terça-feira, dezembro 12

Enquanto espera a água ferver...

Nanette Regan

O progresso e a fossa

Deve acontecer com todo mundo. Em momentos de fossa, qualquer tipo de fossa, o pensamento positivo mais eficaz é a comparação que qualquer um de nós pode fazer com o passado, não o passado remoto, mas o recente, digamos, de 15, 20 anos atrás.

Não havia internet, computador nem celular. Com viveríamos sem isso? Bem verdade que a grande maioria ainda não teve acesso aos três símbolos da modernidade. Mas quando se pensa que até o século 19 não havia eletricidade, precisava-se de velas e lamparinas para iluminar a noite, e o cavalo era o meio de transporte mais confortável e rápido, não mais se poderia invejar nem mesmo os grandes do mundo, como Napoleão, Bismark, Garibaldi e a primeira geração dos Rothschild.

Recuando mais ainda, lembremos que Júlio César chorava quando pensava que Alexandre, mais moço do que ele, já havia conquistado todo o mundo conhecido. Mas os dois não tinham sequer papel higiênico para suas necessidades.

queerliness:
“ ‘Reading after Lunch’ by Sara Bryant
”
Sara Bryant
Jesus Cristo teve famoso triunfo quando entrou em Jerusalém, pouco antes de sua paixão e morte. Mas estava montado num jumento atrofiado, como todos os jumentos daquela região. E fez o seu mais importante sermão do alto de uma montanha, sem uso de alto-falantes ou microfones --mesmo assim foi ouvido e continua ouvido até hoje.

Meditar sobre as deficiências do passado pode curar a fossa do presente. No meu caso, às vezes cura, às vezes não. Depende do tipo de fossa. Quando penso no milhão de dólares que nunca tive, louvo a lâmpada elétrica que acendo em minhas noites e me consolo. Os milionários do passado não a tiveram.

Mas quando penso nas mulheres que desejei e não tive ou perdi, mergulho na fossa e descubro estranha, inexplicável doçura nela.
Carlos Heitor Cony

segunda-feira, dezembro 11

Leitura não tem idade

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina

O joio que sobrou do trigo

O que indispõe Deus com os poetas dos quais recebe perguntas e invocações é a desleixada métrica, além da vulgaridade das rimas. Ele continua fiel ao parnasianismo, que criou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.

***

O novo em arte é quase sempre uma habilidosa forma de repetição.

***

bibliolectors:
“Introspection reader / Ensimismamiento lector (ilustración de Sterling Hundley)
”
Somos nosso filho predileto: nos protegemos, nos mimamos, nos enaltecemos, somos o sumo e o suprassumo. Pena que no dia da nossa morte não possamos nós mesmos fazer nosso elogio.

***

Chamar-me de idiota é algo que ninguém pode fazer com tanta propriedade quanto eu mesmo.

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Quem diz não ter palavras para exprimir certos sentimentos talvez não tenha nenhum para exprimir.

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Minha vontade anda apática, minha volúpia raquítica, minha situação dramática e minha fortuna crítica.

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Vivemos nos queixando do tempo que perdemos com as pequenas coisas. E nunca pensamos no tempo que perdemos com essas queixas.

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Vinícius de Moraes era um poeta envelhecido em tonéis de carvalho.

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Se fosse simples viver, não haveria tantas filosofias.

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A melhor mensagem de boas-vindas que pode haver em uma casa é o gato gostosamente escarrapachado no sofá.

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Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia não há mais quem o encontre.

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Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

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Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

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O Diabo é quem melhor conhece os escritores: querem dar almas de segunda em troca de obras de primeira.

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Os poetas românticos não beijavam. Pousavam os lábios sobre lábios virgens e desmaiavam em êxtases angelicalmente carnais.

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Para ser épico, um poema concretista precisa ter pelo menos dez andares.

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A literatura me ensinou a chorar na terceira pessoa.

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Que pretensiosas são as frases curtas com reticências no final…

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Sou um homem que escreveu a vida inteira. Não sou um escritor. Escritor foi o que eu quis ser.

***

Os poemas concretistas são agora fiscalizados pelo Inmetro.
Raul Drewnick

domingo, dezembro 10

Pronto para o Natal

Nanette Regan

Verdade dos livros e da vida

danskjavlarna:
“Here’s a precursor to tablets and smart phones destroying human communication, from Humorous Poems by Alfred Ainger, 1893. The caption says, “Reading,—and wept.”
My Strange & Unusual Site | Books | Videos | Music | Etsy
”
Humorous Poems. Alfred Ainger (1893)
As coisas que nos tocam aos vinte não são necessariamente as que nos tocam aos quarenta, e vice-versa. Isso é verdade para livros e para a vida 
 A. J. Fikry, "A vida do livreiro"

Sonho de livraria

En medio del bosque hay una librería que fomenta la lectura a todos los animales del bosque (ilustración de Cale Atkinson)
 Cale Atkinson

Eu, leitor, confesso

Para mim, a leitura transformou-se de obrigação em paixão, vício, fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony) insistia, durante a infância/adolescência, na leitura – imaginem! – até de enciclopédias (Conhecer, com fascículos distribuídos em bancas nos anos 70). Como era maçante – mas também no campo, época de semear é feia, cheira mal, e, de repente, que transformação! Eis que chega a colheita – florida, cheirosa, rica e prazerosa.

Leer en libertad (ilustración de John Ferenov)
John Ferenov
Sim, sou um leitor amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que transporte não só para outros sítios, mas principalmente pra dentro de outras personalidades, atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor contando aquilo que passou ou gostaria de ter passado, por um lado tão inusitado que te joga contra as paredes do auto-conhecimento.

Bem, acima de tudo, leitura pra mim é pura distração, diversão, passatempo, hobby, "previdência privada" (pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que espero repetir em busca de sensações maiores).

Onze pequenos e grandes prazeres de um leitor amador:

1. Entrar numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele poema que parece que foi escrito naquele momento e diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim, "Epitáfio para o meu silêncio".

2. Ler Henry Miller, Trópico de Câncer, pensando ser livro de "sacanagem" e descobrir, no fim, talvez a melhor definição de pra que servem os artistas e a arte.

3. Nunca ter lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica "Os Pés do Morto".

4. Não admitir sair de uma livraria sem comprar nada, comprar um autor desconhecido, capa interessante, chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória (A Máquina, de Adriana Falcão).

5. Ter lido um romance (que era o único largado num rancho de pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).

6. Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).

7. Sentir-se como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor da Solidão.

8. Saber que Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você, está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer momento lançar outro livro.

9. Abrir a Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira leitura da manhã, tendo certeza de que não será sobre o FHC.

10. Assistir a um filme argentino na TV, desconhecido, ser atraído por citações poéticas, gravar os créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora comprar pela internet o que encontrou (Antologia Poética), receber depois de três dias, abrir, esganado, esfomeado, cair no poema "Intimidade".

11. Todos os próximos que certamente estão por vir...

Ricardo Wagner Modes

sábado, dezembro 9

Leitura espionada

Lucy Fleming

A chaminé e a porta

A grande vantagem da criança sobre o adulto é o direito, a vontade e a necessidade que ela tem de perguntar tudo. Com o passar do tempo, esse direito, essa vontade e, sobretudo, essa necessidade vão acabando. Daí que o velho, em geral, nada mais pergunta.

Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.

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Avisaram-me que não decepcionasse o guri, armei a árvore da melhor maneira possível, admito que ficou imponente, faiscando tão forte que suas luzes, no profundo da noite, se refletem nas águas da Lagoa.

Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!

Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.

Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.

Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Carlos Heitor Cony, "O harém das bananeiras"

sexta-feira, dezembro 8

Hora do café!

A woman reading her favorite book and drinking coffee.

Arma do bem e eficaz

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Você quer armas? Estamos em uma biblioteca! Livros! As melhores armas do mundo!
Doctor Who

Essa já acordou embalada

cobratoes:
“Julia Wertz
”
Julia Wertz

Solidário James Amado

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Dizia-se que não era um homem de temperamento expansivo, como o irmão, o consagrado romancista Jorge Amado. Embora soubesse que estivesse 000mal de saúde, fiquei sem graça quando soube que teve uma morte em casa, vítima de falência múltipla dos órgãos. Foi em Salvador, num dia de domingo. Também escritor, pesquisador e romancista, esse irmão caçula de Jorge Amado. .

Segundo Paloma, sobrinha de James, aquele domingo de cores cinzentas foi de dor e saudade.

— Estou completamente destroçada. Meu pensamento está todo voltado para minha tia Luíza, mulher formidável, e para meus queridos Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda, mais que primos, irmãos muito amados.

Terceiro e último filho de João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, desbravadores da Região Cacaueira Baiana, na época da conquista da terra, James Amado nasceu em Ilhéus, em 1922. Era o último irmão vivo de Jorge Amado. Membro da Academia de Letras da Bahia desde 1990, ocupando na tradicional instituição a cadeira de número 27, cujo patrono é Francisco Rodrigues da Silva e que antes de James foi ocupada pelo jornalista Antonio Loureiro.

Como ficcionista, escreveu apenas o romance Chamado do Mar e o conto “A Sentinela”, incluso nas antologias Panorama do Conto Baiano e Histórias da Bahia. Com produção pequena, James teria condições de permanecer no panorama da literatura contemporânea brasileira, constituída de autores com legado extenso na escrita de boas qualidades? Ressalte-se que o português Antonio Nobre escreveu apenas Só e Augusto dos Anjos o Eu, até hoje os dois poetas ganham leitores e novos analistas de um legado pequeno, mas expressivo. Manuel Antonio de Almeida foi outro que escreveu apenas Memórias de Um Sargento de Milícias, obra-prima do romance picaresco.

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Chamado do Mar tem como cenário o Pontal dos Ilhéus, no Sul da Bahia, armado com o conhecimento de sua geografia exterior pelo autor para a exibição de conflitos interiores e sociais vividos por pescadores numa colônia de pesca. Um dos romances mais vigorosos da ficção brasileira no século XX tem como motivação o mar e sua gente. É narrado com a técnica moderna dos ficcionistas norte-americanos, daqueles que trouxeram para a estrutura do romance após a Segunda Guerra Mundial o uso do contraponto e do tempo desmembrado em fragmentos para expor situações livres da sequência linear, com base nos acontecimentos extraordinários pontuando a narrativa. Trata-se de um romance com intenso cheiro de maresia. Toca nas feridas sociais, e sua técnica moderna de desenvolver o tema guarda até hoje o segredo da perene atualidade.

Casado três vezes, suas esposas foram Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Deixou quatro filhos: Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda. Certa vez, ele disse ao poeta Florisvaldo Mattos:

– Somos da mesma região e temos tradição de luta e esforço pelas causas sociais.

Florisvaldo Mattos lembra:

– Ele era uma criatura afetuosa e solidária. Toda semana, nós nos encontrávamos na “Ceasinha”, nas quintas do Edinho, para conversar.

Da última vez que passou por minha terra natal, mandou um recado pelo poeta Telmo Padilha que queria me conhecer. No Lord Hotel, onde estava hospedado, perguntou-me durante o almoço como eu ia na minha produção literária. Na conversa que mantivemos animada, incentivou-me na difícil e prazerosa travessia das letras. Adiantou que iria recomendar-me ao editor Jorge Calmon, assim que voltasse a Salvador, para que meus textos fossem publicados no jornal “A Tarde” .

Isso de fato aconteceu. Durante alguns anos publiquei artigos de opinião no primeiro caderno e crônicas na seção “Ultra Leve” do valoroso jornal nordestino. James Amado prefaciou meu primeiro livro de crônicas. Era um solidário companheiro das letras.

quinta-feira, dezembro 7

O 'dono' da chave

O brasileiro lê muito

Arriba, arriba, arriba de una gran montaña de libros (ilustración de Lisa Aisato)
Lisa Aisato
O brasileiro não lê pouco, pode ler mal ou não comprar livros como se gostaria, mas a média de leitura nacional é muito boa, do contrário, não seríamos uma das nações que mais frequenta redes sociais no mundo, onde se usa o texto como a principal forma de comunicação, e nem teríamos tiragens de best-sellers na casa dos milhares quando não milhões.

Mas vou mais e lembro-me dos cinco bilhões de reais que representam o mercado brasileiro no cenário mundial, sendo, portanto, um dos maiores mercados do setor editorial em faturamento. Número que já oscilou na casa dos seis bilhões quando o poder público, em especial o federal, mantinha vivo seus fundamentais programas de compras.

A reflexão necessária é de que há uma espécie de preconceito aberto e declarado, como se chamar o povo de burro fosse regra, ou que as pessoas não compram livros nem leem aquilo que certa elite gostaria porque são ignorantes. Também há a hipótese de que a desinformação sobre o mercado do livro e os índices de leitura seja gigantesca, e que mesmo bons jornalistas e profissionais da comunicação têm dificuldade em encontrar dados que derrubem esse conceito, ou preconceito, sobre os índices de leitura.

Não podemos, porém, deixar de observar que para o tamanho do país e da população, se comparados a vizinhos como Argentina, nossa leitura per capta é de fato tímida. E que a leitura poderia ser melhor, visto, por exemplo, a ausência de leitores com seus livros abertos em lugares públicos como em metrôs e ônibus. Mas, para isso, é bom não esquecer que nas universidades muito ainda se usa, infelizmente, as tais cópias “xerox”, como substituição ao livro, e que essas cópias não entram nos números, tampouco cálculos estatísticos, ou sequer passam nos olhos ávidos de quem procura um leitor de livro aberto numa estação de metrô.

Em verdade, e aqui uma opinião mais do que honesta, é de que embora leiamos muito, a realidade é de que lemos mal, e muito mal. O fato de encontrarmos livros infantojuvenis adotados em escolas com erros de pontuação e histórias frouxas, ruins, é um comprovador. Também é comum encontrar autor que se autopublica dizendo vender bem a cada nova tiragem ou novo título, e depois descobrirmos que seus leitores – e eles existem como se comprova na gráfica ou nas vendas pelo KDP da Amazon –, não percebem como fracas são suas histórias e como confusos são seus pensamentos ou mesmo a organização do seu texto.

