quinta-feira, abril 2

No embalo do balanço

 


Ser e saber

Vi o vento soprar
e a noite descer.
Ouvi o grilo saltar
na grama estremecida.

Pisei a água
mais bela que a terra.
Vi a flor abrir-se
como se abrem as conchas.

O dia e a noite se uniram
para ungir-me.
O enlace de luz e sombra
cingiu os meus sonhos.

Vi a formiga esconder-se
na ranhura da pedra.
Assim se escondem os homens
entre as palavras.

A beleza do mundo me sustenta.
É o formoso pão matinal
que a mão mais humilde deposita
na mesa que separa.

Jamais serei um estrangeiro.
Não temo nenhum exílio.
Cada palavra minha
é uma pátria secreta.

Sou tudo o que é partilha
o trovão a claridade
os lábios do mundo
todas as estrelas que passam.

Só conheço a origem:
a água negra que lambe a terra
e os goiamuns à espreita
entre as raízes do mangue.

Só sei o que não aprendi:
o vento que sopra
a chuva que cai
e o amor.

Lêdo Ivo, "Crepúsculo civil"

Mysterium

Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende dos tempo e do acaso.
Eclesiastes

Ao mesmo tempo e ao acaso eu acrescento o grão do imprevisto. E o grão da loucura que é infinita na nossa finitude. Vejo minha vida e obra seguindo assim por trilhos paralelos e tão próximos, trilhos que podem se juntar (ou não) lá adiante mas tudo sem explicação, não tem explicação.

Mas os leitores pedem explicações, são curiosos e fazem perguntas. Respondo. Mas se me estendo nas respostas, acabo por pular de um trilho par a outro e começo a misturar a realidade com o imaginário, faço ficção em cima da ficção, ah! tanta vontade (disfarçada) de seduzir o leitor, esse leitor que gosta do devaneio. Do sonho. Queria estimular sua fantasia mas agora ele está pedindo lucidez, que a luz da razão.

Não gosto de teorizar porque na teoria acabo por me embrulhar feito um caramelo em papel transparente. Me dê um tempo! Eu peço. Quero ficar fria, espera. Espera que estou me aventurando na busca das descobertas, “Devagar já é pressa!”, disse Guimarães Rosa. Preciso agora atravessar o cipoal dos detalhes e são tantos! E tamanha a minha perplexidade diante do processo criador, Deus! os indefensáveis signos e símbolos. Ainda assim, avanço em meio da névoa, quero ser clara em meio desse claro que de repente ficou escuro, estou perdida?


Mais perguntas, como nasce um conto? E um romance? Recorro a uma certa aula distante (Antonio Candido) onde aprendi que num texto literário há três elementos: em primeiro lugar (ou em último?) aparece a idéia. Vem em seguida o enredo e depois (ou ao mesmo tempo?) as personagens. Ou melhor, a personagem que pode ser aparente ou inaparente, não importa. Que pode ser única ou se repetir, tive uma personagem que recorreu à máscara par não ser descoberta, quis voltar num outro texto e usou de disfarce, assim como faz qualquer ser humano para mudar de identidade.

Na tentativa de reter o questionador, acabo por inventar uma figuração na qual a idéia é representada por uma aranha. A teia dessa aranha seria o enredo. A trama. E a personagem, o inseto que chega naquele vôo livre e acaba por cair na teia da qual não consegue fugir, enleado pelos fios grudentos. Então desce (ou sobe) a aranha e nhac! prende e suga o inseto até abandoná-lo vazio. Oco.

O questionador acha a imagem meio dramática mas divertida, consegui fazê-lo sorrir? Acho que sim. Contudo, há aquele leitor desconfiado, que não se deixou seduzir porque quer ver as personagens em plena liberdade e nessa representação elas estão como que sujeitas a uma destinação. A uma condenação. E cita Jean-Paul Sartre que pregava a liberdade também para as personagens, ah! odiosa essa fatalidade dos seres inventados (ou não) caminhando para o Bem ou para o Mal sem mistura, e onde fica a ambigüidade?

Começo a me sentir prisioneira dos próprios fios que fui inventar, melhor voltas às divagações iniciais onde vejo (como eu mesma) o meu próximo também embrulhado. Ou embuçado? Desembrulhando esse próximo, também eu vou me revelando e na revelação, me deslumbro para me obumbrar novamente nesta viragem-voragem do ofício. E vida.

