sexta-feira, julho 8

No silêncio da noite

Sempre me impressionou esse estranho caso que acontece no silêncio da noite e no interior das enciclopédias: a promiscuidade forçada das personagens dos verbetes, as quais, sem querer, se encontram alfabeticamente lado a lado... Não fosse a minha salutar preguiça, eu escreveria um novo Dialogues des morts. Deixo aqui a ideia a quem quiser aproveitá-la.

Que diria, por exemplo, Napoleão a Nabucodonosor, que, se não me engano muito, é ainda por cima o único lobisomem que aparece na Bíblia... Em todo caso, o orgulho do Imperador ficaria por demais ferido com a total ignorância de seu vizinho de página a respeito de suas andanças através da História. Ainda mais danado ficaria ele se pudesse ver os filmes em que é apresentado como um baixinho irrequieto, nervosinho, de gestos súbitos, um garnisé petulante. Por ocultos motivos, parece que é moda denegrir Napoleão entre os cineastas franceses. Isto apesar de os burgueses de França terem ficado seduzidos, até hoje, com as fitinhas da Legião de Honra, que ele, maliciosamente, criou exatamente para os civis — o que ainda agora o deve divertir muitíssimo.

Mas por que diabo foi ele vender a Louisiana aos Estados Unidos? Não fora isto, poderia transportar, depois de Waterloo, a sede do Governo para o Novo Mundo — como fez Dom João VI ao vir para o Brasil. Foi a mesma burrada (desculpem, não me ocorre no momento outra expressão), foi o mesmo, digo agora, que fez a Rússia ao vender o território do Alasca aos norte-americanos. Com que raiva não hão de pensar nisto os soviéticos, que, com um pé na América, aí sim, poderiam, literalmente falando, abarcar o mundo com as pernas. Mas, depois do que aconteceu, é tolice imaginar o que poderia não ter acontecido. Deixemos pois os guerreiros em imerecida paz e vamos falar daqueles cujo reino não é deste mundo.

Contudo, receio que Napoleão e Nabucodonosor não se estranhariam tanto como pessoas da mesma Era e da mesma Fé. Como Santa Teresa de Jesus, por exemplo, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que se defrontam na mesma página. Deus me perdoe, mas creio até que o velho Teresão não daria importância àquela meiga menina, com suas chuvas de rosas... “Deixá-la falar! santinha de arrabalde...”
Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo"

quinta-feira, julho 7

Mestre da levitação

 


Do fim do mundo

Escrevo-lhe do fim do mundo. É preciso que o saiba. Amiúde as árvores tremem. Apanham-se as folhas. Têm uma imensa quantidade de nervuras.

Mas de que servem? Não há mais nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, incomodados.

Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?

Há também tumultos subterrâneos, e dentro de casa, como raivas que surgissem à nossa frente, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, como se importasse muito pouco ver.

Nada, e todavia treme-se. Porquê?
Henri Michaux, "Escrevo-lhe de um país distante"

Os homens que não receberam visitas

Os loucos esperaram o sábado inteiro. Comportados, cada um em seu lugar habitual. Uns enrolando os dedos, outros fingindo-se de Napoleão, relinchando como cavalo, gritando como insanos, andando de boca aberta, babando, rindo à toa, revirando os olhos, falando sozinho, escrevendo no ar, desenhando no céu.

A partir de duas horas, todos esperaram. O portão foi aberto, o pátio varrido, os saguões lavados, os banheiros desinfetados. Colocaram flores de plástico nas cabeceiras das camas. Todos trocaram roupas, alguns receberam permissão para não usar a camisa de força, as janelas foram abertas para arejar.

Cada louco colocou-se no seu lugar habitual, ali onde os parentes sadios estavam acostumados a encontrá-los. Sentados na beira da cama, deitados em baixo dela, acomodados em bancos, ou com os bancos acomodados neles, de pé junto aos portais, encostados em colunas, ajoelhados em degraus, bebendo água da fonte, brincando no jardim, correndo em volta do pátio.

Se os parentes sadios chegavam e não encontravam o louco fazendo as coisas de costume, sofriam grande perturbação. Ansiavam, corriam a indagar o que estava acontecendo, alarmavam-se ante a possibilidade de estarem curados. Gritavam, arrancavam os cabelos, as mulheres desmaiavam, os homens sofriam palpitações. Às vezes, o próprio louco ajudava a socorrer, dando calmantes, chamando os psiquiatras de plantão, dando assistência, até que a calma se restabelecesse e os parentes sadios pudessem voltar para casa.

Neste sábado, os loucos estranharam. Os portões se abriram às onze horas. Não havia ninguém diante dele. O tempo passou, os loucos almoçaram e continuaram a esperar, agora um pouco ansiosos. Ninguém vinha. O que estava acontecendo?

À medida que o dia avançava e os parentes não chegavam, os loucos começaram a ter atitudes estranhas. Queriam sair do sanatório, queriam telefonar para pedir notícias, andavam agitados de um lado para outro, enrolando os dedos, gingando, murmurando frases incompreensíveis, gritando alucinados, tentando subir nas paredes, querendo se enroscar nos bocais, como se fossem lâmpadas, procurando se enfiar nos buracos do jardim, como se fossem formigas, rastejando como cobras, zurrando como animais, sorrindo como débeis mentais, escrevendo no ar, desenhando no céu, revirando os olhos. Todos preocupados.