Há, também, nesse deserto do texto ruim, livros impressos fora do país, mas vendidos a preços impressionantemente baixos, livros estes muitas vezes com histórias sofríveis e ilustrações deprimentes. E ainda há os títulos traduzidos às pressas ou por maus tradutores – e aqui entra a literatura adulta de qualquer área – como outro sinal da má qualidade do que chega ao leitor, que, por sua vez toma aquilo como uma média do que pode ser escrito e do que deve ser lido. Em outras palavras, o referencial do que é bom em escrita e leitura, no Brasil, é um desespero de tão ruim.

Em outros artigos defendi e sigo defendendo a importância da escrita criativa e suas oficinas, pois, como referência, nos EUA pós-guerra, esse foi um dos instrumentos para não só movimentar o mercado norte-americano como por outro lado reforçar a educação fora das escolas.

Enquanto isso, neste Brasil continental de história tão amiga a elites que preferem a escravidão à liberdade, talvez não devesse soar estranho afirmar que o povo brasileiro simplesmente não lê porque é ignorante. Mas não sou da elite, sou do povo, do estudante da escola pública, e dos otimistas, pois gosto de pensar que apesar das elites e de nossa história de golpes e massacres, o povo ainda lê, e ainda quer ler mais e melhor. E, quem sabe, talvez aí esteja a tarefa dos editores, autores e agentes do mercado: superar o preconceito e fazer mais e melhor pelo leitor brasileiro.

Paulo Tedesco

quarta-feira, dezembro 6

Café da manhã especial

danskjavlarna:
“From Fliegende Blätter, 1941.
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”
Fliegende Blätter (1941)

Cataratas do céu

Quando não se pode tomar decisões só se tomam decisões erradas
Autor ilegível
Levaram o menino a ver o aeroporto. Vestiram-no de domingo, engomaram sua alma, lustraram seu pé. De mão dada, ele entrou no chapa. O tio desconferiu uma riqueza de notas. Tudo em sorrisos, como se tudo aquilo fosse cumprir de promessa.

O menino era desses que a guerra deslocou não só de endereço mas de vida. Vinha de lá, onde a terra desfaz fronteira com outras terras. Nesse seu lugarinho tudo era sossegoso, até o tempo ali ganhava vastas preguiças.

Agora, em casa dos tios, o menino só encontrava espantos no rumor da cidade. Certa vez, o rapaz entrou em casa, afogueado: um avião atravessara as nuvens, em cima. O tio lhe perguntou: “mas nunca viu, nem cheirou barulho no ar?” Nada. O céu de lá era muito desqualificado, nele nunca riscara nenhum avião.

Com o tempo, a família começou a se preocupar com a cabisbaixeza da criança, sempre de olhos minhocando o chão. No início, ele nem queria sair de casa. O tio se maçava, o coração lhe subia à cabeça.

- Um dia esse miúdo vai-se chocar com a vida!
“Deixa-lhe, marido”: era conselho da velha tia. Ela entendia de feridas e sofrências. Quando o pão é magro quem escasseia é o homem. Sabe-se o que aquele menino passara, lá de onde vinha? O marido que se dispensasse. Aquilo era assunto de ternura e mãe.

La lectura te atrapa desde la infancia (ilustración de Kayla Harren)
 Kayla Harren
O tio reagia: “como deixo? Será que esse menino não tem jeito nem para viver? Sempre e sempre de olhos no chão! Esse mufana foi é mal-olhado. Até me arrepia. parece o olho dele tem medo da pálpebra.

Uma noite, o tio estremunhou-se. Acordou a mulher e lhe revelou suas sonâmbulas reflexões: “eu sei o que sucede com ele, esse nosso sobrinhito não é um deslocado de guerra. A guerra é que deslocou-se para dentro dele. E agora, como tirar a guerra de lá dos interiores, como desalojar a malvada lá das províncias da sua alma? Não há comissão governamental, nem missão das Nações Unidas. Não há departamento para esse caso”. A mulher cortou:

- “Por que não me deixa titiar esse menino sozinha?”

O homem nem respondeu. Levantou-se e foi ao quarto do sobrinho. E lhe falou assim:

- “Amanhãzinha vais ver aviões adiante do céu, barulharem até te encheres de ouvidos”.

Meio oculto no lençol, o miúdo antecipava temores. O tio nem dava as confianças: “veja sobrinho, até já entrei num desses bichos.

- “Entrou?

- “E como entrei! Tua tia até chorou. Se tive medo? Nem medo, nem receio. Eles é que tiveram medo de mim. Por isso me amarraram logo na cadeira”.

Retornado ao seu quarto, o tio inchou uma esperteza vaidosa no peito: “o que ele precisa é o céu se abrir para ele. Compreende, mulher? A terra está cheia de ferida, não traz consolo nem ombro para ninguém. O céu é que, agora, tem que se abrir para ele”. A esposa sacudiu a cabeça, receosa.
Agora, desembarcando em pleno aeroporto, o menino lantejolhava em redor. Tudo era sonho. Seus olhos se abasteciam de súbitas e infinitas visões. Não falou, não sorriu. O tio, à distância, comentava: “o miúdo está em estado, coitadito”.

Chegada a hora do deitar, ele permaneceu sentado, mais rígido que a tábua da cama. A tia lhe reservou um carinho:

- “Que tu tens, meu filho?”

E ele, então, falou. Disse muito oficialmente:

- “Quero ser um avião!”

Manhã seguinte, todos se riam. A tia lembrava a solenidade da declaração. Não queria ser piloto, técnico espacial, mecânico especial, ou mesmo simples passageiro. Nada. Avião, era o que ele queria ser. O tio acrescentou piada:

- “Quer ser Boeing ou DC 10?”

O miúdo não entendeu a graça. No fundo, ele já se tinha todo ele decidido. E nunca mais da sua boca se escutou sílaba que fosse. Se insulou no quarto, sentado, imovente. Os braços cumpriam ordem de serem asas, o corpo duro, quase metálico. Deixou de comer, deixou de beber. A custo a tia lhe insistia, apontando um copo:

- “Vá, meu filho, isso aqui é combustível!”

Mil vezes o tio lhe falou, em várias tentações e tentativas:

- “Não prefere ser um pássaro, vivinho de alegrias?”

Tudo irresultava. Resolveram conduzi-lo de novo ao aeroporto. Todo o caminho, o miúdo seguiu de braços abertos, fixo que nem aço. Chegado ao aeroporto o menino olhou extasiado seus companheiros de espécie, as aeronaves. E desatou correndo, roncando seus fantasiosos motores. Olhando a criança correndo de encontro ao sol, o tio até se lagrimava, comovido:

- “Veja, veja como ele brinca!”

E assim ganhando mais e mais velocidade, braços cruzando o sonho, o menino se confundia, a contraluz, com o fogo inteiro do poente. Seria, no instante, que o céu se abria para aquela criaturita?
Pupila esgrimando o sol, o tio deixou de ver o miúdo. Apenas uma mancha, sombra súbita cruzando os ares. Ainda acreditou ser um pássaro que lançava seu voo da varanda para o distante chão. Nesse momento ele aprendia que o céu está padecendo de cataratas, repentinas névoas que impedem Deus de nos espreitar.

