sábado, dezembro 29

Feliz 2019




Que seja feliz o ano que chega
Bem medido
Com mais de coisas boas e bem menos das más
Silêncios para pensar
e calar raivas boçais
E risos para alegrar e aconchegar todos em paz

Toadinha de Ano Novo

E foi-se o ano - ano bissexto arrenegado! - ano ruim, ano safado, ano assim nunca se viu! Levou Aníbal, levou Antônio Maria, levou tanta poesia com Cecília que partiu... Levou Ari e levou Álvaro Moreyra (nunca vi ano bissexto pra fazer tanta besteira!). E não contente - eta aninho contundente! - ainda deixa pra semente tanto estorvo pro Brasil!...

Ano pior só fazendo de encomenda: depois da morte de Kennedy, até Kruchev caiu. De modo que se escutarem um barulhão, não se assustem, é nada não... foi a Bomba que explodiu.

Mas já se foi, já se mandou... - valha-nos isso! - ano chato, ano difícil, ano contraproducente. E isso porque além de todo esse estrupício, deu um estranho panarício no dedo de muita gente.

 Camouche
Pelo meu lado eu até não digo nada: me casei com a minha amada, fui com ela pra Paris. Fiz meus sambinhas, tenho uns planos de cinema e a Garota de lpanema me deixou muito feliz. E se a saúde não fizer nenhum forfait, este Ano Novo até que vai ser muito fagueiro: vou tacar peito, vou fazer muito poema, e a Garota de Ipanema vai ser mãe em fevereiro. Pois tem um samba feito por mim e por Baden que - não sei, vocês aguardem... - tem um balanço legal; e que se for trabalhado pelo Ciro, aposto vai ser um tiro: vai estourar no carnaval!

Pois é, meus filhos, aí está 65... Vai entar tudo nos trilhos, como diz Roberto Campos. Se não entrar, resta a Barra da Tijuca e uma garrafa de uca enquanto se pescam uns pampos. Resta saber que no Quarto Centenário o carioca, esse otário, vai ter água pra chuchu. Pois tem morrido um bocado de operário pra aliviar nosso calvário com a adutora do Guandu. Resta pensar na folia de Rei Momo - carnaval de quem não come resolve qualquer problema. Quem ficar vivo, segundo a lei do mais forte, esteve mais perto da morte que mocinho de cinema.

De qualquer modo resta o tomara-que-seja; resta o que a gente deseja, como diz o amigo Guima. E a esperança é uma mulher tão à mão, que é até ingratidão a gente não dar-lhe em cima.

Por isso, amigos, que este ano recém-nato, ao contrário do transacto, lhes chegue de fraldas limpas; e vocês tenham um milhão de coisas boas e possam ver suas pessoas num espelho mais bonito.

Que vocês tenham mais Jobim e mais Caymmi; mais paixão e menos crime; mais Zé Kéti e Opinião. E Zicartola continue sua escola com essa branquinha pachola que se chama Nara Leão.

Pois a verdade é que tudo se renova: bossa velha fica nova, o que eu acho muito bem. Só não renova quem já está com o pé na cova, quem não cria e não desova, quem não gosta de ninguém.

Que vocês tenham mais Drummond e mais Bandeira, e eles deixem de leseira e venham mais para a rua. E que Schmidt, em lugar de dar palpite, venda com mais apetite no Disco da velha Lua.

Que João Gilberto continue longe e perto, cantando pelo deserto seu canto de solidão. Canto que vende para a causa brasileira muito mais que o Bemoreira, o Rei da Voz e o Dragão.

Que a linda Astrud nos mande mais amiúde, de Nova York ou Hollywood, os ecos de sua voz; voz que faz mais por nossos pobres Cr$ do que os trustes estrangeiros que proliferam entre nós.

Que esses meninos tão bons do Cinema Novo mostrem mais ao nosso povo sua força e seu poder; e que através da mensagem de seus filmes evitem maiores crimes que inda podem acontecer.

Que a Bardotzinha volte sempre para Búzios e quando queira use e abuse dos nossos encantos mil: ou sejam os mares, os solstícios, os luares, os poentes e os madrugares que dão sopa no Brasil. Porque em matéria de exploração estrangeira, é a única verdadeira, que toma mas também dá. E que ela seja ao lado de seu Zaguri um truste que sempre dure na terra do sabiá.

Que Pixinguinha, já curado seu enfarte, nos dê mais de sua arte de sambista e de "chorão". E essa figura chamada Ciro Monteiro balance o Brasil inteiro com a voz do seu coração.

Que nasçam poemas, nasçam canções, nasçam filhos; e se terminem os exílios e se exerça mais perdão. E brotem flores das dragonas militares e não mais se assustem os lares com esses tiros de canhão. Que todos se unam, se protejam, apertem os cintos; se reúnam nos recintos com esperança brasileira. E que se dê de comer a quem não come, porque o povo passa fome: e a Fome é má conselheira...

Que o Rei Pelé faça gols por toda parte; e Di Cavalcanti, arte; e o Congresso, leis honestas. E Rubem Braga escreva crônicas lindas; e o Poder crie mais Dimas do que tem criado Gestas.

E - que diabo! - que eles voltem, meus pareceiros... Estão todos no estrangeiro. Que fazem vocês aí? Voltem depressa, venham logo para casa, que é pra gente mandar brasa ao som do Quarteto em Cy.

E finalmente que eu, pequeno mas decente, siga sempre para a frente com meu amor ao meu lado. E ela me dê no mais próximo presente, o presente de um futuro sem as dores do passado.
Vinicius de Moraes

Rota de fuga


Assim começa o livro...

Eis aí uma história dos dias de inverno no final de 1959 e início de 1960. Nesta história há erro e desejo, há amor frustrado e certa questão religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns prédios ainda se reconhecem os sinais da guerra que há dez anos dividiu a cidade. Ao fundo dá para ouvir o toque distante de um acordeão ou os sons nostálgicos de uma gaita ao entardecer, por trás de uma persiana cerrada.

Em muitas residências de Jerusalém é possível ver na parede da sala de estar o redemoinho de estrelas de Van Gogh ou a ardência de seus ciprestes, e nos pequenos quartos ainda estão estendidas esteiras de palha, e um exemplar de Iemei Tziklag ou de Doutor Jivago virado e aberto na beirada de um colchão de espuma coberto com um pedaço de tecido de motivo oriental e um monte de almofadas bordadas. Durante a noite inteira um aquecedor a querosene arde com uma chama azul. De dentro de um cartucho de obus no canto da sala cresce uma espécie de ramalhete estilizado feito de ramos de espinheiro.

No início de dezembro Shmuel Asch interrompeu seus estudos na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum trabalho. Era um rapaz corpulento, barbado, vinte e cinco anos mais ou menos, tímido, sensível, socialista, asmático, com tendência a se entusiasmar facilmente e se decepcionar logo em seguida. Tinha ombros pesados, um pescoço curto e grosso, assim como a mão, e também os dedos: grossos e curtos como se em cada um deles faltasse uma falange. De cada poro do rosto e do pescoço de Shmuel Asch irrompia sem freio um fio de barba encaracolado que lembrava lã de aço. Essa barba se estendia e se juntava ao cabelo, que era todo cacheado, e com o emaranhado de pelos do peito. De longe parecia sempre, fosse no verão ou no inverno, que ele estava todo afogueado e banhado em suor. Mas de perto, com agradável surpresa, se notava que a pele de Shmuel não exalava a acidez do suor, mas simplesmente um delicado aroma de talco de bebê. Ele num instante se embriagava com novas ideias, contanto que essas ideias viessem muito bem formuladas e implicassem numa mudança radical. Mas da mesma forma tendia a se cansar depressa, talvez por causa de um coração dilatado e também porque sofria de asma.

