sexta-feira, dezembro 11

Farol

 


Descrição

Era uma mulher antiga. Na mesa do seu almoço, havia um constante vidro de Poção de Mugólio. Dormia de meias de homem e, durante o sono, cheirava a ponta de lápis. Não pisava no chão frio, com medo de ficar com a boca torta. Era uma mulher antiga. Chamava o Amor de maneira tão estranha, que parecia não ter nascido dele. Não amava, temia a Deus sobre todas as coisas. De bebida, nem ao longe lhe falassem, a não ser de vinho do Porto, assim mesmo com uma gema dentro. Tinha um grande respeito a Carlos Gomes, a quem atribuía o Hino Nacional. Acreditava em coisas absurdas, como o ri melhor quem ri por último e o quem dá aos pobres empresta a Deus. Era uma mulher antiga. Ignorava tanto de si mesma, que seu maior orgulho era uma tia. Entendia de rendas e bordados, monograma de fronha e point-à-jour. Muitas vezes, na frente das pessoas, chamava avião de aeroplano. Navio, de vapor, isso era sempre. Jamais chamou samba e sim maxixe e fatia de presunto era fiambre. Se ia comungar e havia festa, preferia dançar com as outras moças. Só com um homem dançava descansada: Arlindo, seu pai, que morreu pobre. Ela mesma cosia os seus vestidos, com temor que a modista a visse em trajes íntimos. Jamais tomou banho no chuveiro, sem botar algodão na fechadura. Jamais, se despida, olhou espelhos, por temer a cobiça de si mesma. Jamais se deixou fotografar, sem pedir ao artista os negativos. Estava tão acima das demais, que lavava a cabeça em todo banho. Sua roupa cheirava a capim-santo. Seu corpo sem sol não ia à praia, por isso era branco o tempo todo. Em junho, no São João, tirava sortes, para ver se casava ou se morria. Preferia não ver fita nenhuma, a sentar-se entre estranhos num cinema. Seu dinheiro era pouco e desconstante, mas dava-o todo para as obras pias. De canção, só sabia o "Chão de estrelas", de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. Em política, fazia confusão, pois temia, a só tempo, Carlos Prestes, Flores, Sagramor e Adauto Lúcio... por achá-los com ideias avançadas. Tinha medo de tudo o que mudasse esse transe, a seu ver, chamado Paz. Além disso, se amava, era uma graça. Não sabia das coisas, inventava. Jamais repetiu, criou o Novo. E ninguém lhe ensinou – aprendeu só. Por ser um Ser de Deus feito em essência, no dia em que morreu, não houve missa. Era uma mulher antiga.
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"

quinta-feira, dezembro 10

Sempre a brincar

 


Notícias do presente sem futuro


Estou cansado que me perguntem como é que estou a passar este tempo.

De repente, o tempo transformou-se neste tempo: um presente absoluto. O passado ficou incrivelmente distante, recordamo-lo como se tivesse acontecido a outras pessoas, como se o tivéssemos visto num documentário. Pior ainda, o futuro deixou de existir. Antes, naquele tal tempo que antecedeu este, dávamos o futuro por adquirido, chegaria na semana que vem, no mês que vem, haveria futuro em 2033, por exemplo. Agora, já não temos a certeza. Agora, o futuro é uma utopia ou uma distopia, dependendo do otimismo/pessimismo de cada um.

Alguns, discípulos de Heráclito com 2500 anos de atraso, asseguram-nos que nada será como costumava ser. Estou cansado dos clichés deste tempo. Estou cansado de ouvir que a adversidade é uma oportunidade, é um desafio. Dispenso esse tipo de desafios.

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga. No entanto, repare-se no meu esforço por não utilizar certas palavras. Há certos verbos e substantivos que já não consigo ouvir, menos ainda pronunciá-los, menos ainda escrevê-los, vê-los impressos.

