segunda-feira, setembro 16

Conversa fiada


Bestiário

Inspirando-me num artigo muito divertido de García Ortega e Pérez Zuñiga na revista Zendra, falo-vos hoje da relação dos animais com os livros e vice-versa. Antes de mais, claro, as traças, os ácaros e os peixinhos-de-prata – esses horrores que devoram livros no pior dos sentidos. Depois falo de um animal fundador – a serpente – que está dentro de todas as Bíblias para mal dos Adões e Evas deste mundo; não será mesmo assim o único réptil da literatura, se o dragão, tanto no livro de Kazuo Ishiguro, O Gigante Enterrado. como em Eragon, for um réptil. No que toca a insectos, temos a famosa barata da Metamorfose, de Kafka, as moscas de O Deus das Moscas, de William Golding, ou o bicharoco (já não me lembro do nome) que se infiltra na Arca de Noé em Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, de Julian Barnes. Cavalos não faltam, por certo, mas o mais famoso é seguramente o Rocinante de D. Quixote. No mar, os animais mais conhecidos serão a baleia de Moby Dick e o peixe terrível de O Velho e o Mar. Já quanto a animais comuns, lembro-me de repente dos terríveis cães ao serviço dos nazis em Cães Pretos, de Ian McEwan, da cadela de La Perra, de Pilar Quintana, que em breve publicarei, do Cão como Nós, de Manuel Alegre, ou de Buck, de O Apelo da Selva, de Jack London (mas há muitos mais). Existe um burro maravilhoso em Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, um gato em Kafka à beira mar, de Murakami, montes de gatos em Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, vários gatos naquele livro de Luís Sepúlveda que tem igualmente uma gaivota, e fico-me por aqui, de contrário nunca mais acabaria o post. Bestiário, já agora, é um fantástico livro de Cortázar. Divirtam-se.
* Autora esqueceu de Firmin, de Sam Savage, o rato nascido em uma livraria que ali viveu até o fim da loja

Para bom começo de semana...


Memórias póstumas na cabeceira e na cabeça

No último fim de semana, voltei à Bienal do Livro do Rio.

Foi interessante esse movimento. Voltar como autor ao lugar onde comecei minha carreira como leitor. Minha família estava lá, como também estava naquelas tardes de descoberta do mundo dos livros. Eu tinha acabado de voltar de viagem, um monte de coisas acontecendo, não tinha dimensão de como podia ser estar ali naquele dia.

Portinari
Além de mim, a mesa era composta por Conceição Evaristo, Eliane Alves Cruz, Ryane Leão e Fabricio Carpinejar, com a mediação da Ana Paula Lisboa, colunista do Globo Nos juntamos ali pra falar de nossos livros de cabeceira. Do ano passado pra cá, participei de muitas conversas, e por mais que seja sempre um momento importante, poder trocar com leitores e outros autores, chega uma hora em que o próximo trabalho quer atenção, exige seu tempo e sua energia, e ficar falando do trabalho anterior pode gerar algum conflito nessa nova relação. Vivo esse momento. Feliz pelo trabalho anterior ainda gerar interesse em tantos lugares por aí, mas com vontade de mergulhar de uma vez por todas nas histórias que ainda tenho pra contar.

A ideia de falar sobre livro de cabeceira me animou. Tinha levado na última viagem uma reunião de crônicas do Rubem Braga que dormia e acordava lendo. Quando fiquei sabendo o tema da conversa, parecia que tava decidido. Quando cheguei em casa, um dia antes do evento, tudo mudou.

No meio da correspondência, me esperava uma nova edição de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, da editora Antofágica. Fazia um tempo que esperava por esse livro.

Sabia que teria ilustrações do Portinari, e que, na foto do autor, traria Machado de Assis negro.

Mesmo sabendo tudo isso, quando abri o livro o impacto foi grande. Primeiro pela imagem do Machado. Apesar do projeto Machado de Assis Real ter ganhado muita força nos últimos tempos, e eu já tivesse visto essa imagem de Machado não embranquecido, vê-la finalmente em seu próprio livro foi algo marcante. Depois, vinha pensando que as ilustrações do Portinari seriam uma coleção de imagens que pudessem dialogar com o texto. Quando abri o livro, descobri que o artista havia feito todas exclusivamente pra ilustrar o romance.

Fiquei enlouquecido. Levei o livro pra cama onde passamos o dia juntos. Lia trechos, lia as imagens, lembrava das outras leituras, outras edições que haviam passado por mim. O que trazia uma série de outras histórias além daquelas memórias póstumas. Lembrava das casas onde li aquelas páginas, das pessoas que estavam ao redor, do jeito que olhava pro mundo.

