
segunda-feira, novembro 6
Assim começa o livro...
Aos 15 anos eu tive hepatite. A doença começou no outono e terminou na primavera. Quanto mais frio e escuro o velho ano se tornava, mais fraco eu ficava. Só com o novo ano houve uma melhora. Janeiro foi quente, e minha mãe instalou minha cama na varanda. Eu via o céu, o sol, as nuvens e ouvia as crianças brincando no pátio. Numa tarde de fevereiro ouvi um melro cantando.
Em meu primeiro passeio andei da Blumenstrasse, na qual morávamos no segundo andar de um prédio imponente construído na virada do século, até a Bahnhofstrasse. Foi ali que eu tinha vomitado, numa segunda-feira de outubro, no caminho da escola para casa. Já havia alguns dias que eu estava fraco, mais fraco do que nunca em minha vida. Cada passo me exigia um grande esforço. Quando subia escadas em casa ou na escola, minhas pernas quase não me aguentavam. Também não queria comer. Mesmo quando me sentava à mesa com fome, logo sentia náuseas. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que os meus órgãos estavam pesados e fora de lugar.
Envergonhava-me estar tão fraco. Envergonhei-me especialmente quando vomitei. Isso também nunca havia acontecido comigo. Minha boca se encheu, eu tentei segurar, apertando os lábios, a mão diante da boca, mas tudo saiu por entre os dedos. Então me apoiei no muro de uma casa, olhando o que tinha vomitado a meus pés, e cuspi um líquido claro e pegajoso.
A mulher que cuidou de mim o fez de um jeito quase bruto. Ela pegou meu braço e me levou pela porta escura da casa até o pátio. Havia varais esticados de janela a janela e roupas penduradas. No pátio armazenava-se madeira; numa oficina aberta, a serra rangia e as farpas voavam. Ao lado da porta para o pátio havia uma torneira. A mulher abriu a torneira, lavou primeiro a minha mão e então jogou no meu rosto a água que tinha mantido nas mãos em concha. Enxuguei o rosto com o lenço.
– Pegue o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela apanhou um deles e o encheu. Eu apanhei e enchi o outro e a segui pela porta. Ela levantou o braço, a água jorrou na calçada levando o vômito para o ralo. Tirou o balde da minha mão e lançou mais água sobre a calçada. Ela se endireitou e viu que eu estava chorando.
– Menino – disse admirada –, menino.
Ela me envolveu nos braços. Eu era pouco mais alto do que ela, senti seus seios no meu peito, cheirei na estreiteza do abraço meu hálito ruim e seu suor fresco e não sabia o que devia fazer com os braços. Parei de chorar. Perguntou-me onde eu morava, pôs os baldes na entrada e me levou para casa. Andou ao meu lado, uma das mãos segurando a minha pasta e a outra sobre o meu braço. A distância da Bahnhofstrasse até a Blumenstrasse não é grande. Ela andava depressa e com uma decisão que me ajudava a manter o passo. À frente de nossa casa despediu-se.
No mesmo dia minha mãe trouxe o médico, que diagnosticou a hepatite. Em algum momento contei à minha mãe sobre a mulher. Não acredito que a teria visitado se não fosse isso. Mas para minha mãe era evidente que eu, logo que pudesse, iria comprar com meu dinheiro um buquê de flores, apresentar-me e agradecer. Desse modo, fui no fim de fevereiro à Bahnhofstrasse.
Envergonhava-me estar tão fraco. Envergonhei-me especialmente quando vomitei. Isso também nunca havia acontecido comigo. Minha boca se encheu, eu tentei segurar, apertando os lábios, a mão diante da boca, mas tudo saiu por entre os dedos. Então me apoiei no muro de uma casa, olhando o que tinha vomitado a meus pés, e cuspi um líquido claro e pegajoso.
A mulher que cuidou de mim o fez de um jeito quase bruto. Ela pegou meu braço e me levou pela porta escura da casa até o pátio. Havia varais esticados de janela a janela e roupas penduradas. No pátio armazenava-se madeira; numa oficina aberta, a serra rangia e as farpas voavam. Ao lado da porta para o pátio havia uma torneira. A mulher abriu a torneira, lavou primeiro a minha mão e então jogou no meu rosto a água que tinha mantido nas mãos em concha. Enxuguei o rosto com o lenço.
– Pegue o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela apanhou um deles e o encheu. Eu apanhei e enchi o outro e a segui pela porta. Ela levantou o braço, a água jorrou na calçada levando o vômito para o ralo. Tirou o balde da minha mão e lançou mais água sobre a calçada. Ela se endireitou e viu que eu estava chorando.
– Menino – disse admirada –, menino.
Ela me envolveu nos braços. Eu era pouco mais alto do que ela, senti seus seios no meu peito, cheirei na estreiteza do abraço meu hálito ruim e seu suor fresco e não sabia o que devia fazer com os braços. Parei de chorar. Perguntou-me onde eu morava, pôs os baldes na entrada e me levou para casa. Andou ao meu lado, uma das mãos segurando a minha pasta e a outra sobre o meu braço. A distância da Bahnhofstrasse até a Blumenstrasse não é grande. Ela andava depressa e com uma decisão que me ajudava a manter o passo. À frente de nossa casa despediu-se.
No mesmo dia minha mãe trouxe o médico, que diagnosticou a hepatite. Em algum momento contei à minha mãe sobre a mulher. Não acredito que a teria visitado se não fosse isso. Mas para minha mãe era evidente que eu, logo que pudesse, iria comprar com meu dinheiro um buquê de flores, apresentar-me e agradecer. Desse modo, fui no fim de fevereiro à Bahnhofstrasse.
domingo, novembro 5
Museu de Cusco: minha noite na cama de Bolívar

No dia 10 de Janeiro de 1970 tomei um trem para Cusco. Em Juliaca embarcou um mochileiro e sentou-se à minha frente e passamos a trocar nossas memórias de caminhantes. Era argentino, estava conhecendo o Vale Sagrado a caminho de Cusco, onde chegamos ao anoitecer. Ele não conhecia a cidade, estava com pouco dinheiro e me propus ajudá-lo. Eu planejava dormir numa peça aos fundos do Museu Histórico, como fazia antes de viajar para Lima, em Novembro. Trazia um bom dinheiro com a venda dos meus livretos em Arequipa e em Puno, mas não queria gastá-lo com hotel. Sabia que meu amigo Enrique Macias, o “Kiko”, já voltara de Arequipa e me aguardava. Como já disse anteriormente, Enrique Macias era o administrador do Museu Histórico de Cusco, cujo tio era o diretor e, como meses atrás eu e o equatoriano Simón Pachano dormíramos um tempo naquela peça do Museu, fui procurá-lo, como combinamos, mas também para pedir abrigo para o meu companheiro de viagem. Encontramos o “Kiko” na casa de seu tio e ele saiu connosco em direcção ao Museu. No caminho, nos disse que aquela peça onde eu já dormira estava ocupada com tralhas da instituição, mas que ele encontraria um lugar onde pudéssemos passar aquela noite. Abriu o museu e levou-nos por algumas salas em busca de um lugar para passarmos a noite. Finalmente, conduziu-nos para a parte nobre do museu, onde se encontravam as peças mais importantes da história de Cusco e nos disse:
--- Vocês dormirão esta noite na cama onde dormiu Simón Bolívar, quando passou por aqui.