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A temática da vocação que é paixão. Quase peço desculpas ao leitor por não ser mais otimista quando lido com a crueldade. Com a violência e com o medo. Vejo crescer o desamor pelas crianças e pelos bichos, vítimas maiores deste tempo e desta sociedade. Ainda assim, recorro ao humor, quero a graça da ironia para que o leitor não fuja entediado. Espera um pouco! — eu peço a esse leitor. Espera que posso até ficar engraçada mesmo em meio dos acessos de indignação, afinal, não estamos no Terceiro Mundo?

Há um perguntador que quer saber porque falo tanto na morte, nos contos e romances, sempre a morte. Faço uma pausa. Não sou inocente (o escritor não é inocente) e assim poderia agora começar um pequeno discurso para dourar a pílula: que importa a morte se a arte é a própria negação dessa morte? — pois não foi o que Ernest Becker repetiu mil vezes no seu famoso livro? Mas não será preciso recorrer aos livros para dizer uma coisa tão simples, a alma é imortal. A alma é imortal. Na reencarnação, essa alma irá habitar outro corpo da mesma espécie mas na transmigração a alma irá para um corpo que pode ser animal ou vegetal, que não fuja agora o nome do filósofo, Empédocles? “Pois já fui um rapaz e uma donzela, um arbusto e um pássaro e um peixe mudo do mar.”

Na transmigração (metempsicose) de um corpo para outro, o mistério. Que é ainda mais misterioso na sua raiz latina, mysterium. Vamos, repita em voz alta, MYSTERIUM — mas brecando um pouco no Y, boca aberto do abismo, mergulhe nesse abysmo. E repetindo a palavra-senha até ouvir lá no fundo o eco prolongado na queda pedregosa, uuuuuuummm…

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Perguntei à minha mãe se podia escrever o meu nome com a letra i ao invés do y, pois assim seria mais simples. Ela pensou um pouco e respondeu que tinha que ser mesmo com y. Por quê?, perguntei. E acrescentei que na escola até a professora implicava com essa letra que ninguém mais usava, o i era mais fácil. Desconfie das facilidades! ela exclamou ao levantar-se da cadeira para ir até a poltrona, naquele mesmo estilo do meu pai que mudava de lugar quando queria mudar de assunto.

Pronto, também eu mudando de trilho, melhor voltar às personagens nas quais eu tentava levantar a máscara (ou a pele) na busca do outro ou de mim mesma. O jogo é singelo. E malicioso. Fico fascinada porque meu pai era um jogador e dele herdei o vício do risco. Mas ele jogava com fichas e o meu jogo é com as palavras, e então? Perdi? Num país com tão vasta área de analfabetos, não posso pensar em lucro, é claro, mas em alimentar esta viciosa esperança. E agora eu me lembro, depois das generosas apostas na roleta, o meu pai terminava a noite apenas com a quantia exata para a condução de volta, o tal cassino preferido era distante. Ah! como brilhavam seus olhos enquanto dizia, Hoje perdemos mas amanhã a gente ganha.

A servidão da esperança. Esse livro não deu certo mas quem sabe o próximo?… Recuso os meus primeiros livros (as precipitadas apostas) que considero prematuros, começo a contagem a partir do romance Ciranda de pedra, publicado no ano de 1954. Esse romance ficou sendo o divisor de águas dos livros vivos e dos outros.

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Não quero ser compreendida, quer ser amada, respondi ao estudante de olhos asiáticos que se queixava, não entendeu o sentido de alguns dos meus contos. Ninguém compreende mesmo ninguém, difíceis as pessoas. As coisas. Quero apenas que meu leitor seja o meu parceiro e cúmplice no ato criador que é ansiedade e sofrimento. Busca e celebração.

Quis ainda saber qual dos meus livros eu preferia. Respondo que fico com o mais recente e ao qual ainda estou ligada, no caso, esse Invenção e Memória. Mais memória ou mais invenção? É impossível separar as águas de vasos comunicantes correndo pelos subterrâneos do inconsciente. Onde acaba a realidade e onde começa o sonho?

