segunda-feira, fevereiro 19

Surpresa!

Derek Nobbs
Derek Nobbs

Assim começa o livro...

Resultado de imagem para caim saramago
Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ?car irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido ?at, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, en? ou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certi? cação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo ?exível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ?cou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artí?ce que só lhe ?cava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.

Set, o ?lho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver su? ciente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o ?at foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro caim edepois abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na ?oresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão ?rme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um ?lho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham bene?ciado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ?cou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira de?nição de um até aí ignorado pecado original, nunca ?cou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer di? culdade em compreender que estar informado sempre será preferívela desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos ?lhos, no ?m de contas, são tão bons ou tão maus como os demais.

Ponto de ordem à mesa. Antes de prosseguirmos com esta instrutiva e de? nitiva história de caim a que, com nunca visto atrevimento, metemos ombros, talvez seja aconselhável, para que o leitor não se veja confundido por segunda vez com anacrónicos pesos e medidas, introduzir algum critério na cronologia dos acontecimentos. Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um ?lho aos cento e trinta anos de idade. À primeira vista, não, se nos ativermos apenas aos índices de fertilidade dos tempos modernos, mas esses cento e trinta anos, naquela infância do mundo, pouco mais teriam representado que uma simples e vigorosa adolescência que até o mais precoce dos casanovas desejaria para si. Além disso, convém lembrar que adão viveu até aos novecentos e trinta anos, pouco lhe faltando, portanto, para morrer afogado no dilúvio universal, pois ?nou-se em dias da vida de lamec, o pai de noé, futuro construtor da arca. Logo, teve tempo e vagar para fazer os ?lhos que fez e muitos mais se estivesse para aí virado. Como já dissemos, o segundo, o que viria depois de caim, foi abel, um moço aloirado, de boa ?gura, que, depois de ter sido objecto das melhores provas de estima do senhor, acabou da pior forma. Ao terceiro, como também ?cou dito, chamaram-lhe set, mas esse não entrará na narrativa que vamos compondo passo a passo com melindres de historiador, por isso aqui o deixamos, só um nome e nada mais. Há quem a?rme que foi na cabeça dele que nasceu a ideia de criar uma religião, mas desses delicados assuntos já nos ocupámos avonde no passado, com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo ?nal quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas. Agora somente nos interessa a família de que o papá adão é cabeça, e que má cabeça foi ela, pois não vemos como chamar-lhe doutra maneira, já que bastou trazer-lhe a mulher o proibido fruto do conhecimento do bem e do mal para que o inconsequente primeiro dos patriarcas, depois de se fazer rogado, em verdade mais por comprazer consigo mesmo que por real convicção, se tivesse engasgado com ele, deixando-nos a nós, homens, para sempre marcados por esse irritante pedaço de maçã que não sobe nem desce. Também não falta quem diga que se adão não chegou a engolir de todo o fruto fatal foi porque o senhor lhes apareceu de repente a querer saber o que se tinha passado ali. Já agora, e antes que se nos esqueça de vez ou o prosseguimento do relato venha a tornar inadequada, por tardia, a referência, revelaremos a visita sigilosa, meio clandestina, que o senhor fez ao jardim do éden numa cálida noite de verão. Como de costume, adão e eva dormiam nus, um ao lado do outro, sem tocar-se, imagem edi?cante mas enganadora da mais perfeita das inocências. Não despertaram eles e o senhor não os despertou. O que ali o tinha levado fora o propósito de emendar uma imperfeição de fabrico que, ?nalmente o percebera, desfeava seriamente as suas criaturas, e que era, imagine-se, a falta de um umbigo. A superfície esbranquiçada da pele dos seus bebés, que o suave sol do paraíso não conseguira tostar, mostrava-se demasiado nua, demasiado oferecida, de certo modo obscena, se a palavra já existisse então. Sem detença, não fossem eles acordar, deus estendeu o braço e, levemente, premiu com a ponta do dedo indicador o ventre de adão, logo fez um rápido movimento de rotação e o umbigo apareceu. A mesma operação, praticada a seguir em eva, deu resultados similares, ainda que com a importante diferença de o umbigo dela ter saído bastante melhorado no que toca a desenho, contornos e delicadeza de pregas. Foi esta a última vez que o senhor olhou uma obra sua e achou que estava bem.

