quinta-feira, outubro 19

Amanhecer com livro

Coffee Art Coffee Cards and Art for by RoseHillDesignStudio

Dois velhinhos

Ekwall, Knut (1843-1912) Story time
Knut Ekwall,(1843-1912)
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
 Dalton Trevisan

quarta-feira, outubro 18

Primeiros passos

Steve McCurry
Steve McCurry

Uma voz e um canal

@gizemkazancigil| Be Inspirational ❥|Mz. Manerz: Being well dressed is a beautiful form of confidence, happiness & politeness
Editores podem voltar a ser importantes e reassumir seu mais-que-nunca-nunca necessário papel curatorial (o de pinçar e aprimorar, na barafunda catártica da web, o que tiver potencial) quando conseguirmos compor o aparentemente inconciliável e soubermos publicar, com a virulência dos escândalos, o que tiver de fato informação e reflexão originais; quando superarmos fake news com new takes: novas formas de engajar e agarrar os leitores; quando dermos ao público, de forma fácil e inteligente, o que eles conseguem de forma fácil e burra na internet: uma voz e um canal
Julio Silveira, Da utopia caímos na distopia

Começou o dia!

Reading

Edição global

Imagem relacionadaQuando o mundo se tornou uma aldeia global, a edição não teve outro remédio senão globalizar-se também. Para o bem e para o mal. Para o bem porque, como leitores, em lugar de esperarmos anos pela tradução portuguesa de determinado livro (o que acontecia frequentemente quando eu era jovem), hoje o texto chega ao editor português num PDF ou num ficheiro Word pouco depois de terminado pelo autor e pode começar a ser imediatamente traduzido, fazendo com que a edição portuguesa saia praticamente ao mesmo tempo da original. Para o mal porque, em determinados projectos mais escaldantes ou mediáticos (lembro-me, por exemplo, das biografias de Bill Clinton ou de Nelson Mandela que publiquei há uns anos ou da série Millenium, para citar uma obra mais recente), todas as edições têm de sair obrigatoriamente no mesmo dia e é preciso um tour de force diabólico para cumprir os prazos; além disso, toda a correspondência é absolutamente confidencial e há multas sérias para fugas de informação... E, apesar dos cuidados, por vezes há «distracções». E o que aconteceu agora na Holanda é exemplo disso: a tradução neerlandesa de um livro do escritor britânico Philip Pullman que era muito aguardado (pois dava continuidade a uma trilogia que tinha vendido 17,5 milhões de exemplares e fora adaptada ao cinema e à televisão), saiu antes da edição inglesa... O editor foi repreendido e retirou imediatamente os livros do mercado, mas já houve uns quantos sortudos que se chegaram à frente e têm o livro. Antes mesmo do próprio autor. Custos e vantagens da globalização.

segunda-feira, outubro 16

Conectado

Me aislo del mundo con la lectura para conectar con otros mundos (ilustración de Maria Espluga Solé)
Maria Espluga Solé

Um terror de livro

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Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue
Ana Hatherly, A cidade das palavras

Limbro dos livros esquecidos

O brinquedo do pobre

Quero dar a ideia de uma distração inocente. Há poucas diversões que o sejam!

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Quando sair de manhã com a intenção de vagar pelas estradas, enche o bolso de pequeninas invenções baratas – como o polichinelo simples de uma corda só, os ferreiros que malham a bigorna, o cavaleiro e o cavalo de cauda em forma de apito – e pelos cabarés embaixo das árvores presta com elas homenagem às crianças pobres e desconhecidas que encontrar. Verás aumentarem desmesuradamente os seus olhos.

Primeiro, elas não ousarão tocar em nada, não acreditarão na sua felicidade. Depois, suas mãos agarrarão com vivacidade o presente e elas fugirão como os gatos que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe o bocado que ganharam.

Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria.

O luxo, a indolência e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que parecem feitas de outra massa que não a dos filhos da mediocridade ou da pobreza.

Ao lado dela, sobre a grama, um brinquedo esplêndido, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a criança não ligava para seu brinquedo predileto, antes olhava isto:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.

Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segundo examinava avidamente, como um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida.

E as duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.

Charles Baudelaire

domingo, outubro 15

Solução para os domingos

Tarde de domingo y lectura (ilustración de Snezhana Soosh)
Snezhana Soosh

Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz

Os cabelos prateados e o sorriso amistoso são o cartão de visita da escritora canadense Margaret Atwood que, no próximo mês, completa 78 anos. Mas, como são encaracoladas, as madeixas aumentam sua vantagem, revelando uma elegante senhora cheia de estilo, charme, energia e, principalmente, bom humor. Margaret ri de suas próprias piadas, o que as tornam ainda mais engraçadas. Foi o que tornou tão ruidosa a entrevista coletiva da qual participou na manhã de sábado, 14, na Feira do Livro de Frankfurt, que termina no domingo, 15.
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Ela veio à cidade para receber o Prêmio da Paz, conferido anualmente pela Associação de Livreiros Alemães. Desde que um de seus antigos livros, O Conto da Aia (Rocco), publicado em 1985, alcançou um novo e estrondoso vigor mundial ao inspirar a série de sucesso The Handmaid’s Tale, a escritora de olhos azuis voltou a ser uma celebridade. “Foi o primeiro produto em streaming a ganhar um Emmy”, comentou ela, em tom de orgulho, referindo-se ao prêmio americano tradicionalmente dedicado à TV.

Distópico, o romance tornou-se profético depois da eleição de Donald Trump, alçando Margaret a uma posição de profetisa. “O que o torna tão moderno é o retrato do totalitarismo americano”, comentou. De fato, O Conto da Aia é ambientado em uma república em um futuro próximo. Lá, não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. Tampouco universidades. Extinguiu-se ainda a profissão de advogado porque ninguém tem direito a defesa – quem é considerado criminoso é fuzilado sumariamente e seu corpo é pendurado em praça pública, para que o apodrecimento escancarado sirva como exemplo e intimidação. Atos banais tornaram-se crimes, como cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi chamada de Estados Unidos da América.

“Quando escrevi essa história, eu vivia em Berlim, nos anos 1980. O muro ainda dividia a cidade e nada indicava alguma mudança – mal sabíamos que, cinco anos depois, ele seria derrubado”, observou. “Hoje, vivemos uma era de mudanças e revoltas. Escreveu-se muito sobre tiranias, autores como Tim Snyder (autor de Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente, lançado pela Companhia das Letras) também se tornaram proféticos.” Margaret referiu-se tanto à crise espanhola provocada pela tentativa de separação da Catalunha como dos constantes tropeços do governo Trump. Aliás, a fim de explicar o atual sucesso de O Conto da Aia, a autora se lembrou da tentativa do presidente americano e de alguns políticos em controlar os direitos femininos – no romance, as mulheres de Gilead não têm direitos e ainda são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. À personagem Offred, por exemplo, coube a categoria de aia, ou seja, sua função resume-se à procriação, uma vez que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas.


