sexta-feira, maio 22

Mãos sonhando mulheres

A chuva timbilava no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.

— Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?

Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do destino.

— Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.

As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não pomos nunca o coração. E prossegue:

— Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?

Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que Deus lhes confiou.

— Me enganei dessa mulher, Muidinga.

Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.

— Agora vivo de cor e salteado.

Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras iniciações.

— Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.

Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.

— Agora pensa nas meninas.

— Tio! Não faça isso...

— Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.

— Mas, tio: assim eu não consigo...

— É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo corpo!

— Não vai dar, tio.

— Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma casca.

— Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.

— É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.

Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.

— Mas nós bebemos, tio?

— Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.

E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se inquieta:

— Não é perigoso barulharmos assim?

— Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.

O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.

— Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.

Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.

— Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.

Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?

— Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado. Porquê, tio?

Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.

— Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse peso...

Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.

— Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.

— Mas ler agora, com esse escuro?

— Acendes o fogo lá fora.

— Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.

— Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.

— Podemos, tio? Não há problema?

— Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.
Mia Couto, "Terra Sonâmbula"

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