sexta-feira, julho 14

Quer ser amado? Alugue os seus ouvidos

 A delícia dos livros está em que eles, repentinamente, nos abrem os olhos, e vemos então coisas que nunca havíamos visto. A diferença entre os textos científicos e os textos literários está em que, enquanto os textos científicos nos colocam diante da mesa metálica onde se dissecam os cadáveres, os textos literários nos colocam bem no centro da vida. Quando se lê literatura vive-se a vida de outras pessoas, em outros tempos, em outros lugares. Vidas que não existiram. Acabei de ler O livro do riso e do esquecimento, de Milan Kundera. Uma simples frase me deu um choque: “Nós escrevemos porque nossos filhos se desinteressaram de nós”. Sim, escrevemos porque somos seres solitários à procura de outros filhos. Ele conta a estória de uma jovem que trabalhava como garçonete num bar. Seu nome era Tamina. Tamina “fica sentada no bar, num tamborete, e quase sempre há alguém que quer conversar com ela. Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu...’ e começa a falar sobre si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu...’. Essa frase, exatamente como eu, eu... parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar o nosso próprio ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo o mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar sobre si mesma. Sem resistência, ela aceita os ocupantes de seu ouvido...” De repente, os diálogos comuns do dia a dia se me tornaram mais claros.

Rubem Alves, "Pérola feliz não faz ostra"

Martin

Martin é capaz de coisas de que sou incapaz. De abordar qualquer mulher em qualquer rua. Devo confessar que, desde que conheço Martin (e isso faz bastante tempo), tenho me aproveitado muito desse talento do meu amigo, pois gosto de mulheres tanto quanto ele, mas não possuo sua impetuosa audácia. Por outro lado, poderia censurar Martin por fazer da abordagem um exercício de virtuosismo considerado como um fim em si e, muitas vezes, não ir mais adiante. É por isso que ele se compara, não sem certa amargura, ao generoso atacante que dá bons passes para um companheiro de equipe, fazendo-o assim marcar gols fáceis e colher glórias sem grande esforço.

Na segunda-feira daquela semana, ao sair do trabalho à tarde, eu estava esperando por ele num café da praça São Venceslau, absorvido na leitura de um grosso livro alemão sobre a antiga cultura etrusca. Foram necessários muitos meses para que a biblioteca da universidade conseguisse para mim o empréstimo dessa obra na Alemanha. Naquele dia eu estava acabando de recebê-la; trazia-a comigo como uma relíquia e no fundo estava muito contente com o atraso de Martin, pois assim poderia finalmente folhear numa mesa de café o tão desejado livro.

Não posso evocar essas velhas culturas antigas sem uma espécie de nostalgia. De nostalgia e inveja, ao pensar sem dúvida na suave lentidão da história naquele tempo. A antiga cultura egípcia ocupa muitos milênios, a antiguidade grega durou perto de mil anos. Sob esse aspecto, a vida do ser humano como indivíduo é uma imitação da história humana: a princípio mergulhada numa imóvel lentidão, depois acelerando aos poucos e cada vez mais. Martin faria quarenta anos dentro de dois meses.

Milan Kundera, "Risíveis amores"

O bisavô e a dentadura

Eu ouvi esta história de uma amiga, que disse que isso aconteceu, de verdade, em Montes Claros, Minas Gerais.

Para contar a história, é preciso imaginar uma velha fazenda antiga. Dentro da fazenda, uma vetusta (socorro, que palavrão!) mesa colonial, muito comprida, de jacarandá, naturalmente. Em volta da mesa, tudo que mineiro tem direito para um bom almoço: tutu, carne de porco, linguiça, feijão-tropeiro, torresminho, couve cortada bem fina... e nem posso descrever mais, porque já estou com excesso de peso, só de pensar: hum, que delícia!

A família era enorme e comia reunida, em volta da toalha bordada: pai, mãe, avó, avô, filhos, netos, sobrinhos, afilhados, a comadre que ficou viúva, a solteirona que era irmã da vó da Mariquinha... e o bisavô Arquimedes. O bisavô Arquimedes usava dentadura.

Naturalmente, cada integrante tinha a sua frente o seu saboroso prato de tutu, couve, torresmo, feijão-tropeiro, carninha de porco, linguiça, etc. e tal. E todos mastigavam e repetiam porque a fartura, ali, em Montes Claros, naquele tempo, era um espanto, de tanta! E cada um, evidentemente, tinha o seu copo. Pois os copos e o bisavô Arquimedes, diariamente, sofriam a seguinte brincadeira:

-- Toninho, ocê vai beber desse copo ai, na sua frente? Olha que o bisavô deixou a dentadura dele de molho, bem no seu copo, Toninho, na noite passada!

-- Num foi no meu, não: foi no copo da Maroca! O bisavô deixou a dentadura dentro do copo da Maroquinha!

-- Ó gente, num brinca assim que eu fico cum nojo, uai!

O velho bisavô Arquimedes ouvia, sorria, mostrando a dentadura.

Quando chegava o doce de leite, o queijinho, a goiabada e uma tal de sobremesa que tem o nome de "mineiro de botas", que tem queijo derretido, banana, canela, cravo, sei lá mais que gostosuras, o pessoal comia, comia. E depois de comer tanto doce, a sede vinha forte, e a chateação começava, ou recomeçava, ou não terminava.

-- Tia Santinha, não beba do copo da dentadura do bisavô, cuidado! Tenho certeza de que a dentadura ficou no seu copo, de molho, a noite inteira!

O bisavô ouvia e ia mastigando, o olhinho malicioso, nem te ligo para a brincadeira, comendo a goiabadinha, o "mineiro de botas", o doce de leite, o queijinho... e mexendo a dentadura pra lá e pra cá, pois a gengiva era velha e a dentadura já estava sem apoio, Mas o bisavô tinha senso de humor... e falava pouco. O pessoal cochichava que ele era mais surdo do que uma porta. Bestagem, porque se existe coisa que não é surda, é porta: mesmo fechada, deixa passar cada coisa...