“O Canadá se tornou o país onde os americanos buscam refúgio sempre que estão inquietos. É o que acontece com as mulheres hoje”, disse Margaret que, perguntada sobre o cristianismo, lembrou que as religiões de todo tipo tentam impor restrições às mulheres. “O propósito de todas as crenças é a ter sempre muitos seguidores, daí a importância do papel feminino na procriação. Somente os Shakers (seita religiosa fundada no século VIII, na Inglaterra, e famosa por seu comportamento frenético durante os cultos) não tentaram controlar os corpos das mulheres porque adotaram órfãos. Mas eles desapareceram rapidamente, devido à escassez de órfãos”, disse ela, ecoando mais um tema de seu romance.

Margaret foi irônica ao comentar sobre um assunto atual, mas não relacionado ao livro: as acusações de abuso sexual do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. “Felizmente ele não tem nada a ver com nossa série”, suspirou. “Situações em que mulheres jovens são exploradas por homens poderosos são infelizmente comuns já faz anos. O que permite esse tipo de abuso são dinheiro, poder e advogados. Ao menos, já estamos vendo mudanças e homens poderosos foram desafiados pelas redes sociais, que permitem a todos se expressarem publicamente, o que dá uma grande ressonância ao seu discurso.”

A escritora pontuou que os acusados de hoje são homens cujo comportamento era considerado, para alguns, “progressivo”. “O fato de serem desmascarados e tirados de seu pedestal é um alerta aos que têm esse tipo de comportamento”, observa. “E isso nos faz pensar que o ser humano é variado e o tratamento que cada um recebe não deve ter nada em comum com a maneira como Weinstein tratou aquelas mulheres.”

Uma das pioneiras no uso das redes sociais – já se divertia com o Twitter em 2008 –, Margaret Atwood elogia a ferramenta como palanque aberto a todas as vozes, mas sabe de seus limites. “As redes sociais têm três aspectos: um positivo, um negativo e um estúpido, que não foi pensado por ninguém pensou. O anonimato do Twitter libera o discurso político, mas também permite comportamentos detestáveis. Quanto ao aspecto estúpido, os robôs que me enviam mensagens sexuais são parte disso.”

Ubiratan Brasil

sábado, outubro 14

Use marcador

um projeto do inglês Philip Bradley, que adaptou antigos pôsteres de guerra para a campanha Save Libraries

Uma casa para livros e gatos

O pedido chegou de um artista, poeta e professor e de uma poetisa e gestora de uma livraria. O casal de Brooklyn, em Nova Iorque, foi até ao atelier de arquitetura BFDO Architects explicar o sonho deles: que a casa onde moravam fosse transformada num espaço cheio de luz e com dois requisitos fundamentais — ser perfeita para receber livros e para acomodar os felinos lá de casa. Assim nasceu a House for Booklovers and Cats — um espaço que faz sonhar quaisquer amantes de gatos e livros.


A sala de estar ganhou uma nova vida, tornou-se um lugar amplo, limitado por prateleiras onde vivem livros e com locais de circulação a alguns metros do chão para os gatos. É que, além de quase todos os felinos adorarem aventurar-se em locais altos, os dois desta casa são tímidos e gostam de ter espaços onde possam ficar longe de visitas menos familiares. No topo das prateleiras, coladas ao tecto, há pequenas portas quase secretas por onde os animais podem passar para ir até aos quartos do segundo andar. A claraboia central leva luz à casa toda, decorada de forma minimal. Aqui, humanos e felinos podem ser felizes.
(Fonte: Público)

Começando o dia

Assim começa o livro...

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Todo mundo quer ser dono do fim do mundo.

Foi o que meu pai me disse, junto às janelas arredondadas de seu escritório em Nova York — gestão de recursos privados, dynasty trusts, mercados emergentes. Estávamos, coisa rara, compartilhando um momento no tempo, um momento contemplativo, tornado completo pelos óculos escuros clássicos de meu pai, que traziam a noite para dentro da sala. Eu examinava os quadros nas paredes, obras de diferentes graus de abstração, e comecei a me dar conta de que o silêncio prolongado que se seguiu a seu comentário não pertencia a ele nem a mim. Pensei na esposa dele, a segunda, a arqueóloga, cuja mente e corpo depauperado em breve haveriam de se dissipar, seguindo um roteiro previsível, no vazio.

Aquele momento me voltou à lembrança alguns meses depois, do outro lado do mundo. Cinto de segurança afivelado, eu estava no banco de trás de um carro blindado, um hatch com vidro fumê nas janelas laterais, cego dos dois lados. O motorista, separado do banco de trás por uma divisória, usava uma camisa de time de futebol e calças de moletom com um volume no quadril que indicava a presença de uma arma. Depois de uma hora de viagem por estradas esburacadas, ele parou o carro e disse algo para o dispositivo preso em sua lapela. Então girou a cabeça quarenta e cinco graus em direção ao banco do carona. Concluí que era hora de soltar o cinto de segurança e saltar.

Aquela viagem de carro era a última etapa de uma maratona intercontinental, e me afastei do veículo e fiquei parado por algum tempo, entorpecido pelo calor, carregando minha mala e sentindo meu corpo relaxar. Ouvi o motor dar a partida e me virei para o carro. Ele estava voltando para a pista de pouso particular, e era a única coisa a se mover ao longe, que em breve haveria de sumir na paisagem ou na penumbra crescente ou no horizonte puro e simples.

quinta-feira, outubro 12

Passeio para o Dia das Crianças

Visitar las librerías en familia es una excelente manera de fomentar la lectura desde casa (ilustración de Jana Glatt)
 Jana Glatt