Eu já sabia que aquela era a cama de Bolívar porque tudo ali me era familiar. Fiquei um pouco surpreendido com a cumplicidade que nascia entre nós três, afinal aquilo poderia se tornar um escândalo nacional e sul-americano: dois mochileiros suados, com a roupa do corpo, depois de uma longa viagem de trem, dormir na cama do grande caudilho e herói da independência hispano-americana. O argentino estava achando aquilo inacreditável e dizendo que dormir na cama de Bolívar seria a sua maior aventura desde que saira da Argentina. Eu abri minha mochila, tirei um pequeno cobertor e estendi com reverência sobre o colchão, para não macularmos com nossas transpirações, a história e o lugar onde dormiu um dia o Libertador da América. Que estranha honra nos aprontava o destino. Iríamos passar a noite dormindo naquela ampla sala da casa onde, também, quatrocentos anos atrás, vivera o grande Garcilazo de La Vega, chamado o Príncipe dos escritores do Novo Mundo. Não sei se pensei em tudo isso naqueles momentos. Estávamos cansados e quando deitamos naquele colchão duro só acordamos pela manhã com as palavras atropeladas do “Kiko” dizendo que levantássemos imediatamente, pois um funcionário do museu chegara antes dele a já abrira a porta para os turistas que caminhavam entre as salas. Foi a conta exata de enfiarmos os sapatos, pôr as mochilas nas costas, enquanto as vozes se aproximavam. Saímos disfarçando o olhar diante dos quadros, ante a surpresa dos turistas pois que sabiam eram os primeiros a entrar naquele salão. Na verdade senti-me constrangido pela imagem da instituição, mas o argentino segurava o riso.
Afastamo-nos discretamente, cabelos despenteados, cara de sono, ainda meios zonzos pelo súbito despertamento e sob os olhares de dois homens e três mulheres de meia idade que nos olhavam insistentemente, embora não ousassem imaginar, suponho, que havíamos dormido naquele local. Mas todo aquele momento mágico ficou preso ao seu próprio encanto e este facto somente foi contado, na época, em carta para meus familiares e está sendo publicamente relevado agora, nestas páginas. O argentino sumiu nos dias seguintes rumo a Pisac e a Machu Picchu, e eu me ajeitei, dormindo no chão, entre móveis e caixas que ocupavam a peça ao fundo do museu.
Se o gesto fraterno de Enrique Macias foi, para mim, apenas uma circunstancial aventura ou se foi um ultraje à memória de Bolívar, deixo o facto ao juízo dos meus leitores, mas não creio que nosso ato seja tão ultrajante à memória de Cusco como foram as concessões ao comércio elitizado, à instalação de boutiques de luxo e ao turismo de aparências que promoveu Alberto Fujimori em seu governo, maculando as tradições comerciais indígenas e a imagem cultural do Centro Histórico da cidade.
Manoel de Andrade, "Nos rastros da utopia"
Assim começa o livro...

Agora sou um cidadão americano e moro em Washington, capital do mundo. Muita gente, tanto aqui como na Índia, vai achar que me dei bem. Mas.
Eu era feliz em Bombaim. Era respeitado, tinha certa posição. Trabalhava para um homem importante. As pessoas mais respeitadas vinham aos meus aposentos de solteiro, desfrutavam minha comida e me cobriam de elogios. Eu também tinha meus amigos. Nós nos encontrávamos de noite no pátio sob a galeria de nossos aposentos. Alguns de nós, como o entregador do alfaiate e eu mesmo, eram empregados domésticos que moravam na rua.
Os outros eram pessoas que vinham àquele pedaço de pátio para dormir. Pessoas respeitáveis; não incentivávamos a presença de nenhum zé-ninguém.
De noite fazia frio. Havia poucos passantes e, fora algum táxi ou ônibus de dois andares esporádico, havia pouco trânsito. O pátio era varrido e lavado com esguichos de água, traziam as roupas de cama dos abrigos diurnos para o ar livre, acendiam pequenos lampiões. Enquanto as pessoas no primeiro andar conversavam e riam, no pátio líamos os jornais, jogávamos cartas, contávamos histórias e fumávamos. O cachimbo de barro passava de um amigo para o outro; ficávamos sonolentos. Exceto, é claro, na época das monções, eu preferia dormir no pátio com meus amigos, embora em nossos aposentos houvesse um cubículo inteiro, embaixo da escada, reservado para meu uso pessoal.
Depois de uma noite saudável ao ar livre, era bom acordar antes do sol e antes da chegada dos varredores. Às vezes eu via as lâmpadas da iluminação da rua se apagarem. As roupas de cama
eram enroladas; ninguém falava muito; e logo meus amigos corriam, numa competição silenciosa, para vielas isoladas, becos e terrenos baldios a fim de se aliviarem. Eu era poupado de tal competição; em nossos aposentos, eu dispunha de instalações sanitárias.
Mais tarde, durante mais ou menos meia hora, eu ficava livre para simplesmente passear. Gostava de caminhar à beira do mar da Arábia, à espera do nascer do sol. Nessa hora a cidade e o oceano rebrilhavam como ouro. Que saudades daquelas caminhadas matinais, daquele súbito deslumbramento do oceano, da brisa úmida e salgada no meu rosto, da minha camisa que sacudia ao vento, do primeiro chá doce e quente tomado numa barraquinha, o sabor do primeiro cigarro de palha.
Vejam os caprichos do destino. O respeito e a segurança que eu desfrutava deviam-se à importância de meu patrão. Foi essa mesma importância que destruiu, de um só golpe, o padrão da minha vida.
sábado, novembro 4
Uma rosa na campa de Homero
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| Darren Thompson |
Em todas as canções do Oriente soa o amor do rouxinol pela rosa. Nas noites calmas, claras de estrelas, o cantor alado faz uma serenata à sua odorosa flor.