Estou cansado dos especialistas. Cansa-me os que são realmente especialistas, os que se empenharam a fazer licenciaturas e pós-gaduações quando estas disciplinas não estavam na ordem do dia, quando não havia nenhum indício de que fossem chamados ao telejornal para dar o seu parecer. Mas cansa-me sobretudo os especialistas de ocasião, especialistas entre aspas de chumbo, leitores de internet, gente que não gagueja ao falar e que quer sempre falar.

Prefiro as minorias silenciosas, como é o caso de quem está em prisão domiciliária ou de quem sofre de agorafobia. Esses beneficiaram de uma trégua. As crianças deixaram de perguntar porque é que o tio tem uma pulseira na perna e nunca sai de casa. De certa forma, estes meses foram uma redução na pena. Ao mesmo tempo, quem sofre de agorafobia pôde sentir-se normal, não teve de escutar insistências para sair. Algo semelhante aconteceu com as aldeias do interior. Durante este período, foi normal que as ruas estivessem desertas.

Estou cansado da condenação feita pelos puristas do isolamento social, sempre a medirem distâncias com os olhos. Passam dias inteiros à janela só para poderem chamar irresponsáveis aos outros e dizer: já viram isto? Eles nunca são irresponsáveis, eles estão sempre a ver tudo, com a exceção daquilo que preferem não ver, é claro.

Estou cansado da escola em casa, muito cansado. Estou cansado da ginástica em casa, toda a gente do prédio em frente a fazer agachamentos. Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou cansado desta agressão aos velhos. Já tinham problemas suficientes: a palavra velho usada como um insulto, por exemplo. Já tinham sido obrigados a aceitar suficientes injustiças. Agora, por cima de todas essas, também esta injustiça.

Estou cansado. Com essa falta de ânimo, assisto ao início da crise económica que já chegou para alguns e, diz-se, tocará a todos, ou quase. Este quase tem enorme importância, mas não o estranhamos, há muito que nos habituámos à desigualdade, aprendemos a justificá-la. Vista daqui, também a desigualdade se apresenta como um eterno presente, uma inevitabilidade do ser humano, não mudou e ninguém prevê que esteja para mudar.

quarta-feira, dezembro 9

Luz própria

 


Crônica n° 1

Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e nos apresentamos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você, os responsáveis por ela, nos conhecemos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do "enfim sós."

Cá estamos também os dois no nosso "enfim sós" – e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto. Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu. Confesso-lhe, leitor, que diante da entidade coletiva que você é, o meu primeiro sentimento foi de susto, sim, susto, ante as suas proporções quase imensuráveis. Disseram-me que o leitor de O Cruzeiro representa pelo barato mais de cem mil leitores, uma vez que a revista põe semanalmente na rua a bagatela de cem mil exemplares!...

Sinto muito, mas francamente lhe devo declarar que não estou de modo nenhum habituada a auditórios de cem mil. Até hoje tenho sido apenas uma autora de romances de modesta tiragem; é verdade que venho há anos frequentando a minha página de jornal; mas você sabe o que é jornal: metade do público que o compra só lê os telegramas e as notícias de crimes, e a outra metade lê rigorosamente os anúncios. O recheio literário fica em geral piedosamente inédito. E agora, de repente, me atiram pelo Brasil afora em número de cem mil! Não se admire portanto se eu me sinto por ora meio gauche.

Dizem-me também que você costuma dar sua preferência a gravuras com garotas bonitas, a contos de amor, a coisas leves e sentimentais. Como, então, se isso não é mentira, conseguirei atrair o seu interesse? Pouco sei falar em coisas delicadas, em coisas amáveis. Sou uma mulher rústica, muito pegada à terra, muito perto dos bichos, dos negros, dos caboclos, das coisas elementares do chão e do céu. Se você entender de sociologia, dirá que sou uma mulher telúrica; mas não creio que entenda. E assim não lhe resta sequer a compensação de me classificar com uma palavra bem soante.

