sexta-feira, março 24

O apanhador de desperdícios

'Tolstoi lendo', Yefimovich Repin
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos, como as boas moscas.

Queria que a minha voz
tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

A disciplina do amor

Fanny Brügger
Foi na França, durante a Segunda Grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava até a correr todo animado atrás dos mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro, até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao posto de espera. O jovem morreu num bombardeio mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias.

Todos os dias, com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina.

As pessoas estranhavam, mas quem esse cachorro está esperando… Uma tarde (era inverno) ele lá ficou, o focinho voltado para aquela direção.
Lygia Fagundes Telles

quinta-feira, março 23

O poeta beija tudo

O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: "É preciso saber olhar..." E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás... E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso... E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou que os homens estavam tristes... E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar..."

Sebastião da Gama,"Diário"

Faça-se a luz

 


É muita exclamação!

Há uma epidemia de exclamação no ar. Não costumava ser assim. Na televisão, nos alto-falantes, nos comícios, nas salas de aula e – o que é pior – até nos livros. (vejam que acabei de perder uma oportunidade de usar a exclamação com justa causa.)

A turma anda exaltada. Os pastores nas rádios vociferam contra Satanás. O torcedor berra contra o bandeirinha, o preço do ingresso, as substituições equivocadas do técnico. O motorista, além de gastar a buzina, pragueja contra a senhora que não percebeu que o sinal abriu. Até o atendimento eletrônico do banco, quando digitei errado a opção desejada, parece ter perdido a paciência e me pediu (mandou?) que digitasse novamente a senha – com uma exclamação.

O ponto de exclamação fala alto demais, quando não grita (dois seguidos, então, berram). Não respeita meditações, não quer saber de argumentos razoáveis. Prefere a certeza ao debate, torce pelo confronto em vez do diálogo. É o sinal perfeito dos nossos tempos, onde todos julgam ter razão e querem impor seu ponto de vista.


Numa crônica, ele é raro de se ver. Há uma razão para isso: o cronista é um avoado, um disperso, que apenas procura reportar os acontecimentos à sua volta. Ele não toma partido, não se envolve de verdade. Por exemplo: quando dizemos “pobre senhor”, em geral isso é seguido por um ponto ou uma vírgula. Nunca nos excedemos com um “pobre senhor!”, não sentimos tanta pena assim ou comiseração. Ou seja: o sujeito diz se emocionar com as ondas do mar, uma brisa, com o pouso de um passarinho de peito laranja, mas, diante do sofrimento humano, mostra-se indiferente. Uns canalhas, esses cronistas!

Eu pensava que a exclamação, como o ponto e vírgula, a trema e a gentileza estava à beira da extinção, respirava por aparelhos. Que vivera seu auge nos poemas parnasianos, nas narrações dos antigos locutores de futebol e nas ordens bradadas pelos oficiais. Mas aí deram para ressuscitar os militares em assuntos que não deviam ser de sua alçada, e deu nisso.

Já trabalhei como redator em agências de publicidade. Onde o uso de exclamação era proibido, vejam que contradição: justo os textos que deveriam louvar as qualidades de um carro, chamar a atenção para uma marca de detergente ou de uma sandália de dedo, evitavam as exclamações, a voz alta, o exagero (hoje, em dia, a gente precisa até abaixar o som quando entra algum comercial de varejo). Contradições do vernáculo – ou do capitalismo, sei lá.

Gente: se não for para acabar com o recurso de vez, vamos deixar a exclamação onde ela de fato se impõe: nos números anunciados nos bingos; nos bordões dos feirantes; nas broncas das mães nos filhos impossíveis; nas frases repetidas pelos papagaios, e nas coisas feias que a gente diz após bater com o dedinho no pé da cama.

Mas também não exageremos, simplesmente trocando a exclamação pelos três pontos da indecisão, da incerteza, das frases inacabadas. Seria de fato… não sei… algo assim… que nos levará a um lugar que, vou dizer…

Basta um tanto de ponderação. De paciência. Querer viver cercado de menos barulho e decisão. Ponhamos uma vírgula ou um discretíssimo ponto final. Com menos estardalhaço. Arregacemos as mangas, é tempo de recomeçar! Avante! Unidos seguiremos! Abaixo a exclamação!

Náufragos

Percebendo que o outono estava se aproximando rapidamente, Isaku observou os tons avermelhados que se espalhavam nas encostas de um ângulo diferente do ano anterior. Embora estivesse feliz por terem permitido que trabalhasse com os adultos na cremação, ele tinha plena consciência de sua posição na aldeia composta na maioria de pessoas idosas, mulheres e crianças. Até aquele ano, como criança, Isaku tinha apenas assistido aos rituais da vila, mas de agora em diante, pensou ele, também teria de participar de modo ativo nos procedimentos.
Depois da cremação, os habitantes da vila desapareceram dentro de suas casas. Isaku seguiu sua mãe para dentro de casa, passando pela esteira de palha que cobria a entrada.

Sua irmã Teru, que tinha nascido no final do ano anterior, engatinhava pelo chão, chorando. Ela parecia ter estado chorando por um bom tempo; estava com a voz rouca. Engatinhou na direção deles ao reconhecer a mãe.

A mãe ignorou-a, foi até a moringa que ficava na parte da casa com chão de terra, pegou um pouco de água com uma concha rachada e engoliu-a ruidosamente antes de se dirigir ao banheiro do lado de fora, na parte de trás da casa. Depois de algum tempo ela retornou e subiu na parte do chão coberta pelas esteiras de palha, enquanto ajeitava a parte de trás do quimono. Ela sentou-se e acomodou Teru sobre os joelhos. Abriu o quimono e expôs um mamilo grande e escuro.

Teru moveu a cabeça de um lado para o outro tentando alcançar o mamilo. Isaku conseguia ouvir Teru mamando; ela parecia estar com o nariz entupido. De vez em quando virava a cabeça, afastando-se da mãe, e respirava com tanta força que soava como uma pessoa adulta.

Era hábito na vila não trabalhar tanto no dia da morte quanto no dia da cremação, para não perturbar o morto. Isaku sentia-se bem, feliz por não ter de ir pescar; ao mesmo tempo, temia a mãe, sabendo como ela abominava o ócio. Lançava olhares furtivos na direção dela, sentado na beirada de sua cama.

Não havia sinal de seu irmão e de sua irmã; calculou que estivessem brincando entre as árvores nos fundos da casa. Um fio fino de fumaça vermelha erguia-se das achas de madeira em meio às cinzas no fogão.

— As montanhas ficaram vermelhas — disse Isaku de forma amistosa para a mãe.

