sexta-feira, outubro 20

Perfeito para começar o dia

No se puede pedir más: un baño caliente, un café, buena compañía y lectura. Plan perfecto (ilustración de Evdokia Gasumyan)
 Evdokia Gasumyan

Como criar o hábito de ler livros nas crianças

O interesse pela leitura pode ser sugerido à criança de uma forma simples, espontânea e duradoura. Todos sabemos que é extremamente importante que as crianças adquiram o hábito da leitura, mas a grande dificuldade reside na falta de conhecimento de muitos pais em como inserir seu filho neste caminho.

O ato de ler ou simplesmente de folhear um livro tornará crianças mais inteligentes, imaginativas e criativas. E se isso é o que você quer para o seu filho, não perca mais tempo. Comece hoje mesmo a construir esse hábito diário tão enriquecedor para ele e para todos. Comece já a fazer de sua casa uma grande biblioteca.

Me aislo del mundo con la lectura para conectar con otros mundos (ilustración de Maria Espluga Solé)
Maria Espluga Solé

1 – Para começar, é necessário que seu filho te veja, sempre que possível, com um livro na mão. As crianças sentirão mais interesse por ler um livro se vêem que este hábito está presente a sua volta. Lembre-se que as crianças gostam de copiar. Que é sua forma de aprender. Se eles notam que você gosta de ler e que tratam os livros com cuidado e respeito, elas provavelmente, farão o mesmo.

2 – É necessário estar convencido de que a leitura deve ser empregada como uma forma mais de diversão e não como uma obrigação. Os livros não devem introduzidos no cotidiano da criança só quando ela está aprendendo a ler ou somente quando entre na escola. O contato com os livros deve começar bem antes. Eu diria que antes mesmo de começar a gatinhar.

3 – Quanto o bebê consegue se sentar firme no chão ou no berço, ofereça-lhe livros para que os maneje. Existem no mercado, pequenos e curiosos livros feitos com pano e inclusive com material plástico indicados para brincarem durante o banho. Existem também pequenos dicionários para que seu bebê se vá familiarizando com as palavras, as letras, relacionando-as pouco a pouco com a imagem. O segredo nesta idade, é fazer com que o bebê veja o livro como mais um brinquedo, com o qual poderá aprender, crescer, descobrir, criar fantasias, e ouvir muitas histórias interessantes e encantadoras. No princípio, trate de dar preferência aos livros ilustrados, com poucas palavras, e faça com que seu filho o toque, o acaricie, cheire, e tenha todo tipo de contato com ele. Existem livros que contem sons incluídos e também pedaços de lã, e de outros materiais para que os bebês desfrutem também com o tato. Existem livros com cheiros também!

4 – Quando ficam um pouquinho maiores, o ideal é ler em voz alta, seguindo sempre as estórias do livro. Dê importância especial ao tempo que dedica para tomar seus filhos nos braços e compartilhar com eles o prazer de ler um conto, longe das distrações da televisão. Comece com os contos tradicionais, clássicos, mas fundamentalmente escolha livros que agradem a todo mundo. Se um livro é cansativo, esqueça-o e busque outro que seja interessante.

5 – Quando seu filho já está numa idade em que consiga estar mais quieto nos lugares fechados, leve-o para visitar uma biblioteca. A criança, quando se familiariza com os livros, aprende a manuseá-los, está construindo uma amizade, um laço com a leitura. Se sentirá mais próxima ao lugar e desejará voltar muitas vezes para escolher o livro que quiser.

6 – Outra forma de estimular o interesse da criança pelos livros, é converter um livro em um prêmio. Cada vez que tiver que premiar seu filho por algo importante, presenteie um livro sobre o seu assunto favorito.

7 – Quando seu filho já está desfrutando dos livros, participe da leitura. Quando terminar de ler o conto, peça-lhe que lhe conte algo que aconteceu com algum personagem, ou inclusive faça com que seu filho adivinhe o que passará no final. Aproveite para fazer comentários sobre as situações boas e más, e fazer comparações de um pedaço da estória com suas experiências, como “o que você faria no lugar dele?” “Será que isso vai acontecer com a gente algum dia?”.

