sábado, agosto 15

Carregas um livro, carregas o mundo

 

Quentin Blake

Plantei um jardim

 

Plantei um jardim. Cultivo flores
em vasos e em latas.
Pratico a beleza inutilmente

Rego as folhas verdes e seus grilos efêmeros.
Protejo-as da ventania,
do sol calcinador. Dou, cada dia,
três ou quatro olhares protetores,
e surpreendo a Criação fazendo-se.

Elas, nunca me disseram como sentem
este humano desvelo sem cobiças:
mas vivem, florescem, me acompanham;
atendem as visitas, gratamente,
como falando por mim, como dizendo-me:
circundam de paz o Araguaia,
e balizam de esperas, de perguntas,
de respostas, de cantos florescidos,
o horizonte longamente opaco
 Dom Pedro Casaldáliga (1929-2020)

Rota de fuga

 

Reforma de Paulo Guedes aumentará preço do livro em 20%

A proposta tributária encaminhada pelo governo federal ao Congresso deve encarecer o preço do livro em cerca de 20%, pelos cálculos de três entidades ligadas ao setor editorial e que fazem parte do movimento “Em Defesa do Livro”.


Segundo Marcos Pereira, presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), a incidência da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) sobre o faturamento do setor deve ter um impacto líquido em torno de 7%, descontando os abatimentos que devem ocorrer ao longo da cadeia, já que se trata de um imposto sobre valor agregado.

- O imposto tem alíquota de 12%, mas eu posso compensar uma série de coisas, como serviços gráficos, papel, despesas administrativas. Mas há custos elevados que estão fora, como direito autoral, salários e a maior parte dos serviços editoriais prestados por pessoas físicas e empresas do Simples. Então a carga, ao final, ficará em torno de 7%.

Para chegar a um aumento do preço do livro de 20%, Marcos Pereira explica que as editoras já estão com as margens de lucro apertadas, pela crise do setor, e deve haver queda nas vendas com a nova tributação. Assim, o preço terá que subir ainda mais para se manter o mesmo faturamento.

- É uma espiral negativa. O imposto vai consumir grande parte da margem, que está em torno de 10%. Para se manter o faturamento atual, o preço terá que subir levando em conta o imposto mas também a redução das vendas de livros.

Pereira explica que o faturamento das editoras e das livrarias ficou em torno de R$ 7,7 bilhões no ano passado, e o novo imposto deve render algo próximo de R$ 700 milhões ao governo. Embora o artigo 150 da Constituição proíba a incidência de impostos sobre o setor de livros, ele diz que, nesse caso, trata-se de uma contribuição, assim como o PIS/Cofins, e que o setor só deixou de pagar esse tributo após aprovação de uma lei específica em 2004:

- O Estado brasileiro deveria estar fomentando o setor de livros, e não tributando. Ele tem obrigação, pela lei 10.753, que é a lei do livro, de 2004, de fomentar livrarias, bibliotecas, profissionais para leitura. Deveria haver dotação orçamentária anual para isso, o que nunca aconteceu.

Além do Snel , também apoiaram o estudo a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Abrelivros.

quinta-feira, agosto 13

Hora do café

 

A sombra do Romariz

Dizer que não trabalho mais à noite, no jornal, não é bem verdade. Licenciei-me por alguns meses, para lá não ir à noite. Quando há desses turumbambas políticos, na cidade, fujo do trabalho noturno. E faço semelhante coisa principalmente quando vejo certos nomes metidos neles.

Quem expunha isto era o tipografo Brandão a seu colega Barbalho que tinha observado àquele a sua ausência das oficinas do Diário Carioca, naqueles últimos dias.

Brandão continuou:

– Quando vejo tais nomes fico cheio de pavor, meu ânimo se estiola, não tenho coragem para nada, toda a minha personalidade é atingida de seca. Há dias, a mulher me pediu que fosse reconhecer a firma de um papel necessário a ela, a fim de receber uma pensão. Fui para a oficina, de manhã, hesitei, tive medo, afinal dei uma gorjeta a um aprendiz, para ir ao tabelião.

– Então, sempre estás trabalhando de dia?

– Que fazer? Preciso de algum dinheiro para as despesas inadiáveis; mas, à noite, nunca.

– Porque isto?

– É a sombra do Romariz.

– Quem é ou quem foi esse Romariz?

– Eu te conto. Em 1890, acabava-se de proclamar a República. Isto há trinta anos. Eu tinha vinte e poucos. De dia, trabalhava na Casa Mont’Alverne; e, a noite, fazia uns bicos, na Tribuna Liberal. Um jornal apaixonadamente monarquista que atacava o governo provisório sem peso, nem medida. A bem dizer, não o lia ou mal o lia, porque, quando deixava a oficina da Tribuna, para pegar o último bonde de Vila Isabel, onde morava, ele ainda não estava impresso.


A campanha da Tribuna era superiormente feita e levada com rijeza, no dizer de todos. Começou-se a falar que iam empastelar a folha. O governo desmentiu, assinalando que era seu ponto de honra manter a liberdade de pensamento e de imprensa.

