sexta-feira, dezembro 6

Vai passear?


Poesia viva de Rachel de Queiroz no sertão do Ceará

Uma longa estrada de terra, ladeada por muitos galhos retorcidos pela seca, desemboca na fazenda Não me Deixes, em pleno sertão central cearense —onde a escritora Rachel de Queiroz passava longas temporadas todos os anos. Nascida em Fortaleza em 1910, Rachel se mudou com a família para o Sudeste brasileiro depois de uma grande seca. Retornou ao Ceará ainda criança. Ali terminou os estudos e escreveu o livro O Quinze, um retrato social da seca que a consagrou quando tinha apenas 18 anos de idade.

Saiu de lá para se instalar no Rio de Janeiro, onde foi ampliando os espaços para a mulher na literatura brasileira: foi a primeira a ganhar o Prêmio Camões e a primeira a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Embora tenha vivido em terras cariocas até morrer aos 93, nunca cortou vínculos com o sertão. Voltava à sua fazenda todos os anos, sempre no simbólico be-erre-o-bró, a época mais quente no ano, dos meses terminados em bró. O dia da chegada da escritora era um acontecimento na região, e o alpendre da casa grande se enchia de gente de todas as idades, a maioria afilhada de Rachel, para recebê-la.

Fazenda Não me Deixes
“Dona Rachel, do jeito que acolhia o rico, acolhia o pobre”, conta a agricultora Maria Alzenir Pereira, de 76 anos, enquanto observa o mesmo alpendre agora esvaziado. Vez por outra, ela coça a cabeça coberta por um chapéu de pano rosa e pergunta para a filha Nize, atual gerente da fazenda, se um grupo que marcou visita já está pra chegar. Parece ansiosa. De tanto ouvir Rachel de Queiroz dizer que a fazenda Não me Deixes não podia acabar, quer ver a casa cheia. E conta da fartura de café, cuscuz e bolos colocados na ampla mesa de madeira da sala. Estas são cenas que pelo menos três gerações da família dela se esforçam para manter vivas, trabalhando ali no roçado e na contação de uma história que é também delas, mais de quinze anos depois da morte da escritora. “Pra mim a dona Rachel não morreu, não. É como se ela tivesse feito só uma viagem, como fazia sempre”, diz Alzenir.

Para a família Pereira, Rachel de Queiroz é como um personagem marcante que se espalhou por aquela terra e agora não se acaba mais. Está no chalé ao lado do açude, onde escrevia seus textos sentada em uma pequena escrivaninha de madeira que segue ali tal qual deixou. Na cabeceira da mesa da sala, onde dava a merenda aos amigos e onde discutiu tantas vezes seus escritos com a irmã dela, Maria Luiza. Está na sua própria obra, acomodada em uma estante de madeira e vidro regularmente limpa por seus afilhados. Está até na certidão de nascimento que Nize, filha de Alzenir, que se recusa a tirar uma segunda via pra não perder no documento a assinatura da madrinha escritora, testemunha de sua existência oficial. Nize é mãe de Daniel Victor, hoje guia turístico na fazenda, e a terceira geração que ajuda a desenhar a memória da escritora com as suas próprias.

Rachel segue mais pulsante mesmo é na cabeça de Alzenir, que depois de idosa começou a escrever versinhos de cordel. “Aqui e acolá dona Rachel dizia uns versinhos pra gente achar graça. Eu tenho pra mim que esses versinhos que eu decoro hoje é ela quem sopra no meu ouvido”, diz, enquanto folheia alguns cadernos nos quais anota com dificuldade algumas estrofes. A maioria delas Alzenir guarda é na memória mesmo e, sem qualquer papel por perto, recita as histórias da fazenda que virou área protegida pelo Ibama pela diversidade vegetal da caatinga, refúgio da autora de O Quinze e pilar da sua família.

“Escreveu Rachel de Queiroz na consciência da vida / que a fazenda Não me Deixes não pode ser destruída / Falou logo com o Ibama pra não ser invadida / Eu amo minha fazenda / amo meu imóvel estimado / as madeiras vegetais / as melhores, de qualidade / cumaru, pau branco e preto, pau d’arco e a violeta / Das plantas medicinais, não posso me esquecer, lá nas margens do meu açude / Nem da flor do moçambique / Ela era poderosa no mandado e no poder / Foi ser Rachel de Queiroz / Seu nome ficou no mapa pra ninguém mais esquecer”.

Alzenir conheceu Rachel de Queiroz aos nove anos de idade, quando via a moça que estudava em Fortaleza chegar de trem na cidade de Quixadá enquanto brincava com as amigas próximo aos trilhos. Uma imensa desigualdade dividia a história delas duas. Alzenir cresceu ajudando os pais na roça, acostumada a ver a falta de chuva ressecar o mato e ameaçar a sobrevivência dos seus. “Meu saber é pouco. Não estudei muito porque era da roça, né? Não tinha tempo”, ela diz. Nunca conseguiu ler um livro completo de Rachel de Queiroz, mas da varanda de casa (vizinha à casa grande da fazenda) vai enumerando, um a um, os títulos da amiga. “Costume mesmo com dona Rachel eu só peguei quando vim morar na fazenda aqui, nos anos 1970”, conta. Alzenir passava com frequência pelas terras da família Queiroz enquanto tangia o gado na infância e na adolescência. Viu os trabalhadores erguerem os primeiros alicerces para construir a Não me Deixes e foi ali, naquelas passagens diárias e pequenas paradas para conversar, que ela conheceu o marido, Manoel, trazido da fazenda dos Queiroz de Fortaleza para cuidar do terreno onde a escritora construiu seu refúgio.

