quinta-feira, setembro 7

Pronto para a viagem

A qué mares, a qué mundos, a qué descubrimientos nos llevará la lectura? (ilustración de Michelle Dowd)
Michelle Dowd

Sempre sós

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Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós
Ana Hatherly

Estoque para o feriadão

Estes que eu amo

DALTON TREVISAN – Em Dalton Trevisan, o fetiche sexual pode estar num dente de ouro, num olho vesgo ou na marca deixada no rosto por um cravo mal espremido.

TCHEKHOV (1) – O jovem que pretende escrever contos deve ler os melhores do gênero e Tchekhov. Ou então ler só Tchekhov.

TCHEKHOV (2) – Em Tchekhov tudo é tão natural que, se um cachorro se puser a discutir filosofia não soará estranho, mesmo que esteja debatendo com um cavalo.


CASIMIRO DE ABREU (1) – Pode parecer tolo, mas eu, se amasse alguém, lhe daria o livro de Casimiro de Abreu.

CASIMIRO DE ABREU (2) – Queriam que Casimiro de Abreu fosse caixa de loja – ele que não dava conta nem do amor que tinha no peito.

LOURENÇO DIAFÉRIA – Não sei se já há em São Paulo uma rua que homenageie o cronista Lourenço Diaféria. Se há, é pouco. Uma avenida? Pouco também. E também pouco um viaduto. O Brás deveria chamar-se Lourenço Diaféria. Até o Brás sabe disso. É só ir lá e perguntar a ele.

MARCOS REY e EÇA DE QUEIRÓS – Num dos romances de Marcos Rey, Entre sem bater, há um homem que, depois de muito ansiar, conquista a mulher que deseja. O primeiro pedido que faz a ela é uma xícara de café. José Matias, outro personagem, este de Eça de Queirós, torna-se uma sombra da mulher amada, mas nunca se declara. Ela se casa, se descasa, vai se casando e descasando, e ele, nos intervalos, reaparece. Só nos intervalos. Mas continua não se declarando. Há homens assim, audazes só na imaginação e no pensamento. São capazes de consumir anos em torno de uma mulher, como satélites, e receiam pedir-lhe uma coisa simples, uma bobagem qualquer, como a companhia em um almoço ou um café.

WISLAWA SZYMBORSKA – As epopeias de Wislawa Szymborska não precisavam de campos extensos, de imensos territórios, e seus participantes poderiam ser um tapete, um filete de sol, um gato espreguiçando-se no sofá. Sua poesia nunca exigiu nada mais grandioso que isso. Coisas como um bocejo do gato ou a audácia do voo de uma mosca da persiana para a mesa da sala, sobre uma perigosa jarra de água, davam à cena o tom épico.

MARIANA IANELLI – Escrever é um dom que Mariana Ianelli e mais alguns poucos têm.

UM DOS TRÊS – Convidaram-no a ser um escritor-fantasma, e ele, pondo-se à disposição, disse que três eram suas especialidades: Dante, Cervantes e Shakespeare.

quarta-feira, setembro 6

Leitura não tem idade

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'Não sei se tenho forças para escrever outro romance'

Autor de cerca de trinta volumes entre poesia, ensaios, roteiros de cinema e livros de memórias, Paul Auster é mais conhecido por sua ficção. Seu décimo-sétimo romance, publicado em inglês no final de janeiro passado, aparece agora em espanhol depois de sete anos de silêncio na ficção – no Brasil o livro ainda não tem data de lançamento, mas já está traduzido para Portugal pela editora ASA. Com um título enigmático, 4321 (Seix Barral, traduzido por Benito Gómez Ibáñez) é uma proposta narrativa radicalmente diferente das anteriores. A conversa acontece em uma aconchegante sala de estar de sua casa no Brooklyn, onde vive com sua esposa, a escritora Siri Hustvedt.

“Quando terminei Sunset Park estava mentalmente exausto e decidi deixar passar um tempo antes de escrever outro romance novamente. Eu me dedique a dois livros autobiográficos: Diário de Inverno e Relatório do Interior. Foi uma forma, especialmente com o segundo, de voltar ao território apagado da infância. Era incrível ver como as memórias vinham à tona, não estava consciente de quanto tinha esquecido. Quando terminei esses livros comecei a acariciar a ideia de escrever um romance sobre as primeiras fases da vida de um indivíduo, desde o nascimento até a entrada no mundo dos adultos”.

