terça-feira, março 28

Viajante do imaginário

Andrej Mashkovtsev 


Prece

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Pensando bem, nesse começo de insônia, aquele ritual da leitura, toda noite, à sua cabeceira, quando ele era pequeno - hora certa e gestos imutáveis - tinha um pouco de prece
Daniel Pennac, "Como um romance"

Na velha livraria

Vendedor de livros


Cego vendedor de livros de cordel (séc. XVIII)
Um ceguinho, em toada monocórdica, apregoava umas folhinhas toscamente impressas que tinha penduradas de um cordel:

− Olhai a maravilhosa história da imperatriz Porcina, mulher do imperador Lodónio de Roma, em a qual se trata como o dito imperador mandou matar a esta senhora!...

Concorriam pessoas a ouvirem, boquiabertas:

− Aqui está a história jocosa dos três corcovados de Setúbal, Lucrécio, Flaviano e Juliano ! É só meio vintém cada folheto !... − dizia a mulher que acompanhava o cego.

− Lede o miraculoso caso − continuava o homem − de Roberto do Diabo que acabou sendo Roberto de Deus, ou o da Princesa Magalona, que, perdida do seu amado, atravessou adversidades e obstáculos sem conta, até reencontrar a felicidade nos braços do marido...

− Ajudai o poeta cego Baltasar Dias − gritava a voz esganiçada da mulher − a quem el-rei nosso senhor deu privilégio de caridade para poder imprimir os seus autos e rimances. Olha o auto de Santo Aleixo filho de Eufêmiano senador de Roma, e o de Santa Catarina virgem e mártir, e o de el-rei Salamão, e o da feira da ladra! Tudo obras do poeta cego Baltasar Dias aqui presente! Comprai, comprai, que tudo é barato! Custam apenas um vintém os quatro autos !... Olha o auto do nascimento de Cristo e a tragédia do marquês de Mântua, e o auto da malícia das mulheres... Quem quer comprar, quem quer?...

Baltasar Dias era um homem dos seus quarenta anos. As suas feições impressionavam pela tez branca como cera, pelo suave sorriso que delineava a comissura dos lábios exangues, pela serenidade interior que dele irradiava e era sublinhada pela ausência de chama e viveza do olhar, pois tinha as pálpebras totalmente cerradas. Conquanto estivesse longe de possuir o sal e o engenho de mestre Gil Vicente, escrevia autos, farsas e pequenas histórias que na sua singeleza agradavam ao povo e que ele próprio vinha, com a mulher, vender pelas ruas e arcadas de Lisboa. Vendia também folhas volantes e obras de outros autores, algumas delas versões em linguagem das que corriam noutras nações, e assim ia angariando o seu sustento.

Ele e a mulher continuavam a apregoar estranhos casos e mirabolantes sucessos de lobisomens e de dragos, de sereias e de homens marinhos e de não sei que mais. Muitas pessoas compravam, dando um pouco de descanso às vozes enrouquecidas dos vendedores.

Eu fui um óptimo freguês, como sempre levado pela minha curiosidade e ânsia de ler. Já virava costas, com a minha mercadoria, recomeçava a lengalenga:

− Olha o relato verídico do triste naufrágio da nau São Gabriel, que regressava da índia Oriental, e do que aconteceu aos sobreviventes na selva do Cabo ! − gritava a mulher, ao passo que a voz calma e lenta do cego anunciava "a mui nomeada e agradável égloga chamada Crisfal, que conta os infelizes amores de Cristóvão Falcão ao que parece aludir o nome da mesma écloga".
Fernando Campos, "A Casa do Pó"

segunda-feira, março 27

Quando chega a noite

A grande 'arma'

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Ler um livro é sempre botar o dedo no gatilho
 Julio Cortázar

Uma grande vista

Assim começa o livro...

Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra as paredes onde o sangue circula. Escuto,tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas na cama sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me
aguarda, pela encrenca em que posso me meter.