Mia Couto, "Contos do nascer da Terra"

segunda-feira, dezembro 4

Á espera de você

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A folha de papel e a tinta

autumn tumblr - Pesquisa do Google
Uma folha de papel que estava em cima de uma escrivaninha juntamente com outras iguais a ela , um belo dia apareceu toda manchada de sinais. Uma pena, molhada numa tinta muito negra, escrevera na folha de papel uma quantidade enorme de palavras.

- Não podias ter-me poupado esta humilhação? - Disse aborrecida, a folha de papel à tinta - Sujaste-me toda, estragaste-me para sempre.

- Espera - respondeu a tinta - Eu não te sujei, eu cobri-te de palavras. A partir de agora já não és uma folha de papel. És uma mensagem. Porque guardas o pensamento humano tornaste-te um instrumento precioso.

De fato, pouco depois alguém veio arrumar a escrivaninha e vendo aquelas folhas espalhadas juntou-as e preparou-se para as atirar ao lume. Mas logo reparou na folha "suja" de tinta e , então, separou-a das outras e pôs no seu lugar, bem visível, a mensagem da palavra. 

Leonardo da Vinci, " Fábulas"

Para começar o dia

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Anatomia das segundas-feiras

Nada a ver com o rock homônimo que fez sucesso há tempos. Também não gosto das segundas-feiras e tenho excelentes motivos para isso. É o dia em que todos os chatos do mundo saem das tocas, infestam ruas, caminhos e vales da vida, é uma invasão, um "apocalypse now".

Depois de passarem o fim-de-semana constatando que precisam fazer alguma coisa -já que, até então, nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos-, eles tomam a férrea decisão de, a cada segunda-feira, iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.


Essas sinistras resoluções nascem da fossa crepuscular do domingo. Tão logo o sol se levanta na segunda-feira decisiva (que são todas elas), eis que a turba se ergue dos túmulos da mediocridade existencial e sai à cata das oportunidades, da concretização dos propósitos. É na segunda-feira que todos os que ainda não chegaram lá se repõem em dia com velhos projetos, antigas ambições. Dessa vez vai. Ou melhor, dessa vez vão.

Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências.

Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira, e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contactos, tentam um "replay", uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.

A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicam à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.

Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira.

Carlos Heitor Cony

domingo, dezembro 3

Pescando ideias

Pescando ideas en los libros (ilustración de Roberto Cigna)
Roberto Cigna

Nova York investe 317 milhões de dólares em reforma de sua biblioteca mais famosa

A biblioteca mais emblemática de Nova York, conhecida pelos famosos leões que descansam em sua entrada, realizará a maior reforma da sua história, que custará US$ 317 milhões e não está livre de polêmicas.

A biblioteca, que fica na Quinta Avenida, está sempre bastante movimentada devido ao fluxo de turistas, mas também é uma das que mais recebe pesquisadores em todo o país, e permanecerá em obras até o fim de 2021.


Há quatro anos, um grupo de pesquisadores conseguiu derrubar o projeto de reforma anterior e ameaçou processar a instituição se esta não voltasse atrás em sua tentativa de se desfazer de suas estantes centenárias.

Com a nova reforma, a biblioteca ganhará 20% de espaço para salas de pesquisa, exibição e oficinas educativas e incorporará uma cafeteria, uma nova loja, um elevador e um novo terraço.

No entanto, o plano diretor não trata de um assunto complicado: o uso que será dado às estantes emblemáticas.

Estas, datadas de 1911, não cumprem com os requisitos de temperatura, umidade e segurança para incêndios que são necessários para as coleções mais delicadas.

É por isso que a maior parte dos arquivos que costumavam ficar nelas estão temporariamente realocados na biblioteca de Bryant Park, e suas prateleiras abrigam outra coleção diferente, a da biblioteca de Mid-Manhattan, que está envolvida em outra enorme reforma avaliada em US$ 200 milhões.

"Vamos levar um tempo antes de tomar uma decisão. É melhor demorar um pouco mais do que decidir às pressas e cometer equívocos", afirmou o presidente da rede de bibliotecas públicas de Nova York, Anthony Marx, durante a apresentação do plano diretor em uma audiência pública nesta semana.

"Como se atrevem a chamá-lo de plano diretor se ele não contempla o aspecto mais importante da biblioteca, como o das estantes?", questionou um usuário durante a sessão de perguntas.

"O que as pessoas querem é ter mais livros à disposição e acesso aos mesmos o mais rápido possível", afirmou outro, que lembrou com nostalgia da época em que podia sentir o cheiro entre as estantes, pegar ele mesmo o livro e, durante o caminho, "deparar-se com outros exemplares" que sequer sabia que existiam.

Marx defendeu que, apesar dos livros estarem em outras bibliotecas, o tempo médio de entrega é de 27 minutos, e destacou que, graças a um acordo com as universidades de Harvard, Columbia e Princeton, o catálogo foi ampliado em 7 milhões de novos exemplares.

A abertura de uma cafeteria na biblioteca também levantou paixões. "Café? Café neste edifício majestoso?", resmungou uma senhora de idade avançada, provocando aplausos do público que assistia à apresentação do plano.

Dos US$ 317 milhões do plano diretor, 144 já foram investidos na última década, e a maioria desses recursos provém de doações para a rede de bibliotecas públicas de Nova York.

Esta rede é, apesar do nome, uma fundação privada que recebe recursos públicos e particulares, e tem 92 centros distribuídos nos distritos de Manhattan, Bronx e Staten Island.

A reforma envolverá uma reorganização dos espaços. Os andares superiores receberão as salas silenciosas de leitura, para estudantes, leitores e pesquisadores, enquanto os visitantes e os eventos ficarão restritos aos andares de baixo.

A parte externa do edifício não sofrerá mudanças, exceto pela transformação de uma entrada para funcionários na Rua 40, que se transformará em um terraço com jardim, pensado para os grupos de estudantes que visitam a biblioteca, e que ajudará a descongestionar os acessos.

A arquiteta holandesa Francine Houben, cujo escritório ficará responsável pela reforma, detalhou que o edifício é "esplêndido", mas que existem algumas salas nobres que o público não vê na atualidade, um "erro" que será reparado após as obras.

Apesar da insistência do público, que perguntou pelo futuro das estantes, Anthony Marx se limitou a dizer que todos os usos possíveis serão avaliados.

"Que uso vocês querem dar para uma estante? Coloquem nela os seus livros!", alfinetou uma senhora presente no evento, levando o público aos risos na sala.

sábado, dezembro 2

O livro muda o ambiente

La magia de la lectura, la puerta de los sueños (ilustración de Wayne Anderson)
Wayne Anderson

Onde estão os leitores de livros?