Não longe de Esmirna, sob os altos plátanos, para onde o mercador puxa os camelos carregados que levantam orgulhosamente os pescoços altos e pisam desajeitados a terra, que é santa, vi um roseiral florido. Pombas bravas voavam entre os ramos altos das árvores e as suas asas cintilavam, quando um raio de sol tombava sobre elas, como se fossem de madrepérola.
No roseiral havia uma flor entre todas a mais bonita e era para esta que cantava o rouxinol as suas mágoas de amor. Mas a rosa estava silente, nem uma gota de orvalho havia, como lágrima de compaixão, nas suas pétalas. Curvava-se com o caule para baixo sobre umas pedras.
– Jaz aqui o maior cantor da terra! – disse a rosa. – Quero perfumar a sua campa. Sobre ela quero derramar as minhas pétalas, quando a tempestade as arrancar. O cantor da Ilíada tornou-se terra nesta terra, donde broto… Eu, uma rosa da campa de Homero, sou demasiado sagrada para florir para o pobre rouxinol!
E o rouxinol cantou até morrer.
O condutor de camelos chegou, com os seus camelos carregados e os seus escravos negros. O filhinho dele encontrou o pássaro morto. Enterrou-o na campa do grande Homero. E a rosa agitou-se ao vento. Veio a noite, a rosa fechou completamente as pétalas e sonhou… que era um belo dia de sol. Chegava uma multidão de estrangeiros, de francos. Faziam uma viagem de peregrinação, à campa de Homero. Entre os estrangeiros havia um cantor do Norte, da terra das neblinas e das auroras boreais. Arrancou a rosa, premiu-a num livro e levou-a consigo para outra parte do mundo, para a sua pátria distante. E a rosa murchou de pena e ficou no livro fechado, que ele abriu em casa, dizendo:
– Eis uma rosa da campa de Homero!
Ora vejam, isto sonhou a flor que acordou e estremeceu ao vento. Uma gota de orvalho caiu das suas pétalas na campa do cantor e o sol ergueu-se, o dia tornou-se quente e a rosa resplandeceu ainda mais bela do que antes – estava na sua Ásia quente. Ouviram-se então passos, vieram estrangeiros, francos, que a rosa vira no seu sonho e entre os estrangeiros havia um poeta do Norte. Este arrancou a rosa, premiu um beijo na sua boca fresca e levou-a consigo para a terra de neblinas e auroras boreais.
Como uma múmia repousa agora o cadáver da flor na sua Ilíada e como em sonho ouve ela abrir o livro a dizer: “Eis uma rosa da campa de Homero!”.
Hans Christian Andersen
Em leilão

Recebi um e-mail sobre leilões – e tê-lo-ia apagado imediatamente se não tivesse reparado, numa rápida vista de olhos, que a coisa iria ocorrer na Cooperativa Árvore, no Porto, um lugar de culto a que não sou indiferente. Deitei então um olhar mais demorado ao texto para ficar a saber que estava em causa o patrimônio de um senhor que conheci há muitos anos e é admirado por muitíssimas pessoas: o livreiro portuense Fernando Fernandes, segundo Agustina «o maior dos livreiros portugueses», fundador da Livraria Leitura, passagem obrigatória de tudo o que era intelectual e leitor sério na Invicta ao longo de várias décadas. Pois bem, os tempos mudaram e Fernando Fernandes é agora obrigado, por razões de saúde e necessidade, a «desfazer-se» de 4000 peças!, incluindo 120 obras de arte (de pintores como Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Zulmiro de Carvalho, Fernando Lanhas ou Júlio Resende) e 650 livros selecionados, como Poesias Completas (1951-1981), de Alexandre O´Neil, com dedicatória assinada; Quadros Portuenses, uma edição de luxo de Agustina Bessa-Luís – com 10 aguarelas de António Cruz; ou até As Quatro Estações, de Jorge Sena, Eugénio de Andrade, Faria Almeida e Vergílio Ferreira, ilustrado a cores em folhas à parte. Não consigo imaginar o que será para Fernando Fernandes separar-se de uma colecção como a sua, embora ele confesse que ainda fica com muitos livros para ler. Parece-me, de qualquer modo, um terrível sinal dos tempos. (Os leilões decorrem até amanhã.)
sexta-feira, novembro 3
O galo
Quando eu era menino, acordando cedo de madrugada, ouvia o galo cantar longíssimo, o canto forte diluía-se na distância, talvez viesse das abas redondas de Chapéu d’Uvas, ou das praias que eu imaginava no Mar de Espanha, sei lá, no cornimboque do diabo.
Nesse tempo não existiam galos no nosso terreiro.
Um dia abeirei-me do galinheiro manejando um bilboquê diante do galo; quis mostrar-lhe que o dominava, que ele seria incapaz de jogar bilboquê, jogo da moda. O galo farejou o objeto; julgando-o certamente esotérico sacudiu a plumagem, empinou a crista, abanou a cabeça rindo, um riso voltairiano, adstringente.
Polígamo que era, atacou à minha vista, alternativamente, duas galinhas carijó, cobrindo-as, contundente, claro que para me fazer despeito. Atirei o bilboquê ao chão, arma inútil, vencida.
Declarou-se o estado de guerra fria entre as duas potências. Eu não perdoava ao galo que seu canto eclipsasse o outro, longínquo, dos galos de talvez Chapéu d’Uvas ou Mar de Espanha. Minha ojeriza aumentou ao recordar-me que o galo denunciara São Pedro na noite da entrega de Jesus Cristo à polícia.
Tratava-se portanto de um espoleta, raça de gente que sempre odiei. Chegando a situação ao clímax, decidi atuar. Uma tarde penetrei precípite no galinheiro, marchando para o adversário; fora de mim, transtornado, ignorante de que o galo era um dos bichos consagrados a Apolo, sem rodeios nem consideração pela sua caleidoscópica plumagem, a raiva aumentando-me a força, estrangulei-o, pisando-lhe ainda as esporas. Satisfeito, reconciliado comigo mesmo, senti num relâmpago o prazer concreto de existir; vi-me justificado.
Nessa noite tornei a ouvir o canto remansoso dos galos distantes de Chapéu d’Uvas ou Mar de Espanha, preanunciador, por exemplo, da mozartiana Serenata em ré maior K. 320, especialmente na parte em que soa a trompa do postilhão. Era óbvio que aqueles galos pertenciam a outra raça, não à do quinta-coluna que denunciara São Pedro na noite da entrega de Jesus Cristo.
Nesse tempo não existiam galos no nosso terreiro.
