domingo, março 6
Os mesmos cães da Aclimação
Eles não escolhem mais hora, uivam de madrugada, uivam sob o sol matador desses dias. Esse concerto canino de vozes, que deixou Cecília Meireles insone e assombrada em sua primeira noite na Aclimação, esse mistério de cantores “meio sobrenaturais”, que ela ouvia sem ver, tentando alcançar a mensagem (pois alguma devia de haver que lhe valesse a noite em claro), é mistério que continua onde ainda existe o anfiteatro dos velhos quintais abertos para o céu, em casinhas com hera grimpando os muros.
Sim, os cães da Aclimação continuam a uivar por aqui, modulando um coro de azuis, os mesmos cães do passado, apenas agora em voz mais encovilada, trabalhada pelo século. Continuam também invisíveis, embora uivando à luz do dia. Começam à hora deles, sem aviso – outro mistério –, e, um puxando o choro, jamais os outros se omitem, cada um dá seu timbre, sua cor, sua alma, para essa vaga que se alteia sobre as casas e que nos leva.
Cecília foi levada por esse canto até eras e lugares remotos, num sonho de poeta próprio da insônia. Agora sonho eu, a bordo desse choro, e vou até os cães mudos de pânico, abrigados nos metrôs de uma Ucrânia bombardeada, depois até o silêncio de morte do velho Azorka, pobre companheiro estendido no chão, aos pés do velho dono, o focinho coberto pelas patas, Azorka intacto em sua solidão, cumprindo sua sina envolto em asco.
E assim, inesperadamente, tal como vem, esse coro de azuis também se vai. Ele se vai e nos traz de volta. As noites, e agora os dias, os recolhem, a esses azuis, e quem sabe alguns de nós também recolham qualquer coisa dessa obscura mensagem. É uma emergência, eles deixam saber enquanto choram. Depois, o silêncio é uma vaga maior e nós afundamos, desassombrados, ficamos surdos de novo, cegos de novo, de novo nos empanturramos de palavras.
Mariana Ianelli
Sim, os cães da Aclimação continuam a uivar por aqui, modulando um coro de azuis, os mesmos cães do passado, apenas agora em voz mais encovilada, trabalhada pelo século. Continuam também invisíveis, embora uivando à luz do dia. Começam à hora deles, sem aviso – outro mistério –, e, um puxando o choro, jamais os outros se omitem, cada um dá seu timbre, sua cor, sua alma, para essa vaga que se alteia sobre as casas e que nos leva.
Cecília foi levada por esse canto até eras e lugares remotos, num sonho de poeta próprio da insônia. Agora sonho eu, a bordo desse choro, e vou até os cães mudos de pânico, abrigados nos metrôs de uma Ucrânia bombardeada, depois até o silêncio de morte do velho Azorka, pobre companheiro estendido no chão, aos pés do velho dono, o focinho coberto pelas patas, Azorka intacto em sua solidão, cumprindo sua sina envolto em asco.
E assim, inesperadamente, tal como vem, esse coro de azuis também se vai. Ele se vai e nos traz de volta. As noites, e agora os dias, os recolhem, a esses azuis, e quem sabe alguns de nós também recolham qualquer coisa dessa obscura mensagem. É uma emergência, eles deixam saber enquanto choram. Depois, o silêncio é uma vaga maior e nós afundamos, desassombrados, ficamos surdos de novo, cegos de novo, de novo nos empanturramos de palavras.
Mariana Ianelli
A máquina de escrever
Zara Picken |
Segundo ele, o sujeito que fica agonizando durante uma semana em cima de uma frase, procurando a forma ideal, nunca vai publicar o livro, e eu atesto que é verdade, oferecendo a mim mesmo como o melhor exemplo. (Já que nunca alcançarei sucesso popular, persigo a perfeição, que é mais acessível.) O problema é que nem todos, aliás bem poucos, têm um primeiro-texto tão limpo, tão claro e tão bem acabado quanto o de Asimov. Tenha os defeitos que tiver (e tem vários), o texto do Doutor é profissionalmente impecável.
Não sei se é o caso de James Patterson, que um artigo de Danilo Venticinque na revista “Época” aponta como o escritor mais bem pago do mundo. Diz ele que os 102 livros de Patterson “venderam 220 milhões de exemplares e o levaram 63 vezes à respeitada lista dos mais vendidos do The New York Times – um recorde na história do jornal”. Descontando o fato de que não tenho a mínima confiança nessas listas de “mais vendidos” da imprensa (são todas fajutas), é um número interessante. Patterson lançou 14 livros em 2011. Como ele consegue?
Nas telenovelas, um autor centraliza o enredo, cria os personagens, e uma equipe fica encarregada do trabalho braçal de escrever as cenas linha por linha. Alexandre Dumas trabalhava assim. O autor é o capitão do navio, que determina o curso, e tem sempre em mente todas as variáveis, para tomar as decisões estratégicas; o redator é o cara a quem cabe escrever a cena da briga ou a cena do namoro, de acordo com as instruções recebidas. Edgar Wallace e Erle Stanley Gardner, mestres do romance policial, ditavam os capítulos no gravador e mandavam datilografar. São autores que funcionam bem em voz alta. Outros preferem trabalhar em dupla: Ellery Queeen é o pseudônimo de Frederick Dannay, que escrevia sinopses detalhadíssimas de 40 páginas, e Manfred Lee, que a partir delas escrevia as cenas, as ações, o diálogo.
Quando um sujeito faz 10 romances por ano isso quer dizer apenas que ele descobriu o formato ideal de trabalho para si próprio. Se os livros são bons ou ruins, é outra questão. O importante é que os livros sejam escritos e publicados, até porque só depois disso é que se pode avaliar se são bons ou ruins.
Bráulio Tavares
sexta-feira, março 4
Imagine
O mundo assistiria extasiado à maior manifestação de solidariedade jamais vista entre os sapiens. Líderes de todas as nações alinhados para manter a paz entre os povos, dispostos a erradicar toda a miséria e a fome no planeta.
Reuniões intermináveis dariam conta de suprir com o que fosse necessário para garantir a todo o indivíduo uma vida digna, com segurança e tranquilidade. Trilhões de dólares, que serviriam de reservas estratégicas, seriam disponibilizados de forma global.
Comboios, que já alcançariam mais de cem quilômetros, surgiriam de todas as partes e se aproximariam dos continentes mais pobres, levando alimentos, infraestrutura e recursos estratégicos.
Aviões descarregariam flores em alvos civis. Uma frota de navios transpacíficos circunavegaria absoluta, escoltada por submarinos invisíveis e seus torpedos com SMS carregados de esperança. Satélites e drones de alta precisão acompanhariam minuto a minudo o IDH mundial.