Rachel de Queiroz havia ganhado aquelas terras do pai ainda na infância e, seguindo as instruções dele, construiu, muitos anos depois, uma casa voltada para o nascente, um açude e um curral. Uma realidade social distante da de Alzenir, que lembra emocionada da multidão que se reuniu na inauguração da fazenda em uma festa tão farta que entrou pro imaginário da região. “Tinha gente que chorava de tanta fartura. Era carne assada, tacho de doce, tudo”, conta. E diz que não podia imaginar que, anos depois se apaixonaria pelo gerente e criaria naquelas terras suas duas filhas, ambas afilhadas da escritora. “Casei no poder dos Queiroz igual os pais do meu marido”, ela diz.

Estante com livros de Rachel de Queiroz. Fernanda Siebra
Alzenir perdeu as contas de quantas vezes precisou deixar o roçado mais cedo para percorrer 30 quilômetros para levar os artigos escritos por Rachel de Queiroz para os jornais do Sudeste até os Correios em Quixadá. Lembra que “dona Rachel” costumava chamar suas filhas, crianças, e depois o neto para se deitar com ela em uma rede armada do alpendre. Ali, lia para eles e mostrava ilustrações dos livros. “Ela dizia que meu neto Daniel Victor era a sétima geração da nossa família com a família dela”, diz. Isso porque o tataravô de Manoel já trabalhava para a família Queiroz em Fortaleza.

Aos 21 anos, Daniel Victor lembra vagamente dessas cenas. A escritora morreu quando ele tinha apenas cinco anos, e ele cresceu sem conseguir entender direito a reverência exagerada que os familiares nutriam pela ex-patroa. "Eu não tive muito o contato direto com ela, mas cresci no ambiente onde ela viveu e gostava. E a reverência da minha família foi despertando em mim uma vontade de conhecer melhor essa história”, conta. Daniel foi então fazendo perguntas aos avós, pais e tios. Descobriu uma Rachel de Queiroz que tinha influência na sociedade brasileira, mas que preservava a essência do sertão. Ouviu tantas vezes que ela conseguiu transformar o cotidiano duro da seca em poesia, especialmente pelo livro O Quinze, que lhe despertou admiração. “Rachel de Queiroz pra mim é sinônimo de inspiração e coragem”, define.

Daniel acabou virando guia, quando os dois sobrinhos e únicos herdeiros de Rachel de Queiroz aceitaram abrir a propriedade privada para visitação pública. Ali não há programação definida. É preciso marcar com antecedência com os próprios caseiros, que cobram uma taxa de 50 a 120 reais por veículo. Daniel então deixa sua casa em Quixadá, onde agora cursa Engenharia, e vai contar aos turistas as histórias que ouviu a vida toda. Acaba por narrar também as próprias raízes. "Meu bisavô por parte de pai nasceu na fazenda dos Queiroz, em Fortaleza. A gente tem o dever de manter viva a história da Rachel, e acho que nós estamos inseridos nela”.

A mãe dele, Nize, gerencia a fazenda desde que o pai Manoel morreu, há dois anos, e se preocupa em garantir alguns quitutes à venda para os visitantes. Enquanto organiza a merenda, conta dos tempos em que seus pais eram acordados de madrugada com a chegada de famosos em pleno sertão. “Meu pai contava que Luiz Gonzaga chegou uma vez meia-noite tocando Asa Branca porque era uma música que a madrinha Rachel gostava. Ela nunca se incomodou com visita, e a gente aprendeu com ela a receber”, diz. Nize então pede desculpas porque, especialmente naquele dia, não teve tempo de fazer um bolo que era receita de sua avó e que Rachel de Queiroz gostava tanto que incluiu no livro “Não me Deixes: suas histórias, sua cozinha”. “Eu sempre trago em dia de visita. O bolo é escuro porque tem rapadura. Tem gente que faz cara feia, mas quando eu falo que a madrinha Rachel gostava, todo mundo quer”, diz, aos risos.

quinta-feira, dezembro 5

Levite

 Craig Frazie

O coração do violinista

De repente, meu amigo tentou liquidar a discussão, dizendo que bateria não era instrumento de música.

– Como não é instrumento de música? É instrumento de quê, então?

– De jazz.

– E jazz não é música?

– Música para você: para mim não é.

– Toda orquestra sinfônica tem bateria.

– Nem por isso ela fica sendo instrumento de música. Toda orquestra sinfônica tem maestro. Maestro é instrumento de música?

– Em certo sentido, é.

– Ora, deixa de conversa.

