terça-feira, maio 23

Mate moscas nas alturas


 

Noite de sexta-feira

Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira.

Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pelo e raiva…

Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:

– São Jorge, Santo Onofre, São José!

Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e de lá de cima, do galho mais firme aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquice que nunca cuidei que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei.
José Cândido de Carvalho, "O Coronel e o Lobisomem"

Grande escola


O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola
Lin Yutang

A sombra do Romariz

Dizer que não trabalho mais à noite, no jornal, não é bem verdade. Licenciei-me por alguns meses, para lá não ir à noite. Quando há desses turumbambas políticos, na cidade, fujo do trabalho noturno. E faço semelhante coisa principalmente quando vejo certos nomes metidos neles.

Quem expunha isto era o tipógrafo Brandão a seu colega Barbalho que tinha observado àquele a sua ausência das oficinas do Diário Carioca, naqueles últimos dias.

Brandão continuou:

– Quando vejo tais nomes fico cheio de pavor, meu ânimo se estiola, não tenho coragem para nada, toda a minha personalidade é atingida de seca. Há dias, a mulher me pediu que fosse reconhecer a firma de um papel necessário a ela, a fim de receber uma pensão. Fui para a oficina, de manhã, hesitei, tive medo, afinal dei uma gorjeta a um aprendiz, para ir ao tabelião.

– Então, sempre estás trabalhando de dia?

– Que fazer? Preciso de algum dinheiro para as despesas inadiáveis; mas, à noite, nunca.

– Porque isto?

– É a sombra do Romariz.

– Quem é ou quem foi esse Romariz?

– Eu te conto. Em 1890, acabava-se de proclamar a República. Isto há trinta anos. Eu tinha vinte e poucos. De dia, trabalhava na Casa Mont’Alverne; e, a noite, fazia uns bicos, na Tribuna Liberal. Um jornal apaixonadamente monarquista que atacava o governo provisório sem peso, nem medida. A bem dizer, não o lia ou mal o lia, porque, quando deixava a oficina da Tribuna, para pegar o último bonde de Vila Isabel, onde morava, ele ainda não estava impresso.
A campanha da Tribuna era superiormente feita e levada com rijeza, no dizer de todos. Começou-se a falar que iam empastelar a folha. O governo desmentiu, assinalando que era seu ponto de honra manter a liberdade de pensamento e de imprensa.

Continuei a trabalhar com mais coragem e sossego. Vi senão quando, aí pelas oito ou nove horas, entrar pela oficina adentro o aprendiz assustado e avisando cheio de terror: “Fujam! Fujam! Lá vêm eles!” Perguntado o que havia, contou que descia pela Rua do Ouvidor um magote de gente, fardados e outros à paisana, a gritar: “Morram os sebastianistas! Morra a Tribuna Liberal! Viva o Marechal Deodoro!” etc., etc.

À vista da narração do pequeno, todos trataram de fugir. Em nenhuma seção do jornal ficou viva alma. Redatores, revisores, compositores, impressores – todos fugiram. Só ficou no edifício o Romariz, um pobre revisor que dormia profundamente, descansando a cabeça sobre os braços cruzados e estes sobre a mesa de trabalho.

Por mais que o sacudissem e o chamassem, não foi possível despertá-lo. O tempo urgia; e o infeliz revisor lá ficou abandonado. Ele vivia tresnoitado; trabalhava dia e noite para manter a mãe e os irmãos. Tinha um pequeno emprego na estrada de ferro, que mal lhe dava para pagar a casa em subúrbio longínquo; lançara mão do ofício de revisor de provas, para acrescentar sua renda. Saía tarde do jornal; havia poucos trucks naquele tempo; e, muitas vezes, só ia em casa para mudar o colarinho, comer um pouco e voltar à cidade, a fim de assinar o ponto na Central.

Como te disse, foi ele o único que ficou, devido a seu profundo sono, perfeitamente explicável como tu já viste. Os assaltantes foram entrando, quebrando balcões, máquinas, derramando as caixas de tipos no chão, enquanto outros subiam ao primeiro andar cheios de raiva que, neles, nada explicava. Topando com o Romariz dormindo, nem se deram ao trabalho de despertá-lo. Foram-no desancando de cacete e de coices de armas na cabeça e ele mesmo sem saber porque. Vi-lhe o cadáver, estava hediondo; vi-lhe a família, que ficava na maior miséria: vi…

– E daí?

– Daí é que quando há desses turumbambas políticos, vejo a sombra do Romariz que me diz: “Não vás trabalhar, à noite”.

– És espírita?

