sexta-feira, maio 6

Bom descanso

 


Natureza ferida

Meu avô dizia que toda árvore devia ser respeitada. A natureza demorava anos para formar uma árvore, que se expandia por léguas de mata fechada, enquanto o homem com repetidas machadadas não demorava muitas horas para derrubá-la. A mata tinha uma enorme cabeleira verde, dormia um sono milenar até o homem chegar para desfazer o que somente a ela pertencia.

O vento rangia na parte alta da árvore, tremia sua canção antiga nas folhas, os macacos pulavam nos galhos. Os pássaros cantavam quando a mata acordava, na festa da natureza a lei para sobreviver era matar ou morrer, mas com ordem. A mata com sua cabeleira milenar, o corpo volumoso onde os raios do sol não penetravam, de tão fechado. O dia era como a noite nos confins da mata. O gavião cedo amanhecia e sobrevoava as partes mais altas.

Meu avô também dizia que a árvore chamava a nuvem, umas às outras se uniam numa cortina compacta, fazendo cair a chuva na terra centenária. A água que caía dos céus fertilizava os campos, amolecia a terra, os frutos despontavam. Somente o homem que se dizia civilizado não quis que a mata permanecesse nessas bandas de cá com os índios, os habitantes nativos, e os bichos que nela moravam sem fazer o mal dos que matam pelo prazer.

Os caçadores, os plantadores de lavoura, os madeireiros, todos eles desde que apareceram numa sanha incontrolável foram dizimando tudo que encontrava pela frente na mata fechada. As árvores de lei foram tombando nos estirões enormes, os troncos serrados, vendidos para que fossem transformados em esteios, estacas, tábuas, peças para a casa, como ripa, cumeeira, porta, janela, mesa, cadeira e diversos utensílios domésticos.

Os caçadores não davam trégua aos bichos. Não descansavam enquanto soubessem que um bicho estivesse vivendo na mata. A caça era moqueada e vendida na feira do lugarejo e da cidade. Os plantadores queimavam os pedaços de mata derrubada, o chão reduzido a cinzas servia para implantar as lavouras perenes ou de pouca duração.

A paisagem que antes era ocupada pelo verde da mata foi dando lugar às pastagens. Meu avô dizia que a natureza ofendida se vinga cedo ou tarde. Verdade, de uns anos para cá as chuvas escassearam, a cada verão a estiagem se torna mais prolongada, a vegetação morre, o capim seca, as lagoas viram lama. Gado morre de sede e fome, a rês com pele e osso, alquebrada, sem forças para levantar do chão, os olhos semimortos, o mudo mugido apertado na goela. Os urubus alvoroçados bicam a pobre coitada, disputam seus pedaços na festa que fazem com a comida ainda com uns restos de vida.

Diante do cenário pintado com tintas de luto nos seres e nas coisas, não esqueço do que meu avô dizia que cedo ou tarde a natureza quando ofendida se vinga e traz para o algoz ao invés de benesses o funeral das horas.

quinta-feira, maio 5

Livros e caracóis

Sue Macartney
Um bibliófilo pobre tem infinitas ocasiões de sofrer. Os livros não lhe fogem das mãos mas, em compensação, passam pelo ar, a voo de pássaro, a voo de preços.

No entanto, entre muitas explorações, surge a pérola.

Lembro-me da surpresa do livreiro Garcia Rico, em Madri, em 1934, quando propus comprar dele uma antiga edição de Góngora que custava apenas 100 pesetas, em mensalidades de 20. Era bem pouco dinheiro mas eu não o tinha. Paguei pontualmente ao longo daquele semestre. Era a edição de Foppens, editor flamengo do século XVII que imprimiu em incomparáveis e magníficos caracteres as obras dos mestres espanhóis do Século de Ouro.

Não gosto de ler Quevedo senão naquelas edições onde os sonetos se desdobram em linha de combate com férreos navios. Depois me internei na selva das livrarias, pelos desvãos suburbanos das de segunda mão ou pelas naves catedralícias das grandiosas livrarias da França e da Inglaterra. Saía com as mãos empoeiradas mas de vez em quando obtive algum tesouro – ou pelo menos a alegria de pensar que assim fora.

Prêmios literários marcantes e sonantes me ajudaram a adquirir certos exemplares de preços extravagantes. Minha biblioteca passou a ser considerável. Os antigos livros de poesia relampejavam nela e minha inclinação para a história natural encheu-a de grandiosos livros de botânica com iluminuras coloridas; e livros de pássaros, de insetos ou de peixes. Encontrei pelo mundo milagroso livros de viagens, Quixotes incríveis, impressos por Ibarra, infólios de Dante com os maravilhosos tipos bodôni. Até alguns Molières em edições limitadas, “Ad usum delphini”, para o filho do rei da França.

Mas em realidade o melhor que colecionei em minha vida foram meus caracóis. Deram-me o prazer de sua prodigiosa estrutura: a pureza lunar de uma porcelana misteriosa agregada à multiplicidade das formas, táteis, góticas, funcionais.
Milhares de pequenas portas submarinas se abriram para meu conhecimento desde aquele dia em que D. Carlos de la Torre, ilustre malacólogo de Cuba, me presenteou com os melhores exemplares de sua coleção. Desde então e ao acaso de minhas viagens, percorri os sete mares espreitando-os e buscando-os. Mas devo reconhecer que foi o mar de Paris que, entre uma onda e outra, descobriu para mim mais caracóis. Paris havia transmigrado todo o nácar dos oceanos para suas lojas naturalistas, para seus “mercados de pulgas”. Mais fácil que meter as mãos nas rochas de Veracruz ou Baja California foi encontrar sob o sargaço urbano, entre lâmpadas rotas e sapatos velhos, a delicada silhueta da Oliva Textil. Ou surpreender a lança de quartzo que se alonga, como um verso de água, na Rosellaria Fusus. Ninguém me tirará o deslumbramento de ter tirado do mar o Espondylus Roseo, grande ostra tacheada de espinhos de coral. E mais adiante entreabrir o Espondylus Blanco, de espinhos nevados como estalagmites de uma gruta gongórica.