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Na antiga cozinha da minha infância, o caldeirão borbulhante, instalado no fogão de lenha. E Matilde, cozinheira e agregada, preparando a famosa sopa sem receita. Na noite escura, um ou outro morcego vinha se dependurar no teto enquanto ela, também esfumaçada, seguia indiferente na sua ronda sem pressa, preparando a sopa. Os ingredientes. Estendia o longo braço magro até o caldeirão fervente e deixava cair o ramo de ervas verdes. Agora era a vez das sementes estranhíssimas que tirava do boião de vidro — alguma hierarquia na entrada disso tudo? Mais uma aragem de sal que ela deixava cair do alto, num gesto de quase desdém. Não tem receita! respondia fechando a cara. Faço como me dá na telha.

Até que chegou aquela noite, quando minha mãe me chamou, Anda, vai lá e presta atenção em tudo e depois me conte o que viu. Contornei os baldes e caçarolas que aparavam as goteiras que caíam do teto (a tempestade) e fui me sentar num canto penumbroso. Matilde mexia na lenha do fogão, atiçando o braseiro que resistia, intratável. Mascava fumo negro e resmungava coisas desgarradas enquanto tirava a tampa do caldeirão paras mexer a sopa com a grande colher de pau. Com a mesma colher tentou afugentar o morcego mais próximo, Vai, vai Satanás! Fugi espavorida, Ela é louca! Fui repetindo enquanto corria, Ela é louca! Matilde e Macbeth lembrando que a vida “é história narrada por um idiota, cheia de som e de fúria e que não quer dizer nada”.

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E o escritor que pode estar desesperado mas não vai desesperar o leitor, ao contrário, pode até transmitir-lhe alguma esperança. O escritor que pode ser um demente e ainda assim vai afastar o leitor da demência. Ou do vício. O escritor que pode ser um triste e no entanto via fazer rir o leitor nessa terapia silenciosa. O escritor que sendo um solitário, será a terna companhia daquele que está na solidão.

P.S. No ano de 1998, em Paris, na Sorbone, foi realizado um seminário sobre alguns dos meus livros publicados na França. O depoimento que fiz é esse Mysterium que reescrevi hoje
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A transfiguração pela poesia

Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento.

Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia - a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras.

Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo?

Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos.

De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões.

A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar.

Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"

Crônica indigesta

Já começo essa prosa afastando, de início, qualquer aproximação com algo saudosista, algo do passado, de um mundo antigo. O que vamos pensar juntos é um caminho para vivermos de forma mais agradável, mais humana e gentil e, claro, menos aborrecida e, por consequência, mais divertida.

A experiência indigesta se deu num restaurante aqui em Santos, a minha aprazível cidade praiana. Sim, eu reclamo de barriga cheia. Vou poupar o local e ocultar seu nome, pois não é um problema exclusivo dele — é um novo jeito desagradável de viver que está se implantando bem debaixo de nossas papilas gustativas.

Lá fomos nós, num domingo, almoçar num lugar amplo, com evocações à vida campestre e simpático aos produtos orgânicos. Nos sentamos e começa o estranhamento — nenhum garçom ou atendente nos apresenta um cardápio, uma pequena explicação sobre a casa, sobre a missão, ou até mesmo aquela dica do dia, do chef, aquele peixe que está perfeito recém-recebido. Nada. Só havia aquela trambolho, aquele tablete com o tal de QR code. Nos olhamos e nada. Então já vi que era eu e aquilo, aquela maravilha da tecnologia. Lá fomos nós, quatro pratos, entrada, bebidas, telas sem fim, até terminar o pedido com um final silencioso e, para mim, sempre com uma nuvem de insegurança — será que virá de maneira correta o que pedimos? Pois não veio. Apesar de termos feito tudo certo, um dos pratos não veio. E era justamente o prato mais simples, o que tinha como base uma salada. Três começaram a comer e uma pessoa não. Chamei a atendente e ela monossilábica disse que estava vindo. Dei uma olhada pro chef, a cozinha é daquelas abertas, conceito de se ver o pessoal em ação, mas acho que ele não gosta muito do conceito. Enquanto eu buscava o contato, ele virava pro outro lado. A salada com um salmão grelhado chegou e, claro, almoçamos sem pressa. No andamento mais tablete para pedir mais um refrigerante, mais tablet para uma sobremesa e mais para dois cafés e a conta.

