terça-feira, outubro 23

Paraíso iluminado


Bonito é o mundo

Malene Laugesen
Chove depois de quatro meses sem cair uma gota. O vento tinha começado a rodar para noroeste ontem ao princípio da noite. Esta manhã, nuvens baixas, cinzentas, avançavam das bandas de Femés. Para leste, o céu ainda estava meio descoberto, mas o azul já tinha um tom aguado, sinal de chuva para breve. A meio do dia o vento cresceu, as nuvens desceram mais, começaram a descair pelas encostas dos montes, quase roçando o chão, e em pouco tempo taparam todo o horizonte daquele lado. Fuerteventura sumiu-se no mar. A primeira chuva limitou-se a umas esparsas e finas gotas, menos do que um chuvisco, uma poeira de água, mas quinze minutos depois já caía em fios contínuos, depois em cordas grossas que o vento vinha empurrando na nossa direção. Víamos avançar a chuva em cortinas sucessivas, passava diante de nós como se não tivesse intenção de deter-se, mas o chão ressequido respirava sofregamente a água. O mais puro de todos os odores, o da terra molhada, embriagou-nos durante um instante. "Que bonito é o mundo", disse eu. Pilar, em silêncio, apoiou a cabeça no meu ombro. Agora são oito horas da noite, continua a chover. A água já deve ter chegado às raízes mais fundas.
José Saramago, "Cadernos de Lanzarote III"

Navegar é preciso

Angel Boligan

Não é país leitor

O Brasil não é um país leitor, que incentiva a prática da leitura de forma constante e prazerosa. Infelizmente em algumas escolas, a leitura é vista com algo direcionado a execução de tarefas – "leia para responder às perguntas", "leia para fazer resumo". Assim, constrói-se uma cultura de leitura obrigatória, maçante e não prazerosa
Rodrigo França

Hora de ninar

Anna Matveeva

Adolescente deve ter em casa ao menos 80 livros

 Rubin Alan
Estudo da Universidade Nacional da Austrália afirma que crescer em um lar que tenha pelo menos 80 livros aumenta a chance de ser bem sucedido. Para chegar a essa conclusão, o estudo analisou homens e mulheres de 25 a 65 anos. A pesquisa pediu às pessoas que tentassem se lembrar de quantos livros tinham em casa durante a adolescência. Em seguida, os cientistas analisaram as habilidades dessas mesmas pessoas em três categorias: interpretação de texto, matemática básica e capacidade de utilizar dispositivos eletrônicos. 

Depois de cruzar todos os dados, os pesquisadores chegaram a um número: 80. Essa é a quantidade mínima de livros que você deve ter em casa, durante a adolescência, para que as suas habilidadesO interessante é que esse número, 80, era constante. Se a pessoa tivesse essa quantidade de livros em casa, suas habilidades cognitivas sempre melhoravam, independentemente do grau de educação que ela havia recebido. “Crescer em casas com bibliotecas aumenta as habilidades dos adultos nas áreas estudadas, indo além dos benefícios atrelados à educação parental, escolar e ocupações posteriores”, diz o estudo.

Outro ponto curioso é que, conforme a quantidade de livros aumentava, o desempenho dos voluntários também – mas existe um teto, que é 350 livros (mais do que isso não melhorou a habilidade cognitiva).

segunda-feira, outubro 22

Visão do paraíso


Vivendo da literatura

Desempregado, indisposto com meu pai, sem poder, portanto, recorrer a ele, eu cortei um duro, nesse período. Possuía, já, uma pequena biblioteca, adquirida no tempo em que tinha dinheiro; passei a vendê-la, aos poucos, nos sebos. Lembro-me de ter dito uma tarde, de brincadeira, a Paschoal Carlos Magno:

- Acho que sou o único escritor, no Brasil, que vive da literatura...

Luís Martins, "Noturno da Lapa"

Bolso utilitário


Da biblioteca pessoal de Borges

 Néstor Sarmiento
Nos finais do século XIX, Groussac pode escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845 -1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos prosadores e romancistas da sua época.

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre . Em 1869, acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Emile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras : " Fala-lhes um discípulo de Flaubert."

Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista , mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardônico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim ( 1880) é fantástica. Uma das personagens é um demônio; a outra , a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de gênio, Eça de Queirós e Oscar Wilde . Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."
Jorge Luis Borges, "Biblioteca Pessoal"

*Quando morreu , Jorge Luis Borges já tinha escrito os prólogos dos primeiros 64 títulos de uma série de cem que haveria de constituir uma coleção, a súmula das suas preferências literárias - a sua biblioteca pessoal. "Desejo que esta biblioteca seja tão variada quanto a curiosidade que a mesma induziu em mim"

domingo, outubro 21

Lugar favorito


Curta história

A leitora ainda há de lembrar-se do Rossi, o ator Rossi, que aqui nos deu tantas obras-primas do teatro inglês, francês e italiano. Era um homenzarrão, que uma noite era terrível como Otelo, outra noite meigo como Romeu. Não havia duas opiniões, quaisquer que fossem as restrições, assim pensava a leitora, assim pensava uma D. Cecília, que está hoje casada e com filhos.