A operação já duraria uma semana com forte ofensiva. Não existiriam mais países nem fronteiras delimitadas. Os passaportes também seriam abolidos. Não haveria mais promessas de paraísos nem ameaças de infernos. Todas as raças compartilhariam o mundo inteiro para chamarem de seu.
Missões de construção em massa se deflagrariam a cada instante em áreas carentes ou devastadas. Filas e mais filas de voluntários. Os povos originários, os animais, e os recursos naturais estariam sob cuidado e preservação constantes.
“Você pode dizer que sou um sonhador. Mas não sou o único”. O John, já imaginava isso. Foi morto com quatro tiros.
Reuniões intermináveis dariam conta de suprir com o que fosse necessário para garantir a todo o indivíduo uma vida digna, com segurança e tranquilidade. Trilhões de dólares, que serviriam de reservas estratégicas, seriam disponibilizados de forma global.
Comboios, que já alcançariam mais de cem quilômetros, surgiriam de todas as partes e se aproximariam dos continentes mais pobres, levando alimentos, infraestrutura e recursos estratégicos.
Aviões descarregariam flores em alvos civis. Uma frota de navios transpacíficos circunavegaria absoluta, escoltada por submarinos invisíveis e seus torpedos com SMS carregados de esperança. Satélites e drones de alta precisão acompanhariam minuto a minudo o IDH mundial.
A operação já duraria uma semana com forte ofensiva. Não existiriam mais países nem fronteiras delimitadas. Os passaportes também seriam abolidos. Não haveria mais promessas de paraísos nem ameaças de infernos. Todas as raças compartilhariam o mundo inteiro para chamarem de seu.
Missões de construção em massa se deflagrariam a cada instante em áreas carentes ou devastadas. Filas e mais filas de voluntários. Os povos originários, os animais, e os recursos naturais estariam sob cuidado e preservação constantes.
“Você pode dizer que sou um sonhador. Mas não sou o único”. O John, já imaginava isso. Foi morto com quatro tiros.
O velho e o mar
O filme de animação "O velho e o mar", adaptado do livro de Ernest Hemingway, com direção de Aleksandr Petrov, ganhou o Oscar em 2000 como melhor curta animado, a adaptação do clássico de Ernest Hemingway, O animador russo pintou a óleo e fotografou cada um dos 29 mil frames em quadros de vidro.
Os homens que esperaram o foco azulado
A porteira ouve a primeira música. Abre as cortinas vermelhas e se coloca de pé, à frente da porta. Às sete horas, pontual, o casal Andreato entrega os ingressos, cumprimentando a porteira delicadamente. O bastante para se mostrarem educados, mas suficiente para ela saber que não passa de cumprimento, sem intimidade maior. Nos dias normais, há uma distância de tempo entre o casal Andreato e os outros espectadores. Aos domingos, não. A fila se estende. Todos ansiosos, olhando a bilheteira que funciona lenta, com medo de errar o troco. No domingo, não há tempo para cumprimentos e sorrisos. As pessoas jogam o dinheiro, apanham os ingressos, saem apressadas para garantir lugar. Sentam-se sempre nas mesmas poltronas. Irritam-se quando encontram alguma pessoa já sentada e olham. Para ver se é da cidade ou se se trata de algum estranho não informado dos hábitos locais.
Os casais velhos chegam cedo. Geralmente são pessoas sozinhas, os filhos já deixaram a casa, formados ou casados. Jantam cedo, a louça a ser lavada é pouca, logo a mulher está pronta. A vantagem é comprar rapidamente o ingresso, evitando a aglomeração que se forma minutos antes da fila começar. Estes casais chegam vestidos corretamente, o homem de terno e gravata, a mulher em tailleur preto ou cinza, joias discretas, colar de pérolas, brincos. Constituem a maior parte da plateia. Estão acostumados com o cinema há dezenas de anos. Não apenas com o cinema, mas com a sala, reformada de tempos em tempos. O cheiro dos perfumes, usados por elas, impregnou o ar, de tal modo que todos se sentem seguros dentro do clima familiar e conhecido.
O baleiro sobe e desce. Faltam cinco minutos para o filme começar, há expectativa, os lugares tomados, muita gente vai ficar em pé. As mulheres se perguntam: terão visto meu vestido novo? O sapato, o colar, a blusa, a saia, a bota? As meninas indagam se terão sido vistas ao lado do namorado novo, do mais bonito da cidade, o mais elegante, e rico, e até o inteligente, o mais promissor, o político.
Agora, as pessoas olham o relógio para se certificar que se passaram cinco minutos além do horário e imaginam que a gerência talvez esteja esperando o povo se acomodar, para começar. Outros lembram que o povo se aquieta com os acordes da Suíte Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Todos que estão em pé se precipitam, porque sabem que as luzes se apagarão no meio da música. O gongo toca em seguida, as cortinas se abrem lentamente, as luzes em volta da tela mudam de cor e se apagam no instante exato em que a Suíte termina e o foco azulado surge da cabine, enchendo a tela de imagens, mas a Suíte não toca, o baleiro sobe para encher a cesta, uma nova consulta aos relógios mostra que se passaram quinze minutos, os mais velhos ficam olhando para trás, para a janela da cabine, como se o olhar de reprovação pudesse por si levar o operador a começar a sessão.
Uns se levantam e vão perguntar à porteira, e ela se limita a responder que nada pode fazer, a sua função é recolher ingressos. Que consultem o gerente. E onde está o gerente? O gerente está no escritório, mas o escritório é inacessível ao público, para se chegar a ele é preciso sair, dar a volta pela escada do balcão. Mas quem sai não pode entrar de novo, a bilheteira não tem senhas para entregar. Então, como fica? Tem que esperar.
Às oito, passada meia hora, mesmo os mais jovens se entreolham: vai ver quebrou a máquina, ou não receberam o filme. Como se isso fosse piada, riem. Riem alto, porque sabem que incomodam os velhos. Os velhos pedem silêncio, a sessão está atrasada e ainda tem baderna. Oito e dez, há insatisfação geral, assim não pode, daqui a pouco a sessão começa com uma hora de atraso, vamos chegar tarde ao clube. Batem palmas na frente, gritam no fundo, o banheiro está repleto de fumantes.