Faltava pouco para as seis, os portões continuavam abertos e nenhuma visita se aproximava. Ante o barulho de um carro passando na estrada, os loucos se excitavam. A tensão era insuportável. Estariam loucos os parentes sadios?
Quando os vigilantes fecharam os portões e as sinetas tocaram para todos se recolherem ao refeitório, a tensão explodiu e eles começaram a gritar. E de sua janela, vendo os loucos a subirem as escadas, torcendo-se naquela dor interna irremediável, o diretor sentiu. Os loucos tinham-se tornado loucos.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras proibidas"

quarta-feira, julho 6

Leituras no Verão

 


Falamos de carambolas

Falamos sobre sorvetes, eu disse que tinha tomado um ótimo, de carambola.

– Não sei que graça você acha em carambola.

Falamos sobre carambola, discutimos sobre carambola; passamos a romã e finalmente a jambo; sim, há o jambo moreno e o jambo cor-de-rosa, este é muito sem gosto; aliás, a mais bonita de todas as mangas, a manga-rosa, não tem nem de longe o gosto de uma espada, de uma carlotinha.

Lembrei a história contada por um amigo. Mais de uma vez insistira com certa moça para que fosse ao seu apartamento. Ela não queria ir. Ele um dia telefonou: “Vem almoçar comigo, mando matar uma galinha, fazer molho pardo…” achou que a recusa da moça era menos dura. E insistiu mais: — Vem… tem manga carlotinha…

– Manga carlotinha? Mentira!

E a moça foi. Refugaria talvez promessa de casamento, se irritaria com o presente de joia, mas como resistir a um homem que tem galinha ao molho pardo com angu e manga carlotinha, e faz um convite tão familiar?

Ela não achou muita graça na história. Aliás não simpatizava com aquele amigo meu.

Ficamos um instante em silêncio. Comecei a mexer o gelo dentro do copo com o dedo.

É um hábito brasileiro, mas até que não é meu uso; inclusive, para falar a verdade, acho pouco limpo; entretanto eu mexia com o indicador o gelo que boiava no uísque, e como seria insuportável não fazer a pergunta, ergui os olhos e fiz: — Mas, afinal, o que foi que o médico disse?

E ela encolheu os ombros. Repetiu algumas palavras do médico, principalmente uma: Sindroma… teve uma dúvida: — É síndroma ou sindroma?

Eu disse francamente que não sabia; apenas tinha a impressão de que a palavra era feminina; mas também podia ser masculina; era paroxítona ou átona, mas também podia ser proparoxítona ou esdrúxula; e, ainda por cima, tanto se podia dizer sindroma como síndrome, e até mesmo sindromo.

Em todo o caso — juntei — não era bem uma doença; era um conjunto de sintomas… eu falava assim não para mostrar sabença, mas para mostrar incerteza, e ignorância da verdade verdadeira — ou até uma certa indiferença por essas coisas de palavras.

Confessei-lhe que há muitas palavras que evito dizer porque nunca estou muito seguro da maneira de pronunciar. Por outro lado há palavras que a gente só conhece porque são usadas em palavras cruzadas. Até existe uma cidade assim, uma cidade de que ninguém se lembraria jamais se não tivesse apenas duas letras e não fosse terra de Abraão ou cidade da Caldéia: UR. Se os charadistas do mundo inteiro formassem uma pátria a capital teria de ser UR. Eu falava essas bobagens com volubilidade. Ela disse: — Todo mundo, quando tem uma doença como essa minha, procura se enganar. Eu, não.

Chamei-a de pessimista, aliás ela sempre fora pessimista.

– Não é pessimismo não. É…

Senti que ela ia dizer o nome da doença, e que tudo estaria perdido se ela pronunciasse aquele nome; seria intolerável.

– Você sabe muito bem o que é.

Chamei o garçom, pedi mais um uísque e mais um Alexander’s.

– Sabe quem eu vi hoje?

Era ela que mudava de conversa; senti um alívio. E falamos, e falamos… Eu admirava mais uma vez sua cabeça, os olhos claros, a testa, sua graça tocante.

Era insuportável pensar que alguém assim pudesse estar condenada. Dentro de mim eu sabia, mas não acreditava. Tive a impressão de que sua cabeça estremecia como uma flor. Um anjo se movera junto de nós, na penumbra do bar, era o anjo da morte; e a flor estremecera.

– Acho que o bale russo precisa se renovar…

Ela achava que não era justo falar em virtuosidades acrobáticas; o que havia era uma renúncia a todo expressionismo e a toda pantomima, a beleza do bale puro… E no meio da discussão me chamou de literato; mas juntou logo um sorriso tão amigo. Eu disse o que talvez já tivessse dito uma vez: — Foi uma pena você não ter estudado bale.

Pensava no seu corpo de pernas longas, na linha dura das ancas, nos seios pequenos, e a revia por um instante, toda casta, nua. Ela me censurou por beber tão depressa, e de repente: — E esse seu bigode agora está horrível.

– Por que você não toma conta de mim, não dirige meus uísques e meus bigodes?

Ela riu, e deu uma risada tão alegre como antigamente.

Como as pessoas costumam dizer, uma risada de cristal. Clara, alegre, tilintante como o cristal. O cristal, que se parte tão fácil.
Rubem Braga

Luz própria

 


Imortal, até morrer

Osvaldo Raúl Alvarez
Com 100 anos e um dia de idade, vovô Jake despertou na manhã seguinte para um doce dia de primavera. Sentou-se na varanda com uma garrafa do Velho Sussurro da Morte para ajudar a tirar o furador de gelo que sentia dentro de seu cérebro desde a noite anterior, e, quando se sentiu pronto para mais 100 anos, preparou um grande ensopado de carne de veado com pãezinhos para o jantar. Depois do jantar, ele e Miúdo repartiram o último pedaço do bolo de aniversário que tinha sobrado da festa. Observou e deu conselhos, enquanto Miúdo esboçava algumas de suas ideias para os entalhes dos postes, e então foi dar sua caminhada noturna.

