domingo, março 26

Leitura, segundo André Kertész

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Entre 1920 e 1970, o fotógrafo húngaro André Kertész registrou pessoas lendo em várias partes do mundo. As fotos fazem parte do livro "On Reading"

Relegado ao pó

Magictransistor: "James Collins, depois de Cornelis Bloemaert (1625);  Coruja que desgasta os espetáculos da leitura pela luz de vela (woodcut), Inglaterra, cerca de 1685. "
James Collins (cerca de 1685)

O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo
António Lobo Antunes

Pra não cochilar na leitura

Victor Chizhikov
Victor Chizhikov

Um pouco de silêncio

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.

Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
Léon-Jean-Basile Perrault, 
“Méditation”
O normal é ser atualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.

Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsteres que se alimentam da sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de actividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal-resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projectos e sonhos?

No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distracção.

O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.

Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse:

— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

Lya Luft

sábado, março 25

Para aviso do fim de semana

Vagões do fracassado Trem do Pantanal vão virar bibliotecas

Dois vagões do Trem do Pantanal que não eram usados há quase três anos, desde o fim da rota turística em 2014, serão transformados em uma biblioteca em Aquidauana, a 135 quilômetros de Campo Grande. Nessa terça-feira (22) eles foram guinchados e levados de caminhão para o município, onde serão revitalizados.

A atração administrada pela paranaense Serra Verde Express foi inaugurada em 2009. A primeira viagem comercial foi um prelúdio do fracasso: 40% dos assentos foram ocupados.

Entre os motivos que levaram ao fracasso do projeto, primeiro está a rota, que não chegava a Corumbá como a linha original que rodou entre as décadas de 1960 e 1980. Em segundo lugar a velocidade da composição, que era lenta e tornava a viagem cansativa.

O empresário da Serra Verde Adonai Aires disse ao Campo Grande News que parte dos vagões foram cedidos pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e o restante pelo Governo do Estado. Todos foram devolvidos quando as operações foram encerradas.

Athayde Nery, secretário estadual de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação, diz que o projeto da biblioteca partiu da prefeitura de Aquidauana e os vagões usados são aqueles do Governo Federal. O Estado acompanhou as negociações para cedência e tentará ajudar comprando livros para serem colocados quando o empreendimento estiver pronto.

Os vagões já foram colocados em um terreno onde serão transformados em biblioteca. O local será mantido por uma instituição de Aquidauana. O espaço antes funcionava em um prédio alugado.

Fonte:  Campo Grande News

Marcador inteligente

Viúva na praia

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva.

0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. a gente se cumprimentava às vezes, murmurando “bom dia”; era um homem forte, de cara vermelha; as poucas vezes que o encontrei com a mulher ele não me cumprimentou, fazia que não me via; e eu também. Lembro-me de que uma vez perguntei os horas ao garçom, e foi aquele homem que respondeu; agradeci; este foi nosso maior diálogo. Só ia à praia aos domingos, mas ia de carro, um “Citroen”, com a mulher, o filho e a barraca, para outra praia mais longe. A mulher ia às vezes à praia com o menino, em frente à minha esquina, mas só no verão. Eu passava de longe; sabia quem era, que era casada, que talvez me conhecesse de vista; eu não a olhava de frente.

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.

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E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.

Se eu fosse casado, e morresse, gostaria de saber que alguns dias depois minha viúva iria à praia com meu filho — foi isso o que pensei, vendo a viúva. É bem bonita, a viúva. Não é dessas que chamam a atenção; é discreta, de curvas discretas, mas certas. Imagino que deve ter 27 anos; talvez menos, talvez mais, até 30. Os cabelos são bem negros; os olhos são um pouco amendoados, o nariz direito, a boca um pouco dentucinha, só um pouco; a linha do queixo muito nítida.

Ergueu-se, porque, contra suas ordens, o garoto voltou a entrar n’água. Se eu fosse casado, e morresse, talvez ficasse um pouco ressentido ao pensar que, alguns dias depois, um homem — um estranho, que mal conheço de vista, do café — estaria olhando o corpo de minha mulher na praia. Mesmo que olhasse sem impertinência, antes de maneira discreta, como que distraído.

Mas eu não morri; e eu sou o outro homem. E a idéia de que o defunto ficaria ressentido se acaso imaginasse que eu estaria aqui a reparar no corpo de sua viúva, essa idéia me faz achá-lo um tolo, embora, a rigor, eu não possa lhe imputar essa idéia, que é minha. Eu estou vivo, e isso me dá uma grande superioridade sobre ele.

Vivo! Vivo como esse menino que ri, jogando água no corpo da mãe que vai buscá-lo. Vivo como essa mulher que pisa a espuma e agora traz ao colo o garoto já bem crescido. 0 esforço faz-lhe tensos os músculos dos braços e das coxas; é bela assim, marchando com a sua carga querida.

Agora o garoto fica brincando junto à barraca e é ela que vai dar um mergulho rápido, para se limpar da areia. Volta. Não, a viúva não está de luto, a viúva está brilhando de sol, está vestida de água e de luz. Respira fundo o vento do mar, tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses. Vendo seu homem se finar; vendo-o decair de sua glória de homem fortão de cara vermelha e de seu império de homem da mulher e pai do filho, vendo-o fraco e lamentável, impertinente e lamurioso como um menino, às vezes até ridículo, às vezes até nojento…

Ah, não quero pensar nisso. Respiro também profundamente o ar limpo e livre. Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva de ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. 0 sol brilha também em seu joelho. O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva.
Rubem Braga

sexta-feira, março 24

É mágico!

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Mais da metade dos brasileiros lê livros uma vez por semana

 Michael Mao
Levantamento realizada pela empresa de pesquisa GfK constatou que mais da metade (53%) dos brasileiros lê livros ao menos uma vez por semana. A divisão é a seguinte: 26% declaram ler diariamente e 27% uma vez por semana. A média brasileira é inferior à verificada em outros 17 países, de 59%.

No Brasil, o levantamento aponta que as mulheres leem mais vezes que os homens. Os adolescentes, na faixa etária de 15 a 19 anos, são o segmento que mais lê semanalmente, seguido do público que tem entre 20 e 29 anos.
Fonte: Época

Descoberta da leitura

Descubriendo la lectura… por casualidad (ilustración de Martijn van der Linden)
Martijn van der Linden

Assim começa o livro

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Compro o quinto volume da correspondência de Machado de Assis na manhã do dia 24 de junho de 2015. Datas-limite definem e recobrem o material anotado com competência por especialistas e publicado pela Academia Brasileira de Letras: 1905-1908. Se recortada, a curta fração de tempo ganha o formato de ponto de interrogação e sobressai de forma agressiva e incontornável. Os nove caracteres — oito algarismos unidos  quatro a quatro por traço — vêm impressos em negro na capa que guarnece cartas e mais cartas de Machado de Assis e de seus correspondentes. É inestimável a valia do volume para o estudioso da literatura ou para o simples observador da história nacional no início do século xx. Lá dentro, entre 1905 e 1908, se desenrola o cotidiano dos últimos anos de vida do grande romancista brasileiro que nasce na corte imperial em 1839. Passa toda a vida na metrópole, com curta estada em Petrópolis e em Nova Friburgo, e vem a falecer no bairro do Cosme Velho, em setembro de 1908, viúvo da portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, e sem filhos.

Fixo os olhos no lado de fora do volume. Aprecio a curta fração de tempo que acoberta a reta final duma compacta e misteriosa vida profissional, vivida de modo a realçar os valores nobres que uma nação formada por indígenas, conquistadores lusitanos, escravos africanos e colonos europeus pode manifestar no Novo Mundo. Salienta-se a reta final duma vida bem tecida com amizades e amor, de muito trabalho e muito sofrida.

quinta-feira, março 23

Para todo o mundo


Pawel Kusinsky

Para entender o abismo

Talvez uma biblioteca não seja um paraíso (este território idílico e perfeito), mas é seguramente um refúgio a todos que buscam se interrogar sobre si mesmo e sobre o mundo que nos rodeia. Como diz a poeta polonesa Wislawa Szymborska: “O abismo não nos divide. O abismo nos cerca”.
 
