quinta-feira, abril 21

Os livros

Em lugar de honra da minha casa, na sala de visitas, para que todos soubessem, estavam a Encyclopaedia, a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, o atlas francês. Mais o mapa da Europa, coberto de alfinetes. Mas o pai encontrou recursos para fazer uma assinatura de uma coleção de livros que chegavam mensalmente. Eram brochuras horríveis, em papel jornal. As páginas vinham dobradas. A gente tinha de ir lendo com uma faca na mão, para abrir as páginas, o que me irritava. Eram os clássicos da literatura: Guy de Maupassant, Émile Zola, Flaubert, Camilo Castelo Branco, José de Alencar. Lembro-me do prazer que me deu a leitura de Tartarin de Tarascon (Alphonse Daudet, 1872), um tipo parecido com dom Quixote, aventureiro, que vivia se metendo com trapalhadas hilariantes. Lendo a correspondência de Albert Schweitzer, há alguns anos, encontrei uma carta em que ele se referia às risadas que dava quando uma tia lhe lia o dito livro.


Que doideira me fez ler todos aqueles livros? Li e esqueci. A única exceção é o Tartarin de Tarascon. Se me perguntarem qual é a estória do livro Amor de perdição de Camilo Castelo Branco, tenho de confessar: não sei. Será que os livros são como as pessoas que amamos sem entender? É possível.

Meu amor pelos livros começou com o Jeca Tatuzinho, que decorei. Depois foi a figura do Robinson Crusoé, olhando apavorado para as pegadas na areia. Depois foi “O melro”. Depois foram as figuras das locomotivas, na Encyclopaedia. Depois foi a Astolfina nos lendo Histórias do arco da velha. Depois foi o Livro de Lili. Foi nele que aprendi a ler, com a dona Clotilde. Decorei a primeira lição. No alto da página, a figura de uma menina, a Lili. “Olhem para mim. Eu me chamo Lili. Eu comi muito doce. Vocês gostam de doce? Eu gosto tanto de doce.” Depois a estória da loja de brinquedos, as bonecas adormecidas nas caixas. Depois foram as aulas de leitura. Delícia pura. Aula que aguardávamos com ansiedade. A professora lia para nós. Viagem ao céu, As caçadas de Pedrinho, As reinações de Narizinho, O Saci, Heidi, Poliana... Ficávamos em silêncio absoluto. Não havia provas. A leitura era só prazer. Eu tinha inveja da professora, que sabia ler tão bem. Que bom seria se lêssemos como ela! Se lêssemos como ela, poderíamos levar o prazer da leitura para casa.

Havia uma coleção de livros que eu cobiçava: O tesouro da juventude. Quem tinha o tesouro da juventude era a dona Lilisa, aquela que ganhou 250 gramas de açúcar. Quando a visitávamos, eu deixava os adultos conversando na sala de visitas e ia ler o Tesouro. Era um tipo de enciclopédia onde se encontrava de tudo. Um bufê de prazeres. Em qualquer página que se abrisse lá se encontrava um assombro. Mas era muito caro. Meu pai não podia. Nunca tive o Tesouro. Como nunca tive nem velocípede nem bicicleta. Até hoje não sei andar de bicicleta. Quem sabe, diz: “É só montar e sair pedalando”. Eu sei fazer isso. De qualquer forma, andar de bicicleta para mim é como montar um cavalo bravo. Nunca sei que ideias ela tem, nunca sei o que ela vai fazer comigo. Agora é tarde demais para aprender. Não posso tomar o risco de quebrar a bacia... Mas se eu encontrar um O tesouro da juventude num sebo eu compro, embora tudo o que está lá deva estar ultrapassado. Compro para realizar um desejo infantil. Mas, se encontrar uma bicicleta, eu não compro.
Rubem Alves, "O velho que acordou menino"

Cada livro, um sonho

 


Ganhar o jogo

Quando não estou lendo um livro que apanho na biblioteca pública, fico vendo um dos programas da TV que mostram a vida dos ricos, os palácios deles, os automóveis, os cavalos, os iates, as joias, os quadros, os móveis raros, a baixela, a adega, a criadagem. É impressionante como os ricos são bem servidos. Não perco um desses programas, ainda que não me sejam de muita utilidade, a totalidade desses ricos não vive no meu país. Mas gostei de ouvir um milionário entrevistado durante o jantar dizer que adquiriu um iate no valor de centenas de milhões de dólares porque queria ter um iate maior do que o de um outro sujeito rico. “Era a única maneira de acabar com a inveja que eu sentia dele” confessou, sorrindo, dando um gole na bebida do seu copo. Os comensais à sua volta riram muito quando ouviram aquilo. Rico pode ter tudo, até inveja um do outro, e neles isso é engraçado, aliás tudo é divertido. Eu sou pobre e a inveja em pobre é muito malvista, porque inveja deixa pobre recalcado. Junto com a inveja, vem ódio dos ricos, pobre não sabe como ir à forra esportivamente, sem espírito de vingança. Mas eu não sinto raiva de nenhum rico, minha inveja é parecida com a do cara do iate maior: como ele, apenas quero ganhar o jogo.

Eu descobri como ganhar o jogo entre um sujeito pobre, como eu, e um rico. Não é me tornando rico, eu nunca conseguirei isso. “Ser rico” disse um deles num programa, “é uma propensão genética que nem todo mundo tem.” Esse milionário fizera sua fortuna saindo do zero. O meu pai era pobre, eu nada herdei quando ele morreu, nem o gene que motiva o cara a ganhar dinheiro.

O único bem que tenho é a minha vida, e a única maneira de ganhar o jogo é matar um rico e continuar vivo. É uma coisa parecida com comprar o iate maior. Sei que isso parece um raciocínio extravagante, mas uma forma de ganhar o jogo é criar pelo menos parte das regras, coisa que os ricos fazem. Esse rico que eu vou matar tem que ser um herdeiro, o herdeiro é uma pessoa como eu, sem disposição de ficar rico, mas que nasceu rico e goza fagueiro a fortuna que caiu do céu no seu colo. Para fruir bem a vida, aliás, é preferível que apenas o pai, e não o herdeiro, nasça com o tal gene.

Eu preferia matar um dos ricaços estrangeiros que vejo na televisão. Um homem. As mulheres deles, ou as suas filhas, são ainda mais ostensivamente ricas, porém uma mulher, por mais joias que tenha nos dedos e em volta do pulso e do pescoço, não é o iate maior. Também não me interessaria uma daquelas mulheres que obtiveram sua fortuna trabalhando, certamente portadora do tal gene, donas que aparecem na televisão vestidas de tailleur. Não, teria que ser um homem. Mas como esses homens ricos ideais vivem em outros países, tenho que procurar um rico aqui mesmo, um que herdou a grana e os bens de que desfruta.

A dificuldade para alcançar esse objetivo não me deixa nem um pouco preocupado. Traço meu plano cuidadosamente e, quando deito, alguns minutos depois estou dormindo e não acordo durante a noite. Não apenas tenho paz de espírito, mas uma próstata que funciona bem, ao contrário do meu pai, que levantava a cada três horas para urinar. Não tenho pressa, devo escolher com muito rigor, pelo menos igual ao do rico que comprou o iate grande. As pessoas que aparecem, em sua maioria, nas revistas publicadas aqui no meu país podem ser chamadas de ricas e famosas, mas matar uma figura dessas seria fácil, não me faria ganhar o jogo.

Todo rico gosta de ostentar sua riqueza. Os novos-ricos são mais exibidos, mas não quero matar um desses, quero um rico que herdou a sua fortuna. Esses, das gerações seguintes, são mais discretos, normalmente demonstram sua riqueza nas viagens, eles adoram fazer compras em Paris, Londres, Nova Iorque. Gostam também de ir a áreas distantes e exóticas, mas que possuam bons hotéis com serviçais gentis, e os mais esportistas não podem deixar de esquiar na neve uma vez por ano, o que é compreensível, afinal moram num país tropical. Exibem sua riqueza entre eles mesmos (não há vantagem em jogar com os pobres), nos jantares de milionários, onde o vencedor pode confessar que foi por inveja que comprou o que comprou, e os outros brindam alegremente à sua saúde.

Um sujeito como eu, branco, miserável, magro e famélico não tem irmãos nem aliados. Não foi fácil conseguir um emprego no mais caro e exclusivo bufê da cidade, precisei fazer demorados planos e manobras, levei dois anos nisso, perseverança é a única virtude que possuo. Os ricos costumavam contratar os serviços desse bufê quando ofereciam um jantar. A proprietária, descendente de uma família ilustre, não vou dizer o nome dela, não vou dizer o nome de ninguém, nem o meu, era uma mulher dominadora que mantinha suas anotações e cronogramas num pequeno computador que carregava numa bolsa a tiracolo. Impunha rígidos padrões aos que trabalhavam no bufê, cozinheiros, decoradores, compradores de mercadorias, garçons e os demais. Era tão competente que os seus empregados, além de obedecer sem piscar, ainda a admiravam. Se algum funcionário não se comportava conforme o modelo estabelecido, era mandado embora. Isso era raro, pois todos, antes de serem admitidos, eram submetidos a uma seleção e a um treinamento rigorosos. Fazíamos o que ela mandava, eu era um dos mais obedientes. E o bufê cobrava um dinheirão para cozinhar e alimentar os ricos. A dona do bufê tinha o tal gene.

Antes da avaliação e treinamento a que me submeti para ser garçom do tal bufê, fiz o meu próprio aprendizado. Primeiro, cuidei da minha aparência, arranjei um dentista barato e bom, o que é muito raro, e comprei roupas decentes. Depois, o que foi mais importante, aprendi, no meu adestramento solitário, a ser um servo feliz, como são os bons garçons. Mas fingir esses sentimentos é muito difícil. Essa subserviência e felicidade não podem ser óbvias, devem ser muito sutis, percebidas inconscientemente pelo destinatário. A melhor maneira de representar essa impalpável dissimulação era criar um estado de espírito que me fizesse realmente feliz por ser garçom dos ricos, ainda que provisoriamente. A dona do bufê me apontava como um exemplo de empregado que realizava o seu trabalho orgulhando-se do que fazia, por isso eu era tão eficiente.

Os ricos, como os pobres, não são todos iguais. Há os que gostam de parolar com um charuto caro entre os dedos ou com um copo de líquido precioso na mão, há os galanteadores, os que são reservados, os solenes, os que alardeiam erudição, os que exibem riqueza com seus paramentos de grife, há até os circunspectos, mas no fundo todos são faroleiros, faz parte da mímica. Que acaba sendo uma linguagem de sinais verdadeira, pois permite ver o que cada um realmente é. Sei que os pobres também fazem a sua mímica, mas os pobres não me interessam, não está nos meus planos jogar com nenhum deles, o meu jogo é o do iate maior.

Esperei pacientemente que o rico ideal surgisse para mim. Eu estava preparado para recebê-lo. Não foi fácil conseguir o veneno, insípido e inodoro, que eu transferia de um bolso para o outro em minha romaria. Mas não vou contar os riscos que corri e as torpezas que cometi para obtê-lo.

Afinal, um rico do tipo que eu tanto procurava apareceu num jantar de lugares marcados nas cinco mesas colocadas nas salas da mansão. Eu conhecia a sua história, mas nunca o vira, nem em retrato. Foi a dona do bufê que me disse, e pela primeira vez eu a vi alvoroçada, que “ele” acabara de chegar e que eu estava destacado para atendê-lo pessoalmente. Rico gosta de ser bem servido. Eu ficaria a certa distância, sem olhar para ele, mas todo gesto de comando que fizesse, por mais tênue que fosse, eu teria que me aproximar e simplesmente dizer, “senhor?” Eu sabia fazer isso muito bem, era um garçom feliz.

Ele chegara, como os outros convidados, num carro blindado, cercado de seguranças. Era um sujeito baixo, moreno, um pouco calvo, de gestos discretos. A mulher dele, a quarta, era uma loura alta e esbelta que parecia ainda mais comprida devido aos altos saltos dos sapatos que usava.

Havia oito comensais em cada mesa, quatro homens e quatro mulheres. Ainda que o serviço não fosse à francesa, cada mesa era atendida por dois garçons, o meu colega era um negro alto com dentes perfeitos. Havia bebidas para todas as preferências, até mesmo cerveja, mas não me lembro de alguém da minha mesa ter solicitado esse líquido vulgar e engordativo. Conforme as instruções da dona, o outro garçom estava subordinado a mim. Discretamente eu determinava que o meu colega atendesse aos pedidos dos demais comensais que, entretidos em suas conversas, nem percebiam o tratamento especial dispensado por mim a um deles.

Atendi-o com perfeição. Ele comia pouco, bebia sem se exceder. Não usava, comigo, as palavras “por favor” nem “obrigado” Suas ordens eram lacônicas, sem afetação. O jantar se aproximava do fim.

“Senhor?” eu me aproximei quando ele virou o rosto dois centímetros para o lado, sem olhar para ninguém, mas eu sabia que era para mim.

“Um curto.”

Era a oportunidade que eu esperava.

Fui à cozinha, eu mesmo preparei o café na máquina italiana de último tipo fornecida pelo bufê. Coloquei o veneno dentro.

“Aqui está, senhor.”

Ele sorveu o café conversando com sua vizinha. Sem pressa, peguei a xícara vazia, voltei à cozinha e lavei-a com esmero.

Demorou algum tempo até descobrirem que estava morto, pois ele havia pousado a cabeça sobre os braços apoiados na mesa e parecia estar dormindo. Mas como milionário não faz uma coisa dessas, tirar uma soneca numa mesa de banquete, os circunstantes acabaram estranhando e percebendo que alguma coisa grave ocorrera. Um colapso circulatório, provavelmente.

Foi uma comoção, enfrentada com relativa elegância pela maioria dos presentes, principalmente pela esguia mulher dele. Os seguranças, porém, ficaram muito nervosos. O jantar foi encerrado pouco depois que uma ambulância particular levou o corpo.
Creio que vou continuar por mais algum tempo servindo aos ricos. Terá que ser em outro bufê, aquele onde eu trabalhava caiu em desgraça. Os jornais no início noticiaram apenas que a causa mortis do ricaço fora um mal súbito. Porém uma dessas revistas semanais publicou uma enorme matéria de capa falando em envenenamento, com retratos dos participantes do banquete, principalmente daqueles, homens e mulheres, sobre quem pudesse ser feita uma insinuação maldosa. A vida do milionário morto, seus negócios, seus vários casamentos e separações, principalmente as circunstâncias escandalosas de uma delas, receberam extensa cobertura.

A polícia está investigando. Gostei de ir depor na delegacia. Não demorei muito lá, a polícia achava que eu não tinha muito a dizer sobre o envenenamento, afinal eu era um garçom burro e feliz, acima de qualquer suspeita. Quando fui dispensado pelo delegado encarregado do caso, eu disse de maneira casual.

“Meu iate é maior do que o dele.”

Alguém precisava saber.

“Já disse que está dispensado, pode se retirar.”

Quando estava saindo, ouvi o delegado dizer para o escrivão: “Mais um depoimento de merda.”

Ganhei o jogo. Estou na dúvida se jogo mais uma vez. Com inveja, mas sem ressentimentos, apenas para ganhar, como os ricos. É bom ser como os ricos.
Rubem Fonseca, "Pequenas Criaturas"

quarta-feira, abril 20

Pensador

 


Relax

Aquele monstro que se chamou Champollion descansava de seus estudos de egiptologia escrevendo uma gramática chinesa.

Porém, nós outros, os (relativamente) normais, que havemos de fazer?
Palavras cruzadas?

No entanto, o perigo das palavras cruzadas é nos inocularem às vezes, para todo o sempre, os mais estapafúrdios conhecimentos. Por exemplo, há duas semanas sou sabedor de que “rajaputro” significa “nobre do Hindostão, dedicado à milícia”. Espero, o quanto antes, esquecer tal barbaridade.

O problema é substituir as preocupações pela ocupação.

Quanto ao exercício da poesia, nem falar! Qualquer poeta sabe como dói, como é preciso virar a alma pelo avesso para fazer um verdadeiro poema — salvo se você for um poeta concretista, porque, na verdade, não há nada mais abstrato.
Pois bem, falando em coisas sérias, o problema, seu poeta, é ocupar o espírito sem ao mesmo tempo estraçalhá-lo.

E problemas assim — puros problemas — só mesmo os problemas matemáticos. Já o velho Pinel recomendava o estudo das Ciências Exatas como preservativo dos distúrbios mentais.

A Matemática é o pensamento sem dor.

Mas infelizmente sucede que a Matemática ainda é pior do que chinês para nós, que, nesta altura da vida, só não esquecemos as quatro operações e, quando muito, a regra de três e também a teoria dos arranjos, permutações e combinações — tão úteis no jogo do bicho.

Que resta, então?

Oh! como é que eu não me lembrei disso antes?! Resta-nos um passatempo esquecido: o proveitoso, o delicioso vício da leitura.
Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo"

'Meu cavalo'

 Charlie Mackesy
Era inverno, época de festas. Não me deram nem de comer nem de beber durante o dia inteiro. Fiquei sabendo depois que aquilo acontecera porque o cavalariço estava bêbado. Naquele mesmo dia, o chefe veio à minha baia, deu pela falta de ração e foi-se embora xingando com os piores nomes o cavalariço, que não estava ali. No dia seguinte, acompanhado de um peão, o cavalariço trouxe feno à nossa baia; notei que ele estava especialmente pálido, abatido, tinha nas costas longas algo significativo que despertava piedade. Ele atirou feno por cima da grade, com raiva; eu ia metendo a cabeça em seu ombro, mas ele deu um murro tão dolorido no meu focinho, que me fez saltar pra trás. E ainda por cima chutou-me a barriga com a bota.

-- Não fosse esse lazarento, nada disso tinha acontecido.

-- Mas o que aconteceu? – perguntou o outro cavalariço.

-- Os potros do conde ele não inspeciona, mas este ele examina duas vezes por dia.

-- Será que deram o malhado mesmo pra ele?

-- Se deram ou venderam, só o diabo sabe. O certo é que você pode até matar de fome todos os cavalos do conde, e nada acontece, mas você se atreva a deixar o potro dele sem ração... Deita aí, diz ele, e tome chicotada. Não tem senso cristão. Tem mais pena de animal do que de homem; logo se vê que não usa cruz no pescoço... ele mesmo contou as chicotadas que me deu, o bárbaro. O general não bate assim, ele deixou as minhas costas em carne viva... pelo visto, não tem alma cristã.

Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras meu, meu potro, palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras “meu cavalo”, referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras “minha terra”, “meu ar”, “minha água”.

No entanto, essas palavras exerciam uma enorme influência sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas palavras. Era o seguinte: os homens não orientam suas vidas por atos, mas por palavras. Eles não gostam tanto da possibilidade de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade de falar de diferentes objetos utilizando-se de palavras que convencionam entre si. Dessas, as que mais consideram são “meu” e “minha”, que aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa apenas um deles diria “meu”. E aquele que diz “meu” para o maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para que isso, não sei, mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.

Muitas das pessoas que me chamavam, por exemplo, de “meu cavalo” nunca me montavam; as que o faziam eram outras, completamente diferentes. Também eram bem outras as que me alimentavam. As que cuidavam de mim, mais uma vez, não eram as mesmas que me chamavam “meu cavalo”, mas os cocheiros. Os tratadores, estranhos de modo geral. Mais tarde, depois que ampliei o círculo de minhas observações, convenci-me de que, não só em relação a nós, cavalos, o conceito de “meu” não tem nenhum outro fundamento senão o do instinto vil e animalesco dos homens, que eles chamam de sentimento ou direito de propriedade. O homem diz: “minha casa”, mas nunca mora nela, preocupa-se apenas em construí-la e mantê-la. O comerciante diz: “meu bazar”, “meu bazar de lãs”, por exemplo, mas não tem roupa feita das melhores lãs que há no seu bazar. Existem pessoas que chamam a terra de “minha”, mas nunca a viram nem andaram por ela. Existem outras que chamam de “meus” outros seres humanos, mas nenhuma vez sequer botaram os olhos sobre eles, e toda a sua relação com essas pessoas consiste em lhes causar mal. Existem homens que chamam de “minhas” as suas mulheres ou esposas, mas essas mulheres vivem com outros homens. As pessoas não aspiram a fazer na vida o que consideram bom, mas a chamar de “minhas” o maior número de coisas. Agora estou convencido de que é nisso que consiste a diferença essencial entre nós e os homens. É por isso que, sem falar das outras vantagens que temos sobre eles, já podemos dizer sem vacilar que, na escada dos seres vivos, estamos acima das pessoas; a vida das pessoas pelo menos daquelas com as quais convivi traduz-se em palavras; a nossa, em atos. E eis que foi o chefe dos estábulos que recebeu o direito de me chamar de “meu cavalo”; por isso açoitou o cavalariço. Essa descoberta me deixou profundamente impressionado e levou-me a me tornar o malhado ensimesmado e sério que eu sou.
Liev Tolstói, "O diabo e outras histórias"

terça-feira, abril 19

O trampolim

Quint Buchholz

 

A armadilha da hegemonia da escrita

Uma terceira armadilha é pensar que a sabedoria tem residência exclusiva no universo da escrita. É olhar a oralidade como um sinal de menoridade. Com alguma condescendência, é usual pensar a oralidade como patrimônio tradicional que deve ser preservado. O culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade.

Certa vez, um menino de rua em Maputo veio-me devolver um livro que ele vira nas mãos de uma estudante à saída da escola. Notando a minha fotografia na capa, esse menino acreditou que a estudante me tinha roubado o livro.

Me comoveu esse menino que atravessou a cidade para me devolver algo que, no entender dele, me pertencia. Mas o que ele me entregava era mais do que um objeto. Ele me entregava a inquietação profunda, a interrogação: a quem pertence realmente um livro? Ele é nosso porque o adquirimos, sim. O livro deve ser objeto e mercadoria para chegar às nossas mãos. Mas só somos donos desse objeto quando ele deixa de ser objeto e deixa de ser mercadoria. O livro só cumpre o seu destino quando transitamos de leitores para produtores do texto, quando tomamos posse dele como seus co-autores.

A mais importante linha divisória em Moçambique não é tanto a fronteira que separa analfabetos e alfabetizados, mas a fronteira entre a lógica da escrita e a lógica da oralidade. A absoluta maioria dos 20 milhões de moçambicanos vive e funciona num tipo de racionalidade que tem pouco a ver com o universo urbano. Mas em Moçambique, como no resto do mundo, a lógica da escrita instalou-se com absoluta hegemonia. Nesses casos, pressupostos filosóficos do mundo rural correm o risco de ser excluídos e extintos. Algumas das ideias que venho defendendo nesta comunicação estão claramente presentes na epistemologia da ruralidade africana.

A concepção relacional da identidade, inscrita no provérbio: “Eu sou os outros”; a ideia de que a felicidade se alcança não por domínio mas por harmonias; a ideia de um tempo circular; o sentimento de gerir o mundo em diálogo com os mortos: todos estes conceitos constam da rica cosmogonia rural africana.

É evidente que não se pode romantizar esse mundo não urbanizado. Ele necessita de enfrentar o confronto com a modernidade. O desafio seria alfabetizar sem que a riqueza da oralidade fosse eliminada. O desafio seria ensinar a escrita a conversar com a oralidade.

Mia Couto, "E se Obama fosse africano"

Leia com conforto



Enquanto existir o mar

Jos Albert
Entre o ruído e o silêncio, ouve-se o barulho do mar. O ritmo preciso das ondas quando arrebentam na areia, quando batem nas pedras, quando se percebe, mesmo de longe, o som.

O som que não sai do interior das conchas, não sai dos ouvidos atentos, não sai da imagem refletida nos sonhos, não sai da intensidade da palavra.

Ressoa, silencia, amplia.

Quase como um sopro, uma fuga, uma vertigem.

Olhos que não viram o mar blindam manhãs carregadas de ventos úmidos.

Uma ausência.

Enquanto existir o mar permanecerá o silêncio, a dúvida, a pausa.

A reverberação que se cria enquanto faz um mesmo movimento, com a previsibilidade da repetição, porém sempre com espanto – como as coisas que não tem fim – percorre as ondulações das lembranças.

O som do mar invade a memória, traz à tona os segredos, inventa os mistérios. Habita a paisagem febril, refaz a imaginação, invade os hemisférios, reconhece as distâncias.

Enquanto existir o mar haverá poesia, enquanto existir o azul haverá o branco, enquanto os olhos seguirem uma linha sem fim sempre haverá um novo começo.

segunda-feira, abril 18

A sesta do livreiro

 


Miudezas, para espairecer

A tristeza, em mim, é um hábito quase tão antigo quanto respirar.

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A poesia perdeu um pouco de seu charme, mas ainda salva algumas biografias, ou pelo menos lhes serve como gracioso enfeite.

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Num romance policial, o melhor papel é o de quem morre nos braços de uma ruiva fatal.

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O poeta parnasiano sonha com o dia em que os sonetos escaparão de todos os seus bolsos e voarão para impor a beleza diante dos olhos hoje zombeteiros.

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Expressar um desgosto num poema geralmente só serve para acrescentar a um infortúnio pessoal um insucesso literário.

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Quando o grupo de jovens poetas tocou a campainha, o velho poeta pediu à mulher que nem sob tortura revelasse onde estavam escondidos os sonetos. A mulher perguntou se a recomendação servia também para as quadrinhas.


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De tudo quanto escrevi, um pouco eu não apreciei, um pouco eu abominei, e do resto eu me esqueci.

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O conceito de arte pela arte e a obstinada busca de perfeição poética soam às vezes, nos dias de hoje, tão desagradavelmente quanto insinuações de supremacia racial.

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Quem não tem palavras para agradecer é ou um mau orador ou um sujeito sovina.

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Quem assobia, seus males alivia.

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Um tantinho de loucura não faz mal a um poeta. Mas o ideal é sempre um tantinho a mais.

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Escritor bissexto é um modo respeitoso de chamar um escritor preguiçoso.

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Se proibirem o lugar-comum, o escritor medíocre não chegará a lugar nenhum.

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Camões não fazia exatamente o mesmo que nós, embora nos agradasse considerar que sim.

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Alguns dos nossos morrem tão mansamente que é como se pedissem desculpas por fechar os olhos diante de nós.
Raul Drewnick

Leitura no campo

 

Edouard Vuillard 

De vilã a heroína: Como a rede de livrarias Barnes & Noble angariou apoio para enfrentar a Amazon nos EUA

Depois de anos em declínio, as vendas da rede de livrarias Barnes & Noble aumentaram, seus custos caíram – e as mesmas pessoas que por décadas viram a gigante de lojas do gênero como uma supervilã contra pequenos livreiros agora estão comemorando seu sucesso.

No passado, o império da maior livraria dos Estados Unidos, com 600 lojas em todos os 50 estados, era visto por muitos leitores, escritores e amantes de livros como um conjunto de lojas intimidadoras, que devoravam as independentes em sua busca por participação de mercado.

Hoje, praticamente toda a indústria editorial está torcendo pela Barnes & Noble – incluindo a maioria das livrarias independentes. Seu papel único no ecossistema do livro, onde ajuda os leitores a descobrirem novos títulos e as editoras a manterem o investimento em lojas físicas, o torna uma âncora essencial em um mundo abalado pelas vendas on-line e um player muito maior: a Amazon.

"Seria um desastre se eles saíssem do mercado", diz Jane Dystel, uma agente literária com clientes como Colleen Hoover, que tem quatro livros na lista de best-sellers do New York Times desta semana. “Há um medo real de que, sem essa cadeia de livros, o negócio de impressão seja cancelado.”


A pandemia lançou obstáculos substanciais no caminho da Barnes & Noble. Por quase dois anos, não houve leituras ou autógrafos na maioria de suas lojas. Seu negócio de cafés ainda está em baixa.

E em dezembro, assim que a temporada de compras de Natal chegou, a variante Ômicron se instalou. Muitas das lojas da rede no centro das áreas urbanas ainda estão com baixo desempenho devido à escassez de turistas e funcionários de escritório.

Apesar de tudo isso, as vendas nas lojas Barnes & Noble subiram 3% no ano passado em relação ao desempenho pré-pandemia em 2019. O crescimento veio à moda antiga, disse James Daunt, CEO da empresa: vendendo livros, cujas vendas subiram 14%.

“Eu nunca teria previsto isso no início do ano”, disse Daunt, “mas tem sido tremendo”.

Por muitos anos, a hostilidade das livrarias independentes em relação à Barnes & Noble foi tão potente que fez até mesmo de Tom Hanks um vilão crível, embora encantador.

O sentimento foi capturado no filme de 1998 “You've Got Mail” ("Mensagem para você", no Brasil). Coescrito e dirigido por Nora Ephron, o filme centrava-se no dono de uma grande rede de livrarias, interpretado por Hanks, que colocou a personagem de Meg Ryan, uma amada livreira independente em Manhattan, fora do mercado.

De volta ao mundo da não-ficção, a American Booksellers Association, que representa as lojas independentes, entrou com uma ação antitruste contra a Barnes & Noble na década de 1990. Alguns anos antes disso, o grupo processou várias editoras, dizendo que haviam cobrado injustamente preços mais baixos de grandes redes.

"Houve um período em que a concorrência era muito feia", disse Oren J. Teicher, ex-CEO da American Booksellers Association. “A Barnes & Noble era vista não apenas como a inimiga, mas como tudo o que estava errado na venda de livros corporativos.”

