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| Lucy Fleming |
sábado, dezembro 9
A chaminé e a porta
A grande vantagem da criança sobre o adulto é o direito, a vontade e a necessidade que ela tem de perguntar tudo. Com o passar do tempo, esse direito, essa vontade e, sobretudo, essa necessidade vão acabando. Daí que o velho, em geral, nada mais pergunta.
Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.
Avisaram-me que não decepcionasse o guri, armei a árvore da melhor maneira possível, admito que ficou imponente, faiscando tão forte que suas luzes, no profundo da noite, se refletem nas águas da Lagoa.
Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!
Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.
Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.
Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.
Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!
Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.
Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.
Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Carlos Heitor Cony, "O harém das bananeiras"
sexta-feira, dezembro 8
Solidário James Amado

Dizia-se que não era um homem de temperamento expansivo, como o irmão, o consagrado romancista Jorge Amado. Embora soubesse que estivesse 000mal de saúde, fiquei sem graça quando soube que teve uma morte em casa, vítima de falência múltipla dos órgãos. Foi em Salvador, num dia de domingo. Também escritor, pesquisador e romancista, esse irmão caçula de Jorge Amado. .
Segundo Paloma, sobrinha de James, aquele domingo de cores cinzentas foi de dor e saudade.
— Estou completamente destroçada. Meu pensamento está todo voltado para minha tia Luíza, mulher formidável, e para meus queridos Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda, mais que primos, irmãos muito amados.
Terceiro e último filho de João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, desbravadores da Região Cacaueira Baiana, na época da conquista da terra, James Amado nasceu em Ilhéus, em 1922. Era o último irmão vivo de Jorge Amado. Membro da Academia de Letras da Bahia desde 1990, ocupando na tradicional instituição a cadeira de número 27, cujo patrono é Francisco Rodrigues da Silva e que antes de James foi ocupada pelo jornalista Antonio Loureiro.
Como ficcionista, escreveu apenas o romance Chamado do Mar e o conto “A Sentinela”, incluso nas antologias Panorama do Conto Baiano e Histórias da Bahia. Com produção pequena, James teria condições de permanecer no panorama da literatura contemporânea brasileira, constituída de autores com legado extenso na escrita de boas qualidades? Ressalte-se que o português Antonio Nobre escreveu apenas Só e Augusto dos Anjos o Eu, até hoje os dois poetas ganham leitores e novos analistas de um legado pequeno, mas expressivo. Manuel Antonio de Almeida foi outro que escreveu apenas Memórias de Um Sargento de Milícias, obra-prima do romance picaresco.
Chamado do Mar tem como cenário o Pontal dos Ilhéus, no Sul da Bahia, armado com o conhecimento de sua geografia exterior pelo autor para a exibição de conflitos interiores e sociais vividos por pescadores numa colônia de pesca. Um dos romances mais vigorosos da ficção brasileira no século XX tem como motivação o mar e sua gente. É narrado com a técnica moderna dos ficcionistas norte-americanos, daqueles que trouxeram para a estrutura do romance após a Segunda Guerra Mundial o uso do contraponto e do tempo desmembrado em fragmentos para expor situações livres da sequência linear, com base nos acontecimentos extraordinários pontuando a narrativa. Trata-se de um romance com intenso cheiro de maresia. Toca nas feridas sociais, e sua técnica moderna de desenvolver o tema guarda até hoje o segredo da perene atualidade.
Casado três vezes, suas esposas foram Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Deixou quatro filhos: Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda. Certa vez, ele disse ao poeta Florisvaldo Mattos:
– Somos da mesma região e temos tradição de luta e esforço pelas causas sociais.
Florisvaldo Mattos lembra:
– Ele era uma criatura afetuosa e solidária. Toda semana, nós nos encontrávamos na “Ceasinha”, nas quintas do Edinho, para conversar.
Da última vez que passou por minha terra natal, mandou um recado pelo poeta Telmo Padilha que queria me conhecer. No Lord Hotel, onde estava hospedado, perguntou-me durante o almoço como eu ia na minha produção literária. Na conversa que mantivemos animada, incentivou-me na difícil e prazerosa travessia das letras. Adiantou que iria recomendar-me ao editor Jorge Calmon, assim que voltasse a Salvador, para que meus textos fossem publicados no jornal “A Tarde” .