Discutíamos por discutir, levados pela mais absoluta falta de assunto.

– Você não entende de instrumento – meu amigo voltou à carga: – Se entende, me diga uma coisa: o piano, por exemplo. O piano é instrumento de corda ou de percussão?

Embatuquei. Sempre tivera o piano na conta de instrumento de corda, ora pois. Mas o diabo daqueles martelinhos lá dentro, percutindo nas cordas… De percussão?

– De corda – arrisquei.

– Não senhor: de percussão — arrematou ele, triunfante, e chamou o garçom com um gesto, pedindo outra cerveja.

Veio-me a certeza de que se eu tivesse falado “de percussão”, ele diria: “não senhor – de corda”. Agarrei-me à corda:

– Percussão aonde, seu! De corda.

– Percussão.

– Corda.

Dali partiríamos para os sopapos, se de súbito não tivesse entrado no bar o violinista triste. Vinha mais triste do que nunca, o violinista: andava apaixonado, sabia-se, e não era correspondido. Foi sentar-se num canto, como sempre, pediu um conhaque. Imediatamente o convocamos para a nossa mesa, e veio, olhos de vaca mansa, trazendo seu cálice. Para ele tanto fazia sentar-se nesta como naquela, ora dane-se! Estava apaixonado.

– Você que é músico de verdade vai dizer aqui a última palavra: bateria é ou não é instrumento de música?

– Piano é instrumento de percussão ou de corda?

Mas o violinista triste não queria saber de nada, muito menos de conversa de botequim. Largou-nos um olhar desconsolado, soltou um suspiro tristíssimo, ergueu-se, levando o cálice ao peito:

– E o coração… É instrumento de sopro ou de percussão?

quarta-feira, dezembro 4

Começa o dia


Os melhores livros do século XXI (até agora)

"Fazer listas", escreve Alberto Manguel em seu O Diário de Leituras, "dá origem a certa arbitrariedade mágica, como se a simples associação pudesse criar sentido". Pois bem, que sentido se pode encontrar em uma lista que tenta fazer um balanço das duas primeiras décadas do século XXI? Vamos começar pelo princípio. Naquela terça-feira de 11 de setembro de 2001 dois aviões de passageiros sequestrados por terroristas suicidas derrubaram as Torres Gêmeas de Nova York, mataram quase 3.000 pessoas e mudaram o mundo para sempre. De passagem, mandaram para o quarto de despejo a hipótese hegeliana do fim da história reciclada por Francis Fukuyama depois da queda do muro de Berlim e resolveram a discussão sobre se o século XXI começava no ano de 2000 ou em 2001. A guerra das galáxias ficou no choque de civilizações. O computador passou no teste de efeito 2000, mas seu usuário –a nova grande palavra– entrou na era do medo, da insegurança, da precariedade, da intimidade (pública) e da realidade (virtual).

SETANTA
O futuro tinha chegado tão cedo em forma de estilhaços que os cinemas ficaram repletos de remakes; as livrarias, de cânones, coletâneas e resumos e listas do melhor melhor e dos mais mais (que se deveria ver, ler e escutar... antes de morrer). Também de escritos com um fundo de história universal e livros de não-ficção ou autoficção que dão tanto valor ao enredo como a seu making-of. Incapaz de imitar uma realidade presente que parecia de romance, a literatura se voltou para o passado, a memória (histórica apenas), a investigação jornalística, em primeira pessoa e na própria literatura, que se tornou metatudo.

Daí o triunfo absoluto de 2666, um livro total composto por cinco partes e publicado no segundo semestre de 2004, no ano seguinte à morte de seu autor. Desde Borges –meticulosamente retratado por Adolfo Bioy Casares em um diário já inevitável -, nenhum escritor influenciou tanto as novas gerações como Roberto Bolaño. O fato de seus livros começarem a ser publicados na Espanha pela Anagrama e atualmente pela Alfaguara –as duas editoras espanholas mais presentes na lista da Babelia– é outro sintoma do peso de alguns selos na criação do gosto contemporâneo.

Talvez por uma mera questão geracional, a literatura canônica das duas primeiras décadas do século XXI se ocupou de cutucar as feridas do século XX. As guerras mundiais, a guerra civil espanhola, o período pós-guerra, a descolonização, as migrações, o apartheid, as ditaduras latino-americanas, a queda do império soviético, os feminicídios em Ciudad Juárez ou as turbulências no Oriente Médio podem ser rastreados na obra do próprio Bolaño e de Ian McEwan, WG Sebald, Javier Marías, Javier Cercas, Tony Judt, Mario Vargas Llosa, J.M. Coetzee, Zadie Smith, Svetlana Aleksiévich, Emmanuel Carrère, Marjane Satrapi e Edmund de Waal.

Se esses autores começam a ser canônicos, não é apenas por causa dos tópicos que abordam, mas também pela maneira como o fazem: misturando realidade e ficção, narração e reflexão, dinamizando os gêneros tradicionais ou deixando que sua intimidade sem filtros discutia com a história. Universal. Esse eu com vontade de nós é o que produziu, além do mais, títulos como os de Joan Didion, Lucia Berlin, Anne Carson e Raúl Zurita –que deu à sua obra magna o próprio sobrenome–, e sobretudo os seis volumes de Karl Ove Knausgård.