Com grande facilidade seus olhos se enchiam de lágrimas, e isso lhe causava constrangimento e até vergonha: ao pé de uma cerca um filhote de gato berra numa noite de inverno, talvez tenha se perdido da mãe, e esse filhote ergue para Shmuel um olhar de cortar o coração e se esfrega suavemente em sua perna, e logo os olhos de Shmuel se turvam. Ou ao final de algum filme bem mediano sobre solidão e desespero no Cinema Edison de repente se descobre que o personagem mais durão de todos é capaz, afinal de contas, de revelar a grandeza de sua alma, e logo lhe vêm as lágrimas e elas começam a sufocar‑lhe a garganta. Ao avistar na saída do Hospital Shaarei Tsedek uma mulher magra e um menino, que lhe são totalmente estranhos, parados e abraçados, ambos chorando — na mesma hora lhe vem o choro e também o arrebata.

Naquela época era comum considerar o choro uma coisa de mulher. Um homem banhado em lágrimas provocava retraimento, e até uma leve repulsa, mais ou menos como uma mulher com uma barbicha crescendo no queixo. Shmuel sentia muita vergonha dessa sua fraqueza e se esforçava muito por superá‑la, mas sem conseguir. No íntimo, ele mesmo aderia às zombarias suscitadas por sua sensibilidade, e até se resignava com o pensamento de que sua masculinidade estava um pouco prejudicada e por isso era bastante provável que sua vida fosse passar em branco e sem atingir qualquer objetivo.

sexta-feira, dezembro 28

Desespero


A crise do mercado editorial brasileiro em cinco perguntas

Livraria Cultura atrasa e depois suspende seus pagamentos. Fecha as duas lojas que tinha no Rio, outra no Recife. Fecha todas as lojas da Fnac no Brasil – pouco mais de um ano antes, ela assumiu a operação da rede francesa e o dinheiro recebido para encerrar as atividades dela no País, acreditaram editores, poderia ser usado para quitar parte das dívidas. Mas não.

Saraiva, na mesma situação da Cultura, atrasa, suspende, fecha 19 livrarias na última segunda-feira de outubro, cinco dias depois de a Cultura entrar com pedido de recuperação judicial. Os rumores de que a maior rede do País, até outubro com cerca de 100 lojas, iria pelo mesmo caminho, começou a rondar o mercado editorial. E foi o que aconteceu. Em pouco mais de um mês, as duas principais livrarias do Brasil pediram à Justiça ajuda para sobreviver – e sofreram mais um pouco para conseguir reabastecer suas lojas para o Natal (Saraiva ainda ofereceu pagamento à vista; Cultura pediu consignação; ou seja, mais crédito).

A crise protagonizada por esses dois ícones expõe um mercado acostumado com as velhas fórmulas, que tenta se manter firme desconsiderando as novas formas de consumo.


“O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos independentemente do quão forte o livro impresso seja”, diz o consultor americano Mike Shatzkin. Ele completa: “A maioria dos títulos disponíveis nas grandes lojas não são vendidos com lucro; eles estão lá para gerar tráfego. Mas, na era digital, isso não funciona mais”. O futuro da livraria pequena e média, para ele, passa pela existência de uma estrutura atacadista que simplifique a vida dos livreiros. E pela aceitação de um negócio menos lucrativo.

Shatzkin é um dos especialistas ouvidos pelo Estado na tentativa de responder a perguntas que mobilizam o setor e leitores no momento: O que está acontecendo com as livrarias? O que vai acontecer com as editoras? O audiolivro pode vingar? Afinal, o brasileiro lê e compra livro? E o que o mercado internacional pode ensinar?

Depois de anos investindo em grandes lojas que ofereciam não apenas livros, mas televisão, telefone, games, DVDs, CDs, lápis e caderno, a conta chegou para as duas principais redes de livrarias do Brasil – a Saraiva e a Cultura. Com uma dívida cada vez mais alta e sem credibilidade perante os editores, elas entraram com pedido de recuperação judicial entre outubro e novembro.

O que vai acontecer num futuro próximo ninguém é capaz de prever. Se não conseguirem cumprir com o plano de recuperação, elas quebram, deixando para trás R$ 365 milhões em dívidas apenas com as editoras, que perdem também dois grandes clientes. Sem contar que isso representaria o fechamento de quase 100 livrarias no Brasil – hoje, são cerca de 2.500 (em 2012, eram 3.481; 20 mil é o número ideal para a Unesco).

Havia esperança de que a Casa Civil gostasse do projeto lei do preço fixo, que limitaria o desconto dado a lançamentos por um determinado período – isso não resolveria a atual crise, mas colocaria as livrarias independentes no jogo. Mas ele foi rejeitado agora e as entidades do livro terão que começar a conversa do zero com o novo governo.

As pequenas livrarias vêm sofrendo nos últimos anos com a hiperconcentração do varejo, algo do qual as editoras, por sua política de desconto, também são responsáveis. “A atual crise não é só das grandes. Trata-se de um processo iniciado nos anos 1980 que conjuga a tendência econômica à hiperconcentração com o advento das novas tecnologias e as modalidades de consumo delas decorrentes”, diz Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias.

Como sair dessa? “Temos que voltar à origem – fazer o simples, o feijão com arroz na administração do negócio –, e repensar a comunicação com o cliente. Uma livraria pequena precisa se diferenciar mais do que nunca. Ela nunca poderá concorrer em preço com o comércio online. E ninguém vai comprar na livraria do bairro porque é amigo do dono. Vai comprar onde mais o convier”, responde. (leia entrevista completa: ‘Vivemos uma situação de total promiscuidade no mundo do livro’, diz Bernardo Gurbanov)

A Saraiva está tentando voltar à origem. Em comunicado, disse ao Estado que “passa a se centrar na categoria de livros, que é e sempre será sua principal área de atuação”. Segue vendendo outras coisas, mas no site.

Um cenário desolador, que coloca em xeque o modelo de negócio e faz pensar em alternativas para o futuro, mas que tem boas notícias também. A Martins Fontes Paulista, focada em livro, registrou até a véspera do Natal crescimento de 56% no faturamento em relação ao mesmo período de 2017. Alexandre Martins Fontes, que sempre teve a Cultura do Conjunto Nacional como modelo, diz que “uma livraria física deve oferecer tudo aquilo que uma livraria virtual não oferece: atendimento personalizado, ambiente aconchegante, eventos culturais, café, etc.”. A Travessa, do Rio, chega a SP e a Lisboa em 2019. E a Leitura se espalha pelo interior do Brasil, aeroportos e rodoviárias.