8 – Assim que sentir que seu filho já se interessa pelas estórias, que se envolve com a trama, e se identifica com os personagens, comece a participar e a imaginar finais diferentes, e a viver várias sensações rindo, emocionando-se, e não deixe de surpreendê-los com novos contos. Dê continuidade a esse costume abastecendo sempre sua casa com livros e revistas.
(Fonte:Guia Infantil)

Onde está aquela frase?

Das aventuras e fascinações

Uma das fascinações que herdei como leitor é daquelas que somente um livro de aventuras poderia trazer. Lembro com clareza dos primeiros contatos com Os meninos da Ilha Perdida, da Coleção Vagalume, lá nos idos de 1980, e alguns anos depois com O Príncipe Invencível, de Virgínia Lefèbvre, o qual não me recordo da editora mas não consigo esquecer da impressionante capa com Alexandre, o Grande sobre um cavalo lutando com um soldado árabe montado num elefante – a ilustração que tomava conta da capa dura era um indisfarçável convite à aventura do texto.

Stop al aburrimiento! Se os ocurre mejor lema para este cartel lector? (ilustración de Jacques Goldstyn)
Jacques Goldstyn
Acreditava, com os anos, que esse gosto se esgotaria com a vida adulta, afinal de aventura bastaria o nosso dia a dia com filhos e compromissos financeiros, ou seja, a cada mês comemorávamos uma vitória na selva do sistema e isso seria mais do que o suficiente. Porém estava absolutamente errado. O gosto por livros de aventura nunca se esgotou, e agora não mais na mente de um menino, mas na de um homem que precisava da criatividade para sobreviver e fazer melhor para sua vida e a da família.

Tenho amigos que dizem que a literatura de ficção não tem função alguma, e isso tem lá sua verdade, mas, a mim, e acredito que para muitos que como eu leram a Coleção Vagalume nos seus tempos de guri, aquela ficção produziu e ainda produz seus bons resultados.

E assim vi que eu poderia ir além, e das páginas de ficção migrei para as de não ficção, que depois aprendi serem fontes de inspiração para muitas outras ficções. Nessa nova rodada de leituras surgiu Joshua Slocum, Ernest Shackleton, John Krakauer, Airton Ortiz, Amyr Klink, Família Schurmann e por aí vai. E, neles, na Família Schurmann, por exemplo, é que aprendi que o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, veio de Alexander Selkirk, que ficou por quatro anos solitário numa ilha chilena em pleno Pacífico, e que depois veio a receber justamente o nome de Ilha Robinson Crusoé. Não poderia ser mais maravilhosa a descoberta, a ficção e a não ficção se encostando e se confundindo, assim, tão pertinhas.

Sim, o leitor infantojuvenil se transformou no leitor adulto e nele se recriou o desejo de aventuras sem sair das páginas. Ah, claro, fiz das minhas na juventude, e muitas vezes inspirado pelas confusões dos livros.

O que mais motiva, no entanto, é saber que as leituras de aventura também motivaram outros leitores para outros mundos, como o de literatura fantástica e o de ficção científica. Também os quadrinhos dos super-heróis formaram, além de novos e bons leitores adultos, profissionais de criação gráfica e roteiristas de grande qualidade.

E aqui puxo o fecho do valor dessas nossas fascinações, dessas nossas paixões que nos arrebatam ainda na idade tenra, e de como isso é delicado, incrivelmente delicado. Não restrinjamos, gente, em nenhuma hipótese os sonhos das crianças. Se ela sonha em ser astronauta, deixemos com que vá à lua quantas vezes quiser, se ela quer ser médica, deixamos com que faça quantas cirurgias e exames achar necessário, e se ela insiste em ser escritora ou ilustradora de livros, ora, apesar de tudo, ainda há muito para ser feito e todo novo escritor e bom ilustrador será sempre bem-vindo.

