sábado, abril 29

Começar o dia

Café y lectura… nos espera un largo fin de semana con los libros (ilustración de Tidus)
Tidus

Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era
[tranqüilo em redor de Clara.

Recess reader / Descanso lector (ilustración de Dianne Dengel)
 Dianne Dengel
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava
[no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

Carlos Drummond de Andrade

Outdoor

jasmyne:
“📚
”

Gracinhas, chorinhos e outros diminutivos

The word in the forest / La palabra en el bosque (ilustración de David Wyatt)
Via:bookspaperscissors
David Wyatt
Admita-se: nunca houve poetas com a cabeça tão assentada quanto os concretistas.

***

Que vocação policialesca têm os pronomes demonstrativos, sempre apontando: este, esse, aquele.

***

Com tanto Andrade, o modernismo não parecia um movimento – parecia uma sociedade.

***

Nas frases curtas, geralmente a única sabedoria consiste em poupar a paciência de quem lê e o fôlego de quem escreve.

***

Quer seja de boa, quer seja de má vontade, morrer é uma responsabilidade.

***

Não termos nada a dizer é às vezes a melhor notícia que pode receber nosso leitor.

***

Escrever é uma dessas insanidades que, depois de descobertas, precisam ser dia a dia confirmadas.

***

Como prezamos nossa pretensa sabedoria. Se for preciso, recorremos à terceirização. Nunca erramos, somos induzidos a erro.

***

Devemos ir aprendendo a nos exprimir com poucas e curtas palavras. É um exercício que nos valerá, no fim. O que teremos tempo de dizer? Talvez ai, talvez meu, talvez Deus.

***

Pobres estrelas, tão mediocremente ofertadas por tantos rabiscadores de poemas a tantas musas de deplorável categoria.

***

A melhor forma de sobreviver com a literatura ainda não está definida. A pior é ser escritor.

***

Estava tão bem no seu papel de morto que só um morto legítimo seria capaz de desmascará-lo.

***

O ócio é uma preguiça com pretensões intelectuais.

***

Para ela, o amor era como um objeto que, dependendo do dia ou da noite, podia ou não estar em sua bolsa.

***

Os barquinhos eram de papel porque eram gentis as enxurradas.

***

Recolhia as estrelas em uma peneira, para que, escorrido o leite delas, fosse menos penoso transportá-las.

***

Uma linha é uma linha ou um cacófato?

***

Um haicai deve ter o tempo exato de ser, sem a tentação de retoques.

***

Um poeta seria igual a uma pessoa comum, se uma pessoa comum tivesse a mania de ser poeta.

***

Deus criou os homens e Shakespeare deu-lhes forma.

***

Embora os escritores discordem, os maiores mártires da literatura são os leitores.

Raul Drewnick

sexta-feira, abril 28

Pouco que é muito


mennyfox55:
“Moeller ..
”Livro que deixa uma palavra já deixou alguma coisa
Monteiro Lobato

Descoberta do mundo

Descubriendo mundos… en la biblioteca (ilustración de Gary Kelley)
 Gary Kelley

Durma entre livros nos hotéis com bibliotecas

Apaixonados por livros adorarão saber que podem se hospedar em um lugar que até então só pensavam existir em seus sonhos. O hotel Literary Man fica a 90 minutos de Lisboa, em Portugal, e ostenta em suas paredes mais de 45 mil títulos.

Localizado em Óbidos, uma vila medieval de mais de 700 anos, o hotel Literary Man foi inaugurado no ano passado dentro de um antigo convento. Além de praticamente todas as suas paredes serem repletas de prateleiras forradas por livros, os pratos e coquetéis servidos no restaurante do local foram todos batizados em homenagem a lendas literárias.


O salão do Literary Man, em Portugal
Durante a hospedagem, é possível até mesmo reservar uma massagem à luz de velas cercado por livros, obviamente.

Este não é o único lugar onde é possível se hospedar e se sentir dentro de uma biblioteca. Na pacata cidade de Wigtown, na Escócia, uma pequena livraria chamada The Open Book possui um apartamento de um quarto no andar de cima. Quem alugá-lo pode ficar no espaço por até duas semanas pagando uma taxa de apenas US $ 42 por noite com o comprometimento de gerenciar a livraria no andar de baixo.