Ela não respondeu. O sol da tarde penetrava por um orifício na parede de madeira, lançando um raio de luz na penumbra da sala e atingindo a parte de trás da perna levemente curvada de Teru.

— Pegue um pouco de lenha — disse a mãe.

Isaku se levantou imediatamente e saiu pela porta dos fundos. Tufos de grama eulália cresciam, aqui e ali na encosta rochosa. O sol estava baixo entre os recortes das montanhas e metade da aldeia já se encontrava no escuro. Ele pegou um pouco de lenha na pilha encostada contra a parede dos fundos da casa.

Na manhã seguinte Isaku foi pescar. A pesca seria interrompida no princípio do inverno, quando o mar ficasse agitado; portanto, antes disso era preciso estocar tantos frutos do mar quanto fosse possível. Felizmente, os polvos de outono estavam aparecendo em quantidade maior que o habitual.

No recife, homens e meninos ficavam nos pequenos barcos pegando os polvos entre as pedras com espetos. Isaku remou o barco do pai, guiando-o pela água. Parou e pegou seu espeto longo com um gancho na extremidade. Havia um pedaço de pano vermelho amarrado na ponta, e ele o colocou dentro da água, mexendo nas plantas que cresciam ali. Quando movia levemente a ponta do espeto, os polvos confundiam o pano vermelho com comida e saíam de seus esconderijos no meio das pedras ou das plantas. Isaku então usava sua habilidade para pegá-los com o gancho do espeto.

Havia tantos que às vezes Isaku pegava três ou quatro polvos assim que colocava o espeto na água.

Fazia dois anos que o pai de Isaku lhe ensinara corno pescar e como dirigir o barco. Ao contrário da mãe, o pai de Isaku nunca erguera a mão contra ele, mas seu humor taciturno causava terror no garoto. Quando Isaku estava aprendendo a pescar polvos, ele derrubara o espeto na água várias vezes, mas seu pai não dissera nada, apenas olhara carrancudo para ele ao saltar na água para recuperá-lo.

Isaku tinha perfeita consciência do status de masculinidade associado ao fato de tornar-se um pescador profissional. Por isso estava ansioso por aprender a arte, e apesar de sua inexperiência começara a sair para o mar com os homens desde que o pai deixara a aldeia para cumprir seu período de servidão.

Na praia, os idosos e as crianças pequenas recolhiam algas enquanto as mulheres entravam na água para pegar mexilhões nas pedras.

Às vezes Isaku arriscava um olhar para as montanhas enquanto procurava polvos. Dia após dia, o tom avermelhado parecia descer mais pelas encostas, tingindo a superfície das montanhas com os matizes do outono e já começando a alcançar as árvores das encostas próximas.

Os dias iam se tornando mais frios, e a água do mar também. Os polvos pareciam vir em hordas para a costa, e às vezes um único movimento do pano vermelho atraía dez das pequenas criaturas. Isaku puxava o espeto e depois esperava que a nuvem de tinta desaparecesse antes de voltar a colocar o espeto na água.

As folhas das árvores atrás da vila atingiram seu máximo esplendor de outono. Como acontecia todo ano naquela época, os polvos subitamente começaram a se afastar da costa. Por mais que Isaku sacudisse o espeto, apenas um ou outro polvo emergia, até que desapareceram por completo.

A temporada dos polvos terminou, mas o rendimento daquele ano tinha sido maior que o habitual. Havia polvos pendurados do lado de fora de cada casa, em cordas de palha trançada, cortados e colocados para secar ao sol do outono. Os polvos não só eram um alimento tradicional no Ano-Novo, como também um produto valioso para ser trocado. Eram vendidos através da aldeia vizinha para as pessoas que viviam nas montanhas, o que permitia aos habitantes da aldeia comprar grãos.

O ritual de O-fune-sama era realizado no período em que a aldeia era envolvida pelas cores do outono. Com o marido no leme, um barco transportando uma mulher de vinte e oito anos, grávida, deixava a estreita faixa de areia. Olhando para o horizonte, ela erguia uma pequena grinalda sagrada de palha enquanto o barco subia e descia a caminho de águas mais profundas. Ele por fim parava depois de ser conduzido com habilidade para além dos recifes. Os moradores da aldeia reuniam-se na praia unindo suas palmas em preces quando a mulher jogava a grinalda na água. A mulher grávida representava o desejo deles por boa pesca, e o lançamento da grinalda sagrada na água simbolizava o desejo de que um barco que passasse atingisse o recife diante da aldeia.

Isaku, sua mãe com Teru amarrada às costas, o irmão e a irmã menores, todos olhavam o barco subir e descer nas ondas ao se aproximar novamente da praia. A maré estava alta, e as pedras encontravam-se quase completamente submersas, mas mesmo assim a água produzia espuma aqui e ali.

O barco alcançou a praia, e a mulher saltou para a areia. As pessoas reunidas na praia se separaram para deixá-la passar e então a seguiram encosta acima. Sendo normalmente uma pessoa alegre, conhecida por suas risadas contagiantes, ela parecia uma pessoa diferente ao caminhar com determinação encosta acima.
Ao chegar à trilha, ela avançou com passos lentos e firmes até a casa do chefe da aldeia. Isaku os seguiu lá para dentro, pisando no chão de terra da entrada, olhando entre os homens que estavam à sua frente. O velho chefe da aldeia encontrava-se sentado com as pernas cruzadas, empertigado, com uma mesinha em formato de caixa e uma cuia cheia de comida diante dele. A mulher se ajoelhou, colocando as mãos no chão ao se curvar profundamente. Era a primeira vez que Isaku assistia ao ritual, porque até então ele não tivera permissão para entrar naquela casa.

A mulher se levantou, ergueu a parte de baixo do quimono ao avançar até a pequena mesa e a derrubou com um chute direto. Então ajoelhou-se outra vez e curvou-se novamente diante do chefe da aldeia. O ato de chutar a cuia expressava o desejo deles de que um navio se acidentasse, e com isso a cerimônia terminava.

Os habitantes locais começaram a retornar para suas casas. O trabalho era proibido no dia da cerimônia de O-fune-sama, por isso Isaku seguiu a mãe pela trilha estreita que levava à casa deles.

Diante deles caminhava um homem chamado Senkichi, com sua família. Ele tinha quebrado o fêmur quando criança, o que o deixara com uma perna consideravelmente menor do que a outra, mas era famoso por fazer as melhores canoas de um só tronco da aldeia. A filha mais velha dele tinha sido vendida como serva, e comentava-se que a segunda filha, de quinze anos, logo seria vendida também.

