domingo, dezembro 4

Preparados para as férias

Kerry Hyndman:
Kerry Hyndman

Para Maria da Graça

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Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
Paulo Mendes Campos

Personagem à procura de leitor

bibliolectors:
“Personaje en busca de lectores (ilustración de Andrea De Santis)
”
Andrea De Santis

Dormindo com 5 mil livros

O público japonês apaixonado por livros não se contentou com apenas um hostel com o tema de livraria. Depois do sucesso do Book and Bed Tokyo, os criadores do empreendimento lançaram um outro hostel na cidade de Kyoto. Quem quiser dormir em um ambiente com confortáveis camas dispostas entre prateleiras e mais de 5 mil livros, deverá desembolsar, no mínimo, 39 dólares por noite. 

quinta-feira, dezembro 1

Leitora ao sol

simena:
“ Frank Weston Benson - The Reader
”
Frank Weston Benson

O round do século

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Desvendada a história dos livros roubados por nazistas

Coleções roubadas foram distribuídas entres bibliotecas públicas,
centros culturais nazistas ou funcionários dos regime
Em meio aos cerca de 8,5 milhões de livros do acervo das bibliotecas da Universidade Livre de Berlim, Ringo Narewski e sua equipe têm uma nobre missão: encontrar livros que foram confiscados de judeus por autoridades nazistas durante o Terceiro Reich (1933-1945). O objetivo dos pesquisadores é devolvê-los ao legítimos donos.

O caminho até devolução, porém, é longo e exige um minucioso trabalho de investigação. O ponto de partida é a identificação de todos os livros impressos antes de 1945. A universidade estima que cerca de 1,5 milhão de livros se encaixem nesta categoria.

"A maior dificuldade neste trabalho é o volume de livros para serem avaliados sem termos qualquer estimativa sobre o resultado final. Além disso, se há a suspeita sobre determinada obra, é preciso muito tempo para desvendar 70 anos de história de uma pessoa", afirma Narewski, diretor do grupo de trabalho responsável por identificar obras saqueadas por nazistas que fazem parte do acervo de bibliotecas da universidade.

Nesse trabalho de detetive, a Universidade Livre de Berlim ganhou reforço extra há um ano. Além dela, três instituições – a Fundação Nova Sinagoga, a Universidade de Potsdam e a Biblioteca Estadual de Berlim – reuniram as informações sobre pesquisas realizadas nesta área num banco de dados online, o "Looted Cultural Assets" (bens culturais roubados).

Nos últimos anos, a instituição verificou cerca de 44 mil livros. Atualmente, eles investigam a origem de 2 mil assinaturas em livros. E uma dessas histórias tem passagem pelo Brasil.

Um dos livros roubados encontrados no acervo pertenceu ao jornalista Ernst Feder, que fugiu de Berlim para Paris em 1933. Com a marcha nazista em direção à França, Feder emigrou para o Brasil em 1941, onde viveu, em Petrópolis, até 1957, quando retornou para Berlim.

Sua biblioteca, com quase 10 mil títulos, foi saqueada pelo regime nazista, e um destes exemplares foi parar na Universidade Livre de Berlim. No momento, os pesquisadores tentam entrar em contato com os herdeiros do jornalista para devolver a obra.

De acordo com o historiador Götz Aly, a prática do confisco foi instrumentalizada pelos nazistas para garantir a lealdade da população alemã ao regime. Segundo ele, o roubo e redistribuição de bens e economias dos judeus, na Alemanha e, posteriormente, em países ocupados, favoreciam economicamente o povo alemão.

As coleções roubadas foram distribuídas entres bibliotecas públicas, centros culturais nazistas e funcionários do regime. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitas destas peças foram vendidas a antiquários ou doadas para instituições.

Desta maneira, livros saqueados foram parar também em estantes de bibliotecas criadas depois de 1945, como é o caso das da Universidade Livre de Berlim, fundada em 1948. Segundo Narewski, além das doações privadas, as bibliotecas da instituição receberam livros confiscados de funcionários do regime nazista pelo exército americano no fim da guerra.