Um dia, de repente, o bisavô apareceu sem a dentadura. E como todos perguntaram para ele o que tinha havido, o velho Arquimedes sorriu, um sorriso banguela dizendo:


-- Ôces tavam pertubando demais, todos com nojo dela, resolvi não usar, uai!


Aí, a família ficou sem jeito, jurando que não iria falar mais da dentadura, que tudo fora brincadeira, que todos adoravam o velho Arquimedes, que ele desculpasse.


-- Tá desculpado, num tem importância. Eu já tava me aborrecendo com a história, mas tão desculpados. Mas até que tô achando bom ficar banguela: vou comer tutu e sopa... e doce de leite mole, ora!


A família insistiu, pediu perdão, mas o bisavô botou fim à conversa, dizendo:


-- Ocês num insista. Resolvi e tá resolvido. O dia que eu deixar de resolver, boto a dentadura outra vez!

E passaram-se vários dias. Ninguém mais fazia a brincadeira do copo. De vez em quando, o bisavô lembrava:

-- Tô sentindo falta...

-- Da dentadura, bisavô?

-- Não, da traquinagem de ocês... ninguém tá com nojo de beber água no copo, né?

-- Ora, o senhor não deve levar a mal, foi molecagem, a gente não faz mais, pode usar a dentadura, bisavô.

Um dia, de repente, o bisavô voltou a usar a dentadura. Todos na mesa se cutucaram e começaram a rir, muito disfarçado, quando bebiam água, pensando... sem dizer, pois haviam prometido.

Depois da sobremesa, boca pedindo água depois de tanto doce caseiro, o velho Arquimedes disse:

-- Ôces tão bebendo tanta água, sem nojo...

-- Bisavô, era brincadeira!

-- Eu também fiz uma brincadeira: durante todo esse tempo que fiquei banguela, minha dentadura ficou de molho, dentro do FILTRO!

Sylvia Orthof, "Quem conta um conto?"

quinta-feira, julho 13

Aqualouco

 


Humanidade

Depois de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguém pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrível, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoísta interesseiros
Mas trata com cortesia
Mas tudo é hipocrisia
São rudes, e trapaceiros.

Carolina Maria de Jesus

O amor entre o trigo

Cheguei ao acampamento dos Hernández antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solitária pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.

A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto, empoleirados numa máquina debulhadora. Nunca conversavam. Falavam de tudo em tom de brincadeira, salvo quando lutavam. Mas a lutar eram ciclones— arrasavam tudo o que viam diante dos olhos. Eram também os primeiros nos churrascos em pleno campo, no vinho tinto e nas violas plangentes. Eram homens da fronteira, gente de que eu gostava. Estudantil e pálido, sentia-me diminuído ao lado daqueles bárbaros estudantes de actividade. E eles, não sei porquê, tratavam-me com certa delicadeza, que em geral não tinham para ninguém.

Depois do churrasco, das violas, do ofuscante cansaço do sol e do trigo, tinha de me arranjar como pudesse para passar a noite. Os casais e as mulheres sozinhas acomodavam-se no chão, dentro do acampamento erguido com tábuas recém-cortadas. Quanto aos rapazes, fomos destinados a dormir na eira. Elevava-se nela uma montanha de palha e podia meter-se na sua macieza amarela uma aldeia inteira. Para mim, tudo aquilo era uma inusitada incomodidade. Não sabia como devia estender-me. Pus cuidadosamente os sapatos debaixo de uma camada de palha de trigo, que iria servir-me de almofada. Tirei a roupa, enrolei-me no meu poncho e afundei-me na montanha de palha. Fiquei longe de todos os outros, que, desde logo e de modo unânime, se puseram a roncar.

Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, a cara e os braços cobertos pela palha. A noite estava clara, fria e penetrante. Não havia Lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva; e, por cima do sono cego de todos os outros, cintilavam só para mim no regaço do céu. Depois adormeci.

Despertei de súbito porque algo se aproximava de mim, um corpo desconhecido movia-se debaixo da palha e acercava-se do meu. Tive medo. Aquela coisa ignota encostava-se lentamente. Sentia quebrarem-se os filamentos da palha, esmagados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, à espera. Devia talvez erguer-me ou gritar. Fiquei imóvel. Ouvia uma respiração muito próxima da minha cabeça.

De repente avançou uma mão para mim, uma mão grande, trabalhadora, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto, com doçura.

Depois, uma boca ávida colou-se à minha, e senti, ao longo de todo o corpo, até aos pés, um corpo de mulher que se apertava contra mim. Pouco a pouco o meu temor transformou-se em prazer intenso. A minha mão tacteou uma cabeleira com tranças, uma fronte lisa, uns olhos de pálpebras cerradas, suaves como borboletas. A minha mão continuou a procurar e toquei em dois seios, grandes e firmes, umas largas e redondas nádegas, umas pernas que me enlaçavam, e afundei os dedos num púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca anónima.

É difícil fazer amor sem produzir ruído numa montanha de palha, perfurada por sete ou oito homens mais, homens adormecidos que por nada do mundo deviam acordar. Mas a verdade é que tudo pôde ser feito, embora à custa de infinito cuidado. Um pouco mais tarde, também a desconhecida ficou bruscamente adormecida junto de mim. E eu, enfebrecido por aquela situação, comecei a aterrorizar-me. Em breve amanheceria, pensava, e os primeiros trabalhadores encontrariam a mulher nua na eira, estendida ao meu lado. Mas também acabei por adormecer. Ao despertar, estendi a mão, sobressaltado, e só encontrei um espaço morno, a sua morna ausência. Um pássaro começou logo a cantar e depois a sel.va inteira recheou-se de gorjeios. Soou uma apitadela de motor e homens e mulheres começaram a cirandar e a azafamar-se junto da eira e das suas lidas. O novo dia de debulha principiava.

