domingo, março 1

Paz da leitura

 


Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill

Os jeguinhos de minha mãe

Quem entrasse na sala de estar via logo aquela mesa especial no canto. De madeira maciça encerada, móvel pesado, a tampa grossa e lustrosa, nem escura nem clara, distinção na medida certa. Sobre ela, espalhados, os jeguinhos de minha mãe. De todos os tipos, para os gostos mais variados, bonita coleção. Grandes, médios, pequenos, feitos com materiais diversos. Os de porcelana, pintados, talvez fossem os mais românticos.

Um em especial sempre me chamou a atenção. Por ser grande, trazer as cangalhas cobertas de flores coloridas. E os olhos do jeguinho? Vivos, doces, com uma submissão quase santa. Sem dúvida o meu preferido. Mas havia para múltiplos paladares. Outro, muito pequeno, de ferro, bem detalhado, possuía até o penacho, alto e pontudo. Vários talhados em madeira, artesanato rico, trabalhos de sertanejos apaixonados pelo bicho tão querido nordestino.

Eu quase sempre parava e ficava olhando aquela maravilha. Às vezes percebia uma nova aquisição. Podia ser de pano, palha; ela expunha todos, sem fazer diferença.

Virou um hábito na família. Quando viajávamos, ficávamos atentos. De repente, sem aviso prévio, encontrávamos o jumentinho que seria levado de presente. Em uma loja, feiras populares, certa ocasião encontrei vários sobre uma canga estendida na areia de uma praia. Feitos em arame por um rapaz com aparência que lembrava os hippies dos anos setenta. Caros. O artista sabia se valorizar. Comprei logo dois. Belíssimos!

— Por que você gosta tanto de burrinhos em cima dessa mesa, mãe?

Ela ria e não respondia imediatamente. Fazia certo charme.

— Por quê, hein?

— Porque não posso pôr meus filhos em cima dela.

Foi como uma febre. A coleção hoje não existe mais. Aos poucos, D. Marise foi perdendo a vontade de cuidar dos bichinhos, parou de reclamar quando algum, por desventura, caía e se quebrava. A tropa foi minguando sobre o tampo do aparador. Ela espalhou os poucos que sobraram pelos mais variados cantos do apartamento; a burricada deixou de ser exibida em conjunto. Pena!

Eu nunca entendi direito o que faz uma pessoa desejar colecionar alguma coisa. Como jamais possuí o hábito, estranhei aquela disposição acumulativa de minha mãe. O fato de ter tido começo e fim. E lamentei a interrupção. Sem graça andar por aí sem procurar jeguinhos para D. Marise. Era um hábito prazeroso.

Gosto de livros. Além de ganhar muitos, existe a compulsão de adquiri-los. Entrar em livrarias é sempre um desafio; dificilmente saio sem carregar comigo algum volume. Mas não me considero um colecionador de livros. Orgulho-me de minha biblioteca, mas bibliotecas não podem ser chamadas de coleções de livros. Ou será que podem?

O fato é que se aproxima o Natal. Espalham-se pela cidade presépios, e neles sempre existem os jericos. Afinal, eles carregaram Maria e o menino Jesus. Quando os vejo, sinto falta dos jeguinhos de minha mãe.

Juro que nunca vou esquecer

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar

- Porquê ?

que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico (não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)

isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)

botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga

(a nódoa grita)

o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga

- António

senhor, por favor diga

- António

chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
António Lobo Antunes

A palavra

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.

Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?

Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
Rubem Braga, "Ai de ti, Copacabana"