Continuei a trabalhar com mais coragem e sossego. Vi senão quando, aí pelas oito ou nove horas, entrar pela oficina adentro o aprendiz assustado e avisando cheio de terror: “Fujam! Fujam! Lá vêm eles!” Perguntado o que havia, contou que descia pela Rua do Ouvidor um magote de gente, fardados e outros à paisana, a gritar: “Morram os sebastianistas! Morra a Tribuna Liberal! Viva o Marechal Deodoro!” etc., etc.

À vista da narração do pequeno, todos trataram de fugir. Em nenhuma seção do jornal ficou viva alma. Redatores, revisores, compositores, impressores – todos fugiram. Só ficou no edifício o Romariz, um pobre revisor que dormia profundamente, descansando a cabeça sobre os braços cruzados e estes sobre a mesa de trabalho.

Por mais que o sacudissem e o chamassem, não foi possível despertá-lo. O tempo urgia; e o infeliz revisor lá ficou abandonado. Ele vivia tresnoitado; trabalhava dia e noite para manter a mãe e os irmãos. Tinha um pequeno emprego na estrada de ferro, que mal lhe dava para pagar a casa em subúrbio longínquo; lançara mão do ofício de revisor de provas, para acrescentar sua renda. Saía tarde do jornal; havia poucos trucks naquele tempo; e, muitas vezes, só ia em casa para mudar o colarinho, comer um pouco e voltar à cidade, a fim de assinar o ponto na Central.

Como te disse, foi ele o único que ficou, devido a seu profundo sono, perfeitamente explicável como tu já viste. Os assaltantes foram entrando, quebrando balcões, máquinas, derramando as caixas de tipos no chão, enquanto outros subiam ao primeiro andar cheios de raiva que, neles, nada explicava. Topando com o Romariz dormindo, nem se deram ao trabalho de despertá-lo. Foram-no desancando de cacete e de coices de armas na cabeça e ele mesmo sem saber porque. Vi-lhe o cadáver, estava hediondo; vi-lhe a família, que ficava na maior miséria: vi…

– E daí?

– Daí é que quando há desses turumbambas políticos, vejo a sombra do Romariz que me diz: “Não vás trabalhar, à noite”.

– És espírita?

– Não; mas há muito mistério nesta nossa triste vida terrena.
Lima Barreto, Careta, 14//01/1922

quarta-feira, agosto 12

Porta da felicidade

 

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema, talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadeia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam essas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.

Carl Larsson


Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.

Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a "alma" é também o corpo.

E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos! É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.

Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminada pelo saber.

E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao "paraíso", morrer é que é o "paraíso".

A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.

Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que "engage" de algum modo o ser inteiro.

Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é "digna", e usar a palavra digna me faz rir de o.

Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?

Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.

terça-feira, agosto 11

Livros nunca morrem

 

Oleksy Kustovsky

Sujeitos

Os sujeitos bons não resolvem os males do mundo, mas são como a aragem que faz bem. E como se divertem! Grande é a folgança deles, que se alegram por tabela e são felizes de carambola.


Adolpho Bloch recebendo alegremente tudo que é cachorro magro e mulher doida que surge na porta de sua oficina, enchendo de presentes os dois molecotes filhos do porteiro de seu edifício. O pianista Bené Nunes se fantasiando de Papai Noel e passando o dia de Natal inteiro num automóvel, visitando os amigos casados, distribuindo presentes pela criançada, de surpresa.... Eu poderia citar muita gente. Há muita gente boa, mas quero contar a história de Bororó.

Encontrei o velho boêmio comovido. Aparecera em sua casa um moleque de morro pedindo comida. Sua mulher e sua filha arrumaram um prato para o menino, visivelmente esfomeado. Todos saíram de perto depois, para que ele ficasse à vontade. Em um instante o garoto devorou a metade do prato ― e parou de comer. Bororó estranhou; o menino explicou que preferia levar a outra metade para outro moleque, seu amigo, que ele sabia estar com uma fome danada. Depois pediu que nunca jogassem comida fora; ele viria buscar os restos para seus irmãozinhos ― com 10 ou 12 anos, tinha seis irmãozinhos menores. Resultado: Bororó assumiu a responsabilidade de sete garotos.... Meirinho e compositor, Bororó se diverte como um príncipe. Ganhou uma batelada de netos e sorri, feliz, o avô; magnífico.

Eu conheço uns sujeitos que coçam a cabeça, ficam velhos, carecas, enrugados, com úlceras nervosas quando ouvem dizer que vai aumentar o imposto sobre as grandes rendas.... Ah, os pobres-diabos, como eles sofrem!

Rubem Braga, Correio da Manhã, 1/02/1955

segunda-feira, agosto 10

Biônico

 Mr. Mead

 

Sombra, dizia a Emília...

Sombra, dizia a Emília para tranquilizar não sei se o marquês de Rabicó ou o visconde, é ar preto.

Criança, não me tranquilizei: do escuro só podiam nascer os fantasmas, apagar a lâmpada era dar uma oportunidade aos duendes que habitavam o quarto, somente a luz conseguia tocar deste mundo os habitantes do outro. No ginásio, bom aluno de física, não me tranquilizei: a sombra era a dimensão negativa da terra, a nutrição dos tristes, o único espaço digno de uma pobre alma dramática de adolescente.

