segunda-feira, junho 17

Libertas quae sera tamen


A lagoa

Deus foi cruel, por demais, para com a lagoa Rodrigo de Freitas. Escreveu, ao destino de suas águas: "De tempos em tempos, havereis (Deus só fala na segunda pessoa do plural) de cheirar mal". E a lagoa, tão linda, carregou a praga que se vem cumprindo, implacavelmente, para o resto da vida. 

É como uma bela mulher, que sofre de mau hálito. Tão bela e rejeitada!

Hoje, por exemplo, a lagoa acordou mais linda que nunca. O vento, de asas soltas, voando alto, desce depois crispando a crista de suas águas. Os pássaros a sobrevoá-la felizes e embriagados de luz e liberdade. As borboletas em seu tonto esvoaçar, de folha em folha, ao mato ralo das margens. E alguns jovens namorados, que faltaram às aulas, passeando de mãos dadas na calçada em frente ao morro da Catacumba. A lagoa acordou de boa boca.

Viva Deus! Não sei de lugar mais bonito, em toda esta cidade. Vim descobri-lo tarde, mas certamente só o deixarei quando me mudar de vez para Petrópolis. A lagoa, de manhã, sua primeira água é cinza. Um cinza bem fosco. Ao meio-dia, reverdece aquele verde de "piperment". Às duas, começa a azular-se. E se acinzenta, outra vez, na agonia da tarde, na hora em que as meninas do orfanato rezam suas rebeldes ave-marias. Depois enegrece, some e só volta no dia seguinte bem cedinho, no cio luminoso da manhã, quando é despertada pela sadia algazarra dos remadores do Vasco.

À beira da lagoa moram os homens mais ricos e os homens mais pobres da cidade. As mulheres mais saudáveis e as mais doentes. As crianças mais bem vestidas e as mais nuas. Tudo os intriga e separa. A desdita exagerada dos pobres atinge o estado de graça dos ricos. A prosperidade extralimitada dos ricos faz mal à fome dos favelados do morro da Catacumba. Só uma coisa os une: a lagoa, que todos gostam de olhar, com a mesma humildade, o mesmo consolo e o mesmo enlevo, a mesma fortuna. Só a beleza nivela os homens economicamente desnivelados.

Se Deus fosse menos rancoroso, recitaria um remédio de bochechar para o hálito da lagoa.
Antônio Maria

domingo, junho 16

Livro, presente!


Condenação ao esquecimento

Você não tem que queimar livros para destruir uma cultura. Apenas levar as pessoas a parar de lê-los
Ray Bradbury

Naves

Masahiro Sawada

As bibliotecas humanas

Perto de completar 90 anos, o meu pai decidiu que ia sendo tempo de escrever as suas memórias. Hoje, com 93, já publicou dois grossos volumes, e encetou um terceiro. Espanto-me com a forma detalhada como narra eventos acontecidos quando era ainda criança. Lembra-se, por exemplo, do primeiro livro que leu, quando tinha 7 ou 8 anos, e até do local onde o leu — em cima de um “enorme e centenário castanheiro”.

“Reviver”, o título que o meu pai deu à sua autobiografia, vale como um testemunho da vida em Portugal, Angola e Brasil, desde há quase um século. Para alguém como eu, incapaz de se recordar do que almoçou ontem, aquelas lembranças tão vivas parecem-me um prodígio. Se a minha memória fosse semelhante à dele talvez não me tivesse tornado escritor. Suspeito que comecei a produzir ficção, ou seja, a inventar enredos, ainda antes de saber ler e escrever, precisamente para preencher os vazios da memória. Incapaz de responder a perguntas simples — “o que comeste ontem?” — eu mentia com enorme entusiasmo. Nunca mais parei. Quem sabe toda a ficção literária nasceu da falta de memória.

Existem diversas bibliotecas ao redor do mundo que compreenderam a importância dos relatos autobiográficos, diários pessoais e outros textos de testemunho, textos íntimos, não publicados, e os recolhem para poderem depois ser consultados por qualquer pessoa. É material interessante para historiadores, jornalistas ou escritores, ao dar a conhecer a intimidade de vidas que a grande história tende a ignorar ou a desprezar.