Quando voltou, tomou mais uns dois goles extras de uísque para enganar o frio, tirou as roupas até ficar só de ceroulas, foi para a cama, leu um artigo numa velha Argosy sobre um mercenário no Amazonas que fora adotado por uma tribo de caçadores de cabeças, casara-se com as graciosas filhas gêmeas do cacique, tivera cinco filhos e andava pelado até os missionários chegarem, e com eles o inferno e todas as nossas escapadas ousadas do fogo eterno. Não achou a matéria muito ruim, mesmo que fosse besteira. Apagou a luz e adormeceu.

Estava sonhando com as adoráveis irmãs gêmeas se aconchegando no seu corpo quando a lua cheia se ergueu sobre o rio, ofuscante e limpa. Ouviu um choro abafado, uma criança no outro quarto, anos atrás, e aí ouviu seu nome sussurrado, talvez Miúdo tentando acordá-lo, ou uma das belas filhas do cacique murmurando seu nome no sono. Escutou atentamente na escuridão, uma concentração que parecia tirá-lo de si mesmo em uma suspensão vazia. Escutou o próprio coração parar de bater, o último encher de pulmões deixá-lo em um silêncio luminoso. Esperou, totalmente quieto. Escutou seu choro suave retornar em sua carne, desvanecendo-se em direção à lua. E então um sussurro de asas enquanto era erguido.

Podia sentir, pelo jeito como era levado, que não se tratava de anjos, não podia conceber que fossem anjos, tinha tanta certeza de que eram patos, que nem se incomodou em abrir os olhos. Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:
– Ora, com os diabos, fui imortal até morrer.

Esperou, mas não houve mais respiração. Sucumbiu por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem.
Jim Dodge, "Fup"

O bonde

Uma quinzena de quilômetros separava a praia da cidade, através de uma paisagem levemente acidentada, de ladeiras cobertas de vinha, trajeto ladeado (à direita, vindo do mar) por opulentas residências do século anterior, separadas umas das outras por dois ou três quilômetros mais ou menos escondidos pelas árvores dos seus jardins, oferecendo como que um inventário daquilo que a vaidade de fortunas recém-adquiridas ou consolidadas tinha podido inspirar aos proprietários e aos arquitetos, que se dobravam aos desejos daqueles (ou até mesmo se antecipavam), numa época em que as ambições de uma classe provinciana abastada e de um nível cultural médio (inspirando-se às vezes nas decorações medievais ou orientais de óperas vistas em Paris durante alguma viagem de núpcias) ofereciam aos olhares um leque arquitetônico (torres coroadas de graciosas balaustradas em terracota ou, ao contrário, maciças, quadradas e vagamente sarracenas), de um gosto às vezes duvidoso mas, no conjunto, agradável, sem ostentação demasiado incômoda (exceto uma construção mais recente), de nomes anacrônicos (como seus móveis Luís Felipe ou Napoleão III) e de um ingênuo frescor, nomes como “Miraflores” ou, simplesmente, “Aloés”.

Em ambos os sentidos (da cidade para o mar e inversamente), dois bondes saíam na mesma hora e cruzavam-se na metade do caminho, não longe justamente da propriedade cujo nome (“Brincado”) fazia jus à sua simplória fachada entalhada (semelhante a esses brinquedos de cartão, essas fortalezas ou castelos que, no Natal, damos às crianças) e alimentava obscuras reticências sobre as origens e a data da fortuna de quem a fizera construir, os atuais residentes (descendentes do romântico novo rico — ou talvez compradores recentes) sendo mantidos pela pequena sociedade das outros “vilas” não como numa espécie de ostracismo mas pura e simplesmente ignorados, o que, de alguma maneira, dava-lhes a aura de um prestígio feito ao mesmo tempo de desprezo e de suspeita, esta última nutrida pelo fato de que, sob certo ângulo, antes de o bonde tomar a via da “garagem” (nome que se dava à duplicação das vias que, no meio do caminho, permitia às duas locomotivas se cruzar), bem parecia que a medíocre arquitetura fortificada se limitava à fachada, por trás da qual, durante um breve instante, só se avistava um vasto galpão de paredes sem janelas, nem sequer rebocado, cuja cobertura de telhas acabava de adaptar-se às seteiras medievais.