O atual projeto da equipe de Narewski se concentra na análise de cerca de 70 mil livros que foram adquiridos pela universidade entre 1952 e 1968. Com os títulos suspeitos em mãos, a próxima fase é buscar nos livros pistas sobre suas origens, que podem ser um carimbo, um nome escrito a caneta, um ex libris (selo personalizado que identifica as obras de bibliotecas particulares ou públicas) ou algum número de referência. Descoberta alguma identificação, começa o trabalho para decifrar a história e o percurso percorrido por esse livro até chegar às estantes da biblioteca.

A investigação mais longa da universidade já dura três anos e é referente a um livro que pertenceu à família Frohmann-Holländer, de Frankfurt, que, perseguida durante o regime nazista, fugiu para os Estados Unidos.

"Não sabemos o que aconteceu com essa biblioteca durante três anos na década de 1930, antes da emigração da família. Como há a possibilidade de que alguns destes livros tenham sido vendidos na época, não podemos afirmar com certeza se a obra foi confiscada, por isso, ainda não podemos devolvê-la, e a pesquisa continua", explica Narewski.

Após reconstruir a história dos livros, o grupo precisa desvendar a história dos proprietários legítimos dos títulos e de suas famílias para poder restituí-los. E aqui há outra dificuldade, entrar em contato com estas pessoas. Muitas vezes, pesquisadores sabem quem são os herdeiros, mas não conseguem ter acesso a eles, e, em alguns casos, e-mails ou cartas enviados são ignorados pelos destinatários.

Nos últimos dois anos, a Universidade Livre de Berlim devolveu 160 livros que foram saqueados pelos nazistas aos seus legítimos donos. As devoluções a 75 herdeiros e instituições ocorreram na Alemanha, Áustria, Polônia, Letônia, Holanda, Estados Unidos, Israel, República Checa, Reino Unidos e Ucrânia.

"Essa restituição tem uma dimensão moral. Não é uma tentativa de reparação, pois é impossível reparar os crimes cometidos pelos nazistas, mas se trata de devolver às vítimas um pedaço da sua história", diz Narewski.

O pesquisador destaca que, além de ser uma revisão da história da universidade, esse trabalho preserva a memória daquele período, para evitar que crimes como os cometidos pelo regime nazista voltem a acontecer.

quarta-feira, novembro 30

Isaac Newton moderno

Assim começa o livro...

— Este sorvete — informa gravemente o dono da sorveteria — tem sabor diferente de qualquer outro que o senhor possa imaginar. Não digo isso porque é da casa. Já fiz muito sorvete que não era lá essas coisas. Falar verdade, eu não sou sorveteiro, nunca fui. Sorveteiro no sentido de nascer para fazer sorvete e ter consciência do que está fazendo.

Fazer sempre bem, não digo sempre melhor, porque sorvete não se aprimora, fique o senhor sabendo. Não se aprende nem se desaprende com o tempo. Ou o homem faz, de vocação, aquele sorvete que é o tal, o único, que põe o freguês delirando, causa uma felicidade para sempre, ou...ou produz isso que há por aí.

Já notou que não existe sorvete no Rio? Eu sabia que o senhor ia citar aquele de Ipanema, um outro de Vila Isabel. É. Não vou dizer que não prestam. São regulares. Nem sou de falar mal de colegas. Me refiro a sorvetes, não a sorveteiros. Podem ser de boa-fé, por que não? Conheço muitos, distintos como pessoas, escrupulosos, eles mesmos escolhem as frutas, não facilitam em matéria de higiene, aplicam suas receitas com exatidão... Vai-se ver, saiu um sorvete chochinho, um açúcar gelado, ou pedrento ou derretido. É o comum, meu senhor. Ninguém sabe fazer sorvete. 

Eu também não sei, já disse. Portanto, não pense que desmereço os colegas para me elevar aos cornos da Lua. Então como faço este que, pondo de lado a modéstia, é o grande sorvete do mundo? Ah, o senhor não vai acreditar. E talvez eu não deva tomar o seu tempo com essas coisas. Mas simpatizei com o seu ar. Noto que não é um freguês como os outros, que querem apenas se refrescar, pouco lhes importa o que ponham na boca. Vi pela maneira como olhou para a lista de sorvetes. Como reparou em cada nome de fruta ou sabor, comparando os gostos, refletindo... Sentindo prazer, eu sei, já em pensar nos sorvetes. Não era indecisão. Era prazer. Sim, o amigo sabe o que é sorvete. 