Nasci longe e vivo aqui no Rio mais ou menos como num exílio. Me consolo um pouco pensando que você, sendo no mínimo cem mil, anda espalhado pelo Brasil todo e há de muitas vezes estar perto de onde estou longe; e o que para mim será saudosa lembrança, é para você o pão de cada dia. Seus olhos muitas vezes ambicionarão isto que me deprime – paisagem demais, montanha demais, panorama, panorama, panorama. Tem dias em que eu dava dez anos de vida por um pedacinho bem árido de caatinga, um riacho seco, um marmeleiral ralo, uma vereda pedregosa, sem nada de arvoredo luxuriante, nem lindos recantos de mar, nem casinhas pitorescas, sem nada deste insolente e barato cenário tropical. Vivo aqui abafada, enjoada de esplendor, gemendo sob a eterna, a humilhante sensação de que estou servindo sem querer como figurante de um filme colorido. Até me admira todo o mundo do Rio de Janeiro não ser obrigado a andar de sarongue. Mas cala-te, boca; para que fui lembrar? Capaz de amanhã sair uma lei dando essa ordem.

Apesar, entretanto, de todas essas dificuldades, tenho a esperança de que nos entenderemos. Voltando à comparação dos casamentos de príncipe, o fato é que as mais das vezes davam certo. Não viu o do nosso Pedro II com a sua Teresa Cristina? Ele quase chorou de raiva quando deu de si casado com aquele rosto sem beleza, com aquela perna claudicante; porém com o tempo se acostumaram, se amaram, foram felizes, e ela ganhou o nome de Mãe dos Brasileiros. Assim há de ser conosco, que eu, se não claudico no andar, claudico na gramática e em outras artes exigentes. Mas sou uma senhora amorável, tal como a finada imperatriz, e de alma muito maternal. A política é que às vezes me azeda, mas, segundo o trato feito, não discorreremos aqui de política. Em tudo o mais sempre me revelo uma alma lírica, cheia de boa vontade; se sou triste um dia ou outro, não sou mal-humorada nunca. E tenho sempre casos para contar, casos da minha terra, desta ilha onde moro: mentiras, recordações, mexericos, que talvez divirtam seus tédios.

Você irá desculpando as faltas, que eu por meu lado irei tentando me adaptar aos seus gostos. Quem sabe se apesar de todas as diferenças alegadas temos uma porção de coisas em comum?

Vez por outra hei de lhe desagradar, haveremos de divergir; ninguém é perfeito neste mundo e não sou eu que vá encobrir meus senões. Tenho as minhas opiniões obstinadas – você tem pelo menos cem mil opiniões diferentes –, há, pois, muito pé para discordância.

Mas quando isso suceder, seja franco, conte tudo quanto lhe pesa. Ponha o amor próprio de lado, que prometo também não fazer praça do meu. Lembre-se de que há um terreno de pacificação, um recurso extremo, a que sempre poderemos recorrer: fazemos uma trégua no desentendimento, procurando esquecer quem dos dois tinha ou não tinha razão; damos o braço e saímos andando por este mundo, olhando tudo que há nele de bonito ou de comovente: os casais de namorados nos bancos de jardim; o garotinho cacheado que faz bolos na areia da praia, a luz da rua refletida nas águas da baía, ou simplesmente o brilho solitário da estrela da manhã.

Depois disso, não precisaremos sequer de fazer as pazes; nos seus cem mil variadíssimos corações, como no meu coração único só haverá espaço para amizade e silêncio.

Há anos sei que é infalível o resultado da estrela da manhã.

segunda-feira, dezembro 7

O que nos protege

 


Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional

As mãos enluvadas da bibliotecária extraem com delicadeza a página da pasta que acaba de retirar de uma caixa. São na verdade vários pedacinhos de papel grudados entre si com cola e durex amarelados. A palavra FIM, em maiúsculas, se destaca em meio a alguns parágrafos e frases soltas rabiscadas a caneta. Assim, como uma colagem, nasciam as obras de Clarice Lispector (1920-1977), a escritora brasileira mais original, mais traduzida e das mais importantes do século XX.