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Até que um dia lá chegou um galo soberbo, fastoso, corpo real, portador de plumagem azul-verde-vermelha. Seu canto era agressivo: napoleônico. Os galos da distância cederam o passo a este outro próximo, tocável, fichável. Aproximei-me muitas vezes do galo, testando-o; ele baixava a cabeça para examinar-me, conferenciava com as galinhas-d’angola, bicando qualquer grão ou cisco; depois voltava a mim, levantando já agora a cabeça para marcar sua superioridade, talvez de tribuno, barítono, boxeador; desafiando-me a quê com a crista? O galo me atraía e repelia; eu receava que me bicasse, ou que me disparasse um jato de dejeções. Embora admirando-os, nunca me senti muito à vontade com os bichos; mesmo algumas plantas ou certos frutos, por exemplo a begônia e o maracujá causavam-me receio. Desde o começo a natureza pareceu-me hostil.
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Um dia abeirei-me do galinheiro manejando um bilboquê diante do galo; quis mostrar-lhe que o dominava, que ele seria incapaz de jogar bilboquê, jogo da moda. O galo farejou o objeto; julgando-o certamente esotérico sacudiu a plumagem, empinou a crista, abanou a cabeça rindo, um riso voltairiano, adstringente.
Polígamo que era, atacou à minha vista, alternativamente, duas galinhas carijó, cobrindo-as, contundente, claro que para me fazer despeito. Atirei o bilboquê ao chão, arma inútil, vencida.
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Declarou-se o estado de guerra fria entre as duas potências. Eu não perdoava ao galo que seu canto eclipsasse o outro, longínquo, dos galos de talvez Chapéu d’Uvas ou Mar de Espanha. Minha ojeriza aumentou ao recordar-me que o galo denunciara São Pedro na noite da entrega de Jesus Cristo à polícia.
Tratava-se portanto de um espoleta, raça de gente que sempre odiei. Chegando a situação ao clímax, decidi atuar. Uma tarde penetrei precípite no galinheiro, marchando para o adversário; fora de mim, transtornado, ignorante de que o galo era um dos bichos consagrados a Apolo, sem rodeios nem consideração pela sua caleidoscópica plumagem, a raiva aumentando-me a força, estrangulei-o, pisando-lhe ainda as esporas. Satisfeito, reconciliado comigo mesmo, senti num relâmpago o prazer concreto de existir; vi-me justificado.
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Nessa noite tornei a ouvir o canto remansoso dos galos distantes de Chapéu d’Uvas ou Mar de Espanha, preanunciador, por exemplo, da mozartiana Serenata em ré maior K. 320, especialmente na parte em que soa a trompa do postilhão. Era óbvio que aqueles galos pertenciam a outra raça, não à do quinta-coluna que denunciara São Pedro na noite da entrega de Jesus Cristo.
74% da população brasileira nunca comprou um livro
De acordo com a 4ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, desenvolvida em março de 2016 pelo Instituto Pró-Livro, mais da metade da população brasileira se considera leitora, porém apenas 4,96 livros são lidos por ano. Deste total, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes.
A pesquisa considera que é leitor quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. No entanto, os estudos mostram que 74% da população nunca comprou um livro e 30% dos entrevistados nunca leram uma obra.
Entre as principais motivações para a leitura estão gosto (25%), atualização cultural (19%), distração (15%), motivos religiosos (11%), crescimento pessoal (10%), exigência escolar (7%), atualização profissional ou exigência do trabalho (7%).
A Bíblia é o livro mais lido em qualquer grau de escolaridade. Outros títulos que foram citados como mais recorrentes foram: A Culpa É Das Estrelas, A Cabana, O Pequeno Príncipe, Cinquenta Tons de Cinza, Diário de um Banana, Crepúsculo, Harry Potter e Dom Casmurro.
Observatório do Terceiro Setor
quinta-feira, novembro 2
O resgate épico de 377.491 livros das mãos de jihadistas
A leitura e digitalização, pela primeira vez na história, das centenas de milhares de manuscritos antigos resgatados da cidade de Timbuktu durante a ocupação jihadista do norte de Mali em 2012 já estão dando seus primeiros frutos. Os historiadores e especialistas já sabiam da existência de manuscritos aljamiados, ou seja, escritos em línguas africanas, mas com caracteres árabes. Os papéis de Timbuktu, entretanto, revelam que a importância desses nas sociedades pré-coloniais da África Ocidental é superior ao que se supunha no início, já que estão aparecendo milhares de livros escritos em tamashek, wolof, soninke, bambara e songhay. A difundida e errônea ideia de que as línguas africanas eram somente orais continua indo pelos ares.
Em uma discreta casa de dois andares situada em uma afastada e tranquila rua de terra cheia de pedras e buracos do bairro de Baco Djikoroni, em Bamako, 80 funcionários da ONG Savama realizam uma titânica tarefa: a catalogação, restauração, leitura e digitalização dos 377.491 livros manuscritos procedentes, em sua imensa maioria, de Timbuktu e que datam dos séculos XIII ao XX. Tudo começou em 2012, com a ocupação jihadista do norte do país e a gigantesca operação de resgate e salvamento de todos esses papéis, que saíram camuflados em canoas, veículos particulares e ônibus durante meses.
O principal responsável por aquela operação é a mesma pessoa que hoje custodia os manuscritos e coordena os trabalhos de restauração, leitura e digitalização que começaram em 2013, o proprietário de uma das bibliotecas particulares da cidade, Abdelkader Haïdara. Sentado em seu escritório do segundo andar da sede da Savama, afirma com um sorriso: “Já catalogamos mais de 60% e digitalizamos um quarto do total. Isso nos deu a oportunidade de lê-los e ter muitas surpresas. A cada dia descobrimos coisas que não sabíamos que existiam, vemos autores e textos novos”.
Entre esses livros, que vão de poucas folhas até mais de mil, existem poemas, cartas, tratados de teologia, crônicas históricas, registros de doenças e até relatórios de guerra. “Encontramos manuscritos redigidos por comandantes militares aos seus generais escritos em línguas africanas. Pensamos que dessa forma pretendiam ocultar a informação do inimigo se o documento caísse em suas mãos”, diz Haïdara. Surgem mais exemplos na poesia. “Em árabe existem palavras muito complicadas para alguém que tenha um conhecimento superficial do idioma, por isso muitos poetas as traduziam a sua língua local e as colocavam em sua obra”, explica.
Mas como aconteceu com as línguas românicas, entre elas o espanhol, foi no âmbito religioso que os idiomas africanos surgiram com força. “Existe uma obra teológica que explica o Alcorão escrita em pulaar com caracteres árabes. Dessa forma era possível aproximar o conhecimento do Islã a fiéis capazes de decifrar o alfabeto, mas que não estavam necessariamente familiarizados com o vocabulário árabe, que naqueles séculos era um símbolo de distinção próprio e exclusivo dos intelectuais e de certas elites”, explica Haïdara.
