sexta-feira, dezembro 11
Descrição
quinta-feira, dezembro 10
Notícias do presente sem futuro
De repente, o tempo transformou-se neste tempo: um presente absoluto. O passado ficou incrivelmente distante, recordamo-lo como se tivesse acontecido a outras pessoas, como se o tivéssemos visto num documentário. Pior ainda, o futuro deixou de existir. Antes, naquele tal tempo que antecedeu este, dávamos o futuro por adquirido, chegaria na semana que vem, no mês que vem, haveria futuro em 2033, por exemplo. Agora, já não temos a certeza. Agora, o futuro é uma utopia ou uma distopia, dependendo do otimismo/pessimismo de cada um.
Alguns, discípulos de Heráclito com 2500 anos de atraso, asseguram-nos que nada será como costumava ser. Estou cansado dos clichés deste tempo. Estou cansado de ouvir que a adversidade é uma oportunidade, é um desafio. Dispenso esse tipo de desafios.
Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga. No entanto, repare-se no meu esforço por não utilizar certas palavras. Há certos verbos e substantivos que já não consigo ouvir, menos ainda pronunciá-los, menos ainda escrevê-los, vê-los impressos.
Estou cansado dos especialistas. Cansa-me os que são realmente especialistas, os que se empenharam a fazer licenciaturas e pós-gaduações quando estas disciplinas não estavam na ordem do dia, quando não havia nenhum indício de que fossem chamados ao telejornal para dar o seu parecer. Mas cansa-me sobretudo os especialistas de ocasião, especialistas entre aspas de chumbo, leitores de internet, gente que não gagueja ao falar e que quer sempre falar.
Prefiro as minorias silenciosas, como é o caso de quem está em prisão domiciliária ou de quem sofre de agorafobia. Esses beneficiaram de uma trégua. As crianças deixaram de perguntar porque é que o tio tem uma pulseira na perna e nunca sai de casa. De certa forma, estes meses foram uma redução na pena. Ao mesmo tempo, quem sofre de agorafobia pôde sentir-se normal, não teve de escutar insistências para sair. Algo semelhante aconteceu com as aldeias do interior. Durante este período, foi normal que as ruas estivessem desertas.
Estou cansado da condenação feita pelos puristas do isolamento social, sempre a medirem distâncias com os olhos. Passam dias inteiros à janela só para poderem chamar irresponsáveis aos outros e dizer: já viram isto? Eles nunca são irresponsáveis, eles estão sempre a ver tudo, com a exceção daquilo que preferem não ver, é claro.
Estou cansado da escola em casa, muito cansado. Estou cansado da ginástica em casa, toda a gente do prédio em frente a fazer agachamentos. Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou cansado desta agressão aos velhos. Já tinham problemas suficientes: a palavra velho usada como um insulto, por exemplo. Já tinham sido obrigados a aceitar suficientes injustiças. Agora, por cima de todas essas, também esta injustiça.
Estou cansado. Com essa falta de ânimo, assisto ao início da crise económica que já chegou para alguns e, diz-se, tocará a todos, ou quase. Este quase tem enorme importância, mas não o estranhamos, há muito que nos habituámos à desigualdade, aprendemos a justificá-la. Vista daqui, também a desigualdade se apresenta como um eterno presente, uma inevitabilidade do ser humano, não mudou e ninguém prevê que esteja para mudar.
quarta-feira, dezembro 9
Crônica n° 1
segunda-feira, dezembro 7
Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional
As mãos enluvadas da bibliotecária extraem com delicadeza a página da pasta que acaba de retirar de uma caixa. São na verdade vários pedacinhos de papel grudados entre si com cola e durex amarelados. A palavra FIM, em maiúsculas, se destaca em meio a alguns parágrafos e frases soltas rabiscadas a caneta. Assim, como uma colagem, nasciam as obras de Clarice Lispector (1920-1977), a escritora brasileira mais original, mais traduzida e das mais importantes do século XX.