Zinaida Serebriacova 

Adulto, estarei tranquilo? Será a sombra um corpo opaco interposto entre o observador e o corpo luminoso? Sim, positivamente a sombra é isto, mas a tranquilidade não nasce das definições. A qualquer hora, há muita sombra dentro de nós, sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com sua luz, sinal de que nos faltam felicidades, de que muitos pequenos sóis necessários se interromperam em seu caminho até nossos olhos, estes que são, como diz um dos mais belos lugares-comuns, as janelas da alma.

Não perguntar o que um homem possui, mas o que lhe falta. Não indagar de seus sentimentos, mas saber o que ele deixou de sentir. Não importar com o que ele viveu, mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu de encontro às circunstâncias, ao egoísmo dos outros ou à sua própria culpa. Enquadrá-lo em sua constelação particular, conhecer as alegrias que o iluminam, saber se nasceu muito cedo para receber a luz da estrela que ainda não veio, ou se chegou ao mundo quando de há muito se extinguiu o astro que deveria iluminá-lo.

Chamamos de sombrios aos homens que não recebem luz. Ele passa sob o sol, sob a lua, sob as estrelas, passa através das iluminações múltiplas da cidade, passa por mulheres amoráveis, passa pelas grandes criações humanas, passa, enfim, sob todos os focos luminosos da terra, e não recebe a luz. Este homem é um pobre.

Entre ele e a luz se interpõe um corpo opaco cujo nome é tão prosaico e tão duro que nem sempre se pode enunciar.

Sombra é ar preto, dizia Emília. Ao meio-dia, idade em que estou, a nossa sombra se abraça a nós e se confunde conosco. A vida e a morte começam a habitar o mesmo corpo. O sol fulgura sobre nossa cabeça o fim se aproxima de nossos pés, ponto final de nosso domínio, ponto de partida para a solidão. Continuamos, então, a caminhar, e a sombra cresce de nossos pés, à nossa frente, enquanto o sol, perdendo-se atrás, resplandece inutilmente sobre as nossas costas opacas. Até que, um dia, de nós existirá apenas a sombra, mais um pouco de sombra para os que chegaram depois. O homem, disse um que se foi há vinte e cinco séculos, é o sonho de uma sombra.

Toda essa literatura inadequada aconteceu quando, hoje, presenciamos a menina descobrindo sua própria sombra. Ela parava de espanto e olhava, tentava pegar a sombra, andava mais um pouco, virava de repente para verificar se a coisa ainda a seguia. E indo e vindo, seguindo e virando-se, gesticulando, tropeçando, murmurando palavras incompreensíveis, implorando a seu pai uma explicação impossível, a menina começou no dia de hoje a dançar o balé que vai chamar-se (a sua) vida.

domingo, agosto 9

Leitoras

 

Porte de arma

Moço apanhou a espingarda e saiu sem destino pelo cajueiral. O sol quente, o vento fresco, os cajueiros cheios de maturi, de passarinho só uns anuns voejando entre as folhas do coqueiro catolé. Nem uma rolinha chorada que justificasse a queima de um cartucho. No fim da quinta de cajueiros, ao lado do mandiocal e do forno de carvão, topou uma casa de taipa, coberta de trepadeira, tão arriada e decadente que mais parecia um ninho velho de Maria-de-barro. Era contudo habitada, porque da cozinha saía fumaça, no quintal se via um canteiro suspenso, cheio de coentro novo e um poleiro encostado a um pé de jenipapo. No oitão, junto da pimenteira, mariscava uma galinha cinzenta acompanhada por treze pintinhos; eram uns pretos, outros vermelhos, outros cor de gema de ovo e um branco, de pescoço pelado, feito filhote de ave de presa - tudo tão vivo, tão lindo, assanhando a terra com as patinhas amarelas, que só de olhá-los dava um aperto comovido no coração da gente.

O moço parou no terreiro da casa, demorou um pouco olhando os pintinhos e acabou se sentando numa pedra que ficava debaixo de uma laranjeira espinhenta, muito verde e copada mas sem fruta. Passado um tempo, saiu na porta uma velha com cara de bruxa, que se encostou no umbral e pôs no moço o seu olhar empanado. Ele salvou, ela respondeu, falaram um pouco no tempo, na chuva de caju que estava para vir, no partidão de mandioca atrás de casa, já quase no ponto de arrancar; afinal a conversa caiu nos pintos, a velha dizendo que dos treze ovos que tinha deitado um sozinho não gerou, estava tudo se criando, benza-os Deus. E foi aí que o instinto de caçador falou no moço, e ele com vontade de dar um tiro perguntou se não andava muito gavião por ali perseguindo criação de terreiro. Aí, gavião dava, mas pouco, informou a velha. Nem sabia mesmo porque gavião ultimamente andava vasqueiro. O que perseguia os pintos e de vez em quando roubava um, era o demônio de um saguim de coleira branca que vivia sempre pela mangueira velha ali do lado. Até era milagre, aquela ninhada vir escapando...

Falar no mal logo ele aparece; e ainda a velha estava com as últimas palavras na boca quando surgiu o saguim a bem dizer voando nas pontas de galho da mangueira, guinchando, assobiando e fazendo careta, como se soubesse que a conversa era com ele. A velha esconjurou, saiu para o terreiro, abriu a saia rala por cima dos pintos, tentando protegê-los, e berrou para o moço dar um tiro naquele amaldiçoado que estava até fazendo pouco deles, de longe.

Boca que mal falou, o moço ouviu, levou a espingarda ao rosto, fez pontaria e atirou. O saguim, atingido no peito, caiu como um bolo nas folhas secas do chão.

Pontaria e tiro, tudo foi um só impulso; mas depois que a espoleta deflagrou, no segundo em que o chumbo fazia o caminho do cano da arma para o coração do bicho, um pensamento, como uma faísca, fulminou o moço. Que saguim não come pinto ‒ aquilo era falso da velha. Saguim só come fruta. É um bichinho inocente, jamais soube o gosto que sangue tem. Lembrando-se daquilo, deu no moço um arrependimento tão grande, que ainda estendeu a mão no ar, como se quisesse segurar o tiro no voo.

Ouvindo o estampido do tiro, a velha correra para dentro de casa e cerrara rapidamente a porta. Caduca, naturalmente. E malvada, dizer que saguim comia pinto, um bichinho tão bonito, tão faceiro, ladrão só de coco catolé!

O macaquinho jazia num bolo, de mãos postas como um cristão. E o moço voltou a se sentar na pedra, teve vontade de rebolar a espingarda fora; não jogou mesmo porque não era dele. E ficou a olhar a casa, os pintos e o saguim defunto, tão triste que só; não chorava porque desde menino se habituara à lei de que homem não chora.

*

Este caso é uma história triste que sucedeu de verdade mas bem poderia ser um apólogo. A moralidade é que armas, no próprio instante em que a gente as segura, fica sujeito ao impulso de as utilizar, porque todo instrumento gera no homem o desejo de lhe dar serventia. Quem tem um canivete na mão sai cortando coisas, quem tem uma viola bate nas cordas, quem tem um lápis começa a riscar ‒ e assim quem pega numa arma que só serve para matar, o natural é que mate. Muito crime nasce disso muitas guerras também. Cada objeto, animado ou inanimado, é escravo da sua serventia. E se esperamos que o bonde corra, que o coração ame, que o sino badale, como esperar que a faca não fure e a espingarda não atire? Se vê na frente um pecador, atira no pecador; mas se só encontra inocente, pague o inocente por ele, que o que ela quer é matar.

Tesouro descoberto

 Ricardo Pelaez

 

Entre remédios e venenos literários

Há quatro anos, Ella Berthoud e Susan Elderkin lançaram “Remédios Literários”, um manual de biblioterapia para maleitas de A a Z. A proposta é tratar o paciente, dependendo de suas dores, com “bálsamos de Balzac e torniquetes de Tolstoi, pomadas de Saramago e as purgas de Perec e de Proust”. Um manual de socorros literários para desconfortos de sutileza e confessabilidade variadas, desde dores de cabeça, insônia e depressão em geral, a casos de coração partido, cansaço da cidade, crise de identidade, medo da morte, perda da memória, falta de bom senso.

Aos melancólicos do próprio aniversário, por exemplo, a prescrição das biblioterapeutas é a leitura de “Os filhos da meia-noite” de Salman Rushdie. Às recém-chegadas à menopausa, “O verão antes das trevas” de Doris Lessing. Aos desesperançados ou que estão desesperançando, “Ratos e homens” de John Steinbeck. Aos exageradamente autoconfiantes, à beira da arrogância, o tratamento sugerido, de uso milenar, é “O burro de ouro” de Apuleio. Angústia existencial? Horror de envelhecer? Problemas com o álcool? Entram em ação Herman Hesse, Tom Robbins, Malcolm Lowry. Homofobia? Tome “Maurice” de E. M. Forster. Pensamentos assassinos em fase de congeminação? Experimente “Thérèse Raquin” de Émile Zola.

O manual conta ainda com socorros suplementares, para problemas específicos de leitura. Como, por exemplo, tratar do desinteresse por um livro justamente por ele estar na moda. A recomendação, para esse caso, é dar um gelo no famigerado, enfurná-lo no armário, para só depois, muito depois, e prosaicamente, abri-lo: um exercício profilático de desprezo para devolver ao livro um “toque de humildade”. Há ainda listas bem-humoradas de leitura, para diferentes ocasiões, como “os melhores romances para ler no banheiro” (entre eles, “Diário de um ano mau” de J. M. Coetzee).