O trabalho durante a estadia é feito com o auxílio de uma equipe de voluntários. A iniciativa faz parte de um projeto um sem fins lucrativos criada pela Wigtown Festival Company. O programa de residência “visa celebrar livrarias, incentivar a educação na execução de livrarias independentes e acolher pessoas de todo o mundo à Scotland’s National Book Town.

No Japão, o hostel Book and Bed também apostou na paixão das pessoas pelos livros para projetar suas acomodações. O estabelecimento possui 52 camas com banheiros compartilhados e atualmente possui cerca de 2 mil títulos em inglês e japonês espalhados por seu espaço.

Nômades Digitais

quinta-feira, abril 27

Oh, dúvida cruel!!!

Resultado de imagem para razão e emoção com livro charge

Eu te consumo, ele enrriquece

Há alguns dias, Anderson França, o Dinho, grande escritor que despontou para o mundo dos livros impressos e distribuídos nas livrarias através da internet, autor de “Rio em shamas” (Editora Objetiva), conversava com os seus seguidores a respeito do eterno dilema de quem publica no Facebook — que, ao contrário do YouTube, e de blogs que eventualmente lucram com anúncios, não remunera ninguém: “Faço textos e crônicas de graça porque me realizo” escreveu o Dinho. “Mas entendo o argumento de quem diz que entretenho milhões de pessoas, e só o Mark ganha.”

Este é o drama de todos nós que produzimos conteúdo para a maior rede social de todos os tempos. Escrevemos — ou fotografamos ou fazemos arte e vídeo — porque gostamos, porque nos realizamos quando nos comunicamos com outras pessoas, mesmo percebendo que, enquanto doamos tempo e talento, quem realmente ganha com a nossa produção é ele, o Facebook. Isso é especialmente complicado para quem vive da sua produção intelectual, e que, apesar de contabilizar milhares de seguidores, continua enfrentando dificuldades. Likes, como aprendemos rapidamente, não pagam o aluguel.

John Holcroft
O problema é que o ser humano é o único animal que conta histórias. Das cavernas da Serra da Capivara, em que desenhos e pinturas nos falam de caçadas ocorridas há 50 mil anos, às telas de milhões de computadores e de celulares espalhados pelo planeta, formamos, desde que viemos ao mundo, extensas teias de conversas e de lembranças. Somos tão movidos pelo desejo de dividir sonhos e experiências quanto pelo de registrar o que nos acontece para tentar entender o mundo; uma atividade de tal forma necessária que, por vezes, chega a prescindir de plateia e de reconhecimento.

(Isso explica os longos diários das nossas avós fechadinhos a chave, os livros inéditos trancados nas gavetas que os autores não abrem para ninguém, ou, mais recentemente, os milhões de textos soltos na internet em blogs que contemplam o nada. Tanto faz que ninguém leia; muitas vezes, o importante é pensar, escrever, guardar memórias enquanto ainda estão frescas.)

É com essa necessidade imperiosa de comunicação que contam as redes sociais, que nascem e se formam de um desejo atávico marcado no DNA humano desde a pré-História. Em tese, a sua própria existência é a “remuneração” que oferecem, ao abrir plataformas que promovem o encontro de pessoas. Nessas praças gigantescas, as funções se sobrepõem: somos ao mesmo tempo picadeiro e plateia, consumidores e objeto de consumo.

O YouTube remunera os geradores de conteúdo porque ninguém está no YouTube por acaso, batendo papo — as pessoas vão ao YouTube para ver alguma coisa, e se essa alguma coisa não for interessante, deixarão de ir. O conteúdo que produzimos traz as pessoas de que o Google precisa. Já o Facebook, ao contrário, oferece público para o nosso conteúdo: essa é a sua moeda.

Um dia isso talvez se resolva. Pode ser que daqui a algum tempo, encontradas ferramentas de monetização (ô palavra horrível!), a gente olhe para trás e se espante:

— Mas como foi que produzimos tanto sem ganhar dinheiro?

Até lá, continuaremos nos encontrando todos os dias no planeta azul do Zuckerberg, gerando montanhas de conteúdo uns para os outros — e lucro, muito lucro... para ele.

Cora Rónai

quarta-feira, abril 26


Biblioteca de bambu de Liyuan (China), projeto de Li Xiadong 

Manifesto de um dinossauro paulista

Mando-te um abraço abatido, frouxo, melancólico, um abraço cheio de uma saudade que eu só poderia mandar numa carta, um abraço ressentido contra as simplificações da internet.