A Alameda dos Castanheiros que o bonde acompanhava em fim de trajeto diminuindo aos poucos a velocidade, paralela ao bulevar Wilson a partir do monumento aos mortos construído na entrada do largo municipal, parecia ser, à tarde (como se houvesse um vínculo entre o monumental monumento e eles), o ponto de encontro de uma meia dúzia desses pequenos veículos com um banco de vime escuro, duas rodas traseiras e outra pequena, na frente, na ponta de uma longa forquilha manejável ao longo da qual havia uma correia de bicicleta descendo da dupla manivela que servia ao mesmo tempo de guidom e acionada pelas mãos desses personagens (ou melhor, parecia, cópias exatas do mesmo personagem — pois todos se assemelhavam: mesmo rosto ossudo e duro de rapace, mesmo bigode preto de pontas desfiadas (ou parodicamente encrespadas com ferro de passar), também mesma bagana de cigarro enrolado à mão, mesmo leque de fitas desbotadas na lapela do jaquetão, mesmo encerado preto e brilhante estendido, com vincos e amassados, até o estreito piso onde nenhum pé repousava, personagens que mamãe designava com daria para dizer uma espécie de alegre maldade um nome composto (homens-tronco), o que provocava estremecimento (assim como morcego, centopeia e viúva-negra) e que na sua boca e no seu tom tinha algo de infamante, macabro e desesperado, como se ela os acusasse, não só de exibir a doença, mas também simplesmente de existir, de escapar vivos, embora praticamente cortados em dois, da guerra que lhe tinha levado o único homem que amara, como se essa denominação atroz subentendesse uma suspeita de covardia e ao mesmo tempo de inveja, de ciúme e de piedade, ela que tinha enfim renunciado ao véu de crepe, atrás do qual, não sem alguma ostentação, escondera o rosto bem além dos limites decentes de um luto, mas que continuava a só vestir cores escuras e que talvez (assim como a sua participação numa certa associação caritativa a levava duas vezes por semana a ensinar o catecismo para alguns meninos barulhentos numa capela lateral da catedral) fosse ao hospital ou ao hospício, ou ao asilo (devia mesmo existir um lugar, um ponto comum, a partir do qual, à tarde, eles se dirigiam para a Alameda dos Castanheiros, impassíveis, assustadores, com seus bigodes untados, narizes de abutre, carrinhos e corpos martirizados, num castigo permanente, numa recriminação permanente aos vivos), onde moravam esses infelizes para levar-lhes alguma doçura ou talvez mesmo ainda que detestasse esse vício, mas em lembrança certamente do serviço de fumar trazido do Extremo Oriente pelo homem do seu luto e no qual (bandeja, lata de fumo e cinzeiros) se podia ver, esmaltado, azul-turquesa, pássaros de barriga rosa voar entre juncos acima de extensos nenúfares), talvez mesmo, então, pacotes de fumo ruim, desses encontrados nas tabacarias, cúbicos, enrolados com um papel cinza de má qualidade, fechados com a etiqueta branca da companhia de tabaco, aos quais ela não esquecia de acrescentar um bloquinho de folhas para cigarro, cujas marcas (“Cruz de Arroz” ou “JOB”) poderiam significar incitações a persistir no martírio, se a cruz desenhada sobre um fundo anil não se referisse simplesmente a um nome de fábrica e se a sigla JOB, em letras douradas sobre fundo branco, não resultasse, como todos sabiam, da ampliação em forma de losango do ponto separando as iniciais do fundador da firma (um certo senhor Joseph Bardou), a exemplo da cruz sem qualquer vocação para lembrar os sofrimentos do personagem bíblico. 
Claude Simon, "O Bonde"

terça-feira, julho 5

Na banheira

 


Casas amáveis

Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro.

Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento.

Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides?

Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

Os jardins tinham as suas deusas, os seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d’água para os peixinhos.

Possuíam canteiros de flores obscuras – violetas, amores-perfeitos – para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)

E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões húmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, os seus transparentes calcanhares, as suas algemas de escravidão.

As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as claraboias. Luz como aquela? Nem a do luar! – uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da ausência de gentileza.

Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes as ingénuas alegrias íntimas – flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas – e cujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny…

Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)

E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas sumptuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.
Cecília Meireles, "‘Escolha o seu sonho"

segunda-feira, julho 4

Leitor acamado

 


Nenhum olhar

Sarah Barnaby 
Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar. Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará. Hei-de o distinguir no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.

José Luís Peixoto, "Nenhum olhar"

A explicação que não explica

Catherine Clark Ellis
Não é fácil lembrar-me de como e por que escrevi um conto ou um romance. Depois que se despegam de mim, também eu os estranho. Não se trata de transe, mas a concentração no escrever parece tirar a consciência do que não tenha sido o escrever propriamente dito. Alguma coisa, porém, posso tentar reconstituir, se é que importa, e se responde ao que me foi perguntado.

O que me lembro do conto “Feliz aniversário”, por exemplo, é da impress
ão de uma festa que não foi diferente de outras diferentes de aniversário; mas aquele era um dia pesado de verão, e acho até que nem pus a ideia de verão no conto. Tive uma impressão, de onde resultaram algumas linhas vagas, anotadas apenas pelo gosto e necessidade de aprofundar o que se sente. Anos depois, ao deparar com essas linhas, a história inteira nasceu, com uma rapidez de quem estivesse transcrevendo cena já vista – e no entanto nada do que escrevi aconteceu naquela ou em outra festa. Muito tempo depois um amigo perguntou-me de quem era aquela avó. Respondi que era a avó dos outros. Dois dias depois a verdadeira resposta me veio espontânea, e com surpresa: descobri que a avó era minha mesma, e dela eu só conhecera, em criança, um retrato, nada mais.

“Mistério em São Cristóvão” é mistério para mim: fui escrevendo tranquilamente como quem desenrola um novelo de linha. Não encontrei a menor dificuldade. Creio que a ausência de dificuldade veio da própria concepção do conto: sua atmosfera talvez precisasse dessa minha atitude de isenção, de certa não participação. A falta de dificuldade é capaz de ter sido técnica interna, modo de abordar, delicadeza, distração fingida.

De “Devaneio e embriaguez duma rapariga” sei que me diverti tanto que foi mesmo um prazer escrever. Enquanto durou o trabalho, estava sempre de um bom humor diferente do diário e, apesar de os outros não chegarem a notar, eu falava à moda portuguesa, fazendo, ao que me parece, experiência de linguagem. Foi ótimo escrever sobre a portuguesa.

