terça-feira, agosto 22

Leitura nas alturas

#ler

Cachaça inflacionada e literatura no Paiaiá

A dose de pinga com raízes, ervas medicinais e outras coisas que servem para dar um saborzinho especial, teve seu preço mais que dobrado: passou de dez centavos a dose para vinte e cinco centavos!

O seu Pedro, com seus 93 anos de idade, ainda se recuperando da chikungunya que o abateu há bem mais de um ano, não aguenta manter funcionando muito tempo depois que escurece a única porta de seu estabelecimento comercial, que tem uns dois metros de largura por um pouquinho mais de fundura. Mas enquanto tem fregueses ele não fecha a porta. Para lucrar quanto?

Bom… Um recém-conhecido que já esteve lá há três anos “reclama”: a inflação aqui foi de bem mais de cem por cento de lá pra cá. Como?! É que a dose de pinga com raízes, ervas medicinais e outras coisas que servem apenas para dar um saborzinho especial a ela, teve seu preço mais que dobrado: passou de dez centavos a dose para vinte e cinco centavos!

Estranhou? Sim: vinte e cinco centavos a dose. Tem pinga com umburana, com coquinho, pindaíba e um algumas outras coisas, que podem servir para dores de estômago, dor de não sei quê e até para levantar o “moral” dos homens. Ele indica para isso a pinga com mil-homens. Contestei esse uso, mas ele não acreditou (e um freguês também): fiz há muitos anos uma matéria sobre pinga com raízes e ervas medicinais e uma pesquisadora da Universidade de Ouro Preto me contou que o nome “cipó de mil-homens” é enganador, faz a gente pensar nele como um poder estimulante sexual, mas o efeito é exatamente o contrário: é broxante.

Esnobei bastante na birosca do seu Pedro. Acompanhado por cinco pessoas, entre moças e rapazes, paguei a primeira rodada, com cada um optando pela beberagem de sua preferência. Seis doses! Um real e cinquenta centavos. Paguei mais uma rodada, e mais uma, e mais uma… Quatro rodadas de pinga para seis pessoas, seis reais! Menos do que gastaria tomando uma dose de pinga razoável em São Paulo.

Isso aconteceu, acreditem, no início de agosto de 2017, este ano mesmo. Um dia desses. Eu estava em São José do Paiaiá, município de Nova Soure, no sertão baiano, perto de Sergipe.

Antes de ir tomar umas na birosca do seu Pedro, tinha ficado mais de três horas numa lanchonete na mesma rua (aliás, a única – há também algumas travessas), ao ar livre, debaixo de árvores, tomando cerveja. Lembrava dos meus tempos de criança numa cidadezinha minúscula do Sul de Minas: nesse tempo todo, não passou nenhum automóvel, caminhão ou qualquer outro veículo motorizado por ali. Silêncio gostoso! Só umas poucas pessoas a pé e outras a cavalo.

“Como é que você foi parar num lugar desses?”, podem me perguntar. Olha, como foi gostoso! Estava participando do III Encontro sobre livro, leitura e inclusão social no território do Nordeste II da Bahia.

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Fiz uma conta: São José do Paiaiá tem cerca de 600 habitantes, e uma biblioteca comunitária com 120 mil volumes!!! São “200 volumes per capita”, poderia dizer um estatístico. Isso numa única biblioteca. E nessa conta não entram só os possíveis leitores: os 600 moradores, no caso, incluem até recém-nascidos. Onde mais tem isso? A Biblioteca Maria das Neves Prado é a maior do mundo, no gênero – biblioteca em comunidade rural.

Tudo começou quando um paiaiaense, o Geraldo Moreira Prado, que para seu desgosto não é conhecido como Paiaiá, mas como Alagoinhas, nome da “grande cidade” mais próxima do seu povoado, morando no Rio de Janeiro, se separou da mulher e teve que mudar para um apartamento menor. Dos 47 mil livros que tinha, 12 mil não cabiam na nova moradia. O que fazer? Apaixonado por livros, ele nunca optaria, por exemplo, por vender para um sebo impessoal.

Um sobrinho com 16 anos de idade, José Arivaldo, o Vadinho, propôs que criassem uma biblioteca no Paiaiá. Topou. Arrumou um caminhão e mandou os 12 mil livros para lá. Os livros chegaram no mesmo dia em que o Jornal Nacional noticiava o roubo de livros da biblioteca do Itamaraty. Claro, uma fofoqueira não deixaria isso passar em branco: tentou espalhar pelo povoado que aqueles livros que chegaram a Paiaiá eram os roubados do Itamaraty. Não convenceu ninguém, e isso serviu para divulgar a chegada dos livros. Foi em 2002.