Ao meio-dia almoçámos, reunidos em torno de umas largas tábuas. Eu olhava de soslaio enquanto comia, procurando entre as mulheres aquela que poderia ter sido a visitante nocturna. Mas umas eram demasiado velhas, outras demasiado magras, algumas eram jovenzinhas escorridas como sardinhas. Ora eu procurava uma mulher compacta, de bons peitos e traças compridas. De repente entrou uma senhora que trazia um pedaço de churrasco para o marido, um dos Hernández. Ela, sim, podia ser. Ao contemplá-la da outra ponta da mesa, julguei notar que aquela formosa mulher de grandes tranças me fitava com uma mirada rápida e me sorria com um sorriso ténue. E pareceu-me que tal sorriso se tornava maior e mais profundo, abrindo-se dentro do meu corpo.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"

terça-feira, julho 11

O iluminado


 

Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas raízes, nos teus versos. Porquê tantas? É verdade. As terras fronteiriças do Chile infiltraram as suas raízes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida é uma longa peregrinação que anda sempre às voltas, que retorna sempre ao bosque austral, à selva perdida.

Ali, é certo, as grandes árvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furacão, ou queimadas pela neve, ou destruídas pelo incêndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as árvores titânicas: o roble que tomba com estrondo de catástrofe surda, como se batesse com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura. As raízes, porém, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à humidade, aos líquenes, ao aniquilamento progressivo.

Nada mais belo que aquelas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da árvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os músculos profundos do domínio vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: são esculturas da profundidade — obras-primas secretas da natureza.

Certa vez, caminhando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, perto de Osorno, fez-me ele notar que cada ramo se diferenciava do outro, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.

— Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo — dizia-me.

Anos depois, em Roma, Rafael recordou-me aquele passeio e a opulência natural dos nossos bosques. Assim era. Já assim não é. Penso com melancolia nas minhas andanças de menino e de jovem entre Boroa e Carahue, ou em direcção a Toltén, pelos cerros da costa. Quantas descobertas! O garbo da caneleira e a sua fragrância depois da chuva, os líquenes com a barba de Inverno pendendo dos rostos inumeráveis do bosque...

Empurrava as folhas caídas, procurando divisar o relâmpago de alguns coleópteros—os cárabos dourados, que se tinham vestido de furta-cores para dançar um minúsculo bailado sob as raízes.

Ou mais tarde, ao atravessar a cavalo a cordilheira para o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, quando surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta que as nossas montadas, impedia-nos a passagem. Só à força de trabalho de machado foi possível abrir caminho. Aquelas raízes eram como catedrais tombadas — magnitude descoberta que nos impunha a sua grandeza.

Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"

A festa do termômetro quebrado

Sempre foi e será uma festa para mim quando se quebra em casa um termômetro e liberta-se a gota gorda e contida de mercúrio prateado, ali no chão, dando uma pequena corrida e depois imobilizando-se, imune. Tento pegá-la com cuidado, auxiliada pela agudez de uma folha de papel que passa deslizadoramente por baixo dela. Ou dele, o mercúrio. Que não se pode pegar: no momento em que eu penso que o peguei ele se estilhaça mudo nos meus dedos como mudos fogos de artifício, como o que dizem que nos acontece depois da morte – o espírito vivo se espalha em energia solta, pelo ar, pelo cosmo. Que impossibilidade de capturar a gota sensível. Ela simplesmente não deixa e guarda a sua integridade, mesmo quando repartida em inúmeras bolinhas esparsas: mas cada bolinha é um ser à parte, íntegro, separado. Basta porém que eu alcance ligeiramente uma delas e ela é atraída velozmente pela que está próxima e forma um conjunto mais cheio, mais redondo. Sonho tanto hoje que quebrei um termômetro como em criança, sonho com milhares de termômetros quebrados e muito mercúrio denso e lunar e frio se espalhando. E eu a brincar, toda séria e concentrada em alto grau, a brincar com a matéria viva de uma enorme quantidade do metal de prata. Imagino-me a mergulhar como num banho nesse vasto mercúrio que imagino saído dos termômetros: ao mergulhar milhares de bolas se soltariam, cada uma por si mesma, grossas, impassíveis. O mercúrio é uma substância isenta. Isenta de quê? Nada explico, recuso-me a explicar, recuso-me a ser discursiva: é isento e basta. Parece possuir um frio cérebro que comanda as suas reações. Sinto-me em relação a ele como se eu o amasse e ele nada sentisse por mim, nem sequer uma obediência de objeto. O mercúrio é um objeto que tem vida própria. Lidar com ele é uma experiência não substituível por outra qualquer. Ele não se cede a ninguém. E ninguém consegue pôr-lhe a mão. O espírito, através do corpo como meio, não se deixa contaminar pela vida, e esse pequeno e faiscante núcleo é o último reduto do ser humano. As feras também possuem esse núcleo irradiante, tanto que elas se conservam íntegras, indomesticáveis e vitais.
Noto que passei do mercúrio ao mistério das feras. É que o mercúrio – que constitui matéria lunar – faz meditar, leva-me, de uma verdade a outra, até o núcleo de pureza e integridade que está em cada um de nós. Quem? Quem não brincou com o termômetro quebrado?
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

A grande amizade


O que realmente me impressiona é um livro que, quando você termina de ler, deseja que o autor que o escreveu seja um grande amigo seu e que você possa ligar para ele sempre que quiser
J. D. Salinger

Borges no Inferno

Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor.

Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros empilhados até ao teto.
Levantou-se. Endireitou-se com dificuldade, sentindo-se desconfortável dentro do próprio corpo subitamente rejuvenescido (quando morremos reencarnamos jovens e Borges já não se recordava de como isso era). Caminhou devagar entre as bananeiras. Parecia-lhe pouco provável encontrar ali alguém conhecido, ou seja, alguém de quem tivesse lido algo. Ou alguém sobre quem tivesse lido algo. Nesse caso seria alguém um pouco menos conhecido, ou um pouco menos alguém, ou ambas as coisas.