Costumava anotar ideias que lhe brotavam, sensações ou frases perturbadoras, observações literárias que misturava com tarefas prosaicas como telefonar para fulano, emagrecer ou comprar flores; só quando aquelas palavras estavam maduras datilografava o texto. Sempre com a máquina de escrever sobre o colo. A página grudada pertence ao manuscrito de sua obra póstuma, Um Sopro de Vida, e é parte da sua biblioteca, conservada pelo Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro, uma pequena janela para o método de criação de uma romancista, contista e tradutora que completaria 100 anos em 10 de dezembro.
Lispector tinha 22 anos quando publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que lhe valeu um prêmio, apesar de ter desconcertado a crítica. Aquela tiragem se esgotou, mas sua fama de autora de leitura difícil foi um lastro durante anos. Para ela, era evidente que se tratava de um problema de pele, não de cérebro. “Não se trata de inteligência, mas sim de sentimentos, de entrar em contato”, disse na televisão em sua última entrevista, meses antes de morrer de câncer de ovário, às vésperas de completar 57 anos. “Parece que ganho com a releitura. É um alívio.”
Nascida em Chechelnik, uma aldeia ucraniana à época pertencente à Rússia soviética, era bebê quando os Lispector, que fugiam da guerra e dos pogroms, chegaram ao Brasil, onde tinham parentes. A menina criada em iídiche tinha um sotaque peculiar. Embora falasse e lesse em francês, inglês e italiano, o português foi a língua em que escrevia, pensava, sonhava e amava.
Lispector revolucionou o panorama literário brasileiro nos anos quarenta. Ser mulher influenciou, mas foi sobretudo porque isso estava unido a um estilo inovador. “É uma autora selvagem, pouco polida, como se caísse no mundo com muita fome. Nela você percebe fome, sede, amor, paixão. É muito pouco intelectual”, explica o estudioso de sua obra Eucanaã Ferraz, do IMS. Aquela mulher enigmática, bela, arrumada como uma estrela de cinema, irrompe num momento de profunda transformação social para as mulheres ocidentais. Começam a se liberar quando Lispector deixa em sua obra sua parte mais selvagem, mais animal, ao mesmo tempo em que leva a vida convencional de uma mulher de classe alta. Durante 15 anos vive no exterior para acompanhar seu marido diplomata enquanto cria os dois filhos do casal. Continua anotando ideias. Escrevendo. Publicando.
“Às vezes me sentava na rede para me balançar com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em um êxtase muito puro. Já não era uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”, narra Lispector no conto Felicidade Clandestina.
Em sua última entrevista descreveu o imenso sofrimento que a atazanava entre cada obra: “Acho que quando não escrevo estou morta”.
Alguns de seus artigos e livros estão depositados em outra instituição cultural do Rio, a Casa de Rui Barbosa, mas a maioria está no IMS, a dois passos da praia de Ipanema. Junto a dois manuscritos colados, conserva 800 livros de sua biblioteca pessoal, seus discos, fotografias familiares e a correspondência com suas irmãs, Tania e Elisa. O intercâmbio de cartas relata sua vida durante os anos que viajou pela Europa e África e viveu na Suíça, Estados Unidos, Reino Unido e Itália. “Minhas queridas”, inicia uma missiva em que se despede com um “sejam felizes, eu o sou à minha maneira”. Uma pequena caderneta com notas doada por seu filho Paulo Gurgel Valente é uma das incorporações mais recentes ao acervo.