– Não; mas há muito mistério nesta nossa triste vida terrena.
Lima Barreto,"Careta" (1922)

segunda-feira, maio 22

Os muros absurdos

Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer. A constância de um movimento ou repulsão dentro da alma se reconhece em hábitos de fazer ou de pensar e se persegue em consequências que a própria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido ou miserável. Com sua paixão, aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu próprio clima. Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo, isto é, uma metafísica e um estado de espírito. O que é verdadeiro para sentimentos já especializados o será mais ainda para emoções, no fundo, a um tempo tão indeterminadas, tão confusas e tão “certas”, tão distantes e tão “presentes” quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o absurdo nos suscita.

O sentimento da absurdidade para com o desvio de uma rua qualquer pode se meter na cabeça de homem qualquer. Assim como, em sua desoladora nudez, em sua luz sem cintilação, ele é incapturável. Mas até essa dificuldade merece reflexão. É provavelmente certo que um homem permanece para sempre desconhecido de nós e que para sempre haverá nele alguma de irredutível que nos escapa. Mas, praticamente, conheço os homens e os reconheço em seu comportamento, no conjunto de seus atos, nas consequências que sua passagem vai provocando na vida. De igual modo, todos esses sentimentos irracionais que a análise não saberia dominar eu posso praticamente defini-los, praticamente apreciá-los, para reunir a soma de suas consequências na ordem do entendimento, para captar e anotar todos os seus aspectos, para descrever seu universo. É verdade que, aparentemente, por ter visto cem vezes o mesmo ator, eu não conhecerei pessoalmente melhor esses seus traços. No entanto, se faço a soma dos heróis que ele encarnou e se digo que o conheço um pouco mais na centésima personagem recenseada, já se sente que haverá aí uma parcela de verdade. Porque aparente paradoxo é também um apólogo. Tem a sua moralidade. Ensina-nos que um homem se define tanto por suas comédias quanto por seus impulsos sinceros. Dá-se o mesmo, um tom abaixo, com sentimentos inacessíveis no coração mas parcialmente traídos pelos atos que os animam e os estados de espírito que pressupõem. Sente-se que, dessa maneira, defino um método. Mas também se sente que esse método é de análise e não de conhecimento. Porque os métodos envolvem metafísicas, traem na sua insciência as conclusões que, às vezes, pretendam ainda não conhecer. Por isso as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras. É um nó inevitável. O método aqui definido confessa a percepção de que todo verdadeiro conhecimento é impossível. Só se podem enumerar as aparências e se fazer sentir o clima.

Então, talvez possamos atingir esse inapreensível sentimento da absurdidade nos mundos diferentes, mas fraternos, da inteligência, da arte de viver ou da arte simplesmente. O clima da absurdidade está no começo. O fim é o universo absurdo e esse estado de espírito que aclara o mundo com uma luz que lhe é própria, para fazer com ela resplandecer o rosto privilegiado e implacável que nele identifica.

Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos tem um começo irrisório. As grandes obras nascem, frequentemente, na esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante. Assim também a absurdidade. O mundo absurdo, mais que qualquer outro, extrai sua nobreza desse nascimento miserável. Em certas situações, responder "nada" a uma questão sobre a natureza de seus pensamentos pode ser uma dissimulação para com um homem. Os entes queridos sabem disso. Mas se essa resposta é sincera; se representa esse estado d'alma em que o vazio se torna e eloquente, em que a cadeia dos gestos cotidianos é rompida, e em que o coração inutilmente procura o anel que a restabeleça, então ela é como que o primeiro sinal da absurdidade.

Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porque” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. “Começa”, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples “preocupação” está na origem de tudo.

Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro: “amanhã”, “mais tarde”, “quando você tiver uma situação”, “com o tempo você vai compreender”. Essas inconsequências são admiráveis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa ali seu lugar.

Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter-se recusado inteiramente a isso. Essa revolta da carne é o absurdo.

Um degrau mais abaixo e eis a estranheza: dar-se conta de que o mundo é “espesso”, entrever até que ponto uma pedra é estranha, nos é irredutível, e com que intensidade a natureza ou uma paisagem pode nos negar. No fundo de toda beleza jaz alguma coisa de inumano e essas colinas, a doçura do céu, esses desenhos das árvores, eis que no mesmo instante perdem o sentido ilusório de que os revestimos, doravante mais longínquos que um paraíso perdido. A primitiva hostilidade do mundo, através dos milênios, se levanta de novo contra nós. Por um segundo, não a compreendemos mais, porque durante séculos só compreendemos nela as figuras e os desenhos com que previamente a representávamos, e porque doravante nos faltam forças para nos valermos desse artifício. O mundo nos escapa porque volta a ser ele mesmo. Esses cenários mascarados pelo hábito tornam a ser o que são. E se afastam de nós. Assim como há certas horas em que sob o rosto familiar de uma mulher se redescobre como uma estranha aquela que se amara há meses ou há anos, talvez cheguemos até a desejar o que nos torna subitamente tão sós. Mas ainda não é chegada a hora. Só há uma coisa: essa espessura e essa estranheza do mundo é o absurdo.