Mas não respondi à sua pergunta. Este sorvete que vai provar e nunca mais lhe esquecerá o gosto e lhe dará uma tristeza infinita de não o encontrar em outro bairro qualquer, mesmo em outros países... é segredo de um artista húngaro, que passou pelo Rio há dois anos. Digo artista, porque não merece outro nome. O de batismo não posso dizer. Esqueci. Ou melhor, nunca cheguei a aprender direito como se escreve e se pronuncia. Era um homem estranho, de pouca fala, nos conhecemos por acaso, salvei-lhe a vida com um empurrão, no justo momento em que um carro ia esmagá-lo. Para manifestar sua gratidão, me deu a fórmula.

É uma fórmula que vem passando de pai a filho, desde o século XVI — XVI ou XVIII, não estou bem certo. Sabe por que os sorvetes de frutas naturais são chamados de italianos? Porque um italiano andou pela Hungria e lá se apossou da fórmula. Apossou-se, é modo de dizer. O italiano fez tudo para roubá-la, cometeu até dois assassinatos, sem conseguir as quinze mágicas. São quinze linhas, não mais. À base de imitação, levou para a Itália um tipo de sorvete que só de longe lembra este meu. Não é a mesma coisa, claro. O verdadeiro sorvete é uma criação de arte de um húngaro falecido há séculos e transmitido como legado de família. Eu sou depositário da fórmula, e pratico-a sem mérito. O meu amigo húngaro, que pouco depois sumiu, tinha no sangue a tradição e a arte de sorvete.
Este o senhor vai tomar por conta da casa. Mas não espalhe, hem?, que meu sorvete é diferente de todos os outros do Brasil e do Universo. Ninguém até agora reparou nisso, e não quero complicações. Só me abri com o amigo porque percebi logo que estava à altura de receber minha confidência. Vou-lhe dizer mais: este aqui eu só fabrico para um grupo mínimo de pessoas, os entendidos, os marcados. O resto é para a multidão. Boca de siri, ouviu?
(O sorvete húngaro)

segunda-feira, novembro 28

Esse livro é o máximo

glamoramamama75:
“ Same.
”

Os dias felizes

1000drawings:
“by Penko Gelev
”
Penko Gelev
Estou há dois meses a viver numa pequena ilha africana. Bem sei: já não se fazem ilhas como antigamente, ilhas verdadeiras, ou seja, lugares isolados, apartados do mundo. Esta coluna faz prova disso mesmo: se a estão a ler significa que não estou numa ilha. Isolamento, nos dias que correm, é um luxo ao alcance de poucos. Ainda assim, esta minha Ilha de Moçambique mantém algum do mistério, do encanto e dos inúmeros incômodos de uma ilha à moda antiga.

Morar numa pequena ilha, longe de um grande centro urbano, começa por ser um exercício de simplicidade. Aprendemos a viver com o mínimo — e depressa descobrimos que o mínimo pode ser o máximo. Hoje, por exemplo, sei como responder àquela irritante pergunta de questionário de férias: “Que livro levaria para uma ilha deserta?” — “Um livro eletrônico!”

No meu caso, para ser preciso, é um iPad. Todas as manhãs baixo e leio a edição completa d’O Globo. Além disso, criei nestes últimos sessenta dias uma biblioteca virtual que, se tivesse existência em papel, ocuparia duas ou três malas grandes. Alguns destes e-books são títulos que me habituei a levar quando viajo, porque me ajudam a escrever: “O livro do desassossego” de Bernardo Soares (Fernando Pessoa); “O outono do patriarca”, de García Márquez; “O mandarim” e “A relíquia”, de Eça de Queirós; “Meu quintal é maior do que o mundo”, de Manoel de Barros, entre vários outros.

As livrarias ainda me fazem falta, mas apenas pelo ritual de entrar, olhar os livros, passar os dedos pelas capas. Não tenho saudade alguma dos shoppings e das grandes superfícies comerciais. Descobri que passo muito bem sem a maior parte dos produtos que, vivendo numa cidade grande, me sentia compelido a comprar.

Escrevo esta coluna numa sexta-feira. Não numa qualquer sexta-feira, mas na famosa Black Friday, um movimento que os americanos conseguiram exportar para o resto do mundo, e que consiste em convencer os consumidores de que precisam comprar tudo aquilo de que não necessitam por um preço talvez inferior ao de ontem, mas não ao de anteontem ou ao de amanhã. E as pessoas compram. Algumas endividam-se para comprar.