Naquele tempo esta Cecília tinha dezoito anos e um namorado. A desproporção era grande; mas explica-se pelo ardor com que ela amava aquele único namorado, Juvêncio de Tal. Note-se que ele não era bonito, nem afável, era seco, andava com as pernas muito juntas, e com a cara no chão, procurando alguma cousa. A linguagem dele era tal qual a pessoa, também seca, e também andando com os olhos no chão, uma linguagem que, para ser de cozinheiro, só lhe faltava sal. Não tinha idéias, não apanhava mesmo as dos outros; abria a boca, dizia isto ou aquilo, tornava a fechá-la, para abrir e repetir a operação.

Muitas amigas de Cecília admiravam-se da paixão que este Juvêncio lhe inspirava; todas contavam que era um passatempo, e que o arcanjo que devia vir buscá-la para levá-la ao paraíso, estava ainda pregando as asas; acabando de as pregar, descia, tomava-a nos braços e sumia-se pelo céu acima.

Darren Thompson
Apareceu Rossi, revolucionou toda a cidade. O pai de Cecília prometeu à família que a levaria a ver o grande trágico. Cecília lia sempre os anúncios; e o resumo das peças que alguns jornais davam. Julieta e Romeu encantou-a, já pela notícia vaga que tinha da peça, já pelo resumo que leu em uma folha, e que a deixou curiosa e ansiosa. Pediu ao pai que comprasse bilhete, ele comprou-o e foram.

Juvêncio, que já tinha ido a uma representação, e que a achou insuportável (era Hamlet) iria a esta outra por causa de estar ao pé de Cecília, a quem ele amava deveras; mas por desgraça apanhou uma constipação, e ficou em casa para tomar um suadouro, disse ele. E aqui se vê a singeleza deste homem, que podia dizer enfaticamente — um sudorífico; — mas disse como a mãe lhe ensinou, como ele ouvia à gente de casa. Não sendo cousa de cuidado, não entristeceu muito a moça; mas sempre lhe ficou algum pesar de o não ver ao pé de si. Era melhor ouvir Romeu e olhar para ele…

Cecília era romanesca, e consolou-se depressa. Olhava para o pano, ansiosa de o ver erguer-se. Uma prima, que ia com ela, chamava-lhe a atenção para as toilettes elegantes, ou para as pessoas que iam entrando; mas Cecília dava a tudo isso um olhar distraído. Toda ela estava impaciente de ver subir o pano.

— Quando sobe o pano? perguntava ela ao pai.

— Descansa, que não tarda.

Subiu afinal o pano, e começou a peça. Cecília não sabia inglês nem italiano. Lera uma tradução da peça cinco vezes, e, apesar disso, levou-a para o teatro. Assistiu às primeiras cenas ansiosa. Entrou Romeu, elegante e belo, e toda ela comoveu-se; viu depois entrar a divina Julieta, mas as cenas eram diferentes, os dous não se falavam logo; ouviu-os, porém, falar no baile de máscaras, adivinhou o que sabia, bebeu de longe as palavras eternamente belas, que iam cair dos lábios de ambos.

Foi o segundo ato que as trouxe; foi aquela cena imortal da janela que comoveu até às entranhas a pessoa de Cecília. Ela ouvia as de Julieta, como se ela própria as dissesse; ouvia as de Romeu, como se Romeu falasse a ela própria. Era Romeu que a amava. Ela era Cecília ou Julieta, ou qualquer outro nome, que aqui importava menos que na peça. “Que importa um nome?” perguntava Julieta no drama; e Cecília com os olhos em Romeu parecia perguntar-lhe a mesma cousa. “Que importa que eu não seja a tua Julieta? Sou a tua Cecília; seria a tua Amélia, a tua Mariana; tu é que serias sempre e serás o meu Romeu.” A comoção foi grande. No fim do ato, a mãe notou-lhe que ela estivera muito agitada durante algumas cenas.

— Mas os artistas são bons! explicava ela.

— Isso é verdade, acudiu o pai, são bons a valer. Eu, que não entendo nada, parece que estou entendendo tudo…

Toda a peça foi para Cecília um sonho. Ela viveu, amou, morreu com os namorados de Verona. E a figura de Romeu vinha com ela, viva e suspirando as mesmas palavras deliciosas. A prima, à saída, cuidava só da saída. Olhava para os moços. Cecília não olhava para ninguém, deixara os olhos no teatro, os olhos e o coração…

No carro, em casa, ao despir-se para dormir, era Romeu que estava com ela; era Romeu que deixou a eternidade para vir encher-lhe os sonhos.

Com efeito, ela sonhou as mais lindas cenas do mundo, uma paisagem, uma baía, uma missa, um pedaço daqui, outro dali, tudo com Romeu, nenhuma vez com Juvêncio.

Nenhuma vez pobre Juvêncio! Nenhuma vez. A manhã veio com as suas cores vivas; o prestígio da noite passara um pouco, mas a comoção ficara ainda, a comoção da palavra divina. Nem se lembrou de mandar saber de Juvêncio; a mãe é que mandou lá, como boa mãe, porque este Juvêncio tinha certo número de apólices, que… Mandou saber; o rapaz estava bom; lá iria logo.

E veio, veio à tarde, sem as palavras de Romeu, sem as idéias, ao menos de toda a gente, vulgar, casmurro, quase sem maneiras; veio, e Cecília, que almoçara e jantara com Romeu, lera a peça ainda uma vez durante o dia, para saborear a música da véspera. Cecília apertou/lhe a mão comovida, tão-somente porque o amava. Isto quer dizer que todo amado vale um Romeu. Casaram-se meses depois; têm agora dous filhos, parece que muito bonitos e inteligentes. Saem a ela.
Machado de Assis

Família em férias

 Kestutis Kasparavicius

Na biblioteca

Eu andava pela biblioteca procurando por livros. Tirava eles das estantes, um por um. Mas eles eram todos uma fraude. Eram muito maçantes. Páginas e páginas de palavras que não diziam nada. Ou, se diziam alguma coisa, levavam muito tempo para isso e, quando diziam, você já estava muito cansado para dar alguma importância. Eu tentei livro após livro. Naturalmente, em meio a tantos livros, deveria haver um.

Todo dia eu caminhava até a biblioteca pela Adams e pela La Brea e lá estava a minha bibliotecária, austera e infalível e silenciosa. Eu continuava a tirar os livros das prateleiras. O primeiro livro de verdade que eu achei era de um companheiro chamado Upton Sinclair. Suas frases eram simples e ele falava com raiva. Escrevia com raiva. Ele escreveu sobre os chiqueiros de Chicago. Vinha e dizia as coisas claramente. Então encontrei outro autor. Seu nome era Sinclair Lewis. E o livro se chamava Rua Principal. Ele descascava a camada de hipocrisia que costuma cobrir as pessoas. Só que carecia de paixão.

Charles Bukowski, "Misto-quente"

sábado, outubro 20

Tá na mesa


Biblioteca

 Alexandre Honore
Na estante, os imortais da literatura acotovelam-se, lutando por espaço, enquanto as traças cumprem infatigavelmente as ordens do tempo
Raul Drewnick

Exploração espacial


Fábrica de pensamentos

Recorremos aos nossos pensamentos no ato de escrever. Gosto de pensar na ideia de que é preciso ter uma fábrica de pensamentos funcionando bem, a todo vapor, para escrever qualquer texto, a qualquer hora, com rapidez, sem nenhuma dificuldade. Fazer um estoque com ideias bem formadas, estrutura de linguagem diversificada para buscar a matéria prima, a palavra, que será usada na fabricação do produto, que é o texto, acontece gradativamente. Aliado a tudo isso aprimora-se o talento da escrita com diversas técnicas, mas isso é assunto para outro texto.

Daniela Zekina
O clichê da leitura sempre estará presente. Sim, é o começo de tudo e não canso de repetir que é o alicerce da fábrica, sem leitura você não escreve bem e não terá aptidão de interpretação de texto. Você começa a entender o funcionamento da engrenagem da tua fábrica, os processos, assume o controle de verbos e substantivos, desenrosca adjetivos, adentra o armário de pontos e vírgulas, arquiva reticências, martela palavras e depois de tudo conhece as frases que tem de ser desmontadas para funcionar bem. É a estética da escrita sendo descoberta e sua fábrica de pensamentos sendo erguida diante de um complexo quadro mental. Um quebra cabeça branco assumindo cores.

Na prática: durante a leitura anote as palavras novas e procure memorizar e compreender seu significado. Forme frases avulsas sobre determinados temas, escreva várias, muitas frases, sem se preocupar em formar um texto. Deixe-as descansando por alguns dias. Depois leia as mesmas frases novamente e escolha as melhores, as que ficaram bem escritas. Desmonte as frases que não gostou e reescreva-as. Seja crítico com o que você escreve.
Elyandria Silva