entretecida a todo o meu ser, podia lembrar-te agora. Podia figurar-te já em Penalva, que é para onde me apetece agora ir. Podia imaginar-te lá, neste modo de igualar o real e o imaginário, que tudo é real. Porque mesmo encontrada na cidade de Soeira, a Cidade universitária. Um mestre explicou-me - ou eu imaginei? Que Soeira vinha de Solária, a Cidade do Sol. Fica numa colina, o sol bate-a de todo o lado. Mesmo só encontrada aí, atravessas-me a vida para o passado e o futuro. Deixa-me dizer-te que te amei. Oh, tu irritavas-me tanto, não foi fácil saber-to dizer. Discreta polida asséptica - deixa-me dizer. Estou cheio de necessidade de falar de ti. Mas tenho de ir a Penalva, é lá que quero começar. Não sei porquê. Há muita coisa antes que quero lembrar, enquanto lá de baixo, na tarde sufocante, ouço-o. Ouço-o sempre, canto da alegria da vida , que é triste por ser longe. É uma voz sem dono, não vejo quem canta, não sei donde vem. Aparece no ar, ecoa na distância, sem a força, selvagem da germinação da terra. Tenho de ir a Penalva, enquanto me sento na cama de Xana e acendo um cigarro. Tenho de ir chamar Deolinda para combinar tudo. Tenho de ir - tens que ir? Tens só que estar.
Como se houvesse mundo além, há só aqui. Tanto tratado escrito sobre a infância, a juventude, a idade adulta, que é a idade do homem. Em todas elas se fala de ir - a velhice é estar. Queria ter , do calor com que se fazem ideias precisas sobre isso. Precisas limpas agradáveis - a velhice tem tanta sujidade. Todas as idades fazem parte da vida , a velhice é um sobejo. É só o que sobra lhe pertence. O que sobra da mesa, das leis, da paciência. Do espaço que se ocupa - mas tenho de ir a Penalva. Dos fatos que se usaram, das ideias que nos remexeram, do calor com que se fazem ser as pessoas coisas animais - mas tenho de ir. Passa o carro da História, atira-lhe com poeira para cima. Passam os proprietários do poder, os fabricadores da civilização, os criadores da ciência, artes e letras , os agentes do comércio e do progresso económico, ela encosta-se à valeta, fica coberta de lixo orgânico - mas vão sendo horas . Na realidade - como é que me disse a tia Luísa? eu ia fazer o exame da quarta classe. Era uma noite de Verão, nós sentávamo-nos ao balcão a ver a lua nascer. "
Vergílio Ferreira, "Para sempre"
domingo, agosto 13
De internet, Kariêninas e Bovarys
Pelo que vejo na internet, os maridos não servem para nada mais importante do que discutir a relação.
Numa pasta de recortes de jornal e num exíguo arquivo no micro cabe toda a minha fortuna crítica.
É comum, quando choramos, dizerem que parecemos crianças. Pode haver melhor incentivo para nossas lágrimas?
Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo.
A partir da segunda vez, e da terceira, o amor nunca mais é como na primeira.
Não posso me queixar. Sempre tive uma espécie de ignorância intuitiva.
Fontes fidedignas nem sempre são as que constam nos rótulos das águas minerais.
Houve um tempo em que imaginei que a poesia havia me escolhido para alguma coisa grandiosa – justo a mim, com estes modos de polonês tosco.
Diante do amor, toda cautela é pouca e inútil.
Um poeta romântico que não tenha morrido pelo menos duas vezes por amor não merece confiança.
O amor faz aquela figuração toda no trapézio, com sua roupa cintilante, e, quando começamos a gostar dele, espatifa a cara no picadeiro, como um palhaço qualquer.
E no entanto acabamos sempre voltando a escrever.
Para evitar ridicularias, os poetas românticos deveriam receber licença de acordo com sua idade, sendo a faixa inicial quinze anos, e a última trinta e cinco.
Palavras como rosa, mar e primavera deveriam ser sempre ouvidas como se ditas a primeira vez por lábios maravilhados pelo assombro.