Cinquenta anos e um dia depois desta afortunada intervenção cirúrgica com a qual se iniciaria uma nova era na estética do corpo humano sob o lema consensual de que tudo nele é melhorável, deu-se a catástrofe. Anunciado por um estrondo de trovão, o senhor fez-se presente. Vinha trajado de maneira diferente da habitual, segundo aquilo que seria, talvez, a nova moda imperial do céu, com uma coroa tripla na cabeça e empunhando o ceptro como um cacete. Eu sou o senhor, gritou, eu sou aquele que é. O jardim do éden caiu em silêncio mortal, não se ouvia nem o zumbido de uma vespa, nem o ladrar de um cão, nem um pio de ave, nem um bramido de elefante. Apenas uma bandada de estorninhos que se havia acomodado numa oliveira frondosa que vinha dos tempos da fundação do jardim levantou voo num só impulso, e eram centenas, para não dizer milhares, que quase obscureceram o céu. Quem desobedeceu às minhas ordens, quem foi pelo fruto da minha árvore, perguntou deus, dirigindo directamente a adão um olhar coruscante, palavra desusada mas expressiva como as que mais o forem. Desesperado, o pobre homem tentou, sem resultado, tragar o bocado de maçã que o delatava, mas a voz não lhe saiu, nem para trás nem para diante. Responde, tornou a voz colérica do senhor, ao mesmo tempo que brandia ameaçadoramente o ceptro. Fazendo das tripas coração, consciente do feio que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste paraviver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi. Revolveu-se o senhor contra a mulher e perguntou, Que ?zeste tu, desgraçada, e ela respondeu, A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso, mas digo sim que tive um sonho em que me apareceu uma serpente, e ela disse-me, Com que então o senhor proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim, e eu respondi que não era verdade, que só não podíamos comer do fruto da árvore que está no meio do paraíso e que morreríamos se tocássemos nele, As serpentes não falam, quando muito silvam, disse o senhor, A do meu sonho falou, E que mais disse ela, pode-se saber, perguntou o senhor, esforçando-se por imprimir às palavras um tom escarninho nada de acordo com a dignidade celestial da indumentária, A serpente disse que não teríamos que morrer, Ah, sim, a ironia do senhor era cada vez mais evidente, pelos vistos, essa serpente julga saber mais do que eu, Foi o que eu sonhei, senhor, que não querias que comêssemos do fruto porque abriríamos os olhos e ? caríamos a conhecer o mal e o bem como tu os conheces, senhor, E que ?zeste, mulher perdida, mulher leviana, quando despertaste de tão bonito sonho, Fui à árvore, comi do fruto e levei-o a adão, que comeu também, Ficou-me aqui, disse adão, tocando na garganta, Muito bem, disse o senhor, já que assim o quiseram, assim o vão ter, a partir de agora acabou-se-lhes a boa vida, tu, eva, não só sofrerás todos os incómodos da gravidez, incluindo os enjoos, como pariráscom dores, e não obstante sentirás atracção pelo teu homem, e ele mandará em ti, Pobre eva, começas mal, triste destino vai ser o teu, disse eva, Devias tê-lo pensado antes, e quanto à tua pessoa, adão, a terra ?cou amaldiçoada por tua causa, e será com grande sacrifício que dela conseguirás tirar alimento durante toda a tua vida, só produzirá espinhos e cardos, e tu terás de comer a erva que cresce no campo, só à custa de muitas bagas de suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado, na verdade, mísero adão, tu és pó e ao pó um dia tornarás. Dito isto, o senhor fez aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos um ao outro em sinal de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso bem se haviam aproveitado. Disse então o senhor, Tendo conhecido o bem e o mal, o homem tornou-se semelhante a um deus, agora só me faltaria que fosses colher também do fruto da árvore da vida para dele comeres e viveres para sempre, não faltaria mais, dois deuses num universo, por isso te expulso a ti e a tua mulher deste jardim do éden, a cuja porta colocarei de guarda um querubim armado com uma espada de fogo, o qual não deixará entrar ninguém, e agora vão-se embora, saiam daqui, não vos quero ver nunca mais na minha frente. Carregando sobre os ombros as fedorentas peles, bamboleando-se sobre as pernas trôpegas, adão e eva pareciam dois orangotangos que pela primeira vez se tivessem posto de pé. Fora do jardim do éden a terra era árida, inóspita, o senhor não tinha exagerado quando ameaçou adão com espinhos e cardos. Tal como também havia dito, acabara-se a boa vida.

domingo, fevereiro 18

O farol

El libro, faro de sabiduría (ilustración de Friederike Ablang)
Friederike Ablang

Coisas da internet

+ Viciar-se em internet não é uma micro, é uma macrodependência.

+ Com a internet se criou um curioso e pungente fenômeno: a solidão compartilhada.

+ Tudo bem, a internet é irresistível e irreversível. Mas que bom era o tempo em que se podia ver a sinceridade de uma carta de amor pelas lágrimas que borravam a tinta no papel.

+ A esperança, como a internet, é para os jovens. Os velhos não sabem lidar com ela.

+ Hoje, com a internet, já não temos tanto prazer com o exílio de certos chatos. Nem quando vão à Cochinchina.

"Colhe, pois, a sabedoria, armazena suavidade para o amanhã.” - Leonardo da Vinci -

+ A internet nos obrigou a ter uma opinião formada. Ou deformada.

+ Uma desculpa que não funciona mais: eu não entendo nada de internet.

+ Cada vez mais difícil é a vida dos segredos. As paredes agora têm olhos, ouvidos e internet.

+ Se tudo ficou mais simples com a internet, por que então é preciso reinicializar o computador? Reiniciar não bastaria?

+ No encontro ele descobriu que Elis

era a forma resumida de Elisabete

e que era mais bonita na internet.

+ Na internet, as garrafas que lançamos ao mar não contam com o álibi do acaso.

+ A palavra adeus não combina com a internet. Fica parecendo um violinista tocando no alto da roda-gigante, num parque de diversões.

+ A vida pode chegar, e a morte também, pelo e-mail, pelo msn, pelo bip do celular.

+ Ele já não abre a porta de casa nem a internet. Não suporta mais ver tantos cães abandonados e tantos homens tristes.

Começo lá atrás

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)Mulher lendo (esposa do pintor), 1962, pastel sobre papelão, 50 x 44 cm
Aaron Shikler
Se o leitor, o leitor de livros; aquele que gosta de ler, não se limitar àquilo que se faz agora, se ele andar pra traz e começar do principio, e poder ler os primitivos e os grandes cronistas e depois os grandes poetas, a língua passa a ser algo mais que um mero instrumento de comunicação, transformando-se numa mina inesgotável de beleza e valor
José Saramago

Domingueira

Juan Sebastian Amadeo

Que rezem pela minha alma pecadora

Há anos assisti na televisão inglesa à última entrevista de Evelyn Waugh, um escritor notável e brilhante e um homem complexo, contraditório, de temperamento difícil, muitas vezes insuportável, autor de uma obra importante e extensa, apesar de a sua vida não ter sido muito longa. Morreu de uma forma mais frequente do que se imagina: sentado na retrete a tentar fazer cócó, que é uma excelente maneira de explodir um vaso do cérebro. A entrevista foi talvez a melhor a que assisti em toda a minha vida porque o jornalista era extraordinário de talento, inteligência e humor e toda a gente sabe que a qualidade de uma entrevista depende do mérito e do engenho de quem a conduz. No caso de Evelyn Waugh a conversa, de parte a parte, foi espantosa e eu passei uma hora feliz a escutá-los porque nada se compara ao espectáculo de duas inteligências em movimento. Falaram da vida do escritor, da sua obra, do mundo, de tudo e eu ali pasmado a escutá-los, a aprender e a fruir. A última questão era assim

– O que espera dos leitores depois da sua morte?

e Evelyn Waugh, colérico, sarcástico, irónico, em muitas ocasiões insuportável, outras furioso, outras sereno, sempre em guerra consigo mesmo e com os outros, tornou-se de súbito uma espécie de menino grande

(quem não é um menino grande?)

e respondeu num pedido doce, com uma súbita sinceridade desarmante:

– Que rezem pela minha alma pecadora

Frederick Daniel Hardy (1826-1911) "Reading by the Fire"
Frederick Daniel Hardy
Católico inglês, como o seu amigo Graham Greene, coisa não muito frequente no seu país protestante, repetiu, mas baixo

– Que rezem pela minha alma pecadora

e a entrevista encerrou-se ali. Não menciona a posteridade, a esperança de permanência da sua obra, não aludiu a sonhos de glória póstuma: limitou-se a pedir que rezassem pela sua alma pecadora. E eu que sou seu leitor, rezo, apesar da minha tão complicada e por vezes agressiva relação com Deus

(Voltaire, por exemplo, dizia acerca d’Ele

– Cumprimentamo-nos mas não nos falamos)

por uma alma que, com tanta sinceridade, se desnudou por completo ali à minha frente e de muitos milhares de outros espectadores, a pedir-nos ajuda com uma simplicidade desarmante. A sua obra já não lhe pertencia, pertencia aos leitores do futuro que a julgariam de diversas formas, sujeitas às constantes flutuações do gosto, ora esquecida ora lembrada, ora inexistente ora viva de novo, ora exaltada ora diminuída, estendida de muitos e variados modos e, finalmente, esquecida para sempre, porque seremos inevitavelmente, esquecidos para sempre. Santo Agostinho, por exemplo, sustentava que, se deixasse cair um pingo de água, uma vez por ano, numa imensa esfera de ferro, quando finalmente a água deixasse marca no ferro ainda nem a eternidade havia começado, e as nossas chances de fazermos parte dela são, evidentemente, nulas. Nem é preciso ir tão longe. Nem é necessário ir tão longe: Aristóteles deixou os nomes dos dez maiores tragediógrafos gregos ou, pelo menos aqueles que ele considerava os dez maiores tragediógrafos gregos. Chegaram até nós três apenas, escritores sublimes, e nenhum deles consta da lista de Aristóteles: Eurípedes, Ésquilo e Sófocles, autores, aliás, sublimes. E, mesmo desses, o que perdura está longe de ser o seu trabalho completo. Estamos condenados ao desaparecimento total do nosso combate, por maior e mais genial que ele tenha sido. Oscar Wilde tinha razão

