domingo, janeiro 31

Leitura no parque

 

Onnalee Graham

O parto próximo



Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.
Alberto Caeiro


A noite passada, a chuva foi tanta que a estrada desapareceu. De madrugada, saí da tenda, avaliei os danos e, ao deparar com a viatura afundada na lama, pensei que o melhor seria aproximar-me do rio, atravessando sozinho e a pé a densa floresta cuja largura eu desconhecia. Quem sabe um pescador me conduzisse até à vila? Com as chuvas ininterruptas, o rio tinha galgado os antigos limites e era difícil saber o que era margem e o que era leito. Nas florestas espessas, onde não se enxerga senão sombras, os rios descobrem-se pelo céu. Sobre as nossas cabeças abre-se um sulco torto de luz? Pois, é por baixo desses sulcos que se enroscam os cursos de água

Imaginei pelo limite das copas que aquele chão onde afundava os meus passos seria a antiga orla do rio. Na terra lodosa, depositei a minha bagagem e sentei-me sobre a caixa dos víveres. Contemplei a floresta e pensei: não havia melhor lugar para esperar. Mesmo que fosse para esperar por coisa nenhuma. Pouco me importava o tempo: eu ansiava esquecer o mundo, exilar-me da cidade, emigrar de mim. Eu sofria da fome do longe, mas a minha verdadeira doença era o antecipado tédio de haver um destino.



De súbito, uma silenciosa sombra despertou a minha entorpecida vigília. Uma canoa surgia lá ao fundo, ainda sem forma. Era apenas um sobressalto na luz que nascia das águas. Pedi ao homem do barco que me levasse rio acima. Ele mediu os meus pertences enquanto usava o remo para avaliar o espaço disponível na canoa. Com um menear de cabeça mandou que eu tomasse lugar na embarcação. Lentamente, fomos subindo o rio. A corrente era forte e, durante horas, a quilha rasgando as águas foi o único ruído que se escutou. O barqueiro recusou a minha ajuda. Argumentou que o rio estava habituado ao seu jeito de remar. E não voltou a pronunciar palavra

Ao princípio da tarde, encostou a canoa à margem e ajudou-me a retirar a minha bagagem. Apercebi-me de que iríamos pernoitar naquela clareira. O homem deu-me a beber um líquido escuro. Acreditei ser uma infusão, dessas que se usam para enganar a fome e o cansaço. É chá, tranquilizou-me, reparando na demora em levar a chávena aos lábios. Chá de quê?, perguntei. O pescador rodopiou a mão em frente do rosto e explicou: era dessas plantas que crescem junto ao leito. Não precisava de sair da embarcação para recolhê-las, não precisava da terra firme para fazê-las ferver.

– O gosto não é bom – avisou-me. – Mas ajuda a adormecer. O senhor vai-se deitar aqui, mas vai dormir muito longe.
– Longe?
– Onde nascem os rios.


Nessa noite, fui assaltado por sonhos estranhos. Primeiro, vi-me a ficar desencarnado, como se os ossos estivessem a apartar-se do corpo. E pensei: Estou a ser devorado pelo meu esqueleto. Tudo aquilo, porém, sucedia sem dor, sem sobressalto. Sacudia os braços e a carne tombava como uma flor que se liberta das pétalas. Quando dei por mim estava em osso vivo, apenas a cabeça permanecia intacta. A noite em meu redor era tão escura e espessa como a infusão que me fora dada a beber. Apenas percebi que chovia ao escutar as gotas tombando sobre as pedras do rio. Aos poucos, reparei que me regressava o corpo. A chuva preenchia-me, todo eu era uma insaciável raiz. Sobre a pele, a água não escorria. Os meus poros absorviam os pingos de chuva, cada gotícula empreendendo um lento regresso.
Acordei, o barqueiro já preparava a embarcação. Espreguicei-me, passei água pelo rosto.

– Morri esta noite – confessei ao meu companheiro de viagem, esfregando os joelhos.
– Fico feliz – comentou ele, sorrindo.
Sentia realmente que não tinha acordado: eu tinha nascido pela segunda vez, o meu corpo parecia estranhar a minha presença.

– Doem-me os ossos – queixei-me enquanto me sentava no ventre da canoa.
– Os nossos ossos não são nossos – corrigiu o barqueiro. – Pertencem aos parentes que já faleceram. Entregam-nos de noite. E levam-nos na noite seguinte.
– Não devia ter bebido o seu chá – confessei, arrependido. – Não imagina o sonho que tive esta noite.
– Ninguém tem sonhos, meu amigo. Os sonhos andam, como aves, à procura do sonhador.

Olhei por entre a copa das árvores e magoou-me a luz naquela pequena fresta de céu.

– Chegamos à vila ainda hoje? – quis saber.
– Qual vila? – perguntou o homem.
– Bom… quero dizer, à vila mais próxima.
– Aqui não há nenhuma povoação, meu amigo. Há anos que vivo neste rio. Trouxe o senhor comigo porque já não me lembrava de como era ser gente.
– Deixe-me então onde me encontrou – proferi. E era mais uma ordem do que um pedido.


O homem sorriu. E permaneceu silencioso, remando sem qualquer esforço, como se os remos fossem feitos de água. Um pouco depois, parou e pediu-me que me pusesse de pé.

– Abrace-me – pediu.Hesitei. Mas, depois, deixei-me envolver pelos seus longos braços. Aos poucos, fui estreitando aquele corpo de encontro a mim. Até que senti os remos resvalarem-me dos dedos. E quando me soltei do abraço vi que estava sozinho no barco. E não havia bagagem nenhuma. Apenas eu, o ventre do barco e um rio escorrendo eternamente dentro de mim.

Árvore da felicidade

 


Domingo

Richard Diebenkorn,
Um dia sem jornais é como um domingo chuvoso. Há tempo para tudo, mas a chuva estraga. Há tempo ao longo da rua, tempo de telefone e presença, mas falta a profundidade de um sol. Em que mundo estamos? Não sabemos. Uma bomba pode ter modificado o mapa da Ásia. E não sabemos. Falta-me um terremoto sem grandes consequências ali no Alasca ou mais ao norte. Coleciono fugitivos de Berlim Oriental; mas hoje a minha coleção está desfalcada. Preciso tomar conta do mundo, preciso estar em contato, preciso acompanhar Ira de Fürstenberg, Brigitte Bardot e Pelé pelas estradas da atualidade. Sou amigo íntimo dos satélites artificiais. Nada acontece dentro ou fora deles que não me seja imediatamente comunicado. E também acompanho desde o embrião as novas armas que tentarão, com estrondo, raptar a paz que está nas mãos dos nossos inimigos. Em São Domingos morro e não me avisam: o rádio grita informações sintéticas, mas eu quero detalhes. Quero saber com quantos furos na blusa me derrubaram. Quero saber se alguma esquiva amada me chora ou se a polícia política conhece a minha ficha. Quero ver a radiofoto. Quero estudar palavra a palavra as declarações do Papa, a fim de me livrar das interpretações oportunistas. Arre! Que fome de dados! E que hábil pescador de emoções, aventura que os computadores eletrônicos desconhecem! O meu domingo é pobre, chove no mar, e os cinemas só exibem filmes que já vimos.

