terça-feira, julho 11

Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas raízes, nos teus versos. Porquê tantas? É verdade. As terras fronteiriças do Chile infiltraram as suas raízes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida é uma longa peregrinação que anda sempre às voltas, que retorna sempre ao bosque austral, à selva perdida.

Ali, é certo, as grandes árvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furacão, ou queimadas pela neve, ou destruídas pelo incêndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as árvores titânicas: o roble que tomba com estrondo de catástrofe surda, como se batesse com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura. As raízes, porém, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à humidade, aos líquenes, ao aniquilamento progressivo.

Nada mais belo que aquelas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da árvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os músculos profundos do domínio vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: são esculturas da profundidade — obras-primas secretas da natureza.

Certa vez, caminhando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, perto de Osorno, fez-me ele notar que cada ramo se diferenciava do outro, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.

— Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo — dizia-me.

Anos depois, em Roma, Rafael recordou-me aquele passeio e a opulência natural dos nossos bosques. Assim era. Já assim não é. Penso com melancolia nas minhas andanças de menino e de jovem entre Boroa e Carahue, ou em direcção a Toltén, pelos cerros da costa. Quantas descobertas! O garbo da caneleira e a sua fragrância depois da chuva, os líquenes com a barba de Inverno pendendo dos rostos inumeráveis do bosque...

Empurrava as folhas caídas, procurando divisar o relâmpago de alguns coleópteros—os cárabos dourados, que se tinham vestido de furta-cores para dançar um minúsculo bailado sob as raízes.

Ou mais tarde, ao atravessar a cavalo a cordilheira para o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, quando surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta que as nossas montadas, impedia-nos a passagem. Só à força de trabalho de machado foi possível abrir caminho. Aquelas raízes eram como catedrais tombadas — magnitude descoberta que nos impunha a sua grandeza.

Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"

A festa do termômetro quebrado

Sempre foi e será uma festa para mim quando se quebra em casa um termômetro e liberta-se a gota gorda e contida de mercúrio prateado, ali no chão, dando uma pequena corrida e depois imobilizando-se, imune. Tento pegá-la com cuidado, auxiliada pela agudez de uma folha de papel que passa deslizadoramente por baixo dela. Ou dele, o mercúrio. Que não se pode pegar: no momento em que eu penso que o peguei ele se estilhaça mudo nos meus dedos como mudos fogos de artifício, como o que dizem que nos acontece depois da morte – o espírito vivo se espalha em energia solta, pelo ar, pelo cosmo. Que impossibilidade de capturar a gota sensível. Ela simplesmente não deixa e guarda a sua integridade, mesmo quando repartida em inúmeras bolinhas esparsas: mas cada bolinha é um ser à parte, íntegro, separado. Basta porém que eu alcance ligeiramente uma delas e ela é atraída velozmente pela que está próxima e forma um conjunto mais cheio, mais redondo. Sonho tanto hoje que quebrei um termômetro como em criança, sonho com milhares de termômetros quebrados e muito mercúrio denso e lunar e frio se espalhando. E eu a brincar, toda séria e concentrada em alto grau, a brincar com a matéria viva de uma enorme quantidade do metal de prata. Imagino-me a mergulhar como num banho nesse vasto mercúrio que imagino saído dos termômetros: ao mergulhar milhares de bolas se soltariam, cada uma por si mesma, grossas, impassíveis. O mercúrio é uma substância isenta. Isenta de quê? Nada explico, recuso-me a explicar, recuso-me a ser discursiva: é isento e basta. Parece possuir um frio cérebro que comanda as suas reações. Sinto-me em relação a ele como se eu o amasse e ele nada sentisse por mim, nem sequer uma obediência de objeto. O mercúrio é um objeto que tem vida própria. Lidar com ele é uma experiência não substituível por outra qualquer. Ele não se cede a ninguém. E ninguém consegue pôr-lhe a mão. O espírito, através do corpo como meio, não se deixa contaminar pela vida, e esse pequeno e faiscante núcleo é o último reduto do ser humano. As feras também possuem esse núcleo irradiante, tanto que elas se conservam íntegras, indomesticáveis e vitais.
Noto que passei do mercúrio ao mistério das feras. É que o mercúrio – que constitui matéria lunar – faz meditar, leva-me, de uma verdade a outra, até o núcleo de pureza e integridade que está em cada um de nós. Quem? Quem não brincou com o termômetro quebrado?
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

A grande amizade


O que realmente me impressiona é um livro que, quando você termina de ler, deseja que o autor que o escreveu seja um grande amigo seu e que você possa ligar para ele sempre que quiser
J. D. Salinger

Borges no Inferno

Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor.

Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros empilhados até ao teto.
Levantou-se. Endireitou-se com dificuldade, sentindo-se desconfortável dentro do próprio corpo subitamente rejuvenescido (quando morremos reencarnamos jovens e Borges já não se recordava de como isso era). Caminhou devagar entre as bananeiras. Parecia-lhe pouco provável encontrar ali alguém conhecido, ou seja, alguém de quem tivesse lido algo. Ou alguém sobre quem tivesse lido algo. Nesse caso seria alguém um pouco menos conhecido, ou um pouco menos alguém, ou ambas as coisas.

A plantação prolongava-se por toda a eternidade. Uma dúvida começou a atormentá-lo: talvez estivesse, afinal, não no paraíso, mas no inferno. Para onde quer que olhasse só avistava as largas folhas verdes, os pesados cachos amarelos, e sobre essa idêntica paisagem um céu imensamente azul. Borges lamentava a ausência de livros. Se ali ao menos existissem tigres – tigres metafóricos, claro, com um alfabeto secreto gravado nas manchas do dorso –, se houvesse algures um labirinto, ou uma esquina cor-de-rosa (bastava-lhe a esquina), mas não: só avistava bananeiras, bananeiras, ainda bananeiras. Bananeiras a perder de vista.

Percorreu sem cansaço, mas com crescente fastio, a infinita plantação. Era como se andasse em círculos. Era como se não andasse. Fazia-lhe falta a cegueira. Cego, o que não via tinha mais cores do que aquilo – além do mistério, claro. Como é que um homem morre na Suíça e ressuscita para a vida eterna entre bananeiras?