(tinha quase sempre razão, o sacana)

quando, ao mencionar Homero, escreveu “Homero ou outro grego com o mesmo nome”, visto que o Homero que temos, o da Ilíada e da Odisseia, não é certamente o original, a sua existência parece agora mais que problemática, e desconhecemos o verdadeiro autor daquelas onomatopeias únicas de que Pound falava. Sobram talvez os restos de uma alminha, para usar a expressão de Marco de Aurélio, perdida entre ínfimos restos de alminhas, um ditongo aqui, quase uma palavra acolá, e tudo o resto é, provavelmente, apócrifo. De qualquer modo o que compusémos, com tanta angústia, dificuldade e esperança, perder-se-á para sempre, e a certeza disto torna as nossas vidas mais estreitas e insignificantes ainda, condenadas a um esquecimento absoluto. Mais cedo ou mais tarde as nossas almas pecadoras vogarão sozinhas, minúsculas luzes bruxuleantes num nada absoluto. Resta-nos esperar

(eu, pelo menos espero, ter o destino do meu poeta favorito, Quevedo, nascido no ano em que Camões morreu
(1580)

que termina num dos seus mais geniais sonetos, falando de si mesmo após a sua morte:

Serei pó mas pó apaixonado

e nesse pó inapreensível continuaremos a ser. Uma ocasião, numa viagem de Bucareste para Constança parámos, o poeta Dinu Flamand e eu, num mosteiro isolado, com mais de seiscentos

(seiscentos)

seminaristas. O bispo disse-nos

– Vamos rezar uma oração pelas almas eternas dos escritores falecidos e seiscentas vozes a cantarem naquela catedral imensa foi a coisa mais grandiosa e comovente que alguma vez escutei. Todo eu tremia como uma folhinha ao vento, de olhos cheios de lágrimas. E tive, pela primeira vez na vida, a certeza de ser eterno. Pensei em Evelyn Waugh, pensei em mim. E consolou-me, Senhor, ser um grãozinho eterno. Um grãozinho sem obra e sem nome, mas de quem Te não esqueces. Por favor não ponham boneco nenhum nesta crónica. É que já está suficientemente iluminada. E é, de certeza, a mais comprida que fiz.

António Lobo Antunes

sábado, fevereiro 17

Vida vazia

Barriga de quatro meninos

Bevenuto era seu nome de batismo. Baixote, barrigudinho, olhinhos sumidos no rosto de sagui. Cabelos de índio na cabeça pequena, pernas finas. Levava a vida no trabalho diário, por trás do balcão. Sua vendola ficava no meio do quarteirão da rua estreita, por onde não passava carro, às vezes servindo de campo de futebol improvisado para a garotada se divertir aos gritos no vaivém do jogo.

Resultado de imagem para lendo e chutando a bola ilustração
A preocupação maior era que até o momento não tinha se tornado pai, casado há seis anos e nada da mulher Cidália emprenhar, dando-lhe de preferência um menino na primeira barriga. Não havia perdido a esperança, a boa surpresa podia acontecer um dia. No primeiro ano de casado, vendera as duas carroças de fazer mudança e aproveitara o cômodo da casa pequena na frente para instalar ali uma venda. Naquele cômodo, antes era uma sala, piso de cimento, vendia cigarro, charuto, fumo, fósforo, vela, aguardente; requeijão, farinha, milho, carvão. Pão, bolacha, cocada de coco, balas de jenipapo que a mulher fazia e a garotada achava uma delícia. Abria cedinho o pequeno estabelecimento, mesmo sabendo que os fregueses apareciam a partir das oito horas. O movimento dos fregueses era razoável na semana, melhorava no sábado.

Não gostava de emitir opinião sobre algum fato grave que abalava a cidade pequena. Não se encaixava com o seu jeito de homem reservado, mais para escutar, não gostava de se meter na vida dos outros. Tinha só que se preocupar com o seu trabalho diário na venda. Acostumara-se desde pequeno a ver a vida como uma viagem em que tudo acontecia porque tinha de acontecer mesmo. O destino era quem comandava os passos de cada vivente na estrada da vida, como certa vez lhe dissera o avô Bertino, um de cara de índio. Do passado, a gente deve só lembrar as boas, as amargas nunca. Viver, sim, o presente, que o futuro ninguém tem controle, completou o avô, o rosto sereno, de quem sabia das coisas, como se fosse uma espécie de filósofo popular, acumulado de lições proveitosa que a vida lhe ofertava sem nada cobrar.

