sábado, fevereiro 25

Poligamia


Descoberto romance esquecido de Walt Whitman

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Ao chegar ao capítulo 19, testemunhamos um “momento mágico”, diz Ed Folsom, editor da Walt Whitman Quarterly Review. É o momento em que o protagonista do romance entra no cemitério da Trinity Chruch, em Manhattan, e em que a narrativa se suspende para dar lugar a reflexões poéticas sobre a natureza e a imortalidade, enquanto Jack, o protagonista, observa as lápides daqueles que ali pereceram. Naquele momento, diz Zachary Turpin, investigador da Universidade de Houston, vemos como Walt Whitman experimentava com os géneros, a caminho de se descobrir enquanto o grande poeta de Folhas de Erva. Turpin é o responsável por podermos agora aperceber isso mesmo. Foi ele que redescobriu Life and Adventures of Jack Engle, romance esquecido de Whitman.

Publicado no New York Daily Times, agora New York Times, em 1852, quando Walt Whitman contava 32 anos, o romance é uma história dickensiana com um órfão como protagonista, à volta do qual pululam um advogado sem escrúpulos, políticos interesseiros, comunidades Quakers e outras figuras da Nova Iorque de meados do século XIX. “É a abordagem de Whitman à ‘city mystery novel’, um género popular na época, que colocava em confronto os ’10 mil de cima’ – aquilo a que chamaríamos hoje o 1% – contra o milhão de baixo”, explicou ao New York Times David S. Reynolds, da Universidade Nova Iorque, um especialista na obra do poeta.

O romance foi descoberto no Verão por Zachary Turpin, recorrendo às bases de dados online que coligem toda a diversidade de publicações americanas do século XIX. No ano passado, Turpin revelara outro inédito de Whitman, um ensaio sobre como manter a saúde e a boa forma física intitulado Manly Health and Training (1858). Turpin chegou ao romance ao seguir a pista descoberta num extenso catálogo das obras publicadas, planeadas, completas ou deixadas em rascunho por Whitman. Numa entrada, deparou-se com nomes de personagens sem relação com nenhuma obra conhecida do escritor. Um pequeno anúncio publicado no New York Daily Times em 1852, anunciando para o domingo seguinte o início da publicação do romance, desvendou o mistério.

Zachary Turpin explica que Life and Adventures of Jack Engle foi escrito na mesma altura em que Whitman trabalhava em Folhas de Erva, que seria publicado em 1855. “O Whitman que encontramos em Jack Engle não é ainda o poeta confiante e empenhado que julgamos agora que sempre foi. É durante este período vital que ele experimenta, que tenta diferentes géneros e formas de expressão, procurando um que seja amplo e expansivo o suficiente para expressar aquilo que [Ralph Waldo] Emerson chamaria ‘a infinitude do homem no seu íntimo’”.

Fonte: Público

Leitura do lixo

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André Kertész (1894-1985)

Foi num Carnaval que passou...

Nos diversos bairros de Santos, seja na orla ou na periferia, o som que preenche o ar é o das 55 bandas que desfilam pelas ruas, resgatando parte dos antigos carnavais. São foliões da comunidade, fantasiados ou não, às vezes, famílias inteiras, que percorrem a pé alguns quarteirões acompanhados por um caminhão de som, a entoar velhas marchinhas e músicas de agrado popular transformadas em hits carnavalescos. Vão se apresentar até a Terça-feira Gorda, embora o Carnaval oficial, das escolas de samba, tenha acontecido precocemente. Foi antecipado e, por isso, já na terça passada, acontecia a apuração das agremiações vencedoras, sagrando-se campeã de 2017 a X-9, conhecida por aqui como “A pioneira”.

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Carybé
Já fui grande apreciadora da folia, a ponto de, durante o reinado de Momo, brincar nos salões todas as matinés e noites, em companhia das primas, sob a guarda dos tios. Após a maratona, na Quarta-feira de Cinzas amanhecíamos todas roucas, subnutridas e resfriadas, porque comer e dormir eram perda de tempo, ainda não havia ar condicionado nos clubes e, depois de pular e cantar horas seguidas, ao voltarmos com a fantasia molhada de suor, apanhávamos o vento frio da madrugada, indiferentes ao cansaço.