Os radicais se levantam, dispostos a atitude extremada. Surpresa: a porteira deixou seu posto. Desapareceu, a porta está fechada. Trancada por fora. Indignação. Vamos quebrar tudo. “Quebrar o quê?”, pergunta um homem. Quebrar portas, poltronas, o que estiver pela frente. O homem que tinha perguntado agarrou o braço do homem que pretendia quebrar. “Me acompanhe, por favor.” Saíram por uma porta lateral, os outros nem perceberam. O pequeno hall de entrada está cheio, os corredores lotados, as pessoas continuam a se levantar e a se empurrar. Querem sair, se comprimem, xingam, não se entendem. E não compreendem. As mulheres estão sentadas, “este é um assunto para homens”.
Então, sem que se saiba como entraram, desconfia-se até que estavam na sala, misturados ao povo, os vigilantes da segurança começaram a gritar “Voltem aos seus lugares”. A princípio, as pessoas não escutam, tão aturdidas estão. Os vigilantes passaram a empurrar, sem violência, mas agressivamente, com decisão, os homens de volta às poltronas. São muitos os vigilantes e parecem dispostos a uma ação maior. De modo que os pacíficos espectadores, espantadíssimos, se atropelam, ansiosos para dizer às suas companheiras que não conseguem saber o que está acontecendo. Aproveitam para protestar contra a violência. Afinal, esta é uma tranquila sessão de domingo e os vigilantes deviam estar é contra o dono do cinema que não inicia a sessão. E não agredir espectadores, estes pagaram para ver o filme na hora certa.
São nove e quinze e o murmúrio cresce: não vai ter sessão, o melhor é devolver o dinheiro. Alguns ameaçam levantar, os vigilantes surgem, gritando para que sentem. Ninguém pode transitar pelos corredores, nem ir ao banheiro. O baleiro foi convidado a se encostar num canto. Protestou, disse que estava trabalhando, não era espectador. Não adiantou. Como é, vai começar ou não vai?
Nove e meia, hora da segunda sessão. Passam a gritar, até que um vigilante vai à frente e pede silêncio, a sessão vai começar, que todos tenham paciência, colaborem. “Não quero mais ficar”, diz um velho, “estou com sono e vou-me embora”. “Lamento muito”, diz o vigilante. “Ninguém vai deixar os lugares. Se todos se forem, o cinema fica vazio; e se vai fazer a sessão para quem? Sentem e aguardem, que vai iniciar”.
Dez horas e a Suíte Quebra-Nozes não toca. Isto é, começou, tocou alguns acordes, foi retirada. E às dez e meia, já com gente cochilando, as luzes foram diminuídas, veio um murmúrio de contentamento. Mas ficou nisso, a sala na semipenumbra, as pessoas continuando a querer ir embora, sendo desaconselhadas.
Às onze, a plateia fervia quietamente de irritação. “Como é”, “não é possível”, “precisamos reclamar a alguém”, “onde está o gerente”, “o dono do cinema, o prefeito, o chefe de polícia?”. “Olhem lá, tem mulher passando mal, o ar é viciado, sufoca”. “Vamos nos organizar, e tirar as mulheres e os velhos.” Um grupo de homens se levantou, decidido, e se formou no meio do corredor, disposto a percorrer as filas, vendo se tudo estava bem. Três vigilantes se aproximaram. “Que sessão é esta que não começa nunca”, indagaram os homens organizadores. “Estamos nos preparando com cuidado a fim de que vocês tenham uma bela sessão, com um bonito filme, ao agrado de todos. Se vocês se precipitam assim, a sessão demora mais, ou pode não começar nunca. Vão se sentar, senão temos que tomar providências desagradáveis.” Os homens se sentaram, menos um, que gritou: “Pois que tomem providências.” Foi retirado pela porta lateral, discretamente, como alguém que vai fazer xixi.
Às onze e trinta e cinco, todos bateram os pés e de nada adiantava pedir silêncio. Tocaram a Suíte Quebra-Nozes e houve alívio geral, por pouco tempo, porque todos entenderam que era um truque. A fim de que eles pensassem que o filme ia começar.
Passaram dez minutos e a plateia voltou a gritar, a bater pés e palmas, a assobiar.
E então, apagaram-se todas as luzes. Houve um momento de hesitação, e fósforos e isqueiros começaram a ser acesos, uma tênue iluminação dominou a sala.
As pessoas se agitaram, se levantaram, sentavam ante os gritos dos vigilantes, prometiam que nunca mais viriam ao cinema, iriam apedrejar os vidros, rasgar os cartazes, roubar a bilheteria. Amontoaram-se todas no corredor, querendo sair, mas as portas continuavam fechadas.
A Suíte Quebra-Nozes tocou outra vez, o gongo bateu, a Suíte continuou tocando, o gongo batendo, as luzes em volta da tela mudavam de cor, só o foco azulado não saía da cabine de projeção, enchendo a tela com as imagens tão esperadas.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras Proibidas"
Os casais velhos chegam cedo. Geralmente são pessoas sozinhas, os filhos já deixaram a casa, formados ou casados. Jantam cedo, a louça a ser lavada é pouca, logo a mulher está pronta. A vantagem é comprar rapidamente o ingresso, evitando a aglomeração que se forma minutos antes da fila começar. Estes casais chegam vestidos corretamente, o homem de terno e gravata, a mulher em tailleur preto ou cinza, joias discretas, colar de pérolas, brincos. Constituem a maior parte da plateia. Estão acostumados com o cinema há dezenas de anos. Não apenas com o cinema, mas com a sala, reformada de tempos em tempos. O cheiro dos perfumes, usados por elas, impregnou o ar, de tal modo que todos se sentem seguros dentro do clima familiar e conhecido.
A sala se enche. Homens com jornal debaixo do braço; casais de namorados; noivos de braços; moços sozinhos sobem e descem em busca de moças sozinhas com lugar vago ao lado; moças com os pais, ansiosas pelos flertes; solteironas em grupos; velhos resmungando porque a agitação é grande. Pessoas entram, pessoas sentam, pessoas perguntam: esse lugar está vago? Pessoas vão ao banheiro, pessoas entram pelas filas batendo nos joelhos dos outros e desmanchando cabelos que custaram horas, à tarde.
O baleiro sobe e desce. Faltam cinco minutos para o filme começar, há expectativa, os lugares tomados, muita gente vai ficar em pé. As mulheres se perguntam: terão visto meu vestido novo? O sapato, o colar, a blusa, a saia, a bota? As meninas indagam se terão sido vistas ao lado do namorado novo, do mais bonito da cidade, o mais elegante, e rico, e até o inteligente, o mais promissor, o político.