Foi partilhando este espírito, mas num formato muito mais radical, que surgiu, na viragem do século, em Copenhague, o projeto das bibliotecas humanas — The Human Library. Neste projeto, que até já tem uma residência permanente, em Lismore, na Austrália, os “leitores” sentam-se diante do “livro humano” que escolheram e este conta-lhes a sua história.

Os “livros” são, regra geral, pessoas colocadas à margem pela sociedade, desde refugiado a sem-teto, passando por antigos soldados e vítimas de abusos sexuais.

A primeira edição do projeto aconteceu durante o festival de música de Roskilde, um dos mais importantes do norte da Europa, e contou com a participação de mais de mil “leitores”. O sucesso do evento levou à sua multiplicação. Hoje tem parceiros em 70 países.

As bibliotecas humanas ambicionam o mesmo que as clássicas, ou seja, dar a conhecer outros mundos e desenvolver a empatia entre os leitores; obviamente, o impacto é muito maior.

Em espaços onde a tradição oral preserva alguma força, como ainda acontece na maioria dos países africanos, ou nas zonas rurais da América Latina, a experiência pode até soar um pouco estranha, não pela sua originalidade, mas por ser tão trivial. Nestes lugares as pessoas mais velhas nunca deixaram de representar o papel de livros que se folheiam ao entardecer. Os velhos não contam apenas as suas histórias, mas as histórias das comunidades onde estão inseridos.

Olhando para as bibliotecas humanas sinto certa inveja dos “livros”. Por muitos que escreva, nunca serei um deles. Ao contrário do meu pai, falta-me não só a memória mas a história — falta-me vida. Resta-me o papel de “leitor”, no caso, daquele que escuta. Mas não será esse também o papel do escritor?
José Eduardo Agualusa 

sábado, junho 15

Sábado pra vadiar


O que espelham os livros

Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida fielmente gravados por centímetro quadrado você conseguir captar numa folha de papel, mais "literário" você será. Pelo menos essa é minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos.
Ray Bradbury

Guloso


Maresia

Tinha bigodes e uma cadeira no bar. Sentava-se de banda para a mesa, um pouco inclinado, como a coluna de rodelas de chope. Por sobre o cinto, que mal se via, a barriga se anunciava feito mercadoria ‒ deliciosa e a preço excepcional ‒ por cima de um balcão.

Era um homem de bar que fora um menino de praia. Mas mesmo na concentração aflita dos que se acostumam à cerveja, guardara um certo jeito de quem foi muito ao mar ‒ parecia, sentado, alguém que quer sair. Se dele retirassem a camada de pele encontrariam logo depois uma outra feita de sal tostado, areia e plasma, sempre ao sol. Ia ao bar como um nadador que procura, de cada vez, aguentar um pouco mais a submersão. Onde quer que ele entrasse havia um clima de fundo de mar: pressões, uma lentidão espessa, um aposento de se cruzar e não se atravessar, com cautela, pois poderia surgir debaixo da mesa um mero e, em cima da cadeira, um polvo estivesse a descansar.

Bigodes, barriga, bar e uma casa também. Nela entrava sempre molhado da rua, as artérias batendo, com sede e querendo se deitar ‒ exatamente como se estivesse saindo do mar.

Mas não havia mais mar, havia bigodes, barriga e bar. Onde fora parar aquele mar todo? Aqueles momentos de pura paixão física? Onde os ruídos que os chinelos faziam arranhando a areia? Onde a camisa com que enxugar o rosto e guardar debaixo da barraca ao lado dos óculos respingados e do maço de cigarros com a chave e a nota de mil debaixo do celofane? Onde aquela tragada molhada? Pés ao sol, cabeça à sombra. As ondas boas, o mergulho bom, bom esse óleo, boa a toalha.

