terça-feira, agosto 21

Hora de dormir

Alessandro Gatto

Livro não é enfeite

Clara
Nenhum desses livros é enfeite, todos foram lidos ou estão a caminho de leitura. A leitura é um prazer que a gente adquire. No meu caso foi adquirido desde pequeno em casa porque meu pai era um leitor permanente
Marcos de Castro, jornalista e escritor, apresentando a sua biblioteca expansiva de sala, quarto, escritório e corredor

Intervalo de jogo

 Elena Feliu

Livraria

Lembro-me de ti
na livraria
com os olhos na estante
e a mão nas lombadas
com teu toque digital
de unhas não pintadas
apalpando a literatura mundial

Lembro que nunca
senti maior o ímpeto
de ser Dante
Cervantes Shakespeare
e ser levado por ti
para tua casa
e lido na cama
e sentir teu suspiro
na hora de Julieta
perguntar a Romeu
tu me amas?

E ser então Romeu
e dizer sim
o amor é meu amo
tu és minha ama
e te amo e te amo.

segunda-feira, agosto 20

Poltrona voadora

Mariusz Stawarski

Por onde começar

Sabe que, se quiser ser um grande homem, deverá ler livros sérios. Deveria ser como Abraão Lincoln ou James Watts, estudando à luz de vela enquanto todo mundo dorme, aprendendo sozinho latim, grego e astronomia. Ele não abandonou a ideia de ser um grande homem; promete a si mesmo que logo começará leituras mais sérias; mas por enquanto só quer ler histórias.

Lê todos os contos de mistério de Enid Blyton, todos os dos Hardy Boys, todos os de Biggles. Mas os livros de que mais gosta são as histórias da Legião Estrangeira francesa, de P.C. Wren.

- Quem é o maior escritor do mundo? - pergunta a seu pai.

- Shakespeare - responde o pai.

- Por que não P.C. Wren? - ele indaga. Seu pai não leu P.C. Wren e, apesar de seu passado militar, não parece interessado. - P.C. Wren escreveu quarenta e seis livros . Quantos livros Shakespeare escreveu ao todo? - ele desafia e começa a recitar os títulos.

Seu pai diz 'Ah' de modo irritado, mas não sabe a resposta.

Se seu pai gosta de Shakespeare, então Shakespeare deve ser ruim, ele conclui.

No entanto, começa a ler Shakespeare, na edição amarelada com bordas gastas que seu pai herdou e que deve valer muito porque é antiga.
J.M. Coetzee, "Cenas de uma vida"

Leitura em tela

Laura Lee Zanghetti

A rosa

Era um homem desatento. Havia vivido muitas décadas, mas conhecia pouco, muito pouco, da vida. Acreditava nos livros. Achava certo tudo que lia neles, mesmo que uns contradissessem os outros. Se havia contradição, deveria existir motivo para isso. Não achava necessário olhar para o sol, para o mar, para a lua. Tinha olhado para eles pelo menos uma vez na vida e sabia, pelos livros, o que eram e como eram. Vivia assim. Um dia, aceitando um convite para almoçar na casa de uma amiga, viu uma flor. Ia passar por ela sem lhe prestar atenção, quando a amiga disse: "É linda, não é? É o tesouro do meu jardim." Ele quis saber que flor era aquela e, quando a amiga, espantada, lhe perguntou se jamais tinha visto uma rosa, ele respondeu: "Provavelmente nunca." Olhou agora com interesse para a flor. Aquilo então era uma rosa, ele se maravilhou, porque nenhum livro o tinha preparado para aquela beleza. Por alguns dias sentiu uma doçura nova, uma ternura que ele nem sabia chamar por esse nome. A lembrança da rosa, seu brilho, seu perfume e sua delicadeza o deixaram inquieto por alguns dias. Mas a amiga nunca mais o convidou e, dali a algum tempo, se ele fosse definir uma rosa, repetiria o que lhe tinham dito seus livros.
Raul Drewnick