Lembro do mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena

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As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, e O Sol É para Todos, de Harper Lee, foram retirados dos programas escolares do Condado de Virginia por reclamações de uma mãe cujo filho adolescente ficou perturbado, pois os livros tinham “insultos raciais e palavras ofensivas”. Isso aconteceu nos Estados Unidos, mas, como é lá que tudo começa (do nacionalismo rude ao clareamento dental), para lá nós vamos. Por isso quero expor meu pecado, do qual não me arrependo: para lembrar a mim mesa, quando os adolescentes forem almas tão sensíveis que não consigam ler Platero e Eu sem ir ao psiquiatra, como era esse mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena. Não me pesa, senhor, nem me arrependo de ter folheado, quando criança, livros que meus pais me pediram para não ler porque tinham cenas de sexo ou de violência, nem de ter lido as histórias bestiais de Horacio Quiroga, nas quais lindas menininhas eram degoladas por seus irmãos com deficiências mentais, nem do jato de entranhas de Santiago Nasar. Eu não sei o que de tudo isso me fez ser quem sou, alguém que era feliz mesmo quando achava que não era, que alguma vez leu, associada a Jack London, a frase “nenhum homem sobre mim” e fez dela seu escudo. Mas não me arrependo. Quando era pequena, li livros que me destruíram, como Os Filhos Terríveis, de Cocteau; que me deram pesadelos, como O País de Outubro, de Bradbury, ou que não entendi, como Morte em Veneza, de Thomas Mann. E não estive no inferno, mas sei como é porque li O Poço e o Pêndulo, de Poe. Quando este for um mundo cheio de adolescentes hipersensíveis que não podem comer um frango sem chorar, continuarei com minha presa entre os dentes, vivendo da maneira que os livros me ensinaram a viver. Gosto do meu mundo sujo, contraditório, imundo e baixo. Não o troco pelo lugar desinfetado que em breve será.

Para aproveitar o feriadão




Gennady Myznikov (1977) 

Anders Zorn (1860 -1920)

Carl Larsson  (1853-1919)

Assim começa o livro...

Imagem relacionada
Encontro -me esta noite numa hospedaria na cidade de Salisbury. O primeiro dia de viagem agora terminou, e, no fim das contas, devo dizer que estou bem satisfeito. A expedição começou hoje de manhã, quase uma hora mais tarde do que o planejado, apesar de eu ter terminado de fazer as malas e carregar o Ford com todas as coisas necessárias bem antes das oito da manhã. Pois como Mrs. Clements e as meninas também tiraram uma semana de folga, acho que estava muito consciente do fato de que, assim que eu partisse, Darlington Hall iria ficar vazia, quem sabe, pela primeira vez neste século — ou pela primeira vez desde que foi construída. Era uma sensação estranha e talvez por isso eu tenha demorado tanto para partir, vagando pela casa muitas vezes, certificando -me uma última vez de que estava tudo em ordem.

É difícil explicar os meus sentimentos quando finalmente parti. Durante os primeiros vinte e poucos minutos de viagem, não posso dizer que tenha sido tomado por nenhuma excitação ou expectativa. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que, embora eu rodasse para cada vez mais longe da casa, continuava a me ver em locais com os quais tinha ao menos uma passageira familiaridade. Ora, sempre achei que havia viajado muito pouco, tolhido como sou por minhas responsabilidades na casa, mas evidentemente, ao longo do tempo, a gente faz diversas excursões por uma ou outra razão profissional, e, ao que parecia, eu estava muito mais familiarizado com aquelas localidades vizinhas do que imaginava. Pois, como estava dizendo, ao rodar ao sol na direção da divisa de Berkshire, continuei me surpreendendo com quanto a paisagem me era familiar.

Mas então a paisagem acabou ficando irreconhecível, e entendi que havia ultrapassado todos os limites anteriores. Já ouvi pessoas descreverem o momento em que o barco abre as velas, o momento em que finalmente se perde a visão da terra. Imagino que a experiência de inquietação misturada com alegria que sempre acompanha a descrição desse momento seja muito semelhante ao que senti no Ford, quando a paisagem em torno ficou estranha para mim. Isso aconteceu logo depois que fiz uma curva e me encontrei em uma estrada que circundava a encosta de uma colina. Dava para sentir o íngreme precipício à minha esquerda, embora não pudesse vê -lo por causa das árvores e da densa folhagem que ladeava a estrada. Fui dominado pela sensação de que havia realmente deixado Darlington Hall para trás e devo confessar que senti um ligeiro sobressalto — sensação agravada pela desconfiança de que talvez não estivesse na estrada certa, e sim correndo na direção errada, para algum ermo. Foi só uma sensação momentânea, mas me fez reduzir a marcha. E, mesmo depois de ter me certificado de que estava no caminho certo, me vi compelido a parar o carro um momento para fazer um balanço, por assim dizer.

Resolvi descer e esticar um pouco as pernas, e quando fiz isso tive a sensação ainda mais forte de que estava empoleirado na encosta de uma colina. De um lado da estrada, moitas e pequenas árvores subiam íngremes, enquanto do outro conseguia agora entrever na folhagem os campos distantes.

quarta-feira, outubro 11

A escrita que nos toma

A dor do defunto e outros itens

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O defunto pergunta-se quando afinal vão enterrá-lo. Já lhe doem as costas e só espera que a tampa seja fechada, para poder virar-se e cochilar.

***

Diz um escritor a outro: “Então ficamos assim. Se houver eternidade, nós nos encontramos lá. Se eu for primeiro, vai ser fácil você me achar. Eu estarei ao lado do Shakespeare.”

***

Pelo sim, pelo não, continuarei imaginando que tenho alma. Pode ser útil, um dia.

***

Um poeta há de estar preparado para interpretar ao menos o que lhe dizem as flores, a brisa e os pássaros.

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Se for escrever uma crônica, nunca cite um gato no início, a menos que esteja disposto a falar dele até a derradeira linha do último parágrafo. Um gato nunca pode ser senão o protagonista.

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O poeta é um tipo ao qual as pessoas devem se acostumar aos poucos.

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Se Deus se negar, não faltará diabo para nos carregar.

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No varal sem sol, o fantasma assusta-se com a cara de um lençol.

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O poeta está liberado para amar tantas vezes quantas suportar seu tolo coração.

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Alguns defuntos (quanta hipocrisia!) fingem que são sérios até no seu último dia.

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Era um poema concretista espetacular, com excelente vista, de frente para o mar.

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No fim da vida, quando dizem palavras como amor, os lábios formam o mesmo desenho que neles se vê quando dizem morte ou pedra.

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Nada vezes nada é tudo que você hoje pode multiplicar.

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Interessa-me a tristeza, desde a infância. Na alegria vejo sempre algo de grosseiro, de vulgar, algo que não diz respeito à minha índole, uma sanfona soando no meio de um noturno de Chopin.

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Se você for um frango com intenções artísticas, vá aconselhar-se com um poeta condoreiro.

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Estou muito velho e muito burro para procurar essas pessoas que ensinam outras a escrever.