Borges não gostava da América Latina. A Argentina, como se sabe, é um país europeu (ou quase) que por desgraça faz fronteira com o Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai. Para Borges aquele quase foi sempre um espinho cravado no fundo da alma. Isso e a vizinhança. Os índios ainda ele tolerava. Tinham fornecido bons motivos para a literatura e além disso estavam mortos. O pior eram os negros e os mestiços, gente capaz de transformar o grande drama da vida – da vida, meu Deus! – numa festa ruidosa. Borges sentia-se europeu. Gostava de ler os clássicos gregos (gostaria de os ter lido em grego). Gostava do silêncio poderoso das velhas catedrais.

Foi então que a viu. À sua frente uma mulher flutuava, pálida e nua, sobre as bananeiras. A mulher dormia, com o rosto voltado para o sol e as mãos pousadas sobre os seios, e era belíssima, mas isso para Borges não tinha grande importância (a especialidade dele foram sempre os tigres). Horrorizado compreendeu o equívoco.

Deus confundira-o com outro escritor latino-americano. Aquele paraíso fora construído, só podia ter sido construído, a pensar em Gabriel García Márquez.
Jorge Luís Borges sentou-se sobre a terra úmida. Levantou o braço, colheu uma banana, descascou-a e comeu-a. Pensou em Gabriel García Márquez e voltou a experimentar o intolerável tormento da inveja. Um dia o escritor colombiano fechará os olhos, para melhor escutar o rumor longínquo da noite, e quando os reabrir estará deitado de costas sobre o lajedo frio de uma biblioteca.

Caminhará pelos corredores, subirá escadas, atravessará outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e em todos eles encontrará livros, milhares, milhões de livros. Um labirinto infinito, forrado de estantes até ao teto, e nessas estantes todos os livros escritos e por escrever, todas as combinações possíveis de palavras em todas as línguas dos homens.

Jorge Luís Borges descascou outra banana e nesse momento um sorriso – ou algo como um sorriso – iluminou-lhe o rosto.

Começava a adivinhar naquele equívoco cruel um inesperado sentido: sendo certo que o paraíso do outro era agora o inferno dele, então o paraíso dele haveria de ser, certamente, o inferno do outro.

Borges terminou de descascar a banana e comeu-a. Era boa.

Era um bom inferno, aquele.
José Eduardo Agualusa, "Manual prático de levitação - Contos angolanos"

segunda-feira, julho 10

Dicionário

Néctar – Suco doce que muitas flores contêm e que os insetos buscam com avidez.

Pistilo – Órgão feminino da flor, que geralmente ocupa seu centro e contém o rudimento da semente.

Pólen – Pó fecundante, produzido nos estames e contido nas anteras.

Estame – Órgão masculino da flor, composto pelo estilete e pela antera na sua parte inferior em torno do pistilo que, como acima foi dito, é o órgão feminino da flor.

Fecundação – União de dois elementos de geração (masculino e feminino), da qual resulta o fruto fértil.


Rosa – É a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela própria só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é de um mistério feminino, se profundamente aspirada, toca no fundo do coração e deixa o corpo todo perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. Suas pétalas têm um gosto bom na boca, é só experimentar. As vermelhas ou as príncipe negro são de grande sensualidade. As amarelas dão um alarme alegre. As brancas são a paz. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são sexualmente atraentes.

Cravo – Tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão de criança defunta; seu cheiro então se torna pungente.

Girassol – É o grande filho do Sol, tanto que já nasce com o instinto de virar sua enorme corola para o lado de sua mãe. Não importa se o Sol é pai ou mãe, não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho masculina. Mas uma coisa é certa; o girassol é russo, provavelmente ucraniano.

Violeta – É introvertida, sua introspecção é profunda. Ela não se esconde, como dizem, por modéstia. Ela se esconde para poder entender o seu próprio segredo. O seu perfume é uma glória mas que exige da pessoa uma busca: seu perfume diz o que não se pode dizer. Um ramo de violetas equivale a “ama os outros como a ti mesmo”.

Sempre-viva – É uma sempre morta. Sua secura tende à eternidade. Seu nome em grego quer dizer sol de ouro.

Margarida – É uma flor alegrezinha. É simples: só tem uma camada de pétalas. Seu centro amarelo é uma brincadeira infantil.

Palma – Não tem perfume. Ela se dá altivamente – pois é altiva – em forma e cor. É francamente masculina.

Orquídea – É formosa, é exquise e antipática. Não é espontânea. Ela quer redoma. Mas é uma mulher esplendorosa, isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre; é epífita, isto é, nasce sobre outra planta sem contudo tirar dela a sua nutrição. Minto: adoro orquídeas.

Tulipa – Só é tulipa quando em largo campo coberto delas, como na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é.

Florzinha dos trigais – Só dá no meio do trigo. Tem na sua humildade a ousadia de se mostrar em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Na Espanha é usada para enfeitar os presépios, junto a ramos de trigo, do qual jamais se separa.

Angélica – Tem um perfume de capela. Traz êxtase místico. Lembra a hóstia.
Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o seu perfume intenso e sagrado.

Jasmim – É dos namorados: eles andam de mãos dadas balançando os braços, e se dão beijinhos suaves, eu diria ao som odorante do jasmim.

Estrelícia – É masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e, como o galo, tem o seu canto, só que não espera pela aurora – quando se a vê realmente, ela dá o seu grito visual de saudação ao mundo, que este é sempre nascido.

Azaleia – Há quem a chame de azaléa, mas prefiro mesmo azaleia. É espiritual e leve; é uma flor feliz e que dá felicidade. Ela é humildemente bela. As pessoas que se chamam Azaleia – como minha amiga Azaleia – adquirem as qualidades da flor: é uma alegria pura lidar com elas. Recebi de Azaleia muitas azaleias brancas que perfumaram a sala toda.

Dama-da-noite – Tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora: só sai à noite, com seu cheiro embriagador, misterioso, silente. É também das esquinas desertas e em trevas, dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosa.

