quinta-feira, junho 21

Aula de pescaria


Vida longa!

Deixar de ler é a morte instantânea. Um mundo sem livros é um mundo sem atmosfera, como Marte. Um lugar impossível, inabitável. De maneira que muito antes da escrita vem a leitura. Um leitor tem uma vida muito mais longa que outras pessoas, porque não morre antes de acabar o livro que está lendo
Rosa Montero

Tentação


Portas cerradas

A placa com “Aluga-se” em letras garrafais encerrava uma história. O trânsito lento e o sinal fechado mais adiante facilitavam a leitura daquele anúncio incômodo dependurado no umbral. A papelaria de tantos anos fechara finalmente suas portas, depois de uma lenta agonia.

Não sobrara alternativa de mudança para um novo endereço. Os donos, um casal avançado na idade, estavam cansados e se diziam incapazes de enfrentar as modernizações exigidas pela competição do mercado. Aprenderam a jurar que agora preferiam destinar tempo integral aos filhos e netos, mas estava claro que os dois não sabiam o que fazer com aquela tristeza comovente instalada nos olhos. Pareciam atarantados na soleira do desconhecido imposto ou escolhido — tinha cá minhas dúvidas —, prestes a se iniciar.

Eu fora avisado algumas semanas antes, mas sempre via o ritual do desmonte andando a passos tão lentos que até consegui enxergar notas de esperança. Agora, estava claro que tudo não passou da tal “melhora da morte”, quando o doente parece haver recuperado milagrosamente suas forças, mas sai da vida em seguida.

Diante daquela placa de folha de flandres sobre a armação de madeira me dei conta do fim. Estavam mortas as possibilidades de novas conversas, de reabrir lembranças deliciosas, do cafezinho fumegante em determinado momento da tarde — segredo restrito a meia dúzia —, que poderia vir acompanhado ora de biscoitos, ora de bolinhos, ora de bolachas, ora de tapiocas, ora de quase todos. Tudo agora ficaria finito numa espécie de arquivo morto da minha memória.

Retirou-se de cena o enorme balcão onde falávamos animados de grampeadores Carbex, inigualáveis em robustez e precisão nos tempos áureos, e daquele outro, enorme, batizado de Ricardão por analogias a poderio, eficiência e sexo. Das almofadas para carimbos, dos tinteiros e suas tintas perfilados ao lado de mata-borrões. Das esponjas embebidas em glicerina ou água, para umedecer dedos prestes a manusear páginas ou cédulas. Dos belíssimos frascos de vidro para armazenar cola, cujas tampinhas ofereciam o pincel providencial para espalhar seu conteúdo sem lambuzar tudo ao redor.

Dos pesos de vidro, transparentes ou cheios de adereços internos — onde se podia mandar aplicar nomes e mensagens —, que serviam para domar o espírito brincalhão do vento sobre os papéis. Dos mais diversos modelos de cadernetas. Dos lápis Hidrocor, grande novidade na época do lançamento. Das borrachas Mercur de duas cores, para apagar tinta (metade azul) e grafite (metade vermelha), cuja eficiência podia até arrancar literalmente os erros do papel e deixar buracos no lugar.

Dos suportes de baquelita para rolos de fita Durex, produto que ficou tão conhecido que a marca virou substantivo de fita adesiva no dicionário — eu nunca consegui entender o mistério que mantinha a cola eficiente naquele pedaço que ficava esticado entre o rolo e a serra de metal para corte. Dos apontadores de lápis presos às mesas, cujo movimento da manivela criava cones perfeitos.

Dos rotuladores Dymo, Sylvapen, Rotex, Motex, Astro para imprimir fitas de vinil autoadesivas, coloridas, suprassumo do capricho em qualquer uso, de trabalhos escolares a arquivos das empresas — depois foram lançadas algumas eletrônicas, com teclado para digitação. Para minha surpresa, ainda existem no mercado alguns bem caros, embora a Dymo mantenha modelos mais em conta.