Os homens também destilam um tanto do inumano. Em certas horas de lucidez, o aspecto mecânico de seus gestos, sua pantomima destituída de sentido faz ficar estúpido tudo aquilo que os rodeia. Um homem fala no telefone por trás de uma divisória envidraçada; não é ouvido, mas se vê sua mímica inalcançável: e se pergunta por que ele vive. Esse desconforto diante da inumanidade do próprio homem, essa queda incalculável diante a imagem do que nós somos, essa “náusea” como a denomina um autor dos nossos dias, é também o absurdo. De igual modo o estranho que em determinados momentos vem ao nosso encontro num espelho, o irmão familiar e no entanto inquietante que reencontramos em nossas próprias fotografias, é ainda o absurdo.

Daí eu chego finalmente à morte e à sensação que temos dela. Sobre esse ponto já se disse tudo e é decente evitar o patético. Mas nunca nos espantaremos suficientemente com o que todo mundo vive como se ninguém o “soubesse”. É que, na realidade, não existe experiência da morte. Num sentido estrito, só é experimentado o que foi vivido e se tornou consciente. Com isso, é indiscutível que se pode falar da experiência da morte dos outros. É um sucedâneo, uma visão do espírito, e jamais ficamos muito convencidos dela.

Essa convenção melancólica não pode ser persuasiva. Na realidade, o horror provém do lado matemático do acontecimento. Se o tempo nos assusta, é que ele faz sua demonstração. A solução poderá vir em seguida. Todos os belos discursos sobre a alma terão aqui, ao menos por algum tempo, uma prova dos nove de seu oposto. Nesse corpo inerte, em que uma bofetada não se distingue mais, a alma desapareceu. Este lado elementar e definitivo da aventura torna absurdo o conteúdo do sentimento. Sob a iluminação mortal desse destino, aparece a inutilidade. Nenhuma moral, nenhum esforço são a priori justificados ante as sangrentas matemáticas que organizam a nossa condição.

Ainda uma vez, tudo isso já foi dito e redito. Limito-me a fazer aqui uma classificação rápida e a indicar esses temas evidentes. Eles circulam através de todas as literaturas e todas as filosofias. A conversa de todos os dias se nutre deles. Não se trata de reinventá-los. Mas é preciso se certificar dessas evidências para poder se interrogar, em seguida, sobre a questão primordial. O que me interessa, faço questão de repetir, não são tanto as descobertas absurdas. São suas consequências. Se nos certificarmos desses fatos, o que será preciso concluir, até onde ir para deixar de pesquisar? Será preciso morrer voluntariamente ou, apesar de tudo, esperar? É necessário, antes, fazer o mesmo recenseamento rápido no plano da inteligência.

O primeiro procedimento do espírito é distinguir o que é verdadeiro do que é falso. No entanto, desde que o pensamento reflete sobre ele mesmo o que descobre é, inicialmente, uma contradição. É inútil esforçar-se para ser convincente a esse respeito. Durante séculos ninguém tratou o caso com uma demonstração mais clara e mais elegante que a de Aristóteles: “A consequência frequentemente ridicularizada dessas opiniões é que elas se destroem por si mesmas. Porque, afirmando que tudo é verdadeiro, afirmamos a verdade da afirmação oposta e, consequentemente, a falsidade da nossa própria tese (pois a afirmação oposta não admite que ela possa ser verdadeira). E, se dizemos que tudo é falso, também esta afirmação se torna falsa. Se declaramos que só é falsa a afirmação oposta à nossa, nos vemos não obstante forçados a admitir um número infinito de julgamentos verdadeiros ou falsos. Porquanto, quem emite uma afirmação verdadeira declara ao mesmo tempo que ela é verdadeira, e assim por diante até o infinito.”