Veio um rapaz com a máquina de cartão, paguei e saímos, nenhum diálogo com ninguém, ninguém!

Impossível para um livreiro que pensa sobre o nosso futuro, o futuro das livrarias principalmente, não ter uma impressão ruim dessa experiência. Claro que fiz as conexões entre as livrarias impessoais e os restaurantes impessoais.

As redes de livrarias que se deslumbraram com o autoatendimento, o self-service, o papo de deixar o leitor livre, leve e solto… e abandonado. Essas livrarias em bom número se enfraqueceram ou fecharam as portas. O afastamento do leitor, a impessoalidade, a falta de conversa, a falta de opinião sobre o que se vende — isso tudo vai minando o local e a sua força, a sua reputação e laços construídos com seus frequentadores.

E volto a bater na mesma tecla, não do teclado aqui, mas volto ao mesmo assunto, não se trata de ser saudosista. Acho que a tecnologia serve para tirar coisas e operações trabalhosas da nossa rotina e ela própria pode ser um ingrediente de aproximação, não o contrário. Claro que um restaurante ou uma livraria necessitam de um sistema operacional, de estarem conectados à internet, de estarem ativos em suas redes sociais. Mas será que um cardápio impresso, com um garçom que conduza as escolhas, contando curiosidades do chef ou algum segredo de um prato, ou até mesmo o chef vir prosear após a refeição e saber da gente o que achamos, isso é ser antigo?

Numa livraria, quero sempre conhecer o cliente, saber as manias do leitor, saber o que ele leu e gostou ou o que não gostou. Nossos espaços são de convívio, são convites de encontros para pessoas em busca de conhecimento, de diversão com conteúdo. Não sou um algoritmo, sou um livreiro, deixa eu arrumar, Livreiro, assim, com maiúscula. E num restaurante não quero um tablet famigerado, quero atendimento, quero ouvir causos, quero comer bem e sair com vontade de voltar mais vezes, transformado pelo que ouvi, comi e aprendi.

Longa vida ao Livro físico e ao cardápio físico.

Até já, chegou a hora de preparar o almoço.

quarta-feira, abril 1

Proteja-se

 


Canção sensata

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.

José Paulo Paes, "Antologia Poética"

Recenseamento

São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas.


O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

- Quantos são aqui?

Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

E outro:

- Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.

E outro:

- Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.

E outro:

- Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!

E outro:

- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!

E outro:

- Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão.

E outro:

- Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn... João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de "meu pequeno". Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada. Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!
Rubem Braga. "Para gostar de ler 3"

Cada pergunta!

A menina brinca no tapete, parecendo nem ouvir o telejornal mas, quando começa o intervalo, levanta a cabeça:

— Pai, que que é corrupção?

O pai e a mãe se olham, o pai suspira e diz bem, corrupção…

— …não é coisa pra gente da sua idade, né.

Claro que é, diz a mãe:

— Responde direito, que se a criança pergunta, é porque quer resposta.

Bem, pigarreia ele, corrupção é…

— …por exemplo roubar dinheiro do governo, que é dinheiro de todo mundo.

— E como é que a corrupção rouba dinheiro do governo?

O pai explica que quem rouba não é a corrupção, é o corrupto, é alguém, ou melhor, é muita gente que rouba o governo:

— Por exemplo o funcionário que desvia dinheiro do governo. Ou o deputado que vende o voto dele lá no Congresso. Ou o juiz que emprega parentes nos gabinetes de outros juizes, em troca de empregar parentes deles. Ou o empresário que paga para ganhar concorrência das obras do governo. Ih, filha, tem tanto jeito de roubar o governo, não é, mulher?

— É, e o seu pai também rouba o que pode quando faz declaração de imposto de renda.

Volta o telejornal e a menina volta a brincar, eles voltam a ver as notícias. Novo intervalo, ela de novo ergue a cabeça:

— Por que o dólar sempre sobe e o real sempre cai?

O pai suspira fundo, e com voz monótona compara os Estados Unidos e o Brasil, as diferenças de colonização, Inglaterra e Portugal, e as diferenças geográficas, climáticas, culturais, mas a mãe diz que não é por nada disso:

— Acho que é porque eles são um povo menos corrupto, filha.