Na velha papelaria também ríamos da quase inutilidade atual do papel-carbono, que atingiu reluzente preço de relíquia para os insistentes usuários. Nos tempos de sucesso chegou ao ponto de neologismo para denominar cópia de qualquer coisa, até de um cantor que imitasse outro. Batizou, por isso mesmo, atração musical de programa de televisão. Papel-carbono que morreria de rir da ineficiência dos modernos papéis carbonados, capazes de reproduzir, apenas de forma anêmica, o que se escreve na página de cima.

Durante o período de agonia do lugar, me enchi de covardia e quase driblei a vontade de ir dar um abraço de despedida nos meus amigos de confraria, como se não falar a respeito evitasse o pior. Cabisbaixo de coragem, entrei na loja para meu último café. Veio regiamente acompanhado com bolo de laranja, tapioca e queijo, como se não houvesse amanhã.

O sinal de luz impaciente no retrovisor me resgatou da contemplação do fim, me fez ajudar a mover novamente o cortejo estressante do trânsito. Ficou para trás a placa agressiva, retirada poucos dias depois.

Apesar das obras de reforma anunciarem que há novo inquilino, não tive interesse em descobrir o que virá depois da poeira dos operários. Vai que nasce um vínculo que faz sofrer depois…
Heraldo Palmeira

quarta-feira, junho 20

A livraria da esquina

Steven Hubbard 

O livro, esse ser mutante

Mariusz Stawarski
Estamos sempre aprendendo a ler. Um livro que passou por nossos olhos há um ano, ou um mês, já é outro quando relido. Nossas novas experiências de vida e de leitura, de um ano ou de um mês, nos fazem ver e ler de forma diversa o texto. A cada instante, qualquer texto, qualquer livro, se modifica, seguindo as transformações do mundo e do leitor. O livro é um caleidoscópio.
Raul Drewnick

De volta ao passado

Jungho Lee

O siri higiênico

A proprietária e o gerente de um restaurante foram detidos após uma inspeção da 1ª Delegacia de Saúde Pública do Departamento de Polícia e Proteção a Cidadania. Segundo a polícia, o estabelecimento funcionava em condições precárias. A polícia foi até o local após receber uma denúncia anônima. No restaurante, policiais encontraram um siri vivo no banheiro.
(Cotidiano Online)

"Senhor delegado, entendo perfeitamente a sua disposição de zelar pela higiene de restaurantes. É uma causa que só posso apoiar; afinal, a saúde pública depende disso. Mas, no caso do meu próprio restaurante, devo lhe dizer que o senhor cometeu um engano. Engano compreensível, engano resultante do excesso de zelo, mas engano, de qualquer maneira. O senhor me autuou e me prendeu, por ter encontrado um siri vivo em meu restaurante. Aparentemente é uma medida adequada. Na verdade, e como já lhe mostrarei, não é.

Em primeiro lugar, não se trata de um siri qualquer, senhor delegado.

Quando foi trazido para o restaurante, com muitos outros siris apanhados numa praia, parecia isso, um siri comum. Mas logo ficou evidente que aquele siri tinha qualidades excepcionais.

Acenava-me com as patinhas, senhor delegado. Isso mesmo: fazia gestos amistosos, uma coisa comovente. De imediato decidi: ele não iria para a panela. Ficaria no restaurante, como animalzinho de estimação. Outros donos de restaurante têm gato de estimação, cachorro de estimação, papagaio de estimação, lagarto de estimação por que não poderia eu ter um siri de estimação?

Dei ao siri o nome de César, porque ele gostava de fazer pose de imperador, e passei a criá-lo. O que, com siris, não é difícil. Eles não comem muito, não ocupam muito espaço. E o César era a simpatia em pessoa. Os fregueses simplesmente o adoravam. Chamavam-no: aqui, César, aqui! E ele ia correndo para as mesas e ficava acenando as patinhas. Lá pelas tantas aprendeu a dançar. Coisa mais engraçadinha. A gente botava música e o César ficava dançando a dança do siri, três passos para um lado, três passos para o outro. O pessoal ficava deliciado.

E agora, vem o mais importante: o César era muito higiênico. Outros siris fazem as necessidades em qualquer lugar. O César, não. O César descobriu que havia, no restaurante, um lugar especial para isso e dirigia-se espontaneamente ao banheiro (dos homens).

Repito: espontaneamente, senhor delegado. Eu nunca o obriguei a fazer isso. Ele ia até lá, pulava para o vaso, fazia o que tinha de fazer e limpava-se com papel higiênico.

Por azar, o senhor veio ao restaurante exatamente no momento em que o César estava no banheiro. O senhor o surpreendeu lá dentro. O pobre bichinho deve ter morrido de vergonha, mas o César era digno, não sairia correndo por causa disso.

Ficou no banheiro, coisa que, para o senhor, se constituiu num flagrante.

E, para ele, num trauma. Desde que isso aconteceu, o pobre não evacuou mais. Está com uma prisão de ventre terrível. Uma coisa emocional, claro.

Siris também têm emoções, senhor delegado. Inclusive e principalmente no banheiro.

Moacyr Scliar

terça-feira, junho 19

Livro pensante


Ferino

Jonathan Wolstenholme


Em certos livros o prefácio mais parece um pedido de desculpas
Joel Silveira

Somos abelhas

Elena Mascolo

Quando Sherlock Holmes derrotou seu criador

Sherlock Holmes nasceu porque um médico de cabeceira escocês, que mal ganhava para acender o gás, vivia com o consultório vazio. Aquele doutor se chamava Arthur Conan Doyle e tinha encontrado um modelo para o seu detetive em um de seus professores da Faculdade, Joseph Bell. Poucos personagens tiveram um impacto tão forte como Holmes sobre a sociedade que os viu nascer, e poucos conseguiram prolongar sua sombra de forma tão profunda sobre o futuro. De fato, quando seu autor, que queria seguir outros caminhos literários, teve a bizarra ideia de matá-lo nas cataratas de Reichenbach, não teve outro remédio senão ressuscitá-lo pouco tempo depois, por causa da fúria de seus leitores. O próprio Conan Doyle escreve, num artigo recuperado agora dentro do volume que reúne seus textos de não ficção, Meus Livros. Ensaios Sobre Leitura e Escrita: “Sherlock Holmes é para muita gente qualquer coisa menos um personagem de ficção, como demonstram todas as cartas que recebi dirigidas a ele e nas quais formulam pedidos”. Um banco situado no famoso endereço da Baker Street 221B – que não existia na época em que o personagem foi criado, porque a rua era mais curta – teve que contratar um funcionário só para responder a todas as cartas dirigidas ao detetive.

O jornalista norte-americano Michael Sims reconstrói, em seu estupendo livro Arthur and Sherlock, a criação do detetive e de seu companheiro John Watson, em 1887. O surgimento de um personagem tão durável sempre tem um componente casual, inclusive em seu nome – Doyle pensou em chamá-lo Sherrington Hope –, embora também tenha algo de inevitável. Sims revela a fascinação do escritor por seu velho professor de medicina, que impressionava seus alunos com sua capacidade dedutiva, mas seu personagem também reflete a época que lhe coube viver, o enorme interesse pela ciência que estava mudando por completo o mundo durante a Revolução Industrial, assim como a invenção do romance policial por parte de Poe, entre outros autores. O triunfo de Sherlock Holmes reflete ainda a profunda mudança que o mundo editorial viveu em um século e meio: o personagem só se firmou quando começou a ser editado pela revista Strand, não nos livros (trata-se do equivalente às séries de TV para o século XIX).

Ao final, o estudo de Sims representa uma reflexão sobre o poder e o mistério dos personagens de ficção. Conan Doyle foi, sem dúvida alguma, um escritor de enorme talento, mas sempre inferior ao de sua maior criação. De fato, o autor do detetive mais preparado do mundo chegou a acreditar em fadas. Não é estranho que, em um momento dado, tenha decidido matá-lo para seguir em frente. Sua derrota demonstra até que ponto seu personagem foi sempre muito mais importante que ele.

segunda-feira, junho 18

Escada para o amor

Tom Haugomat

Os 'nossos livros'

Mariusz Stawarski 
Estranhos destinos dos livros... Eles ali estão, nas vitrinas ou nas prateleiras da livrarias, nos comentários dos críticos, nos anúncios dos jornais e revistas, nas sugestões dos amigos que os leram antes, e, no entanto, quantos deles não passam ou não passaram despercebidos, alheios aos nossos interesses ou à nossa curiosidade imediata de tentaculares leitores, atraídos ou envolvidos noutros caminhos , por outros livros, outros escritores.
Quantos não nos dizem nada à primeira vista, restamos distantes ou indiferentes aos seus títulos, aos nomes dos seus autores, ou, às vezes, vamos adiando o seu conhecimento, por desfastio ou inércia, por temor, talvez, por defesa prévia, contra possíveis decepções ou desencantos – e também a perspectiva de que eles não nos acrescentarão nada - ou ainda de que não serão, certamente, como os “nossos” livros, os livros que escolhemos, os livros que amamos, os livros e autores a que já nos habituamos, por intimidades anteriores, por afinidades, por gozos - tornados, assim, nossos companheiros de indagações e respostas, de diálogos, afinal, e no entanto...
Américo de Oliveira Costa

Leitor tem caráter


No mundo da bola

Os americanos aprendem geografia metendo-se em guerras e invadindo terras longínquas. Já nós, desambiciosos e sem o arsenal exigido para tais empresas, aprendemos geografia em Copas do Mundo. Muitas vidas foram sacrificadas para que os americanos ficassem sabendo onde ficam Luzon, Hanói, Phnom Penh ou mesmo Bagdá, ao passo que os habitantes do Planeta Futebol não precisaram derramar uma gota de sangue para saber localizar no planisfério as cidades de Malmö (Suécia, 1958), Ulsan (Coreia do Sul, 2002) e Porto Elizabeth (lá fomos derrotados pela Holanda no torneio da África do Sul).

Nas Copas aprendi até palavras que a idade ainda não me permitia conhecer. Magiar, por exemplo; contribuição do Mundial de 1954, em que nenhuma equipe brilhou mais que a da Hungria, caprichosamente derrotada na final pela da Alemanha. Tão espetaculares eram os jogadores magiares que seus nomes ficaram para sempre gravados na memória de muita gente, especialmente daqueles que os tiveram por algozes.


Dia desses surpreendi um jovem húngaro, com alguns anos de Brasil, declinando-lhe de um só jato o magnífico ataque formado por Budai, Hidegkuti, Czibor, Puskas e Kocsis – pelo qual seu pai e seu avô suspiram até hoje. Resumi para ele, do ponto de vista do perdedor, a “batalha de Berna”, que foi como ficou conhecida a renhida peleja em que seus patrícios nos alijaram da competição pelo placar de 4 x 2, com a inegável, embora redundante, ajuda de um árbitro inglês, tão inesquecível quanto seu nome, Mr. Ellis, pivô de um vexame extrajogo estrelado pelo também árbitro (e mais tarde comentarista radiofônico) Mário Vianna, que, além de xingá-lo de ladrão, tachou-o de “comunista”.

O Mundial na Suíça chegou até aqui pelo rádio, como os anteriores e os três subsequentes, sendo que o de 1958, na Suécia, já pude acompanhar, à sorrelfa, no fundo da sala de aula, pelo transistor do aluno mais rico da turma. O som era precário, ondulante e arisco. Não fosse o patriótico escarcéu de nossos locutores, levaríamos alguns segundos para identificar qual dos dois times afinal marcara o gol.

Por um trivial rádio doméstico acompanhei os dois últimos jogos da Copa em que enfim conquistamos a Taça Jules Rimet. Claro que chorei. Duas vezes. A primeira ao ouvir a torcida francesa que lotava o estádio de Rasunda cantar A Marselhesa – que nem no filme Casablanca. Eles tinham A Marselhesa e o artilheiro do torneio (Just Fontaine), mas nós tínhamos o que precisávamos para ganhar deles por 5 x 2

Rasunda. Outra lição de geografia. Que a molecada logo explorou numa paródia de Alá-lá-ô. A marchinha carnavalesca de Nássara e Haroldo Lobo dizia: “Ai que calor, ô, ô, ô, ô, ô, ô! Atravessando o deserto de Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara”. Bastou trocar o deserto de Saara pela cidade de Rasunda e a cara por sua rima mais óbvia.

Além de ensinar geografia, as Copas nos possibilitaram produzir uma espécie de diário afetivo, fixando em nossa memória momentos marcantes do passado, com as datas colhidas em alfarrábios futebolísticos ou no Google. Sei exatamente o que estava fazendo, por exemplo, em 6 de junho de 1962 porque, naquele dia, antes de o Brasil virar o jogo contra a Espanha, no estádio Sausalito, penei um bocado para escrever uma crítica da comédia O Terror das Mulheres, de Jerry Lewis, na redação do Correio da Manhã.

Insólito Mundial o do bicampeonato. Cada jogo num local diferente. Até na varanda do Alcazar, na Avenida Atlântica, fiz minha transistorizada vigília cívica, amargando na companhia de Mauricio Gomes Leite um empate sem gols com a Checoslováquia, na tarde de 2 de junho.

O mais inesperado ficou para o desfecho da competição, contra a mesma Checoslováquia, no domingo 17 de junho. No apartamento da atriz Irma Alvarez, em Copacabana. Enquanto ela, Reginaldo Faria e Sérgio Sanz vibravam, na sala, com o gol de empate de Amarildo, eu ajudava o trabalho de parto da gata da casa – na cozinha.

O que eu fazia na tarde de 19 de julho de 1966? O Brasil perdendo para Portugal no Mundial da Inglaterra e eu a dar voltas em torno na Cinelândia, no teto do Simca Chambord de Carlos Heitor Cony, segurando pela cintura José Carlos Avellar, para evitar que ele caísse com sua câmera e perdêssemos não só nosso cinegrafista, mas também as imagens da desolação da torcida carioca, fundamentais para um documentário sobre Otto Maria Carpeaux.

Também vi jogos da Copa em pousadas do interior da Guatemala, numa churrascaria brasileira de Nova York e, suprema proeza, no Palácio da Vaca, em São Francisco, que nem sei se ainda existe. Era um pavilhão dedicado a exposições de pecuária, que dotaram de um telão para que os latinos das redondezas – e sobretudo os brasileiros que estudavam em Berkeley – pudessem assistir à derrota do Brasil para o Carrossel Holandês, em 3 de julho de 1974, a 50 dólares por cabeça.

Na Copa anterior, a do tricampeonato, mais precisamente em 7 de junho de 1970, curti pela TV, em família, o jogo mais eletrizante de todos os tempos: Brasil 1 x 0 Inglaterra. Aquela defesa matematicamente impossível de Banks, interceptando no chão uma cabeçada mortífera de Pelé, e a desarrumação da inexpugnável defesa adversária aprontada por Tostão, que resultou no gol de Jairzinho – well, nem a consagradora goleada na Itália conseguiu superar.

Peguei o tri na raiz. Assisti a treinos no Retiro dos Padres, ainda na fase João Saldanha, e confesso que, desde o início, descolei a política (vale dizer, a ditadura militar) do futebol. As “onze feras” do Saldanha me compraram. Ao ver nosso ataque alinhado antes do pontapé inicial em Jalisco – Jairzinho, Gerson, Pelé, Tostão, Rivelino –, Cláudio Mello e Souza exclamou, embasbacado: “Olha o Q.I. desta linha! Não dá pra torcer contra”.