Agora, as pessoas olham o relógio para se certificar que se passaram cinco minutos além do horário e imaginam que a gerência talvez esteja esperando o povo se acomodar, para começar. Outros lembram que o povo se aquieta com os acordes da Suíte Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Todos que estão em pé se precipitam, porque sabem que as luzes se apagarão no meio da música. O gongo toca em seguida, as cortinas se abrem lentamente, as luzes em volta da tela mudam de cor e se apagam no instante exato em que a Suíte termina e o foco azulado surge da cabine, enchendo a tela de imagens, mas a Suíte não toca, o baleiro sobe para encher a cesta, uma nova consulta aos relógios mostra que se passaram quinze minutos, os mais velhos ficam olhando para trás, para a janela da cabine, como se o olhar de reprovação pudesse por si levar o operador a começar a sessão.
Uns se levantam e vão perguntar à porteira, e ela se limita a responder que nada pode fazer, a sua função é recolher ingressos. Que consultem o gerente. E onde está o gerente? O gerente está no escritório, mas o escritório é inacessível ao público, para se chegar a ele é preciso sair, dar a volta pela escada do balcão. Mas quem sai não pode entrar de novo, a bilheteira não tem senhas para entregar. Então, como fica? Tem que esperar.
Às oito, passada meia hora, mesmo os mais jovens se entreolham: vai ver quebrou a máquina, ou não receberam o filme. Como se isso fosse piada, riem. Riem alto, porque sabem que incomodam os velhos. Os velhos pedem silêncio, a sessão está atrasada e ainda tem baderna. Oito e dez, há insatisfação geral, assim não pode, daqui a pouco a sessão começa com uma hora de atraso, vamos chegar tarde ao clube. Batem palmas na frente, gritam no fundo, o banheiro está repleto de fumantes.
Os radicais se levantam, dispostos a atitude extremada. Surpresa: a porteira deixou seu posto. Desapareceu, a porta está fechada. Trancada por fora. Indignação. Vamos quebrar tudo. “Quebrar o quê?”, pergunta um homem. Quebrar portas, poltronas, o que estiver pela frente. O homem que tinha perguntado agarrou o braço do homem que pretendia quebrar. “Me acompanhe, por favor.” Saíram por uma porta lateral, os outros nem perceberam. O pequeno hall de entrada está cheio, os corredores lotados, as pessoas continuam a se levantar e a se empurrar. Querem sair, se comprimem, xingam, não se entendem. E não compreendem. As mulheres estão sentadas, “este é um assunto para homens”.
Então, sem que se saiba como entraram, desconfia-se até que estavam na sala, misturados ao povo, os vigilantes da segurança começaram a gritar “Voltem aos seus lugares”. A princípio, as pessoas não escutam, tão aturdidas estão. Os vigilantes passaram a empurrar, sem violência, mas agressivamente, com decisão, os homens de volta às poltronas. São muitos os vigilantes e parecem dispostos a uma ação maior. De modo que os pacíficos espectadores, espantadíssimos, se atropelam, ansiosos para dizer às suas companheiras que não conseguem saber o que está acontecendo. Aproveitam para protestar contra a violência. Afinal, esta é uma tranquila sessão de domingo e os vigilantes deviam estar é contra o dono do cinema que não inicia a sessão. E não agredir espectadores, estes pagaram para ver o filme na hora certa.
São nove e quinze e o murmúrio cresce: não vai ter sessão, o melhor é devolver o dinheiro. Alguns ameaçam levantar, os vigilantes surgem, gritando para que sentem. Ninguém pode transitar pelos corredores, nem ir ao banheiro. O baleiro foi convidado a se encostar num canto. Protestou, disse que estava trabalhando, não era espectador. Não adiantou. Como é, vai começar ou não vai?
Nove e meia, hora da segunda sessão. Passam a gritar, até que um vigilante vai à frente e pede silêncio, a sessão vai começar, que todos tenham paciência, colaborem. “Não quero mais ficar”, diz um velho, “estou com sono e vou-me embora”. “Lamento muito”, diz o vigilante. “Ninguém vai deixar os lugares. Se todos se forem, o cinema fica vazio; e se vai fazer a sessão para quem? Sentem e aguardem, que vai iniciar”.
Dez horas e a Suíte Quebra-Nozes não toca. Isto é, começou, tocou alguns acordes, foi retirada. E às dez e meia, já com gente cochilando, as luzes foram diminuídas, veio um murmúrio de contentamento. Mas ficou nisso, a sala na semipenumbra, as pessoas continuando a querer ir embora, sendo desaconselhadas.
Às onze, a plateia fervia quietamente de irritação. “Como é”, “não é possível”, “precisamos reclamar a alguém”, “onde está o gerente”, “o dono do cinema, o prefeito, o chefe de polícia?”. “Olhem lá, tem mulher passando mal, o ar é viciado, sufoca”. “Vamos nos organizar, e tirar as mulheres e os velhos.” Um grupo de homens se levantou, decidido, e se formou no meio do corredor, disposto a percorrer as filas, vendo se tudo estava bem. Três vigilantes se aproximaram. “Que sessão é esta que não começa nunca”, indagaram os homens organizadores. “Estamos nos preparando com cuidado a fim de que vocês tenham uma bela sessão, com um bonito filme, ao agrado de todos. Se vocês se precipitam assim, a sessão demora mais, ou pode não começar nunca. Vão se sentar, senão temos que tomar providências desagradáveis.” Os homens se sentaram, menos um, que gritou: “Pois que tomem providências.” Foi retirado pela porta lateral, discretamente, como alguém que vai fazer xixi.
Às onze e trinta e cinco, todos bateram os pés e de nada adiantava pedir silêncio. Tocaram a Suíte Quebra-Nozes e houve alívio geral, por pouco tempo, porque todos entenderam que era um truque. A fim de que eles pensassem que o filme ia começar.
Passaram dez minutos e a plateia voltou a gritar, a bater pés e palmas, a assobiar.
E então, apagaram-se todas as luzes. Houve um momento de hesitação, e fósforos e isqueiros começaram a ser acesos, uma tênue iluminação dominou a sala.
As pessoas se agitaram, se levantaram, sentavam ante os gritos dos vigilantes, prometiam que nunca mais viriam ao cinema, iriam apedrejar os vidros, rasgar os cartazes, roubar a bilheteria. Amontoaram-se todas no corredor, querendo sair, mas as portas continuavam fechadas.
A Suíte Quebra-Nozes tocou outra vez, o gongo bateu, a Suíte continuou tocando, o gongo batendo, as luzes em volta da tela mudavam de cor, só o foco azulado não saía da cabine de projeção, enchendo a tela com as imagens tão esperadas.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras Proibidas"
quinta-feira, março 3
História de uma flor
| Denis Chiasson |
Trouxe-a para casa e a coloquei num copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e uma flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor a sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la.
Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde nascera. O porteiro estava atento e repreendeu-me:
– Que ideia a sua, de vir jogar lixo neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade
O servo Nikita
Foi na década de 1870, no dia seguinte a S. Nicolau de inverno. Havia festa na paróquia da aldeia, e o negociante da segunda guilda, Vassili Andrêitch Brekhunóv, não podia se ausentar: tinha de estar na igreja – da qual era curador – e, em casa, devia receber e recepcionar parentes e conhecidos. Mas eis que os últimos visitantes partiram, e Vassili Andrêitch começou imediatamente a se preparar para viajar à propriedade vizinha, em visita ao dono, a fim de ultimar a compra de um bosque, há muito já conversada. Vassili Andrêitch apressava-se para que os comerciantes da cidade não lhe arrebatassem esse vantajoso negócio. O jovem proprietário pedia dez mil rublos pelo bosque, só que Vassili Andrêitch lhe oferecia sete mil. E sete mil representavam apenas um terço do valor real do bosque. Vassili Andrêitch talvez até conseguisse arrancar-lhe ainda mais um abatimento, já que o bosque se encontrava na sua circunscrição, e entre ele e os comerciantes rurais da redondeza existia um trato antigo, segundo o qual um comerciante não aumentava o preço no distrito do outro. Mas, como Vassili Andrêitch soubera que os comerciantes de madeira da cidade se dispunham a vir negociar o bosque de Goriátchkino, resolveu partir imediatamente, a fim de fechar o acordo com o proprietário. Por isso, assim que a festa terminou, ele tirou do cofre setecentos rublos do seu próprio dinheiro, acrescentou os 2.300 do caixa da igreja que estavam com ele, formando assim três mil rublos, e, após contá-los meticulosamente e guardá-los na carteira, preparou-se para partir.
O serviçal Nikita, naquele dia o único trabalhador não embriagado de Vassili Andrêitch, correu para atrelar. Nikita, que era um beberrão, não estava intoxicado naquele dia porque, desde a vigília, quando perdeu na bebida seu casaco e suas botas de couro, fez promessa de não beber e já não o fazia há dois meses. Não bebera também agora, apesar da tentação do vinho consumido por toda parte nos primeiros dois dias do feriado.
Nikita era um mujique de cinquenta anos de idade, da aldeia vizinha, um “não-dono”, como diziam dele, que passara a maior parte da vida fora da sua própria casa, a serviço de terceiros. Era estimado por todos devido à sua operosidade, destreza e força no trabalho, mas principalmente pela índole bondosa e afável. Só que ele não parava em emprego algum, porque umas duas vezes por ano, às vezes até mais, caía na bebedeira, perdendo tudo o que tinha, até a roupa do corpo, e porque, ainda por cima, ficava turbulento e brigão. Vassili Andrêitch também já o enxotara várias vezes, mas voltava a recebê-lo, em apreço por sua honestidade, seu amor aos animais e, principalmente, por ele ser tão barato. Vassili Andrêitch pagava a Nikita não os oitenta rublos, que era o que valia um trabalhador como ele, mas apenas quarenta, que, sem fazer as contas, lhe entregava aos poucos e, mesmo assim, não em dinheiro, mas em mercadorias, aos preços altos do seu próprio armazém.
A mulher de Nikita, Marfa, que já fora uma campônia bonitona e esperta, labutava na aldeia, com o filho adolescente e duas filhinhas. Ela não chamava Nikita para voltar a morar em casa, em primeiro lugar porque vivia, já há uns vinte anos, com um toneleiro e, em segundo, porque, embora manejasse o marido como bem entendia quando ele se achava sóbrio, tinha-lhe medo quando embriagado. Certa vez, tendo se embebedado em casa, decerto para se vingar da mulher pela sua humildade quando sóbrio, Nikita arrombou a arca de Marfa, retirou as suas melhores roupas e, com um machado, reduziu a tiras, sobre um cepo, todos os vestidos e trajes festivos da mulher.
O ordenado ganho por Nikita ficava todo com ela, e Nikita não se opunha a isso. Também agora, dois dias antes da festa, Marfa procurou Vassili Andrêitch e levou do seu armazém farinha branca, chá, açúcar e meio garrafão de vinho, no valor de uns três rublos. E ainda pegou cinco rublos em dinheiro, agradecendo como se isso fosse uma concessão especial, quando de fato Vassili Andrêitch é quem lhe devia uns bons vinte rublos.
– Nós não fizemos trato nenhum, fizemos? – perguntava Vassili Andrêitch a Nikita. – Se precisas de alguma coisa, leva, acertaremos depois. Eu não sou como os outros: longas esperas, e contas, e multas. Conosco é na base da honra. Tu me serves e eu não te abandono.
E, dizendo isso, Vassili Andrêitch acreditava sinceramente que beneficiava Nikita: sabia falar de um modo tão convincente que as pessoas que dependiam do seu dinheiro, a começar por Nikita, concordavam e apoiavam-no na sua convicção de que ele não as enganava, mas lhes prestava benefícios.
– Mas eu compreendo, Vassili Andrêitch. Acho que eu me esforço, que te sirvo como ao próprio pai. Compreendo muito bem – respondia Nikita, percebendo perfeitamente que Vassili Andrêitch o enganava, mas sentindo ao mesmo tempo que não adiantava sequer tentar esclarecer as contas com o patrão, já que precisava viver e, enquanto não havia outro emprego, tinha de aceitar o que lhe davam.
Agora, ao receber do patrão a ordem de atrelar, Nikita, como sempre alegre e de boa vontade, saiu com o passo leve e animado dos seus pés pisando como patas de ganso e dirigiu-se ao galpão, onde tirou do prego um pesado bridão de couro com pingentes e, tilintando com as barbelas do freio, encaminhou-se para a estrebaria, onde estava o cavalo que Vassili Andrêitch mandara atrelar.
Leon Tolstoi
O serviçal Nikita, naquele dia o único trabalhador não embriagado de Vassili Andrêitch, correu para atrelar. Nikita, que era um beberrão, não estava intoxicado naquele dia porque, desde a vigília, quando perdeu na bebida seu casaco e suas botas de couro, fez promessa de não beber e já não o fazia há dois meses. Não bebera também agora, apesar da tentação do vinho consumido por toda parte nos primeiros dois dias do feriado.