De “Os laços de família” não gravei nada.

Do conto “Amor” lembro duas coisas: uma, ao escrever da intensidade com que inesperadamente caí com o personagem dentro de um Jardim Botânico não calculado, e de onde quase não conseguimos sair, de tão encipoados e meio hipnotizados – a ponto de eu ter que fazer meu personagem chamar o guarda para abrir os portões já fechados, senão passaríamos a morar ali mesmo até hoje.

A segunda coisa de que me lembro é de um amigo lendo a história datilografada para criticá-la, e eu, ao ouvi-lo em voz humana e familiar, tendo de súbito a impressão de que só naquele instante ela nascia, e nascia já feita, como criança nasce. Este momento foi o melhor de todos: o conto ali me foi dado, e eu o recebi, ou ali eu o dei e ele foi recebido, ou as duas coisas que são uma só.

De “O jantar” nada sei.

“Uma galinha” foi escrito em cerca de meia hora. Haviam me encomendado uma crônica, eu estava tentando sem tentar propriamente, e terminei não entregando; até que um dia notei que aquela era uma história inteiramente redonda, e senti com que amor a escrevera. Vi também que escrevera um conto, e que ali estava o gosto que sempre tivera por bichos, uma das formas acessíveis de gente.

“Começos de uma fortuna” foi escrito mais para ver no que daria tentar uma técnica tão leve que apenas se entremeasse na história. Foi construído meio a frio, e eu guiada apenas pela curiosidade. Mais um exercício de escalas.

“Preciosidade” é um pouco irritante, terminei antipatizando com a menina, e depois, pedindo-lhe desculpas por antipatizar, e na hora de pedir desculpas tendo vontade de não pedir mesmo. Terminei arrumando a vida dela mais por desencargo de consciência e por responsabilidade que por amor. Escrever assim não vale a pena, envolve de um modo errado, tira a paciência. Tenho a impressão de que, mesmo se eu pudesse fazer desse conto um conto bom, ele intrinsecamente não prestaria.

“Imitação da rosa” usou vários pais e mães para nascer. Houve o choque inicial da notícia de alguém que adoecera, sem eu entender por quê. Houve nesse mesmo dia rosas que me mandaram, e que reparti com uma amiga. Houve essa constante na vida de todos, que é a rosa como flor. E houve tudo o mais que não sei, e que é o caldo de cultura de qualquer história.

 “Imitação” me deu a chance de usar um tom monótono que me satisfaz muito: a repetição me é agradável, e repetição acontecendo no mesmo lugar termina cavando pouco a pouco, cantilena enjoada diz alguma coisa.

“O crime do professor de matemática” chamava-se antes “O crime”, e foi publicado. Anos depois entendi que o conto simplesmente não fora escrito. Então escrevi-o. Permanece no entanto a impressão de que continua não escrito. Ainda não entendo o professor de matemática, embora saiba que ele é o que eu disse.

“A menor mulher do mundo” me lembra domingo, primavera em Washington, criança adormecendo no colo no meio de um passeio, primeiros calores de maio – enquanto a menor mulher do mundo (uma notícia lida no jornal) intensificava tudo isso num lugar que me parece o nascedouro do mundo: África. Creio que também este conto vem de meu amor por bichos; parece-me que sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo, coisa ainda quente do próprio nascimento; e, no entanto, coisa já se pondo imediatamente de pé, e já vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando, nunca se gastando.

“O búfalo” me lembra muito vagamente um rosto que vi numa mulher ou em várias, ou em homens; e uma das mil visitas que fiz a jardins zoológicos. Nessa, um tigre olhou para mim, eu olhei para ele, ele sustentou o olhar, eu não, e vim embora até hoje. O conto nada tem a ver com isso, foi escrito e deixado de lado. Um dia reli-o e senti um choque de mal-estar e horror.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

domingo, julho 3

Leitura a pedaladas

 


O irreal quotidiano

Na semana passada, certo inglês, de passagem por Lisboa, quase me implorou, farto do Idêntico em toda a parte:

— Mostre-me qualquer coisa que não exista noutro país. Há?

Meditei meio segundo e respondi, telegráfico:

— Há. "Cabarets".

O senhor estrangeiro encolheu os ombros em trejeito de desdém. Mas eu teimei:


— Sim. 
"Cabarets" …"Cabarets" estranhos, ao contrário, de pernas para o ar, sem jazz nem pretos de dentes brancos a soprarem gargalhadas nos saxofones. "Cabarets" … do avesso em que não se encontram mulheres de riso fatal a dançarem ao som macabro do estalar das rolhas das garrafas de champanhe. Autênticas Casas de Sofrer – onde se servem indigestões de mariscos e bebidas tristíssimas – construídas de propósito para pessoas, com fumos de luto nas mangas, que pretendem chorar em público sem medo do ridículo. "Cabarets" – válvulas-de-escape, em suma…Venha comigo e verá.

Tomámos um táxi, descemos uma viela sonâmbula, abrimos a porta de vidro em frente e pisámos com reverência o veludo do tapete de cascas de tremoços do Salão de Fados em que duas dezenas de seres, palidamente diluídos no rumor das vozes em surdina, se preparavam para sofrer em comum.