Isso de fato aconteceu. Durante alguns anos publiquei artigos de opinião no primeiro caderno e crônicas na seção “Ultra Leve” do valoroso jornal nordestino. James Amado prefaciou meu primeiro livro de crônicas. Era um solidário companheiro das letras.
Casado três vezes, suas esposas foram Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Deixou quatro filhos: Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda. Certa vez, ele disse ao poeta Florisvaldo Mattos:
– Somos da mesma região e temos tradição de luta e esforço pelas causas sociais.
Florisvaldo Mattos lembra:
– Ele era uma criatura afetuosa e solidária. Toda semana, nós nos encontrávamos na “Ceasinha”, nas quintas do Edinho, para conversar.
Da última vez que passou por minha terra natal, mandou um recado pelo poeta Telmo Padilha que queria me conhecer. No Lord Hotel, onde estava hospedado, perguntou-me durante o almoço como eu ia na minha produção literária. Na conversa que mantivemos animada, incentivou-me na difícil e prazerosa travessia das letras. Adiantou que iria recomendar-me ao editor Jorge Calmon, assim que voltasse a Salvador, para que meus textos fossem publicados no jornal “A Tarde” .
Isso de fato aconteceu. Durante alguns anos publiquei artigos de opinião no primeiro caderno e crônicas na seção “Ultra Leve” do valoroso jornal nordestino. James Amado prefaciou meu primeiro livro de crônicas. Era um solidário companheiro das letras.
quinta-feira, dezembro 7
O brasileiro lê muito
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| Lisa Aisato |
O brasileiro não lê pouco, pode ler mal ou não comprar livros como se gostaria, mas a média de leitura nacional é muito boa, do contrário, não seríamos uma das nações que mais frequenta redes sociais no mundo, onde se usa o texto como a principal forma de comunicação, e nem teríamos tiragens de best-sellers na casa dos milhares quando não milhões.
Mas vou mais e lembro-me dos cinco bilhões de reais que representam o mercado brasileiro no cenário mundial, sendo, portanto, um dos maiores mercados do setor editorial em faturamento. Número que já oscilou na casa dos seis bilhões quando o poder público, em especial o federal, mantinha vivo seus fundamentais programas de compras.
A reflexão necessária é de que há uma espécie de preconceito aberto e declarado, como se chamar o povo de burro fosse regra, ou que as pessoas não compram livros nem leem aquilo que certa elite gostaria porque são ignorantes. Também há a hipótese de que a desinformação sobre o mercado do livro e os índices de leitura seja gigantesca, e que mesmo bons jornalistas e profissionais da comunicação têm dificuldade em encontrar dados que derrubem esse conceito, ou preconceito, sobre os índices de leitura.
Não podemos, porém, deixar de observar que para o tamanho do país e da população, se comparados a vizinhos como Argentina, nossa leitura per capta é de fato tímida. E que a leitura poderia ser melhor, visto, por exemplo, a ausência de leitores com seus livros abertos em lugares públicos como em metrôs e ônibus. Mas, para isso, é bom não esquecer que nas universidades muito ainda se usa, infelizmente, as tais cópias “xerox”, como substituição ao livro, e que essas cópias não entram nos números, tampouco cálculos estatísticos, ou sequer passam nos olhos ávidos de quem procura um leitor de livro aberto numa estação de metrô.
Em verdade, e aqui uma opinião mais do que honesta, é de que embora leiamos muito, a realidade é de que lemos mal, e muito mal. O fato de encontrarmos livros infantojuvenis adotados em escolas com erros de pontuação e histórias frouxas, ruins, é um comprovador. Também é comum encontrar autor que se autopublica dizendo vender bem a cada nova tiragem ou novo título, e depois descobrirmos que seus leitores – e eles existem como se comprova na gráfica ou nas vendas pelo KDP da Amazon –, não percebem como fracas são suas histórias e como confusos são seus pensamentos ou mesmo a organização do seu texto.
Há, também, nesse deserto do texto ruim, livros impressos fora do país, mas vendidos a preços impressionantemente baixos, livros estes muitas vezes com histórias sofríveis e ilustrações deprimentes. E ainda há os títulos traduzidos às pressas ou por maus tradutores – e aqui entra a literatura adulta de qualquer área – como outro sinal da má qualidade do que chega ao leitor, que, por sua vez toma aquilo como uma média do que pode ser escrito e do que deve ser lido. Em outras palavras, o referencial do que é bom em escrita e leitura, no Brasil, é um desespero de tão ruim.