Alguns destes troféus poderiam ser históricos. Lembro que no Museu de Pequim abriram a caixa mais sagrada dos moluscos do mar da China para me fazer presente do segundo dos dois únicos exemplares da Thatcheria Mirabilis. E assim pude arrebanhar o tesouro dessa inacreditável obra com que o oceano presenteou a China no estilo de templos e pagodes que perduram naquelas latitudes.

Demorei trinta anos para juntar tantos livros. Minhas prateleiras guardavam incunábulos e outros volumes que me comoviam; Quevedo, Cervantes e Góngora, em edições originais, assim como Laforgue, Rimbaud e Lautréamont. Estas páginas me pareciam conservar o tato dos poetas amados. Tinha manuscritos de Rimbaud. Paul Éluard me deu de presente em Paris, por meu aniversário, as duas cartas de Isabelle Rimbaud para sua mãe, escritas no hospital de Marselha onde o nômade teve uma perna amputada. Eram tesouros ambicionados pela Biblioteca Nacional de Paris e pelos vorazes bibliófilos de Chicago.

Tanto corria eu pelo mundo que minha biblioteca cresceu desmedidamente, ultrapassando as condições de uma biblioteca particular. Certo dia presenteei a grande coleção de caracóis que levei vinte anos para juntar e aqueles cinco mil volumes escolhidos por mim com o maior amor em todos os países. Presenteei-os à universidade de minha pátria. Foram recebidos como dádiva cintilante pelas bonitas palavras de um reitor.

Qualquer homem esclarecido pensará no regozijo com que receberiam no Chile essa doação minha. Mas existem também homens não esclarecidos. Um crítico oficial escreveu artigos furiosos. Protestava com veemência contra meu gesto. Quando se poderá interceptar o comunismo internacional?, proclamava. Outro senhor fez no parlamento um discurso inflamado contra a universidade por ter aceito meus maravilhosos cunábulos e incunábulos, ameaçando cortar os subsídios que ela recebia do Instituto Nacional. O articulista e o parlamentar lançaram uma onda de gelo sobre o pequeno mundo chileno. O reitor da universidade ia e vinha pelos corredores do congresso. desarvorado.

O certo é que se passaram vinte anos do fato e ninguém tornou a ver nem meus livros nem meus caracóis. É como se houvessem retornado às livrarias e ao oceano.
Pablo Neruda, "Confesso que vivi"

Salve-se


 

Doutscha

Chuva torrencial lá fora e aquela mulher de nome estranho – Doutscha – acende uma erva. O vinil rodando na vitrola. Próximo à janela envidraçada, o guarda-chuva aberto e a repentina sombra que ele tatua nas paredes. Cessa uma chuva, principia a neve. A mulher de longos cabelos negros, que tem a alma compassiva, confidencia:

— Neste momento – ela diz como quem se surpreende – a neve, olha a neve…

Tento conversar:

— Quer que cesse a neve? Quer um cigarro? Trago fósforos.

— Não, a neve, olha a neve…

 Pierre Pivet 
Pois Doutscha foi sempre uma consoladora para quem, como eu, na vida aprecia a lógica e pretende que existir seja uma raiz quádrupla do espírito. Há chuvas que Deus mesmo envia, e são aguaceiros no vazio, nos telhados das casas e nas vidraças. Recolho-me, não aos esconderijos que os outros têm, mas à sombra da ampla árvore nessa rua de Warmstrasse. Desço os lábios à bica d’água atrás da igreja luterana. Tenho caligrafia regular, sal até nas lágrimas, e os meus livros eu os grafo com mergulhar a pena da melancolia no tinteiro velho, enquanto, ao lado daquela árvore mais escura, alguma deusa com a pele transparente me sorri. Tenho amor a isso de haver a deusa Doutscha e eu acariciá-la, talvez porque, essa noite, eu não tenha mais nada a fazer a não ser enrolar uma erva, escutar Chet Baker.

Ou talvez Doutscha só exista nesta narrativa, da mesma forma que o amor de uma alma só pode respirar à beira do vulcão, e, se temos por sina dar amor, tanto vale se o dou à xícara com chá de artemísia ou ao colosso das constelações.

Tenho, muitas vezes, o hábito de fumar cigarros Gauloises.

Que me é esse disco que flue na vitrola um Chet Baker, salvo o instante ocasional em que a agulha toca a pele do vinil e a música, senhora das minhas horas, consola os dias noturnos da melancolia?

Trata-me bem, Doutscha, escuta-me com doçura, salvo nos momentos bruscos em que, por tédio ou inércia, eu te apunhá-lo a clavícula com a faca enferrujada. Desconhecida, sim, és, Doutscha, mas por que me preocupa um símbolo, uma escada de pedra, um mergulhar o pão no café, e a razão, Doutscha, o que é?