A escrita exige uma entrega sem fissuras, abrir-se a toda dor e alegria. Fazer isso direito requer coragem moral

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4321 é um romance insólito dentro do cânone austeriano. Com 960 páginas é, de longe, seu livro mais extenso. O estilo também mudou. A prosa minimalista dá lugar a uma sintaxe arborescente, com frases longas e sinuosas. A base entre filosófica e noir dá lugar a uma narrativa costumbrista com uma ressalva importante. Em vez de uma peripécia argumentativa única recebemos quatro variantes possíveis da história do protagonista. “É a novela mais realista que já escrevi”, admite o autor. “Tudo é direto e imediato, sem truques ou ilusões. A única audácia é a estrutura. Ocorreu-me de repente, um dia quando estava lendo o jornal no meu escritório: em lugar da viagem de uma pessoa desde o nascimento até a idade adulta, contaria quatro caminhos distintos com variações sobre um fundo comum”.

A infância do protagonista de 4321 (ou de seus quatro avatares) tem muito em comum com a de Paul Auster. Archie Ferguson nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1947, como seu autor, apenas um mês depois que ele, em uma família de descendentes de imigrantes judeus da Europa Central. “A América dos anos cinquenta foi uma época feliz para mim. Minha grande paixão sempre foi o esporte, mas em paralelo desenvolvi um interesse desmedido pela leitura, algo até certo ponto inexplicável, porque na minha casa ninguém lia”.

– Quais foram os primeiros passos de Paul Auster na literatura? Que leituras foram decisivas na formação de sua sensibilidade?

– Comecei a escrever com nove anos, poemas sem nenhum valor, obviamente, mas que indicam algo importante: a poesia sempre foi uma presença fundamental na minha vida. Escrevi meus primeiros contos quando tinha 10 anos de idade. Aos 12 entreguei um muito longo ao professor e ele pediu que eu lesse em voz alta na frente de toda a classe.

Com 13 anos, leu tudo de Camus e grande parte da obra de Gide, além dos grandes romancistas russos. Duas leituras realizadas aos 15 anos causaram grande impacto nele, Cândido, de Voltaire, e especialmente Crime e Castigo, de Dostoiévski. “Aquele livro me deixou transtornado. Nunca tinha lido nada parecido; quando terminei decidi que se alguém tinha sido capaz de criar algo assim, eu também queria tentar”.

Esperando leitor

Assim começa o livro...

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St. Botolphs era um lugar velho, uma velha cidade à beira-rio. Havia sido porto no auge das flotilhas de Massachusetts e agora lhe restara uma fábrica de talheres e algumas poucas pequenas indústrias. Os nativos não achavam que tinha diminuído muito em tamanho ou importância, mas a longa lista dos mortos na Guerra Civil, parafusada no canhão sobre o gramado, era um lembrete de como a localidade fora populosa na década de 1860. St. Botolphs nunca mais arregimentaria tantos soldados. O gramado ficava à sombra de uns poucos olmos imensos e era cercado por prédios comerciais que davam no quadrado da praça. O edifício Cartwright, que dominava a face oeste da praça, tinha na sobreloja uma fileira de janelas ogivais, delicadas e reprovativas como as janelas de uma igreja. Detrás dessas janelas ficavam os escritórios da Eastern Star, o dr. Bulstrode, dentista, a companhia telefônica e o corretor de seguros. Os cheiros dessas salas — o cheiro de preparados dentais, cera
líquida, escarradeiras e gás de carvão — mesclavam-se no corredor do térreo como um aroma do passado. Em meio à chuva forte do outono, num mundo repleto de transformações, o gramado de St. Botolphs dava a impressão de uma permanência insólita. Na manhã do Dia da Independência, quando começava a concentração do desfile, o local parecia próspero e festivo.

Os dois garotos Wapshot — Moses e Coverly — estavam sentados num gramado na Water Street vendo a chegada dos carros alegóricos. O desfile misturava livremente temas espirituais e comerciais, de modo que junto ao Espírito de 76 vinha uma velha carroça de entregas com uma placa que dizia peixe fresco é no sr. hiram. As rodas da carroça, as rodas de todos os veículos do desfile, tinham sido decoradas com papel crepom vermelho, branco e azul e havia bandeirolas por toda parte. A fachada do edifício Cartwright estava engalanada de bandeirolas.Pendiam em dobras sobre a fachada do banco e brotavam de todos os caminhões e carroças.