domingo, agosto 19

Angústia

Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim. Caminho como um cego, não poderia dizer porque me desvio para aqui e para ali. Frequentemente não me desvio - e são choques que me deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o chapéu, faz-me um calombo na testa; a calçada foge-me dos pés como se se tivesse encolhido de chofre; o automóvel pára bruscamente a alguns centímetros de mim, com um barulho de ferragem, um raspar violento de borracha na pedra e um berro de chauffeur. Entro na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-me. - "Perdão! Perdão!" digo às pessoas a que me abalroam porque não me afastei do caminho. As pessoas vão para os seus negócio, nem se voltam, e eu me considero um sujeito mal-educado. Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e, como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível. Raramento percebo qualquer coisa que se relacione comigo: um rosto bilioso e faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de gente nova que deseja ir para a cama, um choro de criança perdida.

Graciliano Ramos, "Angústia"

Leitura a dois

Lin Wang

Nobre exercício

Irene Rinaldi
Os homens, em sua maioria, aprendem a ler para satisfazer uma mesquinha conveniência, assim como aprendem a calcular a fim de organizarem sua contabilidade e não serem enganados no comércio, mas sabem pouco ou nada a respeito da leitura como um nobre exercício intelectual

Henry David Thoreau

Manhã de jardim e livro

 Jane Newland

Era uma vez o 'era uma vez'

Quando o Coelho Branco aparece diante do Rei Vermelho para dar seu depoimento no País das Maravilhas, diz que não sabe por onde começar. “Comece do começo”, lhe diz o Rei, “e continue até chegar ao final. Então pare”. Mas o que é esse começo? São João, pensando sem dúvida que dessa forma esclarecia o complexo dogma cristão, escreveu que no começo era o verbo. Séculos mais tarde, na primeira parte de Fausto, o desiludido médico procura nessa primeira palavra o entendimento que sente que lhe falta. Lutero teria traduzido esse verbo (logos) como wort, “palavra”, perdendo assim os outros sentidos implícitos no vocábulo grego, e Fausto se propõe a lê-los como “sinn”, “kraft” e “tat” – “intelecto”, “força” e “ação” –. Para Fausto, todas essas coisas estão no começo do livro sagrado.

As palavras iniciais de todo texto devem fazer pressentir as páginas seguintes. Pausada ou bruscamente, resumindo o argumento ou distraindo o leitor para que ele não adivinhe o desenlace, indicando o tom da narração que virá ou dando falsos indícios, se desculpando ou se vangloriando da aptidão do autor, as primeiras palavras são o gesto de reconhecimento e desafio lançados do ponto final de um livro ao leitor que inicia o percurso. Por motivos geralmente misteriosos, algumas dessas aberturas se tornam tão célebres que se transformam em lugares-comuns, enquanto outras são relegadas ao esquecimento como paixões fugazes.

Todo leitor reconhece o aterrador início de A Metamorfose, de Kafka: “Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto”. Ninguém pode se esquecer do inapelável começo de O Contrato Social, de Rousseau: “O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado”. Por que lembramos do musical início de As Ruínas Circulares, de Borges (“Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”), e não com igual facilidade “Gostávamos tanto da casa porque, além de ser espaçosa e antiga”, de A Casa Tomada de Cortázar? Talvez pelo poder do inaudito adjetivo “unânime”, bem mais memorável do que os banais, ainda que exatos, epítetos “espaçosa e antiga”. Isso sugere que talvez nos deixamos seduzir mais prontamente pelo tom dos começos do que por seus significados. “Fala-me, Musa, do varão de grande engenho” com que começa a Odisseia e “Canta, Deusa, a cólera de Aquiles” da Ilíada dependem, para que lembremos deles, e a menos que saibamos grego antigo, da tradução que escolhemos para lê-las.

Cem anos de solidão. Gabriel García Márquez. 1967. “Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía tinha de lembrar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.