A plantação prolongava-se por toda a eternidade. Uma dúvida começou a atormentá-lo: talvez estivesse, afinal, não no paraíso, mas no inferno. Para onde quer que olhasse só avistava as largas folhas verdes, os pesados cachos amarelos, e sobre essa idêntica paisagem um céu imensamente azul. Borges lamentava a ausência de livros. Se ali ao menos existissem tigres – tigres metafóricos, claro, com um alfabeto secreto gravado nas manchas do dorso –, se houvesse algures um labirinto, ou uma esquina cor-de-rosa (bastava-lhe a esquina), mas não: só avistava bananeiras, bananeiras, ainda bananeiras. Bananeiras a perder de vista.

Percorreu sem cansaço, mas com crescente fastio, a infinita plantação. Era como se andasse em círculos. Era como se não andasse. Fazia-lhe falta a cegueira. Cego, o que não via tinha mais cores do que aquilo – além do mistério, claro. Como é que um homem morre na Suíça e ressuscita para a vida eterna entre bananeiras?

Borges não gostava da América Latina. A Argentina, como se sabe, é um país europeu (ou quase) que por desgraça faz fronteira com o Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai. Para Borges aquele quase foi sempre um espinho cravado no fundo da alma. Isso e a vizinhança. Os índios ainda ele tolerava. Tinham fornecido bons motivos para a literatura e além disso estavam mortos. O pior eram os negros e os mestiços, gente capaz de transformar o grande drama da vida – da vida, meu Deus! – numa festa ruidosa. Borges sentia-se europeu. Gostava de ler os clássicos gregos (gostaria de os ter lido em grego). Gostava do silêncio poderoso das velhas catedrais.

Foi então que a viu. À sua frente uma mulher flutuava, pálida e nua, sobre as bananeiras. A mulher dormia, com o rosto voltado para o sol e as mãos pousadas sobre os seios, e era belíssima, mas isso para Borges não tinha grande importância (a especialidade dele foram sempre os tigres). Horrorizado compreendeu o equívoco.

Deus confundira-o com outro escritor latino-americano. Aquele paraíso fora construído, só podia ter sido construído, a pensar em Gabriel García Márquez.
Jorge Luís Borges sentou-se sobre a terra úmida. Levantou o braço, colheu uma banana, descascou-a e comeu-a. Pensou em Gabriel García Márquez e voltou a experimentar o intolerável tormento da inveja. Um dia o escritor colombiano fechará os olhos, para melhor escutar o rumor longínquo da noite, e quando os reabrir estará deitado de costas sobre o lajedo frio de uma biblioteca.

Caminhará pelos corredores, subirá escadas, atravessará outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e em todos eles encontrará livros, milhares, milhões de livros. Um labirinto infinito, forrado de estantes até ao teto, e nessas estantes todos os livros escritos e por escrever, todas as combinações possíveis de palavras em todas as línguas dos homens.

Jorge Luís Borges descascou outra banana e nesse momento um sorriso – ou algo como um sorriso – iluminou-lhe o rosto.

Começava a adivinhar naquele equívoco cruel um inesperado sentido: sendo certo que o paraíso do outro era agora o inferno dele, então o paraíso dele haveria de ser, certamente, o inferno do outro.

Borges terminou de descascar a banana e comeu-a. Era boa.

Era um bom inferno, aquele.
José Eduardo Agualusa, "Manual prático de levitação - Contos angolanos"

segunda-feira, julho 10

Dicionário

Néctar – Suco doce que muitas flores contêm e que os insetos buscam com avidez.

Pistilo – Órgão feminino da flor, que geralmente ocupa seu centro e contém o rudimento da semente.

Pólen – Pó fecundante, produzido nos estames e contido nas anteras.

Estame – Órgão masculino da flor, composto pelo estilete e pela antera na sua parte inferior em torno do pistilo que, como acima foi dito, é o órgão feminino da flor.

Fecundação – União de dois elementos de geração (masculino e feminino), da qual resulta o fruto fértil.


Rosa – É a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela própria só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é de um mistério feminino, se profundamente aspirada, toca no fundo do coração e deixa o corpo todo perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. Suas pétalas têm um gosto bom na boca, é só experimentar. As vermelhas ou as príncipe negro são de grande sensualidade. As amarelas dão um alarme alegre. As brancas são a paz. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são sexualmente atraentes.

Cravo – Tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão de criança defunta; seu cheiro então se torna pungente.

Girassol – É o grande filho do Sol, tanto que já nasce com o instinto de virar sua enorme corola para o lado de sua mãe. Não importa se o Sol é pai ou mãe, não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho masculina. Mas uma coisa é certa; o girassol é russo, provavelmente ucraniano.

Violeta – É introvertida, sua introspecção é profunda. Ela não se esconde, como dizem, por modéstia. Ela se esconde para poder entender o seu próprio segredo. O seu perfume é uma glória mas que exige da pessoa uma busca: seu perfume diz o que não se pode dizer. Um ramo de violetas equivale a “ama os outros como a ti mesmo”.

Sempre-viva – É uma sempre morta. Sua secura tende à eternidade. Seu nome em grego quer dizer sol de ouro.

Margarida – É uma flor alegrezinha. É simples: só tem uma camada de pétalas. Seu centro amarelo é uma brincadeira infantil.

Palma – Não tem perfume. Ela se dá altivamente – pois é altiva – em forma e cor. É francamente masculina.

Orquídea – É formosa, é exquise e antipática. Não é espontânea. Ela quer redoma. Mas é uma mulher esplendorosa, isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre; é epífita, isto é, nasce sobre outra planta sem contudo tirar dela a sua nutrição. Minto: adoro orquídeas.

Tulipa – Só é tulipa quando em largo campo coberto delas, como na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é.

Florzinha dos trigais – Só dá no meio do trigo. Tem na sua humildade a ousadia de se mostrar em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Na Espanha é usada para enfeitar os presépios, junto a ramos de trigo, do qual jamais se separa.

Angélica – Tem um perfume de capela. Traz êxtase místico. Lembra a hóstia.
Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o seu perfume intenso e sagrado.

