quarta-feira, dezembro 13

Pescador de imaginação

Entre Lápis e Pincéis: Julho 2016

Universidade abre arquivos de García Márquez

Mais da metade de um arquivo de 27 mil páginas referentes ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez foi liberada para uso público gratuito, informou o jornal The New York Times. O material em questão envolve diversos manuscritos, fotografias, roteiros e cartas, além de 22 cadernos de anotações pessoais e de memórias do prêmio Nobel de Literatura, tudo disponível em inglês e espanhol.

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A iniciativa partiu do Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, que adquiriu o arquivo literário do autor em 2014 por 2 milhões de dólares. A medida chama a atenção pelo fato de a obra ainda estar sob proteção dos direitos autorais.

"Muitas vezes, tem-se uma visão limitada da propriedade intelectual, com a ideia de que o uso acadêmico ameaça ou diminui seu interesse comercial", disse ao jornal Steve Enniss, diretor do Harry Ransom Center.

"Agradecemos a família de Gabo por liberar o arquivo e reconhecer esse trabalho como uma prestação de serviço a seus leitores em todo o mundo", acrescentou, usando o popular apelido pelo qual Garcia Márquez é conhecido.

Desde 2015, quando foi aberto para pesquisas, o arquivo do escritor colombiano se tornou uma das coleções mais circuladas da instituição, um fenômeno que agora deverá se expandir ainda mais.

"Qualquer pessoa com acesso à internet pode ter uma visão aprofundada do arquivo de García Márquez", disse Jullianne Ballou, bibliotecária do projeto Ransom Center. "Abrangendo mais de meio século, o conteúdo reflete a energia e a disciplina de García Márquez e revela uma visão íntima de seu trabalho, família, amizades e política."

O escritor alcançou renome internacional graças ao uso do chamado "realismo mágico”, especialmente em romances aclamados como 100 anos de solidão e O amor nos tempos de cólera. Após sua morte em 2014, ele chegou a ser descrito pelo presidente Juan Manuel Santos como o "maior colombiano que já viveu".

Garcia Márquez começou a carreira de escritor como jornalista e não teve medo de tecer críticas tanto contra políticos colombianos como contra estrangeiros. Um crítico ardente do capitalismo desenfreado, também se opôs ao que ele apontou ao longo de sua vida como um imperialismo arrebatador por parte do governo dos Estados Unidos.

Seus laços com o partido comunista da Colômbia foram inclusive motivo para que ele fosse proibido de entrar nos EUA por três décadas. Ironicamente, Garcia Márquez é o romancista favorito do ex-presidente americano Bill Clinton, que uma vez o chamou de "o mais importante escritor de ficção em qualquer idioma desde a morte de William Faulkner".

Oceano para navegar

Hay tanto y tanto y tanto por leer que se podría llenar un océano de palabras (ilustración de Rogelio Naranjo)
Rogelio Naranjo

Este Natal

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

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De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, dezembro 12

Enquanto espera a água ferver...

Nanette Regan

O progresso e a fossa

Deve acontecer com todo mundo. Em momentos de fossa, qualquer tipo de fossa, o pensamento positivo mais eficaz é a comparação que qualquer um de nós pode fazer com o passado, não o passado remoto, mas o recente, digamos, de 15, 20 anos atrás.

Não havia internet, computador nem celular. Com viveríamos sem isso? Bem verdade que a grande maioria ainda não teve acesso aos três símbolos da modernidade. Mas quando se pensa que até o século 19 não havia eletricidade, precisava-se de velas e lamparinas para iluminar a noite, e o cavalo era o meio de transporte mais confortável e rápido, não mais se poderia invejar nem mesmo os grandes do mundo, como Napoleão, Bismark, Garibaldi e a primeira geração dos Rothschild.

Recuando mais ainda, lembremos que Júlio César chorava quando pensava que Alexandre, mais moço do que ele, já havia conquistado todo o mundo conhecido. Mas os dois não tinham sequer papel higiênico para suas necessidades.

queerliness:
“ ‘Reading after Lunch’ by Sara Bryant
”
Sara Bryant
Jesus Cristo teve famoso triunfo quando entrou em Jerusalém, pouco antes de sua paixão e morte. Mas estava montado num jumento atrofiado, como todos os jumentos daquela região. E fez o seu mais importante sermão do alto de uma montanha, sem uso de alto-falantes ou microfones --mesmo assim foi ouvido e continua ouvido até hoje.

Meditar sobre as deficiências do passado pode curar a fossa do presente. No meu caso, às vezes cura, às vezes não. Depende do tipo de fossa. Quando penso no milhão de dólares que nunca tive, louvo a lâmpada elétrica que acendo em minhas noites e me consolo. Os milionários do passado não a tiveram.