Antigas colegas de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, Ella Berthoud e Susan Elderkin transformaram em trabalho o que, na época da universidade, era um hábito divertido entre elas. Em 2008, tornaram-se biblioterapeutas na School of Life, em Londres, e desde então vêm prescrevendo livros como unguentos. Mas, como diz a sabedoria popular, de remédio a veneno, só o que muda é a dose. Depende de quem a ministra. Depende também, claro, de não tratar vírus com vermífugo ou remédio para malária. Caso contrário, a biblioterapia pode virar biblioludíbrio. Alguém se lembra do “Cabo do medo”, um filme de Scorsese dos idos de 1991? A isca do perseguidor, para atrair a filha adolescente da família perseguida, é um exemplar de “Sexus” de Henry Miller. Ou, fora da ficção, mas ainda fazendo uso dela, o caso recente de um professor, no Rio de Janeiro, demitido por assédio, que aconselhou a aluna assediada a ler “Lolita” de Nabokov. Biblioludíbrios.

sábado, agosto 8

Saudades das 'colmeias'

Norwich (Inglaterra)

Os livros de Philip Roth voltam para ‘casa’

Do fundo de uma caixa de papelão emerge o álbum de graduação de Philip Roth, guardado desde 1946, depois de sua passagem pela escola da Chancellor Avenue, em Newark, Nova Jersey. Lema: “Não pise no desvalido”. Canção: It Might As Well B Spring, da comédia musical A Feira da Vida, que tinha obtido o Oscar de melhor canção original em 1945. Embora suas colegas de classe lhe deixassem mensagens românticas e beijos de batom nas folhas, seu interesse então parecia residir principalmente no beisebol, seu esporte preferido. Escritor favorito: o autor de romances juvenis de beisebol John Tunis. Herói: o jornalista radiofônico Norman Corwin. Philip Roth queria ser jornalista. “Tenho toda a confiança em você”, escreveu-lhe seu pai, com aquele clássico carinho carregado de exigência.

A caixa é uma das que estão distribuídas pelas humildes estantes metálicas de uma recôndita sala, à qual se chega por um labirinto de corredores cheios de livros, no andar térreo da biblioteca pública de Newark. O álbum é um caderno pequeno, com páginas do tamanho de cartões-postais e capas duras azuis, metido em um estojo de cartolina já quebrado. Nas primeiras folhas, o aluno, prestes a se formar, preenche um questionário com essas pinceladas pessoais. As páginas seguintes estão cheias de dedicatórias, de seus pais, de seus colegas.


Uma relíquia simpática, que permite saber o que se passava na cabeça de um menino de 13 anos que se transformaria em um dos grandes romancistas norte-americanos. Descobrir, por exemplo, como esses livros juvenis de Tunis contribuíram para o imaginário do autor, a ponto de, em Pastoral Americana, seu alter ego Nathan Zuckerman recorrer a um dos personagens de Tunis para descrever o Sueco, seu ídolo de juventude, através do que Roth mostra o lado sombrio do sonho americano.

O pequeno álbum abre uma porta pela qual transparece o mundo do escritor adulto. Permite compreender um pouco mais como se entrelaçam em sua obra a realidade e a ficção. Há passagens mais indeléveis na impudica O Complexo de Portnoy, mas naquele romance de 1969, que lançou Roth ao estrelato, Alexander Portnoy conta como preencheu o questionário pessoal de seu álbum de graduação na escola primária. O lema que escolheu é o mesmo que o próprio Roth havia escrito no seu. Mas Portnoy quer ser advogado, não jornalista. E seus heróis são Thomas Paine e Abraham Lincoln, não Norman Corwin. Tanto se debateu sobre o que é fictício e o que autobiográfico em O Complexo de Portnoy que, em Zuckerman Libertado (1981), o autor zomba dessas especulações. Naquele livro, o protagonista Nathan Zuckerman é atacado por leitores incapazes de acreditarem que as cenas de sexo de Carnovsky, o romance dentro do romance de O Lamento de Portnoy, fossem apenas um produto da sua imaginação.

Um pouco de realidade, portanto, e um pouco de ficção. Neste velho álbum escolar há algumas respostas. Como em muitos dos livros guardados nestas caixas. Aqui, esperando localização mais nobre, estão as leituras do escritor. Seus gostos, seus trechos grifados, suas notas, seus pensamentos. Na mesma biblioteca em que Neil Klugman, protagonista de Adeus, Columbus (1959), passa o verão trabalhando enquanto sonha acordado com a rica e atrativa Brenda Patimkin.

As caixas revelam que, da literatura hispânica, Roth leu Cervantes, Lorca, García Márquez, Vargas Llosa, Borges, Paz e Fuentes, mas também os mais jovens Juan Gabriel Vásquez e Junot Diaz. E uma nota nas páginas de um ensaio do professor Sean Wilentz sugere que ler sobre a história da democracia norte-americana lhe dava uma fome também muito norte-americana: “Hambúrguer com queijo simples. Batatas fritas. Vitamina de caramelo”, escreve Roth.

“Há livros que lia por prazer e livros relacionados com os temas que escrevia. É como espionar seu processo criativo. Quanto a seus gostos, destacam-se os clássicos, a literatura russa e francesa. Dostoievski, os livros de Colette, todos estavam profusamente anotados e sublinhados. Era muito sistemático. Às vezes, depois da capa, havia números de página e notas adicionais sobre essas páginas. Mas também há pedaços de guardanapos, listas da compra, cartões-postais”, conta a bibliotecária Nadine Sergejeff, que está há meses enfiada entre essas caixas e já catalogou os primeiros 1.400 dos 7.000 livros dados de presente por um autor que se referiu a esta biblioteca como seu segundo lar.