Em seguida, o Geraldo comprou uma casa velha (“dois mil reais”, me contou), reformou, ampliou, e continuou mandando seus livros para lá. Teve apoios. Antônio Candido, por exemplo, mandou um montão de livros. O dono de um sebo mandou cerca de cinco mil revistas em quadrinhos, para alegria da criançada. E uns anos depois, Walnice Nogueira Galvão pesquisou e concluiu que era a “maior biblioteca em comunidade rural de todo o mundo”. Agora tem 120 mil volumes.

Vadinho, o sobrinho do Geraldo, formou-se em Letras, e agora estuda Biblioteconomia na Universidade Federal de Sergipe. Tem muitos planos para formar leitores. Aliás, a biblioteca do Paiaiá tem feito muitas atividades, como cursos para professores da região – mais de cem já participaram.

No Encontro deste ano, realizado à revelia de um contexto nacional anticultura, antitudo que preste, houve muitas palestras, debates, lançamentos de livros, rodas de conversa, minicursos e muitas atividades específicas para crianças. Entre os palestrantes, teve pesquisadores, professores, bibliotecários de várias universidades, da Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro e Brasília, além da minha modesta presença como representante da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), para falar da literatura envolvendo personagens do imaginário brasileiro.

E as crianças? Bem… Algumas das que começaram a frequentar a biblioteca e serem estimuladas pelas suas atividades, no seu início, já são hoje universitárias. Nos três dias de atividades do Encontro deste ano (3 a 5 de agosto), só num dia que tive a pachorra de calcular, com base nos ônibus vindos de Nova Soure e cidades vizinhas, chegaram mais de quatrocentas crianças. Eu olhava nos rostos delas e achava que tinham a sensação de descobertas, seja enquanto participavam das atividades do evento ou enquanto remexiam livremente nas estantes da biblioteca. Imagino que pelo menos algumas delas estejam “contaminadas” pela literatura. Cada pessoa dessas, a meu ver, é um lucro para o mundo.

Voltei de lá com uma alegria imensa, com a sensação de que a inércia que os vampiros do poder tentam nos fazer aceitar, não é tão aceita assim. Tem gente batalhando, não aceitando a ideia conformista de que o mundo (e o Brasil) é essa trolha que tentam nos impor, peitando os tempos sombrios, fazendo o que para muitos parece ser coisa de umas figuras quixotescas.

Geraldo Moreira Prado deixou Paiaiá já maior de idade, mas com apenas o curso primário. Veio de pau-de-arara pra São Paulo, para trabalhar e estudar. Gostava de ler e, trabalhando como faxineiro e porteiro de um prédio da Boca do Lixo, lia, lia muito. Quando tinha algum dinheiro, preferia comprar livros do que usar para suprir necessidades básicas.

Queria ser médico, mas como? Sem educação formal, fez um cursinho de madureza (com bolsa) durante pouco mais de um ano, para conseguir o diploma de nível ginasial e depois o de colegial. Prestou vestibular e não passou. Optou então por Letras Orientais, na USP. Estudou chinês e não aprendeu nada. Mas aproveitou que estava na universidade e fez muitas matérias optativas em outros cursos. E conseguiu se transferir para o curso de História, em 1967, mesmo ano em que entrei na Geografia, no mesmo prédio. Participamos da mesma turma de amigos de noitadas etílicas e companheiros de militância no movimento estudantil, moramos no Crusp e fomos tirados de lá pelos militares, depois do AI-5.

Depois disso, nossa turma toda se espalhou, morando em repúblicas, além das complicações políticas impostas pela ditadura, encaramos dificuldades típicas de quem não tem retaguarda de famílias ricas, mas a maioria seguiu nadando contra a corrente. Ele se destacou. Tornou-se mestre e doutor em História, trabalhou no CNPq, foi professor universitário, sempre mantendo sua paixão pelos livros. Hoje é aposentado… Quer dizer, aposentado entre aspas. É muito mais ativo do que um monte de gente que teoricamente está na ativa…

Mouzar Benedito

Leitura não tem idade

TATYANA DERIY
Tatyana Deriy

Assim começa o livro...

Glengrove Place. Não é um vale (glen) e não há nenhum arvoredo (grove). O nome certamente foi dado por algum escocês ou inglês em referência à sua terra, que ele deixou para trás quando ganhou dinheiro nesta cidade a mais de mil e quinhentos metros de altitude e entrou no mercado imobiliário.

Mas era um lugar. Um lugar onde eles podiam morar juntos, num tempo em que em lugar nenhum era possível fazer isso legalmente. O aluguel do apartamento era alto para os dois na época, porém o preço incluía uma certa cumplicidade da parte do proprietário do prédio e do zelador; nada é de graça quando pessoas respeitadoras da lei correm algum risco de violá-la. Como locatário, ele tinha o tipo de nome inglês ou europeu que não diferia da maioria dos outros nomes nas caixas de correio dos moradores, ao lado do elevador na entrada; lá havia um cacto num vaso, em vez do arvoredo. Ela era apenas a “sra.” acrescentada como apêndice. Eles eram casados, de verdade, embora isso também fosse ilegal. No país fronteiriço onde ela se exilou para poder estudar, e ele, um jovem branco cuja militância política o obrigava a desaparecer da universidade da cidade por algum tempo, eles dois, afoitos, ignorando a consequência que seria inevitável quando voltassem para seu país, se  apaixonaram e se casaram.