quinta-feira, outubro 19

Amanhecer com livro

Coffee Art Coffee Cards and Art for by RoseHillDesignStudio

Dois velhinhos

Ekwall, Knut (1843-1912) Story time
Knut Ekwall,(1843-1912)
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
 Dalton Trevisan

quarta-feira, outubro 18

Primeiros passos

Steve McCurry
Steve McCurry

Uma voz e um canal

@gizemkazancigil| Be Inspirational ❥|Mz. Manerz: Being well dressed is a beautiful form of confidence, happiness & politeness
Editores podem voltar a ser importantes e reassumir seu mais-que-nunca-nunca necessário papel curatorial (o de pinçar e aprimorar, na barafunda catártica da web, o que tiver potencial) quando conseguirmos compor o aparentemente inconciliável e soubermos publicar, com a virulência dos escândalos, o que tiver de fato informação e reflexão originais; quando superarmos fake news com new takes: novas formas de engajar e agarrar os leitores; quando dermos ao público, de forma fácil e inteligente, o que eles conseguem de forma fácil e burra na internet: uma voz e um canal
Julio Silveira, Da utopia caímos na distopia

Começou o dia!

Reading

Edição global

Imagem relacionadaQuando o mundo se tornou uma aldeia global, a edição não teve outro remédio senão globalizar-se também. Para o bem e para o mal. Para o bem porque, como leitores, em lugar de esperarmos anos pela tradução portuguesa de determinado livro (o que acontecia frequentemente quando eu era jovem), hoje o texto chega ao editor português num PDF ou num ficheiro Word pouco depois de terminado pelo autor e pode começar a ser imediatamente traduzido, fazendo com que a edição portuguesa saia praticamente ao mesmo tempo da original. Para o mal porque, em determinados projectos mais escaldantes ou mediáticos (lembro-me, por exemplo, das biografias de Bill Clinton ou de Nelson Mandela que publiquei há uns anos ou da série Millenium, para citar uma obra mais recente), todas as edições têm de sair obrigatoriamente no mesmo dia e é preciso um tour de force diabólico para cumprir os prazos; além disso, toda a correspondência é absolutamente confidencial e há multas sérias para fugas de informação... E, apesar dos cuidados, por vezes há «distracções». E o que aconteceu agora na Holanda é exemplo disso: a tradução neerlandesa de um livro do escritor britânico Philip Pullman que era muito aguardado (pois dava continuidade a uma trilogia que tinha vendido 17,5 milhões de exemplares e fora adaptada ao cinema e à televisão), saiu antes da edição inglesa... O editor foi repreendido e retirou imediatamente os livros do mercado, mas já houve uns quantos sortudos que se chegaram à frente e têm o livro. Antes mesmo do próprio autor. Custos e vantagens da globalização.

segunda-feira, outubro 16

Conectado

Me aislo del mundo con la lectura para conectar con otros mundos (ilustración de Maria Espluga Solé)
Maria Espluga Solé

Um terror de livro

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Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue
Ana Hatherly, A cidade das palavras

Limbro dos livros esquecidos

O brinquedo do pobre

Quero dar a ideia de uma distração inocente. Há poucas diversões que o sejam!

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Quando sair de manhã com a intenção de vagar pelas estradas, enche o bolso de pequeninas invenções baratas – como o polichinelo simples de uma corda só, os ferreiros que malham a bigorna, o cavaleiro e o cavalo de cauda em forma de apito – e pelos cabarés embaixo das árvores presta com elas homenagem às crianças pobres e desconhecidas que encontrar. Verás aumentarem desmesuradamente os seus olhos.

Primeiro, elas não ousarão tocar em nada, não acreditarão na sua felicidade. Depois, suas mãos agarrarão com vivacidade o presente e elas fugirão como os gatos que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe o bocado que ganharam.

Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria.

O luxo, a indolência e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que parecem feitas de outra massa que não a dos filhos da mediocridade ou da pobreza.

Ao lado dela, sobre a grama, um brinquedo esplêndido, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a criança não ligava para seu brinquedo predileto, antes olhava isto:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.

Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segundo examinava avidamente, como um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida.

E as duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.