E para tentar entender este abismo, nada melhor que percorrer os corredores e estantes de uma biblioteca
Rogério Pereira 

Livro em grafite

                                         Rua Natália Correia (Lisbon)

O livro

Thiago Salcedo
“o livro que alguém deixa cair ao adormecer
continua aberto,
como se ferido por um tiro”
Thomas Transtömer


O livro que alguém deixou cair
ao adormecer
continua aberto
ave abatida no voo
caída
com as asas abertas
ao pé da cama
o livro que alguém deixou
cair
crucificado
ao lado da cama
permanece acordado
ou cai também no sono
e sonha também
embaralhando as linhas
sonha que é pássaro
ou parede
sonha que lhe devolvem
a brancura original
que pode enfim não dizer nada
sonha que fala numa língua sem língua que todos entendem
sonha que conhece a água sem a destruição
sonha que as palavras se arruínam mas ele mesmo não se arruína
sonha que é de novo árvore, de novo floresta
sonha de novo suas ramas, sua seiva, suas flores
sonha que é uma vela aberta
que o outono alcança também
as folhas dos livros
sonha que doura ao sol
sua pele de papel
o livro que alguém deixou
cair
ao lado da cama
partitura para música
nenhuma
mapa para
nenhum lugar
caído no sono
do seu próprio peso
continua aceso
como uma lâmpada esquecida acesa
ao lado da cama
Ana Martins Marques

quarta-feira, março 22

Liberdade

Abre el libro y deja que vuelen las palabras (ilustración de Carlos Cubeiro)
Carlos Cubeiro

Sempre recomendável

blue-storming:
“Franz Eybl, Girl Reading, 1850
”
Franz Eybl
A leitura tem um drama. Ela é tão extraordinária, ler é tão revolucionário, que modifica a sua cabeça, afeta o seu coração, alarga os seus sentidos, o seu sexo...
Nélida Piñon

Noite de bons sonhos

Bedtime reading.  © Annette Fienieg (Artist. Utrecht, Holland) Prints, books, cards and hand painted t-shirts available at her site. Night scene. Boy reading by flashlight in a hammock ... Give credit where due. Pin from the Primary Source. Artists need to make a living too.:
Annette Fienieg

Assim começa o livro...

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Tudo começa sempre com um adeus. Esta história principia por um desfecho: o da minha adolescência Aos quinze anos, numa pequena canoa, eu deixava para trás a minha aldeia e o meu passado. Algo, porém, me dizia que, mais à frente, iria reencontrar antigas amarguras. A canoa afastava‑me de Nkokolani, mas trazia para mais perto os meus mortos.

Há dois dias que tínhamos saído de Nkokolani subindo até à nascente do rio em direção a Mandhlakazi, terra que os portugueses chamavam de Manjacaze. Viajávamos com o meu irmão Mwanatu à frente e o meu velho pai na popa. Na canoa seguiam, além dos meus familiares, o sargento Germano de Melo e a sua amiga italiana Bianca Vanzini.

Sem pausa, os remos golpeavam o rio. E tinha que ser assim: conduzíamos Germano de Melo ao único hospital em toda a região de Gaza. O sargento vira as mãos despedaçadas num acidente de que eu fora responsável. Disparara sobre ele para salvar Mwanatu que caminhava à frente de uma multidão prestes a assaltar o quartel defendido pelo solitário Germano.

Era imperioso apressarmo‑nos para Mandhlakazi, onde trabalhava o único médico em toda a nossa nação: o missionário Georges Liengme. Os protestantes suíços escolheram com critério um local para erguer o hospital: junto da corte do imperador Ngungunyane e longe dasautoridades portuguesas.

O remorso pesou sobre mim durante toda a viagem. O tiro desfizera uma boa parte das mãos do português, aquelas mesmas mãos que eu, tantas vezes, ajudara a renascer dos delírios que o afligiam. Os másculos dedos com que tanto sonhara tinham‑se evaporado.

Durante todo o caminho mantive os pés submersos no fundo encharcado da canoa, onde a água havia‑se tingido de vermelho. Diz‑se que morremos por perder sangue. É o inverso. Morremos afogados nele.