Jasmim – É dos namorados: eles andam de mãos dadas balançando os braços, e se dão beijinhos suaves, eu diria ao som odorante do jasmim.

Estrelícia – É masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e, como o galo, tem o seu canto, só que não espera pela aurora – quando se a vê realmente, ela dá o seu grito visual de saudação ao mundo, que este é sempre nascido.

Azaleia – Há quem a chame de azaléa, mas prefiro mesmo azaleia. É espiritual e leve; é uma flor feliz e que dá felicidade. Ela é humildemente bela. As pessoas que se chamam Azaleia – como minha amiga Azaleia – adquirem as qualidades da flor: é uma alegria pura lidar com elas. Recebi de Azaleia muitas azaleias brancas que perfumaram a sala toda.

Dama-da-noite – Tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora: só sai à noite, com seu cheiro embriagador, misterioso, silente. É também das esquinas desertas e em trevas, dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosa.

Flor de cactos – A flor de cactos é suculenta, às vezes grande, cheirosa e de cor brilhante: vermelha, amarela e branca. É a vingança sumarenta que ela faz para a planta desértica: é o esplendor nascendo da esterilidade despótica.

Edelvais – Encontra-se apenas nas grandes alturas, embora nunca acima de 3.400 metros de altitude. Essa Rainha dos Alpes, como também é chamada, é o símbolo da conquista do homem. É branca e lanosa. Raramente atingível: é uma aspiração humana.

Gerânio – Flor de canteiro de janela na Suíça, em São Paulo, no Grajaú. Tem o sarcófilo, isto é, folha suculenta, muito cheiroso.

Vitória-régia – No Jardim Botânico do Rio há enormes, até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, lindas de morrer. Elas são o Brasil grande. Evoluentes: no primeiro dia brancas, depois rosadas ou mesmo avermelhadas. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas, elas dão sombra.

Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

Leitura silenciosa

 


O carnaval e o menino

"No grande teatro da vida / vão levar mais uma vez / a revista colossal: / pierrô, arlequim, colombina / vão a preços populares / repetir o carnaval."

Taí a quadrinha de antigamente, eu era menino e esperava o carnaval com certo temor, medo dos mascarados e, ao mesmo tempo, vontade de ser um deles.

Até que fui – e não apenas durante o carnaval. Grudei na cara várias máscaras – e se não obtive poder e glória, ao menos sobrevivi no meu canto, fazendo um tipo de carnaval a meu modo, véspera de cinzas.

Já encarei de tudo. Desde os retiros espirituais no seminário (segundo as santas regras de Santo Afonso Maria de Ligório), até o retiro forçado na cela da Polícia Especial.

Pierrô, Juan Gris
Também fui a outros folguedos. Para opróbrio dos meus descendentes, saí de morcego assustando outras crianças em Paquetá. Minha mãe havia feito complicada fantasia de chinês (ou japonês, dava na mesma), cuja atração era o chapéu de cartolina, em óbvio feitio de chapéu de chinês.

Tomaram meu silêncio como aprovação. Suei frio ao me imaginar com aquele chapéu, mas aí o meu irmão virou a mesa, ele ia sair de reles marinheiro americano, (não era bem uma fantasia mas um quebra-galho carnavalesco); urinou em cima do meu chapéu chinês.

Não havia tempo para a fabricação de um artefato elaborado como aquele. O pai deu-lhe safanões por conta do chapéu e de outras patifarias genéricas e acumuladas.

Minha mãe foi ao armarinho, comprou pano preto, a horrível máscara que cheirava a papelão e a cola – e assim passei e passeei os três dias pelas ruas cheias de sol de Paquetá, dando susto nas crianças que conhecia e evitando aquelas que não conhecia, podiam ser mais fortes do que eu e aí o sovado seria eu.

Quando a tarde caía, botava a máscara para trás da cabeça, sentindo-me amaldiçoado, perguntando-me sem resposta: quem foi o cretino que inventou essas coisas? Em casa, queriam saber se eu havia gostado. Respondia que sim.

No rádio, tocavam as músicas do ano, o grande teatro da vida, o pierrô, o arlequim, a colombina a preços populares -o pai não achava os preços tão populares assim. E numa madrugada ele me acordou e me levou até a ponte onde chegava a última barca trazendo os escombros, mutilados pedaços de um rancho que voltava do Rio. Os fogos-de-bengala, ainda vivos e esverdeados, iluminavam as espumas que vinham morrer na praia dos Tamoios. As lanternas de vidro colorido refletiam-se nas cabeleiras empoadas dos mestres-salas.

Ao pisar terra firme, o rancho renascia de seu cansaço e se arrastava uma vez mais na marcha-hino que louva a ilha, "Paquetá é um céu profundo / que começa neste mundo / mas não sabe onde acabar". O ritmo era mais lento e as luzes ficavam mais tristes dentro da madrugada. Longe, o faroleiro do Xeréu apagava seu facho vermelho: era outro dia.

Vestia o morcego outra vez, a máscara com cheiro de papelão e cola, e eu sozinho, eu-morcego, batendo as ruas cheias de sol, encontrava outros morcegos, era uma espécie de fantasia oficial dos meninos de Paquetá.

E sentia frio na espinha quando esbarrava com uma caveira, de camisola branca e encardida, a cruz preta nas costas, devia ser um garoto igual a mim, mas nunca se sabe, e esta dúvida me perseguia a tarde inteira, por que botam caveiras nas ruas do carnaval?

E eu não entendia o grande teatro da vida (tampouco o entendo agora) nem o pierrô com seu branco rosto banhado de luar. E quando tirava a máscara, ela estava molhada de suor, um suor tão salgado e meu que parecia lágrima.
Carlos Heitor Cony (Folha SP)

O futebol, essa doença

Era um desses malucos que os compêndios de medicina um dia hão de chamar de futemaníacos ou futefanáticos. Jamais tinha procurado um psicanalista. Se tivesse, descobriria que desde a primeira bola, presente de um tio no seu quinto aniversário, estava condenado. As vidraças partidas, os vidros estilhaçados e as pragas da mãe foram um sinal, mas ele era muito novo para perceber.