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Aos gramáticos mais ferozes sempre resta a desculpa de que tiveram uma infância infeliz.

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Inquietação um palmo abaixo do umbigo ou é comichão ou sinal de perigo.

Raul Drewnick

terça-feira, outubro 10

Entrando na história

De fala mansa, cuidado

Sempre me dizia, baseado numa exaustiva experiência de vida: "Cuidado com os indivíduos de fala mansa e, mais que tudo, de olhar enviesado" E hoje verifico, juntando à dele a minha própria experiência, que há, como aqueles indivíduos, também os livros de fala mansa e de olhar enviesado, com os quais é preciso ter a máxima cautela, se não quisermos passar por uma decepção.
 Imagem relacionada
Livros manhosos, que, parecendo tímidos, na estante, o que escondem, debaixo dessa timidez toda, é uma tremenda falsidade - a pior das falsidades, que é a falsidade literária 
Valdemar Cavalcanti, "Jornal literário"

Nunca vai aprender

"How to Be Better Than the Book" book

Por que procurar refúgio nos livros quando a realidade parece insuportável?

Foi abandonado, o mundo já não é maravilhoso. Como em um jet lag permanente, não consegue se conectar com a realidade que o envolve. Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego.


Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele.

Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável


Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: “Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior”.

Resenhas de biblioterapia

Remédios literários, de Ella Berthoud e Susan Elderkin. Um original e divertido livro sobre biblioterapia que fala do poder curativo da palavra escrita.

A leitura como plegária, de Joan-Carles Mèlich (sem edição no Brasil). Uma reflexão sobre a leitura e a escrita em 262 fragmentos filosóficos.

Por que ler os clássicos, de Italo Calvino. O escritor nos lembra que os clássicos nunca deixam de surpreender e resistir ao tempo.

Poema, de Rafael Argullol (inédito no Brasil). Um breviário contemporâneo erudito e sensível de reflexões sobre a condição humana e o discorrer do mundo.

Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri. A escritora indaga sobre as barreiras que personagens de diferentes culturas devem saltar em sua busca da felicidade.

A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. Um luminoso romance que na realidade é um poema capaz de nos reconciliar com nossa condição mortal.

Pequeno fracasso, de Gary Shteyngart. Depois de se mudar com sua família a Nova York, o garoto judeu russo Igor se transforma em Gary, um personagem que narra a experiência de viver dividido entre dois países que são inimigos.

Doce Canção, de Leila Slimani. Disseca as circunstâncias de um crime e lança luz sobre as contradições da sociedade atual.

segunda-feira, outubro 9

E lei se cumpre


Recorte de prosa

O carro do meu amigo contrabandista de uísque é cor de chocolate e comprido como um barco a vapor. Tem enfeites prateados da proa à popa como um banheiro de luxo. É forrado de couro avermelhado e provido, para emergências e conveniência, de todos os acessórios que a criatividade de seu fabricante pôde imaginar que meu amigo algum dia viesse eventualmente a necessitar ou desejar. Tudo, menos um caixão. É minha crença inabalável que na primeira oportunidade esse carro vai se vingar destruindo viciosamente seu dono.
William Faulkner, "Ratos do campo"

Leitura matutina

Cómo aprenden a leer los animales? (autor desconocido)

Assim começa o livro...

Na terceira noite depois do Ano-Novo — no vigésimo quarto dia do cerco a Budapeste —, no esconderijo de um grande imóvel do centro da cidade, uma jovem decidiu que sairia do edifício sitiado, atravessaria para o outro lado da rua transformada em campo de batalha e, de todo modo e a qualquer preço, se reuniria ao homem que fazia três semanas se amontoava com cinco outras pessoas no refúgio do porão emparedado do casarão em frente. O homem era o pai da jovem, e a polícia política, mesmo então, no período da confusão e da ruína final, o procurava com determinação e especial diligência.

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A jovem não era uma “heroína”; ao menos não se sentia assim. Havia semanas ela não sentia nada a não ser o cansaço que sentimos depois de um esforço tremendo, quando a alma acredita que ainda suporta a fadiga mas o corpo, de súbito, começa a se rebelar, o estômago responde com náuseas a tudo o que acontece e o organismo fica impotente, como se estivesse envolto num lençol de chumbo. O corpo humano sente esse cansaço definitivo, nauseante nas canículas selvagens, nos dias úmidos, escaldantes de verão.

A jovem tinha razões para a estafa: vivia sem casa havia meses, o pai se escondia em perigo mortal. Fazia dez meses que ela ocultava o pai e também outros, refugiados, fugitivos, que, no mundo que se desfazia, buscavam por uma noite um lar, um abrigo ocasional; e, nas últimas semanas, também ela se vira obrigada a sobreviver “fora da lei”, porque na faculdade, onde cursava o último ano, os colegas não cederam aos alemães e ela não embarcara com eles no trem que, na Alemanha, salvaria dos russos a juventude universitária. E assim ela também contava como uma fugitiva militar e se escondia com papéis falsos. Mas ela não se importava muito com isso, como outros também não se importavam com esses detalhes miúdos. Os russos já tinham transposto os bairros periféricos, combatiam entre os quarteirões de casas do centro.

De acordo com os papéis falsos da jovem — que ela ganhara da filha de uma das mulheres responsáveis pela limpeza da faculdade —, ela se chamava Erzsébet Sós. Segundo os papéis, acabara de fazer vinte e três anos e era enfermeira hospitalar; para o observador superficial, isso tudo correspondia de uma maneira geral à realidade. Na verdade, por simples acaso, o nome Erzsébet coincidia: ela de fato se chamava Erzsébet. Nessa coincidência ela via um sinal dos céus, um salvo-conduto afortunado; não fora preciso trocar por outra letra o E bordado em suas roupas de baixo, o que também a alegrava, pois naqueles tempos ela nem tinha outra roupa de baixo além da que trazia no corpo. 

Às vezes, em momentos mais calmos e lúcidos — porque nas últimas semanas, em especial nas três semanas anteriores, quando seu pai havia sido emparedado no porão da casa em frente, ela se sentia como o doente febril, capaz de pensar e de fazer juízos objetivos apenas em determinados períodos! —, ela achava a história da roupa de baixo, a coisa pessoal dela com os papéis falsos, ridícula; ridícula, insignificante, cautela excessiva e preocupação desnecessária, pretensiosa. Como todos que nos meses anteriores, no período que se seguiu à ocupação alemã, obrigaram-se, por alguma razão, a se esconder, Erzsébet aprendeu todos os ardis desse modo de vida e, ao mesmo tempo, aprendeu também que, juntamente com o cuidado obrigatório, o destino cego comandava os homens nessas situações.

domingo, outubro 8

Mais uma utilidade dos livros

Los libros también sirven para hacer deporte, además de leer (ilustración de Maria Lavezzi)
 Maria Lavezzi

Saudade quase sem memória

Existe mesmo o tempo?
João Guimarães Rosa



“Anos e anos em busca de um objeto”, disse minha amiga, “e quando parei de procurá-lo, ele me encontrou.”