Ao haicai assentam bem a humildade e a modéstia. Ele não é um passarinho se exibindo, aparecendo e desaparecendo no mesmo instante, com um fio de ouro no bico. Ele é só um passarinho que aos olhos certos, em certo instante, pareça ter um fio qualquer no bico.
Enquanto o poeta romântico prepara um cisne para o jantar, o concretista ronca e sonha com pirâmides e com egitos.
Se tratamos de graça e beleza, contra gatos não há argumentos.
***
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Numa pasta de recortes de jornal e num exíguo arquivo no micro cabe toda a minha fortuna crítica.
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É comum, quando choramos, dizerem que parecemos crianças. Pode haver melhor incentivo para nossas lágrimas?
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Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo.
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A partir da segunda vez, e da terceira, o amor nunca mais é como na primeira.
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Não posso me queixar. Sempre tive uma espécie de ignorância intuitiva.
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Fontes fidedignas nem sempre são as que constam nos rótulos das águas minerais.
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Houve um tempo em que imaginei que a poesia havia me escolhido para alguma coisa grandiosa – justo a mim, com estes modos de polonês tosco.
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Diante do amor, toda cautela é pouca e inútil.
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Um poeta romântico que não tenha morrido pelo menos duas vezes por amor não merece confiança.
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O amor faz aquela figuração toda no trapézio, com sua roupa cintilante, e, quando começamos a gostar dele, espatifa a cara no picadeiro, como um palhaço qualquer.
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E no entanto acabamos sempre voltando a escrever.
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Para evitar ridicularias, os poetas românticos deveriam receber licença de acordo com sua idade, sendo a faixa inicial quinze anos, e a última trinta e cinco.
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Palavras como rosa, mar e primavera deveriam ser sempre ouvidas como se ditas a primeira vez por lábios maravilhados pelo assombro.
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Ao haicai assentam bem a humildade e a modéstia. Ele não é um passarinho se exibindo, aparecendo e desaparecendo no mesmo instante, com um fio de ouro no bico. Ele é só um passarinho que aos olhos certos, em certo instante, pareça ter um fio qualquer no bico.
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Enquanto o poeta romântico prepara um cisne para o jantar, o concretista ronca e sonha com pirâmides e com egitos.
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Se tratamos de graça e beleza, contra gatos não há argumentos.
sábado, agosto 12
Crianças alemãs preferem livros a YouTube
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| Miriam Kraft |
Na Alemanha, onde nasceu a imprensa, o futuro de livros e revistas parece estar garantido. De acordo com um estudo publicado nesta terça-feira (08/08), 61% das crianças alemãs entre 6 e 13 anos afirmaram ler livros mais de uma vez por semana, e mais da metade delas (55%) disse ler revistas infantis e histórias em quadrinhos várias vezes por semana.
O estudo foi encomendado por um grupo de seis editoras, incluindo Panini, Gruner + Jahr, Egmont Ehapa Media, Spiegel e Zeit. Para a pesquisa foram realizadas por volta de 2 mil entrevistas com crianças e seus responsáveis.
Enquanto 62% das crianças entre 6 e 13 anos afirmaram usar internet e aplicativos, somente 34% dos entrevistados disseram assistir regularmente a vídeos no YouTube. Uma parcela ainda menor (28%) respondeu que jogava videogames.
Somente a TV bate a mídia impressa quando se trata de chamar a atenção dos pequenos: 93% das crianças entre 4 e 5 anos disseram que assistiam à televisão várias vezes por semana, enquanto 97% de meninos e meninas entre 10 e 13 anos responderam que se sentavam regularmente diante da tela.
Não foi surpreendente, no entanto, a constatação de que DVDs e Blu-rays não desempenham um papel importante na vida de crianças alemãs: somente 15% dos guris e gurias de 6 a 13 anos disseram que os usavam com frequência.
Só porque muitos gostam da leitura não significa que as crianças do país não estejam por dentro das novas tecnologias. Na faixa etária entre 6 a 9 anos, 37% delas disseram possuir celular ou smartphone próprio. Entre aquelas de 10 a 13 anos, essa cifra pulou para 84%.
Nessa última faixa etária, o serviço de mensagens WhatsApp ultrapassou as mensagens de texto à moda antiga – 68% disseram utilizar WhatsApp e 61%, mensagens de SMS. E somente pouco mais de um quarto (25%) afirmou usar o Facebook.