Pep Boatella


Sem levar em consideração as páginas preliminares que Cervantes escreveu para seu Dom Quixote, mesmo os que não leram o romance sabem de cor as primeiras hoje célebres palavras do primeiro capítulo. Apesar, entretanto, dos inumeráveis comentários que apareceram desde a publicação do livro em 1605 (e ainda antes, quando circulavam cópias manuscritas do livro, como provam as respostas que dá Lope a Cervantes em El Peregrino en su Patria, publicado no ano anterior), não sabemos nada de como Dom Quixote foi composto. Não conservamos um manuscrito feito por Cervantes, não sabemos quais foram seus primeiros esboços, suas dúvidas, quais outras palavras iniciais foram imaginadas e descartadas, qual foi sua inspiração inicial.

O imprescindível Francisco Rico, comentando em 1996 uma edição crítica do Dom Quixote de Rodríguez Marín, observou que a longa nota sobre aquele “lugar da Mancha de cujo nome não quero me lembrar” demonstrava a influência de “um minguado romancezinho que nem o autor nem ninguém poderia ter em conta” e não dizia nada sobre a palavra lugar, que o leitor, segundo Rico, “interpreta indefectivelmente e equivocadamente como ‘local’, ‘paragem’ e não como povoadinho”. Rico acrescenta que a emoção que podem despertar no leitor as famosas palavras de Cervantes muitas vezes precisa dispensar todo o arcabouço crítico. As primeiras palavras de uma obra prima podem prescindir de facilitadores.

Goethe dizia que, antes de escrever um livro, era preciso tê-lo “todo na cabeça” porque “um livro não começa necessariamente pela primeira frase”. Provavelmente isso é verdade, mas há algo inefável nas palavras iniciais que para um leitor é o “Abre-te, Sésamo”, de um texto. “Arma virumque cano”, “Nel mezzo del cammin di nostra vita”, “Call me Ishmael”, “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira”, “Longtemps je me suis couché de bonne heure”, se transformaram, ao longo de nossas leituras, em uma espécie de catálogo abreviado da literatura universal canônica.

Ao prazer da citação reconhecida (da Eneida, da Divina Comédia, Moby Dick, Anna Karenina, Em Busca do Tempo Perdido) se acrescenta a emoção de iniciar uma viagem, o encanto de uma aventura compartilhada. Às vezes, a arqueologia literária nos permite entrever a pré-história de uma obra. Boccaccio nos conta que Dante começou a escrever sua comédia em latim antes de escolher a língua florentina, e que suas primeiras palavras foram “ultima regna canam” (“cantarei os reinos ultraterrenos”), no lugar de a escura selva e o caminho da vida. Sabemos, pelo manuscrito conservado na Fundação Bodmer de Genebra, que Proust imaginou as palavras “Pendant bien des années, chaque soir, quand je venais me coucher” antes de preferir a frase agora célebre. O manuscrito datilografado de Cem Anos de Solidão (conservado na Universidade do Texas) nos revela na primeira página uma única correção: a primeira frase que anuncia o descobrimento do gelo não tem alterações, mas, por outro lado, os dois parágrafos iniciais se transformam em um só.

Louis Aragón, discordando de Goethe, declara em Je n’ai jamais appris à écrire que a escrita não ocorre após a concepção da obra inteira e sim no incipit, por trás das palavras iniciais e também a partir delas. Aragón não entendia por “palavras iniciais” as que aparecem impressas na primeira linha de um livro e sim essa primeira iluminação verbal que tem um escritor, uma espécie de epifania literária a partir da qual uma obra começa a existir. “Uma história não tem começo e fim” são as primeiras palavras de O Fim da Aventura, de Graham Greene. “O instante da experiência de onde se olha para trás ou para diante é escolhido arbitrariamente”.