O responsável pela Biblioteca Andalusí (referência à Espanha muçulmana) de Timbuktu, conhecida como Fundo Kati, Ismael Dadié, explica que já nos anos oitenta, após a criação do centro de pesquisa Ahmed Baba na mencionada cidade, foi revelada a presença dos manuscritos aljamiados. “O problema é que para saber a dimensão dos mesmos é preciso fazer um levantamento da coleção de todas as bibliotecas”, afirma. Isso é justamente o que a ONG Savama está fazendo em Bamako graças ao apoio da Unesco, da Fundação Ford e da cooperação suíça e alemã, entre outros.
A oportunidade que a catalogação dos manuscritos representa não passou desapercebida para historiadores e pesquisadores. “Existe uma enorme demanda de consultas, estudiosos de Mali, mas também de países árabes que querem acessar os fundos”, afirma Haïdara, que em agosto organizou um seminário com proprietários de bibliotecas de vários países para definir códigos de conduta e boas práticas entre os usuários. “Queremos abrir os manuscritos ao mundo, mas é um material muito frágil e queremos fazê-lo da melhor maneira. Existem pessoas que não sabem como manejá-los e os proprietários têm medo de que se percam e estraguem. A digitalização é fundamental”, acrescenta.
Em uma discreta casa de dois andares situada em uma afastada e tranquila rua de terra cheia de pedras e buracos do bairro de Baco Djikoroni, em Bamako, 80 funcionários da ONG Savama realizam uma titânica tarefa: a catalogação, restauração, leitura e digitalização dos 377.491 livros manuscritos procedentes, em sua imensa maioria, de Timbuktu e que datam dos séculos XIII ao XX. Tudo começou em 2012, com a ocupação jihadista do norte do país e a gigantesca operação de resgate e salvamento de todos esses papéis, que saíram camuflados em canoas, veículos particulares e ônibus durante meses.
O principal responsável por aquela operação é a mesma pessoa que hoje custodia os manuscritos e coordena os trabalhos de restauração, leitura e digitalização que começaram em 2013, o proprietário de uma das bibliotecas particulares da cidade, Abdelkader Haïdara. Sentado em seu escritório do segundo andar da sede da Savama, afirma com um sorriso: “Já catalogamos mais de 60% e digitalizamos um quarto do total. Isso nos deu a oportunidade de lê-los e ter muitas surpresas. A cada dia descobrimos coisas que não sabíamos que existiam, vemos autores e textos novos”.
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| Manuscritos que estão sendo restaurados e digitalizados, em Bamako (Mali) |
Praticamente todos os manuscritos estão escritos em árabe, a língua culta dominante no norte da África desde o começo de sua islamização no século VIII, mas uma das surpresas foi que pelo menos 5%, o que pode representar por volta de 15.000 livros, está escrito com caracteres árabes, mas em diferentes línguas africanas. “Já sabíamos de sua existência, mas está chamando a nossa atenção o volume, a presença de uma grande quantidade de manuscritos em idiomas como o pulaar, bambara, songhay, tamashek, soninke, bobo, hassania, bozo, hausa e wolof. Vimos também alguns em línguas que não pudemos decifrar e que talvez já estejam mortas. É uma nova escola para todos”.
Entre esses livros, que vão de poucas folhas até mais de mil, existem poemas, cartas, tratados de teologia, crônicas históricas, registros de doenças e até relatórios de guerra. “Encontramos manuscritos redigidos por comandantes militares aos seus generais escritos em línguas africanas. Pensamos que dessa forma pretendiam ocultar a informação do inimigo se o documento caísse em suas mãos”, diz Haïdara. Surgem mais exemplos na poesia. “Em árabe existem palavras muito complicadas para alguém que tenha um conhecimento superficial do idioma, por isso muitos poetas as traduziam a sua língua local e as colocavam em sua obra”, explica.
Mas como aconteceu com as línguas românicas, entre elas o espanhol, foi no âmbito religioso que os idiomas africanos surgiram com força. “Existe uma obra teológica que explica o Alcorão escrita em pulaar com caracteres árabes. Dessa forma era possível aproximar o conhecimento do Islã a fiéis capazes de decifrar o alfabeto, mas que não estavam necessariamente familiarizados com o vocabulário árabe, que naqueles séculos era um símbolo de distinção próprio e exclusivo dos intelectuais e de certas elites”, explica Haïdara.
O responsável pela Biblioteca Andalusí (referência à Espanha muçulmana) de Timbuktu, conhecida como Fundo Kati, Ismael Dadié, explica que já nos anos oitenta, após a criação do centro de pesquisa Ahmed Baba na mencionada cidade, foi revelada a presença dos manuscritos aljamiados. “O problema é que para saber a dimensão dos mesmos é preciso fazer um levantamento da coleção de todas as bibliotecas”, afirma. Isso é justamente o que a ONG Savama está fazendo em Bamako graças ao apoio da Unesco, da Fundação Ford e da cooperação suíça e alemã, entre outros.
A oportunidade que a catalogação dos manuscritos representa não passou desapercebida para historiadores e pesquisadores. “Existe uma enorme demanda de consultas, estudiosos de Mali, mas também de países árabes que querem acessar os fundos”, afirma Haïdara, que em agosto organizou um seminário com proprietários de bibliotecas de vários países para definir códigos de conduta e boas práticas entre os usuários. “Queremos abrir os manuscritos ao mundo, mas é um material muito frágil e queremos fazê-lo da melhor maneira. Existem pessoas que não sabem como manejá-los e os proprietários têm medo de que se percam e estraguem. A digitalização é fundamental”, acrescenta.
quarta-feira, novembro 1
Como organizar sua estante de livros
Se existe uma coisa no mundo digna de pena são os programas de organização. Essas produções em que um guru da ordem chega em uma casa que parece ter sido atingida por algum desastre natural, mas que na verdade é só o lugar onde pessoas sem controle despejam suas posses. Aí o sacerdote metódico sai em busca de classificações, colocando etiquetas, cestas, ganchos e pinos para salvar o lar dos desordeiros. Os donos da casa não têm pudores em mostrar a zona dos próprios lares, mas mesmo assim o messias da organização transforma o caos em posts vivos do Pinterest. Final feliz? Não mesmo.
Condolências aos organizadores profissionais da TV pelo belo trabalho, mas as chances de os donos dessas casas voltarem ao cenário pós-apocalíptico são grandes. Dê um lugar organizado para um bagunceiro e você verá a tragédia da multiplicação da desordem acontecer. Pobres arrumadores.