Os olhos de Isaku se detiveram na terceira filha, Tami, que caminhava atrás do pai. Ela tinha a pele escura como a mulher de Senkichi, mas possuía olhos penetrantes e nariz reto. Os movimentos dela eram suaves, como os de um felino. Sempre que olhava para Tami ele se sentia estranhamente estimulado.
No vilarejo, quando um rapaz completava quinze anos podia abordar a menina que queria que fosse sua esposa. Era costume o jovem entrar na casa da menina durante a noite, e se esta não o rejeitasse, a família fingia que não o via. Isaku ansiava por uma oportunidade de abraçar Tami. Ele receava que Tami, um ano mais nova que ele, se entregasse a algum outro antes que ele alcançasse a idade exigida. A ideia o assustava.

Ele também temia que Tami fosse vendida como serva, como as irmãs mais velhas. As mulheres eram geralmente vendidas como criadas, e algumas voltavam para casa depois que o período de servidão terminava. Algumas provavelmente abominavam a vida pobre na aldeia, e outras conheciam algum homem durante o período de contrato e casavam-se quando este terminava. E mesmo que uma ou outra retornasse, depois de cumprir um contrato que podia chegar a dez anos, já estaria velha demais para casar, a não ser que fosse com um homem viúvo. Havia homens casados com mulheres mais velhas, e Isaku sentia que tinha poucas chances de um dia viver sob o mesmo teto que Tami.
Chegaram a uma bifurcação do caminho e Tami e seus pais seguiram pela trilha paralela à costa. Isaku olhou para as pernas de Tami, que apareciam sob o quimono.

Um vento noroeste começou a soprar.

Isaku trabalhou arduamente cortando lenha na floresta e levando a madeira para os fundos da casa para ser cortada em cavacos. Nos dias em que o mar estava calmo ele saía no barco e lançava uma linha na água.

A cor vermelha nas encostas mais distantes havia desaparecido, e as folhas das árvores na encosta atrás da aldeia perdiam a cor rapidamente. A temperatura caía dia a dia. Em dias de vento, enormes nuvens de folhas secas giravam no ar por entre as pedras e caíam na trilha da aldeia ou nos telhados das casas. Muitas eram levadas para o mar.

O mar tornou-se agitado, e respingos das ondas caíam sobre as casas mais próximas da praia. A aldeia estava envolta pelo som das ondas que arrebentavam com força na praia e nas pedras.

Quando o sol se punha, começava a atividade de fazer sal na estreita faixa de areia da praia. As mulheres carregavam trinta caixas rasas do depósito da casa do chefe da aldeia, alinhavam-nas na praia, enchiam-nas com areia e depois jogavam água do mar por cima. Quando a areia secava ao sol, era novamente lavada com água do mar. A água altamente salgada era drenada para barris e transferida para dois grandes caldeirões colocados perto do mar.

Cada casa fornecia quantidades iguais de lenha, e os homens se revezavam cuidando das fogueiras até o nascer do dia, quando o sal estaria pronto. Ao mesmo tempo esse procedimento fornecia outro produto essencial para a aldeia; o fogo sob os caldeirões também servia para atrair O-fune-sama.
Akira Yoshimura, "Naufrágios"

terça-feira, março 21

Escadaria para o infinito

 


Anoitecer sobre Sussex: reflexões no interior de um automóvel

Sarah Afonso
O anoitecer é generoso com Sussex, pois Sussex não é mais jovem, e se mostra agradecida pelo véu do começo de noite, tal como uma mulher mais velha fica feliz quando uma lâmpada é coberta por uma pantalha e de seu rosto resta apenas o contorno. O contorno de Sussex ainda é muito bonito. Os penhascos se destacam, um atrás do outro, contra o mar. Todo o Eastbourne, todo o Bexhill e todo o St Leonards, seus calçadões e suas pousadas, suas lojas de bijuterias e suas lojas de guloseimas e seus cartazes e seus enfermos e suas charretes de passeio, tudo isso se apaga. O que fica é o que havia quando William chegou da França há dez séculos: uma fileira de penhascos escorrendo para o mar. Também os campos são redimidos. A rubra mancha de casas de veraneio ao longo da costa é lavada por uma tênue e lúcida laca marrom de vento, na qual elas e seu rubor se afogam. É ainda muito cedo para lâmpadas; e muito cedo para estrelas.

Mas, pensei, há sempre algum sedimento de irritação quando o momento é tão belo quanto agora. Os psicólogos devem saber explicar; olhamos para o alto, somos tomados por uma beleza extravagantemente maior do que poderíamos esperar – há agora nuvens cor-de-rosa sobre Battle; os campos estão mosqueados, marmorizados – nossas percepções se enchem rapidamente como balões expandidos por algum jato de ar, e depois, quando tudo parece ter se enchido e esticado ao máximo, com beleza e beleza e beleza, um alfinete é espetado; tudo se esvazia. Mas o que é o alfinete? Tanto quanto eu possa distinguir, o alfinete tem algo a ver com a nossa própria impotência. Não consigo suportar isso... não consigo expressar isso... sou tomada por isso... sou dominada. Em algum ponto dessa região situava-se nosso descontentamento; e ele estava ligado com a ideia de que nossa natureza exige domínio sobre tudo o que recebe; e o domínio aqui significava capacidade para transmitir o que víamos agora sobre Sussex de maneira que outra pessoa pudesse partilhar disso. E mais, houve outra espetada do alfinete: estávamos desperdiçando nossa oportunidade; pois a beleza se espalhava pela nossa mão direita, pela nossa mão esquerda; pelas nossas costas também; estava escapando o tempo todo; tínhamos a oferecer apenas um dedal para uma enxurrada que podia encher piscinas, lagos.

Mas deixem de lado, disse eu (é bem sabido como, em circunstâncias como essa o eu se divide, e um eu é ávido e insatisfeito, e o outro, rígido e filosófico), deixem de lado essas aspirações impossíveis; contentem-se com a vista à nossa frente, e acreditem quando lhes digo que é melhor sentar-se e encharcar-se; ser passivo; aceitar; e não se incomodar porque a natureza lhes deu seis pequenos canivetes com os quais rasgar o corpo de uma baleia.