Esse instante pode estar fora do marco da história. Sabemos que no caso de O Médico e o Monstro, de Stevenson, esse instante foi um pesadelo, um dos muitos em que sentia que o que ele chamava de “a bruxa noturna” o prendia pela garganta e o impedia de respirar. O pesadelo não foi verbal e sim físico: a sensação de estar possuído por uma temível e aborrecida cor amarelada. Para Flaubert, seu Madame Bovary não começou com o ainda hoje misterioso “nós” que recebem em sua classe o novo aluno Charles Bovary, e sim com a breve leitura de um leve policial que lhe inspirou não só no enredo como também no estilo simples do livro. “Ontem à noite comecei meu romance”, escreve Flaubert a sua amiga Louise Colet em 20 de setembro de 1851. “Entrevejo agora dificuldades de estilo que me aterrorizam. Não é algo simples ser simples. Tenho medo de cair em um Paul de Kock ou em um Balzac chateaubrianizado”. O leitor de Madame Bovary sente o desejo de consolar Flaubert e lhe dizer que certamente isso não aconteceu.

Existem primeiras palavras de obras ilustres que não nos dizem nada da genialidade que virá ou pelo menos não nos cativam. Não acho que a leitura de “Bem, a partir de agora, Gênova e Lucca não são mais do que fazendas, domínios da família Bonaparte” faça com que o um leitor desprevenido intua que está começando a ler Guerra e Paz, e que “Um fantasma percorre a Europa” é a introdução ao Manifesto Comunista. Por outro lado, existem começos tão geniais que o leitor não tem como sentir-se decepcionado com as páginas seguintes. Por exemplo, não sei se Monsieur Teste, de Valéry, cumpre a promessa de seu admirável início, “A estupidez não é meu forte” e se As Torresde Trebizond, de Rose Macaulay, mantém ao longo do livro a sutil ironia de sua primeira frase: “Pegue meu camelo, querida’, disse minha tia Dot ao desmontar do animal ao retornar da missa”.

Nós leitores sentimos que as palavras com as quais um livro se inicia são essenciais, talvez mais do que as últimas, porque sabemos que toda conclusão tem algo de Ítaca e que chegados a ela já não há mais viagens e aventuras. A frase inicial de um texto pressagia (ainda que não revele) essa chegada ao ansiado porto. “Se serei o herói de minha própria vida, ou se esse papel caberá a outro, as páginas seguintes o dirão”, escreve Dickens no começo de David Copperfield. O mesmo pode ser dito de toda primeira palavra.

sábado, agosto 18

Um título e dois gostos


Lição na biblioteca

Ellen Jiang
Eu andava pela biblioteca procurando por livros. Tirava eles das estantes, um por um. Mas eles eram todos uma fraude. Eram muito maçantes. Páginas e páginas de palavras que não diziam nada. Ou, se diziam alguma coisa, levavam muito tempo para isso e, quando diziam, você já estava muito cansado para dar alguma importância. Eu tentei livro após livro. Naturalmente, em meio a tantos livros, deveria haver um.

Todo dia eu caminhava até a biblioteca pela Adams e pela La Brea e lá estava a minha bibliotecária, austera e infalível e silenciosa. Eu continuava a tirar os livros das prateleiras. O primeiro livro de verdade que eu achei era de um companheiro chamado Upton Sinclair. Suas frases eram simples e ele falava com raiva. Escrevia com raiva. Ele escreveu sobre os chiqueiros de Chicago. Vinha e dizia as coisas claramente. Então encontrei outro autor. Seu nome era Sinclair Lewis. E o livro se chamava Rua Principal. Ele descascava a camada de hipocrisia que costuma cobrir as pessoas. Só que carecia de paixão.

Charles Bukowski, "Misto-quente"

Primeira refeição

Raimundo de Madrazo y Garreta

O indivíduo cria o belo

Sharon Yamamoto
Afirmei que a sociedade, por meio da organização da maquinaria, fornecerá o que é útil; o que é belo será criado pelo indivíduo. Isto não só é necessário como é o único meio possível de obtermos um ou outro.