— Então o povo também é corrupto, mãe?

— E você acha que tinha tanta corrupção se o povo não fosse corrupto?

Você vai fundir a cabeça da menina, diz o pai:

— Isso não é conversa pra criança. E além disso, hem, cada pergunta!

— Por isso mesmo é preciso responder.

Volta o telejornal, e depois no intervalo a menina volta a perguntar:

— E o que que é impunidade?

— Essa eu mato fácil — o pai esfrega as mãos — Impunidade é quando você comete um crime e não é preso.

— E só tem tanta corrupção — emenda a mãe — porque tem muita impunidade, ninguém denuncia, entendeu?

Ela de novo volta a brincar, mas antes de mais um intervalo vai até diante da mãe:

— Então você acha que, pra acabar a corrupção, a gente tinha de contar que o pai rouba no imposto?

O pai pula da poltrona:

— Tá vendo?! Criança delatando pai só mesmo na Alemanha nazista! Eu falei que isso não era conversa boa! Mas você e sua educação moderna!…

Sai batendo a porta, a mãe solta longos suspiros.

— Que que eu falei de errado, mãe?

— Nada, filha, nada. Mas você faz cada pergunta!…

O fio da leitura

Sou de uma época em que leitores retiravam — felizmente — um grande prazer do ato solitário… da leitura.

Digo isso porque não me parece que os leitores de hoje estejam desfrutando do mesmo redondo vínculo de satisfação transmitida entre quem escreve e quem lê, naquele circuito sinérgico de prazeres que fez a força da literatura.

Às vezes penso, gelado, que houve uma mudança qualquer, desde quando li o meu primeiro Júlio Verne — A ilha misteriosa, incrustado na memória — até esta era da pressa esmagante entre outdoors e semáforos que acendem o alerta vermelho: estaremos perdendo o sentido da ficção, por exemplo, assim como se dilui um tanto, na maturidade, o princípio do sorvete?

Faço a pergunta a mim mesmo (quase indiferente a um combinado de maracujá com mangaba), no calor em que recordo o envolvimento, de cálidas urgências, com a página impressa e seu cheiro, a capa acetinada e sua textura, o conteúdo e o seu arrebatamento. Lembro que eu não podia, simplesmente, largar o volume meio ensebado de O fio da navalha — nem mesmo ao ouvir os chamados para o almoço a cheirar bem na mesa. O anúncio olfativo, a convocação dos parentes, nada tinha maior apelo do que continuar na leitura de alguns livros que ainda reverberam na mente relutante em aceitar que fossem de segunda ordem (na ordem confusa dos primeiros “sorvetes”).

De Verne a Charles Morgan, de Thomas Mann a Cronin, de Marcel Proust a Nevil Shute… os romances que eu lia (sabendo que éramos legião!) respondiam a uma urgência profunda de explicação, de experiência indireta e de uso agradável do tempo. Mas não pretendiam ensinar nada de prático, não prometiam nenhum tipo de compensação imediata na vida, nenhum consolo barato, nem quaisquer iniciações “místicas” de duvidosa origem e ainda pior eficácia.

Romances eram lidos por pura paixão da ficção desabalada na carreira de acontecimentos inventados — onde hoje está a atração da “realidade”, sob o influxo imediatista da TV (já agora em real time) — e os seus autores não tinham mais a oferecer do que o fio encantatório de relatos e ficções dos vários gêneros desatados das noites de Sherazade contando histórias para se manter viva pelo cordão de Ariadne da imaginação, maior ou menor, de “principais” e de “reservas” desnovelando fios de ouro e de prata para muito além do horizonte das cozinhas de pratos esfriando nas mesas.