Dormi e acordei com o livro. Lembrei de Maria Bethânia falando que música é perfume. Sempre achei linda essa associação, perfeita. Mas olhando pra minha nova edição de “Brás Cubas”, pensei também em como gosto do fato de o livro ser uma coisa física. Com tanta subjetividade, atravessado por tantas épocas e tantos mundos, mas ainda assim, objeto. Disponível ao toque. E a maneira única como cada um toca e é tocado por esses objetos é um dos mistérios mais deliciosos que tive a sorte de experimentar.

Foi bonito ir à Bienal falar de livros. Apesar de tudo o que aconteceu em termos de repressão, censura e ignorância, ver aquele auditório lotado de jovens, professores, famílias, é algo pra alimentar a esperança.

sábado, setembro 14

Hora do gongo


A primeira língua


Kianda, a minha filha mais nova, agora com 16 meses, ainda não aprendeu a falar. O vocabulário dela é apenas um pouco menos pobre do que o de Jair Bolsonaro, e quase idêntico, tirando os palavrões — diz “cocô” e “xixi”, por exemplo, embora, ao contrário de Jair, utilize essas palavras somente quando precisa delas e sem jamais comprometer a elegância e a dignidade da sua pequenina pessoa.

Ver um bebê crescer é como assistir ao desenvolvimento da humanidade, desde que irrompemos das cavernas, até aos dias de hoje. De início, gatinhando; depois, em passos hesitantes, testando a verticalidade. O mesmo com a linguagem: as primeiras palavras de uma criança, são, como certamente foram as primeiras palavras dos nossos distantes ancestrais, simples e breves. Apenas uma sílaba ou duas, nomeando entidades ou sentimentos fundamentais: pai, mãe, fome, medo. E a seguir: dor, luz, sangue, céu, chão, pau, pedra, pó, só, bom, mau, lobo, cobra, cão. É assim em todas as línguas.


Regra geral, consegue-se saber se uma palavra surgiu cedo ou tarde, contando o número de sílabas. Suponho que palavras tardias, longas, traduzam em geral conceitos complexos. Contudo, não há conceito mais complexo do que Deus e esta palavra tem, na maioria das línguas, apenas uma ou duas sílabas: zot, em albanês; atua, em maori; mungu, em swahili, etc. Há excepções interessantes. Assim, em malgaxe, língua de Madagascar de origem malaia, Deus diz-se andriamanitra, a palavra, porém, é uma soma de outras duas: nobre e perfumado. Isto porque, segundo a lenda, os profetas eram capazes de sentir a aproximação de Deus, com o qual conversavam, no instante em que o ar se enchia de perfume.

Para os leitores surpreendidos com o meu conhecimento de idiomas exóticos, confesso que apenas me limitei a utilizar o Google Tradutor. Confissão feita, e, desde já, responsabilizando o Google por eventuais equívocos, voltemos a Deus. Imagino que para aqueles homens rústicos, saídos das cavernas, a imensidão da noite os aterrorizasse. Deus deve ter sido um primeiro nome para abismo (“tudo quanto excede o que já de si é excessivo”, define um dos meus dicionários). Aliás, em quimbundo, uma das línguas de Angola, Deus pode dizer-se kalunga, que é também o nome dado ao mar e a “tudo quanto excede o que já de si é excessivo”.

Há alguns anos contaram-me uma história curiosa sobre um casal português que foi trabalhar em Macau, deixando a bebê aos cuidados de uma babá chinesa. Preocupado com a menina, porque aos dois anos e meio ainda não falava, embora tagarelasse muito na linguagem secreta dos bebês, o casal levou-a a um pediatra. O médico macaense escutou a menina durante alguns minutos. Então, abriu um largo sorriso e disse aos pais para não se preocuparem. A menina falava bem, dizia frases inteiras — só que em cantonês,
o dialeto chinês corrente em Macau.

Penso em tudo isto enquanto escuto a minha filha. E se existir uma lógica naquela algaraviada? Talvez ela fale a língua primordial de Adão e Eva. Talvez os bebês estejam tentando transmitir-nos um segredo remoto, enquanto ainda se lembram. Infelizmente, nós já não falamos essa língua.
José Eduardo Agualusa

sexta-feira, setembro 13

Paisagem e livro

Gennady Myznikov

Felicidade

A felicidade está apenas no conformismo,
porque ela não existe propriamente,
o homem tem que criá-la,
conformando-se com aquilo que tem:
este pedaço de pão está excelente,
este gole de cachaça é muito melhor do que uísque,
graças a Deus por tudo

Ciro Colares  

Fácil de levar e usar


Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade.”

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.


Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

Nunca mais.

Nunca.
Clarice Lispector 

quinta-feira, setembro 12

Primeiros princípios


Ah, os amigos

Sim, amigo é coisa muito séria. Acho que a gente pode viver sem emprego, sem dinheiro, sem saúde e até sem amor, mas sem amigos, nunca. Pois o amigo é capaz inclusive de suprir discretamente essas faltas e lhe conseguir trabalho, lhe emprestar dinheiro, lhe tratar na doença. Só não pode se envolver em assunto de amor, porque aí deixa de ser amigo; e a maior tolice a que se arrisca a incorrer alguém é misturar amigo com amor.

Amizade e amor são qualidades paralelas na vida de cada um; se conhecem, até se estimam, mas nunca se encontram ou se confundem. Aliás, não estou dizendo novidade nenhuma, todo mundo sabe que o namoro, noivado, casamento, amores são relações essencialmente antípodas da amizade. Quer pela sua impermanência, ou, quando são permanentes, pela sua natureza tumultuária, absorvente, egoísta, as relações de amor têm que ter categoria à parte. Transforme em amante o seu amigo ou amiga, e você perde o amigo e terá um péssimo amante, que sabe de todos os seus defeitos, lhe conhece do tempo em que você não se enfeitava para ele, não lhe escondia as suas falhas do corpo e da alma, e que, portanto, sabe de todos os seus pontos fracos. Fica impossível.

 A primeira lei da boa amizade creio que é ter poucos amigos. Muitos camaradas, colegas, conhecidos cordiais, mas amigos, poucos. E, tendo poucos, poder e saber tratá-los. Jamais criar tempo de rivalidade entre os amigos: cada um há de ter sua área específica, sua zona própria de influência. 

 Não misturar os amigos uns com os outros. Não vê que cada amigo, por ser o único no seu território, não precisa sequer conhecer os donos dos outros territórios. É que, sendo a nossa alma tão variada nas suas exigências, precisamos de amigos de acordo com os diferentes ângulos do nosso coração. O amigo da comunicação intelectual não pode ser o mesmo amigo da confidência íntima; o velho companheiro de infância não tem nada a ver com o precioso camarada adquirido nos anos da maturidade. 

E há outras razões práticas para não misturar os amigos: eles podem se coligar contra a gente, ou se tornar amigos entre si, por conta própria, nos excluindo. Ou também podem se chatear uns com os outros, porque os companheiros espirituais deles nem sempre correspondem aos nossos. Se você adora fulano porque toca em suas cordas nostálgicas, contando-lhe lembranças de mocidade passadas na barranca de um rio em Mato Grosso, o seu amigo intelectual talvez não tolere regionalismo e por isso desdenhe intensamente as barrancas de Mato Grosso. Assim com o futebol, os debates sobre religião, as intrigas políticas, os negócios, o gosto de recordar os sambas de Noel Rosa. Insisto, mantenha com rigor cada amigo no seu compartimento.

Axioma absoluto em assuntos de amizade: amigo é insubstituível. O que um lhe deu jamais outro lhe poderá dar igual. Pode vir um amigo novo para preencher a área vazia deixada pelo amigo que se foi por morte ou briga. Mas só ocupará mesmo aquele espaço físico. E há vezes em que nem isso é possível. E o melhor será fechar aquele nicho do coração, dada a dificuldade de encontrar outro ser vivo que satisfaça ante nós as especificações do ausente. Ai de mim, bem o sei. Minha amiga de infância que morreu deixou no meu peito esse santuário vazio. 

Respeite seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos. E nisso está outra superioridade da amizade sobre o amor: a amizade conhece as nossas falhas e as tolera e, até mesmo, as encara com condescendência e afeto. Já o amor é só de extremos e, ou se entrincheira na intolerância, ou se anula na cegueira total. Amigo entende, aguenta, perdoa, "Amigo é pra essas coisas", como diz aquela cantiga tão bonita. 

Se você não é capaz de ter amigos, você é um erro da natureza, você é como o unicórnio, o animal de que se fala, mas que não existe. Porque até os bichos têm amigos; e dizem que, depois da morte, no outro mundo, as almas mantêm sublimadas as amizades cá de baixo, naquela quintessência de excelências que só o céu pode dar.
Rachel de Queiroz

Cheiro bom


Amiga dos livros

No mesmo ano em que uma sondagem do semanário Expresso revelava que 43% dos portugueses não liam um único livro há seis meses, leio que na Finlândia as pessoas são bastante mais amigas da leitura e que são vendidos por ano na Finlândia cerca de 20 milhões de livros, o que indica aproximadamente 4 livros por pessoa, incluindo as crianças. Um em seis finlandeses entre os 15 e os 79 anos compra em média 10 livros por ano; e não se pode dizer que as novas tecnologias tenham afectado estes bons hábitos, pois em 1995 os números eram significativamente mais baixos. Há também muita gente (40% da população) que requisita livros nas bibliotecas regularmente (pelo menos, duas vezes por mês). As bibliotecas são mais de 800 (entre centrais e filiais), não contando as itinerantes (150), que circulam com cerca de 4000 títulos, representam 10% dos empréstimos totais de livros e chegam a percorrer 50 000 num ano. O que é ainda melhor é que as bibliotecas adquirem grandes quantidades de livros e investem cerca de 300 euros por cidadão (!!!) em livros, revistas, jornais e outros materiais. Caramba, que paraíso.