A notícia sobre a doação de Roth virou notícia em dois tempos. Pouco antes de sua morte, ocorrida a 22 de maio de 2018, a biblioteca pública de Newark anunciou que o romancista tinha decidido legar à instituição o seu acervo pessoal de livros, distribuído entre seu apartamento de Nova York e sua casa de campo de Connecticut. Tantos títulos escolhidos, lidos e anotados por um dos escritores mais importantes do mundo constituem um presente espetacular para uma biblioteca pública de uma cidade média como Newark. Mas, também, para uma instituição carente de financiamento público depois que Ingrid Betancourt, diretora de coleções especiais, define como “uma década devastadora que se seguiu à crise financeira de 2008”, o presente significa uma boa carga de responsabilidade. Sobretudo quando o falecido inclui a disposição de que a coleção deverá estar exposta e aberta ao público, em um lugar específico desenhado para esse fim, em um prazo de três anos.
Um quinto do patrimônio

Então veio a segunda parte, noticiada com exclusividade pelo The Wall Street Journal em outubro de 2019. O romancista, duas vezes divorciado e sem filhos, tinha discretamente deixado à biblioteca em testamento pelo menos dois milhões de dólares (10,66 milhões de reais), dos 10 milhões que compunham seu patrimônio. Com essa quantia se criaria um fundo cujos rendimentos anuais se destinariam à aquisição de livros. Além disso, deixava outra quantia que a instituição poderia utilizar para outros propósitos, incluída a reforma da sala de grandes janelas que ele mesmo escolheu em vida, sobre o átrio do edifício principal construído no final do século XIX.

Essa sala agora está sendo transformada na Biblioteca Pessoal de Philip Roth. A pandemia do coronavírus – da qual Nova Jersey foi nos primeiros meses um dos epicentros nos EUA – interrompeu a atividade presencial na biblioteca, mas permitiu avançar em “uma parte do trabalho que era mais fácil de fazer com a biblioteca fechada ao público”, explica Betancourt. De modo que o plano é abrir as portas da coleção de Roth em maio do ano que vem.

Thomas Alrutz, conselheiro e ex-diretor da biblioteca, gosta de ver essa doação como “a devolução de um empréstimo de livros após sua morte”. “Philip cresceu numa família sem um só livro”, conta Alrutz. “E desde muito menino se meteu na biblioteca, primeiro na sede de seu bairro, Weequahic. Devorava livros e todos eram da biblioteca. Quando ficou maior, começou a vir à sede principal e a explorar mais autores. Depois, já sendo um romancista, falava frequentemente por telefone com nosso especialista em história de Newark e de Nova Jersey, para resolver dúvidas enquanto escrevia seus livros. Esta biblioteca é o lugar onde cresceu e aprendeu. Por isso é bonito que seus livros voltem.”

Essa volta começou a se forjar há 12 anos, quando a biblioteca pública do Newark realizou uma exposição intitulada Philip Roth: Uma Vida em Fotos. Rosemary Steinbaum, do conselho da biblioteca, foi encarregada de revisar com Roth sua vida em fotografias. “Passei dois dias em seu apartamento de Nova York”, recorda. “Sentávamo-nos no salão e começava a tirar fotos. Era muito organizado. Falava das fotos e eu tomava notas freneticamente. Com elas redigi textos para a exposição, e os dava para que os reescrevesse em sua própria voz”.

Steinbaum tinha conhecido Roth anos antes, num ônibus. Uma amiga teve a ideia de organizar tours na Newark de Philip Roth, e entrou em contato com Steinbaum porque ela era especialista no autor. “Eu escolhia passagens de seus romances que correspondiam às paradas do ônibus”, explica. “Um dia, Philip teve a ideia de se inscrever em um tour, entrou no ônibus e se sentou no banco de trás. Os turistas não acreditavam. Era a reunião do 50º aniversário de um grupo do colégio de Weequahic”. Sim, como a reunião da qual Zuckerman participa em Pastoral Americana.

Quando há oito anos os advogados de Roth ligaram para a biblioteca para perguntar se aceitariam o legado do escritor, Steinbaum compreendeu o “trabalho colossal” que tinham pela frente. “Mas era uma oportunidade incrível para a biblioteca, e também para Newark”, afirma.

“Queremos que seja um ímã para acadêmicos interessados na obra de Roth, mas também para leitores e curiosos”, diz Betancourt. “Haverá dois espaços. Uma zona aberta com exposições, e outra parte privada para estudos. Não queremos que seja só um arquivo, e sim um fórum de debate sobre Roth, sobre a literatura americana em sentido amplo, e também sobre Newark.”

A biblioteca. O colégio de Weequahic. Sua casa familiar no número 81 da avenida Summit, que recriou, misturando de novo autobiografia e ficção, em Complô Contra a América (2004) – transformada agora em uma minissérie da HBO. O autor espremeu a vida cotidiana desses bairros humildes de Newark. “A comunidade judaica foi embora do bairro depois das revoltas de 1967, que Roth cita em Pastoral Americana”, diz Alrutz. “Mudou muito, mas ele manteve sempre certo vínculo, além de uma nostalgia por aquele bairro imigrante onde cresceu. De alguma forma, como demonstram seus livros, nunca foi embora totalmente.”