Que diabo de objeto é esse?

“Um pequeno demônio do passado: um relógio antigo. Quando eu tinha cinco anos, meu avô disse para minha mãe que um relógio não era presente de menina, mas era tudo o que ele tinha de valioso para a única neta. Foi a herança do meu avô. Uns dois meses depois, ele morreu. E eu cresci com ‘uma saudade quase sem memória, uma saudade que a gente nem sabe que tem’. A infância passou com rapidez: foi um salto para outro tempo. Às vezes, no meio da manhã, os ponteiros do relógio antigo marcavam três e cinco, ou quinze e cinco. Era a hora da tarde ou da madrugada, o dia ou a noite. Eu me esquecia de dar corda no relógio, o tempo parecia travado ou interrompido, os ponteiros permaneciam parados numa hora morta. Aí eu pensava nos intervalos da vida. Era uma diversão no fogo da adolescência, que já se apagava. Anos depois, essa diversão passou a aguçar minha memória: o que a gente esquece, e o que a gente não pode esquecer. O tempo no Brasil dá saltos perigosos: avança um tiquinho, tropeça, dá cambalhotas, retrocede muito e corre na direção do abismo. Lembro com nitidez um dia de 1990, ano de um confisco criminoso, feito pelos economistas do caçador de marajás. Naquele ano horrível, muita gente ficou na penúria, meu pai sofreu um enfarte e nos deixou. Tranquei minha matrícula na universidade, tive de trabalhar para sobreviver, minha mãe foi obrigada a vender o relógio. Mas eu não parei de ler. O prazer da leitura prevaleceu sobre a dor do luto e a rotina tediosa do trabalho. O relógio não tinha para mim uma qualidade sobrenatural, era apenas um objeto que lembrava uma pessoa querida. De tanto observar as fotos do meu avô, pensei em escrever um retrato imaginário dele, de poucas páginas. Mas não consegui, e acabei escrevendo um soneto... Quer dizer: reescrevi um poema de um autor que admiro, nós reescrevemos o que lemos, um poema alheio pode ser meu ou de qualquer leitor.”

Um soneto sobre o tempo?

huariqueje:
“Bijing Reading - Unknown , 1910
Japanese
Colour lithograph, 18 x 35 cm.
”
“Sobre a arte da poesia, o que dá no mesmo. A conversão do ultraje dos anos em uma música, um rumor, um símbolo... Passei vinte e seis anos procurando o presente do meu avô, eu acreditava que um dia o comprador do relógio ia revendê-lo para mim. Esse objeto se tornou uma roseta metálica, um símbolo…”

Mas isso tem algo de mágico ou sobrenatural, eu disse.

Minha amiga abriu um sorriso e depois a bolsa, de onde tirou um relógio prateado, e colocou-o sobre a mesa. Era muito antigo, de algibeira, com uma longa corrente de prata, que formava na mesa uma fina serpente em espiral.

“Hoje, digo brincando que o relógio do meu avô não era exatamente um mecanismo para medir o tempo, e sim um joguete metafísico, uma diversão sem regras, cheia de indagações e dúvidas, que a gente lê nos livros de filosofia e literatura. Nossa mente existe sem uma sucessão de ideias no tempo? Nossa desordem interior não subverte qualquer ideia de sucessão? A dor, o desejo, o sofrimento e o afeto pertencem a alguma categoria temporal? Existe mesmo o tempo?”

E o poema, existe mesmo?

“Sim, no livro do poeta e na minha memória: Olhar o rio feito de tempo e água/ e recordar que o tempo é outro rio,/ saber que nos perdemos como o rio/ e que os rostos passam como a água…”

Leitura do pastor

the-flying-salmon:
“Reading, 1988, Nikolay Yuhta (Russia)
”
Nikolay Yuhta

Como o menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se tornou o 'maior ladrão de livros raros'

Eu só vi Laéssio chorar em duas ocasiões.

A primeira foi por raiva, quando um cliente fechou a porta em sua cara e ele, sem dinheiro para comprar sequer um sapato novo, sentiu-se humilhado. Já a segunda foi por amor - ao ler uma carta com um pedido de casamento enviada pelo namorado, detido em um presídio no Rio de Janeiro. Na maior parte do tempo, Laéssio não é de se lamentar. Um senso de humor abusado é seu traço mais marcante.

Laéssio Rodrigues de Oliveira

Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. "Essa história toda começou por causa dela", resumiu.

O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.

O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil.

Desde março deste ano, Laéssio está preso no Rio de Janeiro, depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal a mais dez anos e sete meses de prisão pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, também no Rio. Ainda cabe recurso.

"Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando 'ser riquíssimo', como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do c*ralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?"

Num intervalo de duas décadas, Laéssio trocou o anonimato do balcão de uma padaria em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pelas manchetes de jornais de todo o país. Montou três bancas de antiguidades e um sex shop batizado de Mae West em homenagem à atriz americana que "era tipo a Dercy Gonçalves", segundo ele. Também se especializou em Biblioteconomia e fez negócios com gente graúda.

Laéssio não ficou milionário, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar um confortável apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Também se permitiu pequenos luxos, como vestir um terno Armani, passear com o ex-marido a bordo de um Audi A3 ou de um Chrysler PT Cruiser e custear um imóvel no Guarujá, litoral paulista.

"Eu vivia num mundo encantado. Eu era uma bicha louca, desvairada, achava que aquilo nunca iria acabar, que nunca iria dar problema", confessa. Entretanto, torrou tudo tentando acertar as contas com a Justiça.

Desde aquela primeira ligação a cobrar que Láessio me fez em 2012, acumulei - além de incontáveis cartas - pilhas de processos judiciais, dezenas de horas de gravação e centenas de páginas de anotações feitas durante entrevistas em diversos locais, incluindo duas penitenciárias. Laéssio só topou me confidenciar sua história para que ela não ficasse encarcerada nas colunas policiais. "Eu não matei ninguém, cara. Vou me arrepender de quê? De que adquiri um monte de livro velho?"
'O que é que a baiana tem?'