Esse círculo vicioso é só o primeiro de uma série em que o espírito que se inclina sobre si mesmo se perde em um torvelinho vertiginoso. A própria simplicidade desses paradoxos leva a que sejam irredutíveis. Sejam quais forem os trocadilhos e as acrobacias da lógica, compreender é, antes de tudo, unificar. O desejo profundo do próprio espírito em seus procedimentos mais evoluídos vai ao encontro da sensação inconsciente do homem diante do universo: ele exige familiaridade, tem fome de clareza. Para um homem, compreender o mundo é reduzi-lo ao humano, marcá-lo com o seu selo. O universo do gato não é o universo do formigueiro. O truísmo de que “todo pensamento é antropomórfico” não tem outro sentido. Assim também o espírito que procura compreender a realidade só pode se considerar satisfeito se a reduz em termos de pensamento. Se o homem reconhecesse que também o universo pode amar e sofrer, ele estaria reconciliado. Se o pensamento descobrisse nos espelhos cambiantes fenômenos, relações eternas que pudessem resumi-los e se resumirem elas próprias num princípio único, se poderia falar de uma felicidade do espírito de que o mito dos bem-aventurados seria apenas um ridículo arremedo. Essa nostalgia da unidade; esse apetite de absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano. Mas que essa nostalgia seja um fato não significa que deva ser imediatamente apaziguada. Porque, se acaso transpondo o abismo que separa o desejo da conquista, afirmamos com Parmênides a realidade do Um (seja lá o que ele for), caímos na ridícula contradição de um espírito que afirma a unidade total e com a própria afirmação prova a sua diferença e a diversidade que pretendia resolver. Basta esse novo círculo vicioso para sufocar as nossas esperanças.

Uma vez mais temos aí evidências. Repetirei, novamente, que elas não são interessantes em si mesmas e sim nas consequências que se podem tirar delas. Conheço outra evidência: diz-me que a homem é mortal. No entanto, podem-se contar os espíritos que tiraram disso as conclusões extremas. É preciso considerar como uma referência permanente, neste ensaio, a constante separação entre o que imaginamos saber e o que realmente sabemos, o consentimento prático e a ignorância simulada que nos levam a viver com ideias que, se verdadeiramente experimentássemos, deveriam perturbar toda a nossa vida. Diante dessa contradição inextricável do espírito, compreenderemos com precisão e sem reserva o divórcio que nos separa de nossas próprias criações. Enquanto o espírito se cala no mundo imóvel de suas esperanças, tudo se reflete e se organiza na unidade da sua nostalgia. Mas, em seu primeiro movimento, o mundo se racha e se desmorona: uma infinidade de clarões resplandecentes se oferecem ao conhecimento. É preciso desistir, para sempre, de reconstruir com isso a superfície familiar e tranquila que nos daria paz ao coração. Depois de tantos séculos de pesquisa, e de tanta abdicação entre os pensadores, sabemos bem que isso é verdadeiro para todo o nosso conhecimento. Excetuando-se os racionalistas por profissão, hoje já não se tem esperança do verdadeiro conhecimento. Se fosse necessário escrever a única história significativa do pensamento humano, seria preciso fazer a dos arrependimentos e das impossibilidades.

De quem e de que, de fato, posso dizer “conheço isso”? Este coração, em mim, posso experimentá-lo e julgo que ele existe. Este mundo, posso tocá-lo e julgo ainda que ele existe. Para aí toda a minha ciência, o resto é construção. Porque, se tento agarrar este eu de que me apodero, se tento defini-lo e sintetizá-lo, ele não é mais do que uma água que corre entre meus dedos. Posso desenhar um por um todos os rostos que ele sabe usar, todos aqueles também que lhe foram dados, essa educação, essa origem, esse ardor ou esses silêncios, essa grandeza ou essa mesquinhez. Mas não se adicionam rostos. Até este coração que é o meu continuará sendo sempre, para mim, indefinível. Entre a certeza que tenho da minha existência e o conteúdo que tento dar a essa segurança, o fosso jamais será preenchido. Serei para sempre um estranho diante de mim mesmo. Em psicologia, como em lógica, há verdades mas não há verdade. O “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates tem tanto valor quanto o “sê virtuoso” do nossos confessionários. Revelam uma nostalgia, ao mesmo tempo que uma ignorância. São jogos estéreis sobre grandes assuntos. São legítimos apenas na medida exata em que são aproximativos.

Eis aí também as árvores e conheço suas rugas, eis a água e experimento-lhe o sabor. Esses perfumes de relva e estrelas, a noite, certas tardes em que o coração se descontrai, como eu negaria o mundo de que experimento o poder e as forças? Contudo, toda a ciência dessa terra não me dará nada que me possa garantir que este mundo é para mim. Vocês o descrevem e me ensinam a classificá-lo. Vocês enumeram suas leis na minha sede de saber, concordo que elas sejam verdadeiras. Vocês desmontam seu mecanismo e minha esperança aumenta. Por último, vocês me ensinam que esse universo prestigioso e colorido se reduz ao átomo e que o próprio átomo se reduz ao elétron. Tudo isso é bom e espero que vocês continuem. Mas vocês me falam de um invisível sistema planetário em que os elétrons gravitam ao redor de um núcleo. Vocês me explicam esse mundo com uma imagem. Reconheço, então, que vocês enveredam pela poesia: nunca chegarei ao conhecimento. Tenho tempo para me indignar com isso? Vocês já mudaram de teoria. Assim, essa ciência que devia me ensinar tudo se limita à hipótese, essa lucidez se perde na metáfora, essa certeza se resolve como obra de arte. Para o que é que eu precisava de tantos esforço? As doces curvas dessas colinas e a mão da tarde sob este coração agitado me ensinam muito mais.