Escritora cult e leitora eclética. Sob seu olhar passavam tanto Dostoiévski quanto romances adocicados, ou O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, que a deixou comovida aos 13 anos. Escolhia suas leituras pelos títulos mais que pelos autores, dizia. Exemplares de Spinoza com anotações a lápis, obras de Tolstói, Kafka e Machado de Assis convivem com livros sobre James Joyce e Shakespeare, metafísica, romances de espionagem e a Enciclopédia da Mulher e da Família, observa Jane Leite, bibliotecária do IMS. Com seu primeiro salário, ganho como jornalista no Rio, comprou Felicidade, de Katherine Mansfield. Aquele exemplar não está na biblioteca, mas sim um de Lettere, as cartas da contista neozelandesa editadas em italiano pela Mondadori.
A pandemia obrigou o Instituto Moreira Salles a suspender as visitas à biblioteca e adiar para 2021 a mostra Constelação Clarice, que reunirá artistas plásticas brasileiras contemporâneas da autora e que deveria celebrar seu centenário.
Às portas dos 40 anos, Clarice se divorciou. Voltou com os dois filhos para o Rio, onde hoje é tema de uma escultura pública: sentada com um livro no colo, dá as costas a uma das praias mais belas do mundo, Copacabana. Uma imagem da sua própria obra, onde não há lugar para as paisagens, nem as épocas. São viagens introspectivas aos pensamentos, os medos, as angústias, os afetos... quase sempre protagonizados por mulheres que vivem em universos convencionais como o seu.
Entrou na literatura infantil após ouvir as queixas de um de seus filhos, que a recriminou por escrever para tanta gente, mas não para ele. Dedicou-lhe um conto em inglês, porque na época a família vivia nos EUA. Ser mãe é a experiência que mais a marcou, afirma o crítico Ferraz. Mas não pelos laços familiares, e sim pelo fato de dar vida, como faz qualquer animal ou semente. Nunca quis ser aquela escritora que no horário de trabalho não podia atender a sua prole. Jamais lhe incomodou que Pedro e Paulo alterassem aquelas horas, logo após o amanhecer, em que criava das vísceras com cigarros e muito café.
domingo, dezembro 6
Sobre agendas e tempo desperdiçado
Que o tempo é uma ilusão é algo que a humanidade já intuía antes que Einstein viesse nos contar. Ao longo dos séculos, os filósofos tentaram compreender essa substância elástica e mutável em que nossas vidas se desenrolam. É sabido por todos que, quando crianças, as horas são longuíssimas e os dias, eternos; mas que à medida que envelhecemos o tempo começa a adquirir um ritmo desoladoramente vertiginoso.
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| Kerrie Robertson |
Mas, além desses arranhões mentais, é claro que existe um componente psicológico: a meia hora que você passa na cadeira do dentista não dura o mesmo que a que você vive nos braços do seu amado. Curiosa e paradoxalmente, notei que, quando você faz menos coisas na vida, quando tem menos atividades, quando está impaciente ou insatisfeito, quando está entediado, digamos, o tempo se torna longuíssimo, mas na verdade é quando mais corre. É quando você olha para trás e se pergunta: mas, para onde foram os dias, o que aconteceu? Ontem, minha amiga Ana Arambarri me escreveu: “Fui comprar a agenda para 2021 e na hora de pagar exclamei alto; "E para quê eu a quero, se não tenho nada para anotar?" O vendedor respondeu: "Você não é a única cliente que está deprimida". Esta é a questão: o furacão da pandemia esvaziou nossas agendas mentais e transformou o tempo em uma argamassa de travessia difícil.
Ana Arambarri, por exemplo, teve a má sorte de publicar seu último livro, Música Contra los Muros, no final de fevereiro, e então o coronavírus chegou e o comeu (uma pena, porque é um texto fascinante sobre a orquestra árabe-judaica fundada por Barenboim). Em maior ou menor grau, e em alguns casos de forma gravíssima, esta pandemia atrapalhou a vida de nós todos.