A mãe de Laéssio é uma senhora miúda de 62 anos que trabalha passando roupa e cuidando de idosos. Ela tem o costume de concluir as frases com um simpático "num sabe?" carregado de sotaque nordestino. Refere-se ao mais velho dos seis filhos - que criou sozinha a partir dos 31 anos de idade - como "Grandaião", apesar de a compleição física de Laéssio nem de longe botar medo em quem quer que seja. "A família não quer nem saber desse assunto. É uma pena", lamenta, antes de cair num choro envergonhado.

Laéssio nasceu em Teresina, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança de colo, mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo. O pai trabalhava como eletricista. Quando bebia, costumava bater na esposa e era confrontado pelo primogênito, cujos trejeitos tiravam seu sono. O menino até chegou a ser levado a uma consulta médica para corrigir o suposto desvio. Mas não adiantou: depois que o pai morreu atropelado em uma rodovia, Laéssio saiu do armário, aos 15 anos de idade.

A mãe conta que desde muito cedo Laéssio era fissurado por gibis e jornais - inclusive, tinha o costume de empilhá-los no meio da sala. "Ele é muito inteligente, conversa sobre qualquer assunto", diz. De fato, Laéssio é capaz de discorrer por horas em tom professoral sobre cinema, música e todo tipo de arte vintage.

Foi uma obsessão adolescente pela atriz e cantora Carmen Miranda que levou Laéssio a mergulhar no universo dos papéis antigos. Depois de escutar O que é que a baiana tem? pela primeira vez no rádio, decidiu colecionar tudo o que estivesse ao seu alcance sobre a artista. "Talvez seja aquilo que ela mesmo diz na música: 'tem graça como ninguém'. Aquela brejeirice, como Dorival Caymmi disse uma vez, me dominou", explica.

Para alimentar a compulsão de fã, Laéssio passou a furtar. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Ao colocar os pés na biblioteca da instituição, nem precisou vasculhar as estantes. Seu olhar foi instantaneamente capturado pelo sorriso de Carmen Miranda estampado na capa de uma revista Fon Fon da década de 1940, em cima de uma mesa. Com a adrenalina a mil, certificou-se de que ninguém o vigiava, enfiou o exemplar na mochila e saiu andando.

"Aí comecei a minha peregrinação pelas bibliotecas. Tudo que era revista com a Carmen Miranda na capa eu saí levando. Comecei a ter paixão por aquilo", relata.
Leia mais o artigo de Carlos Juliano Barros, que assina com Caio Cavechini a direção do documentário "Cartas para um Ladrão de Livros"

sábado, outubro 7

Estão te esperando!

Dónde está el/la lector/a? (ilustración de Chuck Groenink)
Chuck Groenink

Releituras

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

Quando de molho...

Our love story, patient & nurse.... Although I don't recall reading Steven a book

Faltam bibliotecas no Brasil. Mas este não é o maior problema

Os dados sobre o número de bibliotecas no Brasil trazem uma boa e uma má notícia.

A boa: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de cidades com bibliotecas subiu de 76,3% para 97,1% entre 1999 e 2014. Dos 5.570 municípios, apenas 112 ainda não possuem espaço público de leitura.

A má notícia: o Brasil possui uma biblioteca púbica para cada 30 mil habitantes, em média. Nos Estados Unidos, a proporção é de 1 para 19 mil. Na República Tcheca, que tem o melhor índice do mundo, a proporção é de 1 para cada 1.970 habitantes.

Ao todo, o Brasil tem 7.166 bibliotecas cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas do Ministério da Cultura. 

Sugestões que farão a diferença no seu dia a dia.
Outro dado negativo é o baixo índice de leitura dos brasileiros. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura”, realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro em 2014, 44% dos brasileiros não tem o hábito de ler, e 30% nunca compraram um livro sequer.

Na média, cada pessoa lê 4,96 livros por ano. Segundo o Índice de Cultura Mundial, o Brasil ocupa apenas a 27ª posição em um ranking liderado pela Índia, onde as pessoas leem, em média, 10h40min por semana, o dobro do praticado no Brasil. Os indianos são seguidos por Tailândia, China, Filipinas, República Tcheca e França. Venezuela (14º lugar), Argentina (18º) e México (25º) estão à frente do Brasil.

O brasileiro lê pouco porque tem poucas bibliotecas à disposição? Ou a relação de causa e efeito é inversa?

Na opinião de Galeno Amorim, presidente da Fundação do Observatório do Livro e da Leitura, o número de bibliotecas no Brasil é muito abaixo do ideal para formar um país de leitores. Mas o maior problema é a percepção de que elas não são itens importantes no cotidiano.

“A grande maioria da população sabe onde encontrar uma biblioteca. Só não vai. Mesmo porque permanece em sua cabeça que a biblioteca é um lugar para pesquisar e estudar e, se não está mais na escola, para que deveria ir lá? É um terrível equívoco, porém é uma dessas crenças dominantes”, pontua Galeno.

Para a professora da Universidade Federal do Paraná Elisa Dalla-Bona, é preciso olhar além dos números.

“A questão das bibliotecas tem tudo a ver com o trabalho que a escola faz com as crianças. É lá que o problema começa. É um trabalho mecânico, em que as crianças são empurradas para dentro das bibliotecas, têm que fazer silêncio, não podem mexer nos livros das prateleiras, não há prazer nenhum em ler”, afirma.

O Brasil ainda busca aumentar o número de bibliotecas no momento em que países desenvolvidos passam a dar menos importância para o agrupamento de livros fisicamente no mesmo espaço.

Com a popularização do acesso à rede e a grande difusão de conteúdo e informação, a tendência é a redução da leitura de livros físicos e de frequência nas bibliotecas tradicionais. Mas esta não é uma má notícia: a digitalização pode contribuir para democratizar o acesso ao conhecimento. No estado do Texas, nos Estados Unidos, foi fundada em 2014 a Bibliotech, primeira biblioteca pública sem livros impressos do país. São 30 mil obras em formato digital.

No Brasil, um exemplo é a Árvore de Livros, plataforma privada de leitura digital de e-books, disponível para alunos dos ensinos fundamental e médio de escolas parceiras e até mesmo para empresas, promovendo até campeonatos de leitura com premiação para os usuários e instituições que atingirem os melhores índices de leitura.