Flor de cactos – A flor de cactos é suculenta, às vezes grande, cheirosa e de cor brilhante: vermelha, amarela e branca. É a vingança sumarenta que ela faz para a planta desértica: é o esplendor nascendo da esterilidade despótica.

Edelvais – Encontra-se apenas nas grandes alturas, embora nunca acima de 3.400 metros de altitude. Essa Rainha dos Alpes, como também é chamada, é o símbolo da conquista do homem. É branca e lanosa. Raramente atingível: é uma aspiração humana.

Gerânio – Flor de canteiro de janela na Suíça, em São Paulo, no Grajaú. Tem o sarcófilo, isto é, folha suculenta, muito cheiroso.

Vitória-régia – No Jardim Botânico do Rio há enormes, até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, lindas de morrer. Elas são o Brasil grande. Evoluentes: no primeiro dia brancas, depois rosadas ou mesmo avermelhadas. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas, elas dão sombra.

Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

Leitura silenciosa

 


O carnaval e o menino

"No grande teatro da vida / vão levar mais uma vez / a revista colossal: / pierrô, arlequim, colombina / vão a preços populares / repetir o carnaval."

Taí a quadrinha de antigamente, eu era menino e esperava o carnaval com certo temor, medo dos mascarados e, ao mesmo tempo, vontade de ser um deles.

Até que fui – e não apenas durante o carnaval. Grudei na cara várias máscaras – e se não obtive poder e glória, ao menos sobrevivi no meu canto, fazendo um tipo de carnaval a meu modo, véspera de cinzas.

Já encarei de tudo. Desde os retiros espirituais no seminário (segundo as santas regras de Santo Afonso Maria de Ligório), até o retiro forçado na cela da Polícia Especial.

Pierrô, Juan Gris
Também fui a outros folguedos. Para opróbrio dos meus descendentes, saí de morcego assustando outras crianças em Paquetá. Minha mãe havia feito complicada fantasia de chinês (ou japonês, dava na mesma), cuja atração era o chapéu de cartolina, em óbvio feitio de chapéu de chinês.

Tomaram meu silêncio como aprovação. Suei frio ao me imaginar com aquele chapéu, mas aí o meu irmão virou a mesa, ele ia sair de reles marinheiro americano, (não era bem uma fantasia mas um quebra-galho carnavalesco); urinou em cima do meu chapéu chinês.

Não havia tempo para a fabricação de um artefato elaborado como aquele. O pai deu-lhe safanões por conta do chapéu e de outras patifarias genéricas e acumuladas.

Minha mãe foi ao armarinho, comprou pano preto, a horrível máscara que cheirava a papelão e a cola – e assim passei e passeei os três dias pelas ruas cheias de sol de Paquetá, dando susto nas crianças que conhecia e evitando aquelas que não conhecia, podiam ser mais fortes do que eu e aí o sovado seria eu.

Quando a tarde caía, botava a máscara para trás da cabeça, sentindo-me amaldiçoado, perguntando-me sem resposta: quem foi o cretino que inventou essas coisas? Em casa, queriam saber se eu havia gostado. Respondia que sim.

No rádio, tocavam as músicas do ano, o grande teatro da vida, o pierrô, o arlequim, a colombina a preços populares -o pai não achava os preços tão populares assim. E numa madrugada ele me acordou e me levou até a ponte onde chegava a última barca trazendo os escombros, mutilados pedaços de um rancho que voltava do Rio. Os fogos-de-bengala, ainda vivos e esverdeados, iluminavam as espumas que vinham morrer na praia dos Tamoios. As lanternas de vidro colorido refletiam-se nas cabeleiras empoadas dos mestres-salas.

Ao pisar terra firme, o rancho renascia de seu cansaço e se arrastava uma vez mais na marcha-hino que louva a ilha, "Paquetá é um céu profundo / que começa neste mundo / mas não sabe onde acabar". O ritmo era mais lento e as luzes ficavam mais tristes dentro da madrugada. Longe, o faroleiro do Xeréu apagava seu facho vermelho: era outro dia.

Vestia o morcego outra vez, a máscara com cheiro de papelão e cola, e eu sozinho, eu-morcego, batendo as ruas cheias de sol, encontrava outros morcegos, era uma espécie de fantasia oficial dos meninos de Paquetá.

E sentia frio na espinha quando esbarrava com uma caveira, de camisola branca e encardida, a cruz preta nas costas, devia ser um garoto igual a mim, mas nunca se sabe, e esta dúvida me perseguia a tarde inteira, por que botam caveiras nas ruas do carnaval?

E eu não entendia o grande teatro da vida (tampouco o entendo agora) nem o pierrô com seu branco rosto banhado de luar. E quando tirava a máscara, ela estava molhada de suor, um suor tão salgado e meu que parecia lágrima.
Carlos Heitor Cony (Folha SP)

O futebol, essa doença

Era um desses malucos que os compêndios de medicina um dia hão de chamar de futemaníacos ou futefanáticos. Jamais tinha procurado um psicanalista. Se tivesse, descobriria que desde a primeira bola, presente de um tio no seu quinto aniversário, estava condenado. As vidraças partidas, os vidros estilhaçados e as pragas da mãe foram um sinal, mas ele era muito novo para perceber.

Até os catorze anos jogou com os meninos, na rua, e com os colegas de colégio, no pátio. Aos quinze foi fazer teste em um clube, aos dezesseis em outro. Aos dezessete, estava em um time da segunda divisão, aos dezoito em um time da terceira. Aos dezenove, um pontapé no joelho o impediu de seguir o caminho mais que seguro para a quarta divisão. Aos vinte, conseguiu uma vaga de caixa num supermercado e pareceu livre da futemania até os vinte e dois, quando chutou o emprego, usou o dinheiro juntado para dar uma ajeitada no joelho e foi tentar a sorte no futebol de salão. Na quadra, imaginava que poderia correr menos que no campo. Um ano depois, disseram-lhe que não havia lugar para ele nem na reserva.

– É o meu joelho, não é? – ele perguntou.