Enquanto esses dois eus mantinham, assim, um colóquio sobre o curso sensato a adotar em presença da beleza, eu (uma terceira parte agora se declarava) disse para mim mesma: quão felizes estavam eles em desfrutar de uma ocupação tão simples. Ali se sentavam eles, enquanto o carro seguia a toda velocidade, observando tudo: um monte de feno; um telhado vermelho-ferrugem; uma lagoa; um velho voltando para casa com o saco nas costas; ali se sentavam eles, associando cada cor no céu e na terra à sua paleta de cores, montando pequenos modelos de celeiros e fazendas de Sussex sob a luz vermelha que seria adequada à escuridão de janeiro. Mas quanto a mim, sendo um tanto diferente, sentei-me, distante e melancólica. Enquanto eles estavam assim ocupados, disse para mim mesma: Foi-se, foi-se; acabou, acabou; passou e acabou, passou e acabou. Sinto, no momento mesmo em que a estrada fica para trás, que a vida ficou para trás. Estivemos naquele trecho e já estamos esquecidos. Lá, as janelas se acenderam por um segundo com nossos faróis; a luz agora se apagou. Outros vêm atrás de nós.

Então, de repente, um quarto eu (um eu que está de emboscada, dormente pelo jeito, e salta sobre nós de surpresa. Suas observações, muitas vezes, não têm nenhuma conexão com o que vem acontecendo, mas devem ser consideradas justamente por serem abruptas) disse: “Olhe aquilo”. Era uma luz; brilhante, bizarra; inexplicável. Por um segundo, fui incapaz de nomeá-la. “Uma estrela”; e durante esse segundo ela manteve sua estranha intermitência de algo inesperado e dançou e irradiou. “Sei o que você quer dizer”, disse eu. “Sendo o errático e impulsivo eu que é, você sente que a luz que vem das colinas lá embaixo pende do futuro. Vamos tentar entender isso. Vamos usar a razão. Sinto-me ligada não ao passado mas ao futuro. Imagino Sussex cinco séculos à frente. Imagino que grande parte da vulgaridade terá se evaporado. As coisas terão secado, desaparecido. Haverá portões mágicos. Correntes de ar alimentadas por energia elétrica limparão as casas. Luzes, intensas e com foco firme, cobrirão a terra, cumprindo sua função. Olhem a luz que se move naquela colina; é o farol de um carro. Dia e noite, Sussex estará, em cinco séculos, cheia de pensamentos sedutores, de focos de luz rápidos, eficazes.”

O sol estava agora abaixo do horizonte. A escuridão se espalhava rapidamente. Nenhum dos meus eus podia ver qualquer coisa além da minguada luz de nossos faróis sobre a sebe. Convoquei-os a se reunirem. “Agora”, disse, “chegou a hora de acertarmos as contas. Agora temos que nos recompor; temos que ser um único eu. Nada deve mais ser visto a não ser uma única faixa de estrada e acostamento que nossas luzes refletem sem parar. Estamos perfeitamente abastecidos. Estamos calorosamente enrolados num cobertor; estamos protegidos do vento e da chuva. Estamos sozinhos. Agora é o momento do ajuste de contas. Agora eu, que comando a companhia, vou colocar em ordem os troféus que nós todos colhemos. Vejamos; houve uma boa safra de beleza: fazendas; penhascos se destacando do mar; campos jaspeados; campos sarapintados; céus emplumados de vermelho; tudo isso. Houve também o desaparecimento e a morte do indivíduo. A estrada que desaparecia e a janela iluminaram-se por um segundo e então ficaram escuras. E depois houve a luz súbita e dançante que pendia do futuro. “O que fizemos hoje”, disse eu, “foi isto: a beleza; a morte do indivíduo; e o futuro. Olhem, vou desenhar um pequeno personagem para o deleite de vocês; aqui está ele. Será que esse pequeno personagem que avança pela beleza, pela morte, pelo futuro – econômico, poderoso e eficiente quando as casas serão saneadas por um sopro de vento quente lhes agrada? Olhem para ele; ali em cima do meu joelho.” Sentamo-nos e olhamos para o personagem que fizemos naquele dia. Estava rodeado por íngremes maciços rochosos cobertos de cerradas florestas. Ela ficou, por um segundo, muito, muito solene. Na verdade, era como se a realidade das coisas estivessem expostas sobre o cobertor. Como que atingidos por uma descarga elétrica, fomos sacudidos por um tremor violento. Exclamamos juntos: “Sim, sim”, como que afirmando alguma coisa, num momento de reconhecimento.

E então o corpo que tinha ficado silencioso até agora começou sua canção, quase, no início, tão baixo quando o sussurro das rodas: “Ovos e bacon; torradas e chá; lareira e um banho; lebre cozida em fogo lento”, e continuou: “e geleia de frutas vermelhas; um cálice de vinho; com café em seguida, com café em seguida – e depois para a cama; e depois para a cama”.

“Fora daqui!”, disse para meus eus ali reunidos. “A tarefa de vocês terminou. Estão dispensados. Boa noite.”

E o resto da viagem se passou na deliciosa companhia de meu próprio corpo.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"

Força da alma


Livros não são objetos mortos. Contêm uma potência de vida tão vibrante quanto a alma que os criou 
Dorrit Harazim

A grande guerra

As árvores sempre amaram os homens, desde o princípio dos tempos. Confessam este amor sem parar, as horas todas do dia. Mesmo quando a luz se retira e elas desaparecem de nossa vista, continuam a dizer que nos amam, fazendo perfume para a nossa noite e música para os nossos sonhos.

Mas as árvores não são apenas os maiores artistas que existem; são também os mais sábios cientistas. Se a gente lotasse o Mineirão de cientistas, os cem mil sábios ali reunidos saberiam muito menos do que uma árvore. E a mais profunda e indispensável ciência da árvore é transformar veneno em ar puro.

Muito poucos homens, por incrível que pareça, entendem a língua das árvores. Um em mil? Talvez nem isso. Um dia, por causa dessa ignorância, reunidos numa sala fechada, os homens declararam guerra às árvores.

Observados hoje, depois que tudo aconteceu, os motivos alegados parecem ridículos. Há árvores demais no mundo, diziam. – Já começam a invadir as nossas terras. – Melhor enfrenta-las e transformá-las em objetos úteis: casas, móveis, navios, lenha. – Não podemos é permanecer de braços cruzados. – O progresso exige que acabemos com as árvores.

Argumentos, de fato, ridículos; mas os argumentos a favor de todas as outras guerras são muito parecidos, depois de vistos (como se diz) à luz da história.


Foram mobilizados facões, machados, serrotes. O mais terrível guerreiro era um que ama o combate por si mesmo, capaz de lutar indiferentemente pelo bem ou pelo mal, capaz de cozinhar para o homem, sem que esse gesto simpático signifique bondade; em outra oportunidade, esse mesmo guerreiro poderá destruir sem remorso a humanidade inteira. Seu nome é Fogo.