Mas, praticamente já não existem bailes de Carnaval nos clubes e os clubes tornaram-se tão diferentes daqueles que frequentei que, para quem ainda festeja estes alegres dias, restaram as bandas como consolo. Elas ainda enternecem pela singeleza e ingenuidade.

Também há muito, deixou de acontecer o Corso, quando carros particulares desfilavam pela avenida da praia, promovendo guerras de confete, serpentina, talco, café, farinha, lança-perfume, baldes de água e tudo o que pudesse ser lançado em quem fizesse parte da carreata (nome que também não existia). As garotas, eu entre elas, desfilavam sobre o capô; os rapazes promoviam a batalha em plena rua; os pais dirigiam pacientemente, porque os carros não ultrapassavam os 5 km por hora; as mães avaliavam a sujeira que levaríamos para casa, quando tudo terminasse.

Não havia qualquer preocupação com o politicamente correto, inclusive, o desperdício de alimentos. Éramos felizes, sem roupas provocantes ou gestos obscenos, sem agressões físicas e, muito menos, assaltos. Mais adiante, também deram fim ao tradicional Banho da Dona Doroteia, quando marmanjos vestidos de mulher – muitas vezes, com roupas de papel crepom ou emprestadas pela mãe ou irmãs, iam em bando dançar e cantar marchinhas na areia e encerravam a festa com um insólito banho de mar.

Lembro de tudo isso com muito carinho, porque o Carnaval de então era risonho e franco. Hoje, já não me interesso pelo desfile oficial que, banido para um sambódromo distante, estabelece concurso com prêmio em dinheiro e separa as escolas de samba em categorias, gerando uma acirrada competição entre elas. E tenho que reconhecer que as bandinhas dos bairros, acessíveis aos olhos e ouvidos, são melancólicos arremedos do que foi brincar, um dia.

Madô Martins

sexta-feira, fevereiro 24

Bombardeio à moda antiga

 :  

Dica para os dias de Carnaval

Leituras proibidas (Almeida Júnior), 1887
Amar a leitura é trocar horas de tédio por horas de inefável e deliciosa companhia
John Fitzgerald Kennedy

Preparado para a aventura

Aventúrate a leer! (ilustración de Dale Edwin Murray)
Dale Edwin Murray

Memória cultural do país

Costuma-se dizer que são os valores culturais que fundamentam nossas identidades nacionais. Um povo identifica-se enquanto povo a partir do compartilhamento de um conjunto de traços espirituais e materiais que abrangem artes e letras, modos de vida, sistemas de valores, tradições e crenças. Historicamente, as bibliotecas nacionais foram constituídas como instituições depositarias das tradições, da memória e da produção intelectual de um pais.

Tomando emprestado o conceito do historiador Pierre Nora de “lugar de memória”, nossa BN assume um protagonismo ímpar no âmbito da história e da cultura brasileira. Reunindo um vasto patrimônio bibliográfico e documental, é considerada pela Unesco uma das dez maiores bibliotecas nacionais do mundo, sendo a maior da América Latina. Sua formação remonta aos primórdios da emancipação do Brasil da condição de colônia de Portugal. Fundada por Dom João VI em 1810, quando da transferência da corte para o Rio de Janeiro, seu acervo teve origem na valiosa Real Biblioteca da Ajuda de Lisboa. Entre livros, manuscritos, incunábulos, gravuras, desenhos e mapas foram trazidos para o Brasil mais de 60 mil itens. Posteriormente, a coleção foi comprada por Dom Pedro I por 800 mil réis, conforme o tratado de Amizade e Aliança entre Brasil e Portugal firmado em 1825.

Ao longo dos anos, este acervo não parou de crescer seja pela aquisição de coleções, assinatura de periódicos ou pela aplicação da Lei do Depósito Legal, que determina a remessa à BN de um exemplar de todas as publicações produzidas em território nacional, por qualquer meio ou processo. O correto cumprimento desta lei atende à missão institucional da BN de preservar e difundir conhecimento e cultura permitindo, também, um efetivo controle bibliográfico da produção editorial brasileira.

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A necessidade de conservar, ampliar e democratizar o acesso aos acervos é, sem dúvida, o grande desafio enfrentado pelos gestores de bibliotecas nacionais. No topo deste triangulo inscreve-se o desafio de ampliar o acesso a um número cada vez maior de pessoas, ao patrimônio documental e bibliográfico do pais. O programa Biblioteca Digital é a face mais visível desta missão. Lançada em 2006 com mais de três mil documentos digitais, a BNDigital oferece hoje livre acesso a mais de um milhão e meio de documentos, entre livros, fotografias, mapas, manuscritos, periódicos e outros. A rede contabiliza mais de 500 mil pesquisas por mês, o equivalente a três milhões de páginas acessadas.

Além de ampliar o universo de programas gerenciados pela BN Digital (Brasilianas Fotográfica e Iconografica, Hemeroteca Digital entre outros ), acreditamos ser cada dia mais relevante o estabelecimento de novas parcerias nacionais e internacionais capazes de estimular o “compartilhamento de recursos”. Hoje, mais do que nunca, a BN não pode confinar-se nela mesma. Precisa e deve ampliar diálogos com instituições nacionais e internacionais que permitam o compartilhamento recíproco de registros bibliográficos.

É na multiplicidade de suas ações que a Biblioteca Nacional reafirma o seu caráter único de instituição encarregada de reunir para gerações futuras a memória cultural do país. Essa, aliás, é a missão que a distingue das demais bibliotecas e que a faz figurar no elenco dos grandes patrimônios culturais do Brasil. Projetando um futuro próximo, acreditamos que, graças a opções políticas claras, a instituição poderá ocupar papel central no cumprimento da missão constitucional de “assegurar a todos os cidadãos, independentemente de sua condição social ou de seu meio geográfico, o pleno exercício ao direito à informação.”

Helena Severo, presidente da Fundação Biblioteca Nacional

quinta-feira, fevereiro 23

Esconde-esconde

Escondida entre los libros. Me pierdo leyendo… (ilustración de Marjorie Pourchet)
 Marjorie Pourchet

O fazedor

Nunca se tinha demorado nos prazeres da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o vermelhão de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, de onde tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de rasgar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza o mel mitigava podiam abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror, mas também a cólera e a coragem, tendo sido uma vez o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, casual, sem outra lei que a do gozo e da indiferença imediata, andou pela terra vária e olhou, numa e noutra margem do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou no sopé de uma montanha de cume incerto, onde bem podia haver sátiros, tinha escutado complica­das histórias que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas.

Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estre­las, a terra era insegura sob os seus pés. Tudo se afastava e confundia. Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. «Já não verei — percebeu — nem o céu cheio de pavor mitológico, nem esta cara que os anos transformarão.» Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moe­da sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho.

Piano Concerto No. 1 in E minor, Op. II - Romanza, 
de Frederic Chopin, com a Slovak Symphony Orchestra

A recordação era assim. Outra criança havia-o insultado e ele fora ter com o seu pai e tinha-lhe contado a história. Este deixou-o falar como se o não ouvisse ou compreendesse e despendurou da parede um punhal de bronze, belo e carregado de poder, que a criança tinha furtivamente cobiçado. Agora segurava-o nas mãos e a surpresa da posse anulou a injúria sofrida, mas a voz do pai dizia: «Que alguém saiba que és um homem», e havia uma ordem na voz. A noite cegava os caminhos; abraçado ao punhal, em que pressentia uma força mágica, desceu a brusca ladeira que rodeava a casa e correu até à beira-mar, julgando-se Ájax ou Perseu e povoando de feridas e batalhas a obscuridade salobra. O que procurava era o preciso sabor daquele momento; não lhe importava o resto: as afrontas do desafio, o torpe combate, o regresso com a lâmina ensanguentada.

Outra recordação, em que também havia uma noite e uma iminência de aventura, brotou daquela. Uma mulher, a primeira que lhe enviaram os deuses, tinha-o esperado na sombra de um hipogeu, e ele procurou-a por galerias que eram como redes de pedra e por declives que se afundavam na sombra. Porque lhe chegavam essas memórias e porque lhe chegariam elas sem amargura, como uma mera prefiguração do presente?