Até os catorze anos jogou com os meninos, na rua, e com os colegas de colégio, no pátio. Aos quinze foi fazer teste em um clube, aos dezesseis em outro. Aos dezessete, estava em um time da segunda divisão, aos dezoito em um time da terceira. Aos dezenove, um pontapé no joelho o impediu de seguir o caminho mais que seguro para a quarta divisão. Aos vinte, conseguiu uma vaga de caixa num supermercado e pareceu livre da futemania até os vinte e dois, quando chutou o emprego, usou o dinheiro juntado para dar uma ajeitada no joelho e foi tentar a sorte no futebol de salão. Na quadra, imaginava que poderia correr menos que no campo. Um ano depois, disseram-lhe que não havia lugar para ele nem na reserva.

– É o meu joelho, não é? – ele perguntou.

O técnico, um sessentão simpático, balançou a cabeça:

– Vou lhe dar um conselho, filho. Isto aqui não é pra você. Não é questão de joelho, é de jeito. Nem com dez joelhos você vai ser craque. O craque já é craque na barriga da mãe.

Chegando em casa, ele descarregou sobre a mãe a culpa por seus chutes tortos e suas cabeçadas imperfeitas. Ficou um tempo sem falar com ela e com o pai. Foi surpreendido com um convite para voltar a trabalhar como caixa, no supermercado. Aceitou, mas continuou sonhando com dribles, gols, títulos e fama. Num jogo de casados contra solteiros, numa festinha de funcionários, teve a confirmação de que futebol não era coisa para ele. Começando como centroavante, mostrou-se tão incapaz de superar os barrigudos zagueiros do outro time que foi recuado para a defesa e depois – vergonha das vergonhas – rebaixado para goleiro. Terminada a partida, perguntaram-lhe se tinha sido seu primeiro jogo. Respondeu que não, que era o último.

Nunca mais pôs um calção e poderia até se julgar curado da paixão pela bola, se não virasse o mais enlouquecido dos torcedores. O time com o qual simpatizava desde a infância, mas sem muito entusiasmo, de repente se tornou uma obsessão. Começou a acompanhá-lo com fidelidade canina. Num dos jogos, conheceu uma torcedora tão fanática quanto ele. Oito partidas depois, estavam casados. E, sempre que a televisão precisava de um casal disposto a escancarar a casa e mostrar tapetes com emblema, toalhas com emblema, jarras com emblema e copos com emblema, ia procurar os dois.

Quando a mulher engravidou, até o oitavo mês os dois continuaram indo aos estádios. O filho nasceu e, já na primeira semana, uma equipe de tevê entrou no quarto para mostrar como era: colcha com emblema, travesseiro com emblema, ursinho com emblema, chocalho com emblema. A câmera fixou-se no pai e na mãe, e a apresentadora fez a pergunta:

– Felizes?

– Mais ou menos – responderam marido e mulher, ao mesmo tempo.

– Mais ou menos por quê? É o menininho mais lindo que eu já vi.

– Você acha mesmo?

– Acho, sim.

– Você ficaria com ele este domingo, pra gente poder ir ver o jogo?

A repórter pensou que fosse brincadeira do pai. Quando viu o rosto cheio de ansiedade da mãe, viu que não era.

domingo, julho 9

Leitura com estilo

 


Vozes do deserto

Sentado no chão, com as pernas cruzadas em posição de lótus, prescrita para a leitura do Corão, o ancião profere palavras aos passantes, atraindo-os para a sua sorte. Quase à beira da morte, ele é rijo, chama a atenção de Jasmine.
Ela não sabe o que dizer para atraí-lo. Teme que sua pele trigueira, os cabelos encaracolados, ofendam o homem com lembranças amargas. Seguindo as pautas do coração, ajoelha-se no chão, ao seu lado. Em rigoroso silêncio, dispõe de tempo para ouvi-lo.

O dervixe finge ignorar sua presença, mas, seguindo seu instinto apurado, demonstra conhecer a razão de sua visita. Não faz falta que o menino a seu serviço advirta-o sobre a jovem, para quem suas palavras iriam salgar e dar sabor à sua comida. O que poderia querer dele uma mulher sem liteira ou escravos, a caminhar sozinha pelo bazar?

Com gesto incisivo, insiste que ela lhe fale. Não lhe inflija um silêncio que é prerrogativa sua. Jasmine reconhece que vale capitular mediante a confissão de estar ali com o intuito de cobrar-lhe uma tarefa. Alterna mentiras e verdades até admitir, ao final, ter vindo à cata de peripécias. Carecia de ouvir aventuras que transportar para casa dentro do alforge, como pão fresco. Viera com a ilusão de escutar o que ele diria ao próprio Harum al-Rachid, caso este abássida ainda vivesse.

Jasmine elegera-o entre tantos pobres pela sua cegueira. Nota, de perto, a expressão de cupidez que invade o rosto do velho frente às suas promessas. Aquele homem ama o ouro que as histórias lhe podem trazer. A perda da inocência acrescentara-lhe certa perversão e realismo aos dotes de contador. Para aliciar-lhe, pois, o desejo, a escrava deixa tombar alguns dinares no vasilhame de latão.

O dervixe sobressalta-se ao ruído das moedas tilintando, ainda que não tivesse apurado os ouvidos a tempo de saber o valor da contribuição, quantos pratos de comida aquelas moedas lhe cobririam. Ele recolhe uma moeda e a acaricia com um gozo talvez devido à sua condição de cego. Uma cegueira que lhe viera como castigo. Há muito anos, no deserto, a caminho de Samarra, apostara que poderia afastar-se da caravana sem perigo de perder-se, retornando a ela graças ao talento de farejar o caminho de volta. Sem medir as consequências do acto imprevidente, afastou-se dando risadas. Em pouco tempo, perambulando pelas areias exposto longamente ao sol, gritava pedindo socorro. Sem rumo, com crescente dificuldade de enxergar em torno, não atinava como regressar à caravana. Ao ser recuperado muito depois por uma tribo nómada, tinha perdido a visão. Os olhos, queimados, pareciam uma cratera vazia. Quando o deixaram em Bagdad, onde nunca estivera antes, imergiu na mais profunda miséria.