O técnico, um sessentão simpático, balançou a cabeça:

– Vou lhe dar um conselho, filho. Isto aqui não é pra você. Não é questão de joelho, é de jeito. Nem com dez joelhos você vai ser craque. O craque já é craque na barriga da mãe.

Chegando em casa, ele descarregou sobre a mãe a culpa por seus chutes tortos e suas cabeçadas imperfeitas. Ficou um tempo sem falar com ela e com o pai. Foi surpreendido com um convite para voltar a trabalhar como caixa, no supermercado. Aceitou, mas continuou sonhando com dribles, gols, títulos e fama. Num jogo de casados contra solteiros, numa festinha de funcionários, teve a confirmação de que futebol não era coisa para ele. Começando como centroavante, mostrou-se tão incapaz de superar os barrigudos zagueiros do outro time que foi recuado para a defesa e depois – vergonha das vergonhas – rebaixado para goleiro. Terminada a partida, perguntaram-lhe se tinha sido seu primeiro jogo. Respondeu que não, que era o último.

Nunca mais pôs um calção e poderia até se julgar curado da paixão pela bola, se não virasse o mais enlouquecido dos torcedores. O time com o qual simpatizava desde a infância, mas sem muito entusiasmo, de repente se tornou uma obsessão. Começou a acompanhá-lo com fidelidade canina. Num dos jogos, conheceu uma torcedora tão fanática quanto ele. Oito partidas depois, estavam casados. E, sempre que a televisão precisava de um casal disposto a escancarar a casa e mostrar tapetes com emblema, toalhas com emblema, jarras com emblema e copos com emblema, ia procurar os dois.

Quando a mulher engravidou, até o oitavo mês os dois continuaram indo aos estádios. O filho nasceu e, já na primeira semana, uma equipe de tevê entrou no quarto para mostrar como era: colcha com emblema, travesseiro com emblema, ursinho com emblema, chocalho com emblema. A câmera fixou-se no pai e na mãe, e a apresentadora fez a pergunta:

– Felizes?

– Mais ou menos – responderam marido e mulher, ao mesmo tempo.

– Mais ou menos por quê? É o menininho mais lindo que eu já vi.

– Você acha mesmo?

– Acho, sim.

– Você ficaria com ele este domingo, pra gente poder ir ver o jogo?

A repórter pensou que fosse brincadeira do pai. Quando viu o rosto cheio de ansiedade da mãe, viu que não era.

domingo, julho 9

Leitura com estilo

 


Vozes do deserto

Sentado no chão, com as pernas cruzadas em posição de lótus, prescrita para a leitura do Corão, o ancião profere palavras aos passantes, atraindo-os para a sua sorte. Quase à beira da morte, ele é rijo, chama a atenção de Jasmine.
Ela não sabe o que dizer para atraí-lo. Teme que sua pele trigueira, os cabelos encaracolados, ofendam o homem com lembranças amargas. Seguindo as pautas do coração, ajoelha-se no chão, ao seu lado. Em rigoroso silêncio, dispõe de tempo para ouvi-lo.

O dervixe finge ignorar sua presença, mas, seguindo seu instinto apurado, demonstra conhecer a razão de sua visita. Não faz falta que o menino a seu serviço advirta-o sobre a jovem, para quem suas palavras iriam salgar e dar sabor à sua comida. O que poderia querer dele uma mulher sem liteira ou escravos, a caminhar sozinha pelo bazar?

Com gesto incisivo, insiste que ela lhe fale. Não lhe inflija um silêncio que é prerrogativa sua. Jasmine reconhece que vale capitular mediante a confissão de estar ali com o intuito de cobrar-lhe uma tarefa. Alterna mentiras e verdades até admitir, ao final, ter vindo à cata de peripécias. Carecia de ouvir aventuras que transportar para casa dentro do alforge, como pão fresco. Viera com a ilusão de escutar o que ele diria ao próprio Harum al-Rachid, caso este abássida ainda vivesse.

Jasmine elegera-o entre tantos pobres pela sua cegueira. Nota, de perto, a expressão de cupidez que invade o rosto do velho frente às suas promessas. Aquele homem ama o ouro que as histórias lhe podem trazer. A perda da inocência acrescentara-lhe certa perversão e realismo aos dotes de contador. Para aliciar-lhe, pois, o desejo, a escrava deixa tombar alguns dinares no vasilhame de latão.

O dervixe sobressalta-se ao ruído das moedas tilintando, ainda que não tivesse apurado os ouvidos a tempo de saber o valor da contribuição, quantos pratos de comida aquelas moedas lhe cobririam. Ele recolhe uma moeda e a acaricia com um gozo talvez devido à sua condição de cego. Uma cegueira que lhe viera como castigo. Há muito anos, no deserto, a caminho de Samarra, apostara que poderia afastar-se da caravana sem perigo de perder-se, retornando a ela graças ao talento de farejar o caminho de volta. Sem medir as consequências do acto imprevidente, afastou-se dando risadas. Em pouco tempo, perambulando pelas areias exposto longamente ao sol, gritava pedindo socorro. Sem rumo, com crescente dificuldade de enxergar em torno, não atinava como regressar à caravana. Ao ser recuperado muito depois por uma tribo nómada, tinha perdido a visão. Os olhos, queimados, pareciam uma cratera vazia. Quando o deixaram em Bagdad, onde nunca estivera antes, imergiu na mais profunda miséria.

Interrompeu a sequência dos factos para confessar a Jasmine que, ao descobrir-se cego, chorara, lamuriando-se. Além de ser um homem afundado na absoluta escuridão, era pobre, inculto, despojado do saber existente nos centros de estudos das urbes islâmicas.

No início, confrontado com aquela situação, pensara em matar-se. Imprecara, furioso, contra os homens, não poupando Maomé. Em total desespero, suplicou que o santo homem o dotasse de algum talento capaz de atá-lo de novo à vida. Pois, abandonado à própria sorte, um mendicante a mais entre tantos em Bagdad, custava-lhe entender o que havia por trás do castigo.