E a guerra começou. As árvores, que também não entendem a língua dos homens, apesar de amá-los, continuaram em paz, a fazer o que sempre fazem: sombra, flores, frutos, desenhos, poesia. E a transformar veneno em oxigênio.

Foi uma guerra feia e covarde. Todos os homens, quase todos (com exceção das pessoas de ouvido fino, que entendem a língua dos vegetais), entraram na luta de extermínio. Quem não pertencia a um exército regular, punha o machado no ombro e saia de manhã para brigar sozinho. Os mais humildes, que nem dispunham de machadinha, armavam-se de fósforo ou isqueiro. Até as crianças, as mais assanhadas e menos inteligentes, participavam da guerra, e da maneira mais diabólica: construíam balões que, levados pelo vento, causavam perdas incalculáveis ao doce e inocente inimigo.

Essa guerra foi iniciada na era da civilização, há algumas centenas de anos, quando o homem aprendeu a fazer navios ligeiros, pontes sólidas, casas confortáveis e catedrais belíssimas.
Foi iniciada e jamais teve trégua, prosseguindo até o dia de hoje, auxiliada agora pelas armas modernas, como a serra elétrica e o trator.

Desarmadas, ou armadas apenas de boa vontade, as árvores opuseram uma única resistência: foram criando outras árvores, tantas quanto podiam no furor da batalha, na esperança de que, findas as hostilidades, outras plantas crescessem e continuassem a fazer oxigênio, sombra, flores, frutos, perfume, desenhos e poesia.

Mas acontece o seguinte: como imensas florestas já tombaram na luta, dando lugar a amplidões estéreis, o número de árvores em nosso tempo é insignificante. O número de homens, pelo contrário, tornou-se (como dizem) uma verdadeira explosão.

Assim, para dizer tudo em poucas palavras, a vitória dos homens contra as árvores está muito próxima. No ritmo que vamos, em pouco tempo não ficará uma floresta em pé.

Há um único problema: estamos enfrentando agora novos inimigos, aqueles que aparecem quando as árvores morrem: os riachos e os rios estão secando-se de sede, atormentando os homens; os temporais adoidados destroem as plantações, atormentando os homens; os animais desaparecem, atormentando os homens; a terra arrebenta-se e não presta mais para nada, atormentando os homens; o sol queima as sementeiras e castiga toda a criação, atormentando os homens. Em vez de dar música nas ramagens, a ventania dá vento; em lugar de perfume, aspiramos o fumo das máquinas; em troca de poesia, vamos entrando cada vez mais por uma paisagem sem flores, sem pássaros, sem verde. E já estamos sentindo falta de ar.

Superpovoada de homens e despovoada de árvores, a própria Terra, a única que possuímos, chega ao fim e aos poucos morre.

Resultado final: as árvores perdem a guerra e os homens ganham o inferno.

Paulo Mendes Campos, "Os bares morrem numa quarta-feira"

segunda-feira, março 20

Trem da alegria

 


O gato e o sofá

Depois que o gato morreu e o sol que toda tarde vinha brincar com ele na sala deixou de vir, o sofá definhou por algum tempo ainda e um dia se foi também, levado por um belchior pedincheiro.

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Fui tão triste quanto pude. Pude pouco. Minha tristeza bastou ao homem, mas foi insuficiente para o poeta.

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Quem diz que sou bem-humorado e me felicita por isso não imagina quanto me custam os sorrisos e como me sinto falso depois de cada um deles.

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Sou indigno de minha tristeza. Se a exprimisse, vocês deveriam estar chorando. Vocês estão?

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Se eu fosse resumir o que andei fazendo na vida, não precisaria usar mais do que um verbo – escrever – e alguns advérbios: muito, pouco, bem, mal, apaixonadamente, desesperançadamente.

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Sou o que de mim fizeram os sonhos da juventude. Falharam os promissores e também os que não eram.

***

Um dia, o menino acordou sentindo-se esquisito. Era como se durante a noite houvesse envelhecido alguns anos. Tossiu uma tosse seca e, tomado por um mau pressentimento, pegou embaixo da cama a caixinha em que guardava seus tesouros. Abriu-a. Tinham sumido todos os seus domingos.

***

Ontem fui um casarão onde brincavam meninos, onde cantavam meninas. Nem sei onde agora estão, sou hoje todo ruínas.

***

Não sou nada além de um homem comum, um desses que a glória não coroa, nem a história. Que a vida e o tédio consomem.

Efeitos da leitura e da vida

Quando leio um livro tenho a impressão de lê-lo somente com os olhos, mas de vez em quando deparo com trecho, talvez apenas uma frase, que tem uma significação para mim, e ele torna-se parte de mim; tirei do livro tudo o que me é de alguma utilidade, e não posso extrair mais, ainda que o releia uma dúzia de vezes.

Veja, parece-me que cada um de nós se assemelha a um botão de flor fechado, e a maior parte do que lê e faz não faz efeito nenhum; mas há certas coisas que têm uma significação particular para a gente, e elas abrem uma pétala; e as pétalas abrem uma por uma, e no final a flor está aí.
W. Somerset Maugham 

Os meus mortos

Durante grande parte da nossa vida, a morte é uma coisa alheia e distante que só vaga e incertamente nos diz respeito. Até que, um dia, damos subitamente com ela à porta da nossa própria casa e descobrimos então que sempre ali esteve.


Quando somos jovens e morrem os avós, ou os pais, ou os amigos dos pais, não é ainda a morte. Mesmo se um amigo morre, morre por acidente, morre por acaso, morre antes do tempo de morrer. A morte apenas começa a ter um rosto, o nosso rosto, quando, à volta, os amigos morrem tão-só de morrer e os motivos por que morrem são uma explicação, não uma razão. A mãe de minha mulher costumava dizer: «Os meus mortos...», e eu não compreendia. Hoje, porém, também eu tenho mortos. Quando o Chico morreu escrevi um poema a que pus o título de «O mundo sem o Chico», porque, descobri, a sua morte tinha levado o mundo consigo e o que me restava era um outro mundo, desconhecido e desabrigado, onde penosamente aprendia a viver outra vida, a minha vida. Depois disso, muitos mais mundos se foram desfazendo diante de mim e, de cada vez, fiquei mais só do lado de cá de qualquer coisa.