De volta à África do Sul, ela foi trabalhar como professora numa escola particular administrada pelos padres de uma ordem católica tolerada à margem da educação pública racialmente segregada, onde podia usar seu sobrenome de nascimento com base em princípios não raciais.

Ela era negra, ele era branco. Nada mais importava. Identidade era só isso, naquele tempo. Simples como as letras negras nesta página branca. Por causa dessas duas identidades, eles transgrediam. E conseguiram se dar bem, mais ou menos. Não eram tão visíveis, nem politicamente tão conhecidos, que valesse a pena processá-los nos termos da Lei da Imoralidade: melhor seria mantê-los em observação, segui-los, por um lado, na expectativa de que deixassem pistas que levassem a militantes de mais peso, ou pela possibilidade de que fossem recrutados para fazer relatórios referentes ao seu nível de envolvimento, fosse o de dissidentes ou o de revolucionários. Na verdade, ele era um daqueles que, quando estudante, fora abordado discretamente com indiretas sutis baseadas no patriotismo ou, talvez, na suposição igualmente natural de que os jovens precisam de dinheiro, tendo sido deixado claro que ele não deveria se preocupar, pois sua segurança pessoal estaria garantida, bem como sua situação financeira, se ele se lembrasse das coisas que eram ditas nas reuniões a que ele estava presente e desempenhava seu papel. Engolindo uma golfada de repugnância e imitando o tom da abordagem, ele recusou a oferta — sem que o homem se desse conta de que a rejeição não era apenas da oferta, mas também da pessoa que se prestava ao papel de cafetão da polícia política.

Ela era negra, mas isso agora é muito mais complexo do que o início e o fim da existência conforme registrada num arquivo ultrapassado de um país ultrapassado, muito embora o nome permaneça o mesmo. Ela nasceu naquele tempo; seu nome é uma assinatura do passado de sua origem, batizada na igreja metodista em que um de seus avôs fora pastor, e seu pai, diretor de uma escola local para meninos negros, era presbítero, sendo sua mãe presidente da sociedade feminina da igreja. A Bíblia era a fonte do primeiro nome de batismo, seguido do segundo, africano, o qual as pessoas brancas — que a criança teria que aprender a agradar, e com quem teria de lidar neste mundo — não associavam a nenhuma identidade. Rebecca Jabulile.

Ele era branco. Mas também isso não é tão definitivo quanto era codificado nos arquivos antigos. Nascido na mesma época, uns poucos anos antes da mulher, ele é um branco misturado — uma mistura que não tinha nenhuma importância desde que os elementos fossem todos brancos. Na verdade, a mistura dele é bem complicada em certos termos de identidade que não são determinados pela cor. Seu pai era gentio, não religioso, cristão apenas nominal, e sua mãe era judia. A identidade da mãe é decisiva na identidade de um judeu, a mãe cuja relação com a criança concebida está acima de qualquer dúvida. Se a mãe é judia, então o filho também pertence à fé, o que naturalmente implica a circuncisão ritual. O pai, é claro, não fez nenhuma objeção, e talvez, como muitos agnósticos e até mesmo ateus, no fundo tivesse inveja daqueles que praticam a ilusão de uma fé religiosa — ou então estava apenas fazendo a vontade da mulher que amava. Se era isso que ela queria, se era importante para ela de uma maneira que fugia à sua compreensão… Que o prepúcio fosse cortado!

segunda-feira, agosto 21

O bom ambiente

Ahmet

Eu não o conheci

Alberto lendo, 1915, Giovanni Giacometti (Suíça, 1868-1933), óleo sobre tela, Museu de Belas Artes do Cantão de Lausanne -
Giovanni Giacometti (1868-1933)
Meu filho foi embora e eu não o conheci.

Acostumei-me com ele em casa e me esqueci de conhecê-lo.

Agora que sua ausência me pesa, é que vejo como era necessário tê-lo conhecido.

Lembro-me dele. Lembro-me bem em poucas ocasiões.

Um dia, na sala, ele me puxou a barra do paletó e me fez examinar seu pequeno dedo machucado. Foi um exame rápido.

Uma outra vez me pediu que lhe consertasse um brinquedo velho. Eu estava com pressa e não consertei. Mas lhe comprei um brinquedo novo.

Na noite seguinte, quando entrei em casa, ele estava deitado no tapete, dormindo e abraçado ao brinquedo velho.

O novo estava a um canto.