Em outros artigos defendi e sigo defendendo a importância da escrita criativa e suas oficinas, pois, como referência, nos EUA pós-guerra, esse foi um dos instrumentos para não só movimentar o mercado norte-americano como por outro lado reforçar a educação fora das escolas.
Enquanto isso, neste Brasil continental de história tão amiga a elites que preferem a escravidão à liberdade, talvez não devesse soar estranho afirmar que o povo brasileiro simplesmente não lê porque é ignorante. Mas não sou da elite, sou do povo, do estudante da escola pública, e dos otimistas, pois gosto de pensar que apesar das elites e de nossa história de golpes e massacres, o povo ainda lê, e ainda quer ler mais e melhor. E, quem sabe, talvez aí esteja a tarefa dos editores, autores e agentes do mercado: superar o preconceito e fazer mais e melhor pelo leitor brasileiro.
Paulo Tedesco
quarta-feira, dezembro 6
Cataratas do céu
Quando não se pode tomar decisões só se tomam decisões erradasAutor ilegível
Levaram o menino a ver o aeroporto. Vestiram-no de domingo, engomaram sua alma, lustraram seu pé. De mão dada, ele entrou no chapa. O tio desconferiu uma riqueza de notas. Tudo em sorrisos, como se tudo aquilo fosse cumprir de promessa.
O menino era desses que a guerra deslocou não só de endereço mas de vida. Vinha de lá, onde a terra desfaz fronteira com outras terras. Nesse seu lugarinho tudo era sossegoso, até o tempo ali ganhava vastas preguiças.
Agora, em casa dos tios, o menino só encontrava espantos no rumor da cidade. Certa vez, o rapaz entrou em casa, afogueado: um avião atravessara as nuvens, em cima. O tio lhe perguntou: “mas nunca viu, nem cheirou barulho no ar?” Nada. O céu de lá era muito desqualificado, nele nunca riscara nenhum avião.
Com o tempo, a família começou a se preocupar com a cabisbaixeza da criança, sempre de olhos minhocando o chão. No início, ele nem queria sair de casa. O tio se maçava, o coração lhe subia à cabeça.
- Um dia esse miúdo vai-se chocar com a vida!
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| Kayla Harren |
O tio reagia: “como deixo? Será que esse menino não tem jeito nem para viver? Sempre e sempre de olhos no chão! Esse mufana foi é mal-olhado. Até me arrepia. parece o olho dele tem medo da pálpebra.
Uma noite, o tio estremunhou-se. Acordou a mulher e lhe revelou suas sonâmbulas reflexões: “eu sei o que sucede com ele, esse nosso sobrinhito não é um deslocado de guerra. A guerra é que deslocou-se para dentro dele. E agora, como tirar a guerra de lá dos interiores, como desalojar a malvada lá das províncias da sua alma? Não há comissão governamental, nem missão das Nações Unidas. Não há departamento para esse caso”. A mulher cortou:
- “Por que não me deixa titiar esse menino sozinha?”
O homem nem respondeu. Levantou-se e foi ao quarto do sobrinho. E lhe falou assim:
- “Amanhãzinha vais ver aviões adiante do céu, barulharem até te encheres de ouvidos”.
Meio oculto no lençol, o miúdo antecipava temores. O tio nem dava as confianças: “veja sobrinho, até já entrei num desses bichos.
- “Entrou?
- “E como entrei! Tua tia até chorou. Se tive medo? Nem medo, nem receio. Eles é que tiveram medo de mim. Por isso me amarraram logo na cadeira”.
Retornado ao seu quarto, o tio inchou uma esperteza vaidosa no peito: “o que ele precisa é o céu se abrir para ele. Compreende, mulher? A terra está cheia de ferida, não traz consolo nem ombro para ninguém. O céu é que, agora, tem que se abrir para ele”. A esposa sacudiu a cabeça, receosa.
Agora, desembarcando em pleno aeroporto, o menino lantejolhava em redor. Tudo era sonho. Seus olhos se abasteciam de súbitas e infinitas visões. Não falou, não sorriu. O tio, à distância, comentava: “o miúdo está em estado, coitadito”.
Chegada a hora do deitar, ele permaneceu sentado, mais rígido que a tábua da cama. A tia lhe reservou um carinho:
- “Que tu tens, meu filho?”
E ele, então, falou. Disse muito oficialmente:
- “Quero ser um avião!”
Manhã seguinte, todos se riam. A tia lembrava a solenidade da declaração. Não queria ser piloto, técnico espacial, mecânico especial, ou mesmo simples passageiro. Nada. Avião, era o que ele queria ser. O tio acrescentou piada:
- “Quer ser Boeing ou DC 10?”
O miúdo não entendeu a graça. No fundo, ele já se tinha todo ele decidido. E nunca mais da sua boca se escutou sílaba que fosse. Se insulou no quarto, sentado, imovente. Os braços cumpriam ordem de serem asas, o corpo duro, quase metálico. Deixou de comer, deixou de beber. A custo a tia lhe insistia, apontando um copo:
- “Vá, meu filho, isso aqui é combustível!”
Mil vezes o tio lhe falou, em várias tentações e tentativas:
- “Não prefere ser um pássaro, vivinho de alegrias?”
Tudo irresultava. Resolveram conduzi-lo de novo ao aeroporto. Todo o caminho, o miúdo seguiu de braços abertos, fixo que nem aço. Chegado ao aeroporto o menino olhou extasiado seus companheiros de espécie, as aeronaves. E desatou correndo, roncando seus fantasiosos motores. Olhando a criança correndo de encontro ao sol, o tio até se lagrimava, comovido:
- “Veja, veja como ele brinca!”
E assim ganhando mais e mais velocidade, braços cruzando o sonho, o menino se confundia, a contraluz, com o fogo inteiro do poente. Seria, no instante, que o céu se abria para aquela criaturita?
Pupila esgrimando o sol, o tio deixou de ver o miúdo. Apenas uma mancha, sombra súbita cruzando os ares. Ainda acreditou ser um pássaro que lançava seu voo da varanda para o distante chão. Nesse momento ele aprendia que o céu está padecendo de cataratas, repentinas névoas que impedem Deus de nos espreitar.
Mia Couto, "Contos do nascer da Terra"
segunda-feira, dezembro 4
A folha de papel e a tinta

Uma folha de papel que estava em cima de uma escrivaninha juntamente com outras iguais a ela , um belo dia apareceu toda manchada de sinais. Uma pena, molhada numa tinta muito negra, escrevera na folha de papel uma quantidade enorme de palavras.
- Não podias ter-me poupado esta humilhação? - Disse aborrecida, a folha de papel à tinta - Sujaste-me toda, estragaste-me para sempre.
- Espera - respondeu a tinta - Eu não te sujei, eu cobri-te de palavras. A partir de agora já não és uma folha de papel. És uma mensagem. Porque guardas o pensamento humano tornaste-te um instrumento precioso.
De fato, pouco depois alguém veio arrumar a escrivaninha e vendo aquelas folhas espalhadas juntou-as e preparou-se para as atirar ao lume. Mas logo reparou na folha "suja" de tinta e , então, separou-a das outras e pôs no seu lugar, bem visível, a mensagem da palavra.
Leonardo da Vinci, " Fábulas"
Anatomia das segundas-feiras
Nada a ver com o rock homônimo que fez sucesso há tempos. Também não gosto das segundas-feiras e tenho excelentes motivos para isso. É o dia em que todos os chatos do mundo saem das tocas, infestam ruas, caminhos e vales da vida, é uma invasão, um "apocalypse now".
Depois de passarem o fim-de-semana constatando que precisam fazer alguma coisa -já que, até então, nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos-, eles tomam a férrea decisão de, a cada segunda-feira, iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.
Essas sinistras resoluções nascem da fossa crepuscular do domingo. Tão logo o sol se levanta na segunda-feira decisiva (que são todas elas), eis que a turba se ergue dos túmulos da mediocridade existencial e sai à cata das oportunidades, da concretização dos propósitos. É na segunda-feira que todos os que ainda não chegaram lá se repõem em dia com velhos projetos, antigas ambições. Dessa vez vai. Ou melhor, dessa vez vão.
Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências.
Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira, e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contactos, tentam um "replay", uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.
A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicam à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.
Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira.
Depois de passarem o fim-de-semana constatando que precisam fazer alguma coisa -já que, até então, nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos-, eles tomam a férrea decisão de, a cada segunda-feira, iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.

Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências.
Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira, e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contactos, tentam um "replay", uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.
