Uma aranha no crânio
Foi em Maio
de 1976 que desembarquei pela primeira vez de um comboio na estação de Bonatz
porque me tinham dito que o pintor Jan Peter Tripp, com quem tinha andado na
escola em Oberstdorf, vivia na Reinburgstrasse, em Stuttgart. A visita que lhe
fiz ficou a ocupar um lugar notável na minha memória, pois a admiração que de
imediato me suscitou a obra de Tripp levou-me a pensar que também eu gostaria
de fazer qualquer coisa para além de dar aulas e orientar seminários. Tripp
deu-me nessa altura de presente uma das suas gravuras onde se vê o presidente
do Senado Daniel Paul Schreber, doente mental, com uma aranha no crânio — que
pode haver de mais medonho do que os nossos pensamentos em constante correria?
— e muito do que mais tarde escrevi deve-se a essa gravura, até na maneira como
procedo, adotando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente,
juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de
uma nature morte.
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