segunda-feira, novembro 19

Ainda não acabou o feriadão

Mordillo

Curtinhas e talvez pretensiosas

O velho Machado conversando com Bentinho: já disse que não sei nada do Escobar e da Capitu. Eu sou só o autor.

***

De Oswald para Mário de Andrade: aquele ali de tílburi não é o Graça Aranha?

***

Nada mais gentil que um poema concretista quando abre sua piscina para crianças da vizinhança num dia de abril.

***

Consta que os poemas concretos foram os primeiros a acolher projetos de aquecimento solar.

***

Linguagem comportada, pronomes no lugar. Não há mais burgueses a espantar.

***
Willem Boon

Para os frasistas que vieram depois de Millôr restou pouco mais que o descaramento do plágio.

***

O poeta velho hoje tem pena de sua poesia: tantos anos em tão má companhia.

***

Foi um morto exemplar. Aceitou todos os elogios sem ruborizar.

***

Será punido quem, como eu, passar a vida ostentando a tristeza como patrimônio.

***

Quando assobia teu nome, o vento finge ser flauta.

***

Um dia você faz a besteira de se declarar poeta. Aí passa a vida inteira tentando provar.

***

Seres ou não seres poeta – a preocupação de toda a tua vida – é hoje tão importante quanto saber se o olho cego de um defunto é o esquerdo ou o direito.

***

Ah, se Deus a ventura me desse de ser desencaminhado pela voz da moça do GPS.

***

Do declarante ao leão do IR: pode me comer, mas poupe os meus dependentes.

***

De uma frase longa ao escritor: não está na hora de abrir um parágrafo?

***

Se eu estivesse morto, quem de meu gato cuidaria e de minha melancolia?

***

Louvados sejam os tolos que há séculos alimentam com seu sangue o mito do amor.

***

Se os teóricos tivessem o dom da síntese, diriam que literatura é o ato de escrever.

***

Olavo Brás Martins já não estava bom demais? Precisava dos Guimarães Bilac?

***

Eu, se fosse fazer uma campanha de reabilitação dos aforismos, começaria mudando seu nome.

***

Adolescência radiante: o pecado morava ao lado ou um pouco adiante.

***

Não nasci para escrever. Experimentei – e fui me viciando.

***

De Mario Quintana ao passarinho: está desafinando, mas você é novo. Vai melhorar.
Raul Drewnick

domingo, novembro 18

Passear


Leitora

Confesso o vício de ler
Jacques Chapiro
afago
cada palavra
Bebo o feitiço das histórias
cada rosa cada asa
por onde a busca se enlaça
Revolvo-me na ruptura
ou na ternura descalça
onde a caneta sutura
Tomo o corpo da leitura
enredo-me no seu abraço
ora vestida ora nua
Ao longo deste prazer
não há nada que eu não faça
em entrega e em devassa
Indo mais longe no ler
encontro o cisne e a rola
na tocaia do prazer
Tenho a paixão da leitura
teima na escrita do perigo
e estremeço de prazer ao entreabrir um livro
Corro as mãos nas suas espáduas
desnudo frases de feltro
afloro as suas pálpebras
Entrelaço as consoantes
com as vogais e o enredo
diante das fantasias no sobressalto do medo
Descubro escusas passagens
pelas cisternas dos livros
ao desfolhar suas páginas
Na entrega e no sustido
nas lágrimas e no sorriso
entre o ardil e o tigre
Ora cumprindo
a harmonia
ora querendo a transgressão
Sou uma leitora voraz
tenho um trato com a audácia
e outro com o perdimento
Entre a leitura e a escrita
existe um espaço sedento
rebeldia e firmamento
Digo tempo e confissão
das cartas das bibliotecas
das literaturas secretas
Corro nas linhas dos livros
tropeçando
de avidez