Os garotos Wapshot estavam de pé desde as quatro; sonolentos e sentados debaixo do sol quente, pareciam sobreviventes do feriado. Moses queimara a mão com os fogos. Coverly perdera as sobrancelhas em outra explosão. Moravam numa propriedade a pouco mais de três quilômetros da cidade e tinham subido o rio numa canoa, de madrugada, quando o ar da noite fazia parecer morna a água que respingava do remo na mão deles. Haviam forçado uma janela na Igreja de Cristo como sempre faziam e tocaram o sino, acordando mil passarinhos, muitos moradores e todos os cachorros dentro dos limites da cidade, inclusive o cão de caça dos Pluzinski a quilômetros de distância  na Hill Street. “Devem ser os garotos Wapshot.” Moses ouvira uma voz vinda da janela escura da casa paroquial. “Vai dormir.” Coverly tinha dezesseis ou dezessete anos na época — claro como o irmão mas pescoçudo, com um certo jeito de padre e o péssimo costume de estalar os dedos. Mente alerta e sentimental, ele se preocupava com a saúde do cavalo da carroça do sr. Hiram e olhava com pesar para os internos do Repouso do Marujo — quinze ou vinte homens muito idosos que pareciam absurdamente exauridos sentados em bancos num caminhão. Moses fazia faculdade e atingira o ápice da maturidade física no ano anterior, quando lhe surgira o dom da autoadmiração criteriosa e tranquila. Agora, às dez horas, os garotos estavam sentados na grama esperando a mãe assumir seu lugar no carro do Clube da Mulher.

terça-feira, setembro 5

Leitura ao luar

O relógio

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Aqui, neste salão também, estava ele… o imenso relógio de ébano, com o balançar triste, preguiçoso, monótono de seu pêndulo; e… ao bater da hora, saía de seus pulmões de bronze o som claro e alto, profundo e extraordinariamente musical, de melodia e relevo tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra eram obrigados a parar para dar atenção ao som; e os dançarinos forçosamente cessavam suas evoluções, dando lugar a uma breve inquietação do alegre grupo; e, enquanto os carrilhões do relógio ainda tocavam, a falta de seriedade esvanecia, e os mais velhos e serenos levavam a mão à fronte como que num confuso devaneio ou meditação.


Mas, ao cessar dos suaves ecos musicais, a assembleia impregnava-se de risos leves… e (eles) sorriam do seu nervosismo... sussurravam juras de que o tocar do próximo carrilhão não lhes provocaria emoção semelhante; e então, depois do intervalo dos sessenta minutos... um outro tocar de carrilhão do relógio, seguido da mesma inquietação, agitação e meditação de antes. Mas, apesar de tudo, aquilo era um alegre e esplêndido festim…
Edgar Allan Poe, “A máscara da morte rubra”

sábado, setembro 2

Sábado de arrumação

Piet van der Hem  The Librarian  Mid-20th century
Piet van der Hem 

As muitas almas

-Reading..
Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e se fortalece
Carlos Ruiz Zafón, "A Sombra do Vento"

Estrela no banho

Eloquência singular

Mal iniciara seu discurso, o deputado embatucou:

— Senhor Presidente: eu não sou daqueles que...

O verbo ia para o singular ou para o plural? Tudo indicava o plural. No entanto, podia perfeitamente ser o singular:

— Não sou daqueles que...
Bombay, India, 2010, _DSC7650, INDIA-11051

Não sou daqueles que recusam... No plural soava melhor. Mas era preciso precaver-se contra essas armadilhas da linguagem — que recusa? — ele que tão facilmente caia nelas, e era logo massacrado com um aparte. Não sou daqueles que... Resolveu ganhar tempo:

— ...embora perfeitamente cônscio das minhas altas responsabilidades como representante do povo nesta Casa, não sou...
Daqueles que recusa, evidentemente. Como é que podia ter pensado em plural? Era um desses casos que os gramáticos registram nas suas questiúnculas de português: ia para o singular, não tinha dúvida. Idiotismo de linguagem, devia ser.

— ...daqueles que, em momentos de extrema gravidade, como este que o Brasil atravessa...

Safara-se porque nem se lembrava do verbo que pretendia usar:

— Não sou daqueles que...

Daqueles que o quê? Qualquer coisa, contanto que atravessasse de uma vez essa traiçoeira pinguela gramatical em que sua oratória lamentavelmente se havia metido de saída. Mas a concordância? Qualquer verbo servia, desde que conjugado corretamente, no singular. Ou no plural:

— Não sou daqueles que, dizia eu — e é bom que se repita sempre, senhor Presidente, para que possamos ser dignos da confiança em nós depositada...