Mas quando penso nas mulheres que desejei e não tive ou perdi, mergulho na fossa e descubro estranha, inexplicável doçura nela.
Carlos Heitor Cony

segunda-feira, dezembro 11

Leitura não tem idade

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina

O joio que sobrou do trigo

O que indispõe Deus com os poetas dos quais recebe perguntas e invocações é a desleixada métrica, além da vulgaridade das rimas. Ele continua fiel ao parnasianismo, que criou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.

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O novo em arte é quase sempre uma habilidosa forma de repetição.

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bibliolectors:
“Introspection reader / Ensimismamiento lector (ilustración de Sterling Hundley)
”
Somos nosso filho predileto: nos protegemos, nos mimamos, nos enaltecemos, somos o sumo e o suprassumo. Pena que no dia da nossa morte não possamos nós mesmos fazer nosso elogio.

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Chamar-me de idiota é algo que ninguém pode fazer com tanta propriedade quanto eu mesmo.

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Quem diz não ter palavras para exprimir certos sentimentos talvez não tenha nenhum para exprimir.

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Minha vontade anda apática, minha volúpia raquítica, minha situação dramática e minha fortuna crítica.

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Vivemos nos queixando do tempo que perdemos com as pequenas coisas. E nunca pensamos no tempo que perdemos com essas queixas.

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Vinícius de Moraes era um poeta envelhecido em tonéis de carvalho.

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Se fosse simples viver, não haveria tantas filosofias.

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A melhor mensagem de boas-vindas que pode haver em uma casa é o gato gostosamente escarrapachado no sofá.

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Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia não há mais quem o encontre.

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Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

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Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

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O Diabo é quem melhor conhece os escritores: querem dar almas de segunda em troca de obras de primeira.

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Os poetas românticos não beijavam. Pousavam os lábios sobre lábios virgens e desmaiavam em êxtases angelicalmente carnais.

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Para ser épico, um poema concretista precisa ter pelo menos dez andares.

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A literatura me ensinou a chorar na terceira pessoa.

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Que pretensiosas são as frases curtas com reticências no final…

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Sou um homem que escreveu a vida inteira. Não sou um escritor. Escritor foi o que eu quis ser.

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Os poemas concretistas são agora fiscalizados pelo Inmetro.
Raul Drewnick

domingo, dezembro 10

Pronto para o Natal

Nanette Regan

Verdade dos livros e da vida

danskjavlarna:
“Here’s a precursor to tablets and smart phones destroying human communication, from Humorous Poems by Alfred Ainger, 1893. The caption says, “Reading,—and wept.”
My Strange & Unusual Site | Books | Videos | Music | Etsy
”
Humorous Poems. Alfred Ainger (1893)
As coisas que nos tocam aos vinte não são necessariamente as que nos tocam aos quarenta, e vice-versa. Isso é verdade para livros e para a vida 
 A. J. Fikry, "A vida do livreiro"

Sonho de livraria

En medio del bosque hay una librería que fomenta la lectura a todos los animales del bosque (ilustración de Cale Atkinson)
 Cale Atkinson

Eu, leitor, confesso

Para mim, a leitura transformou-se de obrigação em paixão, vício, fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony) insistia, durante a infância/adolescência, na leitura – imaginem! – até de enciclopédias (Conhecer, com fascículos distribuídos em bancas nos anos 70). Como era maçante – mas também no campo, época de semear é feia, cheira mal, e, de repente, que transformação! Eis que chega a colheita – florida, cheirosa, rica e prazerosa.

Leer en libertad (ilustración de John Ferenov)
John Ferenov
Sim, sou um leitor amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que transporte não só para outros sítios, mas principalmente pra dentro de outras personalidades, atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor contando aquilo que passou ou gostaria de ter passado, por um lado tão inusitado que te joga contra as paredes do auto-conhecimento.

Bem, acima de tudo, leitura pra mim é pura distração, diversão, passatempo, hobby, "previdência privada" (pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que espero repetir em busca de sensações maiores).

Onze pequenos e grandes prazeres de um leitor amador:

1. Entrar numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele poema que parece que foi escrito naquele momento e diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim, "Epitáfio para o meu silêncio".

2. Ler Henry Miller, Trópico de Câncer, pensando ser livro de "sacanagem" e descobrir, no fim, talvez a melhor definição de pra que servem os artistas e a arte.

3. Nunca ter lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica "Os Pés do Morto".

4. Não admitir sair de uma livraria sem comprar nada, comprar um autor desconhecido, capa interessante, chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória (A Máquina, de Adriana Falcão).

5. Ter lido um romance (que era o único largado num rancho de pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).

6. Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).