Compreendo que se posso, com a ciência, me apoderar dos fenômenos e enumerá-los, não posso da mesma forma apreender o mundo. Quando tiver seguido com o dedo todo seu relevo, não saberei nada além disso. E vocês me levam a escolher entre uma descrição que é certa, mas que não me informa nada, e hipóteses que pretendem me ensinar, mas que não são certas. Estranho diante de mim mesmo e diante desse mundo, armado de todo o apoio de um pensamento que nega a si mesmo a cada vez que afirma, qual é essa condição em que só posso ter paz com a recusa de saber e de viver, em que o desejo da conquista se choca com os muros que desafiam seus assaltos? Querer é suscitar os paradoxos. Tudo é organizado para que comece a existir essa paz envenenada que nos dão a negligência, o sono do coração ou as renúncias mortais.

Também a inteligência, portanto, me diz à sua maneira que este mundo é absurdo. Seu oposto, que é a razão cega, inutilmente afirmou que estava tudo claro: eu esperava provas e desejava que ela tivesse razão. Mas, apesar de tantos séculos pretensiosos, repletos de tantos homens eloquentes e persuasivos, sei que isso é falso. Pelo menos nesse aspecto, não existe felicidade se eu não posso saber. Essa razão universal – moral ou prática –, esse determinismo, essas categorias que explicam tudo têm com que fazer rir o homem honesto. Não têm nada a ver com o espírito. Negam sua verdade profunda, que é estar acorrentado. Nesse universo indecifrável e limitado o destino do homem, daí em diante, adquire seu sentido. Uma multidão de irracionais se levantou e o cerca até o último objetivo. Em sua perspicácia reavida e agora harmonizada, o sentimento do absurdo se aclara e se precisa. Eu dizia que o mundo é absurdo: estava andando muito depressa. Esse mundo em si mesmo não é razoável: é tudo o que se pode dizer a respeito. Mas o que é absurdo é o confronto entre esse irracional e esse desejo apaixonado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. É, no momento, o único laço entre os dois. Colados um ao outro como só o ódio pode fundir os seres. É tudo o que posso discernir nesse universo sem limites em que prossegue a minha aventura. Paremos aqui. Se considero verdadeira essa absurdidade que regula minhas relações com a vida, se me compenetro desse sentimento que se apossa de mim ante os espetáculos do mundo, desse descortino que me impõe a busca de uma ciência, devo tudo sacrificar a estas certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. E devo, sobretudo, pautar de acordo com elas o meu comportamento, levando-as adiante em todas as suas consequências. Estou falando de honestidade. Mas quero saber, doravante, se o pensamento pode viver em tais desertos.
Albert Camus, "O Mito de Sísifo"

Espinhos que nos sustentam

 


A descoberta do mundo

O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu quereria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.

Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.


Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava, mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesma, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei que sei.

As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive contavam anedotas a respeito. Eu não entendia, mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância.

Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência.

Até que um dia, já passados os treze anos, como se só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia antes fingido. Mas terminou sentindo minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo na esquina de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era uma menina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. Mentalmente eu gaguejava: mas por quê? mas para quê? O choque foi tão grande – e por uns meses traumatizante – que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar.

Embora meses depois esquecesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros.

Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.

Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios.

Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.

Pois juro que a vida é bonita.
Clarice Lispector

Decadência e esplendor da espécie

Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.

Esta ausência de pelos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes.

E, depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendendo, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados.

Se fôssemos peludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como cavalos.

Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário, que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos), redime um pouco esta degenerescência.

E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada.

E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova da nossa artificialidade.

Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim.

O homem, esse mascarado…

Mário Quintana, "Caderno H"

quinta-feira, maio 18

Homem-foguete

 


Um escritor nasce e morre

I

Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas, umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos, Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos.

Foi aí que nasci: Nasci na sala do 3º ano, sendo professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e de um rio, a Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então, nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Pólo Norte.

É talvez a mais curta narração no gênero. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana:

— Juquita, que que você está fazendo?