Ambiente de bicos de pés. Os criados deslizavam, irreais, com sapatos fantasmas, para não perturbarem a dor dos clientes que, de cabeça pesada entre as mãos, parafusavam neste tema de meditação irresolúvel: «A vida é uma chatice!» (…)

Ia começar a função. No estrado alinhavam-se duas cadeiras à espera do viola e do guitarrista que entraram pouco depois em ritmo de enterro. O cantor também não tardou a surgir no catafalco, mancha negra dos cabelos até aos sapatos, solenidade de telegrama de pêsames, lívido, suado, sinceramente infeliz, cara de serenata à meia-noite a noivas mortas…

Houve um sussurro espectral. Os ouvintes ajeitaram-se o melhor possível nos assentos para sofrerem com comodidade.
José Gomes Ferreira, "O Irreal Quotidiano: histórias e invenções"

Loucos da selfie

 


Vício digital

Marcel Proust
A Internet tanto ajuda quanto atrapalha um escritor. É como ter na mesa ao lado, no escritório, uma secretária eficientíssima, que faz tudo e sabe tudo, mas insiste em trabalhar usando fio dental. Toda vez que o sujeito faz um ponto/parágrafo, vem a precisão de dar uma olhada. E se chegou a resposta àquele email ansioso que mandei ontem para a editora? E se alguém tiver postado algo interessante no Facebook? E se no Twitter tiver acabado de aparecer um link que vai me dar de bandeja o tema da coluna de amanhã? E se o saite da CNN tiver uma revelação bombástica sobre a campanha presidencial nos EUA? E se alguém tiver postado um comentário interessante no meu Blog? Por falar nisso, quantos acessos o blog teve hoje?

Muitos escritores experimentam isto de 10 em 10 minutos enquanto escrevem. Um artigo no The Telegraph me faz compartilhar o calvário de alguns escritores ingleses contemporâneos, que, pasmem, chegam a instalar no computador programas destinados a atrapalhar seu acesso à Internet enquanto escrevem. Zadie Smith (“White Teeth”) usa dois programas, chamados Freedom (também utilizado por Nick Hornby, Dave Eggers e Naomi Klein) e Self-Control.

Quem melhor explica isso é Ned Beauman (“The Teleportation Accident”), nascido em 1985 e totalmente integrado no redemoinho eletrônico. “Eu uso K9, um aplicativo que bloqueia certas páginas em alguns websaites”, diz ele, “e uso um bloqueador de anúncios para bloquear a seção de comentários nos saites. Quando estou trabalhando uso Nanny, aplicativo do Google Chrome, e uso SelfControl para bloquear alguns outros saites”. Quais? Ele responde: “Virtualmente todos os saites de jornais, revistas, blogs e o Twitter”.

Está cada vez mais fácil baixar um aplicativo para amordaçar o computador do que simplesmente adquirir o autodomínio necessário para trabalhar cinco ou seis horas sem abrir um navegador. Cinco ou seis horas? Estou sendo utópico. Não me lembro a última vez em que trabalhei duas horas seguidas sem dar um pulo nos usuais suspeitos (email, Facebook, Twitter, Wikipedia, Terra, CNN, StereoMood, Mundo Fantasmo).

Que trauma será esse? Falta de vergonha, diria Seu Lunga, e o inglês Will Self, nascido em 1961, afirma: “Internet não tem nada a ver com a escrita de ficção, que é a expressão de verdades que só são obtidas através da observação e introspecção. É um instrumento incrível e seria idiotice não usá-lo, mas é uma coisa que atrapalha a escrita propriamente dita”. Não custa nada fechar todas as janelas, deixar aberto somente o Word, e dizer: “Só conecto de novo daqui a 3 horas, e durante 30 minutos”. Se não conseguir… é falta de vergonha mesmo.

Braulio Tavares

sexta-feira, julho 1

Meio de transporte

 


Músicos de rua

“Músicos de rua são considerados um incômodo” pelos moradores tão sinceros da maioria das praças de Londres, que tiveram o trabalho de inserir esse polido trecho de crítica musical numa placa contendo ainda outras regras para o decoro e a paz na praça. Mas nenhum artista dá a menor atenção à crítica, e o artista das ruas desdenha solenemente do julgamento do público britânico. É notável que, apesar da desaprovação que observei – e que de quando em quando é reforçada por um policial britânico –, o músico ambulante está na realidade em alta. A banda alemã dá um concerto por semana, com a mesma regularidade que a orquestra do Queen’s Hall; de igual modo, os tocadores de realejo italianos são fiéis ao seu público e reaparecem pontualmente sobre o mesmo tablado; somando-se a esses mestres reconhecidos, todas as ruas recebem a visita esporádica de alguma estrela erradia. O robusto teutônico e o italiano moreno certamente vivem de alguma coisa mais substancial que a satisfação artística de suas almas; e é portanto provável que as moedas, que está abaixo da dignidade do verdadeiro amante da música jogar pela janela da sala, sejam oferecidas na escadinha dos fundos. Existe um público, em suma, que está disposto a pagar até mesmo por uma melodia tão rudimentar como essa.