A Black Friday é o tiro de largada da grande corrida consumista do Natal. Em alguns estados americanos os funcionários públicos são dispensados do serviço para poderem dar azo a uma espécie de furioso ímpeto predatório, só comparável à febre que arrebata os machos de certas espécies na época do acasalamento. Longas filas de consumidores desesperados aguardam de noite, ao frio, pela abertura das lojas. Há casos de lutas. Tumultos explodem aqui e ali.

Só o nome do desastre me parece sensato. Registre-se, a título de curiosidade, que nos primeiros anos do movimento, os lojistas ainda se esforçaram por alterar a designação de Black Friday para Big Friday, mas sem sucesso. Então ficou assim mesmo: a sexta-feira infausta.

Espreitando através da janela do meu laptop tenho um vislumbre desse mundo ansioso. A seguir, assustado, ergo os olhos e o que vejo são as ruas plácidas e ensolaradas desta pequena cidade índica e árabe e afro-portuguesa, com os seus raros e minúsculos bazares, onde se vende uma única marca de sabonetes ou de chocolates, ao lado dos panos africanos (capulanas), e dos enormes e refulgentes búzios que o mar oferece às praias.

“Não é difícil ser feliz”, costumava dizer a minha avó. “Basta ter água limpa, dióspiros e o fulgor do sol.”

A minha avó gostava de dióspiros (caquis). Quem quiser pode substituir por pitangas, romãs, bananas, mangas ou jabuticabas. Acredito que também seja possível ser feliz com maçãs, embora nunca tenha conseguido perceber como foi possível a serpente seduzir Eva com um fruto tão desinteressante. Para mim, a Árvore da Ciência do Bem e do Mal não pode ser senão a romãzeira.

Fui um menino afortunado. Costumava sentar-me no quintal, com a minha avó, vendo as galinhas ciscando entre o capim. O quintal era imenso, como o universo, e a minha avó reinava sobre todas as coisas. Era uma mulher redonda e rija, com cabelos crespos e olhos muito azuis, num feliz acerto dos sangues mais desencontrados. Nestes últimos dias regressei a esse passado feliz, não tanto por via das romãs, que aqui não encontro, mas da simplicidade.

É tão bom não ter. Não preciso de mais do que umas bermudas gastas (nas noites quentes, nem disso) para mergulhar nestas águas mansas, sem dor e sem pecado. Sim, eu sei que o Trump, etc., e o Temer, etc., e as crianças na Síria etc., e o fim do mundo logo ao virar da esquina. Mas — o que querem? — mergulho no mar, com o meu amor pela mão, e não há maldade que me atinja, nem tempo que me desgaste, nem fim que alcance este meu diminuto e remoto mundo.

Isso você não faz!

Fim de convênios põe Bibliotecas Parque em risco

As Bibliotecas Parque, projeto que já foi uma das vitrines do governo do estado na área de cultura, e que ficou seriamente ameaçado pela crise financeira, vive agora uma nova fase de incertezas. Os convênios com as prefeituras do Rio e de Niterói, que deram sobrevida à iniciativa, terminam em dezembro e não se sabe ainda se serão renovados. Com o colapso financeiro do estado, a gestão das unidades do Centro, da Rocinha e de Manguinhos, que demanda R$ 1,5 milhão por mês, foi assumida na maior parte por Eduardo Paes em novembro de 2015.

Já a unidade de Niterói, que custa cerca de R$ 250 mil mensais, ficou com o prefeito reeleito Rodrigo Neves. Como não há ainda sinal de renovação dos contratos, o Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), organização social responsável pela operação das bibliotecas, deu aviso prévio a todos os 153 funcionários, conforme antecipou a coluna de Ancelmo Gois no GLOBO.

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O diretor de operações e finanças do IDG, Henrique Oliveira, admite a possibilidade de rescisão da OS, caso os convênios municipais não sejam renovados. A desmobilização dos funcionários, diz ele, ainda pode ser revertida.