Como estará a coisa lá bas? Quantos morreram no último desastre da Leopoldina? Quantas crianças foram raptadas ontem? Pois o Rio de Janeiro é o único lugar do mundo em que o sequestro de crianças não passa de rotina. Então é preciso ler o jornal, a informação seca: duas colunas, nenhum destaque especial. Acompanhamos o acontecimento e estudamos a maneira como é noticiado. Desastre ferroviário e sequestro, assalto à mão armada e atropelamento fatal são informações banais. Como se a morte dos homens e o desamparo das crianças obedecessem a uma ordem burocrática. Em breve as calamidades serão publicadas no Diário Oficial. E ninguém tomará conhecimento, como é normal.
Jose Carlos Oliveira, "A revolução das bonecas"

sexta-feira, janeiro 29

'Pirata' sabe para aonde ir

 


No internato

A primeira noite no internato não dormiu bem. A mangueira lá fora sob a claridade da lua projetava com os galhos figuras estranhas na parede do dormitório. A chuva que caiu forte fez barulho no telhado. O vento uivou por entre a folhagem da mangueira. Os ruídos que chegavam de fora entravam no dormitório pelas gretas da janela. Teve medo. A noite tremia dentro dele com sombras e rumores. Que seria o mundo para ele dali para frente?

Levava consigo as lembranças que cada um carregava de sua cidade para onde fosse: gestos, gostos, cores, bichos, sustos esplêndidos, risos com os amigos, pois era assim que respirava o dia na aventura da vida, lá no chão de seu nascimento, portando a flor do sol acesa no peito nu pelas ruas da fantasia e alegria. Recordou mergulhos e pescarias que fazia com a turma de amigos no rio de vertentes puras e claríssimas, o vaivém do jogo de bola nos campinhos improvisados dos terrenos baldios e o roubo constante de frutas maduras nos quintais espalhados pela sua cidade amada, que de tão enlameada com a chuva grossa de inverno sujava os sapatos dos seus habitantes, atolava os carros na rua.

Houve naquela primeira noite do internato sombras que envolviam um pássaro com a plumagem do temor. Um pássaro que de repente se sentiu aprisionado, em vão tentara se libertar para voltar à paisagem da terra natal, no espaço sem voo ficava dando agora com as asas de encontro às paredes da gaiola. Sentia que o calendário reservado pelo tempo para ele era agora diferente, descortinava no caminho comprido só estudo, disciplina e reza. Atrás, na sua pequena cidade, o tempo se encarregaria de esfumar todas as manhãs do mundo tecidas nos eternos fios do sonho, com as brincadeiras pontilhadas na aventura feita com delícia e liberdade.

Não mais o tempo se apresentaria com suas mil línguas de chuva para arejar o dia com o cheiro cheiroso de terra molhada, nem daria uma sensação especial quando o sol resvalasse nos seres e coisas com o brilho de sua flor gigantesca aberta no céu. Não mais saberia do convite que o tempo costumava fazer para correr e ampliar-se na ciclagem de prazer que o coração nutria em si mesmo, em pulsações generosas, que pareciam não ter término.

Cyro de Mattos

Hora do café... na rua

 

Marek Kalhous 

Visão

ao artista genial, Hermann Bahr
Enquanto enrolo mecanicamente um novo cigarro e os granizos marrons ontilham com suavidade o mata-borrão amarelado da pasta de papéis, começo a achar improvável estar desperto. E enquanto a brisa úmida e quente do anoitecer entra pela janela aberta ao meu lado formando extraordinárias nuvenzinhas de fumaça e as carrega do reino do abajur de cúpula verde para o escuro opaco, convenço-me de que já estou sonhando.

Eis que a situação fica muito grave, pois tal ideia solta os cabrestos da fantasia. Misteriosamente o encosto da cadeira estala atrás de mim e um arrepio tão súbito quanto açodado eletriza todos os meus nervos. 
Perturba meu estudo profundo das bizarras letras de fumaça que vagueiam ao redor e sobre as quais estava quase decidido a escrever um compêndio.

Mas agora o sossego foi para os diabos. Agitação alucinante de todos os sentidos. Febril, nervosa, maluca. Cada som, um berro. E o esquecido aflora mesclado em meio à confusão. Aquilo outrora gravado estranhamente na visão se renova; junto, o sentir de antes.

Albert Bertalan

Que interessante perceber que meu olhar se expande, ávido, ao focalizar o ponto no escuro! Aquele lugar onde a silhueta tênue se reforça mais e mais. Como ele a suga; na realidade, apenas a imagina, mas é feliz mesmo assim. E absorve-a cada vez mais. Quer dizer, se entrega cada vez mais; se completa cada vez mais; se enfeitiça cada vez mais… cada… vez… mais.

Então ela está presente, totalmente nítida, igual a antes, a imagem, a obra de arte do acaso. Emergida do olvidado, recriada, formada, pintada pela fantasia, a artista maravilhosamente talentosa.

Grande, não: pequena. Na verdade não está inteira, mas apesar disso é completa como outrora. Desfocada para todos os lados infinitamente no escuro. Um universo. Um mundo — luz e profundo sentimento vibram. Mas nenhum som. Nada do ruído alegre do ambiente penetra ali. Por certo não do ambiente de hoje, mas do passado.

Bem embaixo o damasco ofusca; folhas e flores se entrelaçam, volteiam e se cruzam em todas as direções. Um cálice de cristal transparente calcado sobre elas, cheio até a metade de ouro pálido, destaca-se. 
Uma mão pousa distraída nessa direção. Os dedos estão soltos ao redor do pé do cálice. O anel fosco de prata abraça um deles. Em cima, um rubi verte sangue.

Depois da delicada articulação, um crescendo de formas a modelar o braço desvanece no todo. Doce enigma. A mão de menina descansa, sonhadora e imóvel. A vida pulsa apenas onde uma veia azul-clara serpenteia macia sobre o branco fosco; a paixão palpita lenta e intensa. E ao perceber meu olhar, torna-se mais e mais rápida, mais e mais selvagem, até se transformar num tremor suplicante: solte…

Mas meu olhar se fixa como antes, pesado e de cruel lascívia. Permanece sobre a mão, na batalha trépida com o amor, a vitória do amor pulsa… como antes… como antes.

Uma pérola se solta lentamente do fundo do cálice e emerge. Ao chegar no campo de luz do rubi, inflama-se num vermelho-sangue e súbito se extingue na superfície. E tudo se vai, não obstante o esforço do olhar em retraçar os contornos suaves.

Então evapora; dissipada no escuro. Inspiro fundo — fundo, pois percebo que me esquecera disso. Como antes também…

Enquanto me reclino, cansado, a dor fisga. Mas agora sei com a mesma certeza de antes: você me amava, sim… … E é por isso que agora posso chorar.
Thomas Mann

quinta-feira, janeiro 28

Leitoras em casa

 

Jean-Georges Ferry ( 1851-1926) 

A verdade

Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a ver­dade!!


E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta con­fessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de­-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro"

Não há senha para o livro

 


Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional

As mãos enluvadas da bibliotecária extraem com delicadeza a página da pasta que acaba de retirar de uma caixa. São na verdade vários pedacinhos de papel grudados entre si com cola e durex amarelados. A palavra FIM, em maiúsculas, se destaca em meio a alguns parágrafos e frases soltas rabiscadas a caneta. Assim, como uma colagem, nasciam as obras de Clarice Lispector (1920-1977), a escritora brasileira mais original, mais traduzida e das mais importantes do século XX.

Costumava anotar ideias que lhe brotavam, sensações ou frases perturbadoras, observações literárias que misturava com tarefas prosaicas como telefonar para fulano, emagrecer ou comprar flores; só quando aquelas palavras estavam maduras datilografava o texto. Sempre com a máquina de escrever sobre o colo. A página grudada pertence ao manuscrito de sua obra póstuma, Um Sopro de Vida, e é parte da sua biblioteca, conservada pelo Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro, uma pequena janela para o método de criação de uma romancista, contista e tradutora que completaria 100 anos em 10 de dezembro.

Lispector tinha 22 anos quando publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que lhe valeu um prêmio, apesar de ter desconcertado a crítica. Aquela tiragem se esgotou, mas sua fama de autora de leitura difícil foi um lastro durante anos. Para ela, era evidente que se tratava de um problema de pele, não de cérebro. “Não se trata de inteligência, mas sim de sentimentos, de entrar em contato”, disse na televisão em sua última entrevista, meses antes de morrer de câncer de ovário, às vésperas de completar 57 anos. “Parece que ganho com a releitura. É um alívio.”

Nascida em Chechelnik, uma aldeia ucraniana à época pertencente à Rússia soviética, era bebê quando os Lispector, que fugiam da guerra e dos pogroms, chegaram ao Brasil, onde tinham parentes. A menina criada em iídiche tinha um sotaque peculiar. Embora falasse e lesse em francês, inglês e italiano, o português foi a língua em que escrevia, pensava, sonhava e amava.

Lispector revolucionou o panorama literário brasileiro nos anos quarenta. Ser mulher influenciou, mas foi sobretudo porque isso estava unido a um estilo inovador. “É uma autora selvagem, pouco polida, como se caísse no mundo com muita fome. Nela você percebe fome, sede, amor, paixão. É muito pouco intelectual”, explica o estudioso de sua obra Eucanaã Ferraz, do IMS. Aquela mulher enigmática, bela, arrumada como uma estrela de cinema, irrompe num momento de profunda transformação social para as mulheres ocidentais. Começam a se liberar quando Lispector deixa em sua obra sua parte mais selvagem, mais animal, ao mesmo tempo em que leva a vida convencional de uma mulher de classe alta. Durante 15 anos vive no exterior para acompanhar seu marido diplomata enquanto cria os dois filhos do casal. Continua anotando ideias. Escrevendo. Publicando.

“Às vezes me sentava na rede para me balançar com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em um êxtase muito puro. Já não era uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”, narra Lispector no conto Felicidade Clandestina.

Em sua última entrevista descreveu o imenso sofrimento que a atazanava entre cada obra: “Acho que quando não escrevo estou morta”.

Alguns de seus artigos e livros estão depositados em outra instituição cultural do Rio, a Casa de Rui Barbosa, mas a maioria está no IMS, a dois passos da praia de Ipanema. Junto a dois manuscritos colados, conserva 800 livros de sua biblioteca pessoal, seus discos, fotografias familiares e a correspondência com suas irmãs, Tania e Elisa. O intercâmbio de cartas relata sua vida durante os anos que viajou pela Europa e África e viveu na Suíça, Estados Unidos, Reino Unido e Itália. “Minhas queridas”, inicia uma missiva em que se despede com um “sejam felizes, eu o sou à minha maneira”. Uma pequena caderneta com notas doada por seu filho Paulo Gurgel Valente é uma das incorporações mais recentes ao acervo.

Escritora cult e leitora eclética. Sob seu olhar passavam tanto Dostoiévski quanto romances adocicados, ou O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, que a deixou comovida aos 13 anos. Escolhia suas leituras pelos títulos mais que pelos autores, dizia. Exemplares de Spinoza com anotações a lápis, obras de Tolstói, Kafka e Machado de Assis convivem com livros sobre James Joyce e Shakespeare, metafísica, romances de espionagem e a Enciclopédia da Mulher e da Família, observa Jane Leite, bibliotecária do IMS. Com seu primeiro salário, ganho como jornalista no Rio, comprou Felicidade, de Katherine Mansfield. Aquele exemplar não está na biblioteca, mas sim um de Lettere, as cartas da contista neozelandesa editadas em italiano pela Mondadori.

A pandemia obrigou o Instituto Moreira Salles a suspender as visitas à biblioteca e adiar para 2021 a mostra Constelação Clarice, que reunirá artistas plásticas brasileiras contemporâneas da autora e que deveria celebrar seu centenário.

Às portas dos 40 anos, Clarice se divorciou. Voltou com os dois filhos para o Rio, onde hoje é tema de uma escultura pública: sentada com um livro no colo, dá as costas a uma das praias mais belas do mundo, Copacabana. Uma imagem da sua própria obra, onde não há lugar para as paisagens, nem as épocas. São viagens introspectivas aos pensamentos, os medos, as angústias, os afetos... quase sempre protagonizados por mulheres que vivem em universos convencionais como o seu.

Entrou na literatura infantil após ouvir as queixas de um de seus filhos, que a recriminou por escrever para tanta gente, mas não para ele. Dedicou-lhe um conto em inglês, porque na época a família vivia nos EUA. Ser mãe é a experiência que mais a marcou, afirma o crítico Ferraz. Mas não pelos laços familiares, e sim pelo fato de dar vida, como faz qualquer animal ou semente. Nunca quis ser aquela escritora que no horário de trabalho não podia atender a sua prole. Jamais lhe incomodou que Pedro e Paulo alterassem aquelas horas, logo após o amanhecer, em que criava das vísceras com cigarros e muito café.

quarta-feira, janeiro 27

À escolha

 


Livreiro aprendiz

O acaso é um elemento importante em nossas vidas, ao contrário de maktub, “estava escrito”, o acaso acontece. Aconteceu comigo. Antes de livreiro, fui banqueiro, quer dizer, sócio de uma banca de jornais e revistas. A experiência valeu. Por isso, vamos começar por ela. O grupo de jovens que ocupava duas mesas e oito cadeiras no café Rio Branco, com um cafezinho ficavam ali quatro, cinco horas papeando, sem serem cobrados por seu Quidoca, ou pelos garçons Emanoel e João Carradine, discutiam tudo e nada. Certo entardecer um dos componentes do grupo se virou e me disse: nós estamos aqui no lado direito, estás vendo que no lado esquerdo tem um espaço sem nada? Estou, respondi, e ele: em Florianópolis só temos uma banca de jornais e revistas, a do Beck, porque não abrimos outra? Retruquei, pra quê? Pra quê? Estamos mais ou menos desempregados, e isso pode dar uns trocadinhos. E como vamos pagar pelo espaço? Acredito que seu Quidoca vai aceitar a proposta que lhe faremos: a gente vai e diz pra ele que botando uma banca de jornais e de revistas o local vai ser mais freqüentado; não temos como pagar, mas todo dia ele pode escolher um jornal de qualquer parte do país e toda semana uma revista O Cruzeiro. Fomos, e não é que o homem aceitou? Colocamos uma estante, um balcão, e durante uns dois ou três anos funcionou a banca. Seu Quidoca pegava a revista mas raramente se interessava por um jornal. Na verdade, mais do que jornais e revistas, o que nos dava um retorno razoável era nas proximidades do Carnaval emendar dia e noite vendendo confete, serpentina e lança-perfume, até que em determinado momento, me virei para o Armando Carreirão e lhe disse: está na hora de abrirmos uma livraria que continuará vendendo jornais e revistas. Foi a vez de ele retrucar, pra quê? E eu: temos duas livrarias, a Moderna e a Rosa, que trabalham com livros, e outra que se aproveita de isenções fiscais para vender mais brinquedos e quinquilharias. Tanto a Rosa quanto a Moderna fazem um bom trabalho, mas nós vamos partir para outra linha, vender livros de editoras que eles não aceitam comerciar, como a Vitória, e livros estrangeiros: inovação na Ilha. Carreirão retrucou: só que, nesse caso, temos que procurar um ponto, esse pedacinho do café não serve, e lá certamente teremos de pagar aluguel. De novo eu: não custa arriscar.

Arriscamos. Conseguimos um pequeno espaço em um ponto bem central, na praça XV, quase esquina com a rua Conselheiro Mafra. Deu certo: logo a livraria se tornou conhecida, e um ponto de referência, onde circulavam no fim de tarde pessoas de todas as categorias e tendências, especialmente estudantes e gentes ligadas às letras e às artes. Perto da livraria Anita Garibaldi ficava o Miramar, onde, com ou sem um livro, ia se tomar uma cervejinha.

Não sei por que são raros os livros onde os próprios donos relatam suas experiências de livreiro. Devem existir por essas bandas, alguns, porém só conheço dois: Balcão de livraria, de Herbert Caro, que foi um excelente tradutor na editora do Globo de Porto Alegre, e Memorias de un librero, de Héctor Yánover, que foi também poeta, organizou algumas antologias de poesias, e durante anos foi referência no mercado editorial e literário de Buenos Aires. Há nesses dois livros, de leitura sumamente instigante, episódios curiosíssimos, não apenas para os viciados em livro mas para todo tipo de leitor. Cito apenas uma historinha de cada um deles: a primeira, do Herbert Caro: certo dia duas jovens entram, ficam percorrendo as estantes, retiram um livro, retiram outro, não se decidem, até que uma se vira para a outra e diz, por que insistes em dar de presente para teu namorado um livro, se ele já tem um? Vamos ali na loja ao lado e tu compra pra ele outra gravata. Agora o Héctor Yánover: uma senhora chega até o balcão onde ele estava e diz: vim aqui em busca de uma antologia de contos, e ele, de que autor, e ela, existe mais do que um?

Existem livros que falam de livreiros, escritos por pessoas que com eles conviveram, mas pouquíssimos como o Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras, de Ubiratan Machado, lançado pela Ateliê Editorial, onde ele recua tentando resgatar a primeira livraria existente no Brasil e avança até os dias de hoje, conseguindo, através de 100 livrarias, abarcar todos os estados brasileiros. De cada uma, Ubiratan traça um rápido perfil. Minhas breves anotações são enriquecidas com o que diz Ubiratan Machado sobre a livraria Anita Garibaldi:

“Pela sua filosofia de trabalho, espírito novidadeiro e, sobretudo, a simpatia e cordialidade do sócio-proprietário, o escritor Salim Miguel, a Anita Garibaldi não teve similar na história das livrarias catarinenses e na vida literária de Florianópolis. Fundada em 1950, na Praça XV de Novembro, 27, foi a primeira livraria do Estado a importar livros. Vendia obras editadas na Argentina, México, França, Portugal, e até China e União Soviética. Foi pioneira também, dessa vez em termos nacionais, no estabelecimento de intercâmbio com uma livraria estrangeira, a Monteiro Lobato, de Montevidéu. Apesar do tamanho minúsculo, cerca de 30m², onde se exibiam livros, revistas e jornais, tornou-se um vibrante centro de reunião de escritores, artistas plásticos, políticos, operários de tendência esquerdista. Ficavam uns três ou quatro no interior da loja e os demais na porta, com as reuniões terminando sempre no Bar Miramar, espécie de prolongamento da livraria. Dois fatos dão ideia do espírito reinante na loja. Jorge Lacerda, quando governador do Estado, duas vezes por semana saía do palácio direto para a Anita Garibaldi, buquinava e conversava apenas sobre literatura. Em certa época, Miro Moraes passou a ler Kant, dentro da loja, pois não tinha dinheiro para comprar o livro. O próprio livreiro se incumbia de “esconder” o volume, até a leitura terminar. Como uma atração, a livraria era visitada por todo intelectual de fora que chegasse a Florianópolis. Por lá passaram o espalha-brasas Marques Rebelo, o mineiríssimo Ciro dos Anjos, e artistas plásticos como Carlos Scliar e Bruno Giorgi. Em 1964, com a paranóia que tomou conta do país, a livraria foi arrombada, saqueada e queimada. Foi o fim da Anita Garibaldi, mas sobretudo o fim de uma época”.

Acrescento:

1. O contista e tradutor Silveira de Souza, por então apenas João Paulo, ficava namorando um grosso exemplar da obra completa de Shakespeare, pois não tinha dinheiro para comprá-la. Então, o sócio e responsável pela livraria lhe fez a seguinte proposta: leva, porque, pelo jeito, ninguém mais está interessado, e vai pagando aos poucos, quando puderes; deve ter levado uns oito meses para pagar o livro.

2. Alguns amigos muito próximos tinham o hábito de sub-repticiamente enfiar um livro dentro da camisa e sair. O dono da livraria, embora notasse, nunca teve coragem de lhes pedir que devolvessem.

3. A livraria Anita Garibaldi trabalhou muito com uma importadora chamada Mestre Jou.

A experiência de livreiro me ajudou a ser editor.

Agora encerrando para valer:

Em 1964, embora já não fosse de Armando Carreirão e Salim Miguel, a Anita Garibaldi continuava conhecida como a livraria do Salim.

Esses tempos!

 


Os gatos

Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes,quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.

Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.

Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.

Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.

Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.

Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.

Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.

Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.

Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.

Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.

“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude.”
Lygia Fagundes Telles, "A Disciplina do Amor"

terça-feira, janeiro 26

Um mundo à frente

 


O leitor ideal

O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.

Uma frase? Que digo? Uma palavra!

O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina".

Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto para os devaneios do leitor.

Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.

Sem mais nada.

Até sem nome.

Sem cor de vestido nem de olhos.

Sem se saber para onde ia...

Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor.

E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...

E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.

Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...

Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?
Mário Quintana

Leitura refrigera

 


Casas amáveis

Lionel Bulmer 
Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro.

Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento.

Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides?

Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

Os jardins tinham suas deusas, seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d’água para os peixinhos.

Possuíam canteiros de flores obscuras – violetas, amores-perfeitos – para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)

E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.

As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! – uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas – flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas – e cujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny…

Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)

E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.
Cecília Meireles. "Escolha o seu sonho"

segunda-feira, janeiro 25

Manhã da livreira

 


Tebaida

Lembro que havia um garoto, nos tempos do colégio, que se gabava de ler dicionários página por página. Tinha fama de maluco, mas não seria o único. Alguém mais já deve ter experimentado, se não uma leitura página por página, uma passegiata, um desvio da rota do estudo, um recuo ao nível da simples curiosidade em torno das palavras que avizinham a procurada.

O menino do colégio, que era de fato meio doido, a leitura dos dicionários sendo apenas uma entre muitas de suas esquisitices, eu me lembrei dele outro dia quando buscava uma palavra e topei com outra no meio do caminho. Tebaida. Fazia tanto tempo que não via essa palavra que foi como se ela soasse nova para mim, tão clara em sua abertura vocálica como o Saara ao meio-dia, tão ancestralmente feminina.

Solidão profunda, desértica, de alguém que resta numa cidade fantasma, perdendo o préstimo da palavra, ganhando ares de invisível. Podia ser uma mulher, Tebaida, imiscuída numa multidão sem se dar conta de outros corações próximos e igualmente antigos. Tebaida, uma mulher de olhos cegos, mais que sozinha, sozinha como uma cidade extinta, lavada pelo sol, distante no tempo, quase o nome de uma lenda, que só se faz visível para quem vive no deserto ou alguma vez já lá esteve.

Há o tear ao lado dela, o teatro, a tecedura, a tecla, a tectônica, mas tebaida está só no meio de todas essas palavras producentes, não há o que a distraia ou a socorra do seu ermo, podem levá-la para uma volta ao mundo e ela levará aonde for sua solitude. Quem a encontra sem procurar por ela, assim, no meio do caminho, talvez se esqueça de cumprir a outra metade da jornada e por aí fique, na vasteza clara dessa palavra, saboreando seu sal. Tebaida. Face nua da terra desabrigada. Qual era a palavra que eu buscava antes dessa paragem, eu já não sei.

Em plena selva

 


Incenso

Na serenidade, passa o tempo sem pressa. Num instante sentido, num fio de fumo, é possível encontrar a cartografia de todos os outros instantes, longos ou fugazes. Na serenidade, passa a própria vida.

É um fio delicado de fumo que se enrola sobre si próprio, que se desenha no ar, que se entrança. Logo depois, desfaz-se numa forma cada vez mais desgovernada, a alastrar-se e a dissolver-se na pequena nuvem de fumo que paira na sala. Aqui, neste mundo cingido por paredes, desloca-se como um grande corpo, espécie de monstro a dirigir-se infinitamente na direção dos livros da estante, mas que nunca lá chega de facto.

Às vezes, o tempo passa à velocidade de incenso a queimar. Lento, mas constante. Seguro, como um sopro. A partir de um pequeno ponto incandescente ergue-se uma linha de curvas ligeiras, elegantes. E os pensamentos sucedem-se a essa velocidade. É sempre assim. Os pensamentos seguem a velocidade do tempo que interiorizamos. E, às vezes, o tempo passa sem pressa, como incenso a queimar.

Nos templos, como no Templo de A-Má, há paus de incenso que homens e mulheres seguram entre as mãos e que inclinam diante do altar ao ritmo com que inclinam todo o corpo em vénias repetidas. Depois, quando os espetam em pequenos potes, começa a sua combustão serena. O fumo sobe ao céu, indiferente às pessoas que se aproximam ou se afastam. E quando soa o gongo, o fumo segue o seu caminho ascendente com a mesma segurança com que a vibração se propaga. Para cima ou para dentro, um instante contínuo que tranquiliza.

Há também os incensos em espiral, pendurados debaixo de telheiros, esticados como molas. No interior, têm um papel com um pedido escrito, caligrafia chinesa. Muito devagar, a sua pequena brasa vai ardendo, cumprindo voltas, como se subisse a lenta estrada de uma montanha. Demora bastante, é um caminho que chega a parecer que não vai continuar. Talvez se detenha em algum obstáculo, talvez não encontre forças.

Mas continua sempre.

É exatamente assim o tempo a que me refiro, esse tempo que passa à velocidade de incenso a queimar. Transporta em si a certeza de que não irá ser interrompido por qualquer repente, bom ou mau. É um tempo de descanso, de reflexão, valioso para respirar. E, toda a gente sabe: no momento em que vivemos, é tão necessário respirar, faz tanta falta.

Aqui, onde estou a escrever estas palavras, esse tempo paira lentamente. Se me levantasse desta cadeira, creio que me alcançaria o peito. É mais ou menos a essa altura que avança seguro na direção das estantes, como uma vontade branda ou um desejo antigo.

Por sua vez, nas estantes, há o tempo dos livros. Esse avança a outra velocidade. Talvez mais lenta ainda, chega a ser possível parar o tempo nessas páginas. Mas também é possível apressá-lo. No interior de uma única linha, podem passar dez anos. Os livros são, cada um deles, salas parecidas com esta. O tempo que cada livro contém voga a uma velocidade própria, constrangida por critérios próprios e, em simultâneo, volúvel, livre.

Aqui, sob as minhas narinas, no ar que inspiro, o incenso. Podemos também medir uma velocidade a partir do seu perfume, fumo perfumado. No ar desta sala, sobe um fio delicado de fumo. É contemporâneo de mil templos no outro lado do mundo. Na comparação entre este a velocidade deste e desse incenso, a distância não guarda qualquer relevância ou significado. Existe o tempo deste fumo e destas palavras, ascende lentamente na sala exterior que nos rodeia e na sala interior que contemos. Neste tempo, é possível encontrar todos os outros tempos. Basta ser capaz de concebê-lo
s.
José Luís Peixoto

domingo, janeiro 24

Quem ama abraça

 


Bilhete cósmico

Usamos dizer que o mundo fica mais pobre quando vai embora um grande artista, mas, dado o nosso grau de miserabilidade, às vezes dá mesmo é um alívio por certas almas grandes já não circularem aqui embaixo. Penso em Hilda Hilst, que estaria hoje com 91 anos. Daqui a menos de uma semana, completam-se 17 anos desde que ela zarpou para Marduk. Penso na cronista que ela foi, louca de lúcida, escandalizando os leitores do Correio Popular de Campinas no começo dos anos de 1990.

Hilda não desistia, bradava até trair seu pessimismo, não se conformava, ia até a crônica revolver o balaio das sordidezes humanas para lhes fazer subir o cheiro bem na hora em que alguém se debruçasse ali. Funcionava. Uma gente chocada escrevia para o jornal. Hilda apostava em doses cavalares de espanto explícito para tentar acordar a alma do leitor, como numa ressurreição por eletrochoque.


Venha cá ver o país como fede, pornograficamente faminto, ostentando seus revólveres, suas malas cheias de dinheiro e seus esquadrões da morte. Vamos ver até onde o leitor aguenta. Furiosa, a cronista quer ferir pelo riso ácido se é que a dor do horror já não fere nem comove. Quer ser repugnante, quer ser escabrosa, e tão repugnante, tão escabrosa, a ponto de provocar a nostalgia da beleza.

Acontece que fomos e continuamos a ser levados a níveis de repugnância cada vez mais baixos e, às podridões de 1990, juntaram-se incontáveis e inomináveis outras que, no fundo, como reação ao nojo, ou, mais do que ao nojo, como reação à loucura muito próxima, acabam nos provocando é a nostalgia do esquecimento.

Então aqui vai este bilhete para você que é escolada em transcomunicação. Algumas notícias atualizadas do homo maniacus para você, Hilda, onde quer que você agora se ocupe de refulgir na infinita escuridão cósmica:

Atiradores aleatórios no topo de árvores não estão mais apenas dentro de uma página de Hermann Hesse. Lori Lamby também já andou passeando fora do seu caderno rosa e a mulher do verdugo desceu do palco junto com a turba canibal. O teatro de Nelson Rodrigues voltou a ser destaque nas livrarias. A poesia de Primo Levi pela primeira vez publicada no Brasil também tem tido boa saída. E você nem pode imaginar, nem eu quero lhe contar, o que tem acontecido com os bichos no nosso antiparaíso verde-amarelo, os bichos, os poetas, os artistas. Quantos já enlouqueceram e quantos mais andam mal pendurados pelas bordas. Um quadro de Bosch espetacularmente contemporâneo. Mas você já não pode ver nada disso com os próprios olhos. Que bom. Que sorte a sua, Hilda.
Mariana Ianelli

Acampando


 

O fim do mundo

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês…
Cecília Meireles

sábado, janeiro 23

O que sustenta

 


Oleh Smal

O leitor irresponsável

Ocasionalmente, reaparece nas redes sociais um ensaio do escritor britânico Geoff Dyer sobre as suas dificuldades para ler ou terminar de ler livros.

Intitulado “Reader’s Block”, publicado originalmente em 2000, quando o escritor tinha 41 anos, o texto descreve o desânimo de Dyer ao olhar para as suas estantes e perceber que não deseja ler nenhum dos livros ainda intocados. E assim, compra outros, por não querer ler os que já possui. E continuará pensando, olhando para as estantes: “There’s nothing left to read“.

David van der Veen

Dyer narra como, para passar o tempo em um voo transatlântico, compra dois livros, cujos títulos aliás parecem paradigmáticos: O Leitor, de Bernhard Schlink, e A History of Reading, de Albert Manguel. O voo termina, e nenhum dos dois foi lido. Justamente, tenho ambos os livros em casa, e não os li. O segundo foi presente de uma amiga querida, há muitos anos, e ele serve ao menos para me fazer pensar nela, quando vejo a lombada.

Geoff Dyer é um escritor que sempre leio com prazer e considero o primeiro livro que dele comprei, Out of Sheer Rage: Wrestling with D.H. Lawrence, publicado em 1997, um marco na literatura contemporânea. Nele, Dyer narra sua tentativa de escrever um estudo sobre D.H. Lawrence, o qual, por procrastinação, nunca consegue concluir ou mesmo começar na forma como planejara. A própria liberdade de tempo para escrever torna-se um empecilho: “I had nothing to keep me from writing my study of Lawrence, and so I never buckled down to it”. Lawrence é aliás um autor que nunca li, embora tenha em casa, desde o final da adolescência, Sons and Lovers e Lady Chatterley’s Lover, ambos esperando pacientemente que eu me dedique a eles.

Dyer procrastina também a releitura dos romances de Lawrence, o que poderia ser necessário para elaborar o estudo sobre o autor: “I thought, why should I? Why should I re-read this book [Women in Love] that I not only had no desire to re-read but which I actively wanted not to re-read“. Parece manifestar preferência pela correspondência e os poemas de Lawrence, mas na hora de viajar para uma temporada de seis semanas em uma ilha grega — onde, naturalmente, não conseguirá escrever nada — indaga-se se deveria ou não levar uma edição dos poemas completos, que afinal será deixada para trás em Roma. Out of Sheer Rage, porém, consegue ser um comentário bem-sucedido sobre D.H. Lawrence e sua obra, uma reflexão sobre a literatura em geral e também uma autobiografia de Dyer. Alguns dos livros do autor foram traduzidos no Brasil, mas creio que não este, o meu predileto. Dyer expõe, em tom feroz e cômico, seus defeitos, suas antipatias e a intensidade de suas reações às coisas e às pessoas. Em um momento, ganha de presente um livro de ensaios acadêmicos sobre Lawrence, com títulos e temas pretensiosos, como “Alternatives to Logocentrism in D.H. Lawrence”, e queima o livro “in self-defence. It was the book or me because writing like that kills everything it touches“.

O texto de Dyer sobre seu bloqueio como leitor, sendo do ano 2000, pertence já à era digital, mas é anterior ao surgimento e à multiplicação das redes sociais. Estas, com seu oferecimento capcioso e constante de notícias, na maior parte do tempo sem interesse ou utilidade, atrapalham a imersão na leitura. Somos também tentados a aceitar oferta profusa de filmes e séries em nossos computadores. Dyer cita um ensaio do pensador George Steiner, que tenho — e li — intitulado “The Uncommon Reader”, o qual, embora publicado em 1978, portanto antes da era digital, critica “the near-dyslexia of current reading habits“. Steiner indica que já não lemos como nossos antepassados, inclusive pela falta de silêncio e solidão. O silêncio, segundo ele, e nisso concordo plenamente, tornou-se um luxo.

Em “Reader’s Block”, Geoff Dyer conta como, nascido em um ambiente de poucos recursos em uma cidade provinciana, único da família a gostar de ler e não tendo ainda viajado, para ele a leitura era, na juventude, a única forma de acesso a outros mundos. Aos 41 anos, escritor de sucesso, constata: “Reading, which gave me a life, is now just part of that life“.