Eu tinha um filho e agora não o tenho mais porque ele foi embora. E este meu filho, uma noite, me chamou e disse:

Fica comigo. Só um pouquinho, pai.

Eu não podia; mas a babá ficou com ele.

Sou um homem muito ocupado.

Mas meu filho foi embora. Foi embora e eu não o conheci.

Oswaldo França Júnior

Dica de passeio

The Best River Towns in America: Durango, Colorado Rafting on the Animas River in Durango, Colorado. white-water-rafting   FUN!!!
Durango, Colorado (EUA)

Sacodem o pó

Until I feared I would lose it, I never loved to read. One does not love…
Menos de dois meses que levava ao serviço dos Mala­faias, e já o meu trabalho corria com ordem e aviamento.(...) Nas primeiras semanas, todas as manhãs, Domingos, o lacaio, ajeitava o escadote contra as estantes e, trepando arriba, com a serena azáfama dum trolha demolindo um muro, despejava sobre o tapete os séculos veneráveis. Tratados e analec­tos, sermonários e miscelâneas, malhavam em baixo impiedosamente; e, com os pergaminhos lívidos e as carneiras de tom melancólico, os fechos de bronze aber­tos e os nervos desconjuntados, pareciam-me nobres finados cuspidos da tumba. O senhor Miguel de Mala­faia, porém, recomendara:

- Atira, Domingos, sacodem o pó e sai-lhes a bicheza.

De casaco branco e cara rapada, como estava na etiqueta dum flâmulo de embaixador, ?Domingos construía no chão a meda de calhamaços. E, feita ela, de volta a ilustrar dez doutores e a fornecer-me ocupação para todo o dia, ia-se para a varanda espanejá-los, catar-lhes a traça, batendo-os no balaústre,m passando-os ao esfregão, soprando-lhes. O seu recado era fazer guerra à poeira e grande sanha punha em servir. E, prosseguindo na sua teima idiossincrásica, de tudo lavar e brunir, ia vandalizando livros (...).

Aquilino Ribeiro (1885-1963), "Vida sinuosa" 

sábado, agosto 19

Lua amiga

O riso de Kafka

Se bater na mesma tecla for estilo, finalmente encontrei o meu.

Ando escrevendo seguidos textos falando sobre o que há de humor em artistas austeros. Foi assim com uma resenha discorrendo sobre Lima Barreto e outra em que mencionava James Joyce como um autêntico piadista.

A razão para que os vejam assim tão circunspectos – sem ressaltar esse aspecto em suas narrativas – é a mania da fortuna crítica de transformar em estatuária os autores clássicos.

Agora vou repisar a minha hipótese aqui na Rubem, desta vez mencionando Franz Kafka. Para mim, o criador de universos tão claustrofóbicos como os de A Metamorfose era um cultor da blague.

E não só para mim. Para seus amigos mais próximos também, já que admitiam que Franz, ao promover uma leitura de O Processo aos mais íntimos em primeira mão, caiu na gargalhada em inúmeras passagens.
3a70c1bafc788d6bc62c35cb10d630e5: “Nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.”
Max Brod


É claro que o humor de Kafka não é o mesmo de um Paul Beatty, muito menos o dos Trapalhões.

Notem o que afirma o professor de literatura David Foster Wallace numa palestra sobre o tema:

“Em Kafka, não há jogos de palavras recorrentes nem acrobacias aéreas verbais, e pouco no que se refere a tiradinhas jocosas e sátiras mordazes. Não há humor baseado em funções corporais em Kafka, nem insinuações sexuais, nem tentativas estilizadas de se rebelar transgredindo as convenções. Nem comédia pastelão pynchonesca com cascas de banana ou adenoides fora de controle. Nem priapismo rothiano, metaparódia barthiana ou lamúrias à moda de Woody Allen. Não há sinal algum das viradas tum-tum-pá dos seriados cômicos modernos; tampouco crianças precoces, avós desbocados ou colegas de trabalho cinicamente insurgentes.”

Trata-se de um riso muito singular o de K. É, como já se disse, aquele esgar que se dá após presenciarmos um tombo. E, com certeza, ninguém, depois de um dia de trabalho vai abrir um livro seu, junto com uma latinha de cerveja, e dar umas boas gargalhadas para relaxar. O que não significa que não haja naquelas páginas fina ironia e pessimismo em altas dosagens.