Estou mergulhado em abstrações, e só as crescentes relações entre elas criam a ilusão de um mundo conhecido. Quando ouço a palavra “azul”, que nunca vi, imagino um tipo de acontecimento mental muito próximo de “verde” — que também nunca vi. Considero‑me um inocente, descomprometido com lealdades e obrigações, um espírito livre, apesar do pouco espaço de que disponho. Ninguém para me contradizer ou repreender, sem nome nem endereço anterior, sem religião, sem dívidas, sem inimigos. Minha agenda, se existisse, registraria apenas meu futuro dia de nascimento. Sou, ou era, apesar do que dizem agora os geneticistas, uma lousa em branco. Mas uma lousa porosa e escorregadia, inútil para ser usada numa sala de aula ou no telhado de uma cabana, uma lousa que escreve por si mesma à medida que cresce a cada dia e se torna menos branca. Considero‑me um inocente, mas tudo indica que participo de uma conspiração. Minha mãe,abençoado seja seu incansável e barulhento coração, parece estar envolvida.

domingo, março 26

Leitura, segundo André Kertész

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Entre 1920 e 1970, o fotógrafo húngaro André Kertész registrou pessoas lendo em várias partes do mundo. As fotos fazem parte do livro "On Reading"

Relegado ao pó

Magictransistor: "James Collins, depois de Cornelis Bloemaert (1625);  Coruja que desgasta os espetáculos da leitura pela luz de vela (woodcut), Inglaterra, cerca de 1685. "
James Collins (cerca de 1685)

O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo
António Lobo Antunes

Pra não cochilar na leitura

Victor Chizhikov
Victor Chizhikov

Um pouco de silêncio

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.

Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
Léon-Jean-Basile Perrault, 
“Méditation”
O normal é ser atualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.

Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsteres que se alimentam da sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de actividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal-resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projectos e sonhos?

No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distracção.

O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.

Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse:

— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

Lya Luft

sábado, março 25

Para aviso do fim de semana

Vagões do fracassado Trem do Pantanal vão virar bibliotecas

Dois vagões do Trem do Pantanal que não eram usados há quase três anos, desde o fim da rota turística em 2014, serão transformados em uma biblioteca em Aquidauana, a 135 quilômetros de Campo Grande. Nessa terça-feira (22) eles foram guinchados e levados de caminhão para o município, onde serão revitalizados.

A atração administrada pela paranaense Serra Verde Express foi inaugurada em 2009. A primeira viagem comercial foi um prelúdio do fracasso: 40% dos assentos foram ocupados.

Entre os motivos que levaram ao fracasso do projeto, primeiro está a rota, que não chegava a Corumbá como a linha original que rodou entre as décadas de 1960 e 1980. Em segundo lugar a velocidade da composição, que era lenta e tornava a viagem cansativa.

O empresário da Serra Verde Adonai Aires disse ao Campo Grande News que parte dos vagões foram cedidos pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e o restante pelo Governo do Estado. Todos foram devolvidos quando as operações foram encerradas.

Athayde Nery, secretário estadual de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação, diz que o projeto da biblioteca partiu da prefeitura de Aquidauana e os vagões usados são aqueles do Governo Federal. O Estado acompanhou as negociações para cedência e tentará ajudar comprando livros para serem colocados quando o empreendimento estiver pronto.

Os vagões já foram colocados em um terreno onde serão transformados em biblioteca. O local será mantido por uma instituição de Aquidauana. O espaço antes funcionava em um prédio alugado.

Fonte:  Campo Grande News

Marcador inteligente

Viúva na praia

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva.

0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. a gente se cumprimentava às vezes, murmurando “bom dia”; era um homem forte, de cara vermelha; as poucas vezes que o encontrei com a mulher ele não me cumprimentou, fazia que não me via; e eu também. Lembro-me de que uma vez perguntei os horas ao garçom, e foi aquele homem que respondeu; agradeci; este foi nosso maior diálogo. Só ia à praia aos domingos, mas ia de carro, um “Citroen”, com a mulher, o filho e a barraca, para outra praia mais longe. A mulher ia às vezes à praia com o menino, em frente à minha esquina, mas só no verão. Eu passava de longe; sabia quem era, que era casada, que talvez me conhecesse de vista; eu não a olhava de frente.

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.

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E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.

Se eu fosse casado, e morresse, gostaria de saber que alguns dias depois minha viúva iria à praia com meu filho — foi isso o que pensei, vendo a viúva. É bem bonita, a viúva. Não é dessas que chamam a atenção; é discreta, de curvas discretas, mas certas. Imagino que deve ter 27 anos; talvez menos, talvez mais, até 30. Os cabelos são bem negros; os olhos são um pouco amendoados, o nariz direito, a boca um pouco dentucinha, só um pouco; a linha do queixo muito nítida.