Leio aqui O Livro Negro, de Thamès Carda: “Para mim a morte explica-se como História Natural, como aquilo que tornou possível o pensamento. Se temos uma meta, parece-me que só pode ser a morte. Tudo o que se diz é sempre sobre a morte. O nosso nascimento lança-nos numa amnésia, ávidos de mar grosso e de palavras, ávidos de algumas sombras de amor. Tentamos ressuscitar a xícara e fracassamos, o fôlego e fracassamos, tentamos ressuscitar o que somos nesse instante e fracassamos, porque não se trata de ressuscitar ou não, trata-se de sumir numa Fuga – de Johann Sebastian Bach –, para não se sabe onde, para onde não se sabe mais”.

À sombra de um ventilador, numa casa pequena e repleta com vasos de plantas, lembro-me de tua nudez, Doutscha, lembro-me dela no futuro com a saudade que sei que terei. Nos arredores desse pequeno jardim buscarei a chuva; de meu coração, eu pressinto, uma carpa de fogo escapa em andante lentíssimo e fura a cortina de meu quarto que a brisa estufa de leve e, pelo buraco que a carpa deixou na cortina, eu não verei o vento que não vejo agora.

Fernando José Karl (1961-2021)

quarta-feira, maio 4

Notícias sobre o fim do livro

I
Sobre o fim do livro e da era Gutenberg, tenho duas breves histórias para contar.

A primeira é um sonho, ou um pesadelo: um chip armazena a biblioteca do universo, uma biblioteca cujo acervo seria renovado por um piscar de olhos, um esgar ou grunhido, quem sabe um soluço. Esse chip seria implantado no ombro, na perna ou no órgão mais vital do corpo: o coração do leitor. Bilhões de palavras no coração: há algo mais poético? Mais sublime?

Um chip implantado no cérebro seria robótico demais, além de ser uma cena comum de ficção científica, algo bem menos estranho que uma serpente de fogo numa montanha de gelo.

Com esse chip cravado no corpo, o leitor não teria necessidade de olhar para uma tela: a página escrita apareceria no ar, como se fosse uma holografia. Textos soltos no espaço, sem qualquer suporte. A mais fina e diminuta tela será um objeto anacrônico.

Meu sonho (ou pesadelo) parou por aí.

II
A outra história é coisa do passado.

No amanhecer de um dia de 1979, conheci um piauiense que migrara para São Paulo na década de 1960. Ele era dono de uma pequena pastelaria na antiga rodoviária, onde eu comia pastel às cinco da manhã, antes de pegar o ônibus para Taubaté.

Donato me contou passagens de sua vida em um povoado miserável, próximo a Santo Antônio dos Milagres. Aprendeu a ler com uma velha, que era uma vizinha da tapera onde ele morava. Lia bula de medicamentos, lia jornais velhíssimos que embrulhavam latas de leite enviadas pelo governo, lia as palavras impressas nessas latas.

“E um dia eu li um livro”, disse Donato, emocionado. “Um livro que um vendedor de bugigangas deixou para mim. Lia devagar, duas, três vezes cada frase, cada parágrafo. De vez em quando, parava de ler para pensar. Li tantas vezes meu único livro que decorei os trechos mais bonitos. Minha vida não valia nada, nem uma casca de cebola. Eu era um jovem que não tinha onde cair morto, como se diz. Aí consegui um emprego em Santo Antônio. Trabalhei quatro anos no balcão de uma mercearia, economizei uns tostões e vim para São Paulo. Quando ganhei um dinheirinho, abri essa pastelaria. E um dia viajei para o Rio. Queria conhecer quem tinha publicado aquele livro, queria ver o edifício da editora, as pessoas que trabalhavam com livros. Não tive coragem de entrar, fiquei espiando na calçada, olhando a placa com o nome da editora. Aí me deu vontade de fazer uma coisa, e fiz mesmo. Abracei as paredes, beijei as paredes da editora e beijei o livro que mudou minha vida.”

Milton Hatoum, "Um solitário à espreita"

Médico de flores

Buenos Aires, outubro de 59: já poderia - como aquele ingênuo novo-rico que gravou nos seus cartões de visita: Fulano de Tal, ex-passageiro do “Cap Arcona” - mandar colocar nos meus, se os tivesse: V. de M., ex-passageiro do “Caravelle”. Pois a verdade é que acabei de ingressar na era do jacto puro, com um voo de Montevidéu a Buenos Aires. Voo fulminante, pois mal subimos e o piloto já estava resolvendo os problemas da descida. Devido à curta distância (para um jacto) do trajeto, não foi possível tomar a altura ideal de 12 mil metros, onde a serenidade é quase total e a vibração quase nula; mas de qualquer maneira achamos, a Bem-Amada e eu, emocionante voarmos a 7 mil metros, numa velocidade de oitocentos quilômetros horários e a uma temperatura externa de 300 abaixo de zero. E dentro do avião tudo quentinho como deve ser.

Norbert Goeneutte
No chão, que ainda é melhor, a temperatura está também como deve ser, nesta boa cidade de Buenos Aires. Ainda há pouco, ao andar rodando por aí tudo, lembrei-me de mim mesmo, faz 14 anos, passeando por estas mesmas ruas em companhia de Aníbal Machado e Moacir Werneck de Castro. Éramos mais moços de quase três lustros e estávamos contentes da vida porque tínhamos escapado por milagre do desatre do six-motor francês “Leonel de Marmier” (num voo entre Rio e B. A.), que conseguiu amarar ninguém sabe como numa lagoa próxima à cidade de Rocha, em pleno pampa uruguaio, depois de ter tido a nacela cortada de alto a baixo por uma das hélices, que desprendera do motor e entrara avião adentro, numa carnificina que mais vale não lembrar. O tempo do desastre foi de seis minutos: seis terríveis minutos de expectativa da morte. Valha-nos, na era do jacto puro, saber que o indivíduo provavelmente desintegra, em caso de acidente.