Um indivíduo que tenha de produzir artigos destinados ao uso alheio e à satisfação de necessidades e expectativas alheias, não trabalha com interesse e, consequentemente, não pode pôr em seu trabalho o que tem de melhor.

Por outro lado, sempre que uma sociedade, ou um poderoso segmento da sociedade, ou um governo de qualquer espécie, tenta impor ao artista o que ele deve fazer, a Arte desaparece por completo, torna-se estereotipada, ou degenera em uma forma inferior e desprezível de artesanato.

Uma obra de arte é o resultado singular de um temperamento singular, sua beleza provém de ser o autor o que é, e nada tem a ver com as outras pessoas quererem o que querem.

Com efeito, no momento em que um artista descobre o que estas pessoas querem e procura atender a demanda, ele deixa de ser um artista e torna-se um artesão maçante ou divertido, um negociante honesto ou desonesto. Perde o direito de ser considerado artista.

A Arte é a manifestação mais intensa de individualismo que o mundo conhece. Sinto-me inclinado a dizer que é a única verdadeira manifestação sua que ele conhece.

Em determinadas condições, pode parecer que o crime tenha dado origem ao individualismo. Para a execução do crime é preciso, no entanto, ir além da alçada própria e interferir na alheia. Pertence à esfera da ação.

Por outro lado, sozinho, sem consultar ninguém e livre de qualquer interferência, o artista pode dar forma a algo de belo; e se não o faz unicamente para sua própria satisfação, ele não é um artista de maneira alguma.

Cumpre observar que é o fato de ser a Arte essa forma intensa de individualismo que leva o público a procurar exercer sobre ela uma autoridade tão imoral quanto ridícula, e tão aviltante quanto desprezível.

A culpa não é verdadeiramente do público. Este nunca recebeu, em época alguma, uma boa formação. Está constantemente pedindo à Arte que seja popular, que agrade sua falta de gosto, que adule sua vaidade absurda, que lhe diga o que já lhe disseram, que lhe mostre o que já deve estar farto de ver, que o entretenha quando se sentir pesado após ter comido em demasia, e que lhe distraia os pensamentos quando estiver cansado de sua própria estupidez.

A Arte nunca deveria aspirar à popularidade, mas o público deve aspirar a se tornar artístico.

Oscar Wilde

sexta-feira, agosto 17

É sempre assim


Barriga de quatro meninos

Bevenuto era seu nome de batismo. Baixote, barrigudinho, olhinhos sumidos no rosto de sagüi. Cabelos de índio na cabeça pequena, pernas finas. Levava a vida no trabalho diário, por trás do balcão. Sua vendola ficava no meio do quarteirão da rua estreita, por onde não passava carro, às vezes servindo de campo de futebol improvisado para a garotada se divertir aos gritos no vaivém do jogo.

A preocupação maior era que até o momento não tinha se tornado pai, casado há seis anos e nada da mulher Cidália emprenhar, dando-lhe de preferência um menino na primeira barriga. Não havia perdido a esperança, a boa surpresa podia acontecer um dia. No primeiro ano de casado, vendera as duas carroças de fazer mudança e aproveitara o cômodo da casa pequena na frente para instalar ali uma venda. Naquele cômodo, antes era uma sala, piso de cimento, vendia cigarro, charuto, fumo, fósforo, vela, aguardente; requeijão, farinha, milho, carvão. Pão, bolacha, cocada de coco, balas de jenipapo que a mulher fazia e a garotada achava uma delícia. Abria cedinho o pequeno estabelecimento, mesmo sabendo que os fregueses apareciam a partir das oito horas. O movimento dos fregueses era razoável na semana, melhorava no sábado.