Intercalava orações e mais orações, voltando sempre ao ponto de partida, incapaz de se definir por esta ou aquela concordância. Ambas com aparência castiça. Ambas legítimas. Ambas gramaticalmente lídimas, segundo o vernáculo:

— Neste momento tão grave para os destinos da nossa nacionalidade.

Ambas legítimas? Não, não podia ser. Sabia bem que a expressão "daqueles que" era coisa já estudada e decidida por tudo quanto é gramaticóide por aí, qualquer um sabia que levava sempre o verbo ao plural:

— ...não sou daqueles que, conforme afirmava...

Ou ao singular? Há exceções, e aquela bem podia ser uma delas. Daqueles que. Não sou UM daqueles que. Um que recusa, daqueles que recusam. Ah! o verbo era recusar:

— Senhor Presidente. Meus nobres colegas.

A concordância que fosse para o diabo. Intercalou mais uma oração e foi em frente com bravura, disposto a tudo, afirmando não ser daqueles que...

— Como?

Acolheu a interrupção com um suspiro de alívio:

— Não ouvi bem o aparte do nobre deputado.

Silêncio. Ninguém dera aparte nenhum.

— Vossa Excelência, por obséquio, queira falar mais alto, que não ouvi bem — e apontava, agoniado, um dos deputados mais próximos.

— Eu? Mas eu não disse nada...

— Terei o maior prazer em responder ao aparte do nobre colega. Qualquer aparte.

O silêncio continuava. Interessados, os demais deputados se agrupavam em torno do orador, aguardando o desfecho daquela agonia, que agora já era, como no verso de Bilac, a agonia do herói e a agonia da tarde.

— Que é que você acha? — cochichou um.

— Acho que vai para o singular.

— Pois eu não: para o plural, é lógico.

O orador seguia na sua luta:

— Como afirmava no começo de meu discurso, senhor Presidente...

Tirou o lenço do bolso e enxugou o suor da testa. Vontade de aproveitar-se do gesto e pedir ajuda ao próprio Presidente da mesa: por favor, apura aí pra mim, como é que é, me tira desta...

— Quero comunicar ao nobre orador que o seu tempo se acha esgotado.

— Apenas algumas palavras, senhor Presidente, para terminar o meu discurso: e antes de terminar, quero deixar bem claro que, a esta altura de minha existência, depois de mais de vinte anos de vida pública...

E entrava por novos desvios:

— Muito embora... sabendo perfeitamente... os imperativos de minha consciência cívica... senhor Presidente... e o declaro peremptoriamente... não sou daqueles que...

O Presidente voltou a adverti-lo que seu tempo se esgotara. Não havia mais por que fugir:
— Senhor Presidente, meus nobres colegas!

Resolveu arrematar de qualquer maneira. Encheu o peito de desfechou:
— Em suma: não sou daqueles. Tenho dito.

Houve um suspiro de alívio em todo o plenário, as palmas romperam. Muito bem! Muito bem! O orador foi vivamente cumprimentado.

Fernando Sabino

sexta-feira, setembro 1

Leitora aventureira

A pedra mágica

 Díficil elección: muchos libros interesantes para elegir en la biblioteca (ilustración de autor desconocido)
Se me pedem para escolher o acontecimento principal de minha ida, digo que  foi a biblioteca de meu pai
Jorge Luís Borges

O estraga-surpresa

Todo mundo tem aquele amigo(a) chato(a) que adora dar spoiler (Foto: Reprodução)

Furto de flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.

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Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Carlos Drummond de Andrade, " Contos plausíveis"

Dica de passeio

Fachada em aquarela da Buxton Village
 Books, Carolina do Norte (EUA) 

Por que a sua escola deveria ter uma biblioteca?

A resposta poderia começar com uma explicação bem direta: porque está na lei Nº 12.244, promulgada em 2010. Mas a legislação para bibliotecas escolares é apenas o fim de uma longa história por trás do direito ao livro. É preciso, sobretudo, compreender o direito à arte, à cultura e à informação que as bibliotecas proporcionam e o papel da escola nesse cenário.

Apesar de sermos um País democrático, há pouca democracia no acesso a espaços culturais, muitas vezes reservados a grupos sociais com maior poder aquisitivo ou onde a mobilidade seja mais fácil, como nos grandes centros urbanos. Segundo dados do IBGE de 2015, poucas cidades brasileiras dispõem de museus (37%), teatros (23,4%) ou cinemas (10,5%).