Hoje, domingo, 25, fizemos, em companhia do meu mui caro, leal e valoroso amigo Lauro Escorel, secretário de Embaixada em B.A., uma grande rodada de automóvel que nos levou para lá do Palermo. A cidade dominical era tranquila, fria e com um céu de névoas. Lembro-me de que, num determinado momento, ao passarmos por uma enorme edificação toda murada, disse-nos o ensaísta de O pensamento político de Maquiavel ser ali o lugar onde são tratadas as águas que abastecem Buenos Aires. Fiquei pensando que, mais ainda que ex-passageiro do Caravelle, gostaria de ter nos meus cartões de visita: V. de M., médico de águas. Assim seria apresentado às pessoas nas festas, em vez de como poeta ou diplomata. E ante a estranheza que lhes causaria o título, eu confirmaria gravemente:

- Sim, minha senhora, médico de águas, para servi-la...

Depois a imaginação se me partiu, e eu fiquei achando que médico de flores seria ainda mais belo. Que linda e honesta profissão a ter! E como eu seria o único do Rio, não chegaria para as encomendas, com uma clientela de fazer inveja a meus amigos os drs. Clementino Fraga Filho, Marcelo Garcia e Ivo Pitanguy, dentro de suas especialidades. Estaria assim muito bem no meu consultório e de repente minha mãe, aflitíssima, telefonaria: “Meu filho, vem depressa que minhas rosas estão morrendo...” E eu partiria com a minha maletinha para auscultar o coração das rosas, aplicar-lhes a coramina das flores, fazer-lhes transfusão de seiva, reavivar-lhes as cores, a fragrância, a beleza. E mal chegado a casa já haveria recados de milhões de amigas preocupadíssimas com suas azáleas, seus rododendros, seus antúrios. E eu voltaria feliz e diria com orgulho e alegria à Bem-Amada: “Acho que consegui salvar as rosas de minha mãe.” E a Bem-Amada ficaria muito contente e me daria um beijo. E eu daria também consultas a flores pobres, e na rua todas as damas me sorririam com simpatia e respeito, cumprimentando- me com graciosos ademanes. E eu as cumprimentaria de volta, com a circunspecção que deve ter um médico de flores.
Vinicius de Moraes

O que faz a leitura

 


No caminho de Canela de Boi

Em Canela de Boi, no interior mais interior do país, reina um silêncio bom de conformidade com seu Janjão, que por isso mesmo vive em conformidade com todo mundo. Homem estimável está ali: paga remédio para quem adoece, enterra quem morre, emprega a viúva ou a filha moça do falecido, espalha outras benemerências. Praticamente dono do município, quem escolhe o prefeito é ele, ele quem escolhe os vereadores, ele quem diz que está na hora de mudar, e a mudança se faz. Geralmente seu Janjão não gosta de mudar, mas sendo aconselhável desentortar o torto ou entortar o reto para desentortá-lo em seguida, seu Janjão faz tudo isso da melhor maneira possível.

Turíbio apareceu para desfazer essa harmonia, e contou com a reprovação geral. Queria introduzir regras insólitas no funcionamento da comunidade, e uma dessas era que seu Janjão não precisava ser o único a decidir a sorte de Canela de Boi. Todos poderiam habilitar-se ao exercício dessa responsabilidade, quando mais não fosse porque seu Janjão já estava meio sobre o Matusalém. Caducar não caducava, mas. E era muito por demais mandão. Não deixava ninguém sequer errar por conta própria, ele acertava e errava por todos. Essas coisas, né?

Seu Janjão teve pena de Turíbio, afinal um bom rapaz, ao vê-lo desgarrar-se do justo caminho. A mulher de Turíbio foi a primeira pessoa a procurar seu Janjão para dizer que não concordava com as bobagens do marido. Um filho de Turíbio fez o mesmo; o outro não quis julgar o pai, mas declarou pelo jornalzinho de Canela de Boi que nessas coisas não se metia. A população inteira promoveu solene desagravo a seu Janjão, convidando Turíbio a calar-se. Turíbio, de cabeça dura, continuou a dizer coisas sem propósito. E parece que conseguiu mesmo conquistar a solidariedade do Aleixo alfaiate, um esquisitão que cortava barato mas tinha poucos fregueses, pois dizem que cortava mal.

A adesão de Aleixo não provocou mossa em seu Janjão, que continuou a lamentar a doideira de Turíbio. Quando se propalou a adesão do carteiro Nosferato, seu Janjão achou que era tempo de dar um ensino em Turíbio, menos pelos novos companheiros que viesse a aliciar, do que em benefício do próprio Turíbio, merecedor de algumas luzes suplementares que lhe clareassem o pensamento.

O delegado compareceu à chácara de seu Janjão e prometeu exorcizar o herege na forma suave do costume. Para maior conforto de Turíbio, que residia no povoado de Abobrinha d’Água, combinou-se que ele viria assessorado por quatro praças do destacamento, devidamente instruídos quanto ao tratamento especial a ser-lhe dispensado.

Turíbio não pôs objeção ao seu transporte para a cidade. Pediu apenas que lhe deixassem levar um naco de fumo de rolo de que iria fazendo cigarros pelo caminho, no de a pé. Os praças concordaram, mas como Turíbio se demorasse um pouco na feitura do cigarro, que ele acendia a cada estação do caminho, foi necessário espertá-lo, evitando delongas. Para essa operação estimulante, o cabo comandante recomendou a seus subordinados que batessem com a costa dos sabres nas costas dele. Foi de bom efeito, mas já na parada seguinte Turíbio demorou um pouco mais a enrolar a palhinha e a acomodar o fumo picado.