A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicam à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.
Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira.
Carlos Heitor Cony
domingo, dezembro 3
Nova York investe 317 milhões de dólares em reforma de sua biblioteca mais famosa
A biblioteca mais emblemática de Nova York, conhecida pelos famosos leões que descansam em sua entrada, realizará a maior reforma da sua história, que custará US$ 317 milhões e não está livre de polêmicas.
A biblioteca, que fica na Quinta Avenida, está sempre bastante movimentada devido ao fluxo de turistas, mas também é uma das que mais recebe pesquisadores em todo o país, e permanecerá em obras até o fim de 2021.
Há quatro anos, um grupo de pesquisadores conseguiu derrubar o projeto de reforma anterior e ameaçou processar a instituição se esta não voltasse atrás em sua tentativa de se desfazer de suas estantes centenárias.
Com a nova reforma, a biblioteca ganhará 20% de espaço para salas de pesquisa, exibição e oficinas educativas e incorporará uma cafeteria, uma nova loja, um elevador e um novo terraço.
No entanto, o plano diretor não trata de um assunto complicado: o uso que será dado às estantes emblemáticas.
Estas, datadas de 1911, não cumprem com os requisitos de temperatura, umidade e segurança para incêndios que são necessários para as coleções mais delicadas.
É por isso que a maior parte dos arquivos que costumavam ficar nelas estão temporariamente realocados na biblioteca de Bryant Park, e suas prateleiras abrigam outra coleção diferente, a da biblioteca de Mid-Manhattan, que está envolvida em outra enorme reforma avaliada em US$ 200 milhões.
"Vamos levar um tempo antes de tomar uma decisão. É melhor demorar um pouco mais do que decidir às pressas e cometer equívocos", afirmou o presidente da rede de bibliotecas públicas de Nova York, Anthony Marx, durante a apresentação do plano diretor em uma audiência pública nesta semana.
"Como se atrevem a chamá-lo de plano diretor se ele não contempla o aspecto mais importante da biblioteca, como o das estantes?", questionou um usuário durante a sessão de perguntas.
"O que as pessoas querem é ter mais livros à disposição e acesso aos mesmos o mais rápido possível", afirmou outro, que lembrou com nostalgia da época em que podia sentir o cheiro entre as estantes, pegar ele mesmo o livro e, durante o caminho, "deparar-se com outros exemplares" que sequer sabia que existiam.
Marx defendeu que, apesar dos livros estarem em outras bibliotecas, o tempo médio de entrega é de 27 minutos, e destacou que, graças a um acordo com as universidades de Harvard, Columbia e Princeton, o catálogo foi ampliado em 7 milhões de novos exemplares.
A abertura de uma cafeteria na biblioteca também levantou paixões. "Café? Café neste edifício majestoso?", resmungou uma senhora de idade avançada, provocando aplausos do público que assistia à apresentação do plano.
Dos US$ 317 milhões do plano diretor, 144 já foram investidos na última década, e a maioria desses recursos provém de doações para a rede de bibliotecas públicas de Nova York.
Esta rede é, apesar do nome, uma fundação privada que recebe recursos públicos e particulares, e tem 92 centros distribuídos nos distritos de Manhattan, Bronx e Staten Island.
A reforma envolverá uma reorganização dos espaços. Os andares superiores receberão as salas silenciosas de leitura, para estudantes, leitores e pesquisadores, enquanto os visitantes e os eventos ficarão restritos aos andares de baixo.
A parte externa do edifício não sofrerá mudanças, exceto pela transformação de uma entrada para funcionários na Rua 40, que se transformará em um terraço com jardim, pensado para os grupos de estudantes que visitam a biblioteca, e que ajudará a descongestionar os acessos.
A arquiteta holandesa Francine Houben, cujo escritório ficará responsável pela reforma, detalhou que o edifício é "esplêndido", mas que existem algumas salas nobres que o público não vê na atualidade, um "erro" que será reparado após as obras.
Apesar da insistência do público, que perguntou pelo futuro das estantes, Anthony Marx se limitou a dizer que todos os usos possíveis serão avaliados.
"Que uso vocês querem dar para uma estante? Coloquem nela os seus livros!", alfinetou uma senhora presente no evento, levando o público aos risos na sala.
A biblioteca, que fica na Quinta Avenida, está sempre bastante movimentada devido ao fluxo de turistas, mas também é uma das que mais recebe pesquisadores em todo o país, e permanecerá em obras até o fim de 2021.
Com a nova reforma, a biblioteca ganhará 20% de espaço para salas de pesquisa, exibição e oficinas educativas e incorporará uma cafeteria, uma nova loja, um elevador e um novo terraço.
No entanto, o plano diretor não trata de um assunto complicado: o uso que será dado às estantes emblemáticas.
Estas, datadas de 1911, não cumprem com os requisitos de temperatura, umidade e segurança para incêndios que são necessários para as coleções mais delicadas.
É por isso que a maior parte dos arquivos que costumavam ficar nelas estão temporariamente realocados na biblioteca de Bryant Park, e suas prateleiras abrigam outra coleção diferente, a da biblioteca de Mid-Manhattan, que está envolvida em outra enorme reforma avaliada em US$ 200 milhões.
"Vamos levar um tempo antes de tomar uma decisão. É melhor demorar um pouco mais do que decidir às pressas e cometer equívocos", afirmou o presidente da rede de bibliotecas públicas de Nova York, Anthony Marx, durante a apresentação do plano diretor em uma audiência pública nesta semana.
"Como se atrevem a chamá-lo de plano diretor se ele não contempla o aspecto mais importante da biblioteca, como o das estantes?", questionou um usuário durante a sessão de perguntas.
"O que as pessoas querem é ter mais livros à disposição e acesso aos mesmos o mais rápido possível", afirmou outro, que lembrou com nostalgia da época em que podia sentir o cheiro entre as estantes, pegar ele mesmo o livro e, durante o caminho, "deparar-se com outros exemplares" que sequer sabia que existiam.
Marx defendeu que, apesar dos livros estarem em outras bibliotecas, o tempo médio de entrega é de 27 minutos, e destacou que, graças a um acordo com as universidades de Harvard, Columbia e Princeton, o catálogo foi ampliado em 7 milhões de novos exemplares.
A abertura de uma cafeteria na biblioteca também levantou paixões. "Café? Café neste edifício majestoso?", resmungou uma senhora de idade avançada, provocando aplausos do público que assistia à apresentação do plano.
Dos US$ 317 milhões do plano diretor, 144 já foram investidos na última década, e a maioria desses recursos provém de doações para a rede de bibliotecas públicas de Nova York.
Esta rede é, apesar do nome, uma fundação privada que recebe recursos públicos e particulares, e tem 92 centros distribuídos nos distritos de Manhattan, Bronx e Staten Island.
A reforma envolverá uma reorganização dos espaços. Os andares superiores receberão as salas silenciosas de leitura, para estudantes, leitores e pesquisadores, enquanto os visitantes e os eventos ficarão restritos aos andares de baixo.
A parte externa do edifício não sofrerá mudanças, exceto pela transformação de uma entrada para funcionários na Rua 40, que se transformará em um terraço com jardim, pensado para os grupos de estudantes que visitam a biblioteca, e que ajudará a descongestionar os acessos.
A arquiteta holandesa Francine Houben, cujo escritório ficará responsável pela reforma, detalhou que o edifício é "esplêndido", mas que existem algumas salas nobres que o público não vê na atualidade, um "erro" que será reparado após as obras.
Apesar da insistência do público, que perguntou pelo futuro das estantes, Anthony Marx se limitou a dizer que todos os usos possíveis serão avaliados.
"Que uso vocês querem dar para uma estante? Coloquem nela os seus livros!", alfinetou uma senhora presente no evento, levando o público aos risos na sala.
sábado, dezembro 2
Onde estão os leitores de livros?