Cresci em uma casa em que a biblioteca sempre foi o buraco negro, o reduto mais difícil de manter em ordem. Estou longe de ser a Marie Kondo, mas comparada ao restante da minha família, este é o lugar que me cabe. Meu pai começou a vida vendendo livros e, além dos livros que comprou nas décadas seguintes, conserva seus preferidos do primeiro emprego até hoje. Minha mãe é formada em letras e uma leitora, digamos, bastante eclética. Clássicos da literatura hispânica? Ela tem. Livros espíritas? Também. Guias sobre inteligência emocional ou como cultivar plantas medicinais? Vários. Meu irmão é um acumulador nato, guardar coisas desimportantes (e livros que ele nunca mais vai ler) é com ele mesmo. Todas as vezes em que tentei colocar alguma lógica nas prateleiras deles, me senti a organizadora frustrada dos programas de TV. Um antes e depois lindo de dar inveja nos apresentadores do Discovery Home & Health, mas insustentável.
Perdi a conta de quantas vezes tirei tudo da estante e quebrei a cabeça para fazer aquela montanha de livros fazer sentido em conjunto. Chegou a tal ponto que decidi montar prateleiras só minhas, me abster daquele caos. Mas me afastar também não deu certo, afinal, eu morava naquela casa. Sentia dor física ao ver a biblioteca revirada como se um urso tivesse procurado comida atrás dos livros. Voltei a tentar e, de tentativa em tentativa, entendi o que deixava os ursos da minha família famintos: a lógica da organização.
Quando você está em uma livraria, os livros estão ordenados por seções “negócios”, “história”, “psicologia”, “romance brasileiro” e várias outras. A prova de que organizar uma grande quantidade de livros dessa maneira é eficaz é que a maioria das bibliotecas e livrarias dispõem suas obras assim. Mas essa regra de classificação esbarrou nas estantes da minha família durante muito tempo. Não adiantou enfileirar os títulos em ordem alfabética, por assunto, período literário, cores ou autores – os livros só se mantiveram no lugar quando consegui entender como meus pais os buscavam. A pergunta “o que você quer ler?” pode ser respondida de várias formas e eu estava respondendo da maneira errada.
Se eles procuram o que ler com critérios emocionais, não fazia o menor sentido eu engessar os livros deles com critérios cartesianos.
Eis aqui um passo a passo de como organizei a biblioteca deles e como mantenho a minha desde então:
Cada tipo de leitor exige um tipo diferente de organização. Você tem TOC por cores e quer que os livros verdes fiquem de um lado e os azuis de outro? Que os grandes de capa dura estejam na prateleira de cima e que os de bolso fiquem espremidos no cantinho? Ou que sua biblioteca seja prática e funcional? Apesar de babar em várias edições e já ter julgado muito livro pela capa, acho bastante problemático vê-los como objetos de decoração. Na minha estante, livro é “pacomê”.
O método que dá certo pra mim não rende um clique lindo pro Instagram, não segue nenhuma tendência de decoração nem pede que você arranje uma prateleira em formato de árvore ou favo de mel – se os livros ficarem visíveis, fáceis de manusear, condensados, mas não amassados, arejados, longe do sol, da chuva, da infiltração (vai que…), da churrasqueira (alô, Rio Grande do Sul) e dos cachorros, é o que conta. Aqui a palavra de ordem é praticidade.
1. Fundamentais, mas não tanto
A primeira coisa de qualquer arrumação é o desapego. Se você não tem a menor intenção de reler, por que manter um livro morto em casa? Doe, troque, venda. Não é porque metade da população brasileira não tem hábito de leitura que você precisa estocar livros na sua casa. E se o desapego é a primeira etapa, a higiene é a segunda – ou o contrário, como preferir. Retire tudo do lugar, limpe as prateleiras, abra livro por livro para tirar a poeira. Espanador e flanela são ótimos aliados para impedir que sua biblioteca vire um criadouro de traças.
Feito isso, selecione as obras que você já leu e não quer se desfazer. Clássicos que me marcaram, mas não pretendo ler em breve e livros muito específicos fazem parte desse grupo. Tenho uma estante vertical, e eles estão na parte mais alta, longe o bastante para não tombarem quando pego os dicionários do dia a dia e organizados o suficiente para lembrar que estão lá quando precisar.
2. Queridinhos da biblioteca
Ainda no alto, mas não tão alto estão os queridinhos. Os meus livros preferidos, as edições e as dedicatórias mais especiais merecem um lugar de destaque e cuidado. Foram esses que encaixotei com papel bolha nas vezes em que mudei de casa, porque quero ler várias vezes e mantê-los o mais conservado possível. Por isso, estão longe das interferências mundanas da terra. Mãozinhas fofas de crianças, xixi de cachorro, bebida que caiu e respingou? Not today.
Nesta prateleira que tem como telhado os “fundamentais, mas não tanto”, sugiro que fiquem os livros que você correria para buscar se sua casa pegasse fogo.
(Que isso nunca aconteça. E se acontecer, por favor, não volte buscar. Apegos à parte, a verdade é que são só coisas)
3. Para ter sempre à mão
O ideal é que os livros que você mais consulta fiquem na altura dos olhos e ao alcance das mãos. Se você está estudando gramática, porque deixá-la escondida em um extremo do móvel? Tem um livro de culinária e cada vez que quer preparar uma receita precisa tirar as coisas que empilha sobre ele? Isso é o mesmo que deixar uma mala de rodinhas no meio dos guarda roupas e guardar as meias no maleiro.
A prateleira do meio é o lugar onde guardo os dicionários, guias, manuais, gramáticas e todos os livros a que recorro com frequência. É o Poupatempo da biblioteca.
4. Vitrine dos pretendentes
Há algum tempo, recebi uma imagem que dizia o seguinte: “Nunca vou parar de comprar livros. Nunca vou ler todos os livros que tenho para ler. Nunca terei dinheiro, mas sempre terei livros”. Isso foi antes das correntes de grupos de WhatsApp, da crise econômica e, aparentemente, das discussões sobre consumo consciente e economia compartilhada. As editoras batem palmas e as traças também. Concordo que enquanto eu tiver dinheiro comprarei livros. Mas que tal ler o que já tem antes de comprar outros que talvez também fiquem pegando poeira nessa fila de leitura infinita em que é permitido furar?
Gosto de reunir tudo o que ainda não li e que faço questão de ler para visualizar o tamanho da responsabilidade. Quando vou a uma livraria e começo a andar pra lá e pra cá com um livro debaixo do braço, é a imagem dessa prateleira que me barra. Os flashes dela são minha consciência com o alerta vermelho aceso: “guarda esse livro lá, você tem uma pilha de não lidos em casa”.