O mundo digital, apesar da potência para disseminar cultura e conhecimento, também está distante de boa parte das crianças e jovens de escolas públicas devido à má qualidade do acesso à internet e da falta de preparo para lidar com a cultura digital. Apenas 56% das escolas públicas utilizam os laboratórios de informática disponíveis, de acordo com a recém divulgada pesquisa TIC Educação 2016.

Outro dado interessante é o da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2015 que aponta que 30% da população brasileira nunca comprou um livro. Isso é compreensível, dado que, por uma série de fatores que vão desde as pequenas tiragens até o custo da matéria-prima, o livro ainda é artigo de luxo por aqui.

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É nessa aridez de circulação de ideias e arte, portanto, que as bibliotecas escolares surgem não apenas como equipamentos fundamentais para o incentivo ao hábito da leitura como também espaço de contato com diferentes suportes tecnológicos e diversidade cultural, como pontua Sandra Medrano, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC.

Os dois modelos presentes nas escolas brasileiras são as salas de leitura e as bibliotecas. O primeiro não exige bibliotecário e o segundo, sim. Independentemente disso, os dois funcionam como canais de promoção da leitura e da cultura e devem estar presentes em todos os estabelecimentos de ensino. Mas não é isso o que acontece. Segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica, do Todos Pela Educação, em parceria com a Editora Moderna, apenas 13,3% das pré-escolas têm salas de leitura; 46,4% das escolas de Ensino Fundamental têm bibliotecas ou salas de leitura; no Ensino Médio, o índice é de 86,5%.

Além disso, ter o espaço não é tudo. Dada sua centralidade na democratização do saber e da fruição estética, as bibliotecas ou salas de leitura precisam contar com acervos, equipamentos e profissionais de qualidade. Medrano descreve algo que em nada lembra o modelo que vem à mente de muitos quando se fala de bibliotecas:

- Deve ter uma variedade de materiais impressos e digitais: livros, revistas, jornais, gibis, folhetos, fanzines, considerando a diversidade de gêneros e a diversidade da produção.

- Deve contar com meios para acesso às produções e às novas formas de leitura, computadores, tablets, leitores digitais e com formas para produção e compartilhamento de informações, como projetores, filmadoras, copiadoras, máquinas fotográficas etc.

- É preciso contar com uma equipe de profissionais formada e consciente de suas atribuições como mediadores e formadores de leitores. Profissionais que possam criar e propor atividades de exploração e apropriação dos acervos e também de buscas de novas fontes, que formem estudantes interessados pela informação.

- O local também deve contar com espaço para exposição e acesso facilitado aos acervos (físicos e digitais) e equipamentos, mobiliário que permita o manuseio.

Dessa maneira, não se trata de juntar num canto uma série de livros que logo se transformam em depósito de poeira. Christine Fontelles, outra especialista no assunto e coordenadora da campanha "Eu Quero Minha Biblioteca", além de endossar todos os pontos levantados por Medrano também destaca a importância da abertura das bibliotecas escolares à comunidade. Esse equipamento deve permitir que os livros circulem entre alunos e pais (seja via empréstimo, seja em atividades de compartilhamento de leitura), fortalecendo uma comunidade leitora mais ampla. Na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo, acontece uma experiência inspiradora.

A rede municipal de ensino oferta, desde 2007, as Bibliotecas Escolares Interativas (BEIS) que abrem uma vez por semana para que pais e vizinhos possam utilizar o espaço e fazer empréstimos.

A sala de leitura ou biblioteca também deve estar orientada ao público que ela atende, é o que pontua Fontelles, fornecendo um acervo com obras que atendam à demanda dos frequentadores, sem deixar de lado a qualidade literária, e organizado de maneira a facilitar o acesso – por exemplo: acervos com sessões separadas por cores.

Caso a escola de sua comunidade não tenha biblioteca ou o potencial da existente esteja sendo mal explorado, fale com a direção da escola. Vale ressaltar que as creches e pré-escolas também devem possuir salas de leitura ou bibliotecas, pois a cultura escrita não tem idade e quanto mais cedo o contato com ela maiores as chances de desenvolver bem o hábito leitor.

Como foi citado no início do texto, a biblioteca escolar é assegurada em lei e deve ser universalizada até 2020. Apesar disso, nem mesmo o Governo Federal, responsável pela compra dos acervos, tem colocado esses equipamentos em sua lista de prioridades. Desde 2013, o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) está paralisado e não compra livros.

Sociedade e poder público devem trabalhar juntos pela universalização e garantia de qualidade das bibliotecas escolares e salas de leitura. Negligenciá-las é negar uma Educação Integral, o direito à arte e à cultura.

Ricardo Falzetta, com Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação