quinta-feira, janeiro 19

Salvação

 :

Uma boa história

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Uma aldeia situada a cerca de trinta e cinco quilómetros de Burgos saltou do anonimato para as parangonas dos jornais do país vizinho. É um lugar chamado Quintanalara, de apenas quatro ruas, casas de pedra de um só piso e, segundo o censo, uns míseros 33 habitantes (embora só nove vivam lá durante todo o ano). E, porém, ao contrário de aldeias e vilas de outra dimensão, acaba de construir uma biblioteca, e uma biblioteca de 16 000 volumes! Estes foram doados, na maioria, por particulares que herdaram bibliotecas de família que não cabiam nas suas casas, mas também por universidades, como a de Navarra, que se apaixonou pela iniciativa e mandou um camião cheio de livros. E o que é espantoso é que esta biblioteca, estando no meio rural, fica aberta dia e noite (sim, vinte e quatro horas por dia!) e não é um lugar de empréstimo, mas de troca: quem lá for buscar um livro tem de deixar outro, para que o número de volumes não diminua (a biblioteca está, de resto, incluída na rede de bookcrossing como um dos pontos de troca de livros mais bem apetrechados). Os responsáveis crêem que este pequeno templo milagroso atrairá pessoas a Quintanalara e projectam realizar ali conferências e apresentações de livros, não apenas para os habitantes locais (que não encheriam a sala) mas para gente das terras das redondezas que não têm grande oferta e para turistas e gente que ficou curiosa com a notícia. Propõem, aliás, o plano ideal para um fim-de-semana: visitar o património românico da zona e terminar o passeio na biblioteca, com uma boa história! Não sei porquê, mas já me estou a ver a ir a Quintanalara…

Modelo 1937

The Penguincubator: The 1937 Vending Machine for Books:

Assim começa o livro...

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Eu não gostava do mês de dezembro porque era nesse mês que vinha o último boletim da escola, melhor pensar na quermesse do Largo da Igreja com as barracas das prendas e a banda militar tocando no coreto. Nesse sábado a minha mãe e tia Laura foram na frente porque eram as barraqueiras, meu pai iria mais tarde para ajudar no leilão. Precisei fazer antes a lição de casa e assim combinei de ir com a Maria quando ficasse pronto o peru. Já estava escurecendo quando passei pelo jasmineiro e parei de repente, o que era aquilo, mas tinha alguém ali dentro? Cheguei perto e vi no meio dos galhos a cara transparente de Leocádia, o riso úmido. Comecei a tremer, A quermesse, Leocádia, vamos? convidei e a resposta veio num sopro, Não posso ir, eu estou morta... Fui me afastando de costas até trombar na Keite que tinha vindo por detrás e agora latia olhando para o jasmineiro. Peguei-a apertando-a contra meu peito, Quieta! ordenei, Cala a boca senão os outros escutam, você não viu nada, quieta! Ela começou tremer e a ganir baixinho. Encostei a boca na sua orelha, Bico calado! repeti e beijei-lhe o focinho, Agora vai! Ela saiu correndo para o fundo do quintal. Quando voltei para o jasmineiro não vi mais nada, só as florinhas brancas no feitio das estrelas. Subi pela escada nos fundos da casa e entrei na cozinha. Maria embrulhava o peru assado no papel-manteiga. Andou sumida, ela disse e me encarou. Mas o que aconteceu, está chorando? Enxuguei a cara na barra do vestido, Me deu uma pontada forte no dente do fundo! Ela franziu a boca, Mas o dentista não chumbou esse dente? Espera que eu vou buscar a Cera do Doutor Lustosa, avisou mas puxei-a pelo braço, Não precisa, já passou! Ela abriu a sacola e enfiou dentro o peru:

- Então vamos lá.

Na calçada tomou a dianteira no seu passo curto e rápido, a cabeça baixa, a boca fechada. Fui indo atrás e olhando para o céu, Não tem lua! eu disse e ela não respondeu. Tentei assobiar, Nesta rua nesta rua tem um bosque e o meu sopro saiu sem som. Fomos subindo a ladeira em silêncio.

quarta-feira, janeiro 18

Labuta do leitor

Arando las palabras, creando literatura (ilustración de Lido Contemori)
Lido Contemori

A leitora

Ali está ela, atenta, a leitora.
Mas, repara: lê

como se levitasse.
O escrito pouco importa.

É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira

que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,

serena, não dá por isso.
Ou mais que:

não lê. Vê
as páginas,

como se da janela
a paisagem

e pousasse os olhos
na orla das páginas

sem saber
onde vão as palavras.

Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,

a árvore
que o livro foi um dia.

Eucanaã Ferraz

Dando um tempo

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“Hugo Grenville (British, b.1958)
”
Hugo Grenville

Razões científicas para ler mais do que lemos

O Brasil tem mais leitores a cada ano. Em 2011, eram 50% da população. Em 2015, eram 56%, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Contudo, isso também significa que 44% da população não lê. Ainda pior: 30% nunca comprou um livro. Alguns argumentos científicos, em especial da neurociência, podem ajudar a melhorar esses índices.

Precisa descrição?:
A leitura é um dos melhores exercícios possíveis para manter o cérebro e as capacidades mentais em forma. Isso é verdade porque a atividade de leitura exige colocar em jogo um importante número de processos mentais, entre os quais se destacam a percepção, a memória e o raciocínio. Quando lemos, ativamos principalmente o hemisfério esquerdo do cérebro, que é o da linguagem e o mais dotado de capacidades analíticas na maioria das pessoas, mas são muitas outras áreas do cérebro de ambos os hemisférios que são ativadas e intervêm no processo. Decodificar as letras, as palavras e as frases e transformá-las em sons mentais requer a ativação de grandes áreas do córtex cerebral. Os córtices occipital e temporal são ativados para ver e reconhecer o valor semântico das palavras, ou seja, o seu significado. O córtex frontal motor é ativado quando evocamos mentalmente os sons das palavras que lemos. As memórias evocadas pela interpretação do que foi lido ativam poderosamente o hipocampo e o lobo temporal medial. As narrativas e os conteúdos sentimentais do texto, seja ele ficcional ou não, ativam a amígdala e outras áreas emocionais do cérebro. O raciocínio sobre o conteúdo e a semântica do que foi lido ativa o córtex pré-frontal e a memória de trabalho, que é a que usamos para resolver problemas, planejar o futuro e tomar decisões. Está provado que a ativação regular dessa parte do cérebro desenvolve não apenas a capacidade de raciocinar, como também, em certa medida, a inteligência das pessoas.

A leitura, em última análise, inunda de atividade o conjunto do cérebro e também reforça as habilidades sociais e a empatia, além de reduzir o nível de estresse do leitor. A esse respeito, devemos destacar o excelente trabalho de revisão do romancista e psicólogo Keith Oatley, da Universidade de Toronto, no Canadá, recentemente publicado na revista científica CellPress, intitulado: Fiction: Simulation of Social Worlds (Ficção: Simulação de Mundos Sociais), que destaca que que a literatura de ficção é a simulação de nós mesmos em interação. Depois de uma rigorosa e elaborada revisão de dados e considerações sobre psicologia cognitiva, Oatley conclui que esse tipo de literatura, sendo uma exploração das mentes alheias, faz com que aquele que lê melhore sua empatia e sua compreensão dos outros, algo de que estamos muito necessitados. Essa conclusão ainda é avalizada por neuroimagens, ou seja, por dados científicos que exploram a atividade cerebral relacionada com esse tipo de emoções. A ficção que inclui personagens e situações complexas pode ter efeitos particularmente benéficos. Assim, e como exemplo, um trabalho recém-publicado mostra que a leitura de Harry Potter pode diminuir os preconceitos dos leitores.

Tudo isso sem falar na satisfação e no bem-estar proporcionado pelo conhecimento adquirido e como esse conhecimento se transforma em memória cristalizada, que é a que temos como resultado da experiência. O livro e qualquer leitura comparável são, portanto, uma academia acessível e barata para a mente, a que proporciona o melhor custo/benefício em todas as fases da vida, razão pela qual deveriam ser incluídos na educação desde a primeira infância e mantidos durante toda a vida. Cada pessoa deve escolher o tipo de leitura que mais a motiva e convém. As crianças devem ser estimuladas a ler com leituras adequadas às suas idades e os mais velhos devem providenciar toda a assistência que suas faculdades visuais necessitem para continuar lendo e mantendo seu cérebro em forma à medida que envelhecem. Uma razão a mais para que os idosos continuem a ler é a crença plausível de que não somos realmente velhos até que não comecemos a sentir que já não temos nada de novo para aprender.

Ignacio Morgado Bernal, diretor do Instituto de Neurociências da Universidade Autônoma de Barcelona

terça-feira, janeiro 17

Moradia ideal

Abraço contra gestão de OS em bibliotecas

Bibliotecários e outros servidores públicos de São Paulo irão realizar, no próximo dia 25, dia de aniversário da cidade, ato contra a privatização das bibliotecas públicas do município, com um “abraço” simbólico ao Centro Cultural São Paulo (CCSP), localizado na região central da capital. O protesto é contra uma declaração do secretário de Cultura, André Sturm, que no último dia 5 afirmou que o Centro Cultural e as 52 bibliotecas de capital passarão para a administração de organizações sociais (OS).


Segundo o secretário, seria “muito difícil” para a prefeitura fazer a gestão direta dos equipamentos. “Para poder contratar artistas tem que fazer uma série de procedimentos. É muito complexa a Cultura ligada na administração direta”, disse em entrevista coletiva. Os trabalhadores do sistema de bibliotecas municipais defendem que a privatização traz riscos de precarização das condições de trabalho e dos serviços oferecidos, além de dependência cultural.

A rede de bibliotecas municipais, considerada a maior da América Latina, é composta por 107 equipamentos, entre eles, 52 bibliotecas públicas de bairro e o Centro Cultural São Paulo, que conta com uma biblioteca referência em braile, discoteca e hemeroteca, além de biblioteca central. Todas correm o risco de serem privatizadas. De acordo com organizadores do evento, entre janeiro e junho de 2016 o sistema atendeu 518.496 pessoas, com 316.731 empréstimos num acervo de 2.473.823 materiais.

“Nos últimos anos, as bibliotecas se fortaleceram com as inaugurações da biblioteca de direitos humanos em Cidade Tiradentes e a biblioteca feminista em Guaianazes, com a reforma de bibliotecas temáticas e com a criação do fórum de trocas de experiências de ações culturais e de mediação de leitura em bibliotecas”, lembra o texto de convocação do ato.

A concentração está marcada para as 12 horas e 1.400 pessoas já demonstraram interesse em participar do protesto. “Precisamos sim de novos profissionais concursados, de mais editais de apoio à cultura, de formação continuada para os profissionais que já trabalham no setor. Mas a cultura é e precisa continuar sendo pública em constante diálogo governo-sociedade civil”, reclamam os profissionais.

domingo, janeiro 15

Jardineiro

 Pawel Kuczynski

Livros curam

Bem eu kkkk:
A biblioterapia é uma forma de psicoterapia de apoio na qual é sugerido ao paciente material de leitura cuidadosamente selecionado. A abordagem em Psicologia que mais utiliza a biblioterapia como recurso terapêutico é a Terapia Cognitivo-Comportamental, embora todas as outras escolas em Psicologia possam também fazer uso.

A biblioterapia tem sido utilizada em clínicas, hospitais, prisões, asilos, escolas, creches, empresas. É um recurso eficaz no desenvolvimento pessoal, interpessoal e no tratamento de problemas psicológicos em crianças, jovens, adultos, deficientes físicos, doentes crônicos e viciados.

Existem três tipos de literapia ou biblioterapia - termo mais utilizado: a de crescimento (cujo objetivo é divertir e educar), a factual (cujo objetivo é informar e preparar o paciente para o tratamento) e a imaginativa (cujo objetivo é explorar os sentimentos e tratar os problemas emocionais).

O princípio terapêutico é de que pensamentos e sentimentos estão interligados. Sendo que o primeiro tem uma certa ascendência sobre o segundo. Por isso, acredita-se que o processo de pensamento reflexivo estimulado pela leitura seja um prelúdio para a ação transformadora, modificando, por conseqüência, nossas reações emocionais. Quando mudamos o pensamento, ou seja, quando temos maior flexibilidade cognitiva, nossos sentimentos e emoções se estabilizam. Podemos dizer, portanto, que a depressão, por exemplo, não é uma disfunção emocional. A depressão é uma disfunção cognitiva. Normalmente, o depressivo interpreta a vida somente com uma visão altamente pessimista, destrutiva, calamitosa e sem saída, sentindo tristeza, desesperança etc. E, em realidade, a vida não tem somente este aspecto. Mudando esta formatação negativa do pensamento, enxergando outras opções de significados, passamos a ter emoções e sentimentos mais funcionais, que levam a uma melhor qualidade de vida.

A biblioterapia tem como principal objetivo permitir ao leitor verificar que há mais de uma solução para o seu problema.

Como recursos e benefícios terapêuticos, destacam-se:

- Aquisição de um conhecimento melhor de si mesmo e das reações dos outros, resultando em um melhor ajustamento à vida
- Introspecção para o crescimento emocional
- Ver objetivamente os problemas
- Afastar a sensação de isolamento
- Verificar falhas alheias semelhantes às suas
- Aferir valores
- Realizar movimentos criativos e estimular novos interesses
- Auxiliar o paciente a entender melhor suas reações psicológicas e físicas de frustração e conflito
- Ajudar o paciente a conversar sobre seus problemas, ajudando-o a verbalizar e exteriorizar suas angústias
- Favorecer a diminuição do conflito pelo aumento da auto-estima ao perceber que seu problema já foi vivido por outros
- Prestar auxílio ao paciente na análise do seu comportamento
- Proporcionar experiência ao leitor sem que o mesmo passe pelos perigos reais
- Reforçar padrões culturais e sociais aceitáveis
- Estimular a imaginação
- Aumentar a sensibilidade e a habilidade sociais
- Ajudar o indivíduo a se libertar dos medos, culpas e obsessões
- Proporcionar a sublimação por meio da catarse, e, levar o ser humano a um melhor entendimento de suas reações emocionais
- Prevenir o crescimento de tendências neuróticas
- Conduzir a uma melhor administração dos conflitos
- Proporcionar uma maior flexibilidade cognitiva, aumentando o horizonte de soluções e significados para seus acontecimentos

Talvez o único perigo que ocorra nas pessoas que se debruçam sobre um livro é a leitura de escape, na qual funciona como se fosse uma droga, aumentando o desejo de fugir da realidade, numa falsa imagem da vida, encontrada em certos tipos de literatura. Aqui existe uma polêmica que não é o nosso objetivo discutir.

Kennedy Martins

sexta-feira, janeiro 13

Leitura íntima

Xu Lei

A literatura e coisas talvez afins

A literatura é, dos distúrbios mentais, um dos mais persistentes. Se fosse um produto comercial, um bom lema para ela, talvez um pouco exagerado, poderia apregoar sua eficácia dos oito aos oitenta anos.

***
Um poeta, mesmo o mais velho deles, sempre pode, por uma dessas inesperadas florações do amor, estar andando por um parque, pegar o bloco para anotar um verso e com esse gesto provocar um alvoroço de borboletas amarelas.
***
comicgarten:
““ Sailor Moon
” ”
Perguntam-me o que deve ter um soneto. Simples. Dois quartetos e dois tercetos ou, na forma shakespeariana, três quartetos e um dístico final. Só? Basicamente isso. E principalmente a extraordinária coragem de se mostrar e a resignação cristã de suportar vaias, deboches e até ameaças. Um soneto é o lirismo pendurado num poste e malhado num sábado, como Judas.

***
Se tirassem de sua lista o amor, o poeta não teria outro caminho senão reforçar sua aliança com as estrelas, as flores e os passarinhos.

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O amor é um velhaco que nos esvazia o bolso e nos enche o saco.

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Tudo bem, você se gaba de nunca ter se ajoelhado diante do Amor. Eu me orgulho da dor que sinto ainda hoje nos joelhos, toda vez que os apalpo.

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Diante do Amor devemos curvar-nos. Sabemos já que ele não é o que imaginávamos, mas, se nos descartarmos também dessa ilusão, a maior, viveremos de quê e para quê?

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Aviso na porta: “Se não vens me falar do amor (bem ou mal), melhor é nem entrares.”
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Como eu gostaria de voltar a ser aquele idiota caminhando certa manhã pela Paulista, sorrindo para o sol e sendo retribuído.

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Um bom exercício poético é soprar as nuvens cor-de-rosa para além do horizonte, preparando a tarde para que a noite estenda sobre ela seu tapete e se deite com seu vestido estrelado.

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Toda mulher hábil no manejo de um chicote há de ter os lábios adequados para soprar feridas.

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Você não precisa do atestado de louco para ingressar na literatura. Em pouco tempo ela lhe providenciará um, lavrado pela mesma esmerada letra em que qualquer grafólogo reconhecerá traços iguais aos encontrados nos manuscritos de Satanás.

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Ao poeta cabe manifestar-se sobre o que é de sua alçada: a lua, as flores, o amor. Talvez algo mais, talvez mais nada.

Raul Drewnick

quinta-feira, janeiro 12

Leitura compartilhada

Compartiendo lectura? (ilustración de Alfredo Cáceres)
Alfredo Cáceres

Número não é importnte

19 de dezembro (1920) - Dei um grande passo quando finalmente percebi que ser um leitor não é ter lido muitos livros, mas ler bem, de forma inteligente. Não ter preocupação com o número de volumes, mas ser o condutor da própria leitura, certificar-se de que esses livros não tenham mais segredos para você
Julien Green

quarta-feira, janeiro 11

Fome noturna

Je mange des livres, Tim Foley:
Tim Foley

De onde vêm?

Pense bem. De onde é que as palavras vêm? Elas vêm dos mortos. Nós as herdamos. Tomamos emprestadas. 
Somos lo qu leemos (ilustración de Gianni de Conno)
 Gianni de Conno
Fazemos uso delas por um tempo a fim de trazer os mortos à vida.Os gregos antigos acreditavam que, sempre que você lia em voz alta, na verdade eram os mortos que pegavam a sua língua emprestada para falar outra vez
Ruth Ozeki, " A terra inteira e o céu infinito" 

Ciclovia da leitura

Pedaleando con los libros (ilustración de Hellen Keller)
 Hellen Keller

As tias solteiras

Quando eu era criança, havia certa compaixão pelas mulheres sem filhos. As que eram casadas e não tinham rebentos recebiam abertamente um olhar de pena, e ainda se ouviam frases como “Deus não quis abençoá-las com essa alegria” ou “Coitadinha, vejam o quanto tentou e não tem jeito”. Em diversos ambientes e estratos da sociedade, acreditava-se piamente na absoluta doutrina da Igreja Católica imperante na Espanha: a de que a função do casamento era a procriação, e que deviam receber com gozo ou estoicismo (segundo o caso) todas as crianças que chegassem; que era não apenas normal, mas também recomendável, que qualquer mulher, uma vez com descendentes, deixasse de lado sua carreira e seu trabalho para se entregar à criação de corpo e alma. Que grande serviço à sociedade.

As mulheres solteiras (“solteironas”, como eram chamadas) já não recebiam olhares de comiseração nem lástima, mas sim uma mistura de reprovação e menosprezo. O deprimente é que nestes tempos de tantas regressões (de direita e supostas esquerdas), algo disso está sendo retomado. Volta-se a reivindicar que as mulheres se consagrem aos filhos e abandonem seus outros interesses, com o agravante de que já não é uma pressão externa (a Igreja não tem o poder de antes, e o Estado não facilita a maternidade: ao contrário), mas proveniente de numerosas mulheres que, achando-se “progressistas” (!!!), defendem “o natural” com unhas e dentes, sem saber que o natural sempre é primitivo, quando não meramente irracional ou animalesco. Hoje proliferam as chamadas "mamães enlouquecidas”, que decidem viver escravas de seus pequenos e não falam de outra coisa a não ser deles.

Zois Shuttie
Zois Shuttie
E, claro, adotam um ar de superioridade – também “moral” – com relação às desgraçadas ou egoístas que não seguem seu exemplo obsessivo, como se estas fossem seres inúteis e não solidários, quase marginais, e certamente “incompletos”. As mais ilustres entre seriam as tias solteiras, mas não só: também as amigas, companheiras e madrinhas solteiras, que as mamães malucas acabam vendo como apêndices de suas vidas. Eu as observo e aprecio, essas solteiras sem filhos, desde minha infância. E penso, ao contrário, que são essenciais. Quem merece lástima são as crianças que não têm nenhuma delas por perto. A maioria das que conheci e conheço são de uma generosidade sem limite e amam essas crianças próximas de maneira absolutamente desinteressada. Como não são suas mães, não se atrevem a esperar reciprocidade nem têm sentimento de posse. Mostram-se dispostas a ajudar economicamente, a estender a mão no que for preciso, a dividir tarefas e responsabilidades de suas irmãs ou amigas. Com frequência, dispõem de mais tempo que os pais para dedicar aos meninos, inclusive ajudando-os nos estudos com paciência e prazer; em boa medida, são elas que os educam, que lhes contam as velhas histórias familiares, que contribuem decisivamente para que os pequenos se sintam amparados. Muitas dessas mulheres da minha vida são mais risonhas e despreocupadas, ou misteriosas, mais liberais que os pais, e portanto inspiram maior confiança. Meus pais tinham bastantes mulheres próximas dos filhos: minha tia Gloria ou Tina (ela sim, casada) era uma fonte de diversão constante, e ainda é aos 90 anos. María Rosa Alonso, Mercedes e Carmen Carpintero, María Antonia Rodulfo, Luisa Elena del Portillo, Maruja Riaza, Mariana Dorta, Olga Navarro, todas elas nos alegravam, a mim e meus irmãos, quando chegavam em casa. Traziam um ar de menor severidade, de benevolência, nos escutavam sem nos asfixiar, nos ensinavam.

E também havia algumas figuras ainda mais modestas em suas pretensões. Leo (Leonides era seu nome) foi nossa babá durante anos. Era uma mulher sorridente e de espírito infantil, no melhor sentido da palavra. Contava-nos contos loucos, enganava-nos para nos divertir, brincava conosco em igualdade de condições, ria muito. Eu lhe dediquei um artigo em sua morte, em 1997. Teve que ir embora para ajudar um irmão que a submetia um pouco. Mas quando os meus irmãos tiveram filhos, ela ia lá em casa aos domingos. Num segundo plano, como que sem se atrever a lhes dedicar de imediato o mesmo afeto que destinou aos meus sobrinhos (“os meninos de seus meninos”), vi olhares incomparavelmente amorosos, com um elemento de involuntária pena em seus olhos. Não a da inveja, nem a de se sentir sobrando, absolutamente. Com seu espírito ingênuo e carinhoso, curtia de novo a companhia dos seus iguais, meninos travessos e engraçados. Mas talvez soubesse que o irmão exigente acabaria afastando-a de novo, e que na memória de seus adorados ela seria só outro personagem sem importância. Para mim não é, como tampouco são as “tias solteiras” que mencionei. Sei da importância que tiveram e tenho por elas uma profunda gratidão. Não tenham dó nem as subestimem nunca. Vocês sentirão saudade delas.