Saltou um brilho dos olhos miúdos do Bevenuto quando Cidália acordou toda alegre naquele dia de domingo. Nossa Senhora Perpétua do Socorro atendera finalmente seus rogos, com vela acesa e reza do peito contrito, durante a semana. Antes de sair para a missa, noticiou ao marido que ultimamente estava com uma fome indomável, tinha vontade de comer até pedra, um enjoo esquisito, vomitava em segredo. Resolveu ir ao posto popular do bairro para consultar o médico. Soube dele que estava grávida. Melhor presente ele não podia ter recebido da Cidália, já na segunda-feira atendera aos fregueses num jeito tão falante como ainda não tinha acontecido.

Mais surpreso ficaria quando tomou conhecimento que a mulherzinha iria ter gêmeos. Que presentão, que notícia supimpa! Ah, a vida, gostava de fazer certas brincadeiras de bom gosto ou com asneiras, que deixam o vivente lambuzado de contente ou como um herói abatido, conforme o desfecho. Ainda bem que agora ela apareceu de bom grado para o lado dele. Iria satisfazer em definitivo o desejo de ser pai. Só não ficou mais satisfeito quando soube depois que a Cidália teve uma parição de quatro meninos. Com rendimentos modestíssimos que a venda fornecia, a vida, que já não era fácil, de agora em diante ia ser um suplício. Como iria se arranjar para alimentar e educar quatro filhos? Cidália recebeu a ajuda da Irmandade Senhoras de Caridade, que recolheu donativos entre os comerciantes e moradores das ruas principais da cidade. As contribuições deram para comprar o enxoval das quatro crianças e o leite em pó durante o primeiro ano. Outras contribuições vieram de pessoas que moravam na rua onde Benvindo mantinha a sua venda. Ajudaram na feira semanal, durante certo tempo.

Em casa com apreensões e muxoxos. Na venda tinha de ser compreensivo e sorridente com certos fregueses. Precisava manter a freguesia, mais que nunca. Curiosos, alguns dos fregueses queriam conferir de perto se a notícia era verdadeira. Aquela mulher magrinha, de estatura baixa, tivera mesmo quatro meninos duma só barriga? Durante a gestação, a barriga pequena nem parecia suficiente para ter um filho quanto mais quatro num só despejo, o de boca desdentada observava, junto do balcão. Tratava-se de verdadeira heroína! – outro dizia admirado, o mais afoito entre os três, que conversavam animados. Todo sorridente, pediu mais um copo de cachaça para comemorar o feito da mulherinha incrível.

Os quatro meninos foram batizados com os nomes de Geraldino, Genolino, Natalino e Nivaldino. Quando se tornaram rapazes, já dispostos para o esforço da vida, vivendo do suor do corpo, dois disseram ao pai que tinham escolhido como profissão para sobreviver a atividade mecânico de carro, os outros preferiram o ofício de eletricista. Assumiam suas atividades na semana, no domingo destacavam-se como jogador de futebol na liga amadora da cidade. Defendiam a camisa azul da aguerrida equipe do Janízaros Futebol Clube. Eram atacantes rápidos e com algum recurso técnico. Quando um deles fazia um gol, o difícil para a torcida era saber quem fora o autor da proeza. Nivaldino, Natalino, Geraldino ou Genolino?

Cyro de Mattos

sexta-feira, fevereiro 16

A melhor sala para se estar

Romance e romances: a arte da leitura

Ao longo do tempo, alguns escritores debruçaram-se sobre a leitura do romance, a origem da ficção e o papel do leitor. Mas não conseguimos chegar ao "centro secreto" da questão. "Centro secreto" é a expressão usada por Orhan Pamuk em O romancista ingênuo e o sentimental, para sublinhar a diferença entre o romance e as outras narrativas literárias. Segundo o escritor turco, o romance, e só ele, tem um centro secreto. Que centro é esse? De que é feito? Trata-se de um centro real ou imaginário? Tolstoi chamou a esse centro de "sentido da vida". O leitor, ainda segundo Pamuk, age como um "caçador que vê um indício em cada folha e em cada galho e os examina com toda a atenção, à medida que avança pela paisagem".

Tarde de nieve y lectura (ilustración de Sandy Vazan )
 Sandy Vazan
Para esse Prêmio Nobel de Literatura, Anna Karenina, de Tolstoi, é o maior romance de todos os tempos e sublinha a descrição do regresso de comboio de Anna a sua casa em São Petersburgo, ao marido e ao filho, após ter conhecido Vronski em Moscovo. Sublinha igualmente a descrição de Pierre a observar do alto de um monte a batalha de Borodinó, em Guerra e paz, do mesmo escritor russo.