*

Bêbado, muito bêbado, ele dava telefonemas errados em horas impróprias. Ligava de madrugada para mulheres, agora casadas, que atendiam de mau humor e desligavam logo. Ele dizia palavrões baixinhos e passava o copo na testa. Como todo homem de mar, falava mal das piscinas ‒ indecências sem peixes.

*

Daí ouviu a voz: "Vai ao mar que o mar ensina". E foi.

*

"Mar, depois de tanto tempo eis-me aqui de novo. Eu, o turrão, o zangado. Você, suas coisas todas. Mar, me dá. Mais uma vez só. Por favor".

E, primeiro com os pés, experimentou o mar frio. Molhou os pulsos, com a água fez o sinal da cruz, deixou-se, desajeitado, ir caindo. Entrava no velho quarto sem tatear, conhecia aquela escuridão.
Ivan Lessa

quinta-feira, junho 13

É de manhã


Vantagens

Alguns velhinhos se dizem mais felizes no asilo do que eram em casa. Têm com quem conversar, jogam dominó, as refeições são servidas sem um minuto de atraso, às vezes há até sobremesa e, em ocasiões especiais, o piano é aberto e uma irmã de caridade toca hinos religiosos. Há uma biblioteca, em que se podem encontrar biografias de santos, e um jardim muito bonito. Médicos e dentistas voluntários fazem visitas regulares e até uma psicóloga recém-formada de vez em quando vai conversar com algum velhinho que pareça deprimido. Um deles conseguiu cortar os pulsos na semana passada, mas ninguém até agora estranhou sua ausência. Os velhinhos não foram abandonados só pelas famílias, mas também pela memória.

No mundo da lua


Um jardim para cegos

Nunc et in hora mortis nostrae. Amen. A recitação quotidiana do rosário terminara. Durante meia hora, a voz calma do Príncipe havia recordado os mistérios Gloriosos e Dolorosos; durante meia hora, outras vozes entremeadas haviam tecido um sussurro ondulante em que sobressaíam as flores de oiro de certas palavras insólitas: amor, virgindade, morte. Durante aquele sussurro o salão rococó parecia ter mudado de aspecto; até os papagaios que abriam as asas irisadas na seda das tapeçarias haviam-se mostrado intimidados; e, entre as duas janelas, Madalena, na qual todos habitualmente viam uma bela e opulenta loira, perdida não se sabe em que sonhos, tinha tomado uns ares de penitente.

Calada, agora, a voz, tudo regressava à ordem na desordem do costume. Pela porta por onde os criados haviam saído, Bendicó, o grande cão de fila, a quem a forçada exclusão havia magoado, entrou e abanou o rabo.

Lentamente, as senhoras principiaram a erguer-se e, aos poucos, o refluxo oscilante das suas saias ia deixando a descoberto os nus mitológicos desenhados no fundo leitoso dos azulejos. Apenas permanecia escondida uma Andrómeda, a quem a batina do Padre Pirrone, atrasado nas orações suplementares, impediu, por um bom momento, de rever o seu prateado Perseu, que, sobrevoando as vagas, corria a libertá-la e a beijá-la.

No fresco do tecto as divindades acordaram. Filas de tritões e dríades precipitavam-se dos montes e mares, entre nuvens cor de framboesa e lilás, em direcção a uma transfigurada Concha de Oiro, a fim de exaltar a glória da Casa de Salina; tão transbordantes de satisfação se mostravam que as mais elementares regras de perspectiva foram violadas. E os Deuses maiores, os príncipes entre os Deuses, Júpiter o Fulgurante, Marte o Carrancudo, Vénus a Langorosa, que haviam precedido a multidão dos Deuses menores, pareciam agora sustentar de boa vontade o escudo azul com o Leopardo dançando.

Sabiam perfeitamente que durante vinte e três horas e meia voltariam a ser os senhores da villa. Nas tapeçarias das paredes, os macacos voltavam a fazer momices às catatuas.