Um exemplo é a miniestória “Camundonguinho”, presente no livro “Oportunidade para um Pequeno Desespero” (Martins Fontes), com contos e parábolas de Franz Kafka e ilustrações de Nikolaus Heidelbach:
“Quando o pequeno camundongo, que fora amado no mundo dos camundongos como nenhum outro, em uma madrugada caiu na ratoeira e com um alto berro deu sua vida pela visão de um toicinho, todos os camundongos das redondezas foram tomados por um tremor e uma agitação em suas tocas, olharam-se um aos outros em série, com os olhos piscando incontrolavelmente, enquanto a cauda esfregava o chão com um zelo inútil. Então saíram hesitantes, um empurrando o outro, todos atraídos para o local da morte. Ali jazia ele, o camundonguinho querido, o ferro na nuca, as perninhas cor-de-rosa encolhidas, paralisado o fraco corpo que teria sido tão bem agraciado com um pouco de toicinho. Os pais estavam de pé ao lado e observavam os restos de seu filho.”.

David Foster Wallace nos ensina em sua palestra que o humor de Kafka não é para ser “sacado” feito uma piada. E isto, no fundo, talvez seja o mais engraçado de tudo.

Carlos Castelo

Direito inalienável

Libros, lecturas, lectora… (ilustración de Dan Tavis)
Dan Tavis

Livro não é dever de escola, é direito do leitor
Sylvia Orthof

Para acalmar os nervos

Take one and call it a night

Preservando as espécies

Woman at Beach Reading, Figure painting, beach art, original oil 18 x 24 figurative canvas, daily painting artist Marie Fox
Marie Fox
Em Itaparica, não existe muita preocupação com esse negócio de privacidade, visto que, desde o tempo em que a luz era desligada pela prefeitura às dez horas da noite, o sabido saía com a moça, se esgueirando entre os escurinhos do Jardim do Forte e, no dia seguinte, na quitanda de Bambano, o fato já tinha alcançado ampla repercussão, com fartura de pormenores. O mesmo acontecia em todas as outras áreas e diz o povo que, quando meu tio-avô Zé Paulo, tido como mais rico que dezoito marajás, soltava um pum, sozinho numa sala de seu casarão, os puxa-sacos já ficavam de plantão no Largo da Quitanda e, no instante em que ele passava, se manifestavam efusivamente.

– Bom dia, coronel, bufou cheiroso outra vez!

– Muito bem bufado, coronel, quem está preso quer estar solto!

Quanto a câmeras de vigilância e segurança, correntemente na moda, receio que a situação é semelhante. Manolo quis botar uma no Bar de Espanha, mas desistiu depois que soube que todo mundo estava planejando pedir para fazer um teste com a Globo. Além disso, não há muita motivação para a instalação de câmeras, porquanto o que assaltar sempre foi meio escasso e Romero Contador, que não erra nem conta de raiz quadrada, já mostrou na ponta do lápis que, se alguém roubar o nosso PIB, vai passar o resto da vida altamente endividado, pois a verdade, por mais duro que seja reconhecer, é que nossa economia não interessa nem a deputado estadual e mal sobra o que furtar para os corruptos locais.

Não havia, portanto, razão aparente para o movimento deflagrado por Zecamunista, como sempre meio de surpresa. Nada indicava que estivesse motivado para nova campanha cívica, ainda mais envolvendo questões exóticas, como a privacidade. Depois de mais uma vitoriosa temporada de pôquer por todo o Recôncavo, onde chegou a ganhar dois barcos de pesca – que rebatizou de Marx e Engels e doou à Cooperativa Comunista Deus É Mais, há muitos anos fundada por ele, em Valença – voltara à ilha na semana anterior, na discreta companhia de “duas senhoras de Nazaré das Farinhas, minhas correligionárias”, como ele me disse ao telefone, sem mais adiantar e muito menos me convidar para conhecer as duas correligionárias. Desde esse dia, fora visto apenas uma vez, comprando uma garrafinha de catuaba no Mercado e voltando apressadamente para casa, no passo ligeirinho de clandestino a que a vida de militante bolchevique o acostumou. E já se pensava que as correligionárias iam ocupá-lo por mais tempo que o esperado, ouvindo-se também a maledicência de que “Zeca não é mais aquele”, mas eis que ele, como se nada tivesse acontecido, compareceu ao Bar de Espanha, na happy hour das nove da manhã, e fez o anúncio inesperado.

– Estou fundando o Movimento de Preservação e Defesa do Corno Nacional – disse ele. – Essa viagem acabou de me convencer de que o corno está em extinção. Um dos parceiros com quem eu joguei, não vou dizer onde, contou, quase satisfeito, que foi largado pela mulher, que tinha confessado ter um amante. Mas não era por isso que largava o marido, era porque estava sufocada, queria o espaço dela. O espaço dela era na cama do outro, mas todo mundo finge que acredita e fica tudo por isso mesmo. É a globalização descaracterizando a identidade nacional, não zelamos pelo nosso patrimônio cultural, encaramos tudo com a mais leviana das inconsequências e, se não tomarmos providências agora, nossos descendentes nem saberão o significado da palavra “corno” e toda sua riqueza emocional, artística e histórica!