Com grave assombro compreendeu. Nessa noite dos seus olhos mortais, onde agora descia, aguardavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deu­ses não salvarão e de baixéis negros que procuram no mar uma ilha querida, o rumor das Odisseias e Ilíadas que era seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memória humana. Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao descer à última sombra.
Jorge Luis Borges

quarta-feira, fevereiro 22

O que a leitura nos faz

maorisakai:
“ Lovely Lazy Sunday ♡
- Personal work -
”

Alto Verão

As nevascas no Hemisfério Norte viraram notícia outra vez. Têm sido terríveis. E argumento para os que defendem ou desprezam a mudança climática global. Para uns, é apenas outro sinal da catástrofe, agora se manifestando com o frio; para outros, uma prova de que o clima continua o mesmo de sempre, às vezes mais seco, às vezes mais úmido. Discussões à parte, olho para nosso calorzinho, essa delícia que desfrutamos no verão, no outono, no inverno e na primavera, uma vez mais bendigo os trópicos. O calor aqui está sempre presente, mesmo quando chove.

Entre Lápis e Pincéis: Gobugi:
Comparemos nosso clima com o do Canadá, por exemplo. Lá o frio impera, e o inverno assusta. Em Calgary, certa vez peguei 32 graus abaixo de zero. Isso mesmo, 32 negativos. Sonhei com o Brasil naquela hora, receoso de virar picolé e, qual nos desenhos animados, trincar feito vidro. A cada quarteirão que andava, entrava depressa numa loja para me aquecer, saía, corria pela rua até outra loja salvadora, quentinha. No entanto, vi uma japonesa desfilar de minissaia. Que mágica fazia ela se, num freezer desses, até os carros precisam de aquecimento? Nas vagas de estacionamento, há tomadas elétricas para manter líquida a água do motor e possibilitar a partida, do contrário mesmo a gasolina corre o risco de congelar. Até as cachoeiras se petrificam e lembram lágrimas de vela pairando no espaço.

Perto de Calgary, em Banff, após uma semana de nevascas em abril, a temperatura de repente subiu para 20 graus acima de zero, e a primavera chegou de um dia para o outro. Em quarenta e oito horas, o lago sobre o qual eu caminhara descongelou e virou uma coleção de pequenos icebergs. Ao explorar a mata ao redor, tive de fugir em disparada, pois um urso recém-saído da hibernação parecia me confundir com comida. Como as pessoas conseguem viver num lugar desses?

No entanto, alguns canadenses me fizeram a pergunta inversa: como suportamos o calor brasileiro? Alegaram que derreteriam nos trópicos.

Examino a temperatura de nosso alto verão, sinto o conforto de quem não precisa de agasalho, sequer de se refugiar em lojas, concluo que o paraíso, se não fica aqui, montou uma filial no Brasil. Nosso calor tem a medida certa. Mesmo que alguns canadenses não o apreciem, mata de inveja a maioria deles. Como adorariam viver aqui…

Luís Giffoni

terça-feira, fevereiro 21

Ler na escola

 :
A criação de um Plano Nacional de Leitura – o nosso PNL, mas também muitos outros espalhados pelo mundo (lembro-me, por exemplo, de un Plan de Lectura na Argentina) – é fundamental, antes de mais, para que todos os alunos, venham de onde vierem, possam aceder ao livro em igualdade de oportunidades. Isso, para mim, é o mais importante, pois todos sabemos que há famílias que não têm um único livro em casa e que, se não for a escola a disponibilizá-los, muitas crianças não poderão ler livros e experimentar o prazer da leitura. Claro que o aconselhamento de certas obras para determinado grau de ensino ou idade é interessante, mas não deve ser tomado como um espartilho: não há ninguém que conheça melhor o nível intelectual ou os hábitos de leitura de uma turma como o seu próprio professor e, assim sendo, a lista de recomendações de um Plano de Leitura (cá, lá e em toda a parte) deveria ser apenas um guia de sugestões. Muitas vezes, porém, não é. E porquê? Pois, agora vou chegar à parte difícil. É que há mesmo muitos professores que não lêem absolutamente nada e, quando têm de propor a leitura de uma obra aos seus alunos, imediatamente consultam a lista pois não saberiam de outro modo o que aconselhar. Li um artigo sobre o assunto, em que uma coordenadora de leitura, no Brasil, foi a uma escola em que os professores não tinham a mínima ideia de como motivar os alunos para a leitura; e, quando ela lhes pediu que trouxessem um livro de que tivessem gostado e falassem dele, bem… percebeu que não tinham lido nenhum livro nos últimos dois anos. Será que os Planos de Leitura de todo o mundo não deveriam também sugerir obras a professores?