Os chanfalhos voltaram à atividade, e Turíbio, daí por diante, não fazia outra coisa senão fumar e apanhar, apanhar e fumar. Suas costas, através dos talhos da camisa, demonstravam a reiteração dos golpes, mas Turíbio era fumante inveterado. Que fazer senão cutucá-lo sempre daquela maneira enérgica, para abreviar a jornada? A tarde já ia caindo, e nada de aparecer, no horizonte, a torre da igreja de Canela de Boi.

Foi quando, numa volta da estrada, a mulher de Turíbio, que vinha da chácara de seu Janjão, aonde fora apanhar uns trocados, vendo o espetáculo, alertou os policiais:

— Cês tão brincando com ele. Bate com o fio, anda, bate com o fio!

Turíbio levantou a cabeça, ergueu a custo a mão direita num gesto de quem abomina o supérfluo, e murmurou:

— Não precisa. Como tá, tá bom.
Carlos Drummond de Andrade, "70 historinhas"

terça-feira, maio 3

Sebo

O homem disse o próprio nome e ficou me olhando atentamente. Como alguém que tivesse atirado uma moeda num poço e esperasse o “plim” no fundo. Repeti o nome algumas vezes e finalmente me lembrei. Plim. Mas claro.

- Comprei um livro seu não faz muito.

Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.

- Você compreende - expliquei -, com essa onda de assassinatos...

Ele compreendia. Estranhos assassinatos. Todas as vítimas eram intelectuais. Ou pelo menos tinham livros em casa. Dezesseis vítimas até então. Se soubesse que seria a décima sétima eu não teria me apressado tanto com as correntes.

- Você leu meu livro? - ele perguntou.

- Li!

Essa terrível necessidade de não magoar os outros. Principalmente os autores novos.

- Não leu - disse ele.

- Li. Li!

Essa obscena compulsão de ser amado.

- Leu todo?

- Todo.

Ele ainda me olhava, desconfiado. Elaborei:

- Aliás, peguei e não larguei mais até chegar ao fim. Ele ficou em silêncio.

 Elaborei mais:

- Depois li de novo.
Ele nada. Exclamei:

- Uma beleza!

- Onde é que ele está?

Meu Deus, ele queria a prova. Fiz um gesto vago na direção da estante.

Felizmente, nunca botei um livro fora na minha vida. Ainda tenho - ainda tinha - o meu Livro do bebê. Com a impressão do meu pé recém-nascido, pobre de mim. Venero livros.

Tenho pilhas e pilhas de livros. Gosto do cheiro de livros novos e antigos. Passo dias dentro de livrarias. Gosto de manusear livros, de sentir a textura do papel com os dedos, de sentir seu volume na mão. Me ocupo tanto de livros e quase não me sobra tempo para a leitura.

Ele encontrou seu livro. Nós dois suspiramos, aliviados. Como é fácil fazer a alegria dos outros, pensei. Com uma pequena mentira eu talvez tivesse dado o empurrão definitivo numa vocação literária que, de outra forma, se frustraria. Num transbordamento de caridade, declarei:

- Que livro! Puxa!

Mas ele não me ouviu. Apertava o livro entre as mãos. Disse:

- O último. Finalmente.

- O quê?

Ele começou a avançar na minha direção. Contou que a tiragem do livro tinha sido pequena. Quinhentos exemplares. Sua mãe comprara 30 e morrera antes de distribuir aos parentes. Ele tinha ficado com 453. Dezessete cópias tinham acabado num sebo que, através dos anos, vendera todos. Ele seguira a pista de 16 dos 17 compradores e os estrangulara. Faltava o décimo sétimo.

- Por quê? - gritei. E acrescentei, anacronicamente: - Homem de Deus?

No livro tinha um cacófato horrível. Ele não podia suportar a ideia de descobrirem seu cacófato.

- Eu não notei! Eu não notei! - protestei.

Não adiantou. Ninguém que tivesse lido o livro podia continuar vivo. Ele queria deixar o mundo tão inédito quanto nascera.

- Mas essas coisas não têm import... - comecei a dizer. Mas ele me pegou e me estrangulou.

Bem feito! Para eu aprender a não ser bem-educado. Meu consolo é que depois ele descobriria que as páginas do livro não tinham sido abertas e o remorso envenenaria suas noites.

Enfim. É o que dá frequentar sebos.

Luís Fernando Veríssimo, "As mentiras que os homens contam"

Livraria de antigamente

 


O casamento e a cegonha

Os pais da noiva tinham resolvido que o casamento da filha se faria ali mesmo, na chácara, à boa moda antiga, com mesada de doces, churrasco, muita empada, leitoa, frango assado, boas comidas e abundantes bebidas.

Armou-se o altar na sala da frente. Cobriu-se a mesa do civil com um lindo atoalhado de plástico. Vieram os convidados. Veio o vigário, veio o juiz e veio o escrivão. Testemunhas e a roda dos parentes. Fizeram o casamento. A moça sempre fora alta, grandalhona, fornida de carnes e de bons quartos. Naquele vestido branco, rodado, de babados subindo e descendo, de véu e grinalda, inda mais reforçada parecia.

Como a festança era mesmo de arromba, fogos pipocando, música chegando e muita gente entrando e saindo, ninguém mais reparou nos noivos que depois de posarem para o retrato de praxe, na cabeceira da mesa e de cortarem juntos o bolo artístico, se misturaram com os convidados e cada qual se achou à vontade e sem constrangimento.


O juiz e o vigário deixaram-se ficar numa roda de amigos, conversando com advogados, escrivães, gente do foro.

O baile tinha começado. A moçada saracoteava alegre. Os que não eram de dança, rodeavam a mesa posta, com pratos, copos e garrafas. Espetos de churrasco e bandas de leitão se cruzavam por todos os lados.

Boas comidas, muita bebida e os donos da casa pondo o pessoal à vontade, incansáveis, não cabendo em si de contentes com o casamento daquela primeira filha. Nada alegra tanto o coração da criatura como mesa posta, carne assada, bebidas de graça e falta de cerimônia. Quem contestar esta verdade simples, não merece dois vinténs de crédito.

Bem por isso mesmo diz o caboclo: a alegria vem das tripas — barriga cheia, coração alegre. O que é pura verdade.

A orquestra assoprava valsas e boleros com furor. Os pares girando. Os namorados namorando. Os que não dançavam se encostavam pelas mesas e, quem já estava farto, fazia roda, bebia café, fumava cigarro e contava piadas.
Quando a festança ia mais animada, lá pelas tantas, ouviu-se um corre-corre pelos quartos e corredores.

Logo mais aparecia na sala o dono da casa, ansioso e afobado, se desculpando e pedindo ao juiz e ao vigário fazerem o favor de acabar com a festa porque a noiva estava com dor de parto e a assistente já tinha chegado...

“Isto é que se chama aproveitar o tempo”, comentou um convidado, “numa só festa, casa a filha e chega a cegonha...”
Cora Coralina, "Estórias da Casa Velha da Ponte"

Fechou a livraria, abriu 'La Putaria'

Um mês depois de fechar sua penúltima livraria, Ipanema abriu este fim de semana, na calçada em frente, a La Putaria.

Foi uma surpresa que chegou com a brisa do outono. Será que é isso mesmo que eu estou vendo, eu fui pensando cá com meus botões, cá com meus cacófatos, enquanto me aproximava do letreiro da loja na Visconde de Pirajá.

A mãe do Paulo Gustavo, a mãe do Leonardo Aversa e também a minha saudosa progenitora, o leve sotaque português trazido dos antepassados, todas se juntaram em uníssono na minha cabeça para ronronar a interrogação preferida delas, o deliciosamente preocupado clichê sobre os rumos da Humanidade – o “aonde nós vamos parar com essa pouca vergonha?”.

Eu venho de um sonho feliz de cidade, quando as lojas procuravam para as fachadas nomes exaltativos, que puxassem para cima a classe de seus produtos. Chamavam-se orgulhosamente de “Imperatriz das Sedas”, “Rei da Voz” ou até mesmo, o mínimo que se permitiam, “Príncipe”, a que “veste hoje o homem de amanhã”. Mas isso faz tanto tempo. Estão todas fechadas e eu também não estou me sentindo muito bem.

Quando passei pela nova loja do bairro ela ainda estava em obras. Era só uma palavra no alto da fachada, uma daquelas que ontem não se pronunciava na frente das visitas e que agora estava lá, aos gritos, sem classificação etária, pairando desavergonhada sobre a imaginação do bairro.

Pensei de início que fosse um clube de swing, talvez uma sex shop. Quem sabe até uma boate moderninha, ao gosto desse novo reality show do Globoplay, “Túnel do Amor”, que estreou no fim de semana. Os jovens se apresentam uns aos outros não mais com o duplo beijinho nas faces, mas com línguas boca a dentro do próximo que acabou de conhecer. É um “oi” sem distinção de sexo, sem distinção de raça, muito menos distinção de número, porque às vezes reúne até quatro línguas no mesmo cumprimento. 

Sabe-se agora que La Putaria, o novo endereço comercial de Ipanema, não é nada disso, mas uma loja de doces com formatos de genitálias desnudas. O bairro dividiu. Há quem concorde com as mães do terceiro parágrafo, a pouca vergonha campeia, o que será de nossas crianças? – e pede à prefeitura a proibição do letreiro, “um atentado contra os pudores da família”. Outros argumentam que, desde o século passado, no primeiro “pentelho” dito pelo Faustão num domingo à tarde, não há mais o que fazer. As palavras estão soltas.

O Rio de Janeiro perdeu o bom senso das convivências, e os mais cínicos apontam o nome da loja como a síntese do que nos vai pelo cotidiano. Na semana passada a cidade precisou de um decreto para as pessoas deixarem de aumentar os decibéis de suas caixas de som na orelha do vizinho da praia. Foi pouco. Nas ruas internas, madames em scooters elétricas de milhares de reais e entregadores em bicicletas caindo aos pedaços, todos desprezam a mais banal das ordens urbanas e atropelam pedestres na civilização das calçadas.