A grande história e a intimidade bruta também estão presentes em títulos de sucesso do século XXI, como O Código Da Vinci, O Menino do Pijama Listrado ou Cinquenta Tons de Cinza. Por que não estão nesta lista? Talvez porque não se encaixem na definição que o crítico Northrop Frye cunhou para "grande literatura": aquela que é "dona de uma visão sempre mais vasta do que a de seus melhores leitores". O poeta Wystan Hugh Auden fez a seguinte ponderação: “Existem livros que foram injustamente esquecidos; ninguém é lembrado injustamente”.

A crise econômica de 2008 acrescentou a indignação à insegurança e deu razão a um romance premonitório publicado na Espanha um ano antes: Crematorio, de Rafael Chirbes. Por tabela, empoderou –o verbo do século– um gênero e uma geração. O feminismo e o ambientalismo são, por ora, a resposta mais contundente a uma tendência insustentável que está a caminho de transformar em realismo puro um romance de, digamos, ficção científica como A Estrada, de Cormac McCarthy. Protagonizado por dois homens sozinhos –pai e filho– que vagam por um planeta devastado, a distopia do autor norte-americano inclui em suas páginas algo que se assemelha a uma definição da literatura de hoje: “Deus não existe e nós somos os seus profetas”.

Leitor e seu mundo

Alicja Kocurek

Nuvens

Aquela galinha branca e gorda finge estar parada, mas avança vagarosa, decidida a bicar o bode do outro lado do céu. Segue disfarçando, passa detrás daquele floco redondo, mas vai tão lenta que, quando chega perto, o bode já está mais para um abacaxi de coroa quebrada. E bicar abacaxi é o tipo do programa besta. Não sei se por decepção, divide-se em quatro nuvens desimportantes, pobre galinha esquartejada, vagando no ar.

Eis que 10 minutos depois surge a cara de um cão. Só do pescoço para cima, o suficiente para vermos que é um cão feliz, de sorriso aberto e orelhas em pé. Mais duas caipirinhas e eu o ouviria latir. Estou aguardando surgir por trás dos prédios a razão de tanta felicidade: uma bola, um moleque companheiro, uma cadela cheia de ziriguidum?

Segundo os entendidos, uma nuvem se forma pela evaporação das águas dos rios e dos mares. Segundo os iludidos, ali está um boto, mais adiante o esboço de um tamborim e, há pouco, uma barbatana de cabeça pra baixo.

Ontem mesmo o céu estava todo azul, sem uma nuvenzinha pra contar a história. Pois lembrem as senhoras e senhores que os anjos moram nas nuvens e, sem elas, eles não teriam como se divertir. Ou você acha bacana passar a eternidade entoando hinos sacros e tocando harpa? Hoje é um bom dia para moldá-las e assoprar para ver o que vão dar.

Aquela, por exemplo: não deu em nada. Um amontoado disforme e indeciso, girando sobre si mesmo. Que logo dá lugar a uma nuvem escura, que chega com pressa e cheia de ameaças, torós e trovões estocados. Lá dentro deve ventar pra burro, pois ela lança flocos pra todo lado, que crescem como pelotões de algodão avançando pelo céu.

Para dar mais emoção ao quadro, no seu caminho está parada outra nuvem – maior, mais escura e com cara emburrada. O encontro das duas não vai dar em boa coisa. É a hora em que as lavadeiras recolhem as roupas do varal e as mães puxam pelos braços seus filhos que se recusam a sair da praia, berrando e se jogando na areia até virar uma farofa só.

Mas o que é aquilo? Um inocente pintinho surge detrás do morro. Há até um furo na nuvem fazendo de olho. Segue firme em direção ao terrível encontro das nuvens. Jesus, ele não está vendo o que está para acontecer? Ah, claro, está atrás da mãe galinha, mas lamento informá-lo que… não, não tenho coragem de dizer a verdade a ele. Que ele pule pra lá e pra cá, desvie dos relâmpagos e aprenda a voar meio ensopado, para já ir aprendendo que a vida é dura, companheiro, e com sorte seu fim será um belo coq au vin com recomendações ao chef.

Nuvens feias nos tornam cruéis e levemente sarcásticos.

Mas também elas passam. Ouço ao longe a conversa dos trovões, foram se encontrar em outra freguesia. O pintinho, a humanidade e as caipirinhas estão salvos. Talvez agora um cochilo. Mas aguardemos que aquele caranguejo cinza sem patas, mas com duas belas tenazes, desapareça pelos lados do oeste. Não, não é de medo, e sim respeito. Apreciamos nuvens, mas não somos bobos. Ou somos, sei lá. Vejamos o que diz o microfone que surgiu no horizonte.
Cássio Zanatta

terça-feira, dezembro 3

Biblioteca de fada


Sonho de uma noite de Natal

Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.

Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta, e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.

Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tiquetaque apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno; e aquele tique-taque seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se ao meu cérebro, ressoava dentro dele.

Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele, cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.

Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelo casario da vizinhança, para ver se obtinham algo com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia mais santo de todos.

Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da missa do galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e já era muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar ao seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome.

Retomaram, pois, o caminho de seu abrigo, ela adiante, ele com a mão apoiada à sua cintura. Vinham lentamente, na escuridão da noite.

As nuvens encapotavam o céu; o vento dançava com a neve, e o caminho parecia cada vez mais longo. É que a velha se deixava iludir pela alvura sempre igual do solo e, em vez de tomar o atalho correto, seguira ao longo do vale.

O velho irritava-se.

― Ainda não chegamos? Estou vendo que não chegaremos antes da meia-noite.

Ela respondia que estavam perto. Sabia que tinham se perdido e queria ocultar-lhe o fato. Mas tanto andou em vão que teve de confessar com um tom melancólico na voz:

― Em nome de Cristo, perdoe-me. Eu me enganei, tomei outro caminho... E o pior é que agora não sei onde estamos. Vamos parar um pouco para repousar.

― Mas vamos ficar gelados...

― Que importa!... Nossa vida não é tão doce que dê pena de perdê-la. Preciso descansar um pouco.

O velho cedeu, suspirando.

Sentaram-se na neve, encostados um contra o outro, e ficaram imóveis, como duas trouxas de farrapos. A neve, que caía incansável, começou a cobri-los, e a mulher, menos agasalhada que o marido, não tardou a se sentir tomada por um sono irresistível.

Sentindo que ela se apoiava mais fortemente sobre seus ombros, o homem assustou-se:

― Minha velha, não durma: olhe que vai ficar gelada.

Porém, ela já adormecera, e balbuciava coisas incompreensíveis, sem despertar.

O velho voltou-se e tentou erguê-la, repetindo seus alarmados conselhos. Como não o conseguisse, ergueu os braços e bradou por socorro. Ninguém o ouviu, mas os sinos, ao longe, começaram a repicar.

― Minha velha ― insistiu o cego, sacudindo os ombros de sua pobre companheira -, os sinos já estão tocando para a missa. Levante-se... Olhe que vamos chegar tarde...

Mas a mulher mantinha-se imóvel.

Então, resignado, sentindo-se também invadido pela sonolência mortal, o cego sentou-se de novo ao lado de "sua velha", e uma última súplica passou por seus lábios:

― Senhor! Acolhe a alma de teus servos. Ambos somos pecadores, mas confiamos em tua misericórdia.

Recordando essa história, sorri, contente comigo mesmo, certo de que ela enterneceria meus leitores. E, embalado pelo tique-taque do relógio, comecei a cochilar.

E então, sem saber ao certo se estava dormindo ou acordado, vi a claridade vaga da janela aumentar, tomar um tom azul e fosforescente, ampliar-se, formando um quadro imenso, e aí surgirem pouco a pouco alguns vultos, a princípio confusos, inconsistentes. Mas logo seus contornos foram se acentuando e desenhando formas familiares aos meus olhos.

Eram crianças, mulheres, velhos... todos miseráveis e tristes.

― De onde vêm essas sombras e que representam? ― perguntei a mim mesmo, tentando em vão emergir dos abismos do sono.

Uma voz perguntou por sua vez:

― Não nos reconhece?

Procurei distinguir no meio daquela multidão lamentável. Vi então um grupo que, com passo vacilante, tomava a dianteira de todas as sombras. Era um velho cego, apoiado à cintura de uma mulher também já idosa, que me fitava com ar de censura.

― Não nos reconhece? ― repetiu ela com voz severa. ― Nós somos os heróis dos contos que você passa a vida escrevendo; somos os tristes e desgraçados filhos da sua imaginação... Ali estão os dois meninos que você fez morrer de frio, diante das janelas de uma casa onde fulgia, magnífica e opulenta, uma árvore de Natal. Aquela mulher ali é a desgraçada que você fez morrer sob as rodas de um trem, quando corria pela rua, ansiosa por levar aos filhos um presente de Natal. Aquele ancião...

Eu ouvia, contemplando, pálido de horror, as sombras lúgubres e silenciosas que desfilavam sem cessar ante meus olhos.

Por que vinham todas elas me alucinar nessa noite? Que queriam de mim? Que pretendiam?

― Responda você mesmo a essas perguntas ― bradou a velha, lendo o meu pensamento. ― Por que escreveu essas coisas? Para que vive inventando essas desgraças, essas tristezas? Que pretende com isso? Desfazer o que resta de fé e esperança no coração dos homens? Tirar-lhes a confiança na redenção, mostrando-lhes somente o mal? Aniquilar o desejo de viver, apresentando a existência como um suplício sem fim e sem remédio?

Eu estava consternado... Seria mesmo assim tão culpado? O que faço não é o que fazem todos os escritores? Especialmente nos contos de Natal, procuramos todos imaginar cenas bem tristes, bem tocantes, para despertar em nossos leitores sentimentos compassivos, abrir os corações à piedade...