“Na internet, jovens e adultos acessam conteúdos bons e ruins, mas se bem orientados, podem ler livros riquíssimos, de qualquer lugar e no ritmo que considerarem melhor. Porém, se não tiveram uma boa formação para leitura na infância, se não aprenderam a ler por prazer, irão ler superficialmente na Internet e buscar bobagens”, reforça a Doutora em Educação e professora da Universidade de São Paulo (USP), Maria Ângela Borges Salvadori.

segunda-feira, outubro 2

Para jardim de leitor

Richard Stainthorp

A Coisa no umbral

Morgan não é um literato; na verdade, ele mal consegue falar inglês com algum grau de coerência. É isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado.

Ele estava sozinho na noite em que aconteceu. Subitamente uma vontade incontrolável de escrever lhe assomou, e tomando a pena na mão ele escreveu o seguinte:

Meu nome é Howard Phillips. Vivo na Rua College, 66, em Providence, Rhode Island. A 24 de novembro de 1927 – pois não sei sequer em que ano estamos agora – adormeci e sonhei, e desde então tem sido incapaz de despertar.

Meu sonho teve início num pântano úmido e atulhado de juncos que jazia sob um céu cinzento de outono, com um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de liquens elevando-se ao norte. Impelido por alguma motivação obscura, ascendi à uma fenda ou fissura nesse gigantesco precipício, notando enquanto o fazia que as bocas negras de muitos buracos terríveis estendendo-se de ambas as partes até as profundezas do platô de pedra.

Em vários pontos a passagem era coberta pelo chocalhar das partes superiores da fissura estreita; esses lugares sendo excessivamente escuros, e proibindo a percepção de tais buracos que possam ter existido ali. Em tal espaço escuro senti consciência de um singular acesso de pânico, como se alguma sutil e incorpórea emanação do abismo estivesse engolindo meu espírito; mas a escuridão era grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme.

Concluindo, emergi sobre um platô de rocha musgosa e solo pobre, iluminado por um pálido luar que havia substituído o orbe moribundo do dia. Lançando meus olhos ao redor, não vi objeto vivo; mas estava sensível a uma comoção muito peculiar que vinha muito abaixo de mim, entre os sussurrantes vestígios do pântano pestilento que eu havia acabado de abandonar. Depois de caminhar por uma certa distância, encontrei os trilhos enferrujados de uma ferrovia de rua, e as placas comidas de cupins ainda seguravam o trole em boas condições. Acompanhando esta linha, logo dei com um carro amarelo de vestíbulos de número 1852 – de um tipo de dois vagões comum entre 1900 e 1910. Não estava tinindo, mas evidentemente preparado para partir; o trole estando no fio e o freio aéreo de quando em vez pulsando abaixo do chão. Entrei a bordo e olhei em vão pelo interruptor de luz – notando, enquanto o fazia, a ausência de cabineiro, que assim implicavam a ausência do motorneiro. Então sentei-me num dos bancos cruzados do veículo. Ouvi um farfalhar na grama esparsa à esquerda, e vi as formar escuras de dois homens caminhando ao luar. Tinham os quepes de uma companhia ferroviária, e não pude duvidar de que fossem o condutor e o motorneiro. Então um deles fungou com presteza singular, e elevou o rosto para uivar para a lua. O outro caiu de quatro para correr na direção do carro. Levantei-me de um salto e corri como louco para fora daquele carro e atravessei intermináveis léguas de platô até que a exaustão me forçou a parar: fazendo isto não porque o condutor tivesse caído de quatro, mas porque o rosto do motorneiro era um simples cone branco com um tentáculo vermelho como sangue na ponta…

Eu estava ciente de que apenas sonhava, mas a própria consciência não me foi agradável.

Desde aquela noite pavorosa, tenho rezado apenas para despertar: isso não acontece!

Ao invés disso eu me encontro com um habitante deste terrível mundo dos sonhos! Aquela primeira noite deu lugar à aurora, e caminhei sem rumo pelos pântanos solitários. Quando a noite veio, eu ainda caminhava, esperando acordar. Mas subitamente abri caminho entre os juncos e vi à minha frente o antigo bonde: e, a um lado, uma coisa com rosto em forma de conte levantava sua cabeça e uivava estranhamente para o luar que se derramava!

Tem sido a mesma coisa todo dia. A noite sempre me leva àquele lugar de horror. Tenho tentado não me mover com a chegada da noite, mas devo andar em meu sonambulismo, pois sempre acordo com a coisa de terror uivando à minha frente na pálida luz do luar, e viro-me e fujo como um louco.

Deus! Quando despertarei?

Foi isso o que Morgan escreveu. Eu iria à Rua College 66, em Providence, mas tenho medo do que posso encontrar lá.

H. P. Lovecraft, "A Tumba… e Outras Histórias"

Hora de acordar!

Calentitos, manta de lana y arrullo de palabras (ilustración de Lisi Martin)
Lisi Martin

Assim começa o livro...

Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores. Afinal, Lucy tinha muito que fazer. As portas seriam tiradas das dobradiças; logo mais chegaria o pessoal da Rumpelmayer. Além disso, pensou Clarissa Dalloway, que manhã maravilhosa — tão fresca como se feita de propósito para crianças na praia.

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Que farra! Que mergulho! Sempre se sentira assim quando, com um leve rangido das dobradiças, que ainda podia ouvir, escancarava as portas envidraçadas e mergulhava no ar livre em Bourton. Um frescor, uma tranquilidade, o ar mais parado do que agora, claro, mas era assim no início da manhã; como o quebrar de uma onda; o beijo de uma onda; frio e cortante e, contudo (para a jovem de dezoito anos que era então), solene, sentindo, em seu caso, parada na soleira, que algo horrível estava prestes a acontecer; contemplando as flores, as árvores das quais se desprendia sinuoso o vapor, e as gralhas que remontavam, que se precipitavam; imóvel ali de pé a contemplar até ouvir a voz de Peter Walsh, “Meditando entre as verduras?” — terá sido isso? —, “Eu prefiro as pessoas às couves” — foi isso mesmo? Ele deve ter dito isso no café da manhã, numa ocasião em que ela saíra para o terraço — Peter Walsh. Estava para chegar da Índia um dia desses, em junho ou julho, nem se lembrava mais; as cartas dele eram terrivelmente maçantes; só se salvavam suas tiradas; seus olhos, seu canivete, seu sorriso, sua rabugice e, enquanto milhões de coisas haviam desaparecido para sempre — que curioso isso! —, algumas tiradas, como aquela a respeito de couves.

Ela se crispou ligeiramente no meio-fio, enquanto passava o furgão da Durtnall. Que encantadora essa mulher, pensou Scrope Purvis (que a conhecia como se conhece alguém que mora ao lado em Westminster); com um quê de pássaro, de gaio, verde-azulado, ligeiro, vivaz, embora tivesse mais de cinquenta e ficado grisalha depois da doença. Ali estava ela empoleirada, sem jamais notá-lo, esperando para atravessar, muito aprumada.