Aguardou a primeira semana para o Profeta responder-lhe. Certa manhã, ao despertar, faminto e sujo, aflorou-lhe um ânimo inusitado. De repente, surgiu de dentro dele um homem a quem Maomé, perdoando-lhe as ofensas, oferecia inesperados recursos. Como a capacidade de recuperar detalhes preciosos da realidade circundante, de traduzir enigmas antes insolúveis, de desvendar a natureza secreta dos homens e dos objectos, mesmo não os podendo enxergar, de contar histórias afastando da boca resumos tristes que, apenas iniciados, prontamente se esgotam. Enquanto uma voz dizia-lhe que escutasse sobretudo os uivos imperativos da imaginação. Daí lhe resultando a faculdade de falar por horas sem dar prova de cansaço.

Mas com que história agora cativar uma mulher que lhe pagara antes mesmo de estipular o valor do seu trabalho? Embora seu repertório se tivesse ampliado nos últimos anos, conhecia suas limitações. Frequentemente, devido à sua escassa familiaridade com a Medina, evitava situar seus personagens no califado, não se atrevia a descrever a configuração urbana de Bagdad, que só conhecia por meio de descrições. Em suas histórias, os personagens percorriam apenas as quatro vias básicas, que davam acesso à urbe, a parte leste conhecida como Rusafah, navegando, ainda, até o estuário do rio Tigre.

Ao pagar-lhe bom preço, Jasmine aguardava recompensa. Premido, portanto, por uma curiosidade feminina que lhe cobrava, além de uma história, detalhes anteriores à sua cegueira, o ancião declinou-lhe sua outrora condição de oleiro. Um artesão a reclamar das privações e da argila grudada à pele, custando a sair. Desde a adolescência havendo nele uma amargura que se reflectia na qualidade de seu trabalho. O que o fazia produzir potes, pratos, travessas quebrando-se a qualquer toque, a ponto de já nem conseguir vendê-los. A despeito, no entanto, de talento tão escasso, ele tinha a veleidade de riscar na superfície do barro, à guisa de expressão artística, traços da arte caligráfica, sempre com resultados finais nada tendo a ver com a arte islâmica da escritura.

Não lhe mencionara, porém, que, igual ao oleiro, seu ofício actual, de contador de histórias, obrigava-o a combinar palavras, a incrustá-las no barro da fantasia e levá-las ao forno. Em busca de figuras que, variando de peixe, cavalo, pedras preciosas a silhuetas femininas, ensejassem a criação de símbolos que, sem função aparente, representavam metáforas ou o aprimoramento de experiências místicas, como era o caso dos sufis.

A miséria do dervixe leva-o a deplorar em público o seu destino. Como se, esquecido das graças recebidas, houvesse perdido a fé no Profeta que operara em seu favor. Enquanto falava, quase não se mexia. Com movimentos limitados, no afã de explorar a emoção de Jasmine, passa seguidas vezes o dorso da mão nos olhos queimados pelo sol, atraindo atenção ao centro da sua dor. Reminiscências, porém, que pareciam molestá-lo.

Atenta às comiserações do dervixe, Jasmine controla a sede. Acompanha como cria um quotidiano ao qual ela deve associar-se se quer, de verdade, ouvir suas histórias. Aguarda, pois, que comece o relato. Mas logo diz-lhe que tem pressa, o marido a aguarda em casa. Homem desconfiado, que lhe cobra seguidas provas de fidelidade.

O dervixe, em cujos ouvidos ainda ecoa o ruído das peças de ouro caindo no vasilhame de latão, respira fundo, na expectativa de outras moedas lhe fartarem o estômago. Começa a contar, a voz soa-lhe aguda, não é o timbre desejado. Abranda o tom, o momento requer sussurro. Seu escopo é chegar ao fim e corresponder ao pagamento que Jasmine efetuara.
Nélida Piñon

Ler na cama

Pergunta-se muito às pessoas “qual é o seu livro de cabeceira”, supondo com isto que cada pessoa mantém um livro junto à cama para se aconselhar naquele aconchego de pré-dormida, ou durante as horas de insônia.

Livro de cabeceira implica livro favorito, livro companheiro-de-todas-as-horas, mas que, como qualquer companhia de todas as horas, ganha uma importância especial nas horas em que tudo está bem, tudo está em paz, a família ressona, a cidade descansa, as contas estão pagas, “governo e oposição estão sem assunto” (como dizia Guilherme de Figueiredo), o mundo inteiro está adormecido... e para acontecer o “plin!” da perfeição a gente precisa apenas estender o braço, e apanhar o Livro de Cabeceira. Qual é o seu?

Eu não tenho, ou melhor, tenho junto da minha cama um movelzinho de madeira com duas fileiras de volumes. A última vez que contei, eram vinte e sete.

Ali tem principalmente livros recentes que ainda estão sendo examinados pra ver se dão um caldo, livros de amigos, livros divididos em unidades menores (poesia, contos, artigos, variedades, fragmentos) que vou lendo ao ritmo de uma unidade por semana.

Não existe O Livro Especial, e muitos que ali estão são livros de releitura, volumes de contos ou de poemas que já li dez vezes, mas a última delas foi quinze anos atrás. Em verdade vos digo: a gente só pode dizer que conhece um livro quando o lê pelo menos duas vezes.

O “pobrema” de ler na cama não é mental nem bibliográfico, é físico. Primeiro, a posição. Tudo que a Inquisição Espanhola vem fazendo à minha coluna nos últimos vinte anos não se deve às minhas piadinhas de herege, e sim ao costume de ler deitado.

Os médicos já insistiram: “Ponha travesseiros, sente em forma de L (tronco ereto, pernas esticadas). Não leia na horizontal com os travesseiros forçando seu pescoço para cima”. Disseram, mas não adiantou, foi como se eu telegrafasse hoje para John Lennon pedindo-lhe que não desse autógrafo a ninguém quando chegasse em casa tarde da noite.

E aqui pra nós, é uma coisa fisicamente absurda o camarada pretender ler deitado, com os dois braços tendo que manter o livro erguido no ar, com a luz do teto incidindo nos olhos e a página sendo mantida na sombra. Em casa a gente se vira, mas 99% dos hotéis brasileiros tratam seus hóspedes como indivíduos avessos à leitura: não há um mísero quebra-luz pra clarear o livro.