Costumava anotar ideias que lhe brotavam, sensações ou frases perturbadoras, observações literárias que misturava com tarefas prosaicas como telefonar para fulano, emagrecer ou comprar flores; só quando aquelas palavras estavam maduras datilografava o texto. Sempre com a máquina de escrever sobre o colo. A página grudada pertence ao manuscrito de sua obra póstuma, Um Sopro de Vida, e é parte da sua biblioteca, conservada pelo Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro, uma pequena janela para o método de criação de uma romancista, contista e tradutora que completaria 100 anos em 10 de dezembro.

Lispector tinha 22 anos quando publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que lhe valeu um prêmio, apesar de ter desconcertado a crítica. Aquela tiragem se esgotou, mas sua fama de autora de leitura difícil foi um lastro durante anos. Para ela, era evidente que se tratava de um problema de pele, não de cérebro. “Não se trata de inteligência, mas sim de sentimentos, de entrar em contato”, disse na televisão em sua última entrevista, meses antes de morrer de câncer de ovário, às vésperas de completar 57 anos. “Parece que ganho com a releitura. É um alívio.”

Nascida em Chechelnik, uma aldeia ucraniana à época pertencente à Rússia soviética, era bebê quando os Lispector, que fugiam da guerra e dos pogroms, chegaram ao Brasil, onde tinham parentes. A menina criada em iídiche tinha um sotaque peculiar. Embora falasse e lesse em francês, inglês e italiano, o português foi a língua em que escrevia, pensava, sonhava e amava.

Lispector revolucionou o panorama literário brasileiro nos anos quarenta. Ser mulher influenciou, mas foi sobretudo porque isso estava unido a um estilo inovador. “É uma autora selvagem, pouco polida, como se caísse no mundo com muita fome. Nela você percebe fome, sede, amor, paixão. É muito pouco intelectual”, explica o estudioso de sua obra Eucanaã Ferraz, do IMS. Aquela mulher enigmática, bela, arrumada como uma estrela de cinema, irrompe num momento de profunda transformação social para as mulheres ocidentais. Começam a se liberar quando Lispector deixa em sua obra sua parte mais selvagem, mais animal, ao mesmo tempo em que leva a vida convencional de uma mulher de classe alta. Durante 15 anos vive no exterior para acompanhar seu marido diplomata enquanto cria os dois filhos do casal. Continua anotando ideias. Escrevendo. Publicando.

“Às vezes me sentava na rede para me balançar com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em um êxtase muito puro. Já não era uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”, narra Lispector no conto Felicidade Clandestina.

Em sua última entrevista descreveu o imenso sofrimento que a atazanava entre cada obra: “Acho que quando não escrevo estou morta”.

Alguns de seus artigos e livros estão depositados em outra instituição cultural do Rio, a Casa de Rui Barbosa, mas a maioria está no IMS, a dois passos da praia de Ipanema. Junto a dois manuscritos colados, conserva 800 livros de sua biblioteca pessoal, seus discos, fotografias familiares e a correspondência com suas irmãs, Tania e Elisa. O intercâmbio de cartas relata sua vida durante os anos que viajou pela Europa e África e viveu na Suíça, Estados Unidos, Reino Unido e Itália. “Minhas queridas”, inicia uma missiva em que se despede com um “sejam felizes, eu o sou à minha maneira”. Uma pequena caderneta com notas doada por seu filho Paulo Gurgel Valente é uma das incorporações mais recentes ao acervo.

Escritora cult e leitora eclética. Sob seu olhar passavam tanto Dostoiévski quanto romances adocicados, ou O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, que a deixou comovida aos 13 anos. Escolhia suas leituras pelos títulos mais que pelos autores, dizia. Exemplares de Spinoza com anotações a lápis, obras de Tolstói, Kafka e Machado de Assis convivem com livros sobre James Joyce e Shakespeare, metafísica, romances de espionagem e a Enciclopédia da Mulher e da Família, observa Jane Leite, bibliotecária do IMS. Com seu primeiro salário, ganho como jornalista no Rio, comprou Felicidade, de Katherine Mansfield. Aquele exemplar não está na biblioteca, mas sim um de Lettere, as cartas da contista neozelandesa editadas em italiano pela Mondadori.