Agora olho para a agenda da Random, enfim, ou contemplo as iluminações de Natal, cuja chegada sempre me angustia um pouco, mas que este ano estou tentada a apedrejar, e de repente me ocorre que, se queremos recuperar nossa existência, a primeira coisa que temos que alcançar é nos tornarmos senhores de nosso tempo. No início da minha juventude, sendo tão sentimentalmente apaixonada como era (agora estou me desprendendo), mais de uma vez quis apagar os dias, desejei jogá-los pela janela, e que o tempo passasse quanto antes para poder chegar ao próximo encontro com o amado da vez. Até que um dia compreendi que os amores passavam, mas as horas perdidas pesavam. Que eram vida morta dentro de mim, porque não há maior riqueza neste mundo do que esse brevíssimo tempo que cabe a cada um de nós e, portanto, não há estupidez mais triste e imperdoável do que desperdiçá-lo ou querer gastá-lo. A partir daquela pequena revelação tenho procurado estar consciente do presente e respeitá-lo. É muito difícil, eu sei, mas mesmo mas travessias ruins, como esta (ou melhor, especialmente em travessias ruins como esta), temos que tentar fazer de cada dia uma obra de arte.
sábado, dezembro 5
O mistério dos monólitos
O filme de Kubrick é de 1968. O conto de Clarke foi escrito em 1948 e publicado pela primeira vez em 1951, com o título “Sentinela da eternidade”. Curiosamente, o próprio escritor ficava irritado sempre que referiam a ligação entre o conto e o filme, afirmando que um tinha tanto a ver com o outro quanto uma bolota com o carvalho resultante dela. É uma boa imagem. Longe de contradizer, apenas confirma a justeza da genealogia. O filme incorpora ideias de vários outros contos de Clarke. Porém, o conceito seminal está lá — o de um misterioso artefato alienígena abandonado na lua, para vigiar o processo de desenvolvimento da Humanidade. Clarke, que escreveu o roteiro de “2001 — Uma odisseia no Espaço” em conjunto com Kubrick, publicou depois quatro romances com esse título, desenvolvendo o enredo apresentado no filme.
Quando esta crônica for publicada é possível que já tenham sido encontrados outros tantos monólitos — um termo incorreto, aliás, pois os objetos em causa são de aço e não de pedra.
Ou talvez eu esteja procurando respostas complexas para um fenômeno que não expressa senão o ululante vazio do presente: a loucura tornou-se, afinal, a nova normalidade.
A cruel pandemia
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| Alfredo Martirena(Cuba) |
Ano, 2120. Local, Green Town (citado em outras obras suas). Os oráculos se reuniram num templo conhecido como Nova Delfos – por ter, no alto, uma sentença de Tales de Mileto, “A certeza é precursora da ruína”. E chegaram à conclusão de que jamais houve um vírus tão contagiante, e tão mortal, como aquele. Ainda mais forte que o disseminado, pelo planeta, nos anos de 2019/2020. Provavelmente, mutação do “covid” (sarscov2) com o “ebola” (corobola). Para se diferenciar da anterior, acordaram que seria chamada "Cruel Pandemia". Para preservar vidas, os oráculos decidiram que no segundo S, do minuto M, e na hora H, do dia D, todos deveriam permanecer em suas PODs (unidades habitacionais mínimas). Até quando alguma vacina fosse descoberta. Naquela Nova Democracia, que agora vigorava, todos os homens eram verdadeiramente iguais.
Ocorre que começaram a surgir problemas não previstos, pelos sábios. Antes de irem para suas moradias, os funcionários das companhias de água e energia tiveram a cautela de desligar as matrizes de força. E deixaram de funcionar elevadores, geladeiras, BI2 (Brain Internet Interface), que substituíram TVs e computadores. Até os "housebots" (robôs domésticos) pararam. No campo, a produção de grãos foi interrompida. Fecharam transportes, supermercados e deliverys. Alimentos começaram a apodrecer. E faltar. Água também. Como os policiais estavam se preservando, longe, PODs eram invadidas. E seus ocupantes, mortos. Famintos vagavam, sem destino, pelas ruas. Cadáveres se amontoavam, nas esquinas, sem ter quem os sepultasse. Quílon, mais velho dos oráculos, antes de morrer de sede, anotou em sua caderneta que o modelo adotado, para proteger os habitantes, era só um belo discurso. E que a Nova Democracia fracassou.