Neto de imigrantes que fugiram dos pogroms do Leste Europeu, Roth situou a maior parte de sua ficção nestas ruas de Nova Jersey, onde não voltou a morar desde que, no segundo ano da universidade, se transferiu para a Pensilvânia. E, ao contrário de Faulkner, não camuflou esse cenário infantil por trás de um fictício condado como Yoknapatawpha. “A paixão pela especificidade, pela materialidade hipnótica do mundo em que alguém vive, está no coração da tarefa que cada romancista norte-americano se impôs desde Herman Melville e sua baleia e Mark Twain e seu rio: descobrir a mais impressionante e evocadora representação verbal de cada uma das coisas americanas”, disse Roth na comemoração de seu 80º aniversário, em 2013, em Newark.

As pessoas. Os lugares aos quais pertencem. Há mais respostas nestas caixas que em seus livros. Trópico de Câncer, de Henry Miller, edição de 1961. Página 11, sublinhado em preto: “É o triunfo do indivíduo sobre a arte”. Página 254, marcado em vermelho e repetido com caneta sobre uma nota: “Pertenço à terra”.

sexta-feira, agosto 7

Hora do café

Jeffrey Larson

 

A camponesa, a égua e o cavaleiro

Num mês de Agosto tão quente que até derretia os pássaros, com excepção dos mais espertos que se metiam nos galhos das árvores mais frondosas em busca de um pouco de frescura, saía da sua choupana uma bela camponesa para tratar do campo que lhe estava destinado. Mal saiu, logo a assaltou o calor, desfazendo-lhe o cabelo que se soltava sobre os ombros, e abrasando-lhe o ânimo de tal modo que, em vez de se dirigir à sua terra, desviou-se para a margem do rio que, naquele período, corria com calma, desafiando os mais incautos a um banho que os refrescasse. Vendo que não havia ninguém por perto, e posta a roupa de lado, meteu-se a camponesa na água e, em breve, nadava em grandes braçadas, procurando o meio do rio onde melhor podia dar largas ao seu desejo de exercício.

Ora, ao mesmo tempo que a camponesa tomava o seu banho, vinha um cavaleiro pela outra margem, puxando a sua égua pela arreata, com o que nem um nem outro se cansavam inutilmente, a égua liberta da sua carga, e o cavaleiro aproveitando o pouco de sombra que a companhia da égua lhe ia dando. Chegando ao lugar em que o rio mais se alargava, a mesma ideia que tivera a camponesa tomou conta dele; e se bem o pensou melhor o fez, despindo o gibão e metendo-se pela água dentro. Acontece porém que, ao contrário da camponesa, não sabia nadar o pobre do cavaleiro; e logo, perdendo o pé, viu chegar o fim dos seus dias, com o que começou a gritar à sua égua:

- Ouve, Rocina, não deixes que o teu senhor se afunde neste charco, com o que o mundo irá perder um cavaleiro sem igual, e tu o melhor dos donos que alguma vez tiveste!

Paul Lucien

Na sua margem, ouvindo isto, a égua viu chegada a sua oportunidade de melhor vida e, sem perder tempo, pôs-se às de vila Diogo, como é timbre das éguas nobres, esperando encontrar outro senhor que a esporeasse, levando-a para novas guerras. Na aflição de se afundar, entretanto, o senhor nem deu por nada, e ainda menos por que uns braços mais ágeis no domínio das fortes correntes o seguravam, já meio desfalecido, puxando-o para a margem oposta. Como certamente adivinharam, pertenciam à camponesa esses braços salvadores; e foi neles que acordou o cavaleiro que, vindo de outro país, não entendia a língua da moça, tanto que, sem se lembrar do motivo que o fazia acordar em tão aconchegado porto, pela muita água que bebera, lhe perguntou quem era; e ela, respondendo-lhe na sua língua, mais ainda lhe confundiu o pensamento, de tal modo que, olhando à sua volta, com arbustos e flores que ressaltavam do esplendor do estio, e vendo-se a si e à sua salvadora nos trajes naturais, entendeu que tinha passado de mundo e acedera ao próprio paraíso terrestre.

- Eva: aqui se cumpre, então, o destino mais alto a que um homem pode aspirar; e vejo que Deus me recompensou pelos muitos trabalhos que levei, oferecendo-me tão belo galardão em troco do muito que passei, com a minha Rocina, destroçando infiéis que o punham em causa, e erguendo templos para sua adoração!

A moça, que não percebeu uma palavra do que o cavaleiro dizia, no seu delírio místico, apenas deu conta que se tratava de um belo homem, apesar de uma magreza própria dos muitos trabalhos por que passara; mas, atenta ao seu pudor, correu para trás dos arbustos onde guardara a sua roupa e, sem perder tempo, vestiu-se e fugiu para o campo onde as companheiras de trabalho já esperavam e desesperavam pela sua ajuda, deixando o cavaleiro deitado, na ilusão de que ela regressaria.