A pandemia obrigou o Instituto Moreira Salles a suspender as visitas à biblioteca e adiar para 2021 a mostra Constelação Clarice, que reunirá artistas plásticas brasileiras contemporâneas da autora e que deveria celebrar seu centenário.

Às portas dos 40 anos, Clarice se divorciou. Voltou com os dois filhos para o Rio, onde hoje é tema de uma escultura pública: sentada com um livro no colo, dá as costas a uma das praias mais belas do mundo, Copacabana. Uma imagem da sua própria obra, onde não há lugar para as paisagens, nem as épocas. São viagens introspectivas aos pensamentos, os medos, as angústias, os afetos... quase sempre protagonizados por mulheres que vivem em universos convencionais como o seu.

Entrou na literatura infantil após ouvir as queixas de um de seus filhos, que a recriminou por escrever para tanta gente, mas não para ele. Dedicou-lhe um conto em inglês, porque na época a família vivia nos EUA. Ser mãe é a experiência que mais a marcou, afirma o crítico Ferraz. Mas não pelos laços familiares, e sim pelo fato de dar vida, como faz qualquer animal ou semente. Nunca quis ser aquela escritora que no horário de trabalho não podia atender a sua prole. Jamais lhe incomodou que Pedro e Paulo alterassem aquelas horas, logo após o amanhecer, em que criava das vísceras com cigarros e muito café.

Naiara Galarraga Gortázar

domingo, dezembro 6

Pronto para o domingo

 

Rebecca Thornburgh

Sobre agendas e tempo desperdiçado

Há poucos dias recebi pelo correio uma agenda 2021 editada pela Random House para divulgar o pequeno ensaio Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. É uma caderneta primorosa, com capa dura de cor laranja vibrante, fita marcadora de leitura e informações sobre mulheres históricas. Perfeito para mim, em suma, porque adoro objetos de papelaria em geral e os cadernos em particular. Mas, vejam só, quando abri a embalagem e a peguei, o primeiro impulso que senti foi o de atirá-la pela janela tal como uma lançadora de disco olímpico. Como? Uma agenda de 2021? Já? O que aconteceu com este 2020 que nos sequestrou e envelheceu como se valesse três anos, mas que por outro lado foi um tempo quieto e vazio, um período inabitado e inóspito?

Que o tempo é uma ilusão é algo que a humanidade já intuía antes que Einstein viesse nos contar. Ao longo dos séculos, os filósofos tentaram compreender essa substância elástica e mutável em que nossas vidas se desenrolam. É sabido por todos que, quando crianças, as horas são longuíssimas e os dias, eternos; mas que à medida que envelhecemos o tempo começa a adquirir um ritmo desoladoramente vertiginoso.

 Kerrie Robertson


Sempre tive a suspeita de que há algo biológico nessa percepção tão desigual. Nossas células, ao envelhecerem, vão reduzindo a atividade metabólica, encurtam as caudas do DNA (os famosos telômeros), vão ficando lentas e inábeis. O relógio interno temporal pode residir nessas malditas células avelhentadas que tardam quatro vezes mais para fazer as coisas, consumindo assim as horas em grandes mordidas. Isto é: não é que nos pareça que o tempo passa mais depressa quando somos velhos, é que realmente vai mais depressa.

Mas, além desses arranhões mentais, é claro que existe um componente psicológico: a meia hora que você passa na cadeira do dentista não dura o mesmo que a que você vive nos braços do seu amado. Curiosa e paradoxalmente, notei que, quando você faz menos coisas na vida, quando tem menos atividades, quando está impaciente ou insatisfeito, quando está entediado, digamos, o tempo se torna longuíssimo, mas na verdade é quando mais corre. É quando você olha para trás e se pergunta: mas, para onde foram os dias, o que aconteceu? Ontem, minha amiga Ana Arambarri me escreveu: “Fui comprar a agenda para 2021 e na hora de pagar exclamei alto; "E para quê eu a quero, se não tenho nada para anotar?" O vendedor respondeu: "Você não é a única cliente que está deprimida". Esta é a questão: o furacão da pandemia esvaziou nossas agendas mentais e transformou o tempo em uma argamassa de travessia difícil.