A música, para fazer sucesso numa rua, deve ser alta antes de ser bonita; por isso é que os instrumentos prediletos são de metal, e podemos concluir que o músico de rua que usa a própria voz ou um violino tem uma razão genuína para sua escolha. Já observei violinistas que obviamente estavam usando seu instrumento para expressar algo que tinham no próprio coração enquanto balançavam o corpo na beira da calçada na Fleet Street; e as moedas, embora as roupas em frangalhos as tornassem aceitáveis, eram, como são para todos os que amam seu trabalho, um pagamento em tudo incongruente. De fato, certa vez segui um velho de aparência lamentável que, de olhos fechados para poder perceber melhor as melodias de sua alma, se pôs a tocar literalmente de Kensington a Knightsbridge num transe de êxtase musical do qual uma moeda seria um despertar desagradável. É de fato impossível não respeitar qualquer um que tenha dentro de si um deus como esse; porque a música que se apodera da alma, e que assim torna esquecidas a nudez e a fome, deve ser divina em sua natureza. É verdade que as melodias que saíam de seu esforçado violino eram em si mesmas risíveis, mas ele, por certo, não. Seja qual for o nível da realização, sempre devemos tratar com ternura os esforços dos que se empenham com sinceridade para expressar a música que existe neles; pois o dom da concepção é por certo superior ao dom da expressão, e não é disparatado supor que os homens e mulheres que arranham por harmonias que jamais vêm, enquanto o trânsito vai estrondando ao lado, sejam tão fortemente possuídos, embora fadados a nunca transmitir isso, quanto os mestres cuja eloquência fácil encanta milhares a ouvi-los.

Há talvez mais de um motivo para que os moradores das praças olhem para o músico de rua como um incômodo; sua música perturba o dono da casa em suas ocupações legítimas, e um espírito disciplinado se irrita com a natureza erradia e não ortodoxa de tal ofício. Artistas de toda espécie têm sido invariavelmente vistos com desfavor, sobretudo pelo público inglês, não apenas por causa das excentricidades do temperamento artístico, mas também porque nos condicionamos a uma tal excelência de civilização que qualquer tipo de expressão tem algo quase indecente – decerto não reticente – a rodeá-lo. Poucos pais, observamos, querem que seus filhos se tornem pintores ou poetas ou músicos, não somente por razões mundanas, mas porque em seu próprio coração eles acham ser indigno de um homem dar expressão aos pensamentos e emoções que a arte revela e que deveria ser obrigação de um bom cidadão reprimir. Desse modo, por certo, a arte não é estimulada; e é provavelmente mais fácil para um artista do que para alguém de qualquer outra profissão cair na sarjeta. O artista não só é visto com desprezo, mas também com uma suspeita que tem em si não pouco medo. É possuído por um espírito que a pessoa comum não pode compreender, mas que evidentemente é muito poderoso e exerce sobre o artista uma influência tão grande que ele, quando ouve sua voz, sempre tem de se levantar e segui-lo.

Hoje em dia não somos crédulos e, apesar de não ficarmos à vontade na presença de artistas, fazemos todo o possível para domesticá-los. Nunca se teve tanto respeito pelo artista de sucesso como hoje em dia; e nisso talvez possamos ver um sinal do que muitas pessoas vaticinaram, e que os deuses que foram para o exílio, quando os primeiros altares cristãos se ergueram, haverão de voltar para se comprazer novamente como queiram. Muitos escritores tentaram localizar esses antigos pagãos e asseveraram encontrá-los sob o disfarce de animais e no abrigo de matas e montanhas longínquas; mas não é fantástico supor que, enquanto todos estão à sua procura, estejam eles preparando seus bruxedos bem no meio de nós, e que esses estranhos idólatras que não se põem às ordens de ninguém e são inspirados por uma voz que é diversa da humana em seus ouvidos não são de fato como as outras pessoas, mas ou são os próprios deuses ou seus profetas e sacerdotes sobre a terra. Decerto eu deveria inclinar-me a atribuir aos músicos uma tal origem divina, de qualquer modo, e provavelmente é alguma suspeita dessa espécie que nos leva a persegui-los como o fazemos. Pois se o encadeamento de palavras, que todavia pode transmitir à mente uma informação útil, ou a combinação de cores que pode representar um objeto tangível são ocupações que quando muito não conseguem senão ser toleradas, como iremos considerar o homem que passa seu tempo entoando canções? A ocupação dele não é a menos respeitável – a menos útil e necessária – das três? É claro que, ouvindo música, você nada pode levar daí que lhe seja de serventia em seu dia de trabalho; mas um músico não é simplesmente uma criatura útil; para muitos, creio eu, ele é o mais perigoso de toda a tribo de artistas. É o ministro do mais feroz dos deuses, que ainda não aprendeu a falar com voz humana nem a transmitir à mente o aspecto das coisas humanas. É porque a música incita em nós alguma coisa que é feroz e inumana como ela mesma – um espírito para se eliminar e esquecer de bom grado – que desconfiamos dos músicos e relutamos em nos colocar sob seu poder.

Ser civilizado é ter tomado a medida de nossas próprias capacidades e mantê-las num estado perfeito de disciplina; mas um de nossos dons tem, tal como o concebemos, um poder de beneficência tão reles e um poder tão desmedido de danos que, longe de cultivá-lo, fizemos todo o possível para estropiá-lo e abafá-lo. Olhamos para os que puseram sua vida a serviço desse deus como os cristãos olham para os fanáticos adoradores de algum ídolo oriental. E isso talvez decorra de uma ansiosa presciência de que, quando os deuses pagãos voltarem, o deus que nunca adoramos haverá de se vingar de nós. Será o deus da música que há de insuflar loucura em nosso cérebro, que há de rachar as paredes de nossos templos e nos levar a abominar nossa vida sem ritmo para dançar e circular para sempre em obediência à voz dele.