A questão da leitura no Brasil é difícil de formular. Por um lado envidam-se esforços no sentido de proporcionar acervos de livros adequados para leitores em escolas e universidades, centros de juventude, bibliotecas públicas e particulares. Por outro se treina as novas gerações em mídias digitais, o que não seria problemático, não fossem elas utilizadas quase que exclusivamente para mensagens e informações apressadas e superficiais, quando não levianas. Ao dar o mesmo valor a qualquer blog do que se dá a uma fonte criteriosa, como um bom jornal, o leitor se torna vítima fácil de notícias plantadas, informações maliciosas, ou simplesmente mau jornalismo. Todos nos tornamos médicos, advogados e historiadores após uma rápida consulta ao que disse tia Cotinha no Facebook da família, ou no Whatsapp da turma da escola. Há professores que simplesmente mandam pesquisar “na internet”, como se tudo que se encontra na web tivesse equivalência. Nem damos bola para o fato de que a especialidade de tia Cotinha é uma deliciosa sopa de legumes com ossobuco e que o primo de Paraguaçu Paulista não se notabiliza pela capacidade de selecionar informações. Confunde-se espaço democrático e direito de expressão com competência e divulgam-se asneiras de todo tipo sob o argumento de que todos têm o direito de se expressar. A única ressalva é que direito de se expressar não pode ser confundido – uma vez mais – com qualificação em todas as áreas. Para dar um exemplo extremo e obvio Dr. Paulo não me consultou sobre a técnica que deveria usar para implantar o marca-passo no meu peito. E eu ouso dar aulas e fazer palestras sem perguntar a opinião dele sobre fatos históricos. A qualificação existe, senhores...
Assim, que me desculpem os palpiteiros, mas competência é preciso. Claro (não finjam que não entenderam meu argumento) que não me refiro a assuntos e temas sobre os quais qualquer cidadão pode e deve se manifestar. Qualquer um pode e deve opinar, por exemplo, sobre reforma política (menos partidos? Voto distrital? Fim das coligações? Financiamento oficial? De empresas? Só de pessoa física?). Todos podem e devem entrar na discussão sobre se questões de saúde pública (como o aborto) devem ser confundidas com questões religiosas. Se foro especial não é uma prática antirrepublicana que beneficia apenas os já beneficiados e cria cidadãos de classes diferentes em uma sociedade que deveria privilegiar a igualdade de oportunidades. Se já não chegou o momento de acabar com essa folga de autoridades requisitarem aviões oficiais para passar o fim de semana em seus feudos (feudos, sim senhor) eleitorais, etc, etc, etc...
É evidente que não se deve tolher o exercício pleno da cidadania, que inclui o direito à manifestação, pelo contrário. O que defendo é o direito à informação séria, responsável, relevante. É fundamental ficar alerta, selecionar criteriosamente as fontes, evitando-se divulgar notícias falsas, textos apócrifos, supostas opiniões de figuras conhecidas que nunca disseram aquilo, trechos truncados que distorcem o conteúdo e, não menos importante, provocações irresponsáveis. E aí voltamos à questão da leitura de livros. Se você, improvável leitor deste artigo, não for um leitor de livros eu sinto muito. Ainda é neles que está depositado grande parte do patrimônio cultural da humanidade. Em livros estão registrados desde os textos sagrados das três mais importantes religiões monoteístas do mundo até as reflexões mais sofisticadas dos pensadores contemporâneos, passando por todos os teóricos sociais, estudos de economia, avaliações históricas das principais organizações sociais criadas pelo homo sapiens. Há livros para adultos e para crianças, para ler na praia, no metrô, no escritório, na cama. E se pensarmos em ficção, com livros a gente cria o personagem do nosso jeito, não fica sujeito aos caprichos do diretor do filme, por isso melhor que ver um bom filme é ler um bom livro.
Em uma sociedade em que o celular fica obsoleto em dois anos e uma relação amorosa não costuma durar nem isso; em que não temos tempo para conhecer as pessoas, elas nos aborrecem antes de sabermos quem elas são; em uma sociedade em que não degustamos, devoramos; em que não sabemos mais apreciar os caminhos, só queremos chegar; em que aprendemos a ler “por cima”, pulando linhas, letras e sentidos, sem curtir a construção elegante, o uso correto das palavras, o texto coeso, a mensagem clara; Quem teremos para ler livros nas próximas décadas?
Jaime Pinsky
sexta-feira, dezembro 1
Prazeres leitores
A moça veio com uma edição antiga de um dos meus primeiros romances. Estava em pedaços. Achei estranho aquele exemplar nas mãos de uma jovem. Perguntei onde havia arranjado aquilo, ela disse que só compra livros em sebo, não por economia, mas porque gosta de livros em decomposição.
Albena Vatcheva Para provar, mostrou-me um exemplar do mesmo romance em edição recente. Mas exigia o autógrafo no livro antigo. Enquanto colocava o habitual "com o abraço do", ela me informou que sofre de rinite e gosta de ler sentindo comichão (ou falta de ar) no nariz.
Carlos Heitor Cony, "Velho papéis"
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