Há períodos em que sofro de um bloqueio e leio menos do que gostaria. Isso notei, pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos, quando lamentei com um amigo estar atravessando uma fase em que, a meu juízo, eu estava lendo pouco. Acabara então de escrever meu primeiro — e até hoje único — romance. Tratava-se de uma história de amor passada entre o Rio de Janeiro e uma fazenda em Minas Gerais, na Zona da Mata, na época do Império. Era, vejo hoje, uma autobiografia, fora o fato de que eu não existia ainda no século XIX. Desencorajado pelo meu pai — ele mesmo escritor — que, com o objetivo de me incentivar foi, para minha sensibilidade adolescente, excessivamente crítico, procrastinei e nunca revisei o romance. “I blame my father”, informa Geoff Dyer, de repente, na página 143 de Out of Sheer Rage, quando não consegue montar um quadro de avisos de cortiça para a cozinha, comprado na IKEA.

Houve, desde a adolescência, outros períodos em que acusei a mim mesmo por não estar lendo o suficiente. Olho para as minhas estantes, suspiro e penso comigo mesmo: “Não tenho interesse por nenhum desses livros. Nenhum deles é o livro que quero ler”. O bloqueio de leitor é algo insuportável. Falta algo na vida, e não sei como preencher o vazio.

Naturalmente, coloca-se a questão do que seria “ler o suficiente”. Estou ciente de que não poderei nunca ler tudo o que espero. Sei também que nem sequer os 6.000 volumes na biblioteca de casa eu poderei ler. Segundo Steiner, não é um verdadeiro leitor aquele que “has not experienced the reproachful fascination of the great shelves of unread books, of the libraries at night of which Borges is the fabulist“. A menção ao escritor argentino não poderia ser mais apropriada, já que boa parte da obra de Jorge Luis Borges, grande leitor, é um comentário sobre livros, bibliotecas e outros autores.

Romances curtos às vezes me causam um bloqueio, enquanto que posso ler relativamente rápido livros longuíssimos, totalmente imerso no texto. Guerra e Paz — 1.620 páginas na tradução que prefiro, em francês, por Henri Mongault, editada pela Gallimard na Pléiade — é a leitura mais deliciosa que jamais fiz. Sonho com uma vida em que eu pudesse ininterruptamente ler o romance de Tolstoi e recomeçá-lo em seguida, em um ciclo constante. À la recherche du temps perdu é uma leitura e releitura de toda a vida. Abri o primeiro tomo aos 11 anos, fiquei fascinado, e nunca mais parei. Releio sempre os quatro primeiros tomos. Lembro de frases de cor, cito falas dos personagens, que eu pareço conhecer como figuras do meu cotidiano. Sei onde encontrar meus trechos prediletos, e esses eu releio sem parar. Durante muito tempo, porém, senti não estar maduro para os três últimos tomos. Há alguns anos, eu os li pela primeira vez, e a obra toda ganhou nova dimensão, e a minha vida junto.

Após a morte do romancista canadense Robertson Davies, em 1995, lançou-se uma coletânea de palestras suas sobre literatura e leitura. Nem que fosse apenas pelo seu título — The Merry Heart — seria impossível não ficar indiferente ao livro. Davies dá um conselho simples: se não está gostando do livro, pare de lê-lo; a vida é muito curta para passá-la lendo algo que não desperta seu interesse. Montaigne, em seus Essais, diz o mesmo, no capítulo sobre livros. Afirma querer passar “doucement, et non laborieusement, ce qui me reste de vie“. Por isso, busca na leitura “prazer, por meio de uma diversão honesta”. Se a leitura apresenta alguma dificuldade, ou é tediosa, ele evita angustiar-se a respeito (“je n’en ronge pas mes ongles“) e deixa o volume de lado, ao menos temporariamente.

Robertson Davies considera-se “um leitor irresponsável” (“a rake at reading”). Diz ele: “I have read those things which I ought not to have read, and I have not read those things which I ought to have read“. Como suas leituras deveram muito ao acaso e ao seu faro, Robertson Davies estima que, se vivesse de novo, não leria necessariamente os mesmos livros, pois outros apareceriam frente a ele.

Davies formula percepções que todo leitor contumaz, dentro de si, sente com relação à leitura. Segundo ele, “books choose us” e “we find, and are found by, the books we need to enlarge and complete us“. Acredita que, mesmo quando nos deixamos guiar pelo acaso em nossas leituras, “The inward spirit, I am convinced, knew very well what it was doing“. Essa frase lembra um comentário de Borges: “Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da con su lector, con el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada belleza”.

Pesquisando na minha biblioteca, vejo que muitos escritores se detiveram sobre o que significa ler. Parece ser um tema recorrente. Talvez isso seja natural, já que um autor superlativo foi, em algum momento ao menos, também um leitor atento.

Italo Calvino publicou em uma revista italiana de notícias, em 1981, artigo incentivando os italianos a ler os clássicos — texto hoje conhecido como Perché leggere i classici — mas é no “romance” Se una notte d’inverno un viaggiatore que ele analisa em detalhe o que é ler e escrever um livro. O personagem principal, Leitor, começa a ler dez romances, que nunca chega a acabar, porque as cópias são todas defeituosas ou incompletas. No início da obra, Calvino dá as várias razões — pouco menos de vinte — pelas quais livros não são comprados ou lidos. No final, Leitor conversa em uma biblioteca pública com outros leitores sobre como encaram a leitura. O “quarto leitor” diz exatamente o que eu mesmo penso: “cada novo livro que leio passa a ser parte do livro global e unitário que é a soma de todas as minhas leituras”.

Em 1905, Proust publicou, com o título de “Sur la lecture“, um texto encantador. Redigido para servir de prefácio à sua tradução de um livro de John Ruskin, “Sur la lecture“ (conhecido depois como “Journées de lecture“) inicia-se com a descrição de Proust, criança, em sua atividade como leitor durante o verão na casa dos tios, que podemos ainda hoje visitar em Illiers-Combray. A primeira frase diz que os dias da infância passados com um livro predileto são os que foram vividos mais intensamente. Isso já dá o tom. As atividades que o obrigam a parar de ler — almoço, jantar, passeios com a família — parecem longas. Em algum momento, porém, a leitura do livro termina. Proust descreve a saudade dos personagens que aí surge. “Então, é isso? […] Esses seres aos quais tínhamos dado mais de nossa atenção e de nosso carinho do que às pessoas da vida real […] nunca mais as veríamos, nunca mais saberíamos nada delas”.

Várias páginas depois, Proust afirma ser a leitura “uma amizade sincera”, da qual não fazem parte as “mentiras” necessárias nas relações com as outras pessoas. O texto termina com a observação de que escritores frequentemente preferem ler os clássicos, e não seus contemporâneos. Como leitor, tenho a mesma predileção e, se não li alguns dos livros nas minhas prateleiras, às vezes é simplesmente porque eles são ainda muito recentes. Os clássicos, nos diz Proust, “contêm todas as belas formas de linguagem abolidas, que guardam a lembrança de usos ou formas de sentir que já não existem”. E aqui, Borges pode nos ajudar a completar o pensamento proustiano. Em palestra que deu na Universidade de Belgrano em 1978, ele declarou: “Cada vez que leemos un libro, el libro ha cambiado, la connotación de las palabras es otra. Además, los libros están cargados de pasado […] Hamlet no es exactamente el Hamlet que Shakespeare concibió a principios del siglo XVII […] Hamlet ha sido renacido […] Los lectores han ido enriqueciendo el libro […] Si leemos un libro antiguo es como si leyéramos todo el tiempo que ha transcurrido desde el día en que fue escrito y nosotros“.