Ana Arambarri, por exemplo, teve a má sorte de publicar seu último livro, Música Contra los Muros, no final de fevereiro, e então o coronavírus chegou e o comeu (uma pena, porque é um texto fascinante sobre a orquestra árabe-judaica fundada por Barenboim). Em maior ou menor grau, e em alguns casos de forma gravíssima, esta pandemia atrapalhou a vida de nós todos.

Agora olho para a agenda da Random, enfim, ou contemplo as iluminações de Natal, cuja chegada sempre me angustia um pouco, mas que este ano estou tentada a apedrejar, e de repente me ocorre que, se queremos recuperar nossa existência, a primeira coisa que temos que alcançar é nos tornarmos senhores de nosso tempo. No início da minha juventude, sendo tão sentimentalmente apaixonada como era (agora estou me desprendendo), mais de uma vez quis apagar os dias, desejei jogá-los pela janela, e que o tempo passasse quanto antes para poder chegar ao próximo encontro com o amado da vez. Até que um dia compreendi que os amores passavam, mas as horas perdidas pesavam. Que eram vida morta dentro de mim, porque não há maior riqueza neste mundo do que esse brevíssimo tempo que cabe a cada um de nós e, portanto, não há estupidez mais triste e imperdoável do que desperdiçá-lo ou querer gastá-lo. A partir daquela pequena revelação tenho procurado estar consciente do presente e respeitá-lo. É muito difícil, eu sei, mas mesmo mas travessias ruins, como esta (ou melhor, especialmente em travessias ruins como esta), temos que tentar fazer de cada dia uma obra de arte.

sábado, dezembro 5

Leitura no campo

 

Alexei e Sergei Tkachev

O mistério dos monólitos

Quando me perguntam qual o meu livro de ficção preferido respondo sempre que não sei. Acho impossível responder a essa questão, porque ao longo da vida encontrei livros transformadores, e não consigo escolher o que mais me marcou. Contudo, se me perguntarem qual o meu filme preferido tenho uma resposta: “2001 — Uma odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, baseado num conto de Arthur C. Clarke.

O filme de Kubrick é de 1968. O conto de Clarke foi escrito em 1948 e publicado pela primeira vez em 1951, com o título “Sentinela da eternidade”. Curiosamente, o próprio escritor ficava irritado sempre que referiam a ligação entre o conto e o filme, afirmando que um tinha tanto a ver com o outro quanto uma bolota com o carvalho resultante dela. É uma boa imagem. Longe de contradizer, apenas confirma a justeza da genealogia. O filme incorpora ideias de vários outros contos de Clarke. Porém, o conceito seminal está lá — o de um misterioso artefato alienígena abandonado na lua, para vigiar o processo de desenvolvimento da Humanidade. Clarke, que escreveu o roteiro de “2001 — Uma odisseia no Espaço” em conjunto com Kubrick, publicou depois quatro romances com esse título, desenvolvendo o enredo apresentado no filme.


Como qualquer admirador da obra de Kubrick, tenho seguido com curiosidade (e um sorriso divertido) a saga do misterioso monólito que apareceu no Utah, numa área desértica e de acesso difícil, para desaparecer alguns dias mais tarde. Um outro monólito, entretanto descoberto numa colina sobranceira à cidade de Piatra Neamt, na Romênia, também já desapareceu. Mais recentemente surgiu um terceiro no topo de uma montanha, próximo de Atascadero, pequena cidade californiana.

Quando esta crônica for publicada é possível que já tenham sido encontrados outros tantos monólitos — um termo incorreto, aliás, pois os objetos em causa são de aço e não de pedra.

Podemos tirar duas ou três conclusões rápidas desta súbita monolitomania: a primeira é que as pessoas estão ansiosas de que alguém, ou alguma coisa, as resgate da armadilha temporal — confusa, interminável e perigosa — em que nos encontramos aprisionados. Já poucos acreditam que a Humanidade possa salvar a Humanidade. Venham então os extraterrestres e os seus aparelhos indutores de inteligência!