0 rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu:

— Me dá esse papel aí. . . Me dá aqui.

Eu relutava, mas seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhando para mim, gozando já o espetáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:

— Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.

Uma pausa, e rematou:

— Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor.

A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.

A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à sobrestimação de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma exceção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente régio naqueles tempos é naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para. alívio do Marechal Lopez.

II

Escrevi. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redator da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão “tímidas cecéns”, que me indignou. Cá fora, revistas literárias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjetivos. Não me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse.

Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos folheavam, trêmulos, o número de sábado, ainda cheirando a tinta de impressão! Publicou… Não publicou… E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensação incômoda do homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. Havia semanas em que o Fon-Fon!, o Para Todos, a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerário suficiente para adquirir todas as revistas, e então o copo de leite quente, com pão e manteiga, à noite, antes de ir para a pensão, sacrificava-se com galanteria às belas-letras.

Escrevi muito, não me pejo de confessá-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para duração, certo trabalho de jardinagem. É verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmódicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calçava as ruas, dando às almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de fôrma comovia a pequena cidade, e dava-lhe esperança de que o meu talento viesse a resgatar o melancólico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com o progresso a 50 quilômetros de distância e cabritos pastando na rua.

Não houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei lá. De lá ninguém me escreveu, pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. 0 escritor tornou-se urbano.

III

Publiquei três livros, que foram extremamente louvados por meus companheiros de geração e de pensão, e que os críticos acadêmicos olharam com desprezo. Dois volumes de contos e um de poemas. Distribuí as edições entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.

Sobretudo entre as últimas. Minha tática, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu não era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feição estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando não obstante.

— O senhor escreve coisas lindíssimas, eu sei…

— Calúnia de meus inimigos. Infelizmente, é impossível viver sem fazer inimigos. Eles é que espalham isso, não acredite…

Meu sorriso ambíguo, de dentes não suficientemente íntegros (ganhei fama de irônico por causa do sorriso envergonhado) sublinhava a intenção discreta da negativa.

O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.

IV

Escrevia realmente para que, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projetos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos.

Dessa incontaminação brotara, mesmo, certa vaidade. “Artista puro”, murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa. “Não traia o espírito”, acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o espírito não protestasse, eu me atribuía essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E não queríamos nada, não esperávamos nada. Éramos muito felizes, embora não soubéssemos, como acontece geralmente.

O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. Éramos ferozmente solitários. Em cada Estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregários, distribuía louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os acadêmicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerância, inveja, malícia e incompreensão, intensamente misturadas. O fato de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoçava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um grão de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era não somente absurdo como prova de extrema infelicidade. Até certo ponto, os acadêmicos mereciam simpatia. Como os dromedários, animais estranhos que não podem ser responsabilizados pelo gênero de vida que lhes impõe o vício de nascença.

Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligássemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de nós. Desgraçadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recíproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Entretanto…

Licurgo, que compusera comigo o “Poema do Cubo de Éter”, descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivência. Mas, sua voz, continuou pregando os novos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafísica.

Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operários Americanos, de Lenine, e começando a colaborar no Grito Proletário, sofreu de minha parte uma campanha de descrédito intelectual. Voltou-se para a ação política, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade até o golpe de 35, quando emudeceu.

A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanálise, que procurei desmoralizar na primeira reunião, introduzindo sub-repticiamente entre os sócios, antes da votação dos estatutos, volumosa quantidade de uísque, genebra e gim. A sessão dissolveu-se em álcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem-aventurados que se entretinham na interpretação onírica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalências.

Fundaram-se sucessivamente, a Associação dos Amigos dos Livros de História, a Academia dos Gramáticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentação Racional, a Sociedade de Aculturação Ário-Africana, o Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Genética.

Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando.

Todos optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo à página editorial. Alguns recebiam manifestações de apreço, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de Estado. Vários compraram lotes, começaram a edificar. Um deles, extraordinário, conquistou um cartório. A floração de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha geração.

Eu perseguia o mito literário, implacavelmente, mas, sem fé. Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crônicas mais fascinantes do que nesse tempo de crescente solidão. Solidão, solidão… Era só o que havia em torno a mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, não haveria ninguém para dirigir os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto, para que bondes, relógios?… Já não havia ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se decompunham… Tudo ia escurecendo… escurecendo… Mas eu andava, eu continuava, eu não queria acreditar…

Risquei um fósforo, já sob a escuridão absoluta, e na lâmpada que minhas mãos em concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Então morri. Dou minha palavra de honra que morri, estou morto, bem morto.
Carlos Drummond de Andrade

Filho de pisadela e beliscão

Logo que pode andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão. Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, esperava com ele todos os móveis, punha-lhe dentro tudo o que encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa; até que Maria, exasperada pelo que aquilo havia de custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancava-lhe das mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas.
Assim chegou aos sete anos.

Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo começava a arrepender-se seriamente de tudo que tinha feito por ela, e tinha razão porque, digamos depressa e sem mais cerimônia, havia ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atraiçoado. Havia alguns meses atrás tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava olhares curiosos, através das rótulas: uma ocasião, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou sem mais novidade.

Depois começou a estranhar eu um certo colega seu o procurasse em casa, para tratar de negócios do ofício, sempre em horas desencontradas: porém isto também passou breve. Finalmente aconteceu por três ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capitão do navio em que tinha vindo de Lisboa, e isto causou-lhe sérios cuidados. Um dia de manhã entrou sem ser esperado pela porta adentro; alguém que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua, e desapareceu.

À vista disso nada havia a duvidar; o pobre homem perdeu, como se costuma dizer, as estribeiras; ficou cego de ciúmes. Largou apressado sobre um banco uns autos que trazia embaixo do braço, endireitou para Maria com os punhos cerrados.

- Grandessíssimo! ...

E a injúria que ia soltar era tão grande que o engasgou... e pôs-se a tremer com todo o corpo.

A Maria recuou dois passos e pôs-se em guarda, pois também não era das que receava com qualquer cousa.

- Tira-te, ó Leonardo!

- Não chames mais pelo meu nome, não chames... que tranco-te esta boca a socos...

- Safe-se daí! Quem lhe mandou pôr-se aos namoricos comigo a bordo?

Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição e o ciúme e a raiva de que se achava possuído transbordaram em socos sobre Maria, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar:

- Ai... ai... acuda, Senhor Compadre... Senhor Compadre!

Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês e não podia larga-lo.

Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Escolheu-se a choramingar em um canto.

O menino assistira a toda essa cena com imperturbável sangue-frio: enquanto a Maria apanhava e o Leonardo esbravejava, ele ocupava-se tranquilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha largado ao entrar, e em fazer delas uma grande coleção de cartuchos.

Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo pôde ser alguma cousa mais do que ciúme, reparou então na obra meritória em que se ocupava o pequeno.
Enfureceu-se de novo: suspendeu o menino pelas orelhas, fê-lo dar no ar uma meia-volta, ergue o pé direito, assenta-lhe em cheio sobre os glúteos, atirando-o sentado a quatro braças de distância.

- És filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta.

Manuel Antônio de Almeida., "Memórias de um Sargento de Milícias"

quarta-feira, maio 17

Leitura nas estrelas

 

 Hannes Bok

Fábulas

Fábulas de animais - incluindo fábulas de peixes mortos que falam - têm estado entre as histórias mais persistentes do cânone oriental; e as melhores entre elas, ao contrário, digamos, das fábulas de Esopo, são amorais. Não procuram pregar sobre humildade ou modéstia ou moderação ou honestidade ou abstinência. Não garantem o triunfo da virtude. Como resultado, parecem extraordinariamente modernas. Por vezes, os maus da fita ganham.

A colecção conhecida na Índia como Panchatantra apresenta um par de chacais que falam, Karataka, o bom ou melhor dos dois, e Damanaka, o malvado conspirador. No início do livro estão ao serviço do rei leão, mas Damanaka não gosta da amizade do leão com outro cortesão, um touro, e convence o leão a acreditar que o touro é um inimigo e a assassinar o animal inocente enquanto os chacais assistem.

Fim.

Nos contos de Karataka e Damanaka também lemos sobre uma guerra entre corvos e corujas em que um corvo finge ser um traidor e se junta às corujas para descobrir a localização da caverna onde vivem. Depois os corvos ateiam fogo em todas as entradas da gruta e as corujas sufocam até à morte.

Fim.
Salman Rushdie, "Linguagens da Verdade"

Em nova casa

A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia as pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.

Outra característica da casa eram as batidas na porta, de mulheres desagradáveis, às três ou quatro horas da manhã. Certamente não eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam a aventura. A verdade mesmo é que a maioria delas não tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu não fazia muita força pra ir pra cama com elas.

Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.

Bukowski a trabalho

Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, também mudava. Antes era quase todo de classe média branca, mas os problemas políticos na América Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivíduo para a área. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmãos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pátios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pátio.

As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pátio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. Não tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens também permaneciam trancados. Não era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa única unidade. Os únicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguéis. Como sobreviviam, não se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sérios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caídos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros.

Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imóveis. Às vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. Não tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes não respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.

Após um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos não os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capô, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lá, para que não as roubassem durante a noite.