Com o tempo, no entanto, as livrarias desenvolveram “um inimigo comum”, disse Teicher: a Amazon.

Comprar um livro que você está procurando on-line é fácil. Você procura. Você clica. Você compra. O que se perde nesse processo são os achados acidentais, o livro que você pega em uma loja por causa da capa, um livro de bolso que você vê em um passeio pela seção de suspense.

Ninguém descobriu como replicar esse tipo de descoberta incidental no ambiente digital. Isso torna as livrarias extremamente importantes não apenas para os leitores, mas também para todos, exceto para os escritores de maior renome, bem como para agentes e editores de todos os tamanhos.

Lojas independentes desempenham um papel importante nesse tipo de descoberta, mas como as lojas Barnes & Noble são tão grandes, elas geralmente podem manter mais títulos à mão. E em muitas partes do país não há independentes: a Barnes & Noble é a única livraria da cidade.

“A descoberta é tão, tão importante”, disse Daniel Simon, fundador da Seven Stories Press, uma editora independente. “Quanto mais a participação de mercado da Amazon cresce, menos descobertas há em geral e menos novas vozes serão ouvidas.”

Para autores conhecidos, a Barnes & Noble é importante por um motivo diferente – seu tamanho. Parada importante em qualquer grande turnê de livros, as 600 lojas da rede podem fazer pedidos enormes e movimentar muitos exemplares.

"É engraçado como a indústria evoluiu para que agora eles sejam um cara legal", disse Ellen Adler, editora da New Press independente. “Eu diria que a reabilitação deles foi total.”

A rede também mantém as editoras investidas na distribuição de livros físicos em todo o país, disse Kristen McLean, diretora executiva de desenvolvimento de negócios da NPD Books, que acompanha o mercado.

Em 2018, o conselho da empresa demitiu seu CEO, o quarto em cinco anos. Pessoas do setor temiam que a maior rede de livrarias do país pudesse fechar.

No verão seguinte, o fundo de hedge Elliott Advisors comprou a rede por US$ 638 milhões e colocou Daunt no comando. Livreiro altamente conceituado que abriu sua primeira loja Daunt Books em Londres em 1990, Daunt foi contratado para resolver um problema semelhante na Waterstones, a maior rede de livrarias da Grã-Bretanha. A empresa estava à beira da falência quando ele assumiu em 2011.

Sua teoria era que as redes de lojas deveriam agir menos como redes de lojas e mais como lojas independentes, com liberdade semelhante para adaptar suas ofertas aos gostos locais. Funcionou e ele devolveu a lucratividade da Waterstones.

Ele repetiu essa abordagem na Barnes & Noble. Enquanto os pedidos para locais em todo o país costumavam ser feitos por um escritório central em Nova York, hoje um escritório central reduzido faz apenas um pedido mínimo de novos livros, deixando os gerentes das lojas livres para escolher se querem trazer mais cópias com base nas vendas locais.

“Recebo toda a glória, mas na verdade o que estou fazendo é sair do caminho das pessoas e deixá-las administrar livrarias decentes”, disse Daunt. “Todo o trabalho continua no chão de fábrica.”

A Barnes & Noble também se concentrou na venda de livros, em vez da vasta variedade de itens que antes carregava e que eram apenas tangencialmente - se é que eram - relacionados à leitura.

“Estávamos vendendo muitas coisas irrelevantes para uma livraria”, disse Daunt. “Ninguém pensa: 'Preciso de uma bateria Duracell – vou descer à minha livraria.'”

Muitas perguntas permanecem sobre o futuro da Barnes & Noble. Os custos estão subindo no negócio de livros, que tem margens baixas para começar. E, como todos os varejistas presenciais, a Barnes & Noble precisa persuadir mais clientes a parar de comprar tudo por meio de seus telefones.

No entanto, há um bom vento nas costas, porque as vendas em todo o setor estão em alta. Com tanta gente presa em casa em 2020, muita gente comprou muitos livros. À medida que o país se abriu, os editores esperaram que as vendas caíssem novamente aos níveis pré-pandemia. Mas não foi o que aconteceu.

Normalmente, disse McLean, da NPD Books, as vendas fortes são impulsionadas por lançamentos de sucesso de autores conhecidos e, embora alguns estejam chegando este ano – Marie Kondo lançará um livro neste outono sobre como manifestar sua vida ideal organizando –, não houve muitos recentemente. Agora, algo mais está por trás de toda essa compra.

“No momento”, disse Daunt, “está sendo impulsionado pelo entusiasmo pela leitura”.

domingo, abril 17

Escolhendo o 'adereço'

 


Conveniência das livrarias

As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75% desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regímen, durante oito, dez, 18 meses — suponhamos dous anos —, reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim... 
Machado de Assis, "Teoria do Medalhão"

O gato na biblioteca

 


Páscoa

Abrindo um parêntesis na agitação de uma vida pouquíssimo devota e muitíssimo prática, todo o grande rebanho religioso resolveu, durante três ou quatro dias, recordar-se de que outrora, lá em uma velha cidade do Oriente, um pobre rapaz, por amor dos homens, se deixou amavelmente pendurar numa cruz.