Sou cético. Acho mais provável que uma baleia demonstre interesse em salvar a Humanidade, não obstante a forma como as temos tratado, do que um qualquer ser alienígena. Pelo menos temos em comum com os cetáceos certa história evolutiva, além do amor pela música e pelos mares. Infelizmente, contudo, não há muitas pessoas dispostas a promover o diálogo com as baleias, e menos ainda com as orquídeas.

Esforçando-me por manter certo otimismo estrutural prefiro pensar nesta proliferação de monólitos como uma homenagem ao cinema e, em particular, a um filme que consegue, como poucos, resumir a longa caminhada da Humanidade e a nossa irreparável solidão.

Ou talvez eu esteja procurando respostas complexas para um fenômeno que não expressa senão o ululante vazio do presente: a loucura tornou-se, afinal, a nova normalidade.

Sempre bom ver

 


A cruel pandemia

Alfredo Martirena(Cuba)
Descoberta monumental, para a literatura. A de uma Arca, onde Ray Bradbury (morto em 6/6/2012) guardava inéditos. Inigualável autor de Fahrenheit 451, Crônicas Marcianas e, sobretudo, O Homem Ilustrado (no Brasil, Uma Sombra Passou por Aqui). Destaque, entre esses achados, para o conto "The Cruel Pandemy", que vou tentar resumir.

Ano, 2120. Local, Green Town (citado em outras obras suas). Os oráculos se reuniram num templo conhecido como Nova Delfos – por ter, no alto, uma sentença de Tales de Mileto, “A certeza é precursora da ruína”. E chegaram à conclusão de que jamais houve um vírus tão contagiante, e tão mortal, como aquele. Ainda mais forte que o disseminado, pelo planeta, nos anos de 2019/2020. Provavelmente, mutação do “covid” (sarscov2) com o “ebola” (corobola). Para se diferenciar da anterior, acordaram que seria chamada "Cruel Pandemia". Para preservar vidas, os oráculos decidiram que no segundo S, do minuto M, e na hora H, do dia D, todos deveriam permanecer em suas PODs (unidades habitacionais mínimas). Até quando alguma vacina fosse descoberta. Naquela Nova Democracia, que agora vigorava, todos os homens eram verdadeiramente iguais.

Ocorre que começaram a surgir problemas não previstos, pelos sábios. Antes de irem para suas moradias, os funcionários das companhias de água e energia tiveram a cautela de desligar as matrizes de força. E deixaram de funcionar elevadores, geladeiras, BI2 (Brain Internet Interface), que substituíram TVs e computadores. Até os "housebots" (robôs domésticos) pararam. No campo, a produção de grãos foi interrompida. Fecharam transportes, supermercados e deliverys. Alimentos começaram a apodrecer. E faltar. Água também. Como os policiais estavam se preservando, longe, PODs eram invadidas. E seus ocupantes, mortos. Famintos vagavam, sem destino, pelas ruas. Cadáveres se amontoavam, nas esquinas, sem ter quem os sepultasse. Quílon, mais velho dos oráculos, antes de morrer de sede, anotou em sua caderneta que o modelo adotado, para proteger os habitantes, era só um belo discurso. E que a Nova Democracia fracassou.

P.S. Claro que a história da Arca é falsa. Mas devemos refletir, com mais calma, sobre essa história. Porque a tese de mandar a classe média se trancar nos apartamentos só funciona se o Brasil real estiver nas ruas, se expondo e assumindo riscos, na luta para sobreviver.

José Paulo Cavalcanti Filho

sexta-feira, dezembro 4

Sempre pronto

 


Semente do humanismo


A leitura individual foi um dos reflexos da instauração do humanismo
Vergílio Ferreira

Melhor divã

André Melo

Goteiras

Eu hoje estou com preguiça de escrever; vou pedir a chileno para escrever para mim; e roubo logo a prosa de um grande poeta que se chama Pablo Neruda e que em 1947 falou de sua infância.