Com efeito, meus caros senhores, em primeiro lugar, o corno desaparece a olhos vistos, ninguém mais liga. Isso não é possível, não é sustentável, é um abismo. Já basta não haver mais mistério quanto à paternidade, por causa da novidade dos exames de DNA. A vida perdeu a emoção, nunca mais aquelas investigações de paternidade que não chegavam a nenhuma conclusão, nunca mais confissões arrepiantes no leito de morte. E a espionagem eletrônica, celulares rastreadores, gravadores secretos, câmeras minúsculas, visão noturna, detectores disso e daquilo, tudo bisbilhotado e bisbilhotável? Nada mais é sagrado? O sujeito quer ser corno em paz e não permitem, têm que incomodá-lo com denúncias e provas que ele nunca pediu, pensem nisso! Até um dos últimos bastiões da liberdade está sendo destruído! Onde ficará Lupicínio Rodrigues, onde ficará Ataulfo Alves, onde ficará a dúvida cruel, onde ficará a viagem de negócios, onde ficará a tarde no dentista?

– Eles não sabem o que dizem, são uns inocentes – disse Zeca, ao ver que suas palavras haviam ocasionado um debate de grandes proporções. – As ideias novas sempre provocam reações negativas, inclusive entre aqueles que vão se beneficiar delas, é a maldição do pioneirismo.

Aqui para nós, seu real objetivo não era bem a preservação de uma espécie. Pretendia mesmo era montar mais um esquema para beneficiar as classes populares da ilha, ou seja, quase todo mundo. Esse papo de corno não passava de marketing, destinado a aproveitar e incrementar um clima já existente. O próximo passo será bolar um serviço para o nosso nicho de mercado. O nosso nicho não é o corno comum, que esse já perdeu o sentido e ainda não sabe, mas o corno saudosista, o tradicionalista, o que tem nostalgia dos velhos tempos dourados, o que ainda acredita. Não duvidava que fosse possível obter incentivos do Ministério da Cultura. E já podia antecipar os anúncios estampados nos jornais: “Corneie seu ente querido à moda antiga, venha à nossa ilha”.

– Há outros esquemas, mas eu prefiro esse – disse ele. – Nós vamos fornecer a mão de obra.
João Ubaldo Ribeiro

sexta-feira, agosto 18

Leitura não tem idade

Perdição de amor

Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezassete anos.

Amava Simão uma sua vizinha , menina de quinze anos, rica herdeira , regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o Teresa de Albuquerque devia ser , porventura, uma excepção no seu amor.

O magistrado e sua família eram odiosos a Botelho o pai de Teresa , por motivos de litígios , em que Domingos lhes deu sentenças contra.(…) E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivessem outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande património. Espanta discrição tamanha na índole de Simão Botelho, e na presumível ignorância de Teresa em coisas materiais da vida, como são um património!

shared lectura (ilustración of Natello)
Na véspera da sua ida para Coimbra , estava Simão Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado moço ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, soluçava comovida por lágrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabeça; contorceu-se no seu quarto como um tigre contra as grades inflexíveis da jaula. (...) com o amanhecer esfriou-lhe o sangue e renasceu a esperança com os cálculos.(…)

Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para Coimbra, esperar lá notícias de Teresa, e vir a ocultas a Viseu falar com ela. Ajuizadamente discorrera ele; que a sua demora agravaria a situação de Teresa.

Quando descera o académico ao pátio, depois de abraçar a mãe e irmãs , e beijar a mão do pai, que para esta hora reservara uma admoestação severa, aponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria, se ele caísse em novas extravagâncias. Quando metia o pé no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta como quem pede esmola, e, na palma da mão, um pequeno papel.

Sobressaltou-se o moço; e , a poucos passos distante de sua casa, leu estas linhas: “ Meu pai diz que me vai encerrar num convento por tua causa.. Sofrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-ás no convento, ou no Céu, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome hás-de responder à tua pobre Teresa.”

Camilo Castelo Branco, “ Amor de Perdição”

Coberta mais acolhedora não há

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:

Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.

Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.

Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.


Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.

A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.

A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.

E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.

“A Noruega está exportando literatura. A qualidade média das letras do país é muito alta e eu acredito que se deve em grande parte ao apoio dado pelo Estado durante muitos anos”, resume Jostein Gaarder.

Há não muito tempo, na década de noventa, quando o escritor causou sensação com O Mundo de Sofia – que já vendeu mais de 40 milhões de exemplares – e ampliou as fronteiras da literatura norueguesa, a presença dos autores do país nas livrarias estrangeiras era apenas uma exótica anomalia, como corresponde a uma nação com menos população do que a Comunidade de Madri. Eram internacionalmente conhecidos Henrik Ibsen, um dos pais da dramaturgia moderna, e, claro, o polêmico Nobel e colaborador dos nazistas Knut Hamsun, autor do aclamado romance Fome. E pouco mais.