Antes de morrer com 16 facadas, numa longínqua auto-estrada da Turquia, Sérgio escreveu-me uma última vez. Uma carta trivial, dizendo coisas triviais sobre coisas triviais, como se não tivesse ainda morrido. A notícia da sua morte chegara, no entanto, primeiro do que a carta. Que podia eu fazer com ela, com a carta, com tanto peso, com tanta desmesura? Também Fernando me escreveu antes de se enforcar. Mandou-me um cheque. Emprestara-lhe em tempos dinheiro e ele esquecera-se de que já mo havia pago e pagava-mo de novo. Que podia eu fazer com um dinheiro tão insustentável como aquele?

E com os seus nomes, que poderei fazer agora com os seus nomes? E que outro nome terão agora o Fernando, o Sérgio, o Chico, o Assis, o Arnaldo, a Marcela, o Luís, o Manuel Hermínio e os outros? Abro a minha agenda telefónica e estão ainda todos paradamente lá, os nomes que um dia tiveram. Que poderei fazer com eles? Riscá-los? Apagá-los? São agora aparentemente inúteis, esses nomes e esses números. E, contudo, ali permanecem, alguns há vários anos. Porque se trata, cada um, de uma questão comigo mesmo, uma questão insolúvel, ainda não encerrada. Todos os anos copio outra vez os seus nomes. Porque ainda não me conformei. Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o Sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?

Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço.
Manuel António Pina

sexta-feira, março 17

Manhã na praça

 


Tudo aquilo nos aconteceu também a nós

Dostoiewski ou Alexandre Soljenytsine ou
Jorge Semprun sentem uma alegria profunda
ao poderem exprimir (…) o horror do que viveram
nas grandes prisões siberianas do czar ou de Staline
ou em Buchenwald.
Claude Roy, "Défense de littérature"

Há livros que nos marcam para a vida. Falam de mundos muito diferentes daquele em que vivemos mas, estranhamente, falam, sobretudo, de nós e daquilo que nos devora. Falam até mais profundamente de nós do que outros que, aparentemente, nos estão, geográfica e linguisticamente, mais próximos. A Rússia de Tolstoi, por exemplo, é mais a minha casa do que muito romance escrito cá em casa; reconheço-me mais e melhor em certos personagens bizarros de Tcheckov, perdidos e achados na imensidade da estepe russa, do que em tanta ficção artificiosa que lusos confrades ensaiam perpetrar, com olho e destino premeditado em públicos “internacionais”. O Levin da Ana Karenina sou eu, por todos os lados, e também me reconheço, com gratidão, na imensa ansiedade das três irmãs da admirável peça de Tcheckov. Mas revejo-me pouco ou nada, na vasta balbúrdia de personagens e de aforismos sem sentido, que abundam na ficção de Agustina; vivo, todos os dias, com a Senhora de Rênal, na cidadezinha de Verrières – que conheço como os meus dedos – mas sou alheio a tanto personagem luso que fabrica problemas, congemina conflitos e habita lugares que pouco ou nada me dizem. A grande ficção não olha a nacionalidades nem a latitudes, embora possa estar e deva estar ancorada nelas - ela olha apenas à sua própria força de adesão ardente à realidade do universo (às várias realidades do universo). A grande ficção passa o tempo a dizer-nos que aquilo que acontece dentro dela é também o que acontece dentro de nós. Hemingway, que nos legou umas dúzias de notabilíssimas ficções curtas e, pelo menos, duas obras-primas da ficção longa, observou, a este respeito, o seguinte: “Todos os bons livros são semelhantes, na medida em que são mais verdadeiros do que se tivessem realmente acontecido e, depois de os termos acabado de ler, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu a nós e, mais tarde, tudo isso nos pertencerá.” Os grandes livros, por outras palavras, apropriaram-se, antecipadamente, de nós, para que possamos, ulteriormente, apropriarmo-nos nós deles. Somos a substância deles e eles são a nossa substância.

As grandes narrativas dão-nos tudo, mas dão-nos, acima de tudo, uma imensa felicidade: não à custa de serem narrativas com conteúdos felizes, mas pelo simples facto de serem grandes narrativas. Camilo empolga-nos e, mesmo debitando infortúnios e tragédias, propicia-nos o gosto, o prazer, a felicidade suprema de narrar: de narrar, com eficácia e esbelteza. E é essa felicidade, mais do que a agonia dos protagonistas da narrativa, que nos contamina. Há, no Simão e na Teresa, do Amor de Perdição, um longo percurso de agonia e desespero, mas a agonia deles, como personagens, é a minha alegria de leitor empolgado pela narrativa do sofrimento deles: é esse sofrimento que, pela eficácia e grandeza do narrar, alimenta o meu prazer de leitor. Mas o que acima digo implica claramente que a narrativa fluente não se limita a curar o leitor, dos infortúnios narrados. A felicidade de narrar começa por atingir, em primeiro lugar, o próprio narrador de desgraças alheias ou suas. Isto é, se formos nós os narradores de desgraças nossas, o fenómeno é idêntico: as narrativas que fabricamos dos nossos desencontros, conflitos e mazelas podem, pelo simples facto de as consumarmos, como narrativas, ser portadoras de apaziguamento e felicidade. Observava Montherlant que, escrevendo sobre os nossos infortúnios, sofremos, não sofrendo. O grande escritor francês Claude Roy, belo romancista e supremo diarista e ensaísta, formula isto mesmo, em termos inesquecíveis: “Quer se trate do infortúnio dos outros, quer do nosso, sabemos muito bem, quando pegamos na caneta para o exprimir, que o primeiro resultado disso é tornarmo-nos imediatamente menos infelizes. Basta olhar para um escritor em acto de escrever uma cena absolutamente dilacerante e atroz, para termos o espectáculo de um homem já apaziguado, reconciliado e quase sereno. (Talvez não propriamente feliz, mas melhor do que isso). Quanto à gente do teatro, encenadores, actores, decoradores, maquinistas, electricistas, tiram a maior satisfação por terem de representar o sofrimento de Édipo, cego, sangrando dos olhos e da alma, de Lear, esmagado, de Augusto Geai [personagem de uma peça de Armando Gatti], caceteado e moribundo. Há”, continua Claude Roy, “no exercício da sua arte, do seu ofício, um lado físico, uma mobilização de todo o corpo e espírito, que os torna mais contentes do que o escritor, confinado à sua mesa de trabalho e que se não pode libertar fisicamente a não ser por pequenas sacudidelas da caneta no papel (…)."

Contei já, noutros lugares, a história verdadeira do viajante que passou, casualmente, à porta de casa do grande romancista inglês, Thomas Hardy. Resolveu aproveitar a oportunidade para, sendo seu antigo admirador, o cumprimentar. Abriu a porta da residência a mulher do romancista, que, ao ouvir o desejo do viajante, lhe disse, redondamente, que não ia ser possível facultar-lhe a visita: o marido encontrava-se, naquele momento, fechado no seu escritório, a escrever um poema extremamente sombrio e isso estava a dar-lhe tanta satisfação, que, por nada, iria interrompê-lo. Por outras palavras, a sombra trágica do poema não ofuscava a alegria de o escrever.

Todas as grandes criações literárias fizeram esta dádiva de felicidade, aos seus autores, mesmo que devorados de solidão e desespero. Proust testemunhou-o com invulgar eloquência e meditou, à sua maneira e com argumentos próprios, sobre este fenómeno paradoxal, ao longo da fabricação da sua monumental Recherche. É, contraditoriamente, curioso que Marcel Proust achasse , um pouco exagerada, a maciça “alegria” orquestral da música com que Wagner assaltava e inundava o infortúnio trágico dos seus personagens: “Nele [Wagner], seja qual for a tristeza do poeta, ela é consolada, ultrapassada (…) pela alegria do fabricante”, observa o autor da Recherche, aprovativamente, não obstante fazer reserva do exagero wagneriano. Seja como for, a obra proustiana, como observa o seu perspicaz comentador Edmond Kinds, embora “frequentemente pessimista, não é nunca desesperada; ela domina sempre a decepção que testemunha.” E não resisto a acrescentar estas belas e lúcidas palavras de Edmond Kinds: “Vimos Marcel Proust apaixonado, acima de tudo, pelo conhecimento. A sua dor, como os outros dados da sua experiência, será submetida à hegemonia da inteligência. E essa inteligência, nele, não é um simples instrumento: ela, que denuncia as ilusões da vida, devém, com a arte, uma vingança sobre essa vida – ou um perdão. A arte é uma alegria que dá um sentido à existência; a inteligência serve-se do que a vida lhe dá.” Segundo Proust, então, pela alquimia da arte, o sofrimento transforma-se em “ideias” e estas, sendo os sucedâneos daquele sofrimento, “perdem uma parte da sua acção nociva sobre o nosso coração.” E conclui: “(…) essa mesma transformação liberta, subitamente, a alegria.”

Resumindo e empobrecendo: toda a grande arte é sempre, à partida, uma promessa de felicidade: aquela felicidade que, de outro modo, tanto se nos furta, na vida; mas que prevalece, insisto, na grande arte, mesmo quando esta se alimenta do sofrimento. Parafraseando o título célebre da obra fundamental de Proust, a arte é uma busca da felicidade perdida e, por fim, um reencontro luminoso com ela.

Eugénio Lisboa

Pequenos contos da cidade pequena


I


O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros — relíquia de Vovozinha.
— ... e de melhores dias — suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.
— Anjo, você está cada vez mais aburguesado.
— Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro de mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores — eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III

O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV

Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina — ao contrário de tudo que se esperava dela —, logo ali entre as torres da igreja.

V

Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI

Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.
Mário Quintana, "Caderno H"

quinta-feira, março 16

Rapariga mortal e imortal

Devo dizer, porém, que mais do que duende destruidor de pesadelos, preferiria ser um poeta encantador que resgata as namoradas da cova dos mortos. Se bem que, naquele momento, não houvesse necessidade. A pequena bailarina equilibrista na balaustrada, em vez de cair e de se estraçalhar toda no chão como acontecera com o meu avô, deu um salto elegante, aterrou na varanda e desapareceu para lá da porta envidraçada, fazendo o coração saltar-me, não pela garganta, mas pelos meus olhos enfeitiçados.

De qualquer modo, comecei a preocupar-me com ela. Receava que, embora não tivesse caído naquela altura, isso lhe acontecesse mais tarde; por isso, o tempo para travarmos conhecimento escasseava. Assim, esperei que ela reaparecesse na varanda e, quando isso aconteceu, levantei a mão para lhe acenar, mas fi-lo vagamente, sem energia, para que não me sentisse humilhado caso ela não me respondesse. De facto, não me respondeu, nem nesse dia, nem no seguinte, nem no outro ainda, fosse porque era objectivamente difícil dar-se conta do meu aceno, fosse porque não queria dar-me essa satisfação. Consequentemente, veio-me a ideia de vigiar a porta do prédio dela. Esperava que a menina saísse sozinha e queria aproveitar essa ocasião para nos tornarmos amigos, falar de tudo e nada num italiano bonito, e depois dizer-lhe: sabes que, se caíres lá em baixo, morres? O meu avô morreu assim. Parecia-me necessário dar-lhe aquela informação, para que pudesse decidir, em plena consciência, se devia, ou não, expor-se ao perigo.
Durante dias e dias, dediquei àquele fim as poucas horas em que, depois da escola e a seguir ao almoço, antes de fazer os deveres, andava pela rua a brincar, à pancada com miúdos bem mais selvagens do que eu, ou ocupando-me com coisas perigosas, como fazer reviravoltas agarrado a umas certas barras de ferro. Mas ela nunca apareceu, nem sozinha, nem com os pais. Evidentemente, tinha outros horários, ou então não tive sorte.

De qualquer forma, não me rendi, andava muito agitado naquele período. Tinha na cabeça tantas palavras e tantas fantasias, e umas e outras eram a respeito da menina. Não que houvesse qualquer coerência, as crianças, segundo me parece, não a têm, é uma doença que se contrai com o crescimento. Recordo-me que queria muitas coisas ao mesmo tempo. Queria, por um golpe de sorte, encontrar o apartamento dela no segundo andar, tocar-lhe à porta e dizer ao pai ou à mãe – melhor à mãe, os pais ainda hoje me assustam –, na língua dos livros que lia graças ao professor Benagosti, que mos emprestava: a vossa querida filha, cara senhora, dança maravilhosamente no parapeito da varanda, e é tão bela que não consigo dormir durante a noite, pensando que pode morrer no passeio a sangrar do nariz e da boca como o meu avô pedreiro. Porém, queria também ficar à janela à espera que a menina voltasse a brincar na varanda, para lhe mostrar que eu também sabia correr perigos de morte, passando da janela da casa de banho para a da cozinha, um passo a seguir ao outro, sem nunca olhar para baixo: uma façanha que já tinha conseguido fazer duas vezes – visto que era fácil, pois as janelitas tinham a balaustrada em comum – e que, se ela me tivesse acenado a sua concordância, teria repetido prontamente uma terceira. Queria, por fim, se chegasse a conseguir falar com ela, dizer-lhe – uma palavra puxa a outra – que me tinha apaixonado pela sua bela alma e que o meu amor seria eterno e que, se ela queria mesmo continuar a dançar sobre o parapeito e cair, então, poderia certamente contar comigo, iria pessoalmente buscá-la ao submundo, sem nunca fazer a asneira de me voltar para olhar para ela. Tornar-me um espião, morrer para me mostrar, resgatá-la da terra dos mortos, não eram contradições na minha cabeça, antes me pareciam momentos distintos de uma mesma aventura em que, de um modo ou de outro, eu fazia sempre uma óptima figura.