― É mentira! ― bradou a velha. ― Mentira ingênua e ridícula. Então pretende, com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensa enternecer, com suas pobres fantasias, os homens que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?...

O resto do sonho foi uma confusão que não consigo recompor; mas pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.

Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela, e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas.
Máximo Gorki, "Os Melhores Contos Russos"

Banheira da manhã


O complexo dicionário de latim criado desde 1890

Quando pesquisadores alemães começaram a trabalhar num novo dicionário de latim, na década de 1890, eles pensaram que poderiam encerrar a obra em 15 ou 20 anos. Passados 125 anos — e a queda de um império, a deflagração de duas guerras mundiais e a divisão (e a reunificação) da Alemanha —, o "Thesaurus Linguae Latinae", também conhecido sob a sigla TLL, só alcançou a letra R. Mas isso não acontece por falta de esforço dos estudiosos.

Pedaço de papel da TLL: o arquivo para a palavra " regina",
que significa "rainha". Gordon Welter New York Times 
De maneira diferente à maioria dos dicionários, que se concentram nos significados mais proeminentes ou recentes de uma palavra, o TLL pretende expor todas as maneiras pelas quais alguém utilizou determinado termo desde as primeiras inscrições em latim, no século VI a.C., até inscrições datadas de cerca de 600 d.C. Fundador dessa complexa compilação de vocábulos, Eduard Wölfflin, que morreu em 1908, descreveu os registros não como definições, mas como "biografias de palavras".

O primeiro termo, referente a letra A, foi publicado em 1900. Até 2050, espera-se que o robusto livro atinja, enfim, sua palavra final — "zythum", uma cerveja egípcia. Com precisão meticulosa e velocidade glacial, o projeto acadêmico produziu, por enquanto, 18 volumes de enormes páginas com textos em fonte minúscula, em trabalho coletivo que envolve 400 estudiosos, alguns deles já mortos. As letras Q e N ainda não foram estudadas, já que são o início de muitas palavras difíceis. Em breve, os pesquisadores devem voltar a se debruçar sobre elas.

— A escala desse estudo é prodigiosa — diz David Butterfield, professor sênior de Cambridge, acrescentando que, quando a primeira publicação apareceu em 1900, "não passou despercebido o fato de considerarem a obra absurda".

Está mesmo aí um esforço monumental voltado para um pequeno grupo de classicistas, que se guiam por uma máxima exemplar: para eles, a capacidade de entender todas as maneiras pelas quais uma palavra foi usada se notabiliza como ferramenta de entendimento não apenas da literatura, mas da própria linguagem e da História.

Outrora uma língua de um vasto império físico — e com grande domínio intelectual e espiritual —, o latim agora é falado praticamente apenas dentro dos muros do Vaticano e entre pequenos grupos de entusiastas que promovem sua prática como ferramenta educacional.

Nos Estados Unidos, de 1970 para cá, a educação do idioma caiu acentuadamente, mas mantendo-se estável nas últimas décadas. Segundo Sherri Halloran, porta-voz do Conselho Americano para o Ensino de Línguas Estrangeiras, hoje há cerca de 210 mil estudantes dedicados ao aprendizado do latim em escolas públicas do país. O número é um pouco menor do que o referente ao chinês, por exemplo (no caso do espanhol, são 7,3 milhões de alunos dedicados à prática de aprendizagem).

Marijke Ottink trabalha no arquivo da biblioteca do TLL
Mas por ser a língua literária principal na Europa há mais de mil anos, o latim é "a chave para uma parte considerável da história da humanidade", ressalta Michael Hillen, diretor do projeto TLL.

Cerca de metade das palavras em inglês também são derivadas direta ou indiretamente do latim. (Sem falar, é claro, de frases intactas, como “quid pro quo”, utilizadas com frequência).

O poeta e classicista A.E. Housman, que morreu em 1936, certa vez se referiu aos estudiosos como "prisioneiros que trabalham na masmorra de Munique". Mas o TLL agora está alojado em dois andares ensolarados de um antigo palácio. Em período integral, dezesseis funcionários e alguns lexicógrafos visitantes trabalham em escritórios e numa ampla biblioteca, onde há edições de todos os textos latinos sobreviventes anteriores a 600 d.C., além de cerca de 10 milhões de documentos amarelados, dispostos em pilhas de caixas até o teto.

O acervo forma o coração do projeto. Organizadas cronologicamente, as palavras são apresentadas de acordo com um contexto: vêm de poemas, de textos em prosa, de receitas, de textos médicos, de recibos, de piadas sujas, de grafites, de inscrições e de tudo mais que sobreviveu às vicissitudes dos últimos 2.000 anos.

A maioria dos estudantes de latim lê cânones literários sem estabelecer contato com a forma como o idioma era usado na vida cotidiana. Mas o TLL insiste que a pessoa anônima que insultou um inimigo com pichações numa parede em Pompéia, na Itália, é uma testemunha tão valiosa do significado de uma palavra latina quanto poeta ou imperador.