Nikita era um mujique de cinquenta anos de idade, da aldeia vizinha, um “não-dono”, como diziam dele, que passara a maior parte da vida fora da sua própria casa, a serviço de terceiros. Era estimado por todos devido à sua operosidade, destreza e força no trabalho, mas principalmente pela índole bondosa e afável. Só que ele não parava em emprego algum, porque umas duas vezes por ano, às vezes até mais, caía na bebedeira, perdendo tudo o que tinha, até a roupa do corpo, e porque, ainda por cima, ficava turbulento e brigão. Vassili Andrêitch também já o enxotara várias vezes, mas voltava a recebê-lo, em apreço por sua honestidade, seu amor aos animais e, principalmente, por ele ser tão barato. Vassili Andrêitch pagava a Nikita não os oitenta rublos, que era o que valia um trabalhador como ele, mas apenas quarenta, que, sem fazer as contas, lhe entregava aos poucos e, mesmo assim, não em dinheiro, mas em mercadorias, aos preços altos do seu próprio armazém.
A mulher de Nikita, Marfa, que já fora uma campônia bonitona e esperta, labutava na aldeia, com o filho adolescente e duas filhinhas. Ela não chamava Nikita para voltar a morar em casa, em primeiro lugar porque vivia, já há uns vinte anos, com um toneleiro e, em segundo, porque, embora manejasse o marido como bem entendia quando ele se achava sóbrio, tinha-lhe medo quando embriagado. Certa vez, tendo se embebedado em casa, decerto para se vingar da mulher pela sua humildade quando sóbrio, Nikita arrombou a arca de Marfa, retirou as suas melhores roupas e, com um machado, reduziu a tiras, sobre um cepo, todos os vestidos e trajes festivos da mulher.
O ordenado ganho por Nikita ficava todo com ela, e Nikita não se opunha a isso. Também agora, dois dias antes da festa, Marfa procurou Vassili Andrêitch e levou do seu armazém farinha branca, chá, açúcar e meio garrafão de vinho, no valor de uns três rublos. E ainda pegou cinco rublos em dinheiro, agradecendo como se isso fosse uma concessão especial, quando de fato Vassili Andrêitch é quem lhe devia uns bons vinte rublos.
– Nós não fizemos trato nenhum, fizemos? – perguntava Vassili Andrêitch a Nikita. – Se precisas de alguma coisa, leva, acertaremos depois. Eu não sou como os outros: longas esperas, e contas, e multas. Conosco é na base da honra. Tu me serves e eu não te abandono.
E, dizendo isso, Vassili Andrêitch acreditava sinceramente que beneficiava Nikita: sabia falar de um modo tão convincente que as pessoas que dependiam do seu dinheiro, a começar por Nikita, concordavam e apoiavam-no na sua convicção de que ele não as enganava, mas lhes prestava benefícios.
– Mas eu compreendo, Vassili Andrêitch. Acho que eu me esforço, que te sirvo como ao próprio pai. Compreendo muito bem – respondia Nikita, percebendo perfeitamente que Vassili Andrêitch o enganava, mas sentindo ao mesmo tempo que não adiantava sequer tentar esclarecer as contas com o patrão, já que precisava viver e, enquanto não havia outro emprego, tinha de aceitar o que lhe davam.
Agora, ao receber do patrão a ordem de atrelar, Nikita, como sempre alegre e de boa vontade, saiu com o passo leve e animado dos seus pés pisando como patas de ganso e dirigiu-se ao galpão, onde tirou do prego um pesado bridão de couro com pingentes e, tilintando com as barbelas do freio, encaminhou-se para a estrebaria, onde estava o cavalo que Vassili Andrêitch mandara atrelar.
Leon Tolstoi
quarta-feira, março 2
A quimera
| Urszula Tekieli |
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"
Vou aprender a ser árvore
De escrever me cansei das letras. Vou ultimar aqui. Já não preciso defesa, doutor. Não quero. Afinal das contas, sou culpado. Quero ser punido, não tenho outra vontade. Não por crime mas por meu engano. Explicarei no final qual esse engano. Há seis anos me entreguei, prendi-me sozinho. Agora, próprio eu me condeno.
De tudo estou agradecido, senhor doutor. Levei seu tempo, só de graça. O senhor me há-de chamar de burro. Já sei, aceito. Mas, peço desculpa, se faz favor: o senhor, sabe o que da minha pessoa? Não sou como outros: penso o que aguento, não o que preciso. O que desconsigo não é de mim. Falha de Deus, não minha. Porquê Deus não nos criou já feitos? Completos, como foi nascido um bicho a quem só falta o crescimento. Se Deus nos fez vivos porque não deixou sermos donos da nossa vida?
Descompletos somos, enterrados terminamos. Vale a pena ser planta, senhor doutor. Mesmo vou aprender a ser árvore. Ou talvez pequena erva porque árvore aqui dentro não dá. Porque os baloii (Baloii: feiticeiros, deitadores de sorte {plural de nóii}) não tentam de ser plantas, verde-sossegadas? Assim, eu não precisava matar Carlota. Só lhe desplantava, sem crime, sem culpa.
Só tenho medo de uma coisa: de frio. Toda a vida sofri do frio. Tenho paludismo não é no corpo, é na alma. O calor pode apertar: sempre tenho tremuras. O Bartolomeu, meu cunhado, costumava dizer: “fora de casa sempre faz frio.” Está certo. Mas eu, doutor, que casa eu tive? Nenhuma. Terra nua, sem aqui nem onde. Num lugar assim, sem chegada nem viagem, preciso aprender espertezas. Não dessas que avançam na escola. Esperteza redonda, esperteza sem trabalho certo nem contrato com ninguém.
Nesta carta última o senhor me vê assim, desistido. Porquê estou assim? Porque o Bartolomeu me visitou hoje e me contou tudo como se passou. No enfim, compreendi o meu engano. Bartolomeu me concluiu: afinal a sua mulher, minha cunhada, não era uma nóii. Isso ele confirmou umas tantas noites. Espreitava de vigia para saber se a mulher dele tinha ou não outra ocupação nocturna. Nada, não tinha.
Nem gatinhava, nem passarinhava. Assim, Bartolomeu provou o estado de pessoa da sua esposa.
Então, pensei. Se a irmã da minha mulher não era nóii, a minha mulher também não era. O feitiço mal de irmãs, doença das nascenças. Mas eu como podia adivinhar sozinho? Não podia, doutor.
Sou filho do meu mundo. Quero ser julgado por outras leis, devidas da minha tradição. O meu erro não foi matar Carlota. Foi entregar a minha vida a este seu mundo que não encosta com o meu. Lá, no meu lugar, me conhecem. Lá podem decidir das minhas bondades. Aqui, ninguém. Como posso ser defendido se não arranjo entendimento dos outros? Desculpa, senhor doutor: justiça só pode ser feita onde eu pertenço. Só eles sabem que, afinal, eu não conhecia que Carlota Gentina não tinha asas para voar.
Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho. Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. Vou entrando nos grãos do chão, devagarinho. Quando me quiserem enterrar já eu serei terra. Já que não tive vantagem na vida, esse ser o privilégio da minha morte.
Mia Couto, "Vozes anoitecidas"
De tudo estou agradecido, senhor doutor. Levei seu tempo, só de graça. O senhor me há-de chamar de burro. Já sei, aceito. Mas, peço desculpa, se faz favor: o senhor, sabe o que da minha pessoa? Não sou como outros: penso o que aguento, não o que preciso. O que desconsigo não é de mim. Falha de Deus, não minha. Porquê Deus não nos criou já feitos? Completos, como foi nascido um bicho a quem só falta o crescimento. Se Deus nos fez vivos porque não deixou sermos donos da nossa vida?
Assim, mesmo brancos somos pretos. Digo-lhe, com respeito. Preto o senhor também. Defeito da raça dos homens, esta nossa de todos. Nossa voz, cega e rota, já não manda. Ordens só damos nos fracos: mulheres e crianças. Mesmo esses começam a demorar nas obediências. O poder de um pequeno fazer os outros mais pequenos, pisar os outros como ele próprio é pisado pelos maiores. Rastejar é o serviço das almas. Costumadas ao chão como que podem acreditar no céu?
Descompletos somos, enterrados terminamos. Vale a pena ser planta, senhor doutor. Mesmo vou aprender a ser árvore. Ou talvez pequena erva porque árvore aqui dentro não dá. Porque os baloii (Baloii: feiticeiros, deitadores de sorte {plural de nóii}) não tentam de ser plantas, verde-sossegadas? Assim, eu não precisava matar Carlota. Só lhe desplantava, sem crime, sem culpa.
Só tenho medo de uma coisa: de frio. Toda a vida sofri do frio. Tenho paludismo não é no corpo, é na alma. O calor pode apertar: sempre tenho tremuras. O Bartolomeu, meu cunhado, costumava dizer: “fora de casa sempre faz frio.” Está certo. Mas eu, doutor, que casa eu tive? Nenhuma. Terra nua, sem aqui nem onde. Num lugar assim, sem chegada nem viagem, preciso aprender espertezas. Não dessas que avançam na escola. Esperteza redonda, esperteza sem trabalho certo nem contrato com ninguém.
Nesta carta última o senhor me vê assim, desistido. Porquê estou assim? Porque o Bartolomeu me visitou hoje e me contou tudo como se passou. No enfim, compreendi o meu engano. Bartolomeu me concluiu: afinal a sua mulher, minha cunhada, não era uma nóii. Isso ele confirmou umas tantas noites. Espreitava de vigia para saber se a mulher dele tinha ou não outra ocupação nocturna. Nada, não tinha.
Nem gatinhava, nem passarinhava. Assim, Bartolomeu provou o estado de pessoa da sua esposa.
Então, pensei. Se a irmã da minha mulher não era nóii, a minha mulher também não era. O feitiço mal de irmãs, doença das nascenças. Mas eu como podia adivinhar sozinho? Não podia, doutor.
Sou filho do meu mundo. Quero ser julgado por outras leis, devidas da minha tradição. O meu erro não foi matar Carlota. Foi entregar a minha vida a este seu mundo que não encosta com o meu. Lá, no meu lugar, me conhecem. Lá podem decidir das minhas bondades. Aqui, ninguém. Como posso ser defendido se não arranjo entendimento dos outros? Desculpa, senhor doutor: justiça só pode ser feita onde eu pertenço. Só eles sabem que, afinal, eu não conhecia que Carlota Gentina não tinha asas para voar.
Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho. Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. Vou entrando nos grãos do chão, devagarinho. Quando me quiserem enterrar já eu serei terra. Já que não tive vantagem na vida, esse ser o privilégio da minha morte.
Mia Couto, "Vozes anoitecidas"
terça-feira, março 1
Fragmento
| Linda Minkowski |
floriam e nunca perdiam as folhas. Fora da ilha cresciam leitos de algas marrons que, levadas à terra pelas ondas, exalavam um cheiro incômodo e alimentavam enxames de grandes pulgas pálidas. Havia formigas fervilhando por toda parte, do mesmo tipo que tínhamos na Bahia, e uma outra praga também, morando nas dunas: um inseto minúsculo que se esconde entre os dedos dos pés e escava sua trilha para dentro do corpo. Nem mesmo a pele dura de Sexta‑feira era à prova deles: havia fendas sangrando em seus pés, embora ele não desse importância a elas. Não vi cobras, mas lagartos saíam no calor do dia para tomar sol, alguns pequenos e ágeis, outros grandes e desajeitados com babados azuis na papada, que desfraldariam quando alarmados, e sibilariam e ameaçariam. Prendi um deles num saco e tentei domá‑lo, dando‑lhe moscas para comer; mas não aceitava carne morta, então acabei libertando‑o. Além disso, havia macacos (dos quais falarei mais adiante) e pássaros, pássaros por toda parte: não apenas bandos de pardais (ou assim eu os chamava) que adejavam o dia inteiro chilreando de arbusto em arbusto, mas, nos rochedos acima do mar, grandes tribos de gaivotas, gaivinas, alcatrazes e cormorões, de forma que as pedras ficavam brancas com suas fezes. E no mar golfinhos, focas e peixes de todo tipo. Então, se a companhia de animais irracionais me bastasse, eu poderia ter vivido muito alegremente em minha ilha. Mas quem, acostumado à riqueza da fala humana, pode se contentar com grasnidos, chilreios e guinchos, com o latido das focas e o
gemido do vento?
J.M. Coetzee, "Foe"
Uma senhora
| James Jebusa Shannon |
O marido, que já estava acostumado àquelas resoluções, largou no melhor pedaço o segundo volume de Os Miseráveis, meteu sobre o pijama a gabardine cheirando a gasolina na gola e foi telefonar para a loja de ferragens, pedindo duas latas de cera — da boa, vê lá! — chorando um abatimentozinho na escova e na palha de aço: está ouvindo, Seu Fernandes?
Estava sempre para tudo que, graças a Deus, era mulher forte. Saíra à mãe, que também o fora, morrendo velha de desastre, desastre doméstico, uma chaleira de água fervendo para o escalda-pé do marido, um coronel reformado, que lhe virou por cima do corpo.
Nunca se queixava da vida. Não ia à cidade passear, as suas compras eram em regra feitas pelo marido, precisava que a fita fosse muito falada para ela se abalar até ao cinema do bairro, onde cochilava a bom cochilar; contavam-se os domingos em que ia à missa, não fazia visitas, nem recebia. Não reclamava o trabalho que lhe davam os filhos, três desmazelados que andavam na escola pública, Elcio, Élcia e Elcina, respectivamente quinze, quatorze e treze anos, o que atesta bem a força do marido e dá ideia o que seria depois de dez anos de casada, se depois da Elcina não tomasse as devidas precauções.