O leitor é alguém que observa pela janela, confortavelmente, o panorama da batalha. Está diante de uma grande paisagem pintada, não entre as palavras de um romance, acrescenta. Por outro lado, em A metamorfose, de Kafka, com sufocantes atmosferas interiores, o leitor deixa-se influenciar e procura constantemente o aprisionamento da personagem. A ilusão de que o livro nos imerge num universo tridimensional dever-se-ia à presença do centro secreto. Mais imaginário do que real.

Quando lemos um romance ocorrem dentro de nós várias sensações. Essas sensações interiores diferem do que sentimos quando vemos um filme, contemplamos um quadro ou ouvimos um poema? Um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que a leitura de uma biografia, a visão de um filme, a leitura de um conto ou de um poema, no entanto "o efeito singular e verdadeiro da arte do romance é fundamentalmente diferente do de outros géneros literários, do filme ou do quadro", segundo Pamuk.

José Ortega y Gasset, no livro que escreveu sobre o Dom Quixote, afirma que lemos romances de aventura, romances de pouca qualidade (de amor, espionagem ou histórias de detectives) ou novelas de cavalaria para ver o que acontece na sequência da história, mas lemos o romance moderno pela sua atmosfera, o que é mais valioso. O filósofo espanhol parece portanto retirar valor à obra de Cervantes, um autor consagrado da História da Literatura.

Os alemães consideram a Bildungsroman o gênero mais condizente com o espírito e a forma da arte do romance. Ou seja, a obra que narra a educação e o amadurecimento de jovens personagens em sua adaptação à vida e ao mundo. O "romance de formação". É o caso de A educação sentimental, de Flaubert, ou A montanha mágica, de Mann.

E o que dizer, por exemplo, do nouveau roman de Alain Robbe-Grillet ou Michel Butor? Adiante. Ao ler um romance, sobretudo nas passagens que mais surpreendem e espantam os leitores, perguntamo-nos se a história que nos é contada é uma experiência real e em que medida é penetrada pela imaginação do escritor. (Mario Vargas Llosa, a respeito do seu primeiro romance, A casa verde, proferiu uma conferência nos EUA sobre os meandros da sua consciência que teriam levado à trama e personagens desse seu livro passado na Amazônia peruana. Trata-se da melhor reflexão divulgada a este respeito, de que tenho conhecimento, por parte de um romancista).

Perdemo-nos no romance, mas com ingenuidade pensamos que é real. A vitalidade da obra provém, em grande parte, da sua confiança em gerar esse efeito. Acreditar em ideias contraditórias. E assim, como afirma Pamuk, "uma terceira dimensão da realidade começa, pouco a pouco, a emergir dentro do leitor: a dimensão do complexo mundo do romance. Os seus elementos conflituam mutuamente, porém ao mesmo tempo são aceites e descritos". Ou seja, a leitura suspende a experiência e a recompõe em outro contexto.

Temos um outro aspecto: as personagens que lêem. "Hamlet entra lendo um livro" (sinalizou Shakespeare) ao encontrar-se com Polónio que lhe pergunta o que está a ler. O ambiente é a luta pelo poder no reino da Dinamarca. "Palavras, palavras, palavras", responde o príncipe. Marlowe, o detective privado dos roman noir de Raymond Chandler, dialoga longamente sobre T.S. Eliot com um motorista negro, antes de decifrar um violento crime em Los Angeles. A tensão entre a cultura de massas (cujo campo é a informação) e a alta cultura (inspirada na experiência) é bem mediada neste estilo de narrativa policial de origem norte-americana.

"Que livro levaria para uma ilha deserta?", é pergunta recorrente em inquéritos da sociedade de massas. Há uma relação entre leitura e ilha deserta - e Robinson Crusoé é o modelo do leitor isolado. O que ele lê dirige-se só a ele. O leitor ideal é aquele que está isolado, fora da sociedade. Podemos chegar a consensos. A literatura transmite experiência e não informação e o romance é mais eficaz quando compreende as personagens e não quando as julga.

Enfim, a intimidade que se estabelece entre o leitor e o escritor, a ilusão de que o romance que o leitor lê foi escrito unicamente para ele e a cumplicidade entre o romancista e o leitor que a obra consegue estabelecer, que ajuda o leitor a evadir-se, parecem ingredientes necessários a um bom romance. Ou, como escreveu E. M. Forster em Aspectos do romance: "O teste final de um romance será o afecto do leitor por ele.

 Jacinto Rêgo de Almeida

Encontro noturno

 Debbie Tung 

O amendoim e a fábula

Veio de longe para tentar a vida no Rio. Queria ser escritor. Até a idade de oito anos vendera amendoim torradinho.

Entre o amendoim torradinho e a glória, o caminho era duro, mas ele seria forte. O físico não ajudava: pequenino, magrinho, nervoso. Tipo ideal para extrema esquerda do Olaria.
Sabia escrever e escrevia bem. Não tinha cultura, mas ninguém precisa ter cultura para escrever. Cultura até atrapalha.