— A leitura desses textos cria respeito, empatia e compreensão, o que não significa tolerar determinados comportamentos — afirma Kathleen Coleman, membro do conselho que supervisiona o progresso do dicionário. — Não precisamos pensar que gladiadores defendiam uma ótima ideia. Mas podemos tentar entender o que eles estavam fazendo, o que eles pensaram... E também por que eles pensaram que o que estavam fazendo estava certo. É aí que obtemos alguma profundidade sobre a linguagem.

segunda-feira, dezembro 2

Começar o dia


Balcão de saldos

Se alma não for uma questão de merecimento, nossas chances de ter uma aumentam cem por cento.

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A última moda acaba de chegar: poemas concretos movidos a energia solar.

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Um haicai não se procura. Um haicai se recebe de joelhos, como se deve fazer sempre que os deuses, embora não mereçamos, resolvem nos presentear.

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Abra só meio sorriso. Ou nenhum, se não for preciso.

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Enfeitei tanto minha poesia que já na primeira esquina buzinaram para ela e perguntaram quanto era.

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Saudável tempo o das musas amplas e sólidas, cujos seios podiam, sem exagero e com afeto, ser chamados de peitões.

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O tempo flui. mas que importa? Por um ardil da memória, aquela manhã de glória morreu, mas não está morta.

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Não há mais tempo para modernismos na poesia. Até os manifestos já nascem tão velhos quanto os princípios que pretendem derrubar.

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Os chocalhos concretistas revelaram-se bem mais eficazes que as cantigas românticas para fazer dormir bebês de seis a vinte e quatro meses.

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Era um desses poetas venturosos que, todo ano, já no primeiro dia, a primavera vai buscar em casa.

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Concretistas não fazem odes. Se fizessem, seria para exaltar o colosso de Rhodes.

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Como sou vil. Tantos querendo salvar o Brasil, e eu aqui fazendo versos.

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Conurbação é o nome dado às relações entre cidades, quando passam da intimidade à promiscuidade.

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Enquanto o vento derruba tudo, buscando epopeias, a brisa finge estar morta, para não espantar os haicais.

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Depois que se descobriu concretista, o galo não sobe mais no poleiro, com medo de cair e se quebrar.

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Certos mortos conseguem ser tão desinteressantes que já na metade do velório é como se não estivessem mais presentes.
Raul Drewnick

domingo, dezembro 1

No parque


Os últimos dias de Oscar Wilde, em romance gráfico

Em 2017, o Governo britânico concedeu o indulto póstumo a Oscar Wilde. Em 1895, o escritor irlandês havia sido condenado a dois anos de trabalhos forçados por sodomia e corrupção da juventude – acusação esta última que o equiparava ao seu admirado Sócrates. “Wilde sempre disse que era um grego nascido em outra época. Além disso, como aconteceu com o filósofo, quando foram detê-lo ele se negou a fugir. Seu amigo Robert Ross havia preparado um barco para que fosse à França, mas ele não aceitou. Alguém como Wilde, com um conceito da vida tão teatral, assumiu que seu personagem tinha que viver esse castigo, embora nunca imaginasse até que ponto seria difícil”, relata Javier de Isusi, ilustrador espanhol que acaba de publicar La Divina Comedia de Oscar Wilde (A divina comédia de Oscar Wilde), um trabalho de mais de 300 páginas ao qual dedicou cinco anos, entre tarefas de pesquisa, roteiro e desenho. Neste sábado, 30 de novembro, a morte do gênio irlandês completa 119 anos.

A origem da publicação remonta à infância do desenhista, quando sofrendo de caxumba, ele recebeu de presente um livro de contos de Wilde. A partir de então, o autor de O Fantasma de Canterville se tornou um de seus autores favoritos. Por mais que lesse, porém, o Isusi adulto era incapaz de reconhecer nas obras de teatro, nos ensaios e no seu único romance aquele escritor que o havia ajudado a suportar melhor a doença. “Tive que esperar até ler De Profundis para entender muitas das coisas de Wilde que sempre me intrigaram. Só então pude fazer a correspondência entre o autor dos contos e o das obras de teatro e de O Retrato de Dorian Gray. No final compreendi que, como qualquer pessoa, em Wilde cabem facetas muito diversas. Do escritor moralista de O Príncipe Feliz e de O Gigante Egoísta até o personagem hedonista ou, se preferirmos o termo com o qual o qualificaram em seu tempo, imoral.”


Apesar de toda essa riqueza e variedade de matizes, a obra de Wilde é surpreendentemente breve e foi escrita em apenas oito anos. Um corpus literário que, em algumas ocasiões, foi eclipsado pela intensa e escandalosa vida do autor, sobretudo a relativa a esses últimos anos recriados em A divina comédia de Oscar Wilde e nos quais a prisão, a ruína econômica, a censura social e o alcoolismo transformaram o escritor numa sombra do que havia sido.

“Quando foi libertado e chegou a Paris, Oscar Wilde expressou sua vontade de começar uma nova vida. Esse desejo foi justamente a origem do meu trabalho. Ele sempre dissera que sua vida tinha sido como A Divina Comédia, que havia passado pelo inferno que era a prisão e que, nesse momento, estava no purgatório. Por isso, eu me perguntei se durante sua estada em Paris ele vivenciou realmente essa mudança pessoal que lhe permitisse ter um pouco de paraíso.”