William Somerset Maugham supostamente pertence ao time reserva, ao segundo contingente e à cozinha de trás, na sombra da sua modéstia. Mas, suas omeletes!, suas cassatas — como recordá-las sem a lembrança de um prazer de qualidade vulgar e secreta ao mesmo tempo? Costumo imaginá-lo menos como escritor do que como o oficial da tropa de bravos encantadores de serpentes que me mantinham no sofá da sala ou na cadeira do terraço, distante do jantar. Devo demais à sua flauta doce — sobre o tapete de silêncios de antes da televisão — para jogar sobre esse amável escritor, trinta e tantos anos depois, algum ingrato desprezo dos seus temas, simples ou complicados, nos enredos de contos, novelas e romances servidos de dotes narrativos (e de observação) às vezes ausentes das grandes obras “artísticas”, escritas por autores demasiado elevados, quem sabe, para reparar em todos os detalhes de um saguão de hotel onde alguém acaba de perder um anel de estimação.

Os que vão morrer — com um bom romance na mão — saúdam essas (e outras) capacidades modestas, sensíveis e também um pouco perdidas no acúmulo de imagens das microcâmeras instaladas nos mesmos saguões.

Os que ainda são fiéis a Servidão humana, O pecado de Liza, Histórias dos mares do Sul e outros livros da linhagem “lateral” da literatura, ganham a coragem de confessar a admiração pelo autor capaz de convocar os gênios da lâmpada da escrita para reforçar o fascínio de uma história entreouvida no convés de um navio, da boca de algum pária das ilhas de Conrad… ou mesmo de uma delicada senhora que recebe amigas, longe do mar, sob um toldo colorido, numa Villa toscana debaixo da chuva. Você guardará a cor desse toldo para o resto da vida — e a luz coada sobre os rostos das mulheres ouvindo uma história de mulheres (puramente captada), permanecerá confundida, na imaginação, entre as visões e as vozes da tal “realidade” que hoje vigora como descolorido atrativo.

Eis o fascínio do médico, diplomata e viajante autor de O fio da navalha, nascido em 1874 e falecido em 1965 — com a glória de ter chegado a ser, na língua inglesa, o mais editado… depois do seu xará Shakespeare e daquele maravilhoso bruxo sentimental que foi Charles Dickens. Tais “escores” de almanaque não soam totalmente vulgares no prefácio de uma obra anatemizada pelo sucesso, “fruto da lavra” desse narrador cheio do poder de invenção de caravaneiros a se entreterem, na rota da seda, com os contos inventados entre dois oásis.

A vida cinzenta oferece muito pouco disso (oásis!), mas algo pelo menos restou nas ilhas do Éden da literatura — as “verdejantes ilhas da imaginação”, segundo Byron —, como herança transmitida pela veia dessa ficção de modéstia só aparente, rapazes. Aliás, viva a modéstia em literatura!, ou melhor: viva os modestos escritores capazes de nos dar mais do que o prazer pedido ao mundo interno dos livros. Você, que vai começar este de Somerset Maugham… perca a “esperança” de se enfastiar com a sua leitura.

Lamento, mas as páginas desta obra “secundária” irão arrastá-lo, com conversa, entre três continentes e alguns cubículos, muitas mansões e os anos passando sobre pessoas queridas. Quase vivas, elas hão de afastá-lo do tédio que acaso você procure (?), fruto do novo “prazer” — disfarçadamente perverso — que agora se cultiva deste lado do perdido paraíso da leitura: ler, sem fascínio, o que é oferecido com indiferente orgulho. (Ecos e bandolinos de corda me levam a avisar: nenhuma novel vontade de se chatear poderá se dar bem com a honesta obra dos Maugham da vida.)

O fio da navalha é a história de uma ascese no meio profano da burguesia americana. Aqui há, primeiro, o ambiente da Chicago endinheirada, vista como num romance de Sinclair Lewis. Depois, há uma Europa agitada, observada entre conversas distraídas e um intenso desencontro dos pontos de vista do “herói” e da “heróina”, na paisagem de uma Riviera bem diferente daquela de “Mr. Ripley” (pois a história é bem anterior ao cinismo que ostentamos entre amores novos & velhos crimes).

O Oriente comparece, mais atrás, focado pelo binóculo asséptico de Larry Darrell na sua busca meio bronca do Absoluto como se fosse uma jóia minerada, insensatamente, de penhor em penhor, nos tempos de depressão. O romance é narrado por Somerset em pessoa, atravessando os mares com um perfeito ar descansado (mas curioso de saber notícias de Larry entre as fumaças daquela perseguição do Ser Supremo como se fosse um fugitivo da justiça). É encantador — e ainda obtemos algumas lições de como manter o interesse do leitor suspenso do fio que não se parte.