— Não se esqueçam de dar lembranças à Dona Margarida — aconselhava na hora da saída, enquanto punha nas bolsas as bananas e o pão com manteiga da merenda. Dona Margarida fora sua amiga no colégio das Irmãs, uma bicha no francês, cearense, um talento! Mandar lembranças para ela equivalia a dizer: Olha que são meus filhos, Margarida; os filhos da tua amiga Quinota...
E os exames estavam perto, com prêmios de cadernetas da Caixa Econômica dados pelo prefeito, ridicularizados pelos jornais oposicionistas, elogiados pelos do governo — a Folha dizia que era um gesto de Mecenas, mas enfim fartamente anunciados em todos os jornais para incentivo da meninada estudiosa. Ela queria ser mordida por um macaco se não arranjasse três cadernetas para casa. Os filhos é que não faziam fé.
Bordava para fora, cuidava do Joli, o bichano para sujar a casa era um desespero, e sobrava tempo ainda para ter ciúmes do marido com as vizinhas, principalmente Dona Consuelo, uma descarada, é certo, mas muito chique, confessava.
Chegando o carnaval, tirava a forra.
As economias acumuladas saíam do Banco Popular juntas com os juros. Não ficava nada. Metia-se numa fantasia de baiana e inundava a capota do automóvel com seus oitenta e cinco quilos honestíssimos. As meninas iam de baianas também, menos saias, mais berloques, e o menino de pierrô, cada ano de uma cor, porque não é para outra coisa que o dono do Tinto! gasta aquele dinheirão em anúncios. Tirava do cabide a casaca do casamento, dezesseis anos por isso (como o tempo corre!), dava um jeito nas manchas: — No automóvel, ninguém repara, meu filho — dizia com um sorriso, ora para a casaca, ora para o marido, que se traduzia: lembras-te? Ele, então, com uma faixa vermelha na cintura, brincos em forma de argola, pendentes das orelhas demasiadas, enfiava na cabeça um turbante de seda branca com pérolas em profusão, e ia em pé, no carro, de rajá diplomata. No terceiro dia, graças a Deus não choveu em nenhum dos três, perguntava para o marido: — Quanto temos ainda?
Ele remexia a carteira (bolso de casaca é o tipo da coisa encrencada!), fura-bolos trabalhava passado na língua, e cantava a quantia:
— Duzentos e oitenta.
— E os oitocentos do automóvel?
— Já estão fora.
— Ah! Bem... — Para fazer contas no ar era um assombro: ... pode gastar mais cento e cinquenta.
O resto ficava para gastar depois do carnaval — mas entrava na verba dele — com o fígado do marido, porque depois da pândega (a experiência de Dona Quinota é que falava) Seu Juca tinha rebordosas, vômitos biliosos, uma dor do lado danada, de tanta canseira, tanta serpentina e tanta cerveja gelada.
Não faz mal. Não fazia não. A vida era aquilo mesmo: três dias — falava. Mas pensava: por ano. Podia dizer, mas não dizia. Deixava ficar lá dentro. O “lá dentro” de Dona Quinota era uma coisa complicada, complícadíssima, que ninguém compreendia. Só ela mesma e o marido, às vezes. Desciam do automóvel à porta de casa, quando o vizinho veio vindo com o rancho da filharada.
— Brincaram muito? — fez Seu Adalberto, com um jeito de despeitado.
— Assim, assim...
Dona Quinota dizia aquele “assim-assim” de propósito. Que lhe importava os outros saberem se ela tinha gozado ou não? Quem gozava era ela. Mas gostava de ficar deliciando-se por dentro com a inveja dos vizinhos: assim, assim... Ah! Ah! Ah! Seu Adalberto exultava:
— É isso mesmo. Faz-se despesas enormes (e Dona Quinota sorria) e não se diverte nada. (Dona Quinota olhava para o céu.) É sempre assim. Pois olhe: nós fomos a pé mesmo. Estivemos ali na Avenida na esquina do Derbi, apreciamos o baile do Clube Naval, muita fantasia rica, muita, vimos perfeitamente as sociedades, tomamos refrescos, brincamos à grande. Não foi? As mocinhas fizeram que sim, humilhadas, mas os guris foram sinceros: — Aquele carro do girassol que rodava, hem, papai! Seu Adalberto corrigiu logo: — Girassol, não, Artur; crisântemo.
Depois que corrigiu, ficou azul, sem saber ao certo se era crisântemo ou crisantemo — quer ver que eu disse besteira?
Seu Juca não havia meio de encontrar o raio da chave. Esses bolsos de casaca!...
— O ano que vem — Dona Quinota falou firme — nós iremos também a pé.
O marido até se virou. Ficou olhando, espantado. Que diabo é isto? — ia perguntando. Por um triz que não perguntou. Mas ficou assim... Compreendeu? Parece... Esta Quinota!...
Foi quando Seu Adalberto, evidentemente mortificado, se refez e sentenciou como experiente na matéria, apesar de nunca ter entrado num automóvel pelo carnaval: é melhor mesmo.
A tribo sumiu pela porta do 37. A maçaneta fechou por dentro. Torreco, torreco. Agora foi a chave — duas voltas. O pigarro do seu Adalberto, ainda com acento do crisântemo a fuzilar-lhe na cabeça, veio até cá fora se misturar com um resto de choro, pandeiro e chocalhos, do bonde que passava mais longe. Passos apressados no fundo da rua. O burro do inglês estava na janela do apartamento fumando para a lua. Dona Quinota ficou olhando-o um pouco, depois cerrou a porta bem e fixou o marido que dava por falta dum brinco: Que cretinos!
Seu Juca parou no meio do corredor, cara de ressaca, pernas abertas, o turbante nas mãos e esperou mais. Mas Dona Quinota era hermética. O resto ficou lá dentro onde ninguém ia buscar, porque o marido, o único interessado na ocasião, mais morto do que vivo, preferiu tirar o colarinho e a casaca. Dona Quinota atirou-se na cama escangalhada e feliz, só acordando na quarta-feira de cinzas ao meio-dia.
Quando o resto da família se levantou, o almoço (feito por ela) já estava na mesa, e Dona Quinota se desesperava porque tinha lido no Jornal do Brasil que foram os Fenianos que pegaram o primeiro prêmio, quando todo mundo viu perfeitamente que só o carro-chefe dos Democráticos…
Marques Rebelo, "Os cem melhores contos brasileiros do século"
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