Na cama quero as palavras
Enoveladas errantes
com elas sou viajante
No rumo da minha
vida
estão os livros e as estantes
Gosto de beber o cheiro
do interior da leitura
temperado com canela e as coisas obscuras
Deleito-me com a poesia
endoideço com o romance
esquivamento das mulheres
com a sua escrita de leite
de linho e alquimia
de aço rumorejante
Encontro a rima cismada
dobo a palavra a vapor
na teima de quem porfia
Vou em busca do fulgor
corro atrás da literatura
dos textos e da leitura
Sou dependente dos livros
sem eles posso morrer
perco-me de tão perdida se proibida de ler
Maria Teresa Horta, "Pessoa: Revista de Ideias", Nº 4 (Setembro de 2011)

sábado, novembro 17

Para o leitor, não tem outro


Assim começa o livro....

— Ora, ora! Lá vem de novo o capote velho!

Essa exclamação escapava de um escriturário do tipo daqueles que nos escritórios de advocacia chamam de pula‑brejo e que naquele momento mordia com apetite um pedaço de pão; separou um pouco de miolo para fazer uma bolinha que atirou zombeteiramente pela abertura de uma janela na qual estava encostado. Bem mirada, a bolinha ressaltou quase até a altura dos caixilhos, depois de ter acertado o chapéu de um desconhecido que atravessava o pátio interno de um edifício situado na rue Vivienne, onde residia o advogado Derville.

— O que é isso, Simonnin, não brinque com os outros, senão ponho você no olho da rua. Por mais pobre que seja, um cliente é sempre um homem, que diabo! — disse o escriturário principal, interrompendo a soma de uma nota de despesas.

Geralmente, um pula‑brejo é, como Simonnin, um garoto de treze a catorze anos, que em todos os escritórios de advocacia se encontra sob a dominação especial do escriturário principal, de cujos pequenos serviços e recados amorosos se encarrega quando vai levar os ofícios aos meirinhos e as petições ao Palácio de Justiça. Ele tem a ver com os meninos de rua parisienses por seus modos e com a chicana por seu destino. É um garoto quase sempre implacável, irrefreável, indisciplinável, fazedor de rimas indecentes, trocista, ávido e preguiçoso. Apesar disso, todos esses pequenos auxiliares têm uma mãe velha que mora num quinto andar, com a qual compartilham os trinta ou quarenta francos que recebem por mês.

— Se é um homem, por que então o senhor o chama de capote velho? — disse Simonnin, fazendo a cara do estudante que pega o professor em erro.

Voltou a comer o pão e o queijo encostando o ombro no montante da janela, pois ele descansava de pé, como os cavalos dos cabriolés, uma das pernas erguida e apoiada na outra pela ponta do sapato.

— Que peça poderíamos pregar nesse sujeito? — disse em voz baixa o terceiro escriturário, chamado Godeschal, parando no meio de um raciocínio que elaborava numa petição minutada pelo quarto escriturário e cujas cópias eram feitas por dois novatos vindos da província. Depois continuou seu improviso:

— … Mas, em sua nobre e benevolente sabedoria, Sua Majestade, Luís Dezoito (escreva por extenso, ouviu, ó sábio Desroches, pois que redige o original!), a alta missão a que é convocada pela Divina Providência!…… (ponto de exclamação e seis pontinhos: no Palácio são pios o bastante para perdoá‑los), e seu primeiro pensamento foi, como prova a data do decreto abaixo citado, reparar os infortúnios causados pelos terríveis e tristes desastres de nossos tempos revolucionários, restituindo a seus fiéis e numerosos servidores (numerosos é uma lisonja que deve agradar ao Palácio) todos os seus bens não vendidos, quer se encontrassem no domínio público, quer se encontrassem no domínio ordinário ou extraordinário da Coroa, quer enfim se encontrassem nas dotações de estabelecimentos públicos, porque somos e nos pretendemos capazes de sustentar que é esse o espírito e o sentido do célebre e tão leal decreto promulgado em…

— Esperem — disse Godeschal aos três escriturários. — Essa frase celerada encheu o fim da minha página. Bom — prosseguiu, molhando com a língua o verso do fólio a fim de poder virar a página espessa de seu papel timbrado —, se quiserem lhe pregar uma partida, digam que o senhor Derville só pode falar com seus clientes entre as duas e as três da manhã: veremos se esse velho malfeitor vai aparecer!

E Godeschal retomou a frase iniciada:

— … promulgado em… Estão prontos?

— Sim! — exclamaram os três copistas.

Tudo avançava ao mesmo tempo, a petição, a conversa e a conspiração.

sexta-feira, novembro 16

Pausa entre cabras


Na explosão das azaleias...

Agora chega setembro, numa explosão de azaleias, eu deixo minha biblioteca e vou lá fora sentir o cheiro fêmeo da terra, o mais sedutor dos livros
Mariana Ianelli

É um livro

A modernidade de Conrad Gresner há 500 anos

Neste ano se completam 500 anos de nascimento do médico e naturalista suíço Conrad Gesner (1516-1565), autor e organizador de cerca de 70 obras, entre as quais duas consideradas fundadoras do conhecimento moderno.

Historiae Animalium, publicada em quatro volumes e 4.500 páginas ilustradas a cores, entre 1551 e 1558, é considerada a primeira enciclopédia moderna de zoologia (um quinto volume póstumo foi publicado em 1587). Folheie aqui parte da obra na U.S. National Library of Medicine.

Gesner manteve o unicórnio
 e outras 11 criaturas lendárias, 
em seu 'Historiae animalium'
Konrad Gesner também é conhecido como o “pai da bibliografia” por sua Bibliotheca universalis, sive catalogus omnium scriptorum locupletissimus, in tribus linguis, Latin, Graeca, & Hebraica: extantium & non extantium veterum & recentiorum..., de 1545, um catálogo bibliográfico, em latim, grego e hebraico, com cerca de 1.800 autores, descritos e comentados. É considerada a primeira obra bibliográfica publicada após a invenção da imprensa. Com comentários sobre autores e livros, revela a (nova) concepção de organizar, selecionar e comentar o nascente universo dos livros impressos.

Além de participar do movimento de invenção das ideias modernas, com o Renascimento e a dessacralização do mundo, que passou a ser concebido e observado sem os filtros da religião, Gesner esteve também na linha de frente do ideário que passou a integrar em um mesmo sistema as novas ideias sobre conhecimento, a pesquisa sobre as formas de sua organização em livros, técnicas de ilustração atraentes e preocupação com o leitor e a circulação do livro.

Assim, pesquisa, redação, ilustração, edição, impressão, circulação, todas estas atividades do novo mundo do livro impresso recriaram a lógica do conhecimento em todas as suas esferas: produção, circulação e consumo.

A transmissão de conhecimentos através de ilustrações – e a nada óbvia ideia de que a ilustração informava – foi uma mudança significativa na lógica do conhecimento, que se beneficiou da cultura e das técnicas artísticas renascentistas. A ilustração impressa, super apurada no caso de Gesner, deu novo sentido à experiência da pesquisa e difusão da imagem. Isto ocorreu, não por acaso, no século dos “descobrimentos” e da colonização, as viagens e as expedições criando também – junto à dominação – o impulso para o conhecimento.

Historiae animalium, um livro de história natural, é uma classificação universal dos animais, cada um em uma página, com gravuras impressas feitas pelo autor e colaboradores e uma série de informações padronizadas sobre a vida dos animais, incluindo a origem do nome e provérbios sobre eles.

Mas como, no século 16, ter acesso a informações e à observação direta de animais em todo o mundo? Só esta pergunta já dá a dimensão do desafio de escrever e editar uma enciclopédia mesmo de uma área específica do conhecimento, a zoologia.