Com a crise da Saraiva e da Cultura, as editoras enxugaram os lançamentos de 2018 e 2019, diminuíram tiragens, demitiram. Por causa da recuperação judicial das duas, a Companhia das Letras começa o ano com menos R$ 26 mi na conta. A Record, com menos R$ 22 mi e a Sextante, com menos R$ 18 mi. Vai ser difícil, mas elas têm condição de sair dessa.

A dívida com a Dublinense (R$ 30 mil de cada uma) é muito menor, mas os efeitos podem ser mais devastadores para uma independente. “Contávamos com esse dinheiro (e também o da BookPartners, o de outras livrarias menores e distribuidores que nos calotearam e sumiram) pra cumprir os compromissos assumidos de adiantamentos, traduções e publicações. Nosso fluxo é bem justo e não tem espaço para um desfalque desse tamanho. Vamos ter que cortar na carne”, diz o editor Gustavo Faraon.

“Vimos o tsunami chegando e não nos preparamos. Há quatro anos o mercado entrou em recessão, e não fizemos nada. Tratamos esse assunto como estatística. Vimos o mercado cair 20%, o preço do livro se deteriorar, a inflação, a sociedade mudando o perfil de consumo, as livrarias pequenas desaparecendo, distribuidores indo à falência, os balanços negativos da Cultura e Saraiva, a Fnac saindo do Brasil. Os sinais estavam todos aí e preferimos não acreditar. 2018 vai ficar como um marco – mas que seja o de refundação do mercado”, diz Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) e sócio da Sextante.

Este ano ensinou que as editoras não podem se concentrar em poucos canais de venda, diz Pereira. Sônia Jardim, presidente do Grupo Record, conta que voltou a considerar a venda direta. “Precisamos de criatividade para buscar outros canais, independentes dessas livrarias”, diz. Nessa linha, Darkside e FTD acabam de lançar seus e-commerces e a JBC inaugurou a JaporamaStore na Vila Madalena. Companhia das Letras e Todavia fizeram feiras em suas sedes. A Festa da USP, onde editoras oferecem desconto de pelo menos 50%, foi um sucesso. E muitas casas estão buscando ter um marketplace em sites como o Mercado Livre.

O audiolivro tem se mostrado uma tendência nos EUA e em alguns países da Europa. Aqui, desde 2013, a Ubook tenta criar um mercado. Quando Eduardo Albano apresentou sua ideia para editores, ouviu que era melhor pensar em outra coisa. Vindo da área de tecnologia, ele não deu ouvidos. Hoje, a Ubook, serviço de assinatura de audiolivro, começa sua expansão para a América Latina e foi imprescindível para a entrada do Google no negócio aqui (antes da Amazon, que parece não ter pressa), ao fornecer seus 3 mil títulos em português à empresa, que os vende a la carte.

Não é a primeira tentativa de fazer o modelo pegar. Discos nos anos 1980, CDs nos 1990 – vendidos em livraras. “Mas a hora é agora”, acredita Andrea Fontes, do Google. A aposta é no smartphone sempre à mão e na grande adesão às plataformas de áudio.

Custa caro fazer um audiolivro – algo como R$ 800 a hora finalizada na Europa e, aqui, caminha-se para tentar ficar em 200. Se o narrador foi uma celebridade, o preço vai à altura. Só para se ter uma ideia, 21 Lições para o Século 21, de 432 páginas, dura quase 14 horas.

Como ocorreu no início do livro digital, quando algumas das principais editoras fundaram a distribuidora DLD, hoje extinta, para ter mais controle, algumas casas estão se unindo na criação de uma empresa de produção e distribuição de audiolivro – o lançamento deve ser entre abril e maio. Enquanto isso, o digital segue seu crescimento e representa algo como 7% do faturamento para a média das editorias atendidas pela Bookwire, chegando a 15% em alguns casos.

“O clima que toma conta do mercado editorial proíbe falar em otimismo, mas o fato é que, apesar de tudo, os números ainda estão favoráveis, próximos da estabilidade”, conta Ismael Borges, coordenador da Bookskan, ferramenta da Nielsen que mede a venda de livros em livrarias.

Os dados de 2018 não estão fechados, mas o resultado será positivo. Perto do zero, mas positivo. A conta não fecha pela falta de pagamento da Cultura, da Saraiva e de outras empresas em dificuldade. Borges explica que parte desse desempenho resulta de um bom primeiro semestre, seguido de meses mais difíceis.

“Teria sido um ano excepcional”, diz o sócio da Sextante, Marcos da Veiga Pereira.

“O brasileiro lê, sim – e cada vez mais. E tem uma parte do negócio, não auditada, que cresce e se torna pujante, que é da autopublicação e de novos modelos, como os serviços que assinatura”, explica Ricardo Garrido, gerente de aquisição da Amazon.

“Especialistas falam em modelo desatualizado de comercialização, velhas práticas, vícios e pouca inventividade. O mercado precisa se reinventar: a crise não é de consumo”, finaliza Borges.

Mike Shatzkin acompanha o mercado editorial americano e internacional há mais de 40 anos. As incertezas que pairam sobre as empresas brasileiras são antigas conhecidas nos EUA, que assistiram ao colapso da Borders – ela tinha cerca de 450 megastores quando quebrou, em 2011.

“Duas coisas estão acontecendo simultaneamente. Mais e mais leituras estão sendo feitas nas telas. E o que tem sido lido em papel é cada vez mais comprado online e não numa loja física. Essa mudança ocorreu por muitas razões, mas ela é inexorável e há um longo caminho até que se encontre um equilíbrio”, explica o consultor. Ele diz que isso não é ‘culpa’ de ninguém, mas que não se pode administrar uma livraria do mesmo jeito quando mais da metade das pessoas que ainda leem livros impressos não consideram ir até a sua loja para comprar um livro. E quem vai sobreviver? “Os proprietários-gestores que estiverem dispostos a ganhar menos dinheiro”, responde. “Mas o que vai acontecer depois do ‘auge’ das livrarias depende muito de existir uma infraestrutura atacadista para possibilitar a administração de uma pequena livraria”, completa. (leia o depoimento na integra: ‘O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos’, diz Mike Shatzkin.

É tempo de festas

Garry Walton

Livre-se

Acredito que quase todos os Extraordinários tenham problemas de espaço em casa no que toca à arrumação dos livros e, mesmo fazendo das tripas coração, se tenham de livrar de alguns de vez em quando, sob o risco de a casa vir abaixo… (Não estou a brincar: tenho um amigo que teve de alugar uma «box» numa arrecadação porque o senhorio lhe explicou que a casa não suportava o peso das estantes e havia perigo real de derrocada). Eu, nos últimos anos, já me libertei de bastantes livros – títulos repetidos (mesmo em edições diferentes ou de línguas diferentes), temas em que sei que não vou pegar, alguns textos que li e/ou publiquei mas não me parece que venha a revisitar. Ora, uma das plataformas que venceram em 2017 o Orçamento Participativo, e começarão agora a sua actividade, chama-se justamente LIVRAR e permite aos interessados livrarem-se dos livros que têm lá em casa e (já) não lhes interessam e trocá-los por outros (de que outros leitores se livraram pelas mesmas razões ou, por exemplo, porque herdaram dos pais e avós bibliotecas a que não sabem o que hão-de fazer). A troca faz-se no site da plataforma e é gratuita, bastando a cada pessoa registar-se para dar e receber, e o mesmo acontece com as bibliotecas que vejam interesse em renovar os seus stocks e que têm, aliás, preferência sobre os leitores individuais nos primeiros quinze dias. Assim, se tem livros para pôr à porta de casa ou no caixote do papel e cartão para reciclagem, reconsidere. Pode fazer alguém feliz e ganhar, ainda por cima, umas leituras em troca.