- Essa desmobilização, no primeiro momento, não afeta em nada as bibliotecas. Vamos iniciar dezembro funcionando em horário normal, de terça a sábado, e com a ideia de manter nossa rotina de atividades. Seria leviano dizer que já existe segurança jurídica e econômica para o próximo ano, mas há um movimento para viabilizar isso - afirmou.

O ex-deputado Luiz Alfredo Salomão, que lidera a equipe de transição do prefeito eleito Marcelo Crivella, se reuniu sexta-feira com a secretária estadual de Cultura, Eva Doris. Crivella, gripado, foi representado pelo seu vice Fernando MacDowell no encontro, realizado na Firjan. Um dos pontos na pauta foi justamente o futuro das três Bibliotecas Parque da cidade. A nova gestão demonstrou interesse em esticar o convênio com o governo do estado, algo prometido por Crivella na campanha eleitoral.

- Recebemos da secretária Eva Doris os dados do convênio e, no geral, achamos que está tudo certo. Não podemos abandonar as Bibliotecas Parque - afirmou Salomão.

A Secretaria estadual de Cultura informou que os entendimentos "avançam positivamente" em relação às bibliotecas no Rio. O órgão ainda não foi procurado pela equipe de Rodrigo Neves, mas ressaltou que "não considera a possibilidade de fechamento" da unidade niteroiense. Procurada, a secretaria de Cultura de Niterói foi reticente quanto à prorrogação do convênio atual e lembrou que a administração cabe ao governo do estado.

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domingo, novembro 27

Cultura vertical e horizontal

A Morte e outras vivências

Essa imagem em uma capa de almofada ficaria lindo!!!                                                                                                                                                      Mais:
Sua principal atividade, agora, é cochilar. Cochila de manhã e à tarde, sentado no sofá. À noite, assim que se deita na cama, o sono lhe vem, generoso. O único pesadelo que tem, com alguma freqüência, é estar cochilando ou dormindo e não ouvir a campainha que a Morte, finalmente disposta a atendê-lo, toca e toca e, cansada, desiste de tocar.

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Ser triste é, mais do que um direito, um dever do poeta.

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Em Romeu e Julieta, cada vez que se topam dez personagens numa praça, morrem onze.

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Reencontraram-se por acaso, cinco anos depois, numa festa. As mãos se apertaram, tão geladas quanto as palavras que por educação mantiveram nos lábios. “Bom te ver”, disse ele, disse ela também, e cada um se esgueirou para um canto do salão, com o rancor magnificamente disfarçado por um sorriso social.

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O amor é sempre aquele assunto que pode nos salvar quando o leitor – e principalmente a leitora – já ameaça abrir o primeiro bocejo.

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Conhecer-te a ti mesmo é tarefa que desempenharás sem muito esforço. Difícil, depois, será te aceitares.

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O amor na velhice é lindo, desde que sejamos só espectadores – e um bocado míopes.

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Eu te agradeço por me matares tão continuadamente, por me manteres tão amorosamente atento à tua crueldade que não tenho tempo sequer para pensar em flores e em estrelas, esses bisonhos objetos de inspiração dos poetas.

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Se ela houvesse me estrangulado naquela manhã, teria usado luvas das quais se livraria imediatamente – não por temer conseqüências criminais, mas por nojo de meu pescoço plebeu.

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Se soubesses o gozo que cada um dos teus elaborados suplícios trouxe à minha carne, morrerias de desgosto. Sinto falta deles, minha querida, e só de lembrá-los minha pele se arrepia, prazerosa.

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Sinto-me como um morto provisório, um defunto em regime de experiência, ainda não autorizado a desfrutar de meu mais desejado direito: o de descansar em paz.

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Já me dei bem melhor com a vida. Era uma época em que ela e eu ainda não estávamos cansados de fingir.

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Tenho cada dia menos pontos em comum comigo. Para reconhecer-me, preciso às vezes buscar meu sorriso no espelho.

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Poemas não têm a obrigação de ser sublimes, mas deveriam ser sempre honestos.

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Quando alguém diz ser um mártir da literatura, deve-se, por amor à justiça, pensar no princípio da reciprocidade.

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Eram belos seus olhos verdes. Garantiam-lhe sempre bons começos e eram depois uma agradável lembrança para as mulheres quando elas percebiam que, além deles, ele não tinha mais nada a oferecer.

Raul Drewnick

sexta-feira, novembro 25

Livro sonífero

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Thomas Baker

Assim começa o livro...