Sem contar o maior problema de todos, resumido por Millôr Fernandes num versinho que trago decorado desde a infância:

Ler na cama
é uma difícil operação.
Me viro e me reviro
e não encontro posição.
Mas, se afinal encontro um cômodo abandono...
pego no sono.

sábado, julho 8

Bom passeio

 


A escola da Vila

Para quem já tivesse visto o mundo, a Vila do Coroatá devia ser feia, atrasada e pobre. Mas, para mim, que tinha vindo da pequenice do povoado, foi um verdadeiro deslumbramento.

As quatro ou cinco ruas, com a maioria de casas de telha; os três ou quatro sobradinhos; as casas comerciais sempre cheias de mercadorias e de gente; as missas aos domingos; a banda de música de dez figuras; as procissões, de raro em raro, eram novidades que me deixaram maravilhado.

A igreja acanhadinha e velha, onde os morcegos voejavam, tinha aos meus olhos um esplendor estonteante.

A Casa da Câmara, acaçapada e pesadona, com o vasto salão onde, às vezes, se realizavam festas, parecia-me um palácio.


O que mais me encantou foi a escola.

Quando chegamos à vila, já haviam acabado as férias. Durante os quinze dias em que fiquei em casa curando-se das febres, eu via, da janela, as crianças passarem em grandes bandos, à hora em que terminavam as aulas. A vontade de ficar bom para misturar-me com aquela meninada alegre apressou a minha cura.

A escola funcionava num velho casarão de vastas salas, que devia ter mais de meio século.

Quando lá entrei, no primeiro dia, levado pela mão de meu pai, senti no peito o coração bater jubilosamente.

Dona Janoca, a diretora, recebeu-me com o carinho com que se recebe um filho. Os meninos e as meninas, que me viram chegar, olharam-se risonhamente, como se já houvessem brincado comigo.

Eu que vinha do duro rigor da escola do povoado, de alunos tristes e de professor carrancudo, tive um imenso consolo na alma.

A escola da Vila era diferente da escolinha da povoação como o dia o é da noite.
Dona Janoca tinha vindo da capital, onde aprendera a ensinar crianças.

Era uma senhora de trinta e cinco anos, cheia de corpo, simpática, dessas simpatias que nos invadem o coração sem pedir licença.

Havia nas suas maneiras suaves um quê de tanta ternura que nós, às vezes, a julgávamos nossa mãe.

A sua voz era doce, dessas vozes que nunca se alteram e que mais doces se tornam quando fazem alguma censura.

Mostrava, sem querer, um grande entusiasmo pela profissão de educadora: ensinava meninos porque isso constituía o prazer de sua vida.

Se um aluno adoecia, ela, apesar dos afazeres, encontrava tempo pra lhe levar uma fruta, um biscoito, um remédio.

Vivia arranjando livros, papel e lápis nas casas comerciais para os meninos paupérrimos. Se um pai se recusava a mandar o filho à escola corria a convencê-lo de que o pequeno nada seria na vida se não tivesse instrução.

Quando chegou da capital para dirigir o grupo escolar da vila, o prédio em que as aulas funcionavam estava em ruinas e o mobiliário, de tão velho e maltratado, já não servia para nada.

Era preciso dar àquilo um jeito de coisa decente. Mas não havia vintém.
Ela trazia, como auxiliares, as suas irmãs Rosinha e Neném, ambas moças.

E as três deixavam o povo surpreendido: saíram de casa em casa a pedir auxílio para as obras, fizeram rifas, organizaram festas, leilões, bazares de sorte, tudo enfim que pudesse render dinheiro.

E a vila, cochilona e desacostumada a novidades, viu, com pasmo, dona Janoca e as irmãs, de brocha e pincel nas mãos, caiando e pintando paredes.
E a velha casa, de mais de meio século, ressuscitou maravilhosamente, como os palácios surgem nos contos de fada.

Os salões, amplos e claros, abriam-se de um lado e de outro do vasto corredor, com filas de carteiras escolares, vasos de plantas, aqui e ali, e jarras de flores sobre as mesas.

As paredes, por si sós, faziam as delícias da pequenada. De alto a baixo uma infinidade de quadros, bandeiras, mapas, fotografias, figuras recortadas de revistas, retratos de grandes homens, coleções de insetos, vistas de cidades, cantos e cantinhos do Brasil e do mundo.

E tudo aquilo me encantava de tal maneira que eu, às vezes, deixava de brincar todo o tempo do recreio para ficar revendo paisagem por paisagem, mapa por mapa, figurinha por figurinha.
Viriato Corrêa. "Cazuza"

Os objetos

No dia de seu aniversário de vinte anos, alguém deu de presente a Camila Ersky uma pulseira de ouro com uma rosa de rubi. Era uma relíquia de família. Ela gostava da pulseira e só a usava em determinadas ocasiões, quando ia a algum encontro ou ao teatro, a alguma sessão de gala. Quando a perdeu, no entanto, não dividiu com o resto da família o luto de sua perda. Para ela, os objetos pareciam substituíveis, por mais valiosos que fossem. Apreciava apenas as pessoas, os canários que enfeitavam sua casa e seus cachorros. Ao longo da vida, acho que só chorou pelo desaparecimento de uma corrente de prata, com uma medalha de Nossa Senhora de Luján, banhada em ouro, presente de um de seus namorados. A ideia de ir perdendo as coisas, essas coisas que fatalmente perdemos, não a fazia sofrer como fazia o resto de sua família ou suas amigas, todas tão vaidosas. Foi sem lágrimas que viu a casa onde tinha nascido ser despojada, uma vez por um incêndio, outra, pelo empobrecimento, ardente como um incêndio, de seus adornos mais estimados (quadros, mesas, consoles, biombos, vasos, estátuas de bronze, ventiladores, anjinhos de mármore, dançarinos de porcelana, frascos de perfume em forma de flor de rabanete, cristaleiras inteiras com miniaturas repletas de cachos e barba), às vezes horríveis, mas valiosos. Suspeito que sua conformidade não era um sinal de indiferença e que ela pressentia, com certo mal-estar, que um dia os objetos tirariam dela algo muito precioso: sua juventude. Talvez agradassem mais a ela que às demais pessoas que choravam ao perdê-los. Às vezes os via. Chegavam a visitá-la, como pessoas em procissão, sobretudo à noite, quando estava para dormir, quando viajava de trem ou de carro, ou até mesmo em seu caminho diário para o trabalho. Por vezes a importunavam como se fossem insetos: ela queria espantá-los, pensar em outras coisas. Com frequência, por falta de imaginação, ela os descrevia aos filhos, nas histórias que contava a eles para distraí-los enquanto comiam. Não acrescentava aos objetos nem brilho, nem beleza, nem mistério: não era necessário.