Também os mortais da casa de Salina, sob aquele Olimpo palermitano, desciam apressadamente das altas esferas místicas. As raparigas compunham as pregas dos vestidos enquanto trocavam entre si rápidos olhares azulíneos e palavras na gíria do pensionato. Há mais de um mês, desde os “motins” do quatro de Abril, que as haviam mandado voltar do convento; agora, era com saudade que recordavam os dormitórios de baldaquins e a intimidade colectiva do Convento de Salvador. Os rapazes mais novos brigavam já pela posse de uma imagem de S. Francisco de Paula; o primogênito e herdeiro, o Duque Paulo, começava já a sentir vontade de fumar, mas, com receio de o fazer na presença dos pais, contentava-se em apalpar, através da algibeira, a palha entrançada da cigarreira.

Desenhava-se-lhe no rosto emaciado uma melancolia metafísica: o dia havia-lhe corrido mal, pois Guiscardo, o alazão irlandês, tinha-lhe parecido em má forma e Fanny não conseguira encontrar o meio (ou o desejo?) de fazer-lhe chegar à mão o habitual bilhetinho cor-de-rosa. Para que se havia então sacrificado o Redentor?

Com insegura autoridade a Princesa deixou cair, secamente, o terço na bolsa bordada de azeviche, enquanto os seus belos olhos maníacos observavam os filhos escravos e o marido tirano. O seu corpo minúsculo projectava-se para este num vão desejo de domínio amoroso.

Entretanto, o Príncipe levantou-se e, ao choque do seu peso de gigante, o soalho estremecia. Durante uns instantes, os seus olhos claros refletiam o orgulho daquela efémera confirmação do seu domínio sobre homens e coisas.

Depois, poisou o enorme missal vermelho que estivera na sua frente durante a recitação do rosário e guardou o lenço em que apoiara o joelho; um pouco de mau humor turvou-lhe o olhar, quando viu a pequenina nódoa de café que, desde a manhã, havia ousado quebrar a vasta brancura do colete.

Não era gordo; era apenas imenso e forte. A sua cabeça tocava (nas casas habitadas pelos mortais comuns) o florão inferior dos lustres, e os seus dedos sabiam dobrar como papel as moedas de ducado. Havia sempre, entre a villa Salina e a loja de um ourives, um contínuo vaivém a fim de se consertarem os garfos e as facas que a sua ira contida, à mesa, fazia frequentemente dobrar em arco. Aqueles dedos sabiam aliás usar de extrema delicadeza, quando acariciavam ou se entregavam a certas brincadeiras; e disto, para sua desgraça, se poderia lembrar Maria Stella, sua mulher; e, ainda, sob o seu toque delicado, os parafusos, os aros e botões esmerilados dos telescópios, óculos e “pesquisadores de cometas”, que enchiam, lá no alto da villa, o seu observatório particular, não sofriam qualquer dano.

Os raios do sol poente daquela tarde de Maio incendiavam a tez rosada e os cabelos cor de mel do Príncipe. Eram estes que denunciavam a origem alemã de sua mãe, aquela Princesa Carolina cuja soberba, trinta anos atrás, havia enregelado a Corte um tanto negligente das Duas Sicílias. Mas no sangue fermentavam-lhe outras essências germânicas, e estas mais incómodas para um aristocrata siciliano, naquele ano de 1860, de que podiam ser atraentes uma pele clara e uns cabelos loiros no meio daquela gente de pele olivácea e cabelos negros. O seu temperamento autoritário, uma certa rigidez moral, a sua propensão às ideias abstratas, no ambiente moral um tanto mole da sociedade palermitana, haviam-se mudado, respectivamente, em tirania caprichosa, perpétuos escrúpulos morais e desprezo pelos seus parentes e amigos, os quais lhe pareciam andar à deriva nos meandros do vagaroso rio do pragmatismo siciliano.

Ele era, numa família que, durante séculos, não havia nunca sequer sabido fazer a soma das despesas e a subtração das dívidas, o primeiro e último a possuir uma forte e mais que notória inclinação para as ciências matemáticas.