Planos de Verão


Em louvor do livreiro

Tomara que haja muitos livros ao pé de árvores de Natal esta noite. E que uma grande variedade deles se faça presente entre amigos, ocultos ou não. De preferência, comprados em livrarias e escolhidos com atenção e pensamentos voltados para o presenteado, seus gostos, sua personalidade. Faço votos também para que continue viva na memória de quem sai de férias a carta de amor aos livros escrita pelo editor Luiz Schwarcz, que desencadeou tantas manifestações de comovidas lembranças de leituras. Oxalá muitos e variados títulos enriqueçam momentos de lazer neste verão. E que sejam obras de boa qualidade, algo além de meros chicletes da mente — o que não impede que muitas possam ser divertidas e leves.

A crise econômica e as dificuldades gerenciais que se manifestaram na situação falimentar de nossas livrarias (21.000 fecharam em dez anos), como a Saraiva e a Cultura, chamam a atenção para a importância do livro e a fragilidade do setor no atual momento. Algo muito mais complexo do que apenas as constatações rasas — como a de que brasileiro lê pouco, preços são elevados ou a de que há efeitos de má gestão e da concorrência predatória da Amazon e de sistemas de venda direta que, ainda que úteis para pedir um título específico, não permitem tentadoras escolhas de impulso.


Mas quem ama livros a ponto de lhes escrever cartas bem que pode frequentar mais as livrarias que tenham bons livreiros. Gente que conheça o que vende e possa sugerir opções. Alguém que mostre uma ótima escolha discreta, revele um título que não é a última novidade necessariamente mais exibida, e seja capaz de apontar um tesouro sob medida para o amor literário do freguês.

De posse dessa preciosa indicação, oxalá o leitor apaixonado, autor de belas declarações públicas, considere que custa dinheiro manter esse espaço e empregos. Livraria não é showroom para depois se pedir pela internet. Assim, acaba morrendo à míngua. Nem mesmo nessa área dá para sustentar um amor numa cabana.

quarta-feira, dezembro 26

Navegando

Julio Antonio Blasco

10 clássicos da literatura que foram rejeitados

Às vezes, o sucesso leva tempo. A história da literatura também traz uma série de obras essenciais que foram inicialmente rejeitadas, títulos que causaram muitos desgostos até que seus autores conseguissem vê-los publicados. Confira nossa lista com livros que foram recusados (em alguns casos, muitas vezes) para depois conseguirem conquistar os corações de milhões de leitores que os transformaram em best-sellers.

Quando Vladimir Nabokov escreveu Lolita, o livro foi rejeitado por várias editoras que consideravam seu argumento indecoroso. Alguns viram nas páginas da obra-prima de Nabokov uma ode à pedofilia, em vez de uma ode à literatura, e foi apenas em 1955 que a editora parisiense The Olympia Press ousou publicá-la. O que aconteceu posteriormente já faz parte da história da literatura.

Stephen King colecionava cartas de rejeição recebidas de várias editoras às quais havia enviado o manuscrito de seu primeiro romance, Carrie a Estranha. Agatha Christie também demorou muito para ver sua primeira obra publicada; muitas portas foram fechadas até a publicação de O Misterioso Caso de Styles. John Kennedy Toole cometeu suicídio sem ver publicada a obra Uma Confraria de Tolos, mas o empenho de sua mãe conseguiu que o romance póstumo ganhasse o Prêmio Pulitzer e se tornasse um dos pináculos da literatura norte-americana do século XX.

André Gide rejeitou o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, o clássico de Marcel Proust. James Joyce se tornou especialista em receber nãos. Foi rejeitado várias vezes antes de ver a publicação de Dublinenses, mas também não foi nada fácil com Ulisses. Foi Sylvia Beach, proprietária da lendária livraria Shakespeare & Co., que com bom faro apostou na obra que, ao longo dos anos, tornou-se um clássico da história da literatura.

A trajetória de William Golding foi de sangue, suor e lágrimas para ver publicado O Senhor das Moscas. Embora talvez a rejeição mais cara da história tenha sido a de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Mais de uma dezena de editoras recusaram a obra de J.K. Rowling, sem intuir o sucesso que se escondia por trás da história do menino bruxo.

sexta-feira, dezembro 21

Feliz Natal



Daremos uma paradinha para desfrutar o que conseguirmos de paz, felicidade, carinho e um tantinho de leituras

Natal no iglu


Torturas de Natal

Cada vez que olho esta fotografia tenho uma espécie de susto, e penso obviedades do tipo: "Meu Deus, o tempo existe!". Tirada no Natal de 1956, ela tem - cruzes! - 34 anos. Todo Natal, era sagrado, minha mãe emperiquitava a mim e a meu irmão Cláudio com modelinhos de linho branco e odiosas meias soquete, com elásticos eternamente frouxos, que acabavam escorregando patéticos pelas canelas finas - e chamava o fotógrafo. Não era nada simples chamar um fotógrafo naquele tempo, ainda mais o "Seo Fininho". "Seo Fininho" era magro como um aspargo, branco como a polpa das peras que começavam a amadurecer no quintal. Além disso, tinha a alma delicada e era o único fotógrafo de Santiago do Boqueirão. Tão requisitado que, dizem, às vezes era chamado até para fazer fotos na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Por isso mesmo, era preciso chamá-lo às três da tarde para que aparecesse lá pelas cinco ou seis. Durante todo esse tempo, interminável para Gremlins de sete, oito anos de idade como nós - eu e Cláudio ficávamos enfatiotados e absolutamente proibidos de tocar nos brinquedos colocados ao pé da árvore. Era horrível. Sim, porque no 25 de dezembro à tarde simplesmente toda a molecada estava deitando e rolando pelas ruas da cidade com os brinquedos ganhos na véspera. E nós ali, presos naquelas armaduras de linho branco, com golas abotoadas até o pescoço.

Embora - ou por isso mesmo - tivesse apenas sete ou oito anos de idade, eu já era capaz de ódios profundos. O suor escorria por baixo do paletó (a gente dizia trajo), as meias escorregavam canelas abaixo e o ódio pelo pobre "Seo Fininho" fervia n'alma, assim mesmo com apóstrofe. Só que, fazer malcriação, nem pensar: éramos filhos de Dona Nair, a primeira das dez mais elegantes da cidade, do seu Zaél, orador oficial do Clube União Santiaguense e, como se não bastasse, netos do ex-prefeito Manuel Abreu e de Dona Zaira, diretora do Grupo Escolar Apolinário Alegre, leitora voraz de Machado de Assis. Ou seja, para nossa desgraça, tínhamos que ser finíssimos, exemplo de educação, elegância e bom-comportamento para toda a cidade. Não entendo como, mas ninguém suspeitava de nossa bandidagem, capaz de loucuras como soltar uma galinha do mezanino no Cine Imperial, em pleno suspense do seriado na matinê de domingo. O mocinho amarrado nos trilhos do trem e aquele cá-cá-cá de penas voando em todas as direções, enquanto nosso primo Beto gritava "Fogo! Fogo!'.

