quarta-feira, setembro 13

Assim começa o livro...

Estou morando na Villa Borghese. Não tem uma sujeirinha, uma cadeira fora de lugar. Estamos totalmente sós aqui e mortos.

Na noite passada, Bóris descobriu que estava com piolhos. Tive de raspar o sovaco dele e, mesmo assim, a coceira continuou. Como alguém pode ter piolhos num lugar tão bonito como esse? Mas não interessa. Não fossem os piolhos, Bóris e eu jamais nos conheceríamos tão intimamente.

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Bóris acaba de me fazer um resumo de suas ideias. É um profeta da meteorologia. Diz que o tempo vai continuar ruim. Vai haver mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há qualquer sinal de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está nos corroendo. Nossos heróis se mataram, ou estão se matando. O herói, portanto, não é o Tempo, mas a Ausência de Tempo. Temos de acertar o passo, um passo ritmado, rumo à prisão da morte. Não há saída. O tempo não vai mudar.

É outono no meu segundo ano em Paris. Não tenho ideia do motivo por que me mandaram para cá.

Não tenho dinheiro, recursos nem esperança. Sou o homem mais feliz do mundo. Há um ano, há seis meses, achei que era artista. Não acho mais, eu sou. Tudo o que era literatura se soltou de mim. Não há mais livros a serem escritos, benza-o Deus.

E este aqui? Este não é um livro. É uma difamação, uma calúnia, uma falta de caráter. Não é um livro no sentido comum da palavra. Não, este é um longo insulto, uma cusparada na cara da Arte, um chute na bunda de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza, do que você quiser. Vou cantar para você, meio desafinado talvez, mas vou. Cantarei enquanto você grasna, dançarei em cima do seu cadáver sujo.

Para cantar, é preciso primeiro abrir a boca. Precisa também ter dois pulmões e conhecer um pouco de música. Não precisa acordeão ou violão. O importante é querer cantar. Portanto, essa é uma canção. Estou cantando.

terça-feira, setembro 12

Manhã de espera

Descoberta

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Aos quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei altiva, porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. 
Clarice Lispector

Coração de leitor

Laten las palabras en nuestras venas. Bombea el libro narraciones que nos dan vida (ilustración de Javad Takjoo)
Javad Takjoo 

Aos 70 anos, Paulo Coelho ainda é o nosso maior péssimo escritor

Paulo Coelho acaba de completar 70 anos com uma espécie de cadeira cativa no Top 10 dos romancistas mais lucrativos do planeta. Ultrapassou a marca dos 210 milhões de exemplares. É tanto livro que, se os outros 100 escritores brasileiros de maior destaque vendessem, por cabeça, apenas 1% do que Paulo Coelho vendeu até agora, finalmente teríamos atividade literária paga no país — e paga em milhões.

É claro que a crítica sempre detestou o mago. Parágrafos mal escritos, pobreza vocabular, diálogos artificiais, personagens estereotipadas, todos os defeitos imagináveis foram atribuídos aos seus livros. A academia, então, é melhor nem mencionar. Mestrandos e doutorandos que se atreveram a estudar a obra de Paulo Coelho receberam vaias em congressos e simpósios sobre literatura.

Os números acima, porém, indicam que o jogo aqui é outro.

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Nos anos 80, quando os primeiros livros de Paulo Coelho apareceram nas livrarias, o país tinha acabado de sair de um período de censura e repressão. Uma nova era se anunciava no horizonte. Que conquistas, que maravilhas, que fabulosas peças culturais surgiriam para o júbilo dos brasileiros e o deleite do universo? Um novo Guimarães Rosa, uma nova Garota de Ipanema, uma nova Bossa Nova?

Nada disso.

Surgiu um carioca mitômano com cara-de-pau suficiente para declarar que tinha poderes sobre a natureza. Dizia-se mago, ao que prontamente acrescentava: “a verdadeira magia está na vida das pessoas comuns”. Soou novo e irresistível. Os leitores estavam cansados daquela pose niilista dos intelectuais. Deus estava morto há tanto tempo que ninguém mais se lembrava do enterro. Era o momento de olhar para o céu, ou para dentro de si, e provar um pouco dessa tal magia que existe no cotidiano.

Enquanto os cadernos de cultura se enchiam de resenhas furiosas contra livros que, por venderem tanto, só podiam ser ruins, Paulo Coelho participava de todos os programas de entrevistas da TV, onde criou o maior e mais interessante personagem da sua obra: ele mesmo, um mago que escrevia, que tinha pensamentos profundos e que poderia mostrar o caminho.

Apresentava-se como uma espécie de Anakin Skywalker que havia cedido ao lado negro da força ao integrar uma tradição barra-pesada — “a esquerda da esquerda da magia negra” — mas depois voltara para a luz ao descobrir a verdade e aceitar a palavra de Deus no coração. Lorota? Não importa. Como contador de histórias, Paulo Coelho estava alimentando as pessoas com fantasia.

Ao mesmo tempo em que traduzia Jung para o vulgar, fazia cena com superstições infantis: nunca permitia que dissessem “seu último livro”, tinha que ser “seu livro mais recente”. Falava com reverência do seu mestre na misteriosa ordem de RAM, franzia o cenho ao repetir obviedades que tentamos esquecer (“todos que vivem vão morrer”) e recheava suas frases com as citações mais estapafúrdias, de Jesus Cristo a Bruce Lee, de Maomé a Neguinho da Beija-Flor.

E continuava controlando a natureza, é claro.

Num programa da extinta TV Manchete, alguém perguntou se ele se considerava o escritor mais importante do Brasil.

— Claro que sou — respondeu —, não porque eu tenha três livros na lista dos mais vendidos, mas porque os meus livros falam à alma e as pessoas que leem mudam, não porque eu, Paulo Coelho, escrevi, mas porque ali está a sabedoria de três, quatro, cinco mil anos atrás.

Por volta do ano 2000, uma guinada. Era preciso se reinventar. De repente não quis mais dizer que fazia chover ou tinha a capacidade de ficar invisível. Desejava superar a fase do mago que escrevia e ser reconhecido como um “escritor de verdade”, daí o seu movimento mais inesperado: candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Muita gente chiou quando Paulo Coelho foi eleito para a cadeira 21, mas o fato é que ele apenas mostrou que o rei estava nu. Depois de vestir o fardão de imortal — uma desforra contra os críticos —, recuperou os poderes mágicos e desapareceu. Os acadêmicos pensaram que o renome internacional do novo membro traria prestígio à agremiação, mas Paulo Coelho, hoje vivendo na Suíça, dificilmente menciona a última seita na qual foi recebido.

Pode ser um escritor de estilo frouxo, mas pintou e bordou no mundinho miúdo da literatura brasileira. Sua principal contribuição já está dada, e é preciosa num cenário carente de autocrítica. Escancarou a extraordinária grandeza da nossa mediocridade.

domingo, setembro 10

Comedouro

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Cada um carrega bibliotecas

Entre Lápis e Pincéis

Todo autor, todo poeta, é uma biblioteca em si
Marcelino Freire

Hora de levantar

durma com idéias - acorde com atitudes.

Assim começa o livro...

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Embora tivesse trinta anos, Bertha Young ainda passava por momentos como aquele, quando queria correr em vez de andar, dar passos de dança subindo e descendo da calçada, brincar de rolar um aro, jogar algo para cima e apanhar no ar ou ficar parada e apenas rir – à toa –, simplesmente rir à toa.

O que fazer se você tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da própria rua, de repente é tomada por uma sensação de êxtase, êxtase absoluto! – como se tivesse engolido um pedaço luminoso daquele sol da tarde e que ardesse em seu peito, irradiando uma chuvinha de centelhas em cada partícula, até cada uma das pontas dos dedos...?

Ah, não há maneira de explicar isso sem soar “embriagada e confusa”? Como a civilização é estúpida! Por que ter um corpo se é preciso mantê-lo fechado em um estojo como um raro, um raríssimo violino?

“Não, isso a respeito do violino não é exatamente o que eu quero dizer”, pensou, ao correr degraus acima, tatear na bolsa em busca da chave – que ela esquecera, como sempre – e chacoalhar a caixa de correio.

– Não é bem isso, porque... obrigada, Mary. – Ela entrou no vestíbulo. – A babá já voltou?

– Sim, Madame.

– E as frutas, chegaram?

– Sim, Madame. Chegaram.

– Pode trazer as frutas para a sala de jantar? Vou fazer um arranjo antes de subir.

A sala de jantar estava escura e bem fria. Ainda assim, Bertha tirou o casaco; não podia suportar aquele aperto nem mais um instante, e o ar frio envolveu seus braços. Mas em seu coração ainda permanecia aquele local luminoso e brilhante – aquela chuva de pequenas centelhas espalhando-se. Era quase insuportável. Ela quase não ousava respirar por medo de intensificá-la, contudo, respirava, respirava profundamente. Quase não ousou olhar para o espelho frio – mas olhou, e o espelho lhe devolveu uma mulher radiante, sorrindo, com lábios trêmulos, com grandes olhos escuros, e um ar de escuta, de espera por algo... divino... e ela sabia que algo aconteceria... inevitavelmente.

sábado, setembro 9

A manhã chegou

A duração das obras

"Education is the most powerful weapon which you can use to change the world.”  ― Nelson Mandela   Tekening van Selçuk Demirel

Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com uma época inteira do país, em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país, ou da civilização, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que é tão mortal como os Deuses, que começam mas não acabam, como acontece com o Tempo; e estão sujeitas apenas ao mistério final que o Destino encobre para todo o sempre (...)
Fernando Pessoa, "Heróstrato"

Hora de acordar!

fawnvelveteen:
“Albert Joseph Moore (1841 - 1893) | Red Berries, detail
”
Albert Joseph Moore (1841 - 1893)

Tecnologia do desapego

Dei todos os meus livros. Ou quase. De uns quatro mil, fiquei com uns 200, muitos com dedicatórias preciosas, alguns que ainda pretendo ler ou reler, mas o resto foi entregue a um livreiro alternativo, que os distribui em presídios, escolas e comunidades carentes, em sebos onde são vendidos a R$ 1, onde podem ser muito mais úteis do que enchendo minha estante.

Sim, uma estante cheia, como as várias que eu tinha, é bonito, aconchegante, uma bela decoração, símbolo de status cultural, mostra a sua história através do que você leu — e do que não leu. Mas muita gente ainda pode lê-los e se divertir, se emocionar e aprender com eles, como eu.

Há três anos, com as estantes de dois quartos lotadas, comecei a passar adiante os livros que lia e gostava para quem gosto e que goste de ler, parei a acumulação e comecei a circulação.

E fiz o mesmo com os CDs, depois de gravar no meu laptop o que gosto e saber que tudo está disponível no Spotify, no YouTube, no Vimeo...

Depois, doei ao Museu da Imagem e do Som (MIS) uns 700 livros sobre música e cinema brasileiros que vinha acumulando nos últimos 50 anos, quase todos já lidos. Aproveitei e doei todos os meus CDs e LPs de música brasileira, fiquei só com uns poucos autografados ou de valor afetivo. No MIS poderão ser muito mais úteis do que em minha casa.

E se precisar de algum livro para um trabalho, peço emprestado ao MIS.

Olhando o espaço vazio nas estantes, pensei: e por que não dar todos os outros livros, romances, ensaios, biografias, história, poesia, bons e ruins, que li e que não li, que ganhei, que nunca vou ler?

Pois é, não estão fazendo a menor falta. Pelo contrário, a casa ficou mais leve e espaçosa e fico mais feliz sabendo que eles vão ser lidos e ouvidos por muita gente que não poderia desfrutá-los.

Não se trata de “desprendimento” ou “generosidade”. É apenas um exercício de desapego, em meu próprio benefício, para meu bem-estar.

Não perdi nada, ganhei dois quartos em minha casa para melhor uso.

Pense nisso, é uma prova de amor pelos livros e discos. E pela tecnologia.

Mas novos livros e CDs não param de chegar.

Nelson Motta

sexta-feira, setembro 8

"Todos estes livros será minha! Eu vou lê-los e aprender sobre tudo!"  ... ... Meu tipo de Super Vilão - Um Livro Nerd, não, eu quero dizer uma Badass intelectual ... odeio admitir isso, mas pensamentos como este ter atravessado a minha mente de vez em quando :-) .... .. [artista / origem desconhecida] cómico, desenhos animados, Biblioteca, Humor

O inimigo em casa

Alberto lendo, 1915, Giovanni Giacometti (Suíça, 1868-1933), óleo sobre tela, Museu de Belas Artes do Cantão de Lausanne -
Giovanni Giacometti (1868-1933)
O filho de uma amiga (embaralhei um pouco os dados para que não o reconheçam) está vivendo momentos amargos. Tem 22 anos e é um gênio. Bilíngue em inglês e espanhol, ficou em primeiro lugar na prova de acesso à universidade na Espanha e foi destaque acadêmico do ensino médio. Após começar a faculdade em Madri, ele conseguiu uma prestigiosa bolsa internacional para continuar com os estudos nos Estados Unidos. Mas foi só entrar na universidade norte-americana que as coisas começaram a dar errado. Pegou uma doença atrás da outra, gripe, bronquite, gastrite; no final tinha tontura e taquicardia. Tirou notas ruins pela primeira vez na vida, que depois foram piorando. Foi diagnosticado com depressão e ansiedade – e voltou para casa sem concluir o curso. Ainda poderia regressar em setembro e, fazendo um esforço, salvar o ano e a bolsa. Mas se sente incapaz. “Não conseguia nem sequer entender o que me diziam. Era como se não soubesse falar inglês”, diz. 

Eis o maldito inimigo interior mostrando a cara. Nós, humanos, somos mesmo criaturas estranhas e doentes: como se a vida já não bastasse para nos importunar; como se a existência já não tivesse sua parcela de conflitos, de sofrimento, de adversários pentelhos, invejosos e malignos. Além de tudo isso, ainda nos transformamos na pior companhia para nós mesmos. É a chamada tentação do fracasso, uma obscura atração pelo agravo e a derrota, uma perigosa paquera com o abismo. Como diz minha amiga, a violinista Mirari: “É isso que faz com que você vá para a cama às 2h da madrugada mesmo quando precisa levantar às 6h no dia seguinte.”

O inimigo em casa. Convivemos com um tirano íntimo que torna tudo mais difícil para nós. E age de forma capciosa, de modo que muitas pessoas atravessam a existência ignorando que são elas mesmas que se prejudicam. Rejeitam certas promoções no trabalho, por exemplo, dizendo preferir uma vida mais simples, quando a verdade é que o desafio as deixa em pânico. Ou afirmam que não gostam tanto de escrever, de fazer teatro ou de se dedicar às corridas de motos; que tudo isso são meras curtições juvenis e que preferem ser advogadas ou algo assim. Mas o certo é que morrem de medo de tentar e não conseguir, de querer e não chegar.

Isso sem falar no campo sentimental, em que a autossabotagem alcança níveis altíssimos. Assim, pode ser que a pessoa reclame amargamente de sua falta de sorte no amor, sem perceber que sempre escolhe o parceiro inadequado: o que vive muito longe, o que já está comprometido e carece de futuro. E também existe o caso clássico de forçar uma ruptura porque você tem medo de que a outra pessoa termine antes. Ou faz isso sentido que está bem demais com ela, e – como essa felicidade haverá de acabar um dia – prefere desferir um golpe no próprio peito agora para não sofrer mais depois. O medo da felicidade e a tentação do fracasso são as duas caras da mesma moeda.

Claro que nem todo mundo é autodestrutivo. No entanto, quem nunca sentiu em seu interior essa bola de neve da insegurança, que ameaça destruir tudo? Basta ser perfeccionista demais, basta falhar em algo que te interesse muito, basta sentir sua própria fragilidade e não saber assumi-la para você começar a se boicotar, para que seja cada vez mais incapaz de fazer as coisas bem, para desejar sair correndo em direção ao precipício, e que o final seja rápido, morrer já para não ter que continuar suportando a agonia da luta, alcançar a passividade final dos vencidos, a congelada paz dos cemitérios.

Eu adoraria poder dizer ao filho da minha amiga que sua insegurança pode ser sanada com o tempo, mas a verdade é que acredito que essa linha de sombra nos acompanha sempre. O que podemos é aprender a conviver com ela, a desdramatizar nossos dramatismos, a não dar tanta importância às derrotas. Ninguém fracassa em tudo, assim como ninguém triunfa em tudo. A frustração faz parte da vida. Os medos são sempre maiores que as feridas reais. E ninguém tem uma opinião tão ruim de você quanto o seu maldito inimigo interior.

Rosa Montero

Sexta-feira boa para passear

Emily Sutton

Livro, esse transformador

Preparando el otoño y sus lecturas (ilustración de Yvonne Zomerdijk )
 Yvonne Zomerdijk

Somos sub-educados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que não faço grande distinção entre a ignorância do meu concidadão que não sabe absolutamente ler nada, e a ignorância do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crianças e inteligências medíocres. Deveríamos estar à altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primacialmente quão grandes eles foram. Somos uma raça de homens-passarinhos; nos nossos voos intelectuais mal nos alçamos um pouco acima das colunas do jornal. 

Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exatamente à nossa condição, as quais, se de facto pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas.

Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.

As mesmas questões que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens sábios; nenhuma foi omitida, e cada um deles respondeu de acordo com a sua capacidade, por meio de palavras ou da própria vida. De mais a mais, juntamente com a sabedoria aprendemos a liberalidade.

Henry David Thoreau (1817 - 1862)

quinta-feira, setembro 7

Pronto para a viagem

A qué mares, a qué mundos, a qué descubrimientos nos llevará la lectura? (ilustración de Michelle Dowd)
Michelle Dowd

Sempre sós

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Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós
Ana Hatherly

Estoque para o feriadão