Ergueu-se, porque, contra suas ordens, o garoto voltou a entrar n’água. Se eu fosse casado, e morresse, talvez ficasse um pouco ressentido ao pensar que, alguns dias depois, um homem — um estranho, que mal conheço de vista, do café — estaria olhando o corpo de minha mulher na praia. Mesmo que olhasse sem impertinência, antes de maneira discreta, como que distraído.

Mas eu não morri; e eu sou o outro homem. E a idéia de que o defunto ficaria ressentido se acaso imaginasse que eu estaria aqui a reparar no corpo de sua viúva, essa idéia me faz achá-lo um tolo, embora, a rigor, eu não possa lhe imputar essa idéia, que é minha. Eu estou vivo, e isso me dá uma grande superioridade sobre ele.

Vivo! Vivo como esse menino que ri, jogando água no corpo da mãe que vai buscá-lo. Vivo como essa mulher que pisa a espuma e agora traz ao colo o garoto já bem crescido. 0 esforço faz-lhe tensos os músculos dos braços e das coxas; é bela assim, marchando com a sua carga querida.

Agora o garoto fica brincando junto à barraca e é ela que vai dar um mergulho rápido, para se limpar da areia. Volta. Não, a viúva não está de luto, a viúva está brilhando de sol, está vestida de água e de luz. Respira fundo o vento do mar, tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses. Vendo seu homem se finar; vendo-o decair de sua glória de homem fortão de cara vermelha e de seu império de homem da mulher e pai do filho, vendo-o fraco e lamentável, impertinente e lamurioso como um menino, às vezes até ridículo, às vezes até nojento…

Ah, não quero pensar nisso. Respiro também profundamente o ar limpo e livre. Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva de ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. 0 sol brilha também em seu joelho. O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva.
Rubem Braga

sexta-feira, março 24

É mágico!

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Mais da metade dos brasileiros lê livros uma vez por semana

 Michael Mao
Levantamento realizada pela empresa de pesquisa GfK constatou que mais da metade (53%) dos brasileiros lê livros ao menos uma vez por semana. A divisão é a seguinte: 26% declaram ler diariamente e 27% uma vez por semana. A média brasileira é inferior à verificada em outros 17 países, de 59%.

No Brasil, o levantamento aponta que as mulheres leem mais vezes que os homens. Os adolescentes, na faixa etária de 15 a 19 anos, são o segmento que mais lê semanalmente, seguido do público que tem entre 20 e 29 anos.
Fonte: Época

Descoberta da leitura

Descubriendo la lectura… por casualidad (ilustración de Martijn van der Linden)
Martijn van der Linden

Assim começa o livro

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Compro o quinto volume da correspondência de Machado de Assis na manhã do dia 24 de junho de 2015. Datas-limite definem e recobrem o material anotado com competência por especialistas e publicado pela Academia Brasileira de Letras: 1905-1908. Se recortada, a curta fração de tempo ganha o formato de ponto de interrogação e sobressai de forma agressiva e incontornável. Os nove caracteres — oito algarismos unidos  quatro a quatro por traço — vêm impressos em negro na capa que guarnece cartas e mais cartas de Machado de Assis e de seus correspondentes. É inestimável a valia do volume para o estudioso da literatura ou para o simples observador da história nacional no início do século xx. Lá dentro, entre 1905 e 1908, se desenrola o cotidiano dos últimos anos de vida do grande romancista brasileiro que nasce na corte imperial em 1839. Passa toda a vida na metrópole, com curta estada em Petrópolis e em Nova Friburgo, e vem a falecer no bairro do Cosme Velho, em setembro de 1908, viúvo da portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, e sem filhos.

Fixo os olhos no lado de fora do volume. Aprecio a curta fração de tempo que acoberta a reta final duma compacta e misteriosa vida profissional, vivida de modo a realçar os valores nobres que uma nação formada por indígenas, conquistadores lusitanos, escravos africanos e colonos europeus pode manifestar no Novo Mundo. Salienta-se a reta final duma vida bem tecida com amizades e amor, de muito trabalho e muito sofrida.