Hoje, apenas três décadas depois, a Noruega não só vende para o exterior seus clássicos e seus autores de romances policiais e de aventura como exporta muita literatura, e muito variada. Knausgård é a grande estrela. Mas não está sozinho. Dag Solstad, que ganhou neste ano o prêmio da Academia Sueca, o pequeno Nobel, e Kjell Askildsen, mestre do relato breve, são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Assim como Per Petterson, Linn Ullmann, Jo Nesbø; o dramaturgo Jon Fosse; Maja Lunde, que está na boca de todos por conta de Tudo que Deixamos para Trás, ou Maria Parr, a nova Astrid Lindgren, que acaba de publicar na Espanha Tania Val de Lumbre.

As letras dessa monarquia parlamentar parecem viver uma nova era de ouro, que tem sua grande manifestação na escolha como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt 2019. E deve dar graças a isso pela profunda crise que viveu nos anos sessenta, às vésperas de descobrir que, além de peixe, era rica em petróleo (1969) e de rejeitar pela primeira vez em um referendo (1972) sua adesão à União Europeia (UE). Em uma nação leitora, muito leitora – 90% da população lê pelo menos um livro por ano, com uma média de 16 títulos, em comparação com 60,6% que o faz na Espanha –, em uma nação com uma longa tradição de narradores e um sólido sistema de bibliotecas, surgiam muito poucos gênios literários e os títulos interessantes foram se tornando um bem escasso. E o culto Reino da Noruega, um dos países mais felizes, seguros e desenvolvidos do mundo, não podia permitir isso.

“Era uma situação muito grave para um país tão pequeno como o nosso, com uma língua territorialmente tão limitada”, diz Oliver Møystad, responsável pela ficção da Norla, na sede do órgão em Oslo. “Temia-se que pudesse desaparecer se nada fosse feito para fortalecer a literatura, que sempre foi considerada uma fonte de renovação e transmissão do idioma”. Então, para revitalizar as letras em norueguês e evitar a pressão do imperialismo cultural anglófono, o Governo socialdemocrata da época estabeleceu um formidável programa de aquisição em massa de ficção contemporânea para as bibliotecas públicas que, com o tempo, foi sendo ampliado – hoje também é concedido a livros de não-ficção para adultos, ficção e não-ficção infantil e juvenil, ficção traduzida e graphic novels – e, a julgar pelas informações fornecidas por Ingeri Engelstad, diretora-geral da editora Oktober, o objetivo buscado foi atingido com folga: “Na década de 1960 surgiam apenas um ou dois escritores iniciantes por ano. Agora são mais de 60” diz. “Na Suécia e na Dinamarca há proporcionalmente menos porque eles não podem arriscar tanto”, acrescenta Møystad.

Sua repercussão também foi essencial para a indústria. “Economicamente, é de grande importância”, prossegue Engelstad. “Possibilita aos editores apostar em escritores desconhecidos e publicar um leque mais amplo de gêneros e vertentes literárias”. 35 títulos de seu selo, todos menos um de seu catálogo de ficção de 2016, passaram pelo filtro de qualidade do comitê que decide as aquisições a serem feitas. O Governo, recentemente questionado por vender a sua transição verde ao mesmo tempo em que autoriza sondagens de petróleo, comprou 24.605 exemplares impressos e 2.450 licenças de e-books, pelos quais a Oktober recebeu o equivalente a 3 milhões de reais (60% do total); os 40% restantes vão para o autor, que, além disso, só por ter sido selecionado já recebe mais em direitos autorais (20% se for autor de ficção) do que se o não tivesse sido (15%).

Este programa de compra por atacado, em que o Governo gastou 13,8 milhões de euros (51 milhões de reais) no ano passado, é a joia da coroa de um sistema patrocinado pelo Estado com a colaboração da indústria e que conta com o respaldo solidário dos best-sellers do país. O Executivo da Noruega, que registrou uma renda per capita anual de 59.000 euros (220.000 reais) em 2016 e uma taxa de desemprego de 1,9% em junho passado, subsidia os que se aventuram pelo caminho da escrita, mas também os autores consagrados – em 2017, ele concedeu somente para autores de ficção para adultos 125 subsídios, num total de mais de 2,5 milhões de euros, segundo dados de Richard Smith, responsável pelo departamento do programa de fomento a artistas. Mas isso é feito também pelas associações de escritores. E se elas conseguem distribuir bolsas de valor significativo para que o autor pesquise, viaje ou possa deixar o seu trabalho e se dedicar exclusivamente à escrita de um livro, é porque seus fundos coletivos se alimentam de direitos autorais pelo empréstimo de livros (em 2016, o Governo pagou aos autores 11,6 milhões de euros por essa via) ou cópias feitas nas universidades, nas empresas etc. (a Kopinor, instituição que gere os direitos e licenças, distribuiu mais de 21 milhões de euros para os autores). E os que mais contribuem são os que mais vendem.