Nesse Natal - e olhando a foto, percebo que a árvore não era dessas de plástico de hoje, mas de pinheiro autêntico -, quando "Seo Fininho" chegou, nem eu nem Cláudio aguentávamos mais esperar. Hirtos, obedecendo às ordens de "olha o passarinho! agora, sem se mexer! não pisca, guri!” o jeito que encontrei de expressar o mau-humor foi arregalar os olhos. Meu irmão deixou cair os ombros de tanto rir. Tarde demais: "Seo Fininho" já tinha nos gravado para a posteridade.

Fico olhando os brinquedos a nossos pés. Engraçado, não lembro de quase nada, à exceção do carrinho de madeira com que transportei muita terra, fazendo cidades de areia no fundo do quintal e bonecos de barro que rachavam irremediavelmente quando colocados ao sol para secar. Na verdade, eu nem ligava muito para brinquedos. Já andava escrevendo algumas histórias, lendo Érico Veríssimo escondido, e tenho certeza que lembrava ainda do acontecido impressionante de dois anos antes. Foi no dia em que Getúlio Vargas suicidou-se, e eu perguntei a vovó, que chorava sem parar: "Vovó, o que é mesmo um presidente?" Ela respondeu: "E assim como uma espécie de pai de todo mundo". Até hoje, fiquei com isso na cabeça. A sensação de traição, naturalmente, tem sido medonha nos últimos 36 anos...

Mas, por trás das desilusões políticas, ficaram as fotos dos Natais, o presépio com casinha de papel, os galhos verdadeiros dos pinheiros, a certeza de que, naquela tarde, havia sol lá fora, e uma pergunta inquietante: o que será que a vida fez com o pobre do "Seo Fininho"?
Caio Fernando Abreu

Para grandes aventuras


Os filhos do lixo

Há quem diga que dou esperança; há quem proteste que sou pessimista. Eu digo que os maiores otimistas são aqueles que, apesar do que vivem ou observam, continuam apostando na vida, trabalhando, cultivando afetos e tendo projetos. Às vezes, porém, escrevo com dor. Como hoje.Acabo de assistir a uma reportagem sobre crianças do Brasil que vivem do lixo. Digamos que são o lixo deste país, e nós permitimos ou criamos isso. Eu mesma já vi com estes olhos gente morando junto de lixões, e crianças disputando com urubus pedaços de comida estragada para matar a fome.A reportagem era uma história de terror – mas verdadeira, nossa, deste país. Uma jovem de menos de 20 anos trazia numa carretinha feita de madeiras velhas seus três filhos, de 4, 2 e 1 ano. Chegavam ao lixão, e a maiorzinha, já treinada, saía a catar coisas úteis, sobretudo comida. Logo estavam os três comendo, e a mãe, indagada, explicou com simplicidade: "A gente tem de sobreviver, né?". O relato dessa quase adolescente e o de outras eram parecidos: todas com filhos pequenos, duas novamente grávidas e, como diziam, vivendo a sua sina – como sua mãe, e sua avó, antes delas. Uma chorou, dizendo que tinha estudado até a 8ª série, mas então precisou ajudar em casa e foi catar lixo, como outras mulheres da família. "Minha sina", repetiu, e olhou a filha que amamentava. "E essa aí?", perguntou a jornalista. "Essa aí, bom, depende, tomara que não, mas Deus é quem sabe. Se Ele quiser..."Os diálogos foram mais ou menos assim; repito de memória, não gravei. Mas gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo. Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha de lixo. 

Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso. Não sei como é possível alguém dizer que este país vai bem enquanto esses fatos, e outros semelhantes, acontecem. Pois, sendo na nossa pátria, não importa em que recanto for, tudo nos diz respeito, como nos dizem respeito a malandragem e a roubalheira, a mentira e a impunidade e o falso ufanismo. Ouvimos a toda hora que nunca o país esteve tão bem. Até que em algumas coisas, talvez muitas, melhoramos. Temos vacinas. Existem hospitais e ensino públicos – ainda que atrasados e ruins. Temos alguns benefícios, como aposentadoria – embora miserável –, e estabilidade econômica aparente. Andamos um pouco mais bem equipados do que 100 anos atrás.Mas quem somos, afinal? Que país somos, que gente nos tornamos, se vemos tudo isso e continuamos comendo, bebendo, trabalhando e estudando como se nem fosse conosco? Deve ser o nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo esse lixo moral e fingindo que está tudo bem. Pois, se nos convencermos de que isso acontece no nosso meio, no nosso país, talvez na nossa cidade, e nos sentirmos parte disso, responsáveis por isso, o que se poderia fazer?Pelo menos, reclamar. Achar que nem tudo está maravilhoso. Procurar eleger pessoas de bem, interessadas, que cuidassem dos lixões, dos pobrezinhos, da saúde pública, dos leitos que faltam aos milhares, dos colégios desprovidos, de tudo isso que cansativa mas incansavelmente tantos de nós têm dito e escrito. Que pelo menos a gente saiba e, em vez de disfarçar, espalhe. Não para criar hostilidade e desordem, mas para mudar um pouquinho essa mentalidade. Nunca mais crianças brasileiras sendo filhas do lixo, nem mães dizendo que aquela é a sua sina, porque Deus quer assim.

Deus não quer assim. Os deuses não inventaram a indiferença, a crueldade, o mal causado pelo homem. Nem mandaram desviar o olhar para não ver o menino metendo avidamente na boca restos de um bolo mofado, talvez sua única refeição do dia. E, naquele instante, a câmera captou sua irmãzinha num grande sorriso inocente atrás de um par de óculos cor-de-rosa que acabara de encontrar: e assim se iluminou por um breve instante aquela imensa, trágica realidade.

Lya Luft

quinta-feira, dezembro 20

Casa na floresta


Marguerite e François

Às vezes descobrem-se coisas bem interessantes no Facebook – e foi completamente por acaso que dei com um vídeo belíssimo de meados dos anos 1960, no qual a grande escritora francesa Marguerite Duras entrevista o pequeno François, de 7 ou 8 anos, e este lhe dá respostas fascinantes. Era uma época em que a televisão ganhava terreno aos livros e já se preocupavam os intelectuais com o que poderia acontecer à cultura com o protagonismo alcançado em tão pouco tempo pela «caixa mágica». Mas, quando Duras pergunta a François, que é extremamente sério e expressivo, se ele prefere ler uma história ou ouvi-la na televisão,o rapazinho é categórico: lê-la. E porquê? Justamente porque, ao ler, ele é parte activa, faz parte integrante do projecto, e não sujeito passivo, como acontece quando é meramente um espectador e ouve alguém contar-lhe uma história. Este pequeno François deve ter hoje a minha idade – e deve estar, como eu, a perguntar-se por que raio tanta gente hoje prefere exactamente o contrário, ficar parado, quieto, à espera que os outros lhe dêem tudo feito… Um vídeo extremamente actual: basta substituir a televisão pelas novas tecnologias, e é tudo verdade. Deixo-vos o link: http://www.ina.fr/video/CPF07003784

