quinta-feira, agosto 25

Claras manhãs de leitura

ji-hyukkim:
“Publication of ‘Hanuol’s Reading Through Pictures,’ Image Box
”
‘Hanuol’s Reading Through Pictures'

MEC reprova lidos didáticos por ver racismo e machismo nas imagens

O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) reprovou livros didáticos por considerar racistas e machistas imagens de mulheres, negros e até indianos em problemas sociais – como enchentes em São Paulo, dramas da seca na África e na Índia e até mesmo campanhas de saúde pública criadas pelo próprio governo federal.

Uma coleção de quatro volumes de Ciências da Natureza foi excluída do Programa Nacional do Livro Didático porque os avaliadores consideraram que algumas imagens caracterizam “discriminação e violação dos direitos humanos” ao reproduzir “estereótipos e preconceitos de condição social, étnico-racial e de gênero”.

Uma das imagens consideradas nocivas é a de mulheres africanas carregando vasos de barro, que ilustra a abertura de um capítulo sobre o drama da falta de água no planeta. Segundo o parecer, assinado em abril, ainda no governo Dilma, fotos como essa “trazem situações que retratam condições de inferioridade com relação aos negros e mulheres. Colocam também a mulher como vítima de desigualdade de direito a condições adequadas de vida”.

A mesma avaliação recebeu a foto de uma enchente cujas vítimas são pardas, e uma pintura naif que poderia muito bem ser interpretada como simpática ao movimento negro. Para o FNDE, as imagens ainda “enfatizam o desnível sociorracial acentuando distorções com conotações especificamente raciais e ferem o conceito de igualdade social”.

Na prática, o critério politicamente correto do MEC veta qualquer imagem dos livros em que mulheres, pardos ou negros estejam relacionados a notícias negativas. Acaba privando os estudantes da informação sobre o perfil étnico das pessoas que mais precisam de ajuda na sociedade brasileira.

Uma das imagens classificada como contrária aos direitos humanos foi produzida pelo próprio governo Dilma. Retrata o cantor Thiaguinho e sua bem-sucedida luta contra a tuberculose. Parte de uma campanha do Ministério da Saúde de conscientização sobre a doença, o cartaz ilustra o capítulo sobre doenças transmissíveis do livro de sexta série.

Até mesmo um cartaz de conscientização sobre a tuberculose, criado pelo Ministério da Saúde, foi considerado racista pelo MEC

O MEC viu racismo contra negros até mesmo em imagens que não são de negros. Foi o caso de uma fotografia de indianos com baldes na mão cercando um caminhão-pipa. A própria legenda no livro da sexta série informa que a foto é de Nova Déli e que a Índia é um dos países que mais sofrem com o racionamento de água.

A aprovação do FNDE define o sucesso de vendas de uma coleção de livros didáticos, pois seleciona as obras que serão usadas por 32 milhões de alunos do Ensino Fundamental de escolas públicas.

A autora da coleção, que prefere não se identificar por temer perder oportunidades no mercado editorial, foi professora de Ciências e Biologia na rede estadual e federal por 25 anos, escreve livros há 20 anos e já ganhou o prêmio Jabuti na categoria didáticos. Ao receber a notícia da reprovação dos livros, ela imaginou que os motivos seriam técnicos ou pedagógicos. Quando leu o relatório, ficou revoltada. “Nunca vi na minha vida uma barbaridade e uma perseguição como essas”, diz.

Leia mais, inclusive o parecer do PNDL

Lugar encantado

Arrumação

 Resultado de imagem para arrumando a bibliotec
Forçado a tirar da biblioteca as obras inúteis, para dar lugar a alguns volumes científicos recentes e romances modernos que frequentemente tenho de consultar, tomei em massa todos os poetas e os atirei ao porão. A estante não é um móvel, e sim um instrumento de uso diário, que seria mais ágil e pronto se os poetas, esses maçantes que tem pretensões a prateleira privilegiada, não estivessem ali, paralisando-lhe o funcionamento. Na adolescência todos nós lemos os poetas e, quando rapazes, possuímos uma bicicleta, mas é preciso não haver compreendido o sentido da vida para na idade madura continuarmos a nos servir desses velhos arneses do pensamento e da locomoção. Uma pessoa bem educada, chegando a certa idade, deve jogar no porão, com os respectivos acessórios, tanto a bicicleta como Petrarca
Pittigrilli, "1° ano ginasial, Turma B"

quarta-feira, agosto 24

Esposa no sacrifício

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O que você vai ser quando crescer

Então, em uma noite chuvosa, naquela mesma colônia de férias em Pentagna, eu estava com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de “Um estudo em vermelho”. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!
fleurdulys:
“Reading a Book - Adrien-Jean le Mayeur
”
Adrien-Jean le Mayeur
Quando percebi, tinha mergulhado de cabeça naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li “A volta de Sherlock Holmes” e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: “O fantasma da meia-noite” e “A perseguição”. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.
Raphel Montes

Rios de prazer

Joost Swarte

Quem lê vive mais

igormaglica:
“ Antonio Berni (1905-1981), La muchacha del libro / Book Girl, 1936.
oil on canvas, 110 x 80 cm
”
Antonio Berni (1905-1981)
Uma sessão diária de leitura com duração de 30 minutos. De acordo com um estudo da Universidade de Yale, dos Estados Unidos, é disso que você precisa para viver 23 meses a mais do que quem não tem o hábito de ler livros.

Os pesquisadores da escola de saúde pública da universidade concluíram que quanto mais as pessoas leem, mais chances elas têm de ter a vida prolongada – mas três horas e meia por semana foi o período considerado o suficiente para a medida tenha o impacto positivo prometido.

Os novos resultados corroboram com outros estudos que ligam a leitura de livros a ajudar a manter o cérebro ativo e saudável.

A leitura de romances "treina" as regiões de processamento de linguagem do cérebro, criando um efeito chamado "engajamento cognitivo". Pesquisas da Universidade de Harvard e da Universidade de Emory (Atlanta) suportam essa teoria.

O estudo da Universidade de Yale envolveu 3.635 pessoas com idades de 50 anos ou mais. A expectativa de vida maior registra entre as pessoas que liam ou não foi avaliada com base na probabilidade de morte constatada por métodos que não foram publicamente detalhados.

Pessoas que liam mais de três horas e meia por semana apresentaram 23% menos chances de morte, enquanto as que liam até três horas e meia por semana apresentaram 17% menos chances de falecer do que as pessoas que não praticavam a leitura com regularidade.

Agora, os pesquisadores irão analisar os efeitos de livros de fição e não-fição, bem como dos livros digitais e dos audiolivros na saúde humana. 

terça-feira, agosto 23

Hora do café

Reading:

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

paintingispoetry:
“Almeida Júnior, Saudade detail, 1899
”
Almeida Júnior
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titereteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pode haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
Rubem Braga

Biblioteca de Frankenstein

Bernie Wrightson

Assim começa o livro...

Não seria propriamente um conto, ficaria dias e mais dias rondando a sua cabeça, você não escrevia uma única frase, uma palavra que fosse, pois ela o comprometeria com um seguimento, um desfecho, e o que você queria era uma prosa solta, que não precisasse ser escrita e concluída; que fosse um pensamento livre em movimento, levando-o a paragens infinitas e movediças, algo que nunca chegava a fixar-se, apesar de alguma ordem. Mas se poderia argumentar: se não se escreve não é um conto, mas para você é, existe um protagonista, um ser que habita um corpo e agora se põe em situação, está sentado em um banco individual de lotação, você o pegou na rua São Francisco Xavier, nas cercanias de Vila Isabel, depois de ter saído do Maracanã, digamos que de um jogo entre Vasco e América, você ia a qualquer jogo, sozinho ou com o seu irmão, o pai os deixava livres, era uma outra época, sem muita violência, da cidade; você estava com doze anos, até quase a metade deste ano de 1954 morara com a família em Londres, onde o pai fizera um curso de pós-graduação em ciências econômicas e o pai também não os impedia de saírem 8 sozinhos pela cidade estrangeira, que vocês dominavam melhor do que os adultos. Matando aula, vocês percorriam todas as estações do metrô, bastava pagar com moedas na máquina os bilhetes para a estação mais próxima — os preços eram diferenciados — e torcer para não aparecer nenhum fiscal que poderia levá-los para o colégio ou para casa, vai ver até passando pela delegacia, a rigidez inglesa que criminalizava até meninos, discutia-se isso na tv. E, com o bilhete mínimo, vocês iam aonde quisessem, desde que não tentassem sair numa estação fora do perímetro do bilhete. 

Um dia, no colégio, na hora em que todas as turmas se reuniam num salão, antes do almoço, vocês assistiram, estarrecidos, ao headmaster chamar um menino — um dos menores — à sua presença e, depois de dizer qualquer coisa ao garoto, referente a uma falta disciplinar, mandou que ele estendesse a mão, uma de cada vez, e levantando o headmaster a própria mão, segurando uma sola de borracha, aplicou a palmatória, com violência, três vezes em cada mão do menino, que abriu a boca de tanto chorar. Você e seu irmão ficaram chocados e revoltados. No Brasil isso seria inconcebível. Se você conta isso neste momento do texto, é porque talvez tenha tido uma grande influência no gazetear de aulas. 

segunda-feira, agosto 22

Novo leitor

Sugestão de risco

Manipulações e Ilustrações surreais por Tebe Interesno:
Tebe Interesno
Um amigo me procurou para falar de como, de repente, foi acometido de uma incontrolável necessidade de escrever ficção. Mas seu trabalho em importante escritório de advocacia não lhe dá tempo para isso. Como me julga uma autoridade no assunto, perguntou-me o que fazer. Respondi que, se essa necessidade for mesmo incontrolável, nada o deterá —ele jogará tudo para o alto, carreira, família, e se tornará escritor.

Se bom ou mau, só se saberá quando publicar seu romance ou livro de contos —se chegar a publicá-lo.

Mas nada o livrará de ter de lutar minimamente pela subsistência, e o ideal seria achar um emprego compatível com a criação literária. Daí, sugeri-lhe aquele que, segundo William Faulkner, autor de "Santuário", era o emprego ideal para um escritor: o de gerente de bordel.

É um lugar, disse Faulkner, onde se pode dormir (quartos não faltam), comer e beber no emprego. Não há muito que fazer - no máximo, cuidar de que os impostos sejam pagos em dia e ir mensalmente à delegacia para contribuir com o fundo de pensão da polícia. O bordel é sossegado pela manhã, que é a melhor hora para escrever. À noite, a vida social é intensa, e o sujeito pode participar dela, se quiser. Além disso, tanto os clientes quanto as meninas são potenciais fornecedores de material para seu livro.

É também um emprego, continua Faulkner, que garante ao sujeito um relativo status em sociedade. Todos os inquilinos da casa são mulheres e o tratam com deferência. Idem quanto aos fornecedores de bebida, que dependem do seu aval sobre as falsificações. E o próprio delegado será alguém a quem ele poderá chamar pelo apelido ("Bolão") e até dar tapinhas na barriga.

Faulkner não disse, mas o risco nessa história é o sujeito se apaixonar pelo emprego e desistir da literatura. O que talvez não seja má ideia.

Sabores do Oriente

the-flying-salmon:
“Les Saveurs De L'Orient, Mona Trad Dabaji
”
Mona Trad Dabaji

Madrugadas na Biblioteca Mário de Andrade

Uma mulher de touca de lã rosa corre desesperada pela Avenida São Luís, no centro de São Paulo, à 1h10 de quarta-feira. Tudo tão silencioso a esta hora, sem passar ônibus nem carro, que ouve-se bem a moça arfando, os passos apressados na calçada, e também a gritaria.

– Ele vai me furar! – berra a mulher, perseguida por um ladrão, canivete no bolso, exigindo carteira e celular.

Ela diminui o ritmo, está quase desistindo – queira Deus seja só um assalto... – mas recobra o ânimo quando vê um prédio iluminado na esquina. Aproxima-se, escuta o bandido soltar um xingo e ouve um rapaz ali por perto: “Entra aqui, corre pra dentro!”.

Quando vê ela já está metida no hall do edifício, guiada devagarinho ao bebedouro, pra que se acalme. O ladrão quebrou à esquerda e sumiu. O rapaz oferece um cigarro. Que que é aqui mesmo?

– Bi-bli-o-te-ca? – a moça ri alto, meio incrédula, agora a salvo – não acredito que acabei minha noite numa biblioteca!

A Mário de Andrade, segunda maior do País e desde 1º de julho a única a funcionar 24 horas, se tornou refúgio de leitores notívagos. E de muita gente mais. Há vez aos que gostam dos livros – e também aos que não gostam, aos que gostam mas já se esqueceram disso, aos muitos que ainda não sabem que gostam. Aos que fogem do assalto, do frio, a quem está ali pelo Wi-Fi. Para receber esse povo todo, faz um mês e meio que a biblioteca não fecha as duas portas, nem a da Rua da Consolação, nem a da São Luís.

A mulher da touca rosa é a Nádia Pinheiro, de 31 anos, vendedora de bijuterias nas ruas do centro, e que perdeu o último trem do metrô logo hoje, dia do seu aniversário. Fizeram bolo lá na casa dela, na Favela do Cantão, na zona sul, mas ficou pra amanhã. Ela agora pita um Derby com o Higor Coutinho, universitário (cursa Matemática na FMU), de 20 anos, o rapaz que apontou a ela a biblioteca, e que usa o espaço pra ler e estudar. Ele tinha dado um tempo no Grande Crônica da Segunda Guerra Mundial: de Stalingrado a Hiroshima (Reader's Digest Edições), quando foi pra fora e deparou-se com a tentativa de assalto. Vai agora apresentar a biblioteca à moça.

As duas áreas chamadas “de convivência” da Mário estão abertas 24 horas desde outubro passado. Vêm dando abrigo a moradores de rua, a imigrantes que buscam um rumo, aos que se recuperam das baladas. Não se pode usar o lugar para dormir, mas, como aqui é agradável (bem mais do que a rua) e os vigias têm uma área grande a cobrir, as mesas ficam repletas de cabeças exaustas apoiadas em braços também fatigados – uma transgressão que resulta em interação constante entre os guardas e os que dormem. Vigias chacoalham (“ô!”, “não pode!”), adormecidos acordam, resmungam, alinham a coluna. Caem de volta à mesa logo depois. A dança dura a noite toda.

Mas o perfil do lugar se tornou mais complexo com a novidade do último mês, quando a biblioteca circulante (50 mil títulos) passou a abrir também 24 horas, todo dia. Adicionou substância – livros, autores, enredos – à cena noturna do centro.

É 1h40, e seis pessoas ocupam algumas das 16 mesas de madeira da circulante. Para emprestar livros nas três máquinas de autoatendimento, basta ter o número da matrícula no Sistema Municipal de Bibliotecas e uma senha que se faz na hora com os atendentes noturnos (misto de recepcionistas e livreiros, novidade no serviço público). Higor e Nádia caminham entre as estantes, ele ainda com o Grande Crônica... na mão, e ela agora também com um livro,A Princesa Vermelha (Record), de Sofka Zinovieff (foi ele quem escolheu, pois ela ainda estava tímida no local).

Um dos seis leitores acaba de se levantar, deixando na mesa, perto da seção de Ciências Ocultas, o Dicionário do Mundo Misterioso: Esoterismo e Paranormalidade (Nova Era), de Gilberto Schroeder. É José Aroldo dos Santos, um ex-torneiro mecânico de 67 anos, que caminha até a área de convívio e apoia-se em uma janela por onde entra o vento frio – ele tem obra nas mãos, Universo em Desencanto, que explica a Cultura Racional, crença popularizada na música de Tim Maia. Aroldo vai até a parede vermelha desta sala, feita para rabiscar a giz, e escreve: “Cultura Racional: o livro do momento”. Com letras redondas, prossegue: “Conhecimento para desenvolver o raciocínio”.

“Como todo bom estudante, estou pronto para passar adiante o que sei”, diz Aroldo, mineiro de Juiz de Fora e que vive aqui perto, num prédio da Praça Marechal Deodoro. “Descobri a biblioteca aberta à noite por acaso. Tava voltando pra casa e me deparei com o predião todo aceso. Agora venho sempre, porque aqui tem gente curiosa, bom pra conversar.” Animado, ele confidencia: “Acho que é um sinal. Um prédio com toda essa energia elétrica fluindo, toda essa energia magnética do conhecimento... É como um chamado. Vai que encontrei o lugar ideal para divulgar minha crença?”, questiona, e entrega um folheto.

Aroldo frequenta as seções de História e das várias ciências. Vem todas as noites, e observa de sua mesa o desenrolar das madrugadas: “O que tem de gente que vem pra ficar de olho em laptop...” São os “olheiros”, figuras conhecidas dos vigias. Entram na circulante, pegam um livro qualquer, mas nem chegam a virar as páginas. “Querem saber de outra coisa, mapeiam quem tem celular bom, computador...”, conta um segurança. “Se bobear é que nem gavião: tchum! E lá se foi o tablet. Temos duas advertências: não deixar o equipamento sozinho nas mesas, e tomar cuidado nos arredores.” No projeto de abertura noturna, a direção bem tentou incluir a segurança da praça vizinha, a D. José Gaspar. A Prefeitura não autorizou, e a Guarda Civil Metropolitana continua responsável pelos arredores. Como há sempre funcionários por perto, dentro da biblioteca a sensação é de segurança à noite, e ainda não foram registrados furtos nesse horário.

A essa altura, 2h30 da manhã, numa das bancadas do mezanino, uma mulher de hijab e um rapaz de coque no alto da cabeça dividem um fone de ouvido e sorriem olhando a tela de um laptop. Elham Selim, egípcia de 28 anos, e Makarem Tuiki, tunisiano de 26, que fazem um intercâmbio de trabalho numa ONG, encontraram aqui um bom lugar para atualizar a conversa com o povo de longe. Queixam-se da escassez de livros em inglês, mas dizem considerar a biblioteca “o melhor lugar pra ver filmes em São Paulo”. Eles agora assistem à comédia francesaIntocáveis. “O Wi-Fi funciona bem de madrugada”, diz ela. “E é bom aos estrangeiros, porque temos poucos amigos, e aqui podemos ficar entre outras pessoas.”

Também no mezanino circulam Higor e Nádia (recuperada do susto), parados em frente à seção de Filosofia. Ele segura O Filósofo e a Teologia(Academia Cristã), de Étienne Gilson. Nádia agora está falante, e tem em mãos Cartas Escritas na Montanha, de Jean-Jacques Rousseau. “Conheci o Rousseau num vídeo do Leandro Karnal. Pelo que ele contou, o Rousseau sofreu muito, foi injustiçado. Se eu sofresse a metade, me matava”, ela diz. Passaram-se três horas desde a tentativa de assalto, e os dois ainda estão passeando entre as estantes, ainda falando de livros – vem de longe o hábito da leitura na vida deles? Higor atribui à escola, mas a Nádia, que estudou até a sexta série, adquiriu o costume de outra forma. “Deixava meus dois filhos numa livraria Saraiva, enquanto trabalhava. Quando ia buscar ficava lendo.” Nesses intervalos leu Invencível, de Laura Hillenbrand, que considera seu livro preferido. “Mas já faz muitos anos. Outras coisas roubaram minha atenção, e não pude mais ler. Sentia um vazio... Agora que sei que uma biblioteca abre à noite, quero vir mais vezes depois do trabalho.”

A abertura 24 horas da Mário de Andrade é planejada desde 2013, mas começou a sair do papel só no fim do ano passado. Foi preciso novas licitações para os serviços – o número de funcionários subiu de 150 para 250, e as despesas subiram 38% (de R$ 10,8 milhões para R$ 15 milhões anuais). “A abertura faz parte da política de aproximar a Mário de Andrade do público. Biblioteca não é depósito de livros. Tem de ser vista como um centro de encontros”, diz o diretor da instituição, o filósofo e professor da USP Luiz Armando Bagolin. “Temos livros sobre teatro, então vamos montar peças aqui dentro. E isso vale para música, cinema, todas as áreas.” Uma das inspirações vem do sistema público de bibliotecas de Nova York e, por lá, funciona: o orçamento do setor aumentou 10% de 2015 para 2016 quando se notou o sucesso dos serviços oferecidos (de aconselhamento profissional a aulas de tricô, com filas de meses). Por aqui, por outro lado, houve congelamento.

Em um mês e meio de funcionamento 24 horas, a biblioteca recebeu em média 60 pessoas por madrugada (0h às 7h). E teve média de 18 livros emprestados por noite – ou seja, 30% dos visitantes levaram alguma obra para casa. A relação é mais positiva do que a que se viu durante o dia no mesmo período (cerca de 20% levaram livros). Seria o público noturno mais voraz? Cedo pra dizer, mas entre os bibliotecários a explicação é que, se saíram de casa nessa hora, a chance de levarem algo é mesmo maior.

Obras clássicas da literatura, de autores como José de Alencar e Machado de Assis, estão entre as mais emprestadas nas madrugadas. Não que a biblioteca tenha funcionado, à noite, como clubes de leitura, em que literatura aparece como tópico principal. Em duas noites inteiras, poucos pareceram imersos em histórias. Até a chegada do barbeiro José Lourenço – que, às 5 horas de quarta, procurava no catálogo A vida do livreiro A.J. Friky, de Gabrielle Zevin. Sentou-se numa mesa lateral, com vista para a Consolação, e começou a ler. “É uma carta de amor para o mundo dos livros”, disse. “Tudo a ver com minha vida hoje.”

Budista desde 1982 (“quando a Madonna veio ao Brasil”, assim ele gravou a data da conversão), este barbeiro de 60 anos acredita que a principal motivação de sua vida hoje é a leitura. “Houve um momento em que era ganhar dinheiro, e me esfalfei durante 16 anos no Projac (da Globo). Depois houve o momento das viagens, da vida amorosa, e hoje, depois de muitos percalços, é o da sede de saber”, diz. “Aqui encontro a mim mesmo por meio da leitura. Me refugiei aqui dentro, e encontrei um mundo só meu.”

Lourenço cita refúgio e fez lembrar da Nádia, que de quase vítima de assalto viu-se abrigada a noite inteira. Até pouco antes de amanhecer, ela ainda falava com o novo amigo, agora sentados em pufes na seção de História Geral. A vendedora tinha nas mãosConversas com um Jovem Professor (Contexto), de Karnal. E falava sobre planos de voltar a ler, “para ver se tiro o funk da cabeça”. “É uma praga! Coloque um funk e depois coloque Caetano, pra ver qual você decora antes...”, ela dizia – e Higor se preparava para complementar, quando a conversa foi interrompida por um atendente noturno. “Licença. Tá aqui o teu Kant”, ele disse, e entregou à moça uma biografia do filósofo alemão, que, depois de passar uma madrugada na biblioteca, ela agora levaria ao Cantão.

domingo, agosto 21

Bom café da manhã

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Pensamentos de livreiro

Meus livros:
Um livro começa a ser quando se lê, quando ele faz o trabalho de unir o escritor com o leitor.