Um abraço decadentista, ultrapassado, um abraço de quem não aceitou nem foi aceito pela modernidade e que, voltando à canetinha bic, ao papel e ao envelope, sabe que se expõe à chacota, como se fosse um troglodita urrando na esquina da Paulista com a Consolação ou um dinossauro pondo a correr os caminhantes do Parque do Ibirapuera.

Resultado de imagem para escrever carta
Um abraço de quem não tem jeito para ficar dizendo que curtiu isso ou aquilo, um abraço de um ser que não se dá bem com as redes sociais e não precisa, nem quer, ter mais do que dois ou três amigos, de preferência um só.

Um abraço de quem sorri pouco mas quer saber para quem sorri, um abraço de quem quer olhar para quem sorri.

Um abraço de quem, tendo procurado a vida inteira uma linguagem, não consegue adaptar-se a essa que anda por aí, feita de coraçõezinhos desenhados, de rs, bjs e abs.

Um abraço de quem, se depender dos meios modernos, prefere morrer sozinho, com a barba crescendo em volta dos pés.

Um abraço de um cara triste, muito triste, que pretende contar essa tristeza para a pessoa certa, não para trezentos e oitenta ou quatrocentos e vinte desconhecidos virtuais.

Na livraria



Elizabeth Shippen Green

A nostalgia de Hitler

Resultado de imagem para a nossa frágil condição humana
Se Adolf Hitler tivesse vivido entre os elefantes, até hoje ele estaria sendo lembrado. Mas ele viveu entre seres humanos — uma espécie que, aparentemente, tem memória curta. As notícias o demonstram: não só existe hoje na Europa uma quase total ignorância a respeito do nazismo, como a figura de Adolf está agora revestida de uma auréola mágica. “Adolf Hitler, Superstar” — diz uma revista europeia. Um Führer glamorizado reaparece agora em livros e filmes. As suásticas reaparecem. Há partidos neonazistas em várias partes do mundo. E na Argentina tivemos, até há pouco tempo, uma onda de antissemitismo de inspiração nitidamente nazi, para o qual o caso Gralver (o financista que girava com o dinheiro dos montoneros) serviu de estopim.

Será que o nazismo está voltando? — me perguntaram jovens estudantes a quem, faz umas semanas, dei uma palestra. Na realidade, o nazismo nunca desapareceu totalmente; sob disfarce, ele permanece vivo e atuante em várias partes do mundo. Onde quer que tenhamos a intolerância, a repressão, o racismo, o velho Adolf estará presente, em espírito. Na Rodésia, por exemplo, ele estaria bem à vontade. Nem por isso, contudo, devemos ficar paranoicos. O Terceiro Reich não foi um episódio isolado, uma espécie de praga que se abateu sobre a humanidade; foi um movimento com raízes socioeconômicas e psicológicas perfeitamente identificáveis. Foi, em resumo, a expressão do desespero de forças econômicas acuadas. Atualmente, a direita (da qual o nazismo é o expoente máximo) não parece tão desesperada assim.

Nem os povos estão despreparados. Os tempos são outros; mas isso não nos deve dar descanso. Ao contrário. Precisamos falar no assunto, discuti-lo tanto quanto possível. Os totalitários se refugiam
no silêncio e nas sombras. Mas enfim, já que a moda Hitler está aí, e já que muita gente está faturando em cima do assunto, aqui vão algumas sugestões a respeito de como aproveitar a popularidade de Hitler — especialmente na sociedade de consumo, capaz de comercializar
qualquer coisa.

Eis alguns lançamentos de sucesso garantido: 

— Fogões a gás Terceiro Reich: extremamente limpos, silenciosos e econômicos. Equipados com forno crematório. 

— Uma dança para entrar na moda: o rock de Adolf. Um passo adiante, vários para trás. Uma volta para a direita. Um discurso inflamado. Termina com o fuzilamento do parceiro.

— Reich-Ball: é um jogo semelhante ao futebol, só que jogado em campo de concentração, rodeado de cercas eletrificadas. Uma vantagem desse jogo é que as equipes estão permanentemente concentradas, o que lhes dá uma disciplina invejável. O jogo, apesar do nome, não tem bola. Consiste em empurrar os adversários para câmaras especiais onde eles… Bom, seria de mau gosto descrever, ganha o time que consegue ter maior número de sobreviventes.