5. Porão da insignificância
Sabe aquelas coisas que acumulam perto dos seus livros? Assuma que é natural que isso aconteça e agrupe-as o quanto conseguir. Coloco revistas, CDs, cabos e outros eletrônicos dentro de caixas ou cestos para que não se misturem aos livros.
Acabei de dizer que o primeiro passo da arrumação é o desapego, e isso não precisa acontecer apenas quando a biblioteca estiver pedindo socorro. No térreo da estante, costumo dar um respiro para que a bagunça aconteça. Todo mundo tem um livro água com açúcar que ganhou de amigo secreto e não quer ler ou um guia de viagem de um lugar para o qual não vai voltar. Enquanto não decido se vou doar, vender ou repassar no próximo amigo secreto, deixo que o limbo da insignificância exista – com a ressalva, é claro, de um leitor mais interessado que eu ser o destino final.Pâmela Carbonari
Condolências aos organizadores profissionais da TV pelo belo trabalho, mas as chances de os donos dessas casas voltarem ao cenário pós-apocalíptico são grandes. Dê um lugar organizado para um bagunceiro e você verá a tragédia da multiplicação da desordem acontecer. Pobres arrumadores.
Cresci em uma casa em que a biblioteca sempre foi o buraco negro, o reduto mais difícil de manter em ordem. Estou longe de ser a Marie Kondo, mas comparada ao restante da minha família, este é o lugar que me cabe. Meu pai começou a vida vendendo livros e, além dos livros que comprou nas décadas seguintes, conserva seus preferidos do primeiro emprego até hoje. Minha mãe é formada em letras e uma leitora, digamos, bastante eclética. Clássicos da literatura hispânica? Ela tem. Livros espíritas? Também. Guias sobre inteligência emocional ou como cultivar plantas medicinais? Vários. Meu irmão é um acumulador nato, guardar coisas desimportantes (e livros que ele nunca mais vai ler) é com ele mesmo. Todas as vezes em que tentei colocar alguma lógica nas prateleiras deles, me senti a organizadora frustrada dos programas de TV. Um antes e depois lindo de dar inveja nos apresentadores do Discovery Home & Health, mas insustentável.

Perdi a conta de quantas vezes tirei tudo da estante e quebrei a cabeça para fazer aquela montanha de livros fazer sentido em conjunto. Chegou a tal ponto que decidi montar prateleiras só minhas, me abster daquele caos. Mas me afastar também não deu certo, afinal, eu morava naquela casa. Sentia dor física ao ver a biblioteca revirada como se um urso tivesse procurado comida atrás dos livros. Voltei a tentar e, de tentativa em tentativa, entendi o que deixava os ursos da minha família famintos: a lógica da organização.
Quando você está em uma livraria, os livros estão ordenados por seções “negócios”, “história”, “psicologia”, “romance brasileiro” e várias outras. A prova de que organizar uma grande quantidade de livros dessa maneira é eficaz é que a maioria das bibliotecas e livrarias dispõem suas obras assim. Mas essa regra de classificação esbarrou nas estantes da minha família durante muito tempo. Não adiantou enfileirar os títulos em ordem alfabética, por assunto, período literário, cores ou autores – os livros só se mantiveram no lugar quando consegui entender como meus pais os buscavam. A pergunta “o que você quer ler?” pode ser respondida de várias formas e eu estava respondendo da maneira errada.
Se eles procuram o que ler com critérios emocionais, não fazia o menor sentido eu engessar os livros deles com critérios cartesianos.
Eis aqui um passo a passo de como organizei a biblioteca deles e como mantenho a minha desde então:
Cada tipo de leitor exige um tipo diferente de organização. Você tem TOC por cores e quer que os livros verdes fiquem de um lado e os azuis de outro? Que os grandes de capa dura estejam na prateleira de cima e que os de bolso fiquem espremidos no cantinho? Ou que sua biblioteca seja prática e funcional? Apesar de babar em várias edições e já ter julgado muito livro pela capa, acho bastante problemático vê-los como objetos de decoração. Na minha estante, livro é “pacomê”.
O método que dá certo pra mim não rende um clique lindo pro Instagram, não segue nenhuma tendência de decoração nem pede que você arranje uma prateleira em formato de árvore ou favo de mel – se os livros ficarem visíveis, fáceis de manusear, condensados, mas não amassados, arejados, longe do sol, da chuva, da infiltração (vai que…), da churrasqueira (alô, Rio Grande do Sul) e dos cachorros, é o que conta. Aqui a palavra de ordem é praticidade.
1. Fundamentais, mas não tanto
A primeira coisa de qualquer arrumação é o desapego. Se você não tem a menor intenção de reler, por que manter um livro morto em casa? Doe, troque, venda. Não é porque metade da população brasileira não tem hábito de leitura que você precisa estocar livros na sua casa. E se o desapego é a primeira etapa, a higiene é a segunda – ou o contrário, como preferir. Retire tudo do lugar, limpe as prateleiras, abra livro por livro para tirar a poeira. Espanador e flanela são ótimos aliados para impedir que sua biblioteca vire um criadouro de traças.
Feito isso, selecione as obras que você já leu e não quer se desfazer. Clássicos que me marcaram, mas não pretendo ler em breve e livros muito específicos fazem parte desse grupo. Tenho uma estante vertical, e eles estão na parte mais alta, longe o bastante para não tombarem quando pego os dicionários do dia a dia e organizados o suficiente para lembrar que estão lá quando precisar.
2. Queridinhos da biblioteca
Ainda no alto, mas não tão alto estão os queridinhos. Os meus livros preferidos, as edições e as dedicatórias mais especiais merecem um lugar de destaque e cuidado. Foram esses que encaixotei com papel bolha nas vezes em que mudei de casa, porque quero ler várias vezes e mantê-los o mais conservado possível. Por isso, estão longe das interferências mundanas da terra. Mãozinhas fofas de crianças, xixi de cachorro, bebida que caiu e respingou? Not today.
Nesta prateleira que tem como telhado os “fundamentais, mas não tanto”, sugiro que fiquem os livros que você correria para buscar se sua casa pegasse fogo.
(Que isso nunca aconteça. E se acontecer, por favor, não volte buscar. Apegos à parte, a verdade é que são só coisas)
3. Para ter sempre à mão
O ideal é que os livros que você mais consulta fiquem na altura dos olhos e ao alcance das mãos. Se você está estudando gramática, porque deixá-la escondida em um extremo do móvel? Tem um livro de culinária e cada vez que quer preparar uma receita precisa tirar as coisas que empilha sobre ele? Isso é o mesmo que deixar uma mala de rodinhas no meio dos guarda roupas e guardar as meias no maleiro.