É na pequena e excelente antologia com que acaba o livro de Alone, "História personal de la literatura chilena" (livro tão bom que tive o impulso de comprá-lo para mandar de presente a Manuel Bandeira no seu dia aniversário, em 19 de abril), que encontro este trecho capaz de comover a qualquer um que já morou em casa antiga, no Chile, no Brasil, em qualquer canto do mundo:

"As goteiras são o piano de minha infância. Meu pai sempre falava em comprar um piano que, além de permitir que minhas tias tocassem minha adorada valsa "Sobre as ondas" daria à nossa família esse título inexprimivelmente distinto que vem da frase: "Eles têm piano". Meu pai, nos momentos em que o deixava livre sua vida de mobilidade perpétua, porque era chefe de trem, chegava até a medir as portas por onde deveria passar aquele piano que não chegou nunca.

Mas o grande piano das goteiras durava todo o inverno. Logo às primeiras chuvas revelavam-se novas goteiras, de voz doce, que acompanhavam as antigas. Minha mãe espalhava bacias, vasos, jarras, latas. Cada um dava um som diferente: a cada um desses vasilhames chegava do céu tempestuoso uma diferente mensagem, e eu distinguia o som claro de uma bacia de ferro esmaltado de lavatório do som opaco e amargo de um balde amolgado. Esta é quase toda a música, o piano de minha infância, e suas notas, digamos, suas goteiras, me acompanharam aonde me tocou viver; caindo sobre o meu coração e a minha poesia."

Pela tradução.

quinta-feira, dezembro 3

Leitura no transporte

 


Os cegos, juízes das cores

Sabemos que nos começos da fundação dos Quinze-Vintes eles eram todos iguais, e que os seus pequenos problemas eram resolvidos pela pluralidade das vozes. Distinguiam perfeitamente pelo toque a moeda de cobre da de prata; nenhum deles tomava alguma vez o vinho de Brie pelo vinho de Borgonha. O seu olfato era mais apurado do que o dos seus vizinhos que tinham dois olhos. 

Argumentavam perfeitamente sobre os quatro sentidos, o mesmo é dizer que eles conheciam tudo o que é permitido saber. E viviam tão tranquila e afortunadamente quanto seria de esperar.

Infelizmente, um dos seus professores afirmou ter noções claras sobre o sentido da vista; fez-se escutar, intrigou, formou entusiastas: foi, por fim, reconhecido como o líder da comunidade. Pôs-se a deliberar soberanamente sobre as cores, e tudo se perdeu.

O primeiro ditador dos Quinze-Vinte formou a princípio um pequeno conselho, através do qual se fez senhor de todas as esmolas. Pelo que ninguém ousava resistir-lhe. Decidiu que todos os hábitos dos Quinze-Vintes eram brancos: os cegos acreditaram nele; não falavam senão dos seus belos hábitos brancos, ainda que nem um só tivesse essa cor. 

Toda a gente troçou deles, e o grupo foi queixar-se ao ditador, que os recebeu muito mal: apelidou-os de inovadores, de livre-pensadores, de rebeldes, que se deixavam seduzir pelas opiniões errôneas daqueles que tinham dois olhos, e ousavam duvidar da infalibilidade do seu mestre. 

Esta disputa deu origem a dois partidos. O ditador, para os apaziguar, decretou um acórdão segundo o qual todos os seus hábitos eram vermelhos. Não havia um único hábito vermelho entre os Quinze-Vintes. Foram alvo de troça ainda maior: novas queixas da parte da comunidade. 

O ditador enfureceu-se, os outros cegos também: debateram-se longamente, e a concórdia só foi restabelecida quando foi permitido a todos os Quinze-Vintes suspender o juízo sobre a cor dos seus hábitos.

Um surdo, ao ler esta pequena história, reconheceu que os cegos tinham procedido mal ao julgar as cores. Mas manteve-se firme na opinião de que é aos surdos que cabe julgar a música.
Voltaire (François-Marie Arouet, (1694 - 1778)