quarta-feira, setembro 11

Dia de passear

Como pegar o sonho

Livro é um sonho que você pega com as mãos
Neil Gaiman

Leitora


Gorongosa

Os animais não esqueceram. Quando percebem que estamos a aproximar-nos, famílias inteiras de macacos fogem diante de nós, trepam aos ramos mais altos; as impalas saltam na distância, traçam arcos perfeitos, é elegante o medo que as leva; até os leões, perante o nosso avanço cauteloso, se mudam para uma sombra mais distante.

Às sete da manhã, a terra ainda está fresca. O capim fura uma neblina rasteira que não ultrapassa a base dos troncos. As árvores sabem muito, desenham uma paisagem de riscos que se estende até onde os olhos aguentam ver. No ar limpo e no silêncio, o cheiro fértil da terra e o som de uma enorme multidão de insectos, aves que dispõem deste céu sem fim. O início do dia parece o início do mundo e, no entanto, há rastos que o vento apagou nos caminhos, mas que ainda se sentem.

Patrícia Santos Pinto
A casa dos leões não é usada há muito tempo. Hoje, só o simbolismo da sua história tem utilidade. O ano de 1940 ficou assinalado a cimento pelos portugueses que a levantaram. Então, destinava-se a receber os visitantes que vinham caçar. Com milhares de hectares à escolha, decidiram construir a pouca distância do rio e, na época das chuvas, o edifício ficou inundado. Dois anos depois, quando os homens o abandonaram, os leões reclamaram-no. Foi a partir daí que, ocupada por leões que subiam pelas escadas até ao terraço ou que permaneciam no seu interior, começaram a chamar-lhe "casa dos leões". Essa época terminou quando as paredes foram atravessadas por rajadas de tiros, quando os degraus das escadas foram destruídos. Durante os anos da guerra civil, os animais selvagens foram dizimados para servir de alimento aos militares. Em 1992, não houve cessar-fogo para os animais da Gorongosa porque, a partir daí, chegaram os caçadores furtivos.

Quando passamos pela casa dos leões, são estas memórias que se distinguem naquelas ruínas sujas.

Às vezes, quando passamos, há animais que ficam parados a olhar para nós. Fixam-nos com a mesma curiosidade com que os fixamos a eles. Há tanto que queremos dizer-lhes, mas esse instante dura pouco. Distinguem-nos um gesto, visível ou invisível, e estremecem numa corrida que parece sem fim ou direção. Com pena, ficamos a vê-los afastarem-se. Talvez um dia, voltemos a merecer a confiança dos animais.

A tarde é tingida por um calor seco. Como uma nuvem de pó, ar espesso e amarelecido pelo sol. O som dos insetos que marcam o horizonte é agora diferente. As raízes dos embondeiros continuam a segurar a terra.

Quando seremos capazes de dar valor ao que é realmente importante? É fácil esquecê-la, subestimá-la, mas é sempre a terra que está lá, por baixo de tudo o que fomos capazes de construir, por baixo de todo o alcatrão ou cimento. Quando seremos capazes de ser consequentes com aquilo que é inegável? A terra não depende de nós, a água não depende de nós, a luz não depende de nós; somos nós que dependemos da terra, da água, da luz. Somos nós que dependemos da natureza.

O sol vermelho desce atrás das árvores. Os ramos são veias e artérias de encontro a um céu de cores que vão mudando muito devagar. Tudo parece acontecer a essa velocidade. Este silêncio está por baixo de todos os sons com que enchemos o planeta.

A Gorongosa é esperança. Envolvendo as comunidades locais, contribuindo para o seu desenvolvimento e restaurando a vida selvagem no parque, o projeto de recuperação da Gorongosa é esperança em Moçambique, mas não só; é esperança em África, mas não só; é esperança no mundo inteiro.

A noite chega com todas as estrelas. O céu imenso, polvilhado. Medimos o nosso tamanho a olhar para este céu.

A vida é muito maior do que apenas a nossa vida.

A terra prepara-se para um novo dia. Os animais sentem-na debaixo das patas, sabem que dependem dela para tudo. Da mesma maneira, sentem a noite. Sabem que têm de sobreviver-lhe, porque os animais não esqueceram. Os leões não querem guerra. Os gnus não querem guerra. Os javalis-africanos não querem guerra. Os pala-pala não querem guerra. Os elefantes não querem guerra. Os animais, todos eles, só querem viver. Os animais não esqueceram.