Quando eu vivia lá, havia duas filas de carros no pátio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imóveis em suas varandas, de camiseta. Às vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuíam. Aparentemente, não compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando o jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fáceis.

Bem, deixa pra lá. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, não se tratava na verdade de uma “fuga branca” diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.

Finalmente, após algumas semanas de busca de casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestações mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o pátio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lá uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas será que alguém acha, algum dia?

Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lá.

O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convencê-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
Charles Bukowski, "Hollywood"

terça-feira, maio 16

A lenda das borboletas

São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? aí vagabundando pelo azul dos campos, rasando as corolas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjeta, como almas de amantes despidas da miséria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...

Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surpreendê-las na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras misteriosas dos bambuais, com as suas longas asas palpitantes, lanceoladas, em matizes maravilhosos, de negros aveludados, de azuis meigos, de amarelos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de cetim, de sedas de alto preço...

Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, há longos séculos, uma pacífica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do lugar que hoje se diz Xangai. Como fosse muito dada a estudos literários e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus pais lhe permitissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do império. Volveu ao lar após três anos; volveu tão pura como fora; da sua inocência há provas irrecusáveis. Para não divagar muito nestas páginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ela enterrara na lama em presença duma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzela; e basta saber que as flores da sua preferência, que ela deixara no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ela, assim se conservaram durante a longa ausência, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com água quente tirada da chaleira.

Durante os três anos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparável, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.

Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração ver o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda dum amigo como aquele. A moça consolava-o. A moça pousava-lhe nos ombros as suas mãos gentis, e exortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, até alcançar um alto grau de sapiência. — “E depois, dizia-lhe ela entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem ver-me à minha aldeia.” — E dava-lhe indicações precisas do lugar. Despediram-se, entre choros.

A donzela esperou, esperou, esperou, — quem poderá descrever esse tormento? guardando da família o seu segredo; e o moço não aparecia. Segundo os usos do país, os pais destinaram-lhe um marido; e ela, a desolada, escrava da obediência filial, obediência cega, indiscutível, que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, aceitou, sem que uma só queixa proferisse.

Três dias decorridos depois do contrato nupcial, eis que chega à aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico de erudição, de uma alma culta, e ocupando um lugar proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegância das vestes que lhe são próprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnorteia-o; mas tudo se aclara; da amizade ao amor o salto é rápido. Oh! ele ama-a agora, ele ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mistérios de adorações e de desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos pais prezam mais do que tudo, a própria honra.

Ele parte; ele parte para um lugar vizinho, louco, com a alma embebida no fel dos desesperos. É ainda ela, a doce pomba obediente, que tenta consolá-lo. Ela escreve-lhe; ela diz-lhe que a vida não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um consórcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas que as almas são livres, emigram duns corpos para outros; encarnam-se noutros seres; que ele sossegue, aguarde outra existência, para a qual ela lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo dessa carta, onde tão demoradamente pousara a mão da sua bela, e engole-o, e sufoca-se com ele, e exala assim na solidão o último suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.

Soam bátegas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela longa estrada em zigue-zague, bordada aqui e ali de bambus e bananeiras, doirada pelo sol do meio-dia, serpeia em rutilantes teorias o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.

O estilo de há mil anos é o mesmo estilo de hoje. São os grandes balões, os estandartes, conduzidos por moços vestidos de vermelho. São os enxovais primorosos, as cabaias, a coleção dos sapatinhos, tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as colossais peças de doçaria, castelos de açúcar, dragões de açúcar, coisas espantosas. São os porcos assados, louros, deliciosos, espalmados sobre os tabuleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orquestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as crianças ataviadas em cetins, em alegorias de cenas de outros tempos, cavalgando alimárias pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ela ouros, toda ela esmaltes, fechada como um cofre, furtando à vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.

A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, daquela sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por ela. Quem lhe recusaria tal licença? Ei-la que desce da liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e ei-la que se prostra, ei-la que beija a terra...

A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos avançam a detê-la; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de súbito numa borboleta de mil cores, que voa das mãos rudes, e desaparece no azul, desaparece!... É desde aquela época que há borboletas neste mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...

Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada pelos séculos, daqueles amorosos. E as esposas desprezadas além vão em romaria, e daquela terra bendita se suprem às mãos cheias, e dela provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o estranho tempero, aquela terra, que em alguma coisa participa da essência dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude consigo, e é sempre eficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.
Wenceslau de Moraes

Dilema das crianças tech

 


Estranho mistério que é o homem!

Assim que chegamos, fomos nos deitar. Zorba esfregava as mãos, satisfeito.

— Dia bom esse, patrão! Bem cheio, puxