quinta-feira, outubro 12

Lembro do mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena

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As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, e O Sol É para Todos, de Harper Lee, foram retirados dos programas escolares do Condado de Virginia por reclamações de uma mãe cujo filho adolescente ficou perturbado, pois os livros tinham “insultos raciais e palavras ofensivas”. Isso aconteceu nos Estados Unidos, mas, como é lá que tudo começa (do nacionalismo rude ao clareamento dental), para lá nós vamos. Por isso quero expor meu pecado, do qual não me arrependo: para lembrar a mim mesa, quando os adolescentes forem almas tão sensíveis que não consigam ler Platero e Eu sem ir ao psiquiatra, como era esse mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena. Não me pesa, senhor, nem me arrependo de ter folheado, quando criança, livros que meus pais me pediram para não ler porque tinham cenas de sexo ou de violência, nem de ter lido as histórias bestiais de Horacio Quiroga, nas quais lindas menininhas eram degoladas por seus irmãos com deficiências mentais, nem do jato de entranhas de Santiago Nasar. Eu não sei o que de tudo isso me fez ser quem sou, alguém que era feliz mesmo quando achava que não era, que alguma vez leu, associada a Jack London, a frase “nenhum homem sobre mim” e fez dela seu escudo. Mas não me arrependo. Quando era pequena, li livros que me destruíram, como Os Filhos Terríveis, de Cocteau; que me deram pesadelos, como O País de Outubro, de Bradbury, ou que não entendi, como Morte em Veneza, de Thomas Mann. E não estive no inferno, mas sei como é porque li O Poço e o Pêndulo, de Poe. Quando este for um mundo cheio de adolescentes hipersensíveis que não podem comer um frango sem chorar, continuarei com minha presa entre os dentes, vivendo da maneira que os livros me ensinaram a viver. Gosto do meu mundo sujo, contraditório, imundo e baixo. Não o troco pelo lugar desinfetado que em breve será.

Para aproveitar o feriadão




Gennady Myznikov (1977) 

Anders Zorn (1860 -1920)

Carl Larsson  (1853-1919)

Assim começa o livro...

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Encontro -me esta noite numa hospedaria na cidade de Salisbury. O primeiro dia de viagem agora terminou, e, no fim das contas, devo dizer que estou bem satisfeito. A expedição começou hoje de manhã, quase uma hora mais tarde do que o planejado, apesar de eu ter terminado de fazer as malas e carregar o Ford com todas as coisas necessárias bem antes das oito da manhã. Pois como Mrs. Clements e as meninas também tiraram uma semana de folga, acho que estava muito consciente do fato de que, assim que eu partisse, Darlington Hall iria ficar vazia, quem sabe, pela primeira vez neste século — ou pela primeira vez desde que foi construída. Era uma sensação estranha e talvez por isso eu tenha demorado tanto para partir, vagando pela casa muitas vezes, certificando -me uma última vez de que estava tudo em ordem.

É difícil explicar os meus sentimentos quando finalmente parti. Durante os primeiros vinte e poucos minutos de viagem, não posso dizer que tenha sido tomado por nenhuma excitação ou expectativa. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que, embora eu rodasse para cada vez mais longe da casa, continuava a me ver em locais com os quais tinha ao menos uma passageira familiaridade. Ora, sempre achei que havia viajado muito pouco, tolhido como sou por minhas responsabilidades na casa, mas evidentemente, ao longo do tempo, a gente faz diversas excursões por uma ou outra razão profissional, e, ao que parecia, eu estava muito mais familiarizado com aquelas localidades vizinhas do que imaginava. Pois, como estava dizendo, ao rodar ao sol na direção da divisa de Berkshire, continuei me surpreendendo com quanto a paisagem me era familiar.

Mas então a paisagem acabou ficando irreconhecível, e entendi que havia ultrapassado todos os limites anteriores. Já ouvi pessoas descreverem o momento em que o barco abre as velas, o momento em que finalmente se perde a visão da terra. Imagino que a experiência de inquietação misturada com alegria que sempre acompanha a descrição desse momento seja muito semelhante ao que senti no Ford, quando a paisagem em torno ficou estranha para mim. Isso aconteceu logo depois que fiz uma curva e me encontrei em uma estrada que circundava a encosta de uma colina. Dava para sentir o íngreme precipício à minha esquerda, embora não pudesse vê -lo por causa das árvores e da densa folhagem que ladeava a estrada. Fui dominado pela sensação de que havia realmente deixado Darlington Hall para trás e devo confessar que senti um ligeiro sobressalto — sensação agravada pela desconfiança de que talvez não estivesse na estrada certa, e sim correndo na direção errada, para algum ermo. Foi só uma sensação momentânea, mas me fez reduzir a marcha. E, mesmo depois de ter me certificado de que estava no caminho certo, me vi compelido a parar o carro um momento para fazer um balanço, por assim dizer.

Resolvi descer e esticar um pouco as pernas, e quando fiz isso tive a sensação ainda mais forte de que estava empoleirado na encosta de uma colina. De um lado da estrada, moitas e pequenas árvores subiam íngremes, enquanto do outro conseguia agora entrever na folhagem os campos distantes.

quarta-feira, outubro 11

A escrita que nos toma

A dor do defunto e outros itens

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O defunto pergunta-se quando afinal vão enterrá-lo. Já lhe doem as costas e só espera que a tampa seja fechada, para poder virar-se e cochilar.

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Diz um escritor a outro: “Então ficamos assim. Se houver eternidade, nós nos encontramos lá. Se eu for primeiro, vai ser fácil você me achar. Eu estarei ao lado do Shakespeare.”

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Pelo sim, pelo não, continuarei imaginando que tenho alma. Pode ser útil, um dia.

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Um poeta há de estar preparado para interpretar ao menos o que lhe dizem as flores, a brisa e os pássaros.

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Se for escrever uma crônica, nunca cite um gato no início, a menos que esteja disposto a falar dele até a derradeira linha do último parágrafo. Um gato nunca pode ser senão o protagonista.

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O poeta é um tipo ao qual as pessoas devem se acostumar aos poucos.

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Se Deus se negar, não faltará diabo para nos carregar.

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No varal sem sol, o fantasma assusta-se com a cara de um lençol.

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O poeta está liberado para amar tantas vezes quantas suportar seu tolo coração.

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Alguns defuntos (quanta hipocrisia!) fingem que são sérios até no seu último dia.

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Era um poema concretista espetacular, com excelente vista, de frente para o mar.

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No fim da vida, quando dizem palavras como amor, os lábios formam o mesmo desenho que neles se vê quando dizem morte ou pedra.

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Nada vezes nada é tudo que você hoje pode multiplicar.

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Interessa-me a tristeza, desde a infância. Na alegria vejo sempre algo de grosseiro, de vulgar, algo que não diz respeito à minha índole, uma sanfona soando no meio de um noturno de Chopin.

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Se você for um frango com intenções artísticas, vá aconselhar-se com um poeta condoreiro.

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Estou muito velho e muito burro para procurar essas pessoas que ensinam outras a escrever.

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Aos gramáticos mais ferozes sempre resta a desculpa de que tiveram uma infância infeliz.

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Inquietação um palmo abaixo do umbigo ou é comichão ou sinal de perigo.

Raul Drewnick

terça-feira, outubro 10

Entrando na história

De fala mansa, cuidado

Sempre me dizia, baseado numa exaustiva experiência de vida: "Cuidado com os indivíduos de fala mansa e, mais que tudo, de olhar enviesado" E hoje verifico, juntando à dele a minha própria experiência, que há, como aqueles indivíduos, também os livros de fala mansa e de olhar enviesado, com os quais é preciso ter a máxima cautela, se não quisermos passar por uma decepção.
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Livros manhosos, que, parecendo tímidos, na estante, o que escondem, debaixo dessa timidez toda, é uma tremenda falsidade - a pior das falsidades, que é a falsidade literária 
Valdemar Cavalcanti, "Jornal literário"

Nunca vai aprender

"How to Be Better Than the Book" book

Por que procurar refúgio nos livros quando a realidade parece insuportável?

Foi abandonado, o mundo já não é maravilhoso. Como em um jet lag permanente, não consegue se conectar com a realidade que o envolve. Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego.


Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele.

Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável


Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: “Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior”.

Resenhas de biblioterapia

Remédios literários, de Ella Berthoud e Susan Elderkin. Um original e divertido livro sobre biblioterapia que fala do poder curativo da palavra escrita.

A leitura como plegária, de Joan-Carles Mèlich (sem edição no Brasil). Uma reflexão sobre a leitura e a escrita em 262 fragmentos filosóficos.

Por que ler os clássicos, de Italo Calvino. O escritor nos lembra que os clássicos nunca deixam de surpreender e resistir ao tempo.

Poema, de Rafael Argullol (inédito no Brasil). Um breviário contemporâneo erudito e sensível de reflexões sobre a condição humana e o discorrer do mundo.

Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri. A escritora indaga sobre as barreiras que personagens de diferentes culturas devem saltar em sua busca da felicidade.

A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. Um luminoso romance que na realidade é um poema capaz de nos reconciliar com nossa condição mortal.

Pequeno fracasso, de Gary Shteyngart. Depois de se mudar com sua família a Nova York, o garoto judeu russo Igor se transforma em Gary, um personagem que narra a experiência de viver dividido entre dois países que são inimigos.

Doce Canção, de Leila Slimani. Disseca as circunstâncias de um crime e lança luz sobre as contradições da sociedade atual.

segunda-feira, outubro 9

E lei se cumpre


Recorte de prosa

O carro do meu amigo contrabandista de uísque é cor de chocolate e comprido como um barco a vapor. Tem enfeites prateados da proa à popa como um banheiro de luxo. É forrado de couro avermelhado e provido, para emergências e conveniência, de todos os acessórios que a criatividade de seu fabricante pôde imaginar que meu amigo algum dia viesse eventualmente a necessitar ou desejar. Tudo, menos um caixão. É minha crença inabalável que na primeira oportunidade esse carro vai se vingar destruindo viciosamente seu dono.
William Faulkner, "Ratos do campo"

Leitura matutina

Cómo aprenden a leer los animales? (autor desconocido)

Assim começa o livro...

Na terceira noite depois do Ano-Novo — no vigésimo quarto dia do cerco a Budapeste —, no esconderijo de um grande imóvel do centro da cidade, uma jovem decidiu que sairia do edifício sitiado, atravessaria para o outro lado da rua transformada em campo de batalha e, de todo modo e a qualquer preço, se reuniria ao homem que fazia três semanas se amontoava com cinco outras pessoas no refúgio do porão emparedado do casarão em frente. O homem era o pai da jovem, e a polícia política, mesmo então, no período da confusão e da ruína final, o procurava com determinação e especial diligência.

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A jovem não era uma “heroína”; ao menos não se sentia assim. Havia semanas ela não sentia nada a não ser o cansaço que sentimos depois de um esforço tremendo, quando a alma acredita que ainda suporta a fadiga mas o corpo, de súbito, começa a se rebelar, o estômago responde com náuseas a tudo o que acontece e o organismo fica impotente, como se estivesse envolto num lençol de chumbo. O corpo humano sente esse cansaço definitivo, nauseante nas canículas selvagens, nos dias úmidos, escaldantes de verão.

A jovem tinha razões para a estafa: vivia sem casa havia meses, o pai se escondia em perigo mortal. Fazia dez meses que ela ocultava o pai e também outros, refugiados, fugitivos, que, no mundo que se desfazia, buscavam por uma noite um lar, um abrigo ocasional; e, nas últimas semanas, também ela se vira obrigada a sobreviver “fora da lei”, porque na faculdade, onde cursava o último ano, os colegas não cederam aos alemães e ela não embarcara com eles no trem que, na Alemanha, salvaria dos russos a juventude universitária. E assim ela também contava como uma fugitiva militar e se escondia com papéis falsos. Mas ela não se importava muito com isso, como outros também não se importavam com esses detalhes miúdos. Os russos já tinham transposto os bairros periféricos, combatiam entre os quarteirões de casas do centro.

De acordo com os papéis falsos da jovem — que ela ganhara da filha de uma das mulheres responsáveis pela limpeza da faculdade —, ela se chamava Erzsébet Sós. Segundo os papéis, acabara de fazer vinte e três anos e era enfermeira hospitalar; para o observador superficial, isso tudo correspondia de uma maneira geral à realidade. Na verdade, por simples acaso, o nome Erzsébet coincidia: ela de fato se chamava Erzsébet. Nessa coincidência ela via um sinal dos céus, um salvo-conduto afortunado; não fora preciso trocar por outra letra o E bordado em suas roupas de baixo, o que também a alegrava, pois naqueles tempos ela nem tinha outra roupa de baixo além da que trazia no corpo. 

Às vezes, em momentos mais calmos e lúcidos — porque nas últimas semanas, em especial nas três semanas anteriores, quando seu pai havia sido emparedado no porão da casa em frente, ela se sentia como o doente febril, capaz de pensar e de fazer juízos objetivos apenas em determinados períodos! —, ela achava a história da roupa de baixo, a coisa pessoal dela com os papéis falsos, ridícula; ridícula, insignificante, cautela excessiva e preocupação desnecessária, pretensiosa. Como todos que nos meses anteriores, no período que se seguiu à ocupação alemã, obrigaram-se, por alguma razão, a se esconder, Erzsébet aprendeu todos os ardis desse modo de vida e, ao mesmo tempo, aprendeu também que, juntamente com o cuidado obrigatório, o destino cego comandava os homens nessas situações.

domingo, outubro 8

Mais uma utilidade dos livros

Los libros también sirven para hacer deporte, además de leer (ilustración de Maria Lavezzi)
 Maria Lavezzi

Saudade quase sem memória

Existe mesmo o tempo?
João Guimarães Rosa



“Anos e anos em busca de um objeto”, disse minha amiga, “e quando parei de procurá-lo, ele me encontrou.”

Que diabo de objeto é esse?

“Um pequeno demônio do passado: um relógio antigo. Quando eu tinha cinco anos, meu avô disse para minha mãe que um relógio não era presente de menina, mas era tudo o que ele tinha de valioso para a única neta. Foi a herança do meu avô. Uns dois meses depois, ele morreu. E eu cresci com ‘uma saudade quase sem memória, uma saudade que a gente nem sabe que tem’. A infância passou com rapidez: foi um salto para outro tempo. Às vezes, no meio da manhã, os ponteiros do relógio antigo marcavam três e cinco, ou quinze e cinco. Era a hora da tarde ou da madrugada, o dia ou a noite. Eu me esquecia de dar corda no relógio, o tempo parecia travado ou interrompido, os ponteiros permaneciam parados numa hora morta. Aí eu pensava nos intervalos da vida. Era uma diversão no fogo da adolescência, que já se apagava. Anos depois, essa diversão passou a aguçar minha memória: o que a gente esquece, e o que a gente não pode esquecer. O tempo no Brasil dá saltos perigosos: avança um tiquinho, tropeça, dá cambalhotas, retrocede muito e corre na direção do abismo. Lembro com nitidez um dia de 1990, ano de um confisco criminoso, feito pelos economistas do caçador de marajás. Naquele ano horrível, muita gente ficou na penúria, meu pai sofreu um enfarte e nos deixou. Tranquei minha matrícula na universidade, tive de trabalhar para sobreviver, minha mãe foi obrigada a vender o relógio. Mas eu não parei de ler. O prazer da leitura prevaleceu sobre a dor do luto e a rotina tediosa do trabalho. O relógio não tinha para mim uma qualidade sobrenatural, era apenas um objeto que lembrava uma pessoa querida. De tanto observar as fotos do meu avô, pensei em escrever um retrato imaginário dele, de poucas páginas. Mas não consegui, e acabei escrevendo um soneto... Quer dizer: reescrevi um poema de um autor que admiro, nós reescrevemos o que lemos, um poema alheio pode ser meu ou de qualquer leitor.”

Um soneto sobre o tempo?

huariqueje:
“Bijing Reading - Unknown , 1910
Japanese
Colour lithograph, 18 x 35 cm.
”
“Sobre a arte da poesia, o que dá no mesmo. A conversão do ultraje dos anos em uma música, um rumor, um símbolo... Passei vinte e seis anos procurando o presente do meu avô, eu acreditava que um dia o comprador do relógio ia revendê-lo para mim. Esse objeto se tornou uma roseta metálica, um símbolo…”

Mas isso tem algo de mágico ou sobrenatural, eu disse.

Minha amiga abriu um sorriso e depois a bolsa, de onde tirou um relógio prateado, e colocou-o sobre a mesa. Era muito antigo, de algibeira, com uma longa corrente de prata, que formava na mesa uma fina serpente em espiral.

“Hoje, digo brincando que o relógio do meu avô não era exatamente um mecanismo para medir o tempo, e sim um joguete metafísico, uma diversão sem regras, cheia de indagações e dúvidas, que a gente lê nos livros de filosofia e literatura. Nossa mente existe sem uma sucessão de ideias no tempo? Nossa desordem interior não subverte qualquer ideia de sucessão? A dor, o desejo, o sofrimento e o afeto pertencem a alguma categoria temporal? Existe mesmo o tempo?”

E o poema, existe mesmo?

“Sim, no livro do poeta e na minha memória: Olhar o rio feito de tempo e água/ e recordar que o tempo é outro rio,/ saber que nos perdemos como o rio/ e que os rostos passam como a água…”

Leitura do pastor

the-flying-salmon:
“Reading, 1988, Nikolay Yuhta (Russia)
”
Nikolay Yuhta

Como o menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se tornou o 'maior ladrão de livros raros'

Eu só vi Laéssio chorar em duas ocasiões.

A primeira foi por raiva, quando um cliente fechou a porta em sua cara e ele, sem dinheiro para comprar sequer um sapato novo, sentiu-se humilhado. Já a segunda foi por amor - ao ler uma carta com um pedido de casamento enviada pelo namorado, detido em um presídio no Rio de Janeiro. Na maior parte do tempo, Laéssio não é de se lamentar. Um senso de humor abusado é seu traço mais marcante.

Laéssio Rodrigues de Oliveira

Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. "Essa história toda começou por causa dela", resumiu.

O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.

O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil.

Desde março deste ano, Laéssio está preso no Rio de Janeiro, depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal a mais dez anos e sete meses de prisão pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, também no Rio. Ainda cabe recurso.

"Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando 'ser riquíssimo', como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do c*ralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?"

Num intervalo de duas décadas, Laéssio trocou o anonimato do balcão de uma padaria em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pelas manchetes de jornais de todo o país. Montou três bancas de antiguidades e um sex shop batizado de Mae West em homenagem à atriz americana que "era tipo a Dercy Gonçalves", segundo ele. Também se especializou em Biblioteconomia e fez negócios com gente graúda.

Laéssio não ficou milionário, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar um confortável apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Também se permitiu pequenos luxos, como vestir um terno Armani, passear com o ex-marido a bordo de um Audi A3 ou de um Chrysler PT Cruiser e custear um imóvel no Guarujá, litoral paulista.

"Eu vivia num mundo encantado. Eu era uma bicha louca, desvairada, achava que aquilo nunca iria acabar, que nunca iria dar problema", confessa. Entretanto, torrou tudo tentando acertar as contas com a Justiça.

Desde aquela primeira ligação a cobrar que Láessio me fez em 2012, acumulei - além de incontáveis cartas - pilhas de processos judiciais, dezenas de horas de gravação e centenas de páginas de anotações feitas durante entrevistas em diversos locais, incluindo duas penitenciárias. Laéssio só topou me confidenciar sua história para que ela não ficasse encarcerada nas colunas policiais. "Eu não matei ninguém, cara. Vou me arrepender de quê? De que adquiri um monte de livro velho?"
'O que é que a baiana tem?'

A mãe de Laéssio é uma senhora miúda de 62 anos que trabalha passando roupa e cuidando de idosos. Ela tem o costume de concluir as frases com um simpático "num sabe?" carregado de sotaque nordestino. Refere-se ao mais velho dos seis filhos - que criou sozinha a partir dos 31 anos de idade - como "Grandaião", apesar de a compleição física de Laéssio nem de longe botar medo em quem quer que seja. "A família não quer nem saber desse assunto. É uma pena", lamenta, antes de cair num choro envergonhado.

Laéssio nasceu em Teresina, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança de colo, mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo. O pai trabalhava como eletricista. Quando bebia, costumava bater na esposa e era confrontado pelo primogênito, cujos trejeitos tiravam seu sono. O menino até chegou a ser levado a uma consulta médica para corrigir o suposto desvio. Mas não adiantou: depois que o pai morreu atropelado em uma rodovia, Laéssio saiu do armário, aos 15 anos de idade.

A mãe conta que desde muito cedo Laéssio era fissurado por gibis e jornais - inclusive, tinha o costume de empilhá-los no meio da sala. "Ele é muito inteligente, conversa sobre qualquer assunto", diz. De fato, Laéssio é capaz de discorrer por horas em tom professoral sobre cinema, música e todo tipo de arte vintage.

Foi uma obsessão adolescente pela atriz e cantora Carmen Miranda que levou Laéssio a mergulhar no universo dos papéis antigos. Depois de escutar O que é que a baiana tem? pela primeira vez no rádio, decidiu colecionar tudo o que estivesse ao seu alcance sobre a artista. "Talvez seja aquilo que ela mesmo diz na música: 'tem graça como ninguém'. Aquela brejeirice, como Dorival Caymmi disse uma vez, me dominou", explica.

Para alimentar a compulsão de fã, Laéssio passou a furtar. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Ao colocar os pés na biblioteca da instituição, nem precisou vasculhar as estantes. Seu olhar foi instantaneamente capturado pelo sorriso de Carmen Miranda estampado na capa de uma revista Fon Fon da década de 1940, em cima de uma mesa. Com a adrenalina a mil, certificou-se de que ninguém o vigiava, enfiou o exemplar na mochila e saiu andando.

"Aí comecei a minha peregrinação pelas bibliotecas. Tudo que era revista com a Carmen Miranda na capa eu saí levando. Comecei a ter paixão por aquilo", relata.
Leia mais o artigo de Carlos Juliano Barros, que assina com Caio Cavechini a direção do documentário "Cartas para um Ladrão de Livros"

sábado, outubro 7

Estão te esperando!

Dónde está el/la lector/a? (ilustración de Chuck Groenink)
Chuck Groenink

Releituras

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

Quando de molho...

Our love story, patient & nurse.... Although I don't recall reading Steven a book