— Manteiga Blitzkrieg: não existe. O Terceiro Reich prometia canhões em vez de manteiga, lembram? A caixa de manteiga Blitzkrieg contém canhõezinhos em miniatura para as crianças brincarem. É educativo e não aumenta o colesterol, como a manteiga comum.

— Clínicas Mengele: o dr. Mengele, que trabalhava com cobaias humanas (injetava corantes nos olhos de crianças para torná-los azuis), bem que poderia abrir uma rede de clínicas para o tratamento dos indesejáveis.

— “Solução final”: um coquetel explosivo, à base de ácido cianídrico e napalm. Pode ser uma interessante variante nas festinhas de embalo.

Macabro, tudo isso? Pode ser. Em matéria de mau gosto não se compara com as fotografias (autênticas) dos novos nazistas empunhando bandeiras com suásticas.

domingo, abril 23

Refém do terrorismo

É preciso ter janela

Resultado de imagem para local de escrever de escritor famoso 
 Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela: mesa, máquina de escrever, dicionários, paciência. Além de pequenos objetos familiares: um globo de lata, uma galinha de barro, um Gorki de porcelana, um Buda de marfim e três cachimbos que há muitos anos esperam aparecer em mim o homem tranquilo e experiente que fume cachimbo. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.
Paulo Mendes Campos

sábado, abril 22

Sábado para passear

'what, behind me?'  'yes, behind you right now'  'just looking at me?'  'just looking at you'  'are you sure?':

Agradecimento de leitor

jwl67:
“ Per Krafft the Elder (1724-1793)
Reading Boy (1758)
”
Per Krafft the Elder (1724-1793)

Penso no poder do escritor e orgulho-me de ser um dos seus leitores que ele não encontraria neste mundo, e a quem se destinaram algumas de suas páginas mais belas
Augusto Frederico Schmidt

Leitura em balanço

all-things-bright-and-beyootiful:
“  bibliolectors:
“  Swinging with reading / Columpiándose con la lectura (il·lustración de Lucía Cobo)
” ”
 Lucía Cobo

Emoção poética

alpha-venus:
“🅰Robert Sivell 1888-1958
”
🅰Robert Sivell (1888-1958)
Um dia, ao começar a escrever um livro didático sobre literatura, tive que dar uma definição da poesia e embatuquei. Eu, que desde os dez anos de idade faço versos; eu, que tantas vezes sentira a poesia passar em mim como uma corrente elétrica e afluir aos meus olhos sob a forma de misteriosas lágrimas de alegria: não soube no momento forjar já não digo uma definição racional, dessas que, segundo a regra da lógica, devem convir a todo o definido e só ao definido, mas uma definição puramente empírica, artística, literária. No aperto me socorri de Schiller, em quem o critico era tão grande quanto o poeta, e disse com ele: “Poesia é a força que atua de maneira divina e inapreendida, alem e acima da consciência.

Sabeis o que é atuar de maneira divina? Confesso lisamente que não sei. Mas conheço da poesia, por experiência própria, essa maneira inapreendida de ação “nunca pude explicar, em muitos casos, a emoção que me assaltava ao ouvir ou ao ler certos versos, certas combinações de palavras. A propósito, vou contar-voa uma anedota. Havia na Avenida Marechal Floriano um hotel que se chamava Hotel Península Fernandes. Toda vez que eu passava por ali e via na tabuleta aquele nome Hotel Península Fernandes, sentia não sei que pequenino alvoroço – alvoroço em suma de qualidade poética. E ficava intrigadíssimo. Porque aquele hotel de chamava Península Fernandes? Uma tarde, meu primo Antônio Bandeira, igualmente invocado pelo estranho nome, não se conteve, subiu as escadas e foi falar ao proprietário, que era um português terra-a-terra, e sem nenhuma fumaça de literatura.

- O senhor me desculpe a curiosidade, mas porque é que o seu hotel se chama Península Fernandes?

- Muito simples, respondeu o homem. Fernandes porque é o meu nome e Península porque é bonito!

O nome estava realmente explicado, mas a emoção poética não. Atuava de maneira incompreendida.
Manuel Bandeira