Ida Hegazi Høyer, que já está em seu sexto livro, beneficiou-se duas vezes do sistema. Recebeu duas bolsas até hoje: uma de três e outra de dois anos. Só utilizou a primeira e já recebeu o Prêmio de Literatura da UE em 2015 por Perdón (Perdão). Recebe 25.000 euros (93.000 reais) por ano. “Alguns reclamam dizendo que as bolsas-salário são baixas demais, levando em conta o alto custo de vida daqui, mas viver da sua arte não é um direito humano. Somos os escritores mais sortudos do mundo”, afirma. Maria Parr toca na mesma questão: “Houve uma grande solidariedade da parte das gerações antecedentes, que conseguiram privilégios para todos a fim de que o capitalismo não governe tudo. Deveríamos ter cuidado para não perdê-los.”

No setor, que luta pela eliminação do imposto sobre valor agregado (IVA) para os e-books (atualmente, na faixa dos 25%), há certa preocupação de que os paradigmas do singular ecossistema literário possam desmoronar. A cultura sempre foi um assunto público, e o atual Governo, liberal, defendeu e defende um modelo misto público-privado. O programa de compra de livros para as bibliotecas não está em questão, mas há uma preocupação quanto a outros pilares do sistema que estão regulados por acordos entre os agentes do setor, como o preço fixo e os contratos padronizados pelos quais os autores inscritos nas associações de escritores (que são praticamente todos), sejam eles Nesbø ou estreantes, recebem a mesma porcentagem de direitos de autor.

Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN e antes primeiro-ministro do país, não cumpriu as regras do jogo quando negociou, em 2016, condições privilegiadas com a editora Gyldendal para escrever suas memórias. E colocou todo o setor contra si. Estava no direito dele, pois não pertencia a nenhuma associação de escritores, mas teve uma atitude muito incoerente para alguém que havia sido líder do partido social-democrata e defensor da solidariedade.

“Esperamos que haja uma mudança de Governo com as eleições do outono [boreal]. Faremos lobby para aprovar uma lei do livro que garanta o preço fixo e os contratos padronizados”, diz Trond Andreassen, secretário de Assuntos Exteriores da Associação Norueguesa de Escritores de Não-Ficção e Tradutores. “É importante defender o sistema que temos, que, acredito, vai além do custo”, afirma Gaarder. “Ganhei fora muito dinheiro que logo reverti para a Noruega: mais de 10 milhões de euros (37 milhões de reais) em impostos. De certo modo, o sistema, que é generoso, paga a si mesmo.”

A globalização deixou pouco espaço para comparar as leis de propriedade intelectual e as políticas de proteção ao escritor e à literatura na Europa. Os modelos são semelhantes, embora cada país se destaque por algo e se diferencie por sua melhor ou pior aplicação. A França é considerada um modelo por seu respeito à entidade do escritor; a Irlanda, um paraíso em termos fiscais (nenhum criador, nem o U2, paga imposto por sua obra); os nórdicos são conhecidos pela promoção da cultura. E a Noruega, onde a ostentação é um pecado e a modéstia se exerce como grande virtude, pode se orgulhar de ter um sistema que permite que um autor, mesmo fora do grupo dos best-sellers, busque seu sonho. Não é uma quimera. No país dos fiordes, pode-se viver da literatura sem ser comercial. 

quarta-feira, agosto 16

Luz que nos ilumina

Cada lectura nos aporta nuevas ideas (ilustración de Dan Tavis)
Dan Tavis

Tribunal alemão condena jovem a 20 horas de leitura

Um tribunal de Munique condenou um auxiliar de depósito de 19 anos a 20 horas de leitura porque a placa de sua motocicleta não estava perfeitamente visível. A condenação aconteceu em 8 de junho, comunicou o tribunal na última semana.

Segundo o tribunal, o auxiliar de depósito admitiu a sua culpa. O incidente aconteceu em fevereiro deste ano e, por se tratar de reincidência, a juíza de menores responsável pela sentença concluiu que o acusado "obviamente não aprendeu nada" com o primeiro incidente, "exatamente o mesmo ato e com a mesma motocicleta".

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Por meio de uma instrução de leitura, o jovem réu deverá agora ser "motivado a se ocupar em nível intelectual com o seu ato", informou o tribunal, acrescentando que não há necessidade de outras medidas educacionais para o acusado.

Segundo o comunicado, a medida educativa será realizada na Universidade de Munique. Numa primeira conversa, o jovem deverá escolher, entre uma série de sugestões, os livros que mais combinam com seus interesses e sua vida. Posteriormente, em entrevistas, ele falará sobre aquilo que leu, também em relação com a própria vida.

A medida se encerra com um trabalho em que o conteúdo da leitura e das discussões são "trabalhados em diversas formas criativas, como, por exemplo, contos, cartazes ou raps".