Há perfis traçados com o carvão dos desenhistas rápidos, retratos que se encaixam num escondido jogo de decifração e pistas sobre a identidade real de muita gente que intervém nos sete longos capítulos de The Razor’s Edge. Vejam — ou revejam — Elliott Templeton como uma espécie de esboço caricatural do romancista Henry James, homem também mundano. Não creio que o autor de Retrato de uma dama forneça o modelo de Templeton até o fim, mas recomendo observar quão completa é a simpatia do circunspecto narrador, na cena da morte de Elliott. Podemos então compreender que fosse Somerset Maugham celebrado não só como autor, mas também como confidente da eleição de muitos homens e mulheres que o amaram, nos dois lados da Mancha, como um amigo antes de tudo.

Larry Darrell enxerga isso no escritor e dizem que, no seu retrato, o atento Maugham teria retocado a trajetória espiritual de Thomas Merton, montanha acima, por justos sete patamares. Quem conhece a autobiografia do padre americano sabe que ele conta uma história mais ou menos parecida, em muitos aspectos das suas viagens e experiências da juventude.

Mas Darrell é também um sub-Gatsby retirado dos bancos escolares da classe alta americana — que Maugham conhecia muito bem. Se “retocou a trajetória”, foi porque a idéia extravagante — para Chicago — de caminhar pelo fio da navalha (na busca do sentido da existência) fornecia a tensão ideal, acredito, para o conflito do interesse pragmático contra o modelo “último tipo” de inquietação capaz de assaltar um bom sujeito. Hoje, é possível ver que Larry se tornou parecido com mais alguém. Quem? Com um James Dean bem penteado? Faça o leitor a sua própria escolha, entre os rapazes angustiados.

Seja com quem for, o personagem cresceu, pode se dizer, com toda aquela “geração de Katmandú” que ele antecipou, deslocado entre casacas e coquetéis, enquanto dançava ao som que não vinha do chefe de orquestra, num jardim de orquídeas alugadas. E permanece boa a forma como se capta, aqui, as razões de um jovem (destinado a um bom emprego) para se tornar um vagabundo vago como as estrelas da Ursa quando se trata de explicar porque simplesmente não volta para a noiva e para Chicago…

Sim, porque em Paris ele, Larry, “não faz nada”… e ela esplende — o melhor lugar para não se fazer nada —, a Paris onde Maugham nasceu por acaso, e que não é a de Hemingway, claro, mas a de Somerset: um céu mais do que azul, num véu pintado, vista da janela do Ritz sobre ruas molhadas, roupas certas e cardápios da moda, fortunas e etiquetas, horários de trens e convites para festas na Riviera.

A Paris do visitante, dos ricos tagarelando sobre a ameaça de guerra e dos parisienses comprando vinho barato e baguettes recheadas. Malicioso como uma dama de Florença, o escritor nos conduz para dentro do ponto de vista americano sobre o velho continente europeu, e nele engasta a sua história de um amor nublado por perguntas em torno de Deus.

É pouco? Só vi fazer melhor quando Graham Greene — outro inglês com a flauta mágica — escreveu End of the Affair (embora a fé católica pese demais sobre esse romance bem diferente deste relato “pagão”).

Sou de uma época em que se apreciava tudo isso. Havia ternura pela busca de valores abstratos, febre no amor feminino e no amor masculino com seus códigos intensificados pela diferenciação — e não o contrário. O erotismo podia ser o da vida e o da morte (como no romance de Greene), e uma certa dignidade essencial ainda não fora desfigurada pela guerra nas trincheiras, entre soldados com almas próprias, lembranças e olhos por fechar, nos campos de batalha depois abertos a visitantes de smoking, vindos da capital elegante.

Houve um tempo assim. Agora, está definitivamente acabado.

Uma parte dele — e aquele anel que resta atrás da samambaia do hotel ainda não demolido — jaz nas páginas deste “romanção” à antiga, cheio de coisas perdidas, prazer da narrativa e o mais que está ficando difícil de encontrar nas estantes onde você sempre pode pegar O fio da navalha sem dizer a ninguém e até mesmo fingindo que jamais leu quaisquer das novelas de W. Somerset Maugham.