Não vou gastar meu palavreado à toa, em considerações sobre a polêmica do sexo servido doce nos balcões de Ipanema. Os rapapés da crônica são desnecessários quando o tamanho dos fatos está logo ali na esquina e, curto e grosso, denuncia mais um drama dos tempos. Fecharam a livraria, abriram La Putaria.

segunda-feira, maio 2

Aos que não gostam de ler

John Robertson Reid
Nada tenho a dizer aos que gostam de ler. Eles já sabem. Mas tenho muito a dizer aos que não gostam de ler. Pena é que, por não gostarem de ler, é provável que não leiam isso que vou escrever. O que tenho a dizer é simples: “Vocês não sabem o que estão perdendo”. Ler é uma das maiores fontes de alegria. Claro, há uns livros chatos. Não os leiam. Borges dizia que, se há tantos livros deliciosos de serem lidos, por que gastar tempo lendo um livro que não dá prazer? Na leitura fazemos turismo sem sair de casa, gastando menos dinheiro e sem correr os riscos das viagens. Shogun me levou por uma viagem ao Japão do século XVI, em meio aos ferozes samurais e às sutilezas do amor nipônico. Cem anos de solidão, que reli faz alguns meses, me produziu espantos e ataques de riso. Achei que o Gabriel García Márquez deveria estar sob o efeito de algum alucinógeno quando o escreveu. Lendo, você experimenta o assombro do seu mundo fantástico sem precisar cheirar pó. É isso: quem lê não precisa cheirar pó. Nunca tinha pensado nisso. A poesia de Alberto Caeiro me ensina a ver, me faz criança e fico parecido com árvores e regatos. Agora, essa maravilha de delicadeza e pureza, do Gabriel velho com dores no peito e medo de morrer: Memórias de minhas putas tristes. Li, ri, me comovi, fiquei leve e fiquei triste de o ter lido porque agora não poderei ter o prazer de lê-lo pela primeira vez. Pena que vocês, não leitores, sejam castrados para os prazeres que moram nos livros. Mas, se quiserem, há remédio...

Rubem Alves, "Do universo à jabuticaba"

Cuidar da horta

 


Ventos

Lino Gustave
Ventos poderosos que partem os galhos de novembro! – e o sol brilhante e calmo, intocado pelas fúrias da terra, que abandona a terra à escuridão e ao desamparo selvagem, e à noite, enquanto homens tremem em seus casacos e correm para casa. E então as luzes dos lares se acendem naquelas profundezas desoladas. Mas há as estrelas!, que brilham no alto de um firmamento espiritual. Vamos caminhar ao vento, absortos e satisfeitos em pensamentos maldosos, em busca de uma repentina e sorridente inteligência da humanidade abaixo dessas belezas abismais. Agora a fúria turbulenta da meia-noite, o ranger de nossas portas e janelas, agora o inverno, agora a compreensão da terra e de nossa presença nela: esse teatro de enigmas e duplos sentidos e pesares e alegrias solenes, essas coisas humanas na vastidão elemental do mundo açoitado pelo vento.

Jack Kerouac

Cinzas que falam

Karen Mathison Schmidt.
E não é que os gatos da lua cheia voltam agora, na lua nova? De novo os gatos de María Zambrano, que vigiavam suas jornadas pelas profundezas do sonho. Conta a poeta María Victoria Atencia que a amiga voltou sem seus gatos para a Espanha. Mas houve dois outros gatos espanhóis em seus últimos anos de vida: Inés e Pelusa. Depois da morte de María e do seu sepultamento em Vélez-Málaga, deu-se o inegavelmente fabuloso de soltarem Inés e Pelusa, entre dezenas de outros gatos, no mesmo cemitério.

Que belo segredo faz coincidirem os espaços por onde vagueava o pensamento de María e os lugares onde vivem os gatos? Esses lugares meio abandonados, arruinados, desventrados das tragédias escritas pelo tempo, onde a vida faz que se esquece, embora, entre estelas funerárias e efígies, ainda murmure o que só uns poucos ouvem.

Cecília Meireles também ouvia as ruínas e as tumbas dos cemitérios, como María Zambrano. Ambas, aliás, amaram em Roma a Via Appia, e ali a estela de um ignoto adolescente romano. É célebre a história de que María costumava varrer o lixo do chão em torno do seu “namorado da Via Appia” para preservar-lhe o espaço sagrado, até o dia em que o encontrou misteriosamente engalanado com uma guirlanda de flores no pescoço.

Cecília, por sua vez, levou para seus poemas as pedras de Roma, suas inscrições, milhões de vidas na poeira suspensa das ruínas, que ela envolveu de amor, solidária a esse pó. Até um gato romano, brincando com um raio de sol, a poeta fez entrar num poema.

Curioso também que, ao visitar o túmulo de Shelley no cemitério protestante de Roma, Cecília tenha lembrado que o poeta morreu com um livro de Sófocles no bolso. Curioso porque Sófocles também ocupou o coração pensante de María e a levou a ouvir Antígona mesmo anos depois de Roma.

E agora, lua nova, os livros dessas duas amantes de ruínas espalhados aqui pelo chão da biblioteca, mais uma vez aparecem os gatos vigilantes e seus muitos olhos. E em que se parecem bibliotecas e ruínas, que os gatos amam tanto umas e outras? Certo poeta já ofereceu uma resposta, sem saber, quando disse que “se a vida arde bem, a poesia é simplesmente o pó”. Cinzas que nos falam, murmurando. E talvez mais ainda falem aos gatos.
Mariana Ianelli

domingo, maio 1

Leitura dominical

 

Frantiska Palecek

Página de história

Jacek Yerka
De uma História Universal editada no Século XXXIII: “Os homens do Século Vinte, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato da natureza; mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insetos — mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.”

Mário Quintana, "Caderno H"

Num canto de muro...

Irmãos, volvamos para a Natureza!
Civilizados, para trás! Voltemos...
Humberto de Campos


Trepadeiras listam de verde úmido o velho muro cinzento, abrindo nos pequeninos cachos vermelhos e brancos uma leve alegria visual. Esta trepadeira é chamada Romeu e Julieta porque no mesmo molho estão as flores de duas cores, confusas e juntas. Uma outra, de folhas miúdas, sustenta campânulas minúsculas e rubras que abrem as bocas escarlates para os besouros escuros, redondos e sonoros.