Numa tarde de inverno, voltando dos afazeres pelas ruas da cidade, ao cruzar uma praça parou em um banco para descansar. Por que imaginar apenas Buenos Aires? Há outras cidades com praças. Uma luz crepuscular banhava os galhos das árvores, as veredas, as casas que a rodeavam; aquela luz que às vezes amplia a agudeza do contentamento. Olhou para o céu por bastante tempo, acariciando suas luvas de pelica malhada; em seguida, atraída por algo que brilhava no chão, baixou os olhos e viu, depois de um instante, a pulseira que tinha perdido fazia mais de quinze anos. Com a emoção de um santo diante do primeiro milagre, recolheu o objeto. A noite caiu antes que resolvesse, como outrora, colocar a pulseira no pulso de seu braço esquerdo.

Quando chegou em casa, depois de ter olhado seu braço para se assegurar de que a pulseira não tinha se desvanecido, deu a notícia aos filhos, que nem por isso interromperam as brincadeiras, e ao marido, que a olhou desconfiado, sem interromper a leitura do jornal. Por muitos dias, apesar da indiferença dos filhos e da desconfiança do marido, despertava nela a alegria de ter encontrado a pulseira. As únicas pessoas que teriam se assombrado devidamente já tinham morrido.

Começou a recordar com mais precisão os objetos que tinham povoado sua vida; lembrou deles com saudade, com uma ansiedade desconhecida. Como em um inventário, seguindo uma ordem cronológica invertida, apareceram em sua memória a pomba de quartzo com o bico e a asa quebrados; a bomboneira em forma de piano; a estátua de bronze, que segurava uma tocha com pequenas lâmpadas; o relógio de bronze; a almofada marmórea, com borlas e listras azul-claras; os binóculos de ópera com cabo de madrepérola; a xícara de chá com inscrições e os macacos de marfim, com cestinhas cheias de macaquinhos.

Da forma mais natural para ela, e mais inacreditável para nós, foi recuperando pouco a pouco os objetos que durante muito tempo tinham morado em sua memória.

Simultaneamente percebeu que a felicidade que tinha sentido no começo se transformou em mal-estar, em temor, em preocupação.

Quase não olhava mais para as coisas, com medo de descobrir um objeto perdido.
Enquanto Camila, inquieta, tentava pensar em outras coisas, os objetos apareciam, nos mercados, nas lojas, nos hotéis, em todo canto, da estátua de bronze com a tocha que iluminava a entrada da casa ao pingente de coração atravessado por uma flecha. A boneca cigana e o caleidoscópio foram os últimos.

Onde encontrou esses brinquedos que eram parte de sua infância? Tenho vergonha de contar, porque vocês, leitores, vão pensar que quero apenas assustá-los e que não falo a verdade. Pensarão que os brinquedos eram outros, parecidos com os originais, e não os mesmos; que claro que não existe apenas uma boneca cigana no mundo, nem apenas um caleidoscópio. Mas o destino quis que o braço da boneca tivesse uma borboleta desenhada em nanquim e que o caleidoscópio tivesse, sobre o tubo de cobre, o nome de Camila Ersky gravado.
Não fosse tão patética, essa história seria tediosa. Se não parece patética a vocês, leitores, ao menos é curta, e contá-la me servirá de exercício. Nos camarins dos teatros que Camila costumava frequentar, ela encontrou os brinquedos que, por uma série de coincidências, pertenciam à filha de uma bailarina; a menina insistiu em trocá-los por um urso mecânico e um circo de plástico. Camila voltou para casa com os velhos brinquedos embrulhados em folhas de jornal. Ao longo do trajeto, diversas vezes quis deixar o pacote no descanso de uma escada ou na soleira de alguma porta.

Não havia ninguém em casa. Ela escancarou a janela, inspirou o ar da tarde. Então viu os objetos alinhados contra a parede do quarto, como tinha sonhado que os veria. Ajoelhou-se para acariciá-los. Perdeu a noção do dia e da noite. Observou que os objetos tinham caras, essas caras horríveis que ganham quando os olhamos por um tempo longo demais.

Através de uma fileira de glórias, Camila Ers
ky tinha por fim entrado no inferno.
Silvina Ocampo, "A fúria"

sexta-feira, julho 7

Leitura com companhia

 


O relógio

Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas… De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio… De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: “Tempus fugit”. E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes húmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar “dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola” de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência… O relógio batera aquelas horas – e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tomava num pedido de socorro: “Não quero morrer… “Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda – (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) – subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir… Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam. O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. “Tempus fugit”. O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir… Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do “Tempus fugit” pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada.

Tenho saudades dele. Por sua tranquila honestidade, repetindo sempre, incansável, “Tempus fugit”. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: “Estou atrasado, estou atrasado…”.

Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de São Silvestre?

Correr para chegar, aonde?

Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão.

O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: “Tempus fugit”.

E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o ruído tranquilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões…

Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: “Estou atrasado, estou atrasado…”.

Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria:

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…
Rubem Alves. "Tempus fugit"

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Rubem Braga, "A Traição das Elegantes"

quinta-feira, julho 6

Leitor na ioga

 


O álbum

Todos os anos, a 31 de dezembro, a família se reunia para contar os sobreviventes e fazer o cômputo dos recém-nascidos. Pois bem, naquele ano morrera o Tio Hipólito, meio gira, mas divertido, e que tinha o apelido de “Que barulho é esse na escada?”, frase que a toda hora berrava do alto do sótão onde morava e onde recortava meticulosamente, a tesoura, de revistas e jornais velhos, figurinhas, estampas e textos, num álbum que não mostrava a ninguém neste mundo, nem no outro, se para lá o pudesse levar. Afinal, para que possuirmos álbuns ou colecionarmos coisas, se depois hão de cair nas mãos de herdeiros ignaros e irreverentes, que as venderão por atacado ou as relegarão para a ignomínia dos porões escuros, onde ficarão mofando como trastes... essas queridas coisas para sempre impregnadas da nossa alma e do nosso carinho?

Pois foi a alma de Tio Hipólito que seus sobrinhos dilaceraram literalmente naquele ano, ao deparar entre guinchos irreprimíveis, logo à primeira página do livro secreto, com o belo retrato do Vovô Humphreys, o da homeopatia, seguindo-se-lhe a curiosa radiografia de uma mão atravessada por uma agulha e mais um recorte com a seguinte trova portuguesa:

“Quando eu era rapariga,
Minha mãe recomendou:
Minha filha, não te cases,
Que tua mãe nunca casou.”

Embora não fosse eu da família, mas simplesmente acompadrado nela, deram-me o álbum para folhear, o que fiz com a maior seriedade e respeito. Aliás, não podia deixar de admirar o senso artístico com que estavam distribuídos os textos e figuras em cada página. Só estranhei um pouco é que os sonetos do festejado poeta Hermes Fontes aparecessem apenas pela metade e além disso cortados em diagonal — compreendem? — formando um triângulo retângulo no canto inferior direito da página, como que a deter a hábil desordem com que nela se derramavam, digamos, as estampas do “Minas Gerais”, do busto de Alexandre Herculano, das quatro mulheres vocalizantes anunciando, sílaba a sílaba, a Lu-go-li-na, e assim por diante.

Outra coisa que me causou espécie foi que, da “minha” Vênus de Botticelli, apareceu-me unicamente a cabeça decapitada, com aquela cabeleira espantosamente viva e oval angélico de seu rosto inclinado.

Fiquei triste, porque o Nascimento de Vênus é dessas coisas que sempre me fizeram bem aos olhos e portanto à alma. Em compensação, mais adiante, encontrei-lhe o busto e os seios, embaixo da gravura da Primeira Locomotiva. Não pude mais: pus-me a folhear aflitamente o álbum, como quem procura desesperadamente os restos da bem-amada estraçalhada no mais pavoroso desastre do século.

Encontrei-lhe os pés brotando, muito alvos, da larga concha marinha, a qual se equilibrava milagrosamente em cima da calva de um tal de sr. João P. de Souza Filho, natural de Cataguases, antes de usar Tricomicina. Na página 27 encontrei a suave curva dos quadris, o ventre... Estava enquadrada entre duas colunas com os sucessivos instantâneos da queda de um gato, animal que, como se sabe, sempre cai de pé. Eu é que quase caí sentado quando, depois de percorrido todo o álbum, achados os braços, as mãos, os “joelhos sem joelheiras”, o resto, só não pude encontrar o baixo-ventre...

Fiquei horrorizado como quando Jack, o Estripador, andava às soltas em Londres; indaguei, pálido:

— Esse Tio Hipólito era mesmo um homem muito solitário, não?

— Sim — cacarejou, com um súbito rancor na voz esganiçada, uma das três sobrinhas solteironas —, comia no quarto e não gostava de barulho, especialmente de cacarejo de galinhas. Por sinal que uma madrugada quase que o mano Juca matou ele. Ouviu barulho no fundo do quintal, pensou que fosse ladrão, pegou do revólver e se tocou de mansinho pro galinheiro, mas graças a Deus a noite estava clara e ele viu a tempo que era o Tio Hipólito segurando uma galinha (já tinha pegado três) e enrolando esparadrapo no bico do animal, para que não cantasse mais. O mano Juca se retirou como chegara, sem ser suspeitado, e ficou acordado até o clarear do dia, pensando no que devia fazer. E nós também, escutando os protestos dos pobres animais que pouco a pouco se foram calando um a um e que amanheceram todos mortos por sufocação. E só o que pudemos fazer no outro dia foi uma canja de uma das galinhas e mandar as outras onze e o galo preto para a festa de Natal do Asilo Padre Cacique... O senhor não leu no jornal? “Generoso gesto das irmãs Fagundes. Um nobre exemplo a imitar.” Até recortamos. Aqui está.

E tirou da bolsa o recorte.

Tive vontade de dizer que o colasse no álbum do Tio Hipólito, o qual fora parar não sei como nas mãos de um guri da nova safra, que o estava folheando. Sim, folheando atentamente, e sem rasgar, como seria de esperar de um pimpolho de onze meses e pico!

— Como se chama o garoto? — perguntei, para mudar de assunto.

— Ah! este é o Filho do Livro! — respondeu a mãe da criança, que aliás era uma linda mãezinha dos seus vinte anos.

— O Filho do Livro! — disse eu, atônito, para maior divertimento da gozada mãezinha e do paizinho da criança, um sujeitinho seco e de fala fina.

— O senhor sabe... — explicou ele. — A crise... a incertidão da vida... A gente não queria ter filho já... Compramos o Método racional da limitação de filhos ... Imagine, um método recomendado até pelo Papa! Seguimos tudo à risca... e nasceu este guri.

Tive vontade de dizer-lhes que eles com certeza é que não tinham tomado direito certas anotações, como o livro mandava. Mas não disse nada e fiquei olhando o guri, que por sua vez continuava olhando o livro... Hururum! O que sairia dali? Um grande escritor, pelo visto? Ou um novo Tio Hipólito? Tive vontade de dizer muitas coisas que o assunto comportava. Mas não disse nada. Há muito que a vida me ensinou a não dizer nada. Agachei-me no chão e fiquei olhando o álbum junto com o Filho do Livro, ambos muito atentos, muito calados, muito impressionados, cada qual à sua maneira.
Mario Quintana, "A vaca e o hipogrifo"

A rua é das crianças

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projetam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo, "Homem de Palavra[s]"