Pois, quando se mora em Westminster — Quantos anos já? Mais de vinte —, dava para sentir, Clarissa estava convencida, mesmo no meio do tráfego, ou caminhando à noite, uma quietude, ou solenidade, peculiar; uma pausa indefinível; uma expectativa (mas também podia ser o coração, afetado pela gripe, como diziam) antes das batidas do Big Ben. Lá vêm elas! E então ressoaram. Primeiro uma advertência, musical; depois a hora, irrevogável. Os círculos plúmbeos dissolvendo-se no ar. Que tolos somos, ocorreu-lhe ao atravessar a Victoria Street. Só Deus sabe por que a gente gosta tanto disso, por que vê isso dessa maneira, cria tudo isso, constrói isso ao nosso redor, desfazendo e refazendo tudo a cada instante; porém, mesmo as mulheres mais enxovalhadas, as indigentes mais miseráveis, sentadas nos degraus de entrada (arruinadas pela bebida), também faziam o mesmo; não era algo que se podia resolver, disso tinha certeza, com leis do Parlamento,e exatamente por este motivo: elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a
vida; Londres; esse momento de junho.

domingo, outubro 1

Hora de colheita

Hay que recoger los libros antes que el otoño arranque sus hojas (ilustración de Eun Young Choi )
 Eun Young Choi

Mais de 12 mil livros nunca foram devolvidos à Biblioteca de São Paulo

O público que frequenta a Biblioteca de São Paulo (BSP), na zona norte da cidade, deixou de devolver 12.210 livros às estantes do espaço. O número equivale a 30% do acervo atual da biblioteca, que possui 40.866 obras.

Esse é o maior índice de não devolução entre as bibliotecas públicas da cidade – estaduais e municipais –, que têm um total de 66.588 exemplares atrasados.

As 56 unidades geridas pelo Sistema Municipal de Bibliotecas são responsáveis por 52.039 livros desse total.

Os dados são das secretarias Estadual e Municipal de Cultura e foram obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.

A BSP é administrada pela organização social SP Leituras, a mesma responsável pela Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL), na zona oeste. Lá, o número de atrasos é de 2.339 livros, equivalente a 9% de seu acervo total.

O diretor-executivo da SP Leituras, Pierre Ruprecht, afirma que a perda de acervo por não devolução é pequena se comparada ao fluxo de empréstimos que as bibliotecas realizam anualmente. "Entre 2% e 3% dos empréstimos não são devolvidos."

O sócio cadastrado pode pegar até cinco livros por 15 dias, e as renovações são feitas presencialmente, por telefone ou no site das bibliotecas. Caso atrase a devolução, a pessoa é informada da irregularidade por e-mail.

São dois dias de suspensão da carteirinha para cada dia atrasado. Sem ela, os sócios não podem retirar novos livros ou usar outros serviços da biblioteca, como o acesso aos 85 computadores com internet e aos jogos eletrônicos.

O número de não devolução na BSP aumentou 79% de 2011, um ano após sua inauguração, até o final de 2016. No primeiro ano, foram 1.424 livros; no último, 2.554.

A biblioteca, que tem 28 mil usuários cadastrados, fez duas campanhas de anistia aos sócios, em 2012 e em 2015.

"Buscamos sensibilizar o sócio para a necessidade de devolução, anistiando a suspensão da carteirinha. Na última campanha, observamos um aumento de 7% nas devoluções", diz Ruprecht.

Alguns fatores podem contribuir para a alta taxa de não devolução da unidade. Um deles é seu vizinho, o parque da Juventude.

Durante o fim de semana, parte do público que está apenas de passagem pelo parque conhece a biblioteca e retira livros, mas não retorna mais para devolvê-los.

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A facilidade para realizar empréstimos também fomentaria o índice. Tanto na BSP como na BVL, basta apresentar o RG na recepção para fazer a carteirinha. No sistema municipal, é necessário apresentar também um comprovante de residência.

O fato de o acervo, composto de aquisições e doações, contar com muitos títulos procurados, como best-sellers e lançamentos, também pode contribuir para a não devolução.

Segundo Ruprecht, os livros perdidos não são levados em consideração para a reposição. "É feita uma lista de compra baseada nas necessidades de acervo da biblioteca, na análise dos lançamentos e nos pedidos de sócios", diz.

O número de livros não devolvidos nas estaduais Biblioteca de São Paulo e Biblioteca Parque Villa-Lobos é de 14.549. Somados aos não devolvidos nas 56 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotecas (SMB), a cifra chega a 66.588 exemplares.

O total representa apenas 3% dos 2,2 milhões de livros disponíveis para empréstimo nessas 58 unidades, mas encheria uma biblioteca grande.

O montante só não supera o acervo das unidades Sérgio Milliet, no Centro Cultural São Paulo (121.048), Monteiro Lobato (110.896) e Prefeito Prestes Maia (79.729). Ele é 4,5 vezes o acervo da menor das 58, a Prof. Arnaldo Magalhães Giácomo, no Tatuapé.

Os títulos do vestibular se destacam na lista dos menos devolvidos –formulada com base na análise dos dados das cinco bibliotecas-polo da cidade (uma para cada zona), das três centrais e das duas estaduais, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2016.

"O Cortiço", romance de Aluísio Azevedo, lidera a lista, com 87 exemplares que não retornaram às estantes.

O professor Alexandre Squara, 29, visita a Mário de Andrade, no centro, ao menos uma vez por semana para estudar e preparar aulas. Nas férias, esqueceu de devolver um livro de filosofia e ficou suspenso por um mês. Acabou comprando a obra em livraria.

"A única punição que podemos aplicar é suspender", explica o secretário municipal de Cultura, André Sturm. "A biblioteca é um espaço público, e [os sócios] deveriam ter um compromisso com isso."

A suspensão dura o mesmo número de dias de atraso e vale para todo o SMB, que tem cerca de 572 mil usuários.

A biblioteca Sérgio Milliet, a segunda maior da cidade, tem índice de 0,5% de não devolução (são 689 livros). Sua coordenadora, Carmen Machado, 64, aposta na conversa. "Fazemos uma conscientização sobre a importância da devolução na data, pois outras pessoas vão usar."

A perda de livros também é comum. Os sócios devem repor comprando o mesmo título ou outro indicado pela unidade.

Machado muitas vezes pede que reponham com títulos do vestibular, principalmente os de listas mais recentes, dos quais ainda têm poucos exemplares.