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”
A questão da leitura no Brasil é difícil de formular. Por um lado envidam-se esforços no sentido de proporcionar acervos de livros adequados para leitores em escolas e universidades, centros de juventude, bibliotecas públicas e particulares. Por outro se treina as novas gerações em mídias digitais, o que não seria problemático, não fossem elas utilizadas quase que exclusivamente para mensagens e informações apressadas e superficiais, quando não levianas. Ao dar o mesmo valor a qualquer blog do que se dá a uma fonte criteriosa, como um bom jornal, o leitor se torna vítima fácil de notícias plantadas, informações maliciosas, ou simplesmente mau jornalismo. Todos nos tornamos médicos, advogados e historiadores após uma rápida consulta ao que disse tia Cotinha no Facebook da família, ou no Whatsapp da turma da escola. Há professores que simplesmente mandam pesquisar “na internet”, como se tudo que se encontra na web tivesse equivalência. Nem damos bola para o fato de que a especialidade de tia Cotinha é uma deliciosa sopa de legumes com ossobuco e que o primo de Paraguaçu Paulista não se notabiliza pela capacidade de selecionar informações. Confunde-se espaço democrático e direito de expressão com competência e divulgam-se asneiras de todo tipo sob o argumento de que todos têm o direito de se expressar. A única ressalva é que direito de se expressar não pode ser confundido – uma vez mais – com qualificação em todas as áreas. Para dar um exemplo extremo e obvio Dr. Paulo não me consultou sobre a técnica que deveria usar para implantar o marca-passo no meu peito. E eu ouso dar aulas e fazer palestras sem perguntar a opinião dele sobre fatos históricos. A qualificação existe, senhores...

Assim, que me desculpem os palpiteiros, mas competência é preciso. Claro (não finjam que não entenderam meu argumento) que não me refiro a assuntos e temas sobre os quais qualquer cidadão pode e deve se manifestar. Qualquer um pode e deve opinar, por exemplo, sobre reforma política (menos partidos? Voto distrital? Fim das coligações? Financiamento oficial? De empresas? Só de pessoa física?). Todos podem e devem entrar na discussão sobre se questões de saúde pública (como o aborto) devem ser confundidas com questões religiosas. Se foro especial não é uma prática antirrepublicana que beneficia apenas os já beneficiados e cria cidadãos de classes diferentes em uma sociedade que deveria privilegiar a igualdade de oportunidades. Se já não chegou o momento de acabar com essa folga de autoridades requisitarem aviões oficiais para passar o fim de semana em seus feudos (feudos, sim senhor) eleitorais, etc, etc, etc...

É evidente que não se deve tolher o exercício pleno da cidadania, que inclui o direito à manifestação, pelo contrário. O que defendo é o direito à informação séria, responsável, relevante. É fundamental ficar alerta, selecionar criteriosamente as fontes, evitando-se divulgar notícias falsas, textos apócrifos, supostas opiniões de figuras conhecidas que nunca disseram aquilo, trechos truncados que distorcem o conteúdo e, não menos importante, provocações irresponsáveis. E aí voltamos à questão da leitura de livros. Se você, improvável leitor deste artigo, não for um leitor de livros eu sinto muito. Ainda é neles que está depositado grande parte do patrimônio cultural da humanidade. Em livros estão registrados desde os textos sagrados das três mais importantes religiões monoteístas do mundo até as reflexões mais sofisticadas dos pensadores contemporâneos, passando por todos os teóricos sociais, estudos de economia, avaliações históricas das principais organizações sociais criadas pelo homo sapiens. Há livros para adultos e para crianças, para ler na praia, no metrô, no escritório, na cama. E se pensarmos em ficção, com livros a gente cria o personagem do nosso jeito, não fica sujeito aos caprichos do diretor do filme, por isso melhor que ver um bom filme é ler um bom livro.

Em uma sociedade em que o celular fica obsoleto em dois anos e uma relação amorosa não costuma durar nem isso; em que não temos tempo para conhecer as pessoas, elas nos aborrecem antes de sabermos quem elas são; em uma sociedade em que não degustamos, devoramos; em que não sabemos mais apreciar os caminhos, só queremos chegar; em que aprendemos a ler “por cima”, pulando linhas, letras e sentidos, sem curtir a construção elegante, o uso correto das palavras, o texto coeso, a mensagem clara; Quem teremos para ler livros nas próximas décadas?

Jaime Pinsky

sexta-feira, dezembro 1

Sexta de compras

Prazeres leitores

A moça veio com uma edição antiga de um dos meus primeiros romances. Estava em pedaços. Achei estranho aquele exemplar nas mãos de uma jovem. Perguntei onde havia arranjado aquilo, ela disse que só compra livros em sebo, não por economia, mas porque gosta de livros em decomposição.
Albena Vatcheva - La lectora
Albena Vatcheva
Para provar, mostrou-me um exemplar do mesmo romance em edição recente. Mas exigia o autógrafo no livro antigo. Enquanto colocava o habitual "com o abraço do", ela me informou que sofre de rinite e gosta de ler sentindo comichão (ou falta de ar) no nariz.
Carlos Heitor Cony, "Velho papéis"

quinta-feira, novembro 30

Hora do café

Sarah Barnaby
Sarah Barnaby

Ando me sentindo estranho!

Minha capacidade de entender e tomar partido em algumas discussões, principalmente entre meus pares, sobre os recentes episódios com a Literatura para crianças e jovens está travada.

Ou cai do ninho ou nunca estive nele!

Entre Lápis e Pincéis: Aleksei Bitskoff
Sempre defendi (ainda acredito nisso) que a literatura não tem função. Que não existe uma única verdade - portanto, todas podem ser só mentiras - que delícia ler um livro só de mentiras. Que a literatura não torna ninguém melhor ou pior. Que a literatura não salva ninguém. Que a literatura não liberta e nem aprisiona. Que a literatura não perverte ninguém. Que a literatura não traz certo e errado. Que a literatura não serve pra ensinar nada. Que a criança pode se identificar com a mocinha ou com o bandido que tudo bem - afinal não somos uma única persona. Que a palavra ou imagem na ficção nem sempre significa o que nossa capacidade de leitor consegue alcançar - às vezes é só um cordeiro em pele de lobo (a inversão é proposital). Que a criança não tem o mesmo olhar reducionista de nós adultos.

Então, exercer o papel de censor sobre qualquer assunto só serve para alimentar o nosso ego e uma falsa tentativa de mostrar que temos poder e que somos mais inteligentes. Ao termos este tipo de postura só reduz a literatura ou a coloca em um lugar que não é o dela. Talvez estejamos fazendo esse tipo de debate porque a narrativa não é literatura e queremos encaixar um quadrado num espaço hexagonal.

Enquanto isso, falamos por aí que trabalhamos para formar leitores críticos e autônomos. Será? Ou estamos sendo especialistas, mestres, doutores em contribuir para que a literatura faça parte de um processo destrutivo da autonomia e criticidade?

Eu acredito nessa literatura que falei acima. A literatura do desserviço.

Chego ao final com a certeza que poderia me juntar a qualquer grupo de discussão: A, B ou C. Defender firmemente com argumentos e até citações de estudiosos.

Mas porque eu não escolho um dos grupos? A resposta é simples. A literatura é maior que eu. Escolher um lado que não seja defender a sua liberdade de transitar e a do leitor de escolher ler ou não é a maior maldade que eu poderia cometer com a sociedade.

Quando defendo que as crianças devem ter acesso aos melhores livros é porque acredito que a literatura estará transitando por esses suportes e a experiência estética e humana - boa, ruim ou sem classificação - poderá acontecer em um grau ampliado.

As crianças sempre terão acesso aos livros ruins ou de qualidade literária duvidosa. Jamais conseguirei barrar isso. O capitalismo é profissional o suficiente, e também maior do que eu, para garantir esse acesso.

Aprendi aos nove anos no ferro velho do meu pai que o objeto livro tem dois valores: o literário e o do peso do papel. Quando eu recebo literatura, eu saio distribuindo literatura. Quando eu recebo livros que o único valor é o do peso do papel, eu jogo no lixo para ser reciclado. Mas essa decisão precisa ser minha como leitor. Como saber diferenciar? Tendo acesso aos dois!

Eu gostaria que as crianças não lessem uma boa parte dos livros que estão no mercado brasileiro por achar que eles reforçam a busca de uma única verdade. Uma única forma de ver e agir sobre tudo. Mas eu não saio por aí pedindo para as escolas, bibliotecas, bancas, editoras, governos, recolherem todos os livros de colorir, da Barbie, de personagens da Disney, etc.

Ops, isso poderia ser considerado um pedido?

quarta-feira, novembro 29

Parcialmente...

'Eu quero minha biblioteca'

Resultado de imagem para campanha eu quero minha bibliotecaChristine Fontelles é cientista social pela PUC/SP com MBA em Marketing pela FIA/FEA/USP. Foi co-idealizadora do Instituto EcoFuturo, idealizadora do programa Ler é Preciso, realizado há 15 anos e voltado para criação e qualificação de políticas de inclusão na cultura escrita, e da campanha Eu Quero Minha Biblioteca pela universalização de bibliotecas públicas no País, a qual coordena.
Autora de diversos artigos publicados sobre os temas educação para a leitura, literatura e biblioteca, é integrante e conselheira do Movimento por um Brasil Literário e do conselho curador da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Em entrevista à Plataforma Pró-Livro, ela fala sobre a importância de saber ler com gosto e competência e sobre a importância das bibliotecas para a sociedade brasileira. Ressalta ainda a importância da informação para que a sociedade civil e os gestores escolares possam lutar pela cultura do livro no Brasil

O que é a Campanha Quero Minha Biblioteca e quais são os principais objetivos dela?


 Eu Quero Minha Biblioteca é uma campanha pela universalização de bibliotecas em escola. Queremos contribuir com a efetividade da Lei 12.244/10, que determina que todas as escolas públicas e privadas do Brasil devem ter sua biblioteca até maio de 2020. Ela foi lançada em 2012 com objetivo de divulgar informações que possam contribuir para políticas públicas de biblioteca. Produzimos cartilhas informativas para a sociedade civil, gestores escolares e gestores públicos. Nesses materiais estão listados, inclusive, quais recursos públicos podem ser pleiteados para bibliotecas. Trabalhamos, então, com divulgações de informações, além de termos uma agenda governamental em Brasília.

A escola, em muitos casos, é único meio de acesso à cultura e à educação. A Eu Quero Minha Biblioteca objetiva também trazer as comunidades para a luta pela criação de mais bibliotecas, reconhecendo o valor que esses espaços possuem. Há dinheiro público que pode ser investido sim, em alguns lugares há. Tem emenda parlamentar, tem os programas federais, o Mais Cultura. Temos que lembrar o tempo todo que o que fica fora do planejamento público não recebe orçamento. Com a informação em mãos, a sociedade pode se mobilizar para lutar por seus direitos. Tenho visto nossos materiais circulando pelas redes sociais e, em muitos deles, professores e bibliotecários estão marcando parlamentares, há um burburinho. Ano que vem tem eleições, estaremos em campo dizendo a importância de os candidatos incluírem as bibliotecas em seus planos de ação.

Quais são os principais desafios ao falarmos sobre a cultura do livro no Brasil?

Os desafios são inúmeros. A começar pelo fato de que 55% das escolas públicas não têm biblioteca e que em 90% dos municípios brasileiros não existem livrarias. A biblioteca, portanto, democratiza e possibilita o acesso aos livros. Muita gente comenta que a biblioteca só faz empréstimos de livros, mas se a gente pensar nesse contexto, ela então adquire um papel fundamental. No entanto, só formamos crianças e jovens leitores se tivermos famílias e professores que leem e incentivam o hábito. É uma construção. Então, os momentos de leitura nas escolas precisam estar presentes e ser realizados com diversas estratégias. Uma vez iniciados nessa trajetória, os alunos seguem lendo. O que precisa ser discutido o tempo todo no ambiente escolar, entre docentes e gestores, é o que deve ser colocado em prática para se obter o objetivo que se pretende alcançar.

 Por que você acha que a pauta da ausência de bibliotecas em mais de 50% das escolas públicas e a desatualização dos acervos não é capaz, por si só, de sensibilizar a sociedade civil para a causa?


Porque ela vê valor nos livros. De uma forma geral, a sociedade brasileira não é consumidora de livros. Isso porque o repertório da leitura deve ser internalizado desde o útero materno. Na primeira infância temos que ter livros por perto, é importante ter essa jornada. Isso porque aprender a ler é um processo longo e que demanda muitas estratégias, mas não se tem muito essa noção da transversalidade da leitura. O que acaba acontecendo é que gente passa direto para a cultura de massa. Então, de um lado, os pais não leem para os filhos e, de outro, os professores vão pra escola sem ser leitores. Como desenvolver esse valor social com quase 500 anos sem ter essa experiência? Na escola, a literatura, em grande parte das vezes, está no território das respostas certas, ou seja, os alunos leem para responder questionários em vez de ter a oportunidade de construir um repertório sofisticado e ampliado sobre as leituras de determinado texto. Então, em vez de gostar de ler, a criança desenvolve uma raiva danada. Diante de experiências ruins ou da não experimentação da construção de senso crítico e de uma série de valores que são construídos a partir de boa experiências com a literatura, a sociedade desconhece o valor dela. Sem essa referência, ela não se sensibiliza para a causa.

No dia 21 será realizado o Diálogos 2017, evento do Movimento Brasil Literário, que vai reunir especialistas para debater o que só a literatura tem a nos oferecer. O Instituto Pró-Livro foi convidado para apresentar a Pesquisa Retratos da Leitura. Qual é a importância de levantamentos como os Retratos para a melhora dos índices de leitura do Brasil?

Na minha visão, a importância da Pesquisa se dá não só por seus dados, mas também sobre o que fazer a partir deles. O que a Retratos da Leitura faz é provocar, chamar a atenção para a necessidade de mudanças. Não podemos jamais usar as informações fornecidas por ela para sermos fatalistas. Se ela nos mostra que um dos escritores mais lidos do Brasil é Machado de Assis, o pensamento deve ser como podemos trabalhar outros textos de Machado ou a partir de Machado. Se nossos professores estão lendo pouco, o pensamento deveria ser como organizar os ambientes escolares de modo a oferecer mais oportunidades formativas aos docentes, e por aí vai. O Diálogos 2017 será um ambiente de troca de informações e de discussões sobre como podemos sair do lugar. Já passamos da hora de ampliar a discussão sobre a importância da leitura. É necessário promover debates de qualidade sobre como formar leitores e sobre como fazer a sociedade brasileira perceber, de fato, valor nos livros.

terça-feira, novembro 28

Assim muitos dormem bem...

elmayordelosdiez:
“Daryl Zang, Pause
”
Daryl Zang,

O autor sobre si mesmo

Imagem relacionada
É costume entre a gente trocar os bilhetes de visita a primeira vez que se encontra. Na Europa, ao menos, é tão necessário trazer um maço de bilhetes, como trazer um lenço. V. Excia. terá desejo de saber quem sou: di-lo-ei em poucas palavras.

Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões frescas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira. […]

Não sou votante nem eleitor, o que me priva da visita de algumas pessoas de consideração em certos dias, gozando aliás da estima deles no resto do ano, o que me é sobremaneira agradável. Ao mesmo tempo poupo-me às lutas da igreja e às corrupções da sacristia.

Não privo com as musas, mas gosto delas. Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. Ao domingo leio as Santas Escrituras; os outros dias são divididos por meia dúzia de poetas e prosadores da minha predileção; consagro a sexta-feira à Constituição do Brasil, e o sábado aos manuscritos que me dão para ler. Quer tudo isto dizer que à sexta-feira admiro os nossos maiores, e ao sábado durmo a sono solto. No tempo das câmaras leio com frequência o padre Vieira e o padre Bernardes, dois grandes mestres.

Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a república de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou…

Não frequento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios.

Aqui estão os principais traços da minha pessoa. Não direi a V. Excia. se tomo sorvetes, nem se fumo charutos de Havana; são ridiculezas que não devem entrar no espírito da opinião pública.
Machado de Assis, "Cartas Fluminenses”

segunda-feira, novembro 27

Leitora noturna

sundaybagels:
“Moon Reader
”

Leitura só para o corpo

chukycifuentes:
“Leon Kroll (1884-1974). Americano.
”
Leon Kroll 
O mercado havia mudado; hoje em dia havia mais escritores do que leitores. Todo mundo falava ao mesmo tempo e ninguém escutava, como num manicômio. Os únicos livros que as pessoas liam eram livros de dieta, de culinária ou de exercícios físicos. As pessoas não queriam melhorar o mundo, só queriam corpos melhores
Hanif Kureishi, "A última palavra"

A qualquer tempo

Las lectoras aprovechan cualquier momento libre para leer (ilustración de Gunseli Sepici)
Gunseli Sepici

O dia em que o Estado Novo queimou um dos maiores clássicos da literatura brasileira

Há 80 anos, em novembro de 1937, uma fogueira insólita ardia na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo.

A fumaça subia da praça pública em frente à então Escola de Aprendizes de Marinheiro, hoje o comando do 2º Distrito Naval da Marinha brasileira. Militares e membros da comissão de buscas e apreensões de livros, grupo nomeado pela Comissão Executora do Estado de Guerra do governo, assistiam ao "espetáculo".

O fogo era um símbolo dramático do combate à "propaganda do credo vermelho", como definiram as autoridades do recém-instalado Estado Novo de Getúlio Vargas. Na ocasião, foram queimadas mais de 1,8 mil obras de literatura consideradas simpatizantes do comunismo.

Mais de 90% dos exemplares incinerados, recolhidos nas livrarias de Salvador, eram de autoria de um jovem escritor baiano já proeminente com obras de cunho marcadamente social: Jorge Amado. Metade do lote, 808 no total, era de sua obra lançada meses antes, Capitães da Areia.

O Brasil dos anos 1930 fervilhava em tensões políticas, e o comunismo era um dos seus ingredientes.

Após a chamada Intentona Comunista, tentativa de levante liderada pelo capitão do Exército Luís Carlos Prestes em 1935, o governo passou a perseguir não apenas membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), como intelectuais associados (corretamente ou não) à ideologia de Moscou.

Um dos casos mais notórios foi o do escritor Graciliano Ramos. Em Memórias do Cárcere, ele narra sua história como preso político - de 1936 a 1937.

Mais de 90% dos livros condenados à fogueira
 em Salvador eram obras de Jorge Amado
Em 1937, a poucos meses das eleições presidenciais, passou a circular nos principais veículos de comunicação do país um plano falso para instaurar o comunismo no Brasil, elaborado pelo general Olympio Mourão Filho - o mesmo que lideraria mais tarde o golpe de 1964.Image captionCapitães da Areia, lançado em 1937, correspondia praticamente à metade do lote incinerado na capital baiana | Crédito: Fundação Casa de Jorge Amado

Batizada de Plano Cohen (um toque de antissemitismo que os historiadores não deixariam passar), a trama forjada sustentava a versão de que havia ordens da Terceira Internacional Comunista para assassinar diversos políticos e tomar o poder no país.

No poder desde 1930, Getúlio Vargas usou a estupefação criada pelo Plano Cohen para fechar o Congresso, cancelar as eleições e implantar o golpe de Estado no dia 10 de novembro de 1937.

Sob o novo regime, não surpreende que Capitães da Areia, uma crítica mordaz à desigualdade, que transformava meninos de rua em heróis, em vez de tratá-los como delinquentes e malandros, tenha engrossado desde o início a longa lista de obras censuradas. Além disso, o livro foi escrito por um autor filiado ao PCB - e que seria preso duas vezes por conta disso.

"No Estado Novo, qualquer coisa considerada ofensiva à moral e aos bons costumes virava alvo do regime", disse à BBC Brasil o escritor Lira Neto, autor da trilogia Getúlio.

"Os principais intelectuais do Brasil naquele momento ou foram presos ou cooptados."

Lira Neto lembra que até Reinações de Narizinho, livro infantil de Monteiro Lobato, seria alvo da censura do Estado Novo.

O próprio Lobato seria preso em 1941 - ironicamente, depois de recusar o convite de Vargas para dirigir o Departamento de Propaganda, órgão que tinha a dupla missão de promover o culto à personalidade do mandatário e exercer censura prévia a ideias contrárias.

De volta ao ano de 1937, na mesma fogueira em que ardiam centenas de livros de Jorge Amado, engrossavam as chamas algumas cópias de Menino de Engenho, de José Lins do Rego - uma exposição da desigualdade nas relações sociais no campo brasileiro.
Longevidade

Mas, apesar da intenção do governo de enterrar a obra, Capitães da Areia se tornou, 80 anos após o lançamento, um clássico da literatura nacional, uma denúncia longeva de um fracasso social que continua atingindo as cidades brasileiras.

"Era uma carta de denúncia de uma situação social gritante, de extrema pobreza, sobretudo em relação aos jovens e às crianças", disse à BBC a cineasta e neta do escritor, Cecília Amado.

"Não é à toa que os livros foram queimados, porque (para o governo) era uma vergonha mostrar aquilo."

Nascido em Itabuna, no sul da Bahia, Jorge Amado viveu e frequentou a região do Pelourinho, do porto e da Cidade Baixa de Salvador quando se mudou para a capital baiana.

"Eram regiões muito populares e, portanto, ele conviveu muito com os capitães da areia da época", contou Cecília, em um documentário de rádio em inglês para o Serviço Mundial da BBC.

"Ele gostava de conversar com as pessoas do povo, da rua. Era um hábito dele puxar conversa com as pessoas, ouvir suas histórias, e acredito que desse modo ele se relacionou com esses meninos, que eram personagens reais."

Jorge Amado era um jovem de 25 anos, politicamente engajado, quando Capitães da Areia começou a decolar. A expressão, disse a neta, não foi inventada pelo escritor - era como a imprensa da época se referia aos menores abandonados na região das praias.

"Falar desses meninos, de uma classe oprimida, marginalizada e rejeitada pela sociedade, e transformá-los em heróis, era de certa forma buscar nesses meninos um heroísmo que tinha a ver com sua ideologia política da época."

domingo, novembro 26

Para sonhar no domingo

Tudo quase ótimo

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Quando publicou seu primeiro romance, João Pedro encantou a família. O pai – que nunca escondera de ninguém sua incompatibilidade com livros de qualquer espécie – um dia depois do lançamento havia chegado à página 18 e, ao exagerar um pouco, dizendo estar na 25, arrancou tamanha expressão de júbilo do filho, no jantar, que sentiu um agudo remorso por não ter dito estar na 37, na 40 ou em alguma outra que deixasse João Pedro ainda mais feliz.

A mãe, sempre mais generosa, tinha lido tudo até a última letra e comunicou solenemente:

“Joãozinho, o seu é o melhor livro que eu já li.”

Enquanto a gratidão e o amor se misturavam no sorriso de João Pedro, sua irmã, a cruel Ivana, engoliu rapidamente um pedaço de carne para perguntar:

“O melhor ou o único, mãe?”

Dona Joana engasgou com uma garfada de arroz, tossiu, precisou tomar um gole de água e, com o rosto vermelho de indignação e falta de ar, respondeu:

“Como você é venenosa. Desde o meu tempo de escola eu sempre li muito.”

“Sei. Você leu a cartilha, o catecismo e… o que mais, mãe?”

Dona Joana fez o que sempre fazia quando a deixavam nervosa: resolveu ficar muda. Mas seus olhos lançavam faíscas contra a filha e, na hora da sobremesa, pôs menos sorvete para ela. Ivana notou:

“Isso é revanchismo, ouviu, mãe?”

A mãe e o pai, que não conheciam a palavra, olharam instantaneamente para João Pedro e, ao vê-lo sorrir, chegaram à conclusão de que a filha não tinha dito nada muito grave. Aliviados, os dois começaram a conversar sobre questões domésticas, enquanto Ivana, repondo o livro na conversa, deu sua opinião:

“Eu gostei, maninho.”

A alegria de João Pedro foi tanta que Ivana, a terrível, para não perder a fama, fez uma ressalva:

“Mas tem um porém.”

Um minuto depois, João Pedro já sabia qual era o porém: os capítulos eram longos demais, os títulos não prestavam, os diálogos eram frouxos e não havia nem suspense nem dramaticidade nas situações.

“E o resto, você achou bom?”, ele perguntou, com ironia.

“Achei, eu já disse. Mas…”

“Mas o quê? Vai dizer que tem outro porém?”

“É por isso que eu gosto de você, maninho. Você tem muita percepção.”

Enquanto o pai e a mãe se olhavam intrigados, porque não conheciam também aquela palavra, João Pedro, resignado, preparou-se para conhecer mais um defeito do seu romance.

Raul Drewnick

sábado, novembro 25

Corram aos livros!

Tenemos todo un largo fin de sermana para pasearnos entre los libros (ilustración de Adolfo Serra)
Adolfo Serra

O bardo

Outro dia comprei o teatro completo de Shakespeare. Chegou aqui em casa sem fazer estardalhaço, em uma embalagem discreta, sem dizer a ninguém — quem escreveu foi Shakespeare! Não pensem que foi barato, o bardo inglês escreveu muito, em qualidade todo mundo sabe, mas também em quantidade. Precisei dividir no cartão de crédito. Uma edição linda de azul, da Nova Aguilar, em três volumes, tradução da Barbara Heliodora, o miolo em papel fino, a entrelinha caprichada.

Resultado de imagem para shakespeare na estante

Fiquei contente. Agora posso ler William Shakespeare com calma. Faz um tempo comprei o teatro completo dele em inglês, estava com preço bom. Mas quando fui provar o inglês original da época em que William viveu, me danei por inteiro. Larguei o livro na minha estante, no momento conversando entre um volume de Jorge Amado e outro de Truman Capote.

Amigos escritores que postam em redes sociais, assim que vêem o próprio livro em uma prateleira, ou em uma vitrine bem bonita de livraria, correm para tirar uma foto com o celular, para mostrar à comunidade ao lado de quem tiveram a honra de figurar no panteão. Eu considero um lance bacana para uma primeira vez, depois vira rotina (será?), então não vale. Mas da primeira vez vale, significa alguma coisa, no mínimo uma imagem para se guardar: seu texto na vitrine de uma livraria, exibido ao lado das obras de figuras lendárias, que são ou foram pagas para escrever. Muita gente boa não tem nem teve essa sorte.

Diante de minha estante cheia, optei por meter o teatro completo de Shakespeare em uma prateleira à parte, por coincidência sobre o dicionário Houaiss. Vão ficar os dois juntinhos por lá me zoando, o filólogo Houaiss e o dramaturgo mais respeitado do planeta. De vez em quando, é claro que vou tomá-los da prateleira, seja por necessidade o dicionário, seja para passear pela sabedoria do teatro.

Eu tô ligado nessa palavra que confere a ostentação de um poema: o bardo. Baita palavra.

Marco Antonio Martire

sexta-feira, novembro 24

Luz própria

La lectura nos da vida (ilustración de Mark Conlan)
Mark Conlan

Chegar ao outro

readingwoman:
“Diary of a Lost Girl, Louise Brooks, 1929
”Um romance é o mais próximo que podemos chegar de estar dentro da cabeça de outra pessoa
Margaret Atwood

Jovem leitora

readingwoman:
“Young Reader, Miguel Mackinlay, (1895-1958)
”
Miguel Mackinlay, (1895-1958)

'Perfil do escritor brasileiro não muda desde 1965'

Uma pesquisa realizada na Universidade de Brasília (UnB) traz um relato desanimador sobre a literatura nacional: as grandes editoras seguem publicando obras de escritores brasileiros com o mesmo perfil há mais de 50 anos. O trabalho compreende livros nacionais lançados entre 1965 e 2014. Mais de 70% deles foram escritos por homens, 90% são brancos e pelo menos a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A análise também entrou no enredo da literatura nacional, chegando à conclusão de que os personagens retratados se aproximam da realidade dos escritores. Cerca de 60% são protagonizados por homens, sendo 80% deles brancos e 95% heterossexuais.


“Os dados mostram que há uma homogeneidade entre os escritores e os romances publicados no Brasil. Isso praticamente não mudou ao longo das décadas. É muito preocupante”, afirma a professora do Departamento de Teoria Literária Regina Dalcastagnè, coordenadora da pesquisa.

O trabalho, realizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea da UnB ao longo de 14 anos, contou com a participação de mais de 30 universitários. A pesquisa fez um recorte por editoras em três períodos diferentes.

O primeiro deles foi entre 1965 e 1979, que contava com publicações da José Olympio e da Civilização Brasileira. O segundo recorte foi de 1990 a 2004, com a presença da Companhia das Letras, da Rocco e da Record. Já o último compreende 2005 a 2014 e quase as mesmas editoras, trocando apenas a Rocco pela Objetiva.

“Com a pesquisa, percebemos que as editoras não estão dispostas a diversificar o cenário literário. Assim, caso o leitor esteja atrás de literatura produzidas por mulheres, negros e de diferentes regiões terá que buscar independentes, com menor alcance às livrarias brasileiras”, conclui Regina