Tudo indica que essa transformação nunca ocorreu, mas Isusi aproveita sua privilegiada posição de autor para levar Wilde até o lugar desejado, mesmo que apenas no plano simbólico. Desse modo, numa das cenas mais emotivas do livro, o ilustrador situa o escritor e seu amigo Robert Ross numa carruagem que percorre justamente os Campos Elíseos – nome que os gregos deram ao céu.

“Essa cena é real. Wilde e Ross realizaram esse trajeto parando em todos os cafés que encontravam no caminho para beber absinto. Inventei somente a conversa, embora muitas frases que incluo tenham sido do próprio Wilde. No fundo o livro inteiro é assim, uma mistura de realidade e ficção. Ou melhor, de realidade e mentira, porque acredito que ele teria preferido esse termo, já que o defendeu em seu ensaio ‘A Decadência da Mentira’.”

Esse jogo entre a verdade, a mentira, a ficção e os fatos documentados proposto por Isusi se articula através de brilhantes soluções gráficas e narrativas. Por exemplo: alucinações, passagens oníricas, o diálogo com o espectro de um juveníssimo e insolente Rimbaud e até as entrevistas com diferentes personagens que, como André Gide, Reginald Turner e Lorde Alfred Douglas, conheceram o escritor e dão testemunho sobre isso. “São entrevistas feitas na época atual, mas nas quais os entrevistados aparecem com o aspecto físico que tinham no momento em que conheceram Wilde. Pensei se devia fazê-lo assim ou não, mas percebi que o romance gráfico permite coisas desse tipo, que eram muito frequentes nos primeiros autores dos quadrinhos, como Winsor McCay e seu Little Nemo e que abandonamos pouco a pouco. São recursos que, embora possam não ter sentido se analisados de uma perspectiva racional, funcionam muito bem do ponto de vista narrativa.”
Eduardo Bravo

Nem gestos


Cego anunciado

Os meus olhos fecham-se, envoltos num nevoeiro denso, salpicado de traços negros. As letras que desenho, gigantes e esguias como os cavaleiros de Dom Quixote, fogem a galope quando as vou procurar. Já não sou mais do que um cego anunciado. O mundo vai-se sumindo ao meu redor. Às vezes, para antecipar as trevas e o efeito que terão sobre mim, cerro voluntariamente as pálpebras. Tateio, apalpo, seguro. Detenho-me sobre as capas dos meus queridos livros, imaginando como será quando já não os puder ler.

Também os sons caprichosos chegam aos meus ouvidos atropelados ou desgarrados. Na verdade, uns chegam aos meus ouvidos, outros já não.

O desejo inesperado visita-me a horas mortas. É um desejo sem provocação, estímulo ou objeto. Não, não é um desejo. É o meu corpo a troçar de mim, a puxar pelos meus dedos frouxos. Desejo é quando os meus velhos pensamentos me fazem viajar pela juventude, pelos rostos de Mariana, de Natália, os seus olhos, os seus sorrisos, as suas vozes.

As ideias estiolam, enovelam-se, desorientam-se, fenecem. Por vezes, em contradita, borbulham como água fervente, atropelam-se, e então é difícil segurá-las, sujeitá-las, conseguir escrevê-las, até.

Não há nada mais humilhante do que esta dissociação cruel entre a mente ainda viva e um corpo moribundo. Sinto, de outra forma, o que sentiu o meu irmão Armando. Ele tinha vinte e cinco anos quando morreu. Mas eu também tenho vinte e cinco anos. Tenho, debaixo desta carapaça de velho, vinte e cinco anos. Morrer não custa, o que custa é este sofrimento lúcido.
Isabel Rio Novo, "A Febre das Almas Sensíveis"

sábado, novembro 30

Café com livros


A disciplina do amor

O homem é tão necessariamente louco que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”, escreveu Pascal. Deve ter pensado nisso a psiquiatra Karen Horney quando fez uma lista dos sintomas básicos da neurose, uma lista enorme, dela quase ninguém escapa. A loucura no cardápio. Basta ler e apontar, esta é minha. Selecionei as neuroses mais comuns e que podem nos levar além da fronteira convencionada: necessidade neurótica de agradar os outros. Necessidade neurótica de poder. Necessidade neurótica de explorar os outros. Necessidade neurótica de realização pessoal. Necessidade neurótica de despertar piedade. Necessidade neurótica de perfeição e inatacabilidade. Necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue da sua vida – ô Deus! – mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas feministas mais radicais.

 Ramona Kaulitzki
Tão difícil a vida e o seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo. Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos da sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E por acaso é com o analista que se comenta a fita na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho, esse gosto meio frisante, hem? E esta pele e esta língua. A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as outras partes, o que a fez choramingar sentidamente na hora da morte. Mas o que você quer, queridinha?! A gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: “É que estou morrendo e não me diverti nada!"
Lygia Fagundes Telles