Passeio om leitura

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Cabeça de poeta

anita-klein-australia-1960-os-novos-oculos-de-leitura-gravura-60-x-40-cm
Anita Klein
Livro aberto tu encontras
na cabeça de um poeta acordado
Com a sabedoria tu te confrontas
entre estrofes ou poema inacabado.

É incógnita o que nesta cabeça contém
Pois vê o poeta tudo diferente, …do avesso
Querer entendê-lo? Acredito, já não convém
Pois o poeta que é poeta, não tem endereço!

Ele vai folhando sua sabedoria nata
Deleita na natureza, beijando a verde mata
Sonha sua dor/desejo/alegria/emoção e paixão

À beira-mar, na areia, …onde edificou castelos
Em delírios volta à realidade, compõe versos belos
Morre o Poeta, mas fica, na biblioteca, seu coração.
Ilka Bosse

segunda-feira, fevereiro 20

Beijo literário

Rua dos sebos


O Cheonggyecheon Peace Market's Secondhand Book Street, em Seul, é uma dessas jóias escondidas. Crescendo de forma constante desde a década de 1960, muitos colecionadores caminham de longe para procurar por edições limitadas e livros raros, nostálgicos do cheiro da tinta e da visão cada vez mais rara de livros empilhados do chão ao teto, parede a parede. 

Amor ao luar

Samaasky: "BookLovers 💖🙌"

Assim começa o livro...

Resultado de imagem para todos os homens s]ão mentirososQue verdade é essa que as montanhas limitam e que é mentira no mundo que além delas se estende?

Michel de Montaigne, Apologia de Raymond Sebond Mas vir falar comigo, logo comigo, de Alejandro Bevilacqua? Meu caro Terradillos, o que posso lhe dizer desse personagem que cruzou minha vida trinta anos atrás? Pois eu mal o conheci ou, se o conheci, conheci-o de maneira superficial. Aliás, para ser franco, eu não quis conhecê-lo de verdade. Quer dizer, eu o conheci bem, confesso, mas de uma forma distraída, a contragosto. Nossa relação (por assim dizer) tinha alguma coisa de cortesia oficial, dessa nostalgia compartilhada e convencional dos expatriados. Não sei se você me entende. O destino nos uniu, como se diz, e se você me obrigar a jurar, com a mão no peito, que éramos amigos, serei forçado a confessar que não tínhamos nada em comum, a não ser as palavras República Argentina gravadas em letras douradas no passaporte.

É a morte desse homem que o atrai, Terradillos? É a visão, essa que continua alimentando meus pesadelos, embora eu não a tenha visto com meus próprios olhos, de Bevilacqua caído na calçada, o crânio destroçado, o sangue escorrendo rua abaixo até o bueiro, como se quisesse fugir do corpo inerte, como se não quisesse fazer parte desse crime abominável, desse final tão injusto, tão inesperado? É isso que você está procurando?

Permita-me duvidar disso. Não um jornalista apaixonado pela vida, como você. Não alguém que é pau para toda obra, como eu o definiria. Você, Terradillos, não é um autor de necrológios. Ao contrário. Você, questionador do mundo, quer conhecer os fatos vitais. Quer narrá-los para seus leitores, para esses poucos que se interessam por um artífice como Bevilacqua, cujas raízes um dia revolveram a região de Poitou-Charentes. Que é a sua, também, Terradillos, não vamos nos esquecer disso. Você quer que esses leitores conheçam a verdade, conceito perigoso, se é que um dia existiu. Você quer redimir Bevilacqua em seu túmulo. Você quer dar a Bevilacqua uma nova biografia
urdida com pormenores baseados em lembranças reconstruídas com palavras. E tudo isso pela mísera razão de que a mãe de Bevilacqua nasceu no mesmo canto do mundo que você. Que empresa vã, meu amigo! Quer um conselho? Dedique-se a outros personagens, a heróis mais coloridos, a celebridades mais chamativas das quais Poitou-Charentes pode se orgulhar de verdade, como aquele mariquinhas heterossexual, o oficial da marinha Pierre Loti, ou aquele mimado das universidades ianques, o careca Michel Foucault. Esse é o meu conselho. Você, Terradillos, sabe redigir crônicas sábias; escute o que lhe digo, que dessas coisas eu entendo. Não perca seu tempo com nebulosidades, com as lembranças confusas de um velho rabugento.