P.S. Claro que a história da Arca é falsa. Mas devemos refletir, com mais calma, sobre essa história. Porque a tese de mandar a classe média se trancar nos apartamentos só funciona se o Brasil real estiver nas ruas, se expondo e assumindo riscos, na luta para sobreviver.
José Paulo Cavalcanti Filho
sexta-feira, dezembro 4
Goteiras
É na pequena e excelente antologia com que acaba o livro de Alone, "História personal de la literatura chilena" (livro tão bom que tive o impulso de comprá-lo para mandar de presente a Manuel Bandeira no seu dia aniversário, em 19 de abril), que encontro este trecho capaz de comover a qualquer um que já morou em casa antiga, no Chile, no Brasil, em qualquer canto do mundo:
"As goteiras são o piano de minha infância. Meu pai sempre falava em comprar um piano que, além de permitir que minhas tias tocassem minha adorada valsa "Sobre as ondas" daria à nossa família esse título inexprimivelmente distinto que vem da frase: "Eles têm piano". Meu pai, nos momentos em que o deixava livre sua vida de mobilidade perpétua, porque era chefe de trem, chegava até a medir as portas por onde deveria passar aquele piano que não chegou nunca.
Mas o grande piano das goteiras durava todo o inverno. Logo às primeiras chuvas revelavam-se novas goteiras, de voz doce, que acompanhavam as antigas. Minha mãe espalhava bacias, vasos, jarras, latas. Cada um dava um som diferente: a cada um desses vasilhames chegava do céu tempestuoso uma diferente mensagem, e eu distinguia o som claro de uma bacia de ferro esmaltado de lavatório do som opaco e amargo de um balde amolgado. Esta é quase toda a música, o piano de minha infância, e suas notas, digamos, suas goteiras, me acompanharam aonde me tocou viver; caindo sobre o meu coração e a minha poesia."
Pela tradução.
quinta-feira, dezembro 3
Os cegos, juízes das cores
Infelizmente, um dos seus professores afirmou ter noções claras sobre o sentido da vista; fez-se escutar, intrigou, formou entusiastas: foi, por fim, reconhecido como o líder da comunidade. Pôs-se a deliberar soberanamente sobre as cores, e tudo se perdeu.
O primeiro ditador dos Quinze-Vinte formou a princípio um pequeno conselho, através do qual se fez senhor de todas as esmolas. Pelo que ninguém ousava resistir-lhe. Decidiu que todos os hábitos dos Quinze-Vintes eram brancos: os cegos acreditaram nele; não falavam senão dos seus belos hábitos brancos, ainda que nem um só tivesse essa cor.
Toda a gente troçou deles, e o grupo foi queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal: apelidou-os de inovadores, de livre-pensadores, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham dois olhos, e ousavam duvidar da infalibilidade do seu mestre.
Esta disputa deu origem a dois partidos. O ditador, para os apaziguar, decretou um acórdão segundo o qual todos os seus hábitos eram vermelhos. Não havia um único hábito vermelho entre os Quinze-Vintes. Foram alvo de troça ainda maior: novas queixas da parte da comunidade.
O ditador enfureceu-se, os outros cegos também: debateram-se longamente, e a concórdia só foi restabelecida quando foi permitido a todos os Quinze-Vintes suspender o juízo sobre a cor dos seus hábitos.
Um surdo, ao ler esta pequena história, reconheceu que os cegos tinham procedido mal ao julgar as cores. Mas manteve-se firme na opinião de que é aos surdos que cabe julgar a música.
Voltaire (François-Marie Arouet, (1694 - 1778)



