Varandas da Eva Varandas da Eva: o nome do lugar. 

Não era longe do porto, mas naquela época a noção de distância era outra. O tempo era mais longo, demorado, ninguém falava em desperdiçar horas ou minutos. Desprezávamos a velhice, ou a ideia de envelhecer; vivíamos perdidos no tempo, as tardes nos sufocavam, lentas: tardes paradas no mormaço. Já conhecíamos a noite: festas no Fast Clube e no antigo Barés, bailes a bordo dos navios da Booth Line, serenatas para a namorada de um inimigo e brigas na madrugada, lá na calçada do bar do Sujo, na praça da Saudade. Às vezes entrávamos pelos fundos do teatro Amazonas e espiávamos atores e cantores nos camarins, exibindo-se nervosamente diante do espelho, antes da primeira cena. Mas aquele lugar, Varandas da Eva, ainda era um mistério.

 Ranulfo, tio Ran, o conhecia. 

É um balneário lindo, e cheio de moças lindas, dizia ele. Mas vocês precisam crescer um pouquinho, as mulheres não gostam de fedelhos.

Invejávamos tio Ran, que até se enjoara de tantas noites dormidas no Varandas. A vida, para ele, dava outros sinais, descaía para outros caminhos. Enfastiado, sem graça, o queixo erguido, ele mal sorria, e lá do alto nos olhava, repetindo: Cresçam mais um pouco, cambada de fedelhos. Aí levo todos vocês ao balneário. 

Minotauro, fortaço e afoito, quis ir antes. Foi barrado no portão alto, cuspiu na terra, deu meia-volta, quase marchando para trás. Era um destemido, o corpo grandalhão, e um jeito de encarar os outros com olho quente, de meter medo e intimidar. Mas a voz ainda hesitava: era aguda e grossa, de periquito rouco, e o rosto de moleque, assombrado, meio leso. 

Gerinélson era mais paciente, rapaz melindroso, sabia esperar. Já namorava de dar beijos gulosos e acochos, e nos surpreendia em pleno domingo guiando uma lambreta velha, roubada do irmão. Na garupa, uma moça desconhecida, de outro bairro. Ou estrangeira. A máquina passava perto da gente, devagar, roncando, rodeando o tronco de uma árvore. Depois acelerava, sumindo na fumaceira. Ele sempre gostou de desaparecer, extraviar- -se. Gerinélson era e não era da nossa turma. Eu o considerava um dos nossos. Ele, não sei. Tinha uns segredos bem guardados, era cheio de reticências: não se mostrava, o rapaz. 

O Tarso era o mais triste e envergonhado: nunca disse onde morava. Desconfiávamos que o teto dele era um dos barracos perto do igarapé de Manaus; um dia se meteu por ali e sumiu. Raro sair com a gente para um arrasta-pé. Ele recusava: Com esses sapatos velhos, não dá, mano. Um cineminha, sim: duas moedas de cada um, e pagávamos o ingresso do Tarso. E lá íamos ao Éden, Guarany ou Polytheama. Depois da matinê, ele escapulia, não ficava para ver as meninas da Escola Normal, nem as endiabradas do Santa Dorothea. Tarso queria vender picolés e frutas na rua, queria ganhar um dinheirinho só para entrar no Varandas da Eva. Mas era caro, não ia dar. Então tio Ranulfo prometeu: Quando chegar a hora, pago pra todos vocês. 

Tio Ran, homem de palavra, foi generoso: espichou dinheiro para a entrada e a bebida. Depois tirou um maço de cédulas da carteira. Disse: Isso é para as mulheres. E nada de molecagem. Cada um de vocês deve ser um gentleman com aquelas princesas. Contamos as cédulas: dava e sobrava, era a nossa fortuna. Compramos na Casa Colombo um par de sapatos, e tia Mira costurou uma calça e uma camisa, tudo para o Tarso. Quando ele experimentou a roupa nova, parecia outro, ia chorar de alegria, mas Minotauro, maldoso, debochou: Deixa pra chorar depois da farra, rapaz. Quem fica feliz de roupinha nova é moça.

Escola de sonho

A escola dos meus sonhos primeiro me ensinaria a ler e depois me ensinaria a gostar de ler
Ziraldo