O Príncipe havia-as aplicado à astronomia e, desta forma, obtido com elas razoáveis sucessos públicos e belíssimos prazeres privados. Com efeito, a tal ponto, nele, o orgulho e a análise matemática se tinham associado, que alimentava a ilusão de que os astros obedeciam aos seus cálculos (como aliás pareciam fazer) e que os dois planetas que havia descoberto (chamara-lhes Salina e Esbelto em homenagem à sua propriedade e a um inesquecível perdigueiro) propagavam a fama da sua casa nas estéreis plagas do céu entre Marte e Júpiter. E, assim, os frescos da villa representariam mais uma profecia que a adulação de um pintor.

Solicitado, por um lado, pelo orgulho e intelectualismo materno, por outro, pela sensualidade e condescendência do pai, o nobre Príncipe Fabrício vivia, sob a carranca de Zeus, em perpétuo descontentamento, entregando-se à contemplação da ruína da sua raça e do seu patrimônio sem dar mostras de qualquer actividade e, o que é mais, sem tentar por-lhe um termo.

Aquela meia hora entre o rosário e o jantar era um dos momentos menos irritantes do dia e, horas antes, já ele antegozava-lhes a calma equívoca.

Precedido de um Bendicó excitadíssimo, desceu a pequena escada que conduzia ao jardim. Encerrado entre três muros e um dos lados da villa, esta clausura conferia-lhe um ar de cemitério, acentuado ainda mais pelos montículos paralelos que ladeavam os pequenos canais de irrigação e que lembravam túmulos de gigantes magríssimos. Na argila avermelhada as plantas cresciam em espessa desordem; as flores surgiam ao deus-dará e as sebes de murta pareciam ali dispostas mais para impedir que para dirigir os passos.

Ao fundo, uma Flora, manchada por líquenes amarelo-negros, exibia, com resignação, os seus mimos mais que seculares; de cada um dos lados um banco sustentava uma almofada bordada, comprida e enrolada, talhada, também ela, em mármore cinzento.

A um canto, o oiro de uma acácia introduzia uma nota de alegria intempestiva.

De todos aqueles torrões emanava uma sensação de beleza depressa amortecida pela indolência.

Mas o jardim, refreado e macerado entre aquelas barreiras, exalava perfumes untuosos, carnais, levemente pútridos, como os líquidos destilados das relíquias de certos santos; o perfume apimentado das violetas sobrepunha-se ao aroma convencional das rosas e ao oleoso das magnólias que se concentravam nos cantos. Muito ao de leve, percebia-se ainda o perfume da hortelã-pimenta misturado ao aroma infantil da acácia e ao cheiro a confeitaria da murta. O perfume de alcova das primeiras flores das laranjeiras do pomar transbordava por cima do outro muro.

Era um jardim para cegos. A vista constantemente se ofendia, mas o olfacto, esse, podia extrair dele um prazer violento, embora grosseiro. As rosas Paul Ney ron, cujas estacas ele próprio adquirira em Paris, haviam degenerado.

Primeiro estimuladas, depois extenuadas pelos sucos vigorosos e indolentes das terras sicilianas, queimadas por Julhos apocalípticos, haviam-se transformado numa espécie de couves cor de carne, obscenas, que destilavam, porém, um aroma denso, quase desonesto, que nenhum criador francês teria ousado esperar.

O Príncipe levou uma delas ao nariz e foi como se aspirasse a coxa de uma bailarina da Ópera. Bendicó, a quem em seguida a ofereceu, retraiu-se nauseado e apressou-se a ir procurar sensações mais saudáveis no meio do estrume e das lagartixas mortas.
Tomasi di Lampedusa

quarta-feira, junho 12

Instantâneos de felicidade





Se é o que se lê



Somos muito do que lemos
Eugénio Lisboa

Um homenzinho na ventania (fim)

A mão da mendiga trouxe de um lugar oculto nas dobras da saia encardida um pão pequeno, um pão bonito e puro. "Qué?" Tá quente ainda, bobo. Comprei agorinha mesmo." O gesto de oferta ficou paralisado. "Pega; tou com fome nada." O homenzinho resmungou conspicuamente: "Estou morrendo é de sede". "Água, como é que vou dá água?" E a mendiga se foi, comendo o pão. Antes de desaparecer na esquina, gritou: "Daqui a pouquinho o vento sossega, cê bebe água".