Recordou-se, mas não como naqueles tempos em que a cristandade, com um pranto mais ou menos verdadeiro, batia piedosamente nos peitos e se mortificava e ralava os joelhos e passava semanas estragando o estômago com um detestável e insulso bacalhau ascético.

Hoje — ai! — as coisas mudaram.

Há até algumas condenadas que não hesitam, nos dias da Paixão, em meter dentes ímpios no saboroso “beef” cheio de pecados, britanicamente tresandando a heresia. A religiosidade pacata que transita pelas ruas, visita as igrejas, beija os pés do Senhor e critica rindo a linguagem dos graves eclesiásticos que pregam sermões de lágrimas, abandonou o antigo e salutar costume de penetrar funebremente em fatos cor da treva, amarrar ao pescoço gravatas tétricas e apresentar à gente um ar compungido de quem acaba de receber o mais doloroso golpe que se pode imaginar.

Anda-se com botas amarelas, chapéu branco, calças claras, coisas que são apenas atenuadas pelo rigor de um ou outro paletó severamente escuro e que traduzem uma crença muito dúbia, um fervor religioso muito ambíguo.

Mas que querem? É o progresso. Já não há necessidade de meter-se um indivíduo numa cela e ali passar horas e horas prostrado, com sangrentos calos nas rótulas, batendo nos peitos ou arrancando os cabelos, faminto, a rezar com desespero, os olhos esbugalhados presos no teto, como se estivesse vendo aparecer lá em cima o vulto do amável Jesus tal qual ele estava quando o desceram do aviltante instrumento de suplício — boca aberta, a cabeça pendida para um lado, as mãos negras de sangue coalhado.

Há processos modernos de adoração.

Chora-se alegremente a morte do Redentor nos teatros, onde as empresas suspendem temporariamente as representações de revistas idiotas e de peças “gênero livre”, para oferecer ao público a Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, coisa muito bem-feita e pelos preços do costume. E os cartazes dos cinemas proclamam também reproduções daquelas coisas peregrinas que S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João ingenuamente introduziram em seus evangelhos.

Magnífico! Por cinco tostões, tem um cristão uma morte de Jesus em segunda classe, com tudo que uma alma pia pode desejar — as pregações, as curas milagrosas, os brinquedos infantis do pequeno Rabi e os bigodes dos legionários romanos. É barato.

De sorte que, com a desleal concorrência que os teatros fazem às igrejas, vão os empresários penetrando suavemente na seara sagrada.

Essa gente frivolamente religiosa nem se dá ao trabalho de comemorar a sério a morte do pobre revolucionário judeu, a quem a posteridade pregou um logro formidável e que é hoje representado por qualquer comediante de revistas.

E pensar que, há mil setecentos e cinquenta e sete anos, S. Policarpo teve o louvável incômodo de ir de Esmirna a Roma conferenciar com Santo Aniceto sobre a grave questão da Páscoa! Pensar que S. Vitor e a Igreja do Oriente andaram numa grossa barulhada, por não terem chegado a um acordo sobre o dia em que a cristandade devia comer um carneiro e exercer outras práticas difíceis! Para nada serviram tantos discursos, tanta condenação, tanta balbúrdia entre aqueles respeitáveis santos, até que o concílio de Niceia resolvesse pôr termo à questão.

Hoje chega a parecer que se não estabelece distinção entre a mais séria de todas as sextas-feiras e essas reles sextas-feiras ordinárias. E o sábado é uma pândega, uma “aleluia” de todos os pecados.

Mandam-se à fava as parcas roupas pretas que ainda surgiam por acaso, veste-se qualquer cômoda vestimenta de “pierrot” ou de arlequim, pega-se um lança-perfume e vai-se para a Avenida.

Ali é que a vida é uma coisa deliciosa.

“Confeti”, serpentinas, caras com pinturas artísticas, sorrisos tentadores e postiços mostrando alvos dentes de porcelana...

Sublime!

A semana passada foi-se, vai longe.

Agora é o Carnaval, a patuscada, a alegria, a “evoé”, a “Filomena”...

Ah! Venerandos sumos pontífices do segundo século! S. Policarpo, Santo Irineu e outros que tais! Empertigados e simplórios bispos do concílio de Niceia! — Felizmente estais mortos. Se pudésseis ver o que aqui se passa mil novecentos e quinze anos depois da execução do Messias, mandáveis à breca todas as controvérsias que tivestes para reputar aquelas coisas da Páscoa.
Rio, 5 de abril de 1915

Graciliano Ramos, "Linhas tortas"

sábado, abril 16

Manhã

 

Silvana Cimieri 

O papel e a tinta

Certo dia, uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras folhas exatamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha.

        - Porque você não me poupou dessa humilhação? – disse, furiosa, a folha de papel para a tinta.

        - Espere! – respondeu a tinta. – Eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora você não é mais apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você se transformou num documento precioso!

        E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas para jogá-las na lareira. Mas subitamente reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita.
Leonardo da Vinci, "Fábulas e lendas"