Interrompeu a sequência dos factos para confessar a Jasmine que, ao descobrir-se cego, chorara, lamuriando-se. Além de ser um homem afundado na absoluta escuridão, era pobre, inculto, despojado do saber existente nos centros de estudos das urbes islâmicas.

No início, confrontado com aquela situação, pensara em matar-se. Imprecara, furioso, contra os homens, não poupando Maomé. Em total desespero, suplicou que o santo homem o dotasse de algum talento capaz de atá-lo de novo à vida. Pois, abandonado à própria sorte, um mendicante a mais entre tantos em Bagdad, custava-lhe entender o que havia por trás do castigo.

Aguardou a primeira semana para o Profeta responder-lhe. Certa manhã, ao despertar, faminto e sujo, aflorou-lhe um ânimo inusitado. De repente, surgiu de dentro dele um homem a quem Maomé, perdoando-lhe as ofensas, oferecia inesperados recursos. Como a capacidade de recuperar detalhes preciosos da realidade circundante, de traduzir enigmas antes insolúveis, de desvendar a natureza secreta dos homens e dos objectos, mesmo não os podendo enxergar, de contar histórias afastando da boca resumos tristes que, apenas iniciados, prontamente se esgotam. Enquanto uma voz dizia-lhe que escutasse sobretudo os uivos imperativos da imaginação. Daí lhe resultando a faculdade de falar por horas sem dar prova de cansaço.

Mas com que história agora cativar uma mulher que lhe pagara antes mesmo de estipular o valor do seu trabalho? Embora seu repertório se tivesse ampliado nos últimos anos, conhecia suas limitações. Frequentemente, devido à sua escassa familiaridade com a Medina, evitava situar seus personagens no califado, não se atrevia a descrever a configuração urbana de Bagdad, que só conhecia por meio de descrições. Em suas histórias, os personagens percorriam apenas as quatro vias básicas, que davam acesso à urbe, a parte leste conhecida como Rusafah, navegando, ainda, até o estuário do rio Tigre.

Ao pagar-lhe bom preço, Jasmine aguardava recompensa. Premido, portanto, por uma curiosidade feminina que lhe cobrava, além de uma história, detalhes anteriores à sua cegueira, o ancião declinou-lhe sua outrora condição de oleiro. Um artesão a reclamar das privações e da argila grudada à pele, custando a sair. Desde a adolescência havendo nele uma amargura que se reflectia na qualidade de seu trabalho. O que o fazia produzir potes, pratos, travessas quebrando-se a qualquer toque, a ponto de já nem conseguir vendê-los. A despeito, no entanto, de talento tão escasso, ele tinha a veleidade de riscar na superfície do barro, à guisa de expressão artística, traços da arte caligráfica, sempre com resultados finais nada tendo a ver com a arte islâmica da escritura.

Não lhe mencionara, porém, que, igual ao oleiro, seu ofício actual, de contador de histórias, obrigava-o a combinar palavras, a incrustá-las no barro da fantasia e levá-las ao forno. Em busca de figuras que, variando de peixe, cavalo, pedras preciosas a silhuetas femininas, ensejassem a criação de símbolos que, sem função aparente, representavam metáforas ou o aprimoramento de experiências místicas, como era o caso dos sufis.

A miséria do dervixe leva-o a deplorar em público o seu destino. Como se, esquecido das graças recebidas, houvesse perdido a fé no Profeta que operara em seu favor. Enquanto falava, quase não se mexia. Com movimentos limitados, no afã de explorar a emoção de Jasmine, passa seguidas vezes o dorso da mão nos olhos queimados pelo sol, atraindo atenção ao centro da sua dor. Reminiscências, porém, que pareciam molestá-lo.

Atenta às comiserações do dervixe, Jasmine controla a sede. Acompanha como cria um quotidiano ao qual ela deve associar-se se quer, de verdade, ouvir suas histórias. Aguarda, pois, que comece o relato. Mas logo diz-lhe que tem pressa, o marido a aguarda em casa. Homem desconfiado, que lhe cobra seguidas provas de fidelidade.

O dervixe, em cujos ouvidos ainda ecoa o ruído das peças de ouro caindo no vasilhame de latão, respira fundo, na expectativa de outras moedas lhe fartarem o estômago. Começa a contar, a voz soa-lhe aguda, não é o timbre desejado. Abranda o tom, o momento requer sussurro. Seu escopo é chegar ao fim e corresponder ao pagamento que Jasmine efetuara.
Nélida Piñon

Ler na cama

Pergunta-se muito às pessoas “qual é o seu livro de cabeceira”, supondo com isto que cada pessoa mantém um livro junto à cama para se aconselhar naquele aconchego de pré-dormida, ou durante as horas de insônia.

Livro de cabeceira implica livro favorito, livro companheiro-de-todas-as-horas, mas que, como qualquer companhia de todas as horas, ganha uma importância especial nas horas em que tudo está bem, tudo está em paz, a família ressona, a cidade descansa, as contas estão pagas, “governo e oposição estão sem assunto” (como dizia Guilherme de Figueiredo), o mundo inteiro está adormecido... e para acontecer o “plin!” da perfeição a gente precisa apenas estender o braço, e apanhar o Livro de Cabeceira. Qual é o seu?

Eu não tenho, ou melhor, tenho junto da minha cama um movelzinho de madeira com duas fileiras de volumes. A última vez que contei, eram vinte e sete.

Ali tem principalmente livros recentes que ainda estão sendo examinados pra ver se dão um caldo, livros de amigos, livros divididos em unidades menores (poesia, contos, artigos, variedades, fragmentos) que vou lendo ao ritmo de uma unidade por semana.