Kafu
Tinha febre o homenzinho. Durante algum tempo não aconteceu nada, senão o vento e as coisas do vento. Entre gravetos, galhos, folhas, latas, papéis, nuvens de pó, passou um tanque de guerra de brinquedo, reluzente na sua pintura, lançando fogo por um canhão de duas bocas. No apartamento térreo de defronte, amassado à vidraça, um rosto. A lente revelou uma garota deslumbrada com o parto da ventania. Desaparecido o brinquedo, a criança descobriu com alegria o homenzinho, acenando-lhe a rir. Muito pequena, era inútil tentar fazê-la compreender que ele precisava de ajuda. Se o vento despregasse o homenzinho da árvore e o carregasse para o mar, ela bateria palmas. Talvez. Quem sabe de fato o que se transmite da retina ao espírito de uma criança? Sabe-se que, de repente, agarrada por mãos invisíveis, a garota saiu voando de camisola vermelha, voando para trás como um beija-flor. Devia esperá-la sobre a mesa um imenso copo de leite morno. Talvez.

O homenzinho ficou só. Nas torres verdes dos aeroportos os homens mediam o vigor e o gênio do vento. Possível que entrasse em declínio dentro de um quarto de hora.

Um caminhão de feira, ao fazer a curva, foi agredido frontalmente pela ventania. Dois caixotes de laranjas tombaram. O motorista freou o carro, começou a recolher as frutas. Recuperadas quase todas, preferiu voltar ao caminhão, pois outros caixotes estavam ameaçados; ajeitou melhor a carga e partiu, sem lobrigar o homenzinho. Este rastejou até o meio-fio, apanhou uma laranja, descascou-a com os dedos trêmulos, bebeu-lhe o caldo, ávido. A sensação de alívio na garganta o comoveu; aqui, compadecido de si mesmo, um homenzinho chora. E o homenzinho chorou.

A comoção agravou o mal generalizado que o dizimava por todas as sensações que somam as parcelas de um serzinho humano. Taquicardia e falta de ar levavam-no a ombrear-se com a morte. O infarto. Ou enfarte. Não que agora se importasse de morrer, queria morrer, mas sobre uma cama de lençóis limpos, assistido pela mulher, o filho e um médico. Consolo para corpo e alma; morte sem dor demais.

Tirou do bolso a carteira, olhou, como se fosse despedida, o filho, a mulher, ele, um homenzinho de roupa nova, sorrindo, fazendo quinze anos de casado, amando a brisa que refresca o trópico. A esta hora, o filho talvez o procurasse pelos botequins da Glória. A mulher em casa, distúrbios neurovegetativos, bordando a interminável toalha. Sou um crápula, descobriu afinal o homenzinho, que cultivava o jardim das palavras esdrúxulas. Logo ontem, quando fazia quarenta anos! Réprobo!

Guardou os retratos, pois o vento desbaratava as folhas mais novas da amendoeira. Olhou para cima, sentiu um golpe contundente no flanco esquerdo: dentro da gaiola despencada, ainda vivo, um sofrê. O homenzinho abriu a portinhola, tomou o corpo quente do passarinho na palma da mão. Do outro lado da rua, uma laranja. Segurando a ave na mão esquerda, começou a arrastar-se até lá, de novo excitado, murmurando: "Você não vai morrer, passarinho…".

Foi a mais dolorosa jornada. A fim de evitar os golpes bruscos sobre a mão esquerda, erguia-se nos joelhos, e de joelhos caminhava alguns metros, chiando de asma, gemendo de dor, chorando sobre a grande miséria que está perto de tudo: exausto, tombava de bruços, molhava o passarinho em lágrimas, até que lhe voltassem os restos de força. Atingida a laranja, o poder do vento estava contado. Guardou a fruta no bolso e empreendeu a viagem de regresso, a roupa dilacerada, mãos e joelhos sangrando, lágrimas de ódio, de compaixão etílica, lágrimas turvas, grossas. Na metade da rua, perdeu os sentidos, estendendo-se sobre o asfalto como um crucificado. As mãos se abriram, o passarinho rolou, piando, até parar de encontro ao rosto do homenzinho. Ou homem. Um monte de lixo, vindo de uma lata revirada, envolveu o seu corpo, na sagração da primavera de Copacabana. Voltando a si, abriu os olhos míopes, sem entender. Quando entendeu, virou-se devagar para o céu cor de ratazana e falou: "Chega, chega!".