Mais de 80% dos entrevistados entre 6 e 13 anos afirmaram, no entanto, que a sua principal forma de comunicação é telefonar.
Linguagem da mão
Uma amiga me disse que em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o iPad foram proibidos porque os estudantes filmavam e fotografavam as aulas, ou simplesmente brincavam com joguinhos eletrônicos. A proibição do uso de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos e do mundo não é nada desprezível. O celular na palma da mão desconcentra o estudante e abole uma prática antiga: a caligrafia.
Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história - que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão - parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.
Lembro uma entrevista radiofônica com Roland Barthes, em que o grande crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso, da relação do corpo com a escrita, as letras que vêm da mão, e não da máquina. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação, como se a respiração e o tempo da leitura fossem - como de fato são - importantes para o ritmo da escrita. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia César Birotteau, seu último romance.
Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis ou à tinta, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, nas paredes de banheiros públicos, no muro grafitado da cidade poluída, nada impoluta. Quem não terá lido e anotado frases de escritores anônimos, que expressam sentimentos e ideias na traseira de veículos ou nos muros de uma cidade? Frases como “Já chegamos no fundão do poço escuro” e “Aquele Padilha lá de Brasília rima com quê?”, ambas escritas à mão, parecem tão atuais…
A primeira frase, escrita na traseira de um caminhão, é uma variante popular de um verso de Dante; a segunda, um desabafo de um brasileiro que foi se aliviar num banheiro asfixiante de tanto fedor.
Num de seus poemas memoráveis (O Sobrevivente), Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.
Se você quer prestar atenção a uma aula, não use uma máquina nem se distraia com ela. Isso é o que parece dizer a seus alunos a Universidade de Princeton e outras universidades e escolas.
Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.
Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso nesta tarde fria e ensolarada me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros, escrito no século 12 pelo grande poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.
Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história - que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão - parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.

Lembro uma entrevista radiofônica com Roland Barthes, em que o grande crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso, da relação do corpo com a escrita, as letras que vêm da mão, e não da máquina. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação, como se a respiração e o tempo da leitura fossem - como de fato são - importantes para o ritmo da escrita. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia César Birotteau, seu último romance.
Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis ou à tinta, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, nas paredes de banheiros públicos, no muro grafitado da cidade poluída, nada impoluta. Quem não terá lido e anotado frases de escritores anônimos, que expressam sentimentos e ideias na traseira de veículos ou nos muros de uma cidade? Frases como “Já chegamos no fundão do poço escuro” e “Aquele Padilha lá de Brasília rima com quê?”, ambas escritas à mão, parecem tão atuais…
A primeira frase, escrita na traseira de um caminhão, é uma variante popular de um verso de Dante; a segunda, um desabafo de um brasileiro que foi se aliviar num banheiro asfixiante de tanto fedor.
Num de seus poemas memoráveis (O Sobrevivente), Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.
Se você quer prestar atenção a uma aula, não use uma máquina nem se distraia com ela. Isso é o que parece dizer a seus alunos a Universidade de Princeton e outras universidades e escolas.
Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.
Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso nesta tarde fria e ensolarada me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros, escrito no século 12 pelo grande poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.
sexta-feira, agosto 11
Biblioteca traça destino
O destino de muitos homens dependeu de haver ou não uma biblioteca na casa onde nasceu
Edmond de Amicis
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| David Pintor |
A vida de um homem
![[LISTA] 5 Autores italianos para ler](https://i.pinimg.com/564x/73/7b/7d/737b7ddc71eb13928578cb2965d559cc.jpg)
Tudo foi a certeza que ele teve. Primeiro que algo iria acontecer. Depois que iria demorar. Não muito, mas que demoraria. E, por fim, que quando acontecesse, seria uma coisa fantástica. Tão grande e solene como o carro preto que chega à noite e todos se reúnem sérios, graves e curiosos.
Ele entrou para dentro de casa e não saiu nem viveu, esperando o que iria acontecer. Seu amigo disse, na hora em que ele morria:
— Agora já é tarde para que as coisas lhe aconteçam.
Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"
quinta-feira, agosto 10
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