Uma leitora no telhado

Karen Holmes

Ontem voltei a ser feliz

Ontem jantei com uma mulher muito atraente. E nova. Mais ou menos trinta anos, loira natural, olhos verdes, uma pele e um sorriso lindos, boa figura

(cerca de um metro e setenta)

bem vestida, inteligente, com imensa graça, médica e tudo. E, por cima disto, um pai infinitamente sedutor: eu. A certa altura ela

(Chama-se Isabel, queria chamar-lhe Eva em homenagem à minha avó germânica mas a minha mãe tirou-me logo as peneiras com uma simples pergunta

– E se ela for feia?

porque, de facto, Eva e feia são duas coisas que não se aguentam bem juntas, de modo que mudei logo para Isabel)

Susa Monteiro
a certa altura do jantar a Isabel começou a recordar-se de quando, em pequena, eu a levava ao Hospital Miguel Bombarda tal como o meu pai, éramos nós miúdos, nos levava também, e por ali andávamos com ele numa mistura de espanto e medo. Quer o meu pai quer eu gostámos imenso de trabalhar naquele sítio. As pessoas internadas fascinavam-me, aprendi o mais importante da vida com elas, com a sua criatividade, o seu humor, o seu sofrimento. A Isabel, então com cinco ou seis anos, lembrava-se de uma série de vinhetas extraordinárias. Por exemplo do doente

(classificavam-nos como doentes)

e orelha pegada a uma parede, à escuta, na careta franzida de quem espera ouvir. À nossa frente caminhava um enfermeiro a quem o doente pediu que encostasse também a orelha. O enfermeiro encostou, desencostou, disse ao doente

– Não ouvi nada


foi-se embora e ele para mim, apontando a parede, resignado

– Anda há horas nisto.

E continuou atento, imóvel, aguardando, porque aquilo, pensando bem, não era um hospital mas a Alice no País das Maravilhas a sério. Recordo-me da senhora que em lugar de

– Bom dia

me saudava

– Cri cri cri foguete

que me parece muito mais apropriado, ou do pintor francês que quando o meu pai lhe perguntou se tinha filhos respondeu indignado


– Não senhor doutor eu não fabrico cadáveres

ou da velhota grávida do Menino Jesus, sempre a tricotar casaquinhos de malha para a Divina Criança, ou do homem

(acho que já falei nele)

que me transmitiu, numa simples frase, a técnica da criação artística, que ainda hoje utilizo, ao informar-me

– Sabe, o mundo começou a ser feito por detrás

o que me ajudou a resolver, de golpe, uma série de dificuldades, ou do Valdemiro, que me ensinou a voar

– Cuidado com os ramos mais altos ou do sujeito que ligou para a Urgência declarando

– Daqui a meia hora estou aí para matar o chefe de equipa

bem vestido, bem penteado, de gravata e pistola na mão, disse-lhe

– Mate-me mas primeiro sente-se ao meu colo um bocadinho

e sentou-se de pistola na mão, e depois abraçou-me, e depois desatou a chorar porque a vida não é verdade, porque a vida senhor doutor, porque a vida, porque a vida, porque a vida, o enfermeiro pegou na pistola

– Isto tem mesmo balas sabia?

comigo cheínho de vontade de chorar por ele também. Meu Deus o que as pessoas sofrem, somos todos tão frágeis, tão à mercê de tudo, estamos tantas vezes tão infinitamente sós. No Hospital Miguel Bombarda, onde o professor Miguel Bombarda foi assassinado a tiro, ele, agonizante, impediu que matassem o seu assassino ordenando

– Deixem-no, é um pobre

e, de facto, somos todos tão pobres, estamos todos, tantas vezes, tão sós. Felizmente resta a esperança que as paredes, mesmo apesar de andarem há horas nisto, nos coloquem a palma no joelho e garantam, numa ternura que nos anima de novo

– Descanse que daqui a nada elas conversam consigo.

quarta-feira, dezembro 19

A escada


Replicar

Todos falamos com saudade das velhinhas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que corriam o País de norte a sul com uma selecção de livros para todas as idades e paravam sobretudo em locais em que o acesso ao livro era difícil e não havia livrarias num raio de quilómetros. Conheço muitos excelentes leitores que se formaram com livros escolhidos nessas bibliotecas – o conhecido romancista José Luís Peixoto, por exemplo, conta sempre como a biblioteca itinerante foi importante para ele durante as suas infância e adolescência passadas em Galveias, no Alentejo. Mas, ao contrário do que poderíamos pensar, a ideia ainda não morreu completamente (passe o paradoxo): depois da tragédia dos incêndios, e em nome do Fundo de Apoio às Populações e à Revitalização das Áreas Afetadas, a Fundação Calouste Gulbenkian entregou ao Município da Sertã uma carrinha completamente adaptada aos serviços de biblioteca que, já no início do próximo ano, começará a visitar cerca de 240 lugares isolados ou cujos habitantes têm mobilidade reduzida, para distribuir livros e revistas, replicando a velhinha ideia que pôs em prática noutros tempos. A carrinha executará também outros serviços, como fazer fotocópias, dar acesso à Internet, preencher formulários, etc. Nunca é demasiado tarde para replicar uma boa ideia. Agradeça-se à Fundação.
Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, dezembro 18

Magia dos livros

Lee Kow Fong

O encontro

Nem lembram mais se era dia,
Se noite, num restaurante,
Ou se entre uma e outra estante
De alguma (e qual?) livraria.

No topo do mundo

Alberto Ghiradello

Cartinha para a Noel

Querida, @ppNoel

Primeiramente, quero deixar claro que sei que você é uma mulher disfarçada. Achei a ideia fantástica, apesar de já ter sido usada pela J. K. Rowling. Mas, a barba postiça, o vermelho ton sur ton, as botas combinado com o cinto, francamente, muito na cara.

Segundamente, preciso explicar que encontrei o seu zap zap no grupo da família que é administrado pela tia Dorila. Logo, se houver alguma represália, que seja direcionada a ela, que, aliás, nunca deu presente de natal pra ninguém e nem contribui pra ceia.

Este ano, especialmente este ano, garanto que me comportei direitinho, que não fui teimoso tampouco desobediente. Respeitei os mais velhos, fiz boas ações, entreguei minhas tarefas nos prazos. Paguei minhas contas em dia e até guardei dinheiro. É verdade esta cartinha.

Muitos dizem que você não existe. Que não teria como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Não se esquecer de nenhum pedido. Julgar nossas ações durante o ano inteiro. Dirigir o trenó, carregar o saco, organizar os presentes por nome, lembrar os endereços, alimentar as renas, confirmar o estoque com a fábrica de brinquedos e controlar, pessoalmente, todas as entregas. Simples. É uma mulher!

Só pra informar, @ppNoel, seu perfil nas redes sociais foi achincalhado. Está hoje com menos seguidores que o do Coelhinho da Páscoa, perde inclusive para o da Fada do Dente. Já tem um grupo de ativistas com projeto de passar o Halloween para 25 de dezembro. Do jeito que marcham as coisas, sugiro trocar a roupa encarnada por um traje verde e amarelo e substituir a bengala por uma sete meia cinco.