Assim se passaram minutos, se passou uma hora, e como o cavaleiro não a visse voltar, resolveu ele tomar a iniciativa e avançar até ao lugar por onde a vira partir, e para lá do qual viu abrir-se uma tão bela paisagem, que o fez convencer-se mais ainda de que era no paraíso que se encontrava. E como, no paraíso, nem os anjos nem as almas andam vestidos, nem lhe passou pela cabeça que teria de se cobrir, avançando em feliz levitação pelo chão de erva, mas conduzido por uma providência que o encaminhou até onde as camponesas, reunidas, iam trabalhando os canteiros que esperavam a sementeira próxima. Entretidas neste trabalho, só quando ele chegou junto delas se aperceberam do estado em que vinha; e, gritando, todas se afastaram, mesmo a que o salvara e que, para não se denunciar, seguiu as amigas. Ele, no entanto, reconhecendo a sua Eva, chamou-a:

- Por que me foges, senhora Eva, levando atrás de ti os formosos anjos do Paraíso terreal? Não vês que te procuro neste oásis de verdura, para que ambos realizemos a vontade divina que manda ao homem que cresça e se reproduza?

Com efeito, manifestava já o adâmico candidato os atributos do seu voto, o que mais ainda fazia fugir as camponesas que, no entanto, vendo o ridículo da situação, se iam rindo por entre os intervalos da sua fuga. Mais ria, porém, a causadora de todo aquele equivoco, sobretudo porque se lembrava do seu discurso eloquente, ao sair da água, e da incoerência dele com a figura descomposta de quem o proferia; e tão alto riu que ele, atentando em si, as deixou afastarem-se, enquanto dizia:

- Que ouço? Não é de anjo nem de Eva este som; mais me lembra a minha Rocina que, também ela, em horas mais ternas, me produz estes sons. Por isso não entendo eu palavra do que ela me diz! Então foste tu, Deus, que à minha montada restituíste a forma humana, para que de modo mais estreito ainda possa eu prosseguir a minha caminhada pelo mundo com tão querida companhia! Agradeço-te, Senhor, e não irei perder mais tempo com tão inocentes distracções.

Se bem o pensou, melhor o fez, correndo com toda a força das suas pernas em direcção à camponesa que tomava pela sua Rocina; e, chegando junto dela, saltou às suas cavalitas, gritando:

- Eia, minha Rocina! Leva-me para longe deste enganador Paraíso, onde pensei chegada a minha hora derradeira, e voltemos ao rumo da aventura, onde muitos trabalhos nos esperam ainda!

Vendo o homem às suas costas, nem a moça queria acreditar no que lhe sucedia, nem as companheiras entendiam outra coisa que não fosse a pior das intenções por parte de tão atrevido fauno. Do riso passaram então ao grito espavorido, com que ao lugar acorreram outros camponeses, e moços de varapau, que rodearam o cavaleiro e a sua desorientada salvadora, que desta vez nada pôde fazer por ele enquanto os aldeãos, deitando-o por terra, o deixaram moído de tareia, e como morto, após o que todos regressaram a casa.

Acordou o cavaleiro do seu desmaio era já noite avançada. No ermo, onde não se ouvia vivalma, outro que não ele se teria assustado, muito embora o estado dolorido em que tinha regressado a este mundo nem lhe desse oportunidade de pensar em coisas do outro, não fosse o caso de ouvir um resfolegar brusco mesmo sobre o seu rosto. Refeito do susto, levou a mão à origem do ruído, dando com o focinho de Rocina que, cumprido um dia de louca correria em liberdade, que a fizera dar a volta à nascente do rio, acabou por voltar ao seu dono que, na escuridão, a confundiu com a sua Eva:

- Oh meu amor, sabia que não me irias deixar, depois deste assalto em que os infiéis me deixaram como vencido; e quero ir contigo a tirar a desforra do assalto!

No entanto, tacteando com mais vagar, no escuro, foi descobrindo com a mão que era focinho de equídeo e não feminino rosto o que sobre ele se debruçava; e mais deu por um corpo coberto de pêlo, e longas patas ferradas, em nada condizentes com a memória que Eva lhe deixara. Então, voltou a dirigir-se ao Ente supremo com desconsoladas palavras:

- Oh Senhor, por que voltaste a dar à minha Eva a forma de Rocina? Que pecado foi o meu, que me roubaste do paraíso e me voltaste a pôr no exílio terreno, onde terei de retomar os meus caminhos em demanda de provas e desafios, de que estou cansado, como se não tivesse já provado o meu valor com tantas vitórias sobre os mais ferozes inimigos?

Pôs-se então a pensar, enquanto andava, ainda combalido da pancada; e não andou muito que não chegasse novamente ao pé do rio, já a madrugada despontava. Ali, encontrou a solução para o seu problema.

- Ouve, Rocina: a única maneira de resolver isto, fazendo regressar o teu corpo de cavalo à figura angélica da minha Eva, é voltar a atirar-me à água para que, passado este Letes, tu me venhas salvar de novo!

E assim se voltou o cavaleiro a atirar ao fundão, de onde não mais saiu, sem que Rocina percebesse por que é que, pela segunda vez, ele a obrigava a dar a volta à nascente do rio, e mais ainda por que razão, desta vez, ninguém a esperava do outro lado.
Nuno Júdice