Não gostava de emitir opinião sobre algum fato grave que abalava a cidade pequena. Não se encaixava com o seu jeito de homem reservado, mais para escutar, não gostava de se meter na vida dos outros. Tinha só que se preocupar com o seu trabalho diário na venda. Acostumara-se desde pequeno a ver a vida como uma viagem em que tudo acontecia porque tinha de acontecer mesmo. O destino era quem comandava os passos de cada vivente na estrada da vida, como certa vez lhe dissera o avô Bertino, um de cara de índio. Do passado, a gente deve só lembrar as boas, as amargas nunca. Viver, sim, o presente, que o futuro ninguém tem controle, completou o avô, o rosto sereno, de quem sabia das coisas, como se fosse uma espécie de filósofo popular, acumulado de lições proveitosa que a vida lhe ofertava sem nada cobrar.

Saltou um brilho dos olhos miúdos do Bevenuto quando Cidália acordou toda alegre naquele dia de domingo. Nossa Senhora Perpétua do Socorro atendera finalmente seus rogos, com vela acesa e reza do peito contrito, durante a semana. Antes de sair para a missa, noticiou ao marido que ultimamente estava com uma fome indomável, tinha vontade de comer até pedra, um enjoo esquisito, vomitava em segredo. Resolveu ir ao posto popular do bairro para consultar o médico. Soube dele que estava grávida. Melhor presente ele não podia ter recebido da Cidália, já na segunda-feira atendera aos fregueses num jeito tão falante como ainda não tinha acontecido.

Mais surpreso ficaria quando tomou conhecimento que a mulherzinha iria ter gêmeos. Que presentão, que notícia supimpa! Ah, a vida, gostava de fazer certas brincadeiras de bom gosto ou com asneiras, que deixam o vivente lambuzado de contente ou como um herói abatido, conforme o desfecho. Ainda bem que agora ela apareceu de bom grado para o lado dele. Iria satisfazer em definitivo o desejo de ser pai. Só não ficou mais satisfeito quando soube depois que a Cidália teve uma parição de quatro meninos. Com rendimentos modestíssimos que a venda fornecia, a vida, que já não era fácil, de agora em diante ia ser um suplício. Como iria se arranjar para alimentar e educar quatro filhos? Cidália recebeu a ajuda da Irmandade Senhoras de Caridade, que recolheu donativos entre os comerciantes e moradores das ruas principais da cidade. As contribuições deram para comprar o enxoval das quatro crianças e o leite em pó durante o primeiro ano. Outras contribuições vieram de pessoas que moravam na rua onde Benvindo mantinha a sua venda. Ajudaram na feira semanal, durante certo tempo.

Em casa com apreensões e muxoxos. Na venda tinha de ser compreensivo e sorridente com certos fregueses. Precisava manter a freguesia, mais que nunca. Curiosos, alguns dos fregueses queriam conferir de perto se a notícia era verdadeira. Aquela mulher magrinha, de estatura baixa, tivera mesmo quatro meninos duma só barriga? Durante a gestação, a barriga pequena nem parecia suficiente para ter um filho quanto mais quatro num só despejo, o de boca desdentada observava, junto do balcão. Tratava-se de verdadeira heroína! – outro dizia admirado, o mais afoito entre os três, que conversavam animados. Todo sorridente, pediu mais um copo de cachaça para comemorar o feito da mulherinha incrível. .

Os quatro meninos foram batizados com os nomes de Geraldino, Genolino, Natalino e Nivaldino. Quando se tornaram rapazes, já dispostos para o esforço da vida, vivendo do suor do corpo, dois disseram ao pai que tinham escolhido como profissão para sobreviver a atividade mecânico de carro, os outros preferiram o ofício de eletricista. Assumiam suas atividades na semana, no domingo destacavam-se como jogador de futebol na liga amadora da cidade. Defendiam a camisa azul da aguerrida equipe do Janízaros Futebol Clube. Eram atacantes rápidos e com algum recurso técnico. Quando um deles fazia um gol, o difícil para a torcida era saber quem fora o autor da proeza. Nivaldino, Natalino, Geraldino ou Genolino?
Cyro de Mattos

Começo do dia

Hans Thoma (1839–1924)