7. Sentir-se como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor da Solidão.

8. Saber que Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você, está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer momento lançar outro livro.

9. Abrir a Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira leitura da manhã, tendo certeza de que não será sobre o FHC.

10. Assistir a um filme argentino na TV, desconhecido, ser atraído por citações poéticas, gravar os créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora comprar pela internet o que encontrou (Antologia Poética), receber depois de três dias, abrir, esganado, esfomeado, cair no poema "Intimidade".

11. Todos os próximos que certamente estão por vir...

Ricardo Wagner Modes

sábado, dezembro 9

Leitura espionada

Lucy Fleming

A chaminé e a porta

A grande vantagem da criança sobre o adulto é o direito, a vontade e a necessidade que ela tem de perguntar tudo. Com o passar do tempo, esse direito, essa vontade e, sobretudo, essa necessidade vão acabando. Daí que o velho, em geral, nada mais pergunta.

Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.

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Avisaram-me que não decepcionasse o guri, armei a árvore da melhor maneira possível, admito que ficou imponente, faiscando tão forte que suas luzes, no profundo da noite, se refletem nas águas da Lagoa.

Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!

Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.

Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.

Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Carlos Heitor Cony, "O harém das bananeiras"

sexta-feira, dezembro 8

Hora do café!

A woman reading her favorite book and drinking coffee.

Arma do bem e eficaz

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Você quer armas? Estamos em uma biblioteca! Livros! As melhores armas do mundo!
Doctor Who

Essa já acordou embalada

cobratoes:
“Julia Wertz
”
Julia Wertz

Solidário James Amado

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Dizia-se que não era um homem de temperamento expansivo, como o irmão, o consagrado romancista Jorge Amado. Embora soubesse que estivesse 000mal de saúde, fiquei sem graça quando soube que teve uma morte em casa, vítima de falência múltipla dos órgãos. Foi em Salvador, num dia de domingo. Também escritor, pesquisador e romancista, esse irmão caçula de Jorge Amado. .

Segundo Paloma, sobrinha de James, aquele domingo de cores cinzentas foi de dor e saudade.

— Estou completamente destroçada. Meu pensamento está todo voltado para minha tia Luíza, mulher formidável, e para meus queridos Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda, mais que primos, irmãos muito amados.

Terceiro e último filho de João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, desbravadores da Região Cacaueira Baiana, na época da conquista da terra, James Amado nasceu em Ilhéus, em 1922. Era o último irmão vivo de Jorge Amado. Membro da Academia de Letras da Bahia desde 1990, ocupando na tradicional instituição a cadeira de número 27, cujo patrono é Francisco Rodrigues da Silva e que antes de James foi ocupada pelo jornalista Antonio Loureiro.

Como ficcionista, escreveu apenas o romance Chamado do Mar e o conto “A Sentinela”, incluso nas antologias Panorama do Conto Baiano e Histórias da Bahia. Com produção pequena, James teria condições de permanecer no panorama da literatura contemporânea brasileira, constituída de autores com legado extenso na escrita de boas qualidades? Ressalte-se que o português Antonio Nobre escreveu apenas Só e Augusto dos Anjos o Eu, até hoje os dois poetas ganham leitores e novos analistas de um legado pequeno, mas expressivo. Manuel Antonio de Almeida foi outro que escreveu apenas Memórias de Um Sargento de Milícias, obra-prima do romance picaresco.

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Chamado do Mar tem como cenário o Pontal dos Ilhéus, no Sul da Bahia, armado com o conhecimento de sua geografia exterior pelo autor para a exibição de conflitos interiores e sociais vividos por pescadores numa colônia de pesca. Um dos romances mais vigorosos da ficção brasileira no século XX tem como motivação o mar e sua gente. É narrado com a técnica moderna dos ficcionistas norte-americanos, daqueles que trouxeram para a estrutura do romance após a Segunda Guerra Mundial o uso do contraponto e do tempo desmembrado em fragmentos para expor situações livres da sequência linear, com base nos acontecimentos extraordinários pontuando a narrativa. Trata-se de um romance com intenso cheiro de maresia. Toca nas feridas sociais, e sua técnica moderna de desenvolver o tema guarda até hoje o segredo da perene atualidade.

Casado três vezes, suas esposas foram Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Deixou quatro filhos: Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda. Certa vez, ele disse ao poeta Florisvaldo Mattos:

– Somos da mesma região e temos tradição de luta e esforço pelas causas sociais.

Florisvaldo Mattos lembra:

– Ele era uma criatura afetuosa e solidária. Toda semana, nós nos encontrávamos na “Ceasinha”, nas quintas do Edinho, para conversar.