Agora, sem mais rodeios, @ppNoel, vou direto ao ponto. Não é uma reclamação, veja bem, mas lembra daquele meu pedido de quando eu era criança? Não a primeira opção, a segunda, lembra? Aquilo que se não desse pra ser a primeira coisa podia ser a outra mesmo, lembra? Pois é, nunca, nunquinha, nem aquilo, nem aquilo outro. Esse ano pode ser qualquer uma das duas de novo, tá?

Carinho, T. Maria.

segunda-feira, dezembro 17

Pássaros


O livro desconhecido

 Oldřich Jelen
Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e de súbito, a uma frase lida, com lágimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfm libertação: "Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!"
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"

A biblioteca


O largo

Visto da janela onde me encontro, é um terreno nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia - é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastrando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. A tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam.
José Cardoso Pires

domingo, dezembro 16

Labirinto


O mistério da escrita

A parte desconhecida da minha vida é a minha vida escrita. Morrerei sem conhecer essa parte desconhecida. Como foi escrito isto, porquê, como o escrevi, não sei, não sei como isto começou. Não se pode explicar. Donde vêm certos livros? A página está vazia e, de repente, já há trezentas páginas. Donde vem isto? É preciso deixar andar, quando se escreve, não devemos controlar-nos, é preciso deixar andar, porque não sabemos tudo de nós próprios. Não sabemos o que somos capazes de escrever.

Conheci grandes escritores que nunca conseguiram falar disso – conheci Maurice Blanchot e Georges Bataille intimamente, conheci Genet, creio que menos. Eles nunca sabiam, nunca falavam disso. Penso que é errado, aliás. Há trinta anos, era uma espécie de pudor aprendido, em parte, na escola sartriana, não se podia falar daquilo que se escrevia, não era decente – e penso que em Les Parleuses é a primeira vez que alguém fala disso, pelo menos uma das primeiras vezes. É bom falar disso e, ao mesmo tempo, é muito perigoso dar a ler textos antes de estarem terminados.

(…) Após o final de cada livro é o fim do mundo inteiro, é sempre assim, de cada vez. E depois tudo recomeça, como a vida.

Quando se escreve, não se pode falar em vez de escrever. O que se passa quando se escreve, nunca se pode dizer. Eu consigo ler uma passagem, mas depressa fico assustada.

Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.
Marguerite Duras, "Mundo Exterior"

sábado, dezembro 15

Trono da leitura

Selin Tahtakılıç

Crise na cultura do livro

O livro vem se defrontando com mudanças nos costumes relativos ao modo e à forma como entra na vida das pessoas. A crise que agora se menciona é a do livro-mercadoria e não a do livro enquanto instrumento de difusão da cultura, embora este dependa daquela. Justamente por isso, seu fulcro está nas grandes livrarias, as que mais se afastam das tradições relativas ao seu lugar na disseminação social da cultura letrada. O que se dá na medida em que se distanciam da sociabilidade comunitária em que o livro floresceu entre nós.

Os impasses desses estabelecimentos, tudo indica, estão de algum modo relacionados com uma fratura cultural no que é e no que significa o livro para a imensa maioria dos seus leitores. Apostam mais no comprador do que no leitor.


As grandes livrarias procuram criar uma nova cultura do livro e da leitura. Mudanças culturais, porém, tendem a ser lentas, seu ritmo descompassado com as noções de investimento e de lucro. O lucro tem pressa, e essa tem sido a função desagregadora que desempenha em todos os âmbitos que captura. Quase sempre, desorganiza depressa o que é tradicional e costumeiro e menos depressa dá sentido a condutas substitutivas.

Com características de supermercado, essas livrarias eliminaram aspectos importantes e arraigados da sociabilidade do livro. É claro que o surgimento de outros meios e instrumentos de difusão do livro tem seu papel na crise atual. Caso dos livros acessados eletronicamente, lidos em tablets. É o caso das livrarias virtuais, por meio das quais o leitor pode encontrar facilmente o livro que busca e recebê-lo em casa. Um elo importante da cultura do livro está sendo enfraquecido, a livraria.

Aparentemente, as inovações na difusão e no comércio de livros os reduziram a equivalentes de bem de consumo. Quando o livro é, na verdade, bem de uso, com uma durabilidade que não se confunde com a do que é consumível. Não é simplesmente produto, é obra, que com o sociólogo Henri Lefebvre, podemos assim definir para diferençá-lo enquanto meio de expressão da dimensão monumental da vida social, a do saber.

Escolher um livro numa livraria não é a mesma coisa que escolher um pacote de bolachas num supermercado. Quem compra um livro tem acesso ao seu conteúdo imaterial e não apenas acesso a mera embalagem do saber, com volume e preço. Leitores por seu meio conversam em silêncio com os autores. Muitos, como eu, anotam à margem do livro ou sublinham trechos do diálogo imaginário entre leitor e autor.

Esse tipo de relação pede o tempo lento da reflexão, antes da aquisição do livro, o exame cuidadoso da quarta capa, da orelha, do índice, até do confronto das diferentes edições do livro disponíveis na livraria. Filas, afobações, barulho, congestionamento de pessoas diante de uma estante ou do caixa não são componentes dessa cultura do livro. Em nome do primado do lucro, na nova cultura das grandes livrarias, há excesso de economia e falta de poesia e de antropologia.

Em vários países do mundo, livrarias imensas deixam de ser interessantes para os aficionados ou mesmo carentes da leitura. Não que não haja lugar para as grandes livrarias. A Foyles, de Londres, uma das maiores livrarias do mundo, conseguiu manter a sociabilidade de pequena livraria na imensidão de seus vários andares. Aqui mesmo, em São Paulo, a Cultura da Paulista não tem o encanto da Cultura do Villa-Lobos, que é uma livraria sem congestionamentos, com um ar intimista e atendentes cultos, capazes de trocar ideias sobre livros, sem pressa, com os clientes-leitores. O mesmo se dá na Livraria da Vila, da alameda Lorena, em São Paulo.

A livraria, enquanto lugar de encontro do leitor com o livro e não simplesmente como lugar de compra de livros, ainda sobrevive nas livrarias de nossas editoras universitárias, como um convite à leitura e ao saber. Em São Paulo, na Livraria da Edusp, na Cidade Universitária, uma extensão da casa e da sala de aula; na Livraria da Unesp, na praça da Sé, no mesmo prédio que foi da editora de Monteiro Lobato.

Nesse sentido, não se pode deixar de valorizar livrarias como a Francesa, na rua Barão de Itapetininga, o recanto culto que Paul Montéil criou para a difusão do livro francês, como uma extensão da casa do leitor e da universidade.

Do mesmo gênero, é a Livraria Alpharrabio, da poetisa Dalila Telles Veras, na rua Eduardo Monteiro, em Santo André. Lugar de encontro de autores e leitores, uma sala de estar para conversas literárias, um cafezinho. Até mesmo um pequeno auditório em que sempre há lançamentos, palestras e debates. Ali, mora o espírito do livro. Onde Zélia Gattai, cuja família era de São Caetano, falou e inaugurou um monumento a Jorge Amado.