A prateleira do meio é o lugar onde guardo os dicionários, guias, manuais, gramáticas e todos os livros a que recorro com frequência. É o Poupatempo da biblioteca.
4. Vitrine dos pretendentes
Há algum tempo, recebi uma imagem que dizia o seguinte: “Nunca vou parar de comprar livros. Nunca vou ler todos os livros que tenho para ler. Nunca terei dinheiro, mas sempre terei livros”. Isso foi antes das correntes de grupos de WhatsApp, da crise econômica e, aparentemente, das discussões sobre consumo consciente e economia compartilhada. As editoras batem palmas e as traças também. Concordo que enquanto eu tiver dinheiro comprarei livros. Mas que tal ler o que já tem antes de comprar outros que talvez também fiquem pegando poeira nessa fila de leitura infinita em que é permitido furar?
Gosto de reunir tudo o que ainda não li e que faço questão de ler para visualizar o tamanho da responsabilidade. Quando vou a uma livraria e começo a andar pra lá e pra cá com um livro debaixo do braço, é a imagem dessa prateleira que me barra. Os flashes dela são minha consciência com o alerta vermelho aceso: “guarda esse livro lá, você tem uma pilha de não lidos em casa”.
5. Porão da insignificância
Sabe aquelas coisas que acumulam perto dos seus livros? Assuma que é natural que isso aconteça e agrupe-as o quanto conseguir. Coloco revistas, CDs, cabos e outros eletrônicos dentro de caixas ou cestos para que não se misturem aos livros.
Acabei de dizer que o primeiro passo da arrumação é o desapego, e isso não precisa acontecer apenas quando a biblioteca estiver pedindo socorro. No térreo da estante, costumo dar um respiro para que a bagunça aconteça. Todo mundo tem um livro água com açúcar que ganhou de amigo secreto e não quer ler ou um guia de viagem de um lugar para o qual não vai voltar. Enquanto não decido se vou doar, vender ou repassar no próximo amigo secreto, deixo que o limbo da insignificância exista – com a ressalva, é claro, de um leitor mais interessado que eu ser o destino final.
Assim começa o livro...
Inverno e silêncio. Nenhuma carta do Brasil.
Paris, dezembro, 1977
Cidade gelada, nem sempre silenciosa: algazarra de turistas na travessia de uma ponte sobre o Sena. Somos do mesmo país, andamos para margens opostas. Essas gargalhadas e vozes são verdadeiras?
Hoje, em Neuilly-sur-Seine, meu aluno francês me ofereceu café e quis conversar um pouco sobre o Brasil. O bate-papo, de início besta, aos poucos rondou um assunto mais cabeludo, que logo ficou grave; para ir da gravidade
ao terror político bastaram duas xícaras de café e uns biscoitos. No fim, meu aluno, mudo, pagou os quarenta francos da aula e me deu dez de gorjeta. Foi o lucro desta tarde fria e cinzenta.
Embolsei os francos e caminhei pelo Bois de Boulogne: árvores sem folhas, uma fina camada de gelo no solo, canto de pássaros invisíveis. A quietude foi assaltada por lembranças de lugares e pessoas em tempos distintos: Lázaro e
sua mãe no barraco de Ceilândia, a voz do Geólogo no campus da Universidade de Brasília, a aparição de uma mulher no quarto de um hotel em Goiânia, o embaixador Faisão recitando versos de um poeta norte-americano: “Apenas mais uma verdade, mais um/ elemento na imensa desordem de verdades…”.
Outro dia vi o rosto de Dinah, segui esse rosto e deparei com uma francesa, que se surpreendeu com o meu olhar; outros rostos brasileiros apareceram em museus, na entrada de um cinema em Denfert, nas feiras da cidade. Peguei o metrô até Châtelet, toquei violão no subterrâneo abafado e me lembrei das lições de música da Cantora. Não ouvi a língua portuguesa na plataforma nem nos corredores, peguei as moedas na capa do violão e andei pelo Marais
até o Royal Bar. Um conhaque. Abri meu caderno de anotações e esperei meus três amigos, brasileiros. Marcamos às sete da noite.
Pessoas encapotadas passam na calçada da Rue de Sévigné, vozes enchem o Royal Bar, lá fora um saltimbanco atravessou o ar gelado e pediu uma moeda a uma mulher.
Oito e quinze da noite. Damiano Acante, Julião e Anita furaram.
Nem tudo é suportável quando se está longe…
A memória ofusca a beleza desta cidade.
Paris, dezembro, 1977
Cidade gelada, nem sempre silenciosa: algazarra de turistas na travessia de uma ponte sobre o Sena. Somos do mesmo país, andamos para margens opostas. Essas gargalhadas e vozes são verdadeiras?
Hoje, em Neuilly-sur-Seine, meu aluno francês me ofereceu café e quis conversar um pouco sobre o Brasil. O bate-papo, de início besta, aos poucos rondou um assunto mais cabeludo, que logo ficou grave; para ir da gravidade
ao terror político bastaram duas xícaras de café e uns biscoitos. No fim, meu aluno, mudo, pagou os quarenta francos da aula e me deu dez de gorjeta. Foi o lucro desta tarde fria e cinzenta.
sua mãe no barraco de Ceilândia, a voz do Geólogo no campus da Universidade de Brasília, a aparição de uma mulher no quarto de um hotel em Goiânia, o embaixador Faisão recitando versos de um poeta norte-americano: “Apenas mais uma verdade, mais um/ elemento na imensa desordem de verdades…”.
Outro dia vi o rosto de Dinah, segui esse rosto e deparei com uma francesa, que se surpreendeu com o meu olhar; outros rostos brasileiros apareceram em museus, na entrada de um cinema em Denfert, nas feiras da cidade. Peguei o metrô até Châtelet, toquei violão no subterrâneo abafado e me lembrei das lições de música da Cantora. Não ouvi a língua portuguesa na plataforma nem nos corredores, peguei as moedas na capa do violão e andei pelo Marais
até o Royal Bar. Um conhaque. Abri meu caderno de anotações e esperei meus três amigos, brasileiros. Marcamos às sete da noite.
Pessoas encapotadas passam na calçada da Rue de Sévigné, vozes enchem o Royal Bar, lá fora um saltimbanco atravessou o ar gelado e pediu uma moeda a uma mulher.
Oito e quinze da noite. Damiano Acante, Julião e Anita furaram.
Nem tudo é suportável quando se está longe…
A memória ofusca a beleza desta cidade.
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