Erguendo-se com vigor sobre os joelhos, terrível como um rei que perdesse as pernas na batalha, e ainda assim avançasse, chegou à amendoeira. Colocou o sofrê no bolso, descascou a laranja, pegou o passarinho, abriu-lhe o bico, por onde deitou algumas gotas de suco. Mas estava morto o sofrê. Morto, sujo de terra e sangue, consumado. No círculo de terra em torno da árvore foi cavada com as unhas uma cova.

O vento sossegava. O homenzinho abriu a boca e dormiu, chiando na infelicidade do acesso asmático.

Duas horas depois, o sol brilhava sobre o Rio. Acordou ardendo em sede. Pessoas passavam rindo, lojas abertas, tráfego estridente, tudo voltara à normalidade. Levantou-se doído, cambaleante, amargo, olhou através da lente, e começou a caminhar dramaticamente até a Glória.

Quando a mulher lhe perguntou, chorando, o que tinha acontecido, o homenzinho respondeu: "Nada".
Paulo Mendes Campos

domingo, junho 9

Instantâneo

Pont des Arts, Paris (Andre Kertesz)

Minhas janelas

 Caroline von der Embde 
Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela: mesa, máquina de escrever, dicionários, paciência. Além de pequenos objetos familiares: um globo de lata, uma galinha de barro, um Gorki de porcelana, um Buda de marfim e três cachimbos que há muitos anos esperam aparecer em mim o homem tranquilo e experiente que fuma cachimbo. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.

Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa e plena do que esta de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e viver já não será o mesmo fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio.

Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente do tanque, e o azul sem morte. ("Comme le monde était jeune, et que la mort était loin!") Criança do meu tempo, do tempo das casas, só chegava à janela em dia de chuva, amassando o nariz contra a vidraça, para ver o mistério espetacular das águas desatadas, as enxurradas maravilhosas, as poças onde os moleques pobres e livres podiam brincar com euforia.

Portanto, só à medida que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas. Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países. Meus olhos deram para ruas quietas ou frenéticas, pátios melancólicos, morros cobertos de mataria, pedaços de mar. Vi coisas, muitas coisas, só não vi a linda mulher nua que os outros homens já viram de suas janelas. O resto eu vi. Vi um garoto pequeninho comandando o mundo de cima dum telhado, vi um afogado dando à praia ao amanhecer, vi um homem batendo numa mulher, vi uma mulher batendo num homem, vi auroras profusas e chamejantes, vi poentes dramáticos, vi uma menina morrendo num pátio, vi as luminárias inquietantes dos transatlânticos, as traineiras indo e vindo, vi operários equilibrando-se em andaimes incríveis, vi um general a bater-se com um soneto, vi a tormenta, o sol, a tarde cristalina, o verde, o cinza, o vermelho, a folha, a flor, o fruto, o farol da ilha, o féretro passando, a moça saindo para as núpcias, a mãe voltando da maternidade com um filho, o bêbado matinal, o casal de velhinhos crepusculares, o mendigo irrompendo pela rua como um versículo do Novo Testamento, vi através de minhas janelas todas as formas inumeráveis da vida, e a noite que chegava para engolfar o mundo em escuridão.

Buscava um lugar que me servisse e encontrei Ipanema. Já me mudei muitas vezes dum bairro para outro, já me mudei até de cidade, mas, nos últimos anos, só tenho trocado um lugar de Ipanema por outro lugar em Ipanema. Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que já tenho estão de bom tamanho. 

Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, um minuto de silêncio em derradeira homenagem aos seus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras cambiantes, meus pinheiros líricos, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos; dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.

Fonte no deserto