Entretanto, não só não consegui contatar a menina, como um longo período de chuva me impediu de a admirar enquanto brincava na varanda. Dediquei-me, então, entre uma chuvada e outra, à busca da cova dos mortos, com a intenção de não me deixar apanhar desprevenido por eventos trágicos. Assim que a minha avó me falara disso, fizera logo algumas tentativas, mas sem perder demasiado tempo. Graças aos livros do professor Benagosti, às revistas aos quadradinhos que me comprava a minha mãe e aos filmes que via no cinema Stadio, tinha uma data de papéis a desempenhar – o cobói, o sem família, o grumete, o náufrago, o caçador, o explorador, o cavaleiro errante, Heitor, Ulisses, o tribuno da plebe, só para mencionar alguns – e, por isso, procurar a entrada para a terra dos mortos passou a ser uma actividade secundária. Porém, com a irrupção da menina na minha vida de aventura, empenhei-me ainda mais e tive sorte.

Uma tarde em que – como dizia nervosa a minha avó – mo chiuvéva, mo schiuvéva, mo schizzichiàva e, por isso, não podia afastar-me muito de casa, mas somente dar uma volta com um amigo pelo pátio cheio de nuvens nas poças de água, descobri na terra, depois do grande canteiro das palmeiras, uma pedra retangular que, se me estendesse em cima dela, era bastante mais comprida do que eu e tinha um cadeado enorme e reluzente de chuva. Vi-a e sobressaltei-me, ficando imediatamente gelado, não só por causa do frio húmido que se sentia, mas também de medo.

– Que se passa? – perguntou-me, assustado, o meu amigo, que se chamava Lello, morava na escada B, e de quem eu gostava porque, se não houvesse outros amigos conosco, falava num italiano que se aproximava um pouco do dos livros.

– Está calado.

– Porquê?

– Os mortos ouvem-te.

– Quais mortos?

– Todos.

– Tás a gozar.

– A sério, estão aqui em baixo. Esta é a pedra por onde, se abrirmos o cadeado e a levantarmos, saem os fantasmas.

– Não acredito.

– Toca no cadeado e vais ver o que acontece.

– Não acontece nada.

– Toca-lhe.

O Lello aproximou-se; eu mantive-me afastado. Ajoelhou-se, tocou no cadeado com muito cuidado e viu-se, de repente, um relâmpago, nunca tinha visto tanto brilho, a que se seguiu um trovejar furibundo. Fugi, ele seguiu-me de perto, cinzento de medo.

– Viste? – perguntei, sem fôlego. – Sim.

– Tu irias comigo, lá abaixo?

– Não.

– Que raio de amigo és tu?

– Está lá um cadeado.

– Rebentamos com ele.

– Não se rebentam, os cadeados.

– Dizes isso porque estás cagado de medo. Se não queres vir, levo uma amiga minha que não tem medo de nada.

Estas últimas palavras foram seguidas por algo que me deixou pasmado. O Lello sorriu com malícia e perguntou:

– A milanesa?

Descobri, naquele momento, que a menina dos meus pensamentos e suspiros era chamada daquela forma obscura – a milanesa – e tinha atraído, além da minha atenção, a de muitos outros colegas meus. E não era só isso. Era do domínio público que, quando estava sol, eu ficava a observá-la da janela como um pateta ou passava muito tempo à porta do prédio dela. A sério?

Fechei-me no meu habitual mutismo, mas primeiro atirei-lhe : vafanculostrunznunmeromperocàzz  quando ninguém parecia capaz de compreender o quão especial eu era e que grandes coisas viria a fazer.

Domenico Starnone , "Vida Mortal e Imortal da Rapariga de Milão"

Livra-nos de tempestades

 


Moscas, e teto azul

Amigos dizem-me: pinte o teto de sua cozinha de azul, assim não entrarão moscas.

Desço a escada sonhador e perplexo; será verdade? Quem descobriu que moscas não amam teto azul, esse delicadíssimo segredo da construção civil, fino mergulho na sensibilidade aérea do inseto aborrecido para nós, mas em si mesmo respeitável como todo ser?

Faz o homem sua casa e não quer moscas, pinta de azul seu teto, moscas chegam até a janela, olham lá dentro para cima, pensam: pintou de azul o teto, ele não nos ama, adeus.

A relação mosca-homem é incessante no mundo, tanto que o homem a chama oficialmente Musca domestica, celebrando seu amor à casa do homem, imaginando talvez que não havia moscas antes de haver casas, como certamente não existiam andorinhas sem beirais para viver e fios telefônicos onde se encontrarem as amigas e bater um papo olhando a tarde, uma criança nascida em Brasília que não sair de lá morrerá sem ver andorinhas, triste sina.

Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas têm um enredo íntimo. Estou escrevendo assim à toa e já estou vendo para onde vou indo; comecei a falar de mosca, já passei para andorinhas, o resto é fácil de imaginar, estou pensando nessa andorinha cigana que apareceu na minha varanda e sozinha, sozinha, não fez verão, mas fez uma súbita, ainda úmida, inquietante primavera, com seus ventos e frias luas.

Vai durar? Tenho a secreta certeza de que não, mas me pergunto às vezes, e dirijo aqui esta pergunta aos homens que sabem as coisas, que são os homens poetas: acaso se pode prender mulher como quem prende passarinho na gaiola? Nosso deleite com mulher e passarinho não se estraga assim no seu mais íntimo sentido, que é de ter num instante o que é em si mesmo uma elusiva criatura — a posse do evanescente? Na minha varanda já apareceu canário, até beija-flor, até uma deusa, ó tu, Diana, caçadora de brisas, que presides ao destino das nuvens errantes e das espumas do mar.

Sei como faço: fico sério, trêmulo por dentro, mas dono do mundo e de mim, sentindo na cabeça a leve mão de Deus e o cicio inaudível de Sua voz dizendo: “Eis aí.”

Assim também A ouvirei quando reconhecer que foi a Morte que desceu em minha varanda: “Eis aí.” E me irei, talvez com um pouco de pena de mim, mas sem medo e sem verdadeira tristeza, me irei como se vão as moscas ao recuarem, atônitas, perante o teto azul de uma cozinha.
Rubem Braga, "A traição das elegantes"