Tem aumentado o número dos que declaram, como se confessassem sua imunidade a alguma fraqueza bem comum, não ter ouvido para música, ainda que tal confissão deva ser tão grave quanto a de alguém que é cego para as cores. Ao modo como a música é ensinada e apresentada por seus ministros cabe em certa medida a responsabilidade por isso. A música é perigosa, como nós sabemos, e os que a ensinam não têm coragem de transmiti-la em todo o seu vigor, por medo do que poderia acontecer à criança que bebesse goladas tão intoxicantes. Todo o ritmo e harmonia foram prensados, como flores secas, nas escalas claramente divididas, nos tons e semitons do piano. O atributo mais fácil e mais seguro da música – sua melodia – é ensinado, mas ao ritmo, que é sua alma, permite-se que escape como a criatura alada que é. Assim, as pessoas instruídas, às quais se ensinou o que lhes é mais seguro saber de música, são as que mais costumam se gabar de sua falta de ouvido, enquanto as não instruídas, cujo sentido de ritmo não se divorciou nem foi tornado subsidiário de seu sentido de harmonia, são as que nutrem maior amor pela música e as que ouvimos com mais frequência a produzi-la.

Pode ocorrer de fato que o sentido de ritmo seja mais forte em pessoas cuja mente não foi elaboradamente treinada para outros objetivos, como é verdade que os selvagens que não têm nenhuma das artes da civilização são muito sensíveis ao ritmo, antes de serem despertados para a música em si. A batida do ritmo na mente aparenta-se à batida do pulso em nosso corpo; e assim, apesar de muitos serem surdos para a melodia, é raro alguém organizado de um modo tão grosseiro que não consiga ouvir o ritmo de seu próprio coração em palavras e movimentos e música. É por ela nos ser assim tão inata que não podemos jamais silenciar a música, como não podemos impedir nosso coração de bater; e é também por essa razão que a música é tão universal e tem o estranho e ilimitado poder de uma força natural.

Malgrado tudo o que fizemos para reprimi-la, a música ainda tem tal poder sobre nós, sempre que nos damos aos seus meneios, que não há quadro, por mais justo que seja, nem palavras, por mais grandiosas, que dela se aproximem. Já nos acostumamos com a visão estranha de um salão repleto de pessoas civilizadas se movendo a passos rítmicos sob o comando de uma banda de músicos, mas pode ser que algum dia isso venha a sugerir as vastas possibilidades que estão na força do ritmo, e toda a nossa vida será então revolucionada, como o foi quando pela primeira vez o homem se deu conta da força do vapor. O realejo, por exemplo, por causa de seu ritmo rudimentar e enfático, põe as pernas de todos os passantes a andar em cadência; uma banda no centro da feroz discórdia de carruagens e charretes de aluguel seria mais eficiente do que qualquer guarda de trânsito; não apenas o cocheiro, mas o próprio cavalo sentir-se-ia obrigado a manter o tempo da dança e a seguir qualquer medida de trote ou meio galope que as trombetas ditassem. Até certo ponto esse princípio já foi reconhecido no exército, onde as tropas são inspiradas ao ritmo da música para marchar em batalha. Se o sentido de ritmo estivesse em plena atividade em todas as mentes, deveríamos, se não me engano, notar um grande progresso não só na organização de todos os assuntos da vida cotidiana, mas também na arte de escrever, que é quase uma aliada da música e degenerou principalmente por se ter esquecido da adesão dessa arte. Deveríamos inventar – ou melhor, relembrar – os inumeráveis metros que por tanto tempo ultrajamos e que poderiam restaurar a poesia e a prosa segundo as harmonias que os antigos ouviam e observavam.

O ritmo, sozinho, pode levar facilmente a excessos; mas, se o ouvido dominasse seu segredo, melodia e harmonia se uniriam a ele, e as ações antes executadas por intermédio do ritmo, com exatidão e a tempo, seriam feitas agora pelo que for de melodia que é natural a cada um. As conversas, por exemplo, não só obedeceriam às suas convenientes leis métricas, tal como as ditam nosso sentido de ritmo, mas também seriam inspiradas por caridade, amor, sabedoria, soando a rabugice, e o sarcasmo, ao ouvido corpóreo, como notas em falso e discórdias terríveis. Todos nós sabemos que as vozes de amigos são discordantes depois de ouvirmos boa música, porque perturbam o eco da harmonia rítmica que naquele momento faz da vida um todo musical e unificado; e parece provável, considerando isso, que há uma música no ar, pela qual nós sempre estamos apurando o ouvido e que apenas em parte nos é tornada audível pelas transcrições que os grandes músicos são capazes de preservar. Em florestas e lugares solitários, um ouvido atento pode detectar algo muito parecido com uma vasta pulsação e, se nossos ouvidos fossem educados, poderíamos ouvir também a música que a acompanha. Apesar de não ser humana essa voz, ela é contudo uma voz que alguma parte de nós pode, se a deixarmos, compreender, e é talvez por não ser humana a música que ela é a única coisa feita pelos homens que nunca pode ser ruim nem feia.

Se em vez de bibliotecas, por conseguinte, os filantropos doassem música aos pobres, de modo que em cada esquina de rua as melodias de Beethoven e Brahms e Mozart pudessem ser ouvidas, é provável que todos os crimes e contendas logo se tornassem desconhecidos, podendo fluir melodiosos, em obediência às leis da música, o trabalho das mãos e os pensamentos da mente. E seria então um crime tomar os músicos de rua ou qualquer um que interprete a voz do deus por outro alguém que não seja um homem santo, e do nascer ao pôr do sol nossa vida poderia passar ao som de música.
Virginia Woolf, National Review n. 265, mar. 1905