Não dava. Aquele não era o time do ditador Médici. Aquele era o time de todos nós.

domingo, junho 17

Começando o domingo


Em toda biblioteca há espíritos

Penso que em toda a biblioteca há espíritos. Esses são os espíritos dos mortos que só despertam quando o leitor os busca. Assim, o ato estético não corresponde a um livro. Um livro é um cubo de papel, uma coisa entre coisas
Jorge Luis Borges

Amar é...


O gol é necessário

No futebol, o gol é o pão do povo. Quando dava gol em nossos campos, o torcedor pegava o seu pão no estádio aos gritos de contentamento e ficava a saboreá-lo com os amigos durante uma semana. A gestação do gol era tão séria que os jornais publicavam nos dias seguintes o seu diagrama.

O torcedor não mudou, continuando como sempre com fome de gol: mudou o futebol. Vai-se tornando avaro esse esporte, pois, vivendo às custas do consumidor, nega a mercadoria pela qual este paga, não à vista, mas antes de ver: gols. O homem da arquibancada, sequioso dos tentos de seu clube, é ainda o único homem-gol, pois o presidente do clube, os vice-presidentes, o tesoureiro, os conselheiros, o diretor de futebol e seus parentes, os beneméritos, o técnico, o médico, o massagista, o roupeiro, todos eles se batem com unhas, dentes e risquinhos no quadro-negro pelo futebol das trincheiras, à base de contra-ataques, o futebol sem a mácula do gol, amarrado, aferrolhado, no qual os jogadores não devem jogar propriamente, mas construir um muro onde a bola chutada pelo adversário repique e retorne: uma nova modalidade da pelota basca com frontão.

O técnico não precisa, e nem é aconselhável, entender de futebol: preferível que seja um duro mestre pedreiro, capaz de construir em campo o muro que impeça a bola de passar. Os jogadores, reduzidos à condição de tijolos e reboco, não precisam ter habilidade: preferível que sejam uns manguarões quadrados, limitando com abundância de espaço material as possibilidades de penetração da bola. E assim, após cada jogo, babam-se de vaidade ao microfone os generais dessa batalha sem tiros: o time que eles comandam ganhou de um a zero, ou só perdeu de um a zero, ou o resultado ficou num zero a zero oco, demonstrando que o futebol moderninho atingiu o máximo da perfeição negativa: o marcador em branco, o plano da alimentação popular sem alimento, o jardim sem plantas, o viveiro sem passarinhos, o véu da noiva virginalmente alvo.

Quando o futebol começou, o goleiro ficava em solidão debaixo dos paus e dez eufóricos iam para a frente mandar brasa. O bom senso descobriu os zagueiros, acabando com essa guerra campal; mais tarde, o centromédio, que era um sexto atacante, recuou para ajudar mais a defesa; foram os australianos, dizem, os primeiros a transformar um atacante em defensor; os suíços, de pouca intimidade com objetos redondos, criaram em 1950 o famoso ferrolho, revelando aos boquiabertos dirigentes do mundo esportivo que um time medíocre pode endurecer uma partida desigual e perder de pouco. Aí, a aritmética defensiva começou a pular na cabeça dos matemáticos do futebol: o 4-2-4, o 4-3-3, o 4-4-2, o 5-4-1, o 5-5-0…

Há cerca de dez anos, os húngaros abandonaram a equação defensiva e organizaram um conjunto ofensivamente elástico, que, deixando o campo vencedor de seis a quatro, sete a três, e outros resultados generosos, ensinou de novo ao mundo que o gol é a alegria do povo. Pouco depois o Santos fazia a mesma coisa, e deixou de ser apenas o clube de Vila Belmiro para virar o clube à parte no carinho de todos os brasileiros fiéis ao futebol produtivo mas bonito.

Paulo Mendes Campos, "Diário da tarde"