Não existe O Livro Especial, e muitos que ali estão são livros de releitura, volumes de contos ou de poemas que já li dez vezes, mas a última delas foi quinze anos atrás. Em verdade vos digo: a gente só pode dizer que conhece um livro quando o lê pelo menos duas vezes.

O “pobrema” de ler na cama não é mental nem bibliográfico, é físico. Primeiro, a posição. Tudo que a Inquisição Espanhola vem fazendo à minha coluna nos últimos vinte anos não se deve às minhas piadinhas de herege, e sim ao costume de ler deitado.

Os médicos já insistiram: “Ponha travesseiros, sente em forma de L (tronco ereto, pernas esticadas). Não leia na horizontal com os travesseiros forçando seu pescoço para cima”. Disseram, mas não adiantou, foi como se eu telegrafasse hoje para John Lennon pedindo-lhe que não desse autógrafo a ninguém quando chegasse em casa tarde da noite.

E aqui pra nós, é uma coisa fisicamente absurda o camarada pretender ler deitado, com os dois braços tendo que manter o livro erguido no ar, com a luz do teto incidindo nos olhos e a página sendo mantida na sombra. Em casa a gente se vira, mas 99% dos hotéis brasileiros tratam seus hóspedes como indivíduos avessos à leitura: não há um mísero quebra-luz pra clarear o livro.

Sem contar o maior problema de todos, resumido por Millôr Fernandes num versinho que trago decorado desde a infância:

Ler na cama
é uma difícil operação.
Me viro e me reviro
e não encontro posição.
Mas, se afinal encontro um cômodo abandono...
pego no sono.

sábado, julho 8

Bom passeio

 


A escola da Vila

Para quem já tivesse visto o mundo, a Vila do Coroatá devia ser feia, atrasada e pobre. Mas, para mim, que tinha vindo da pequenice do povoado, foi um verdadeiro deslumbramento.

As quatro ou cinco ruas, com a maioria de casas de telha; os três ou quatro sobradinhos; as casas comerciais sempre cheias de mercadorias e de gente; as missas aos domingos; a banda de música de dez figuras; as procissões, de raro em raro, eram novidades que me deixaram maravilhado.

A igreja acanhadinha e velha, onde os morcegos voejavam, tinha aos meus olhos um esplendor estonteante.

A Casa da Câmara, acaçapada e pesadona, com o vasto salão onde, às vezes, se realizavam festas, parecia-me um palácio.


O que mais me encantou foi a escola.

Quando chegamos à vila, já haviam acabado as férias. Durante os quinze dias em que fiquei em casa curando-se das febres, eu via, da janela, as crianças passarem em grandes bandos, à hora em que terminavam as aulas. A vontade de ficar bom para misturar-me com aquela meninada alegre apressou a minha cura.

A escola funcionava num velho casarão de vastas salas, que devia ter mais de meio século.

Quando lá entrei, no primeiro dia, levado pela mão de meu pai, senti no peito o coração bater jubilosamente.

Dona Janoca, a diretora, recebeu-me com o carinho com que se recebe um filho. Os meninos e as meninas, que me viram chegar, olharam-se risonhamente, como se já houvessem brincado comigo.

Eu que vinha do duro rigor da escola do povoado, de alunos tristes e de professor carrancudo, tive um imenso consolo na alma.

A escola da Vila era diferente da escolinha da povoação como o dia o é da noite.
Dona Janoca tinha vindo da capital, onde aprendera a ensinar crianças.

Era uma senhora de trinta e cinco anos, cheia de corpo, simpática, dessas simpatias que nos invadem o coração sem pedir licença.

Havia nas suas maneiras suaves um quê de tanta ternura que nós, às vezes, a julgávamos nossa mãe.

A sua voz era doce, dessas vozes que nunca se alteram e que mais doces se tornam quando fazem alguma censura.

Mostrava, sem querer, um grande entusiasmo pela profissão de educadora: ensinava meninos porque isso constituía o prazer de sua vida.

Se um aluno adoecia, ela, apesar dos afazeres, encontrava tempo pra lhe levar uma fruta, um biscoito, um remédio.

Vivia arranjando livros, papel e lápis nas casas comerciais para os meninos paupérrimos. Se um pai se recusava a mandar o filho à escola corria a convencê-lo de que o pequeno nada seria na vida se não tivesse instrução.

Quando chegou da capital para dirigir o grupo escolar da vila, o prédio em que as aulas funcionavam estava em ruinas e o mobiliário, de tão velho e maltratado, já não servia para nada.

Era preciso dar àquilo um jeito de coisa decente. Mas não havia vintém.
Ela trazia, como auxiliares, as suas irmãs Rosinha e Neném, ambas moças.

E as três deixavam o povo surpreendido: saíram de casa em casa a pedir auxílio para as obras, fizeram rifas, organizaram festas, leilões, bazares de sorte, tudo enfim que pudesse render dinheiro.

E a vila, cochilona e desacostumada a novidades, viu, com pasmo, dona Janoca e as irmãs, de brocha e pincel nas mãos, caiando e pintando paredes.
E a velha casa, de mais de meio século, ressuscitou maravilhosamente, como os palácios surgem nos contos de fada.

Os salões, amplos e claros, abriam-se de um lado e de outro do vasto corredor, com filas de carteiras escolares, vasos de plantas, aqui e ali, e jarras de flores sobre as mesas.

As paredes, por si sós, faziam as delícias da pequenada. De alto a baixo uma infinidade de quadros, bandeiras, mapas, fotografias, figuras recortadas de revistas, retratos de grandes homens, coleções de insetos, vistas de cidades, cantos e cantinhos do Brasil e do mundo.

E tudo aquilo me encantava de tal maneira que eu, às vezes, deixava de brincar todo o tempo do recreio para ficar revendo paisagem por paisagem, mapa por mapa, figurinha por figurinha.
Viriato Corrêa. "Cazuza"