Além disso, ainda próximo ao imaginário medieval, para o qual criaturas lendárias e fantásticas habitavam o mundo do conhecimento, como distinguir o que era “ciência” do que era “lenda”, como monstros e sereias, que viviam numa vasta zona entre o conhecido e o desconhecido?

É também aqui que Gesner introduziu soluções modernas: ele escreve e desenha (com assistentes) a partir de sua própria observação e, quando isto não é possível, cotejando fontes impressas variadas (da Bíblia aos bestiários medievais, de manuscritos a mapas ilustrados) e às vezes mantendo, por exemplo, ilustrações anteriores mesmo sabendo que elas pouco correspondem à “realidade”. É assim que Gesner manteve 12 criaturas lendárias, entre elas o unicórnio.

Nascido em Zurique, Suíça, Gesner estudou nas universidades de Brouges, Estrasburgo, Paris e Basiléia, tornou-se médico e professor de grego em Lausanne e de física em Zurique, onde exerceu a medicina. No início da Era moderna, o ambiente do protestantismo local estimulava o desenvolvimento dos estudos das ciências e outras áreas.

Ele foi contemporâneo de Leonardo da Vinci e seus desenhos, do primeiro livro inteiramente ilustrado de Anatomia, Commentaria super anatomia Mundini, de 1522, de Jacopo Berengario da Carpi (1460-1530), e de Humani Corporis Fabrica, de Andreas Vesalius, de 1543, com ilustrações de Jan Stephen van Calcar.

Segundo um texto disponível no site da Universidade de Zurique, onde ele foi professor e que está realizando uma exposição, “Conrad Gesner era um polímata estimulando a transformação da Europa do tempo medieval para o moderno. Enquanto seus contemporâneos se restringiam a criticar os antigos, ele criou novos conhecimentos usando seus próprios métodos. (...) Muito antes de internet e da fotografia, Gesner criou uma enciclopédia ilustrada compreendendo mais de mil animais. Sua Historiae animalium logo foi amplamente lido devido à invenção de técnicas de impressão modernas. Por gerações, o livro foi a base da ciência animal no longo caminho à moderna zoologia”.

Gesner publicou também, como projeto de uma enciclopédia de Botânica, Enchiridion historiae plantarum e Catalogus plantarum em quatro idiomas e, entre muitos outros, Mithridates de differentis linguis, uma compilação de informação sobre 130 línguas conhecidas.

Tudo isto no século 16.
Roney Cytrynowicz

quinta-feira, novembro 15

É feriado, gente!


687ª noite

Como eu já disse, morreram vinte e dois prisioneiros de guerra americanos em Hiroshima. O vigésimo terceiro, que sobreviveu, foi linchado pela multidão enfurecida. Os japoneses caminhavam como zumbis procurando seus entes queridos entre as ruínas e nuvens de fumaça cancerígena. Surpreendentemente, os sobreviventes sentiram pouca dor. Um escritor disse que foi como se o grande terror do desconhecido houvesse cancelado o terror do sofrimento. Nus ou com roupas em frangalhos, não sabiam para onde se dirigir, pois todas as placas haviam desaparecido. Era impossível dizer quem era homem e quem era mulher. Os que saíram de casa vestindo roupas brancas apresentavam menos ferimentos do que os demais, uma vez que as cores escuras tendem a absorver a luz termonuclear. Amigos não se reconheciam, pois muitos haviam perdido seus rostos. Outros tinham gravada nas faces as impressões de suas mãos ou de seus narizes. Algumas pessoas perdiam as mãos ao acenarem pedindo ajuda. Saía fumaça dos ferimentos quando imersos em água. Outros cem mil japoneses morreriam graças aos ferimentos e à radiação. Até hoje crianças nascem cancerosas em Hiroshima e Nagazaki. Os filhos das mulheres grávidas durante o ataque nasceram deformados.
Fausto Wolff, "A milésima segunda noite"

'Bibliocoração'

Georgiana Chitac

O que diz o vento

Para o Brasil chegar afinal ao Primeiro Mundo só falta vulcão. Uns abalozinhos já têm havido por aí, e cada vez mais frequentes. Agora passa por Itu esse vendaval, com tantas vítimas e tantos prejuízos a lastimar. Alguns jornais não tiveram dúvida: ciclone. Ou tornado, quem sabe. Deve ser coisa do el niño, um fenômeno que vem pelo mar lá do Pacífico, bate nos Andes, provoca o degelo e uma sequela de cataclismos que passam pelo Brasil.

Não sei o que é pior, se furacão ou vulcão. Pior mesmo, porque conheço, é tremor de terra. Estava em Lisboa com o Vinicius de Moraes quando aconteceu o terremoto de 1968. Palavra que achei que era contra mim pessoalmente. Veio até com dois tt. Assim: terremOtto. Quando estive no Japão com o Cláudio Mello e Souza fomos perseguidos por um tufão. Mas japonês dá jeito em tudo. O voo atrasou e voltamos a Tóquio numa boa.

Jens Rassmus
Shelley que me desculpe, mas vento me dá nos nervos. Desarruma a gente por dentro. Mas, em matéria de vento, poeta tem imunidades. Manuel Bandeira associou à canção do vento a canção da sua vida. O vento varria as luzes, as músicas, os aromas. E a sua vida ficava cada vez mais cheia de aromas, de estrelas, de cânticos. O contrário do ventinho ladrão. Sabe como é que se chama vento? Com três assobios. Ou soprando num búzio. Também funciona se você invocar são Lourenço, que é o dono do vento.

Fúria dos elementos, símbolo da instabilidade, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida. Uma aragem acompanha sempre os anjos. E foi o vento que fez descer sobre os apóstolos as línguas de fogo do Espírito Santo. Destruidor e salvador, com o vento renasce a vida, diz a “Ode to the West Wind”, de Shelley. No inverno só um poeta romântico entrevê o início da primavera. Divindade para os gregos, o vento inquieta porque sacode a apatia e a estagnação.

Com esse poder de levar embora, suponhamos que uma lufada varresse o Brasil, como na canção do Manuel Bandeira. Que é que esse vento benfazejo devia levar embora? Todo mundo sabe o mundo de males que nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos para sempre. Se vento leva e traz, se vento é mudança, não custa acreditar que, passada a tempestade, vem a bonança. E com ela, o sopro renovador — garante o poeta. A casa destelhada, a destruição já começou. Vem aí a reconstrução.
Otto Lara Resende

quarta-feira, novembro 14

Leitor noturno


Eu sou uma parte daquilo que li

Os livros – a escrita – não existiram sempre. Só há vinte mil anos é que o homem traçou, na rocha , os seus primeiros desenhos. E só três mil anos depois ensaiou os primeiros sinais que estariam na origem do que hoje chamamos escrita. O livro tal como hoje o concebemos, nasce já só no século XV (1450), com a famosa Bíblia Latina, impressa por Gutenberg. De aí em diante, a produção de livros não cessou de crescer, proporcionando aos humanos a fruição fácil desse vício impune: a leitura.

Descoberto o prazer ( e a utilidade) do livro, o homem não tem cessado de lhe cantar as virtudes. O célebre jornalista e melómano inglês Bernard Levin, leitor omnívoro e comentador encantado de livros de todas as espécies e formatos, exclamou um dia: « Livro – o som mais nobre que o homem jamais emitiu.» E o não menos célebre Logan Pearsall Smith propunha, no modo desbocado que lhe era peculiar: « Dêem-me um livro e uma cama e fico perfeitamente feliz.»

Todos nós, em maior ou menor medida, temos memória , ao longo da nossa vida, de momentos inesquecíveis de encontro com um livro determinado: momentos em que nos parece que a nossa vida, de algum modo, mudou. Nós não somos, depois dessa leitura, os mesmos que éramos antes. Ou , por outras palavras : ao lermos o livro, descobrimos que nos estamos a ler a nós próprios: estamos perante uma descobertaque é também uma transformação. E o mais interessante é que isto não tem necessariamente de acontecer com um «grande livro» . Quando ainda muito novo, li a Família sem Nome, de Júlio Verne, não senti uma emoção menor do que aquela que me apanhou quando, um pouco mais tarde, li Humilhados e Ofendidos ou Está Morta!, de Dostoiewsky, ou, também ainda adolescente, fui submetido à magia cintilante do teatro de Oscar Wilde. Em qualquer destes momentos, senti, com grande intensidade e fulgor, que nada ficava na mesma. Podia citar outros livros que nesses anos de formação deslumbrada, igualmente me atingiram: Le Rouge et le Noir , de Stendhal ( apaixonei-me perdidamente pela Senhora de Rênal) , Codine de Panait Istrati, Assia, de Ivan Turguenev, Quo Vadis?, de Henry Sienkiewicz, Tonio Kroger , de Thomas Mann, Les Thibault, de Roger Marin du Gard, A Velha Casa , de José Régio, Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, Candide, de Voltaire, A Vida Inteira, de Sally Salminenn, A Aventura em Budapeste, de Ferenc Kormendi, sem falar nas Vidas Paralelas, de Plutarco, no teatro de Eugene O’Neill, ou nos romances de Charlotte Bronte …

De todos estes livros (e de outros que vieram depois) fiquei eterno devedor e eterno amigo. Dizia um escritor americano de romances policiais que são também ( e mais simplesmente) grandes romances de sondagem da sociedade americana, que «um bom livro na prateleira da nossa estante é um amigo que nos volta as costas e continua a ser nosso amigo». Todos estes livros que lemos e nos quais nos lemos ficaram a ser uma parte de nós e do nosso despertar. Por isso dizia John Kieran : « Eu sou uma parte de tudo o que li ». André Gide confessava a dívida profunda que na sua formação e no seu autoconhecimento, ficaria a ter para com livros tão diferentes como a Bíblia e As Mil e uma Noites: com livros tão contraditórios um do outro e que tão bem exprimem as profundas contradições que estiveram na origem da obra tão sedutoramente diversa e de pulsões tão divergentes como é a do autor de Les Faux Monnayeurs. E também Henry de Montherlant nunca escondeu o fascínio que sobre si teve o mundo romano tal como o conheceu, pela primeira vez, no romance Quo Vadis?E nos textos de Tito Lívio, de Suetónio, de Tácito e de Plutarco.

O grande leitor torna-se quase sempre um leitor compulsivo: Somerset Maugham, o grande contista inglês que veio na esteira de Maupassant, confessava: “ Prefiro ler um horário ou um catálogo a ficar sem ler”. Mas esta leitura compulsiva e imparável pode também ser um sinal negativo. Ler de mais é tão mau ou pior do que não ler: dizia Oscar Wilde que “ vivemos numa época em que se lê de mais para se poder ser sábio”. Porque, não tenhamos dúvidas, o ler demasiado é quase sempre um sintoma de preguiça mental. “ Quem sabe”, perguntava com malícia, Edward Young, “ se Shakespeare não teria pensado menos, se tivesse lido mais?”. O nosso ensaísta António Sérgio chamou, com grande ênfase, a atenção para o facto de que o homem culto não é aquele que leu muito, mas sim aquele que leu o que leu ( que até pode não ser demasiado) com uma intensa atenção crítica. “ Ler sem reflectir é como comer sem digerir “, observava Edmund Burke. Só a leitura crítica nos pode realmente transformar, isto é, só uma colaboração animada entre o leitor e o livro pode levar àquilo que constitui a verdadeira cultura. “ Quando lemos um clássico não vemos mais em nós do que víramos antes”, dizia Clifton Fadiman. É verdade mas, para que isso aconteça, é necessário que a leitura se faça com investimento crítico intenso.

Ler criticamente bons livros é sempre um percurso de descoberta, mas a leitura torna-se mais interessante se for partilhada. Era isso mesmo que dizia essa grande contista neozelandeza, Katherine Mansfield, a autora do célebre The Garden Party :“ O prazer de qualquer leitura é redobrado quando se vive com outra pessoa que partilha os mesmos livros.”

A leitura deve ser inteligente e crítica, não tem de ser voraz, mas também não precisa de ser fanaticamente organizada. Todos os grandes leitores são um pouco erráticos, saltando, com prazer e proveito, de um romance de Stendhal para um ensaio de Montaigne e, deste, para um poema de Keats ou uma peça de teatro de Garrett. Por isso, o poeta galês Dylan Thomas não tinha pejo de declarar: " A minha educação foi a liberdade que tive de ler indiscriminadamente e constantemente, com os olhos a saltarem-me das órbitras. “

Só uma leitura assim – apaixonada, intensa, inteligentemente crítica – poderá conduzir a que vivamos mais vidas e descubramos mais mundos – lá fora e dentro de nós – do que as pessoas que não leiam deste modo. O professor universitário canadiano Samuel Hayakawa, homem de convicções e de acção forte e decidida, disse isto com que termino este modesto convite à descoberta e à metamorfose através da leitura : “ Em sentido muito real, as pessoas que leram boa literatura viveram mais do que as pessoas que não sabem ler ou não se querem dar ao trabalho de ler…Não é verdade que tenhamos uma só vida para vivermos; se soubermos ler, poderemos viver tantas vidas e tantas variedades de vida quantas desejarmos. “ Ler é transformarmo-nos de um em muitos – de singular em plural.”

Eugénio Lisboa,  ”Miscelânea – Indícios de oiro II"

Quarto de aventuras


Assim começa o livro...

Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote dali.

Ao chegar ao último degrau, detém-se diante do largo corredor que se alonga sem surpresas ante seu olhar: à direita os quartos fechados dos Senhores, cinco; à esquerda sete janelas, escurecidas por folhas cegas de madeira laqueada.

Está quase amanhecendo.

Detém-se, o velho, porque precisa atualizar a contagem. Registra as manhãs que anunciou naquela casa, sempre do mesmo modo. Então acrescenta uma unidade que se perde para além dos milhares. A conta é vertiginosa, mas isso não o perturba: o fato de celebrar desde sempre o mesmo rito matutino lhe parece coerente com seu ofício, respeitoso às suas inclinações e típico do seu destino.

Depois de passar a palma das mãos no tecido engomado da calça — nos flancos, à altura das coxas —, avança a cabeça um pouquinho e recomeça a caminhar. Ignora as portas dos Senhores, mas, diante da primeira janela, à esquerda, detém-se para abrir as folhas cegas. Faz isso com gestos suaves e calculados. Repete os movimentos em cada janela, sete vezes. Só então se volta, para contemplar a luz da alvorada que entra em feixes, pelas vidraças: conhece todas as possíveis nuances e, pelo aspecto, sabe como será o dia: pode deduzir daí, às vezes, esbatidas promessas. Já que confiarão nele — todos —, é
importante a opinião que vai formular.

Sol encoberto, brisa leve, decide. Assim será.

Então percorre de volta o corredor, dessa vez dedicando-se à parede ignorada antes. Abre as portas dos Senhores, uma a uma, e anuncia em voz alta que já é dia, com uma frase que repete cinco vezes, sem modificar nem o timbre nem a inflexão.

Bom dia. Sol encoberto, brisa leve.

Depois desaparece.

Deixa de existir até reaparecer, inalterado, na sala dos desjejuns.

terça-feira, novembro 13

Lição de casa


Amigos generosos

George Hartley
É que seu gênio retraído e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos – os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper à vontade e com os quais nos é permitido conversar dias inteiros, sem termos aliás obrigação de dar uma palavra
Aluísio de Azevedo