Charles Baudelaire

domingo, outubro 15

Solução para os domingos

Tarde de domingo y lectura (ilustración de Snezhana Soosh)
Snezhana Soosh

Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz

Os cabelos prateados e o sorriso amistoso são o cartão de visita da escritora canadense Margaret Atwood que, no próximo mês, completa 78 anos. Mas, como são encaracoladas, as madeixas aumentam sua vantagem, revelando uma elegante senhora cheia de estilo, charme, energia e, principalmente, bom humor. Margaret ri de suas próprias piadas, o que as tornam ainda mais engraçadas. Foi o que tornou tão ruidosa a entrevista coletiva da qual participou na manhã de sábado, 14, na Feira do Livro de Frankfurt, que termina no domingo, 15.
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Ela veio à cidade para receber o Prêmio da Paz, conferido anualmente pela Associação de Livreiros Alemães. Desde que um de seus antigos livros, O Conto da Aia (Rocco), publicado em 1985, alcançou um novo e estrondoso vigor mundial ao inspirar a série de sucesso The Handmaid’s Tale, a escritora de olhos azuis voltou a ser uma celebridade. “Foi o primeiro produto em streaming a ganhar um Emmy”, comentou ela, em tom de orgulho, referindo-se ao prêmio americano tradicionalmente dedicado à TV.

Distópico, o romance tornou-se profético depois da eleição de Donald Trump, alçando Margaret a uma posição de profetisa. “O que o torna tão moderno é o retrato do totalitarismo americano”, comentou. De fato, O Conto da Aia é ambientado em uma república em um futuro próximo. Lá, não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. Tampouco universidades. Extinguiu-se ainda a profissão de advogado porque ninguém tem direito a defesa – quem é considerado criminoso é fuzilado sumariamente e seu corpo é pendurado em praça pública, para que o apodrecimento escancarado sirva como exemplo e intimidação. Atos banais tornaram-se crimes, como cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi chamada de Estados Unidos da América.

“Quando escrevi essa história, eu vivia em Berlim, nos anos 1980. O muro ainda dividia a cidade e nada indicava alguma mudança – mal sabíamos que, cinco anos depois, ele seria derrubado”, observou. “Hoje, vivemos uma era de mudanças e revoltas. Escreveu-se muito sobre tiranias, autores como Tim Snyder (autor de Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente, lançado pela Companhia das Letras) também se tornaram proféticos.” Margaret referiu-se tanto à crise espanhola provocada pela tentativa de separação da Catalunha como dos constantes tropeços do governo Trump. Aliás, a fim de explicar o atual sucesso de O Conto da Aia, a autora se lembrou da tentativa do presidente americano e de alguns políticos em controlar os direitos femininos – no romance, as mulheres de Gilead não têm direitos e ainda são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. À personagem Offred, por exemplo, coube a categoria de aia, ou seja, sua função resume-se à procriação, uma vez que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas.


“O Canadá se tornou o país onde os americanos buscam refúgio sempre que estão inquietos. É o que acontece com as mulheres hoje”, disse Margaret que, perguntada sobre o cristianismo, lembrou que as religiões de todo tipo tentam impor restrições às mulheres. “O propósito de todas as crenças é a ter sempre muitos seguidores, daí a importância do papel feminino na procriação. Somente os Shakers (seita religiosa fundada no século VIII, na Inglaterra, e famosa por seu comportamento frenético durante os cultos) não tentaram controlar os corpos das mulheres porque adotaram órfãos. Mas eles desapareceram rapidamente, devido à escassez de órfãos”, disse ela, ecoando mais um tema de seu romance.

Margaret foi irônica ao comentar sobre um assunto atual, mas não relacionado ao livro: as acusações de abuso sexual do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. “Felizmente ele não tem nada a ver com nossa série”, suspirou. “Situações em que mulheres jovens são exploradas por homens poderosos são infelizmente comuns já faz anos. O que permite esse tipo de abuso são dinheiro, poder e advogados. Ao menos, já estamos vendo mudanças e homens poderosos foram desafiados pelas redes sociais, que permitem a todos se expressarem publicamente, o que dá uma grande ressonância ao seu discurso.”

A escritora pontuou que os acusados de hoje são homens cujo comportamento era considerado, para alguns, “progressivo”. “O fato de serem desmascarados e tirados de seu pedestal é um alerta aos que têm esse tipo de comportamento”, observa. “E isso nos faz pensar que o ser humano é variado e o tratamento que cada um recebe não deve ter nada em comum com a maneira como Weinstein tratou aquelas mulheres.”

Uma das pioneiras no uso das redes sociais – já se divertia com o Twitter em 2008 –, Margaret Atwood elogia a ferramenta como palanque aberto a todas as vozes, mas sabe de seus limites. “As redes sociais têm três aspectos: um positivo, um negativo e um estúpido, que não foi pensado por ninguém pensou. O anonimato do Twitter libera o discurso político, mas também permite comportamentos detestáveis. Quanto ao aspecto estúpido, os robôs que me enviam mensagens sexuais são parte disso.”

Ubiratan Brasil

sábado, outubro 14

Use marcador

um projeto do inglês Philip Bradley, que adaptou antigos pôsteres de guerra para a campanha Save Libraries

Uma casa para livros e gatos

O pedido chegou de um artista, poeta e professor e de uma poetisa e gestora de uma livraria. O casal de Brooklyn, em Nova Iorque, foi até ao atelier de arquitetura BFDO Architects explicar o sonho deles: que a casa onde moravam fosse transformada num espaço cheio de luz e com dois requisitos fundamentais — ser perfeita para receber livros e para acomodar os felinos lá de casa. Assim nasceu a House for Booklovers and Cats — um espaço que faz sonhar quaisquer amantes de gatos e livros.


A sala de estar ganhou uma nova vida, tornou-se um lugar amplo, limitado por prateleiras onde vivem livros e com locais de circulação a alguns metros do chão para os gatos. É que, além de quase todos os felinos adorarem aventurar-se em locais altos, os dois desta casa são tímidos e gostam de ter espaços onde possam ficar longe de visitas menos familiares. No topo das prateleiras, coladas ao tecto, há pequenas portas quase secretas por onde os animais podem passar para ir até aos quartos do segundo andar. A claraboia central leva luz à casa toda, decorada de forma minimal. Aqui, humanos e felinos podem ser felizes.
(Fonte: Público)

Começando o dia

Assim começa o livro...

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Todo mundo quer ser dono do fim do mundo.

Foi o que meu pai me disse, junto às janelas arredondadas de seu escritório em Nova York — gestão de recursos privados, dynasty trusts, mercados emergentes. Estávamos, coisa rara, compartilhando um momento no tempo, um momento contemplativo, tornado completo pelos óculos escuros clássicos de meu pai, que traziam a noite para dentro da sala. Eu examinava os quadros nas paredes, obras de diferentes graus de abstração, e comecei a me dar conta de que o silêncio prolongado que se seguiu a seu comentário não pertencia a ele nem a mim. Pensei na esposa dele, a segunda, a arqueóloga, cuja mente e corpo depauperado em breve haveriam de se dissipar, seguindo um roteiro previsível, no vazio.

Aquele momento me voltou à lembrança alguns meses depois, do outro lado do mundo. Cinto de segurança afivelado, eu estava no banco de trás de um carro blindado, um hatch com vidro fumê nas janelas laterais, cego dos dois lados. O motorista, separado do banco de trás por uma divisória, usava uma camisa de time de futebol e calças de moletom com um volume no quadril que indicava a presença de uma arma. Depois de uma hora de viagem por estradas esburacadas, ele parou o carro e disse algo para o dispositivo preso em sua lapela. Então girou a cabeça quarenta e cinco graus em direção ao banco do carona. Concluí que era hora de soltar o cinto de segurança e saltar.

Aquela viagem de carro era a última etapa de uma maratona intercontinental, e me afastei do veículo e fiquei parado por algum tempo, entorpecido pelo calor, carregando minha mala e sentindo meu corpo relaxar. Ouvi o motor dar a partida e me virei para o carro. Ele estava voltando para a pista de pouso particular, e era a única coisa a se mover ao longe, que em breve haveria de sumir na paisagem ou na penumbra crescente ou no horizonte puro e simples.