José de Souza Martins

sexta-feira, dezembro 14

Nave noturna

Nini Alaska

Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.
Lygia Fagundes Telles

quinta-feira, dezembro 13

Dica de passeio


Uma história muito curta

Certa noite quente, em Pádua, carregaram-no para cima do telhado para que ele pudesse olhar a cidade de cima. Depois de algum tempo começou a escurecer, e os holofotes apareceram . Os outros desceram e levaram as garrafas. Ele e Luz podiam ouvi-los no balcão, embaixo. Luz estava sentada na cama. Estava calma e fresca na noite quente. 

Luz ficara no turno da noite três meses a fio. Deixaram-na, satisfeitos. Quando a operaram, Luz o preparou para a mesa de operação, e fizeram piadas a respeito de amigos ou enemas. Ele se deixaria anestesiar, mas procurava controlar-se para não dizer bobagens durante o período de tolice e falação. Depois que começara a usar muletas, costumava tirar as temperaturas para que Luz não precisasse sair da cama. Eram só uns poucos pacientes, e todos sabiam do caso. Todos gostavam de Luz. Enquanto ele caminhava pelos corredores, pensava em Luz em sua cama.

Antes de voltar para a frente, foram ao Duomo e rezaram. Estava escuro e calmo, e havia outras pessoas a rezar. Queriam casar-se, mas não havia tempo para os proclamas, e nenhum dos dois tinha certidão de nascimento. Sentiam-se como se fosssem casados e queriam que todos o soubessem, a fim de estarem comprometidos.

Luz escreveu-lhe muitas cartas que ele só veio a receber após o armistício. Quinze cartas chegaram à frente num maço que ele arrumou por ordem cronológica e leu ponta a ponta. Eram todas sobre o hospital, e como o amava e como era impossível viver sem ele e como sentia terrivelmente a falta dele todas as noites.

Depois do armistício, combinaram que ele deveria voltar para casa e arrumar um emprego, a fim de que pudessem casar. Luz não iria ter com ele até que tivesse um bom emprego e pudesse ir a Nova Iorque esperá-la. Ficou acertado que não beberia, e ele não queria rever os amigos, nem ninguém mais nos Estados Unidos. Apenas arranjar um emprego e casar. No trem de Pádua para Milão, brigaram por não estar ela disposta a voltar imediatamente. Quando tiveram de dizer adeus na estação de Milão, beijaram-se, mas isso não terminou a briga. Ele ficou doente por dizer adeus daquele jeito.

Voltou para a América de navio, partindo de Gênova. Luz retornou a Pordonone para abrir um hospital. Chovia muito, e era muito solitário lá, e havia um batalhão de arditi aquartelado na cidade. Vivendo naquela cidade lamacenta e chuvosa no inverno, o major do batalhão fazia amor com Luz, e ela, que jamais havia conhecido italianos antes, finalmente escreveu para a América dizendo que o que houvera entre eles fora um caso de garotos. Sentia muito, e sabia que ele provavelmente não compreenderia, mas um dia talvez a perdoasse, e lhe fosse grato, e ela esperava, de modo absolutamente inesperado, casar-se na primavera. Amava-o como sempre, mas compreendia agora que fora apenas um amor de criança. Esperava que tivesse uma bela carreira, e tinha absoluta confiança nele. Sabia que era melhor assim.

O major não se casou com ela na primavera, nem nunca mais. Luz jamais recebeu uma resposta à sua carta para Chicago sobre o caso. Pouco tempo depois, Nick apanhou gonorréia de caixeirinha de uma loja de departamentos enquanto viajavam , num táxi, através de Lincoln Park.

Ernest Hemingway

Leitura sob chuva


Assim começa o livro...

1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia dezasseis de Junho de mil novecentos e onze. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse ano esquecido de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar desde o princípio.

2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes estão não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegada à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aproveitaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se tinha transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de «o nosso sapinho capenga»; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes.

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas. 

quarta-feira, dezembro 12

Leitor do Oriente

Dani Montero Galán

A turma

Eu também já tive turma, ou melhor, fiz parte de turma e sei como é importante em certa idade essa entidade, a turma.

A gente é um ser racional, menos quando em turma. Existe, por exemplo, alguma razão para um grupo de pessoas sentar todo dia numa escadaria ou meio-fio e passar horas conversando?

Esraa Hedary
Você pode falar a um filho, por exemplo, que refrigerantes engordam e chocolates dão mais espinhas em quem já tá na idade das espinhas. Ele nem ouvirá. Mas, se um dia a turma resolver, ele passará a tomar só água com limão e pegará nojo de chocolate.

Você pode falar que cabelo tão comprido é incômodo, calorento, atrapalha, mas que nada, ele te pedirá dinheiro para comprar mais xampu. Agora, se a turma resolver cortar careca, ele aparecerá de repente careca no café da manhã e nem quererá falar do assunto - qual problemas em cortar careca?

Você pode dizer que bossa nova é bom, e mostrar jornais e revistas, provar que só "Garota de Ipanema" já recebeu centenas de gravações em todo o mundo, mas ele aumentará o volume do rock pauleira ou da tecno-bost. Até o dia em que alguém da turma aparece com um CD de bossa nova e ele troca Axel Rose por Tom Jobim de um dia para o outro.

A turma tem modas, como quando resolvem todos arregaçar as barras das calças, que usavam arrastando pelo chão.

A turma tem traumas, como quando o namoradinho de uma se apaixona pela namoradinha de outro e...
A turma tem linguagem própria, uma variante local de um ramal regional da vertente adolescente da língua.

A turma adora sentar na calçada e na praça e falar sobre o que viram em casa na televisão.

A turma tem duplas de amigos e amigas mais chegados, e trios, e quartetos, que num grande minueto anarquista se misturam nas festas de aniversário.

Ninguém da turma dança até que alguém da turma começa a dançar, aí dançam todos trocando de par até acabarem dançando todos juntos como turma que são.

Um da turma se tatua, todos da turma querem se tatuar.

Um bota uma argola no nariz, os outros, para variar, botam no lábio, na sobrancelha e na orelha e...

A turma é isso aí, cara, uma reunião diária de espinhas e inquietações, habilidades e temperamentos, o barulho das personalidades se misturando, o jogo das informações e dos sentimentos rolando nas conversas sem fim, nas andanças sem cansaço, nas músicas compartilhadas, no refri com três canudos e uma empadinha pra quatro.

Na turma pouco dá pra todos, todo mundo divide, cada um contribui, a turma se une partilhando e repartindo.

A turma ri como só na turma se ri.

A turma julga quando erramos.

A turma castiga com silêncio e ironias.

A turma te chama, te reprime, te libera, te revela, te rebela, te maltrata, te orgulha, te ama e te envolve, te afasta e te atrai, mas a turma é assim porque a turma é a turma.

Até o dia em que - disse a todos os meus filhos - cansamos de ter turma e passamos a ser gente. E todos me disseram que sou um chato, mas o primogênito hoje já concorda: o tempo da turma passa.

Mas, aqui entre nós, como dá saudade!
Domingos Pellegrini. "Ladrão que rouba ladrão"