Da última vez que passou por minha terra natal, mandou um recado pelo poeta Telmo Padilha que queria me conhecer. No Lord Hotel, onde estava hospedado, perguntou-me durante o almoço como eu ia na minha produção literária. Na conversa que mantivemos animada, incentivou-me na difícil e prazerosa travessia das letras. Adiantou que iria recomendar-me ao editor Jorge Calmon, assim que voltasse a Salvador, para que meus textos fossem publicados no jornal “A Tarde” .

Isso de fato aconteceu. Durante alguns anos publiquei artigos de opinião no primeiro caderno e crônicas na seção “Ultra Leve” do valoroso jornal nordestino. James Amado prefaciou meu primeiro livro de crônicas. Era um solidário companheiro das letras.

quinta-feira, dezembro 7

O 'dono' da chave

O brasileiro lê muito

Arriba, arriba, arriba de una gran montaña de libros (ilustración de Lisa Aisato)
Lisa Aisato
O brasileiro não lê pouco, pode ler mal ou não comprar livros como se gostaria, mas a média de leitura nacional é muito boa, do contrário, não seríamos uma das nações que mais frequenta redes sociais no mundo, onde se usa o texto como a principal forma de comunicação, e nem teríamos tiragens de best-sellers na casa dos milhares quando não milhões.

Mas vou mais e lembro-me dos cinco bilhões de reais que representam o mercado brasileiro no cenário mundial, sendo, portanto, um dos maiores mercados do setor editorial em faturamento. Número que já oscilou na casa dos seis bilhões quando o poder público, em especial o federal, mantinha vivo seus fundamentais programas de compras.

A reflexão necessária é de que há uma espécie de preconceito aberto e declarado, como se chamar o povo de burro fosse regra, ou que as pessoas não compram livros nem leem aquilo que certa elite gostaria porque são ignorantes. Também há a hipótese de que a desinformação sobre o mercado do livro e os índices de leitura seja gigantesca, e que mesmo bons jornalistas e profissionais da comunicação têm dificuldade em encontrar dados que derrubem esse conceito, ou preconceito, sobre os índices de leitura.

Não podemos, porém, deixar de observar que para o tamanho do país e da população, se comparados a vizinhos como Argentina, nossa leitura per capta é de fato tímida. E que a leitura poderia ser melhor, visto, por exemplo, a ausência de leitores com seus livros abertos em lugares públicos como em metrôs e ônibus. Mas, para isso, é bom não esquecer que nas universidades muito ainda se usa, infelizmente, as tais cópias “xerox”, como substituição ao livro, e que essas cópias não entram nos números, tampouco cálculos estatísticos, ou sequer passam nos olhos ávidos de quem procura um leitor de livro aberto numa estação de metrô.

Em verdade, e aqui uma opinião mais do que honesta, é de que embora leiamos muito, a realidade é de que lemos mal, e muito mal. O fato de encontrarmos livros infantojuvenis adotados em escolas com erros de pontuação e histórias frouxas, ruins, é um comprovador. Também é comum encontrar autor que se autopublica dizendo vender bem a cada nova tiragem ou novo título, e depois descobrirmos que seus leitores – e eles existem como se comprova na gráfica ou nas vendas pelo KDP da Amazon –, não percebem como fracas são suas histórias e como confusos são seus pensamentos ou mesmo a organização do seu texto.

Há, também, nesse deserto do texto ruim, livros impressos fora do país, mas vendidos a preços impressionantemente baixos, livros estes muitas vezes com histórias sofríveis e ilustrações deprimentes. E ainda há os títulos traduzidos às pressas ou por maus tradutores – e aqui entra a literatura adulta de qualquer área – como outro sinal da má qualidade do que chega ao leitor, que, por sua vez toma aquilo como uma média do que pode ser escrito e do que deve ser lido. Em outras palavras, o referencial do que é bom em escrita e leitura, no Brasil, é um desespero de tão ruim.

Em outros artigos defendi e sigo defendendo a importância da escrita criativa e suas oficinas, pois, como referência, nos EUA pós-guerra, esse foi um dos instrumentos para não só movimentar o mercado norte-americano como por outro lado reforçar a educação fora das escolas.

Enquanto isso, neste Brasil continental de história tão amiga a elites que preferem a escravidão à liberdade, talvez não devesse soar estranho afirmar que o povo brasileiro simplesmente não lê porque é ignorante. Mas não sou da elite, sou do povo, do estudante da escola pública, e dos otimistas, pois gosto de pensar que apesar das elites e de nossa história de golpes e massacres, o povo ainda lê, e ainda quer ler mais e melhor. E, quem sabe, talvez aí esteja a tarefa dos editores, autores e agentes do mercado: superar o preconceito e fazer mais e melhor pelo leitor brasileiro.

Paulo Tedesco