No canto de muro, tijolos quebrados, cobertos pelos cacos de telha ruiva, aprumam-se numa breve pirâmide de que restos de papel, pano e palha disfarçam as entradas negras da habitação coletiva desde o térreo, domínio dual de Titius, o escorpião, e de Licosa, aranha orgulhosa, até o último andar onde mora um grilo solitário e tenor.

Perto há, tão curvo quanto o pescoço de um cisne, um cano de onde pende enferrujada torneira. Duas vezes por dia escorre, lento e claro, um fio de água trêmula e cintilante na sua cantiga rápida no tanque raso de bordas o nível do chão. Uma folha sempre verde passeia devagar na face arrepiada, e Dica, a aranha-d’água, corre pela superfície de prata sem molhar as seis patas finíssimas.
Na margem há duas pedras, dois tijolos sujos debaixo dos quais reside um sapo negro e ouro, orgulhoso, atrevido e covarde na classe musical dos barítonos. Chama-se Fu.

Água do tanque sobe duas vezes cada dia, vagarosa, sacudida pelos círculos concêntricos que sustentam a existência do reservatório, bebedouro do bem-te-vi, lavadeira de casaca preta, xexéus do bairro residencial próprio e permite o abastecimento regular de aves no tipo das vizinhas toleradas e dos visitantes dispensáveis e teimosos.

No meio do quintal, a mangueira estende a galharia robusta, derramando sombra e agasalho. É uma árvore bem velha, alta e copada, mas de frutos azedos e reduzidos.

Aquela imponência ornamental basta para justificar a presença poderosa. Os frutos carecem de importância para ela. Não deseja reproduzir a dinastia de porte lindo ou demasiado confia na solidariedade famélica dos pássaros e dos morcegos. Bem no centro há um oco, janelão ogival, que é a porta nobre de Sofia, a coruja noturna, misteriosa e venerada.

Há do lado um sapotizeiro denso e baixo onde ainda resiste ao redor do tronco um círculo carcomido de folha de flandres, posto ali há muitos anos, impedindo as subidas vorazes de Musi, proprietária de uma família de ratos insaciáveis.

Depois do sapotizeiro, há uma goiabeira esquelética e que teima, como fêmea obstinada na fecundação, em cobrir-se de goiabas amarelas de polpa rubra e doce.

No fim, hirto, senhorial, importante, o mamoeiro sacode o estirado caule bem alto, com uma coroa de folhas imóveis, guardando o bando de mamões compridos e desejados pela lonjura.

Mamoeiro, sapotizeiro e goiabeira estão registrados nos livros graves como Carica papaya, L., mas o fruto lembrando uma grande mama conservou o aumentativo. Achras sapota, L., e Psidium guayava, Raddi, fecham a relação sisuda e definitiva.
Ao pé do sapotizeiro há um montezinho de pedras e aí instalou seu escritório o cavalo do cão que ainda não tomou conhecimento de pertencer aos Himenópteros pompilídeos, raça guerreira e milenar.

De três galhos da mangueira, os mais distantes do solo, justamente na extremidade, penduram-se as bolsas cinzento-claras dos ninhos dos xexéus, guardados em posição alcoviteira, constante e tenaz por um regimento de tapiucabas, vassalas espontâneas e dedicadas até o sacrifício individual.

Nas brechas do muro que as trepadeiras enfeitam e remoçam cada manhã e tarde vivem as lagartixas, chefiadas por Vênia, anciã gorda e vagarosa, de couro áspero, lixento e rugoso. As lagartixas são muito bem educadas e balançam as cabecinhas triangulares concordando com tudo.

No ramo mais grosso do sapotizeiro há uma casa redonda e chata, defendida pela fama agressiva de seus moradores para as circunjacências habitadas. É o concílio do marimbondo-caboclo, rei dos marimbondos-chapéu, por causa da forma residencial. Invencíveis, são o melhor agrupamento de combate, caça e patrulha das redondezas.

Junto à pirâmide está uma telha intacta e semienterrada, custodiando a família inteira da rainha Blata com sua corte de baratas avermelhadas e profissionalmente famintas.

Próximo às árvores ergue-se o que resta da antiga cozinha. Dos portais apodrecidos caiu a porta inferior, coberta de caliça e monturo. Uma ponta em elevação permite torná-la abrigo e aí, vez por outra, veraneia Raca, a jararaca temida, Bothrops jararaca, vinda dos arredores, entrando pela brecha do muro num espreguiçamento indolente, reluzindo suas escamas verde-oliva onde as manchas escuras e triangulares, orladas de amarelo-baço, vestem-na de certo luxo. Permanece alguns dias descansando e vigiando a família de Musi que se aboletou no frio e abandonado fogão de chapa, podendo criar os frutos dos amores sucessivos com relativa segurança e possível fartura. Brinco, o gato, aparece por fruta naquela região. Raca sabe desta simpatia de Musi e procura a cozinha como a um farnel de reserva. Musi naturalmente desenvolve técnicas defensivas para livrar a espécie do paladar de Raca.

Do teto negro de fuligem, inúteis teias de aranha decoram como festões, penduram-se durante o dia, dormindo, a falange dos morcegos de Quiró, enrolados nas asas membranosas, com a mania do sono de cabeça para baixo, conforme recomendação dos especialistas quirópteros. Tanto Sofia como Raca são apaixonadas apreciadoras da carne tenra dos morcegos que não se resolvem a ser fornecedores passivos e dóceis desta iguaria difícil.

Esta é a multidão regular e permanente da terra silenciosa que o canto de muro denomina.
Luís da Câmara Cascudo, "Canto de muro"