Em Les Rêveries du promeneur solitaire, redigidas em seus dois últimos anos de vida, Rousseau inicia o “quarto passeio” dizendo: “Dentre os poucos Livros que ainda leio às vezes, Plutarco é aquele que me prende e me traz mais benefícios. Foi a primeira leitura da minha infância, será a última da minha velhice”. Rousseau sofria de misantropia e mania persecutória. Cabe lembrar que o “primeiro passeio” inicia-se com a célebre frase: “Estou, assim, sozinho na Terra, não tendo outro irmão, próximo, amigo, sociedade além de mim mesmo. O mais sociável e mais amoroso dos homens dela foi proscrito por uma decisão unânime”. É fascinante, por isso, ver o filósofo, na velhice, voltar à leitura predileta dos seus primeiros anos como leitor, como se estivesse preservando uma amizade.

Tolstoi fugiu de casa abruptamente, em estado de agitação mental, aos 82 anos, na madrugada do dia 28 de outubro de 1910. Na noite do mesmo dia, escreve carta, de uma estação de trem, à sua filha Alexandra, pedindo que lhe enviasse, ou se viesse vê-lo trouxesse com ela, os seguintes livros, que estivera lendo antes de fugir: os Essais de Montaigne, Os Irmãos Karamazov, o romance Une Vie, de Maupassant, e o livro espiritual de um autor russo, P.P. Nikolayev. Tolstoi morreria em 7 de novembro, em outra estação de trem, Astapovo. É comovente a necessidade que sentiu, na reta final, de ter consigo os livros que estava lendo.

Tanto no seu ensaio “Reader’s Block” como em Out of Sheer Rage, Geoff Dyer parece apontar para o fato de que, à medida que envelhecemos, lemos menos, inclusive pela razão que ele dá, de que a leitura deixa de ser a vida, e passa a fazer parte da vida. Outro escritor britânico, Alan Bennett, em um romance cômico de 2007 e intitulado, como o ensaio de George Steiner, The Uncommon Reader, apresenta o oposto: um personagem que nunca leu e, de repente, na idade madura, vira um leitor obstinado e maníaco. Esse personagem é, nada mais, nada menos, do que Elizabeth II. Sim, ela própria. Bennett, em um dos livros mais engraçados que já li, imagina que a Rainha da Inglaterra, pouco a pouco, vira uma ávida leitora e passa a ler tudo, romances, poesia, biografias, peças de teatro. Em um jantar de gala que oferece ao Presidente da França no castelo de Windsor, a rainha decide conversar sobre Jean Genet, para constrangimento de seu hóspede, que nunca leu o autor. Ao passar a ser uma grande leitora, única entre seus conhecidos, a rainha causa problemas. Como comenta seu secretário particular, ler é uma atividade excludente, pois embora todos saibam ler, ninguém na verdade lê.

Pouco a pouco, Elizabeth II volta a ler menos. A leitura já não é uma necessidade. Agora, sente que precisa escrever. De início, o primeiro-ministro se anima: um livro popular, indolor sobre a juventude da rainha, a Segunda Guerra Mundial, seu casamento, um bestseller. Logo vem o temor, ao perceber que não é isso. A rainha tem em mente “something more radical. More… challenging“. Na verdade, inspira-se em Proust e deseja emular o Narrador de La Recherche, que “looks back on a life that hasn’t really amounted to much and resolves to redeem it by writing the novel, which we have just in fact read“.

Esta, afinal, é a mensagem de todo escritor: a de que escrever é a verdadeira vida, é o que permite processar, por em ordem as experiências atravessadas, que incluem, também, as leituras feitas. O bloqueio do leitor, assim, pode ser sintoma de que é chegado o momento de escrever.

sexta-feira, janeiro 22

Uma rosa para aqueles doidos mansos

A cidade tinha seus doidos mansos, suas manias faziam com que gente adulta sorrisse e os meninos mangassem quando deparavam a cena engraçada. De tão mansos mal não faziam a uma mosca. Ingênuos, indefesos, triste gente perseguida pelo fado. Incansáveis atores na vida diária, funcionavam como o riso da rua. Havia Mula-Manca, só andava bêbado, mal se aguentava nas pernas, tropeçava nos passos. Maria Camisão suspendia de repente a camisola e mostrava a parte debaixo, entre as pernas, coberta com o tufo de cabelo. Ela dizia nomes feios, oferecia a quem quisesse o sexo cabeludo aparentando uma coisa horrenda. Zeles Carnavalesco pela rua saracoteava, tremia como um boneco elétrico em tempo de carnaval. Não parava de pular, mexer e rodar na frente do bloco carnavalesco.

O tal de Jipe se dizia portador dentro dele de um carro de corrida, que não tinha preço. Saía disparado pelo calçamento, buzinando. Na avenida do comércio, passava veloz segurando numa mão uma placa com o número do carro e na outra um farol sem lâmpada. Chiranha era o que adivinhava qual seria o número sorteado no jogo da loteria. Ainda tinha o doido Paturi, um meio azoado, ele virava uma fera quando era arreliado com aquele apelido que detestava.

E o Ciro Mergulhador?

Quando o gaiato dizia:

– Ciro Mergulhador!

A resposta era uma só:

– Atrás de moça bonita!

Todos eles exerciam seu papel particular na vida da cidade. O tal Jipe fazia o preparo físico para fortalecer o fôlego pela madrugada, indo e vindo disparado muitas vezes na travessia que fazia no piso da Ponte Velha. Até que chegava como um vento veloz ao centro da cidade, buzinando, gritando para que a pessoa saísse da frente, se não quisesse ser atropelada, estava com pressa, ia calibrar os pneus de seu carro para uma viagem que faria naquele dia até a cidade vizinha de Ilhéus. Não queria chegar atrasado no local de saída, as pessoas que iriam ser conduzidas na viagem poderiam desistir com o atraso de seu jipe e irem embora.

Lembro de todos eles, como se estivessem agora ressurgidos do tempo longínquo, que se esfumou na curva dos anos. Exsurgem com suas graças e ingenuidades de gestos para fazer a cidade mais humana, com sons e cores de uma gente que divertia a vida sem querer nada de volta. Doidos mansos de minha terra, anunciados pelo destino em cada número do teatro da vida, como se fossem figuras grotescas, mas que eram queridas por gente grande e pequena, pelo espetáculo que era dado de graça.

Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado, Zeles Carnavalesco, Chiranha, mais Paturi, porque me fizeram um menino alegre, dedico-lhes agora essa crônica como se fosse uma rosa que emerge com o seu perfume suave do lugar onde não morre a ternura.
Cyro de Mattos