Amor também atrapalha. E começou a amar e a ficar atrapalhado. Quando levou o primeiro fora respeitável, deixou crescer a barba em sinal de protesto ou de dor. Protesto um tanto lírico, dor um tanto velhaca, mas a cara adquiriu aspectos sombrios, parecia efígie de selo belga.

s.o.s

Murmuram as línguas informadas que nunca esqueceu esse primeiro amor. Se não esqueceu, pelo menos não abriu as veias: enfrentou novamente a vida e o amor, e foi amando e escrevendo para os jornais. Mas, ao fim da noite, quando se olhava no espelho, ele sabia que amara e fora traído, sofrera e gozara apenas para esquecer a primeira.

Saía então para beber. Bebia e perdia o emprego. Mudou de jornal, em um ano percorreu todas as redações do Rio e todos os bairros onde houvesse mulher digna de seu amor e de sua dor. Ameaçava escrever um romance quando os amigos diziam que ele estava se perdendo.

Até que um dia correu a notícia: fugira com uma mulher casada para Brasília, num Volkswagen. A notícia tinha metade digna de crédito: a fuga com a mulher casada. A metade inverossímil era o Volkswagen -os tempos andavam magros, e ele não tinha dinheiro nem para o bonde.

Mas o carro podia ser da mulher, e aí a fuga faria sentido. Não fez sentido foi a semana seguinte. Voltaram os dois de Brasília, ele e ela, sem Volkswagen mesmo. O marido perdoou a esposa prevaricadora, e a esposa, livre da prevaricação, tomou fobia pela cara do ex-amante, e o ex-amante tomou pifões em diversos bares e escreveu cartas que os suplementos literários publicavam.

Recusou oferta de um emprego em Brasília. Volta e meia os governantes querem prestigiar a classe e convidam tudo quanto é intelectual para os gabinetes. Em uma dessas ondas, veio o convite e seguiu a recusa:

-Vim ser escritor no Rio, e não funcionário em Brasília!

Atitude e a frase eram dignas de figurar na Enciclopédia Britânica, e, por causa disso, pediu R$ 500 ao amigo: estava na negra. Precisava encher a cara, uma infiel de Ipanema. Dera-lhe sopa no teatro e bolo no dia seguinte.

-Como pode, hein?

-Mulher é assim mesmo.

-Mas elas mudam tanto!

-Isso já está em ópera.

Não foi beber com os R$ 500. Foi é enfrentar um macarrão com bastante queijo, matar a fome de dois ou três dias.

E, dois ou três dias depois, ameaçou suicídio. Uma mulata fatal, de olhos enormes, carnuda. Tomou enorme pifão e tentou a morte: pulou da janela.
Mas não morreu nem se feriu: dois meses atrás morava num oitavo andar, agora morava no chão -a altura da janela não deu nem para curar a bebedeira.

Agora sim, iria escrever um romance. Todo mundo acreditou no romance, inclusive ele.

Comprou resmas de papel, máquina portátil, fez um esboço que chegou a publicar. O livro passou a ser citado. Duas ou três passagens conhecidas de relato oral foram incorporadas definitivamente aos melhores momentos da ficção nacional.

Raspou e deixou crescer a barba inúmeras vezes, amou e foi traído, pulou janelas e empregos, foi envelhecendo e perdendo a pinta de menino prodígio, os olhos ficavam baços atrás das lentes cada vez mais grossas.

Pelas madrugadas da cidade, é agora um vulto que passa sempre às mesmas horas e nos mesmos lugares, procurando público e amor. Qualquer um dos dois serve: tanto o amigo que ouvirá mais um trecho do romance que ainda não escreveu como a moça que lhe despertará paixão, ciúmes, novas e sofridas epístolas.

Some pela rua escura. O passo é nervoso, ligeiro. Tem ainda a agilidade do vendedor de amendoim. E o cansaço do homem grande que o vai envolvendo em silêncio e tornando cada vez mais obstinada a vontade de ser feliz.
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, fevereiro 15

Em casa, à moda antiga

A great place to read by Artist: Annika Connor The Lovejoy Approach, 21st century.

Livros de amor

O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.

Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.

Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.

O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.

— É interessante? — perguntou.

— Desculpe, eminência. Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.

— Interessa-lhe? — repetiu o padre.

— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.

— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.

— Eu também gosto deles. À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?

— Não. Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.

Para los enamorados del libro y la lectura: Feliz Día de San Valentín / For lovers of books and reading: Happy Valentine’s Day
(ilustración de Alberto Gamón)

— Como sabe disso?

— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.

O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.

— O senhor leu muitos livros?

— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.

— Todos os livros tratam de santos?

— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.

Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.

— De que falam os outros livros?

— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…

O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.

— Como são os livros de amor?

— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que um par.

— Não importa. Como são?

— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes.

Luís Sepúlveda, "Um velho que lia romances de amor"

Árvore da sabedoria

Qual a melhor forma de incentivar a leitura do seu filho?

Forçar uma criança a ler pode atrapalhar seu desenvolvimento natural. Mas infelizmente isso acontece com frequência, pois algumas famílias costumam antecipar essa situação. Um aluno na fase de Educação Infantil ou de séries iniciais do Fundamental está em processo de alfabetização, que acontece desde seu ingresso na escola. Esse desenvolvimento é muito espontâneo. O pequeno tem uma motivação, que é interna, e tem todo estímulo externo, trazido pela escola e família. Porém, temos que respeitar o tempo de cada um, pois a aprendizagem é individual. Não podemos pular alguma etapa desse desenvolvimento. Nesse sentido, a escola é que sabe dessa caminhada e entende o processo. Por não ser especialista na área, muitas vezes a família pode não compreender e tomar um direcionamento errado. Portanto, a ajuda por parte dos pais é mostrar para a criança a importância da leitura e qual a sua função social, mas sem obrigá-la a ler.

Pai e mãe tornam-se bons exemplos sendo leitores. O segredo é motivar e não exigir. De que forma? Ler para seus filhos, levá-los à biblioteca, à livraria e ter um ambiente letrado em casa. Esses são fatos que ajudam muito mais que atitudes formais de estudo. É a escola que vai orientar a família. Com mais de 30 anos na área de educação e também atuando como coordenadora pedagógica da Educação Infantil no Colégio Salesiano Santa Teresinha, situado na Zona Norte de São Paulo, eu percebi que se houver qualquer necessidade de um acompanhamento diferente, é a instituição que vai dar a orientação. Por isso, os pais devem tomar cuidado, porque às vezes uma expectativa grande acaba atrapalhando a criança, que passa por várias fases que precisam ser respeitadas. Se a família as antecipa, o filho pode se prejudicar, pois fica inseguro e frustrado ao não conseguir corresponder aos anseios.

A unidade escolar tem autoridade nesse processo, que tem de acontecer de maneira espontânea, com o pequeno estudante construindo seu saber de forma participativa, resultando no sucesso e desenvolvimento adequados. Mas, afinal, qual é a melhor forma de incentivar a leitura? Como inseri-la no dia a dia? É importante que seja um hábito diário e, sempre que possível, motivador, envolvente e prazeroso. Em casa, a família deve cuidar para que esses momentos não sejam didáticos, pois competem à escola.

A família não pode trazer para casa atitudes ou atividades formais escolares, mas ela pode incentivar, valorizar e motivar. A simples atitude de ir até uma banca de jornal com o filho(a) comprar uma revista ou um jornal – algo que está ficando raro por conta da tecnologia – e deixar a criança pegar uma história em quadrinhos ou outro tipo de publicação infantil, por exemplo, é uma forma muito boa de estimular, pois a insere nessa rotina. Deixá-la folhear revistas, gibis, livros e outros veículos de acordo com a faixa etária. Ler e trazer toda aquela magia da história ajuda muito, ou seja, fazer atividades lúdicas e motivadoras, como sentar e ler os livrinhos dela. Não é levar o pequeno em um cantinho da leitura e deixá-lo lá enquanto faz outras coisas, é estar com ele.

Sempre que possível, o momento de leitura deve ser compartilhado. Além dos materiais didáticos, atualmente as editoras de ótimos livros infantis investem em publicações recreativas, coloridas e informativas, recheadas de interatividade, com belas ilustrações e muitos detalhes do nosso cotidiano. Mas vale lembrar que bom senso é a palavra certa, ou seja, não é recomendável deixar a criança com pouco tempo livre para seu lazer, pois isso também pode prejudicar o desempenho escolar.

O pequeno não deve ter muitas atividades extras, que preencham todo o seu dia. Ele tem que ter o tempo para brincar, descansar ou assistir a um desenho. Ele pode até adorar a leitura, mas também precisa ter uma rotina com outras atividades para participar. Portanto, é necessário regrar o tempo livre entre os livros, os momentos de estudar e de escolher com o que ele vai brincar e o que vai fazer. Afinal, o lúdico faz parte da infância.

Gislene Naxara

quarta-feira, fevereiro 14

Voltamos!

Me voy a leer (ilustración de João Vaz de Carvalho)
João Vaz de Carvalho

Delírio nem tanto anônimo

felicita sala illustration
Com 40° à sombra, numa canícula senegalesca, o livreiro sonha com uma livraria em pleno Polo Norte. Venderá a esquimós livros de viagem sobre países tropicais, ou obras infantis como “Minha foquinha feliz”, “Aventuras de um leão marinho”, ou “Sonhos de uma baleia branca”. Com tanto calor, só mesmo delirando!

Natureza à luz da lua