Na livraria de Maspero, em Paris, colocaram um cartaz que dizia: ". A direita quer nos suprimir, se você continuar roubado livros, teremos de fechar. Não colaborar com o inimigo." Eles fecharam.

Há bibliotecas que são cemitérios de palavras, com nichos até o teto, nas pilhas cantos e pacotes nas mesas; há livrarias onde as palavras são gatos que dormem em sofás, com fitas cor de rosa e uma caixa de chocolates; há livrairas onde as palavras têm vergonha e onde Shakespeare e Goethe - se forem encontrados - estão de costas para que não sejam reconhecidos ...
Hector Yanover (1929-2003), o mais famoso livreiro em Buenos Aires

Exercício na leitura

longshankstumblarian:
“ Reading ….
Source: Atomic Samba (FB)
”

Como se fosse um bricabraque

Está escuro e frio. Poderia ser a morte, se o amor nos permitisse esse luxo. Ele nos quer bem vivos, para louvá-lo e cortar-lhe as unhas encravadas.

***

Depois de cada reunião em que os parnasianos declamavam seus poemas, um funcionário recolhia com luvas de seda e uma pinça as vogais de ouro lançadas no tapete junto com os preciosos perdigotos.

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A poesia deveria nascer em árvores e confundir-se de tal maneira com os frutos que não se pudesse distinguir um soneto de uma maçã.

***

Ele gostaria de ter morrido ouvindo uma brisa que assobiasse uma canção de Cole Porter, numa tarde tão antiga que hoje ninguém mais se lembrasse daquela tolice toda sobre ele ter morrido de amor.

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Se for seu destino arder no inferno, ele já escolheu o pecado: a luxúria. A simples palavra já o deixa em estado de febre e, quando é tomado por seus sintomas, ele se torce, se retorce, se contorce, se dobra, se curva, se recurva, e morde-se nos lábios, e arranha as palmas das próprias mãos, e se inteiriça, e se goza, como se estivesse se possuindo.

***

Bem fazem os homens que na agenda têm endereços de motéis. Que mulher há de querer seguir um poeta? Os poetas só conhecem o caminho das estrelas e da lua.

***

Quando ela ordena “agora!”, ele se compadece de todos os césares mortos, alheios já aos suplícios e aos gozos da carne, e crava-se dentro dela, com a irrefutável legitimidade da carne viva e cobiçosa.

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Charles Dana Gibson, A primeira briga, 1914

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Eu olhava para aquela mochila que ela sempre carregava e imaginava a vertigem que sentiria se fosse um dos objetos ali dentro, sempre ansiando pelo instante em que os dedos dela trouxessem pela proximidade a esperança de um toque, tateando naquela intimidade escura e morna.

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Quem há de me respeitar, de me tomar a sério? Sou um desses homens que choram se veem um passarinho morto.

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Que o amor nos tenha matado é a lógica, nada mais. Que tenhamos gostado tanto talvez seja sem-vergonhice.

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A mais deliciosa conquista do sistema decimal foi o sanduíche de metro.

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No Sul é um fato: se o miado é forte, só pode ser um maragato.

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Glória a Deus, sim, e que um pouquinho dela possa sobrar para mim.

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Na estante, três motivos para qualquer um desistir de escrever: Shakespeare, Pessoa, Dante.

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Quando você pensa conhecer todos os truques do amor e imagina estar imune a eles, certa manhã um passarinho aparece, dá três bicadas na sua janela e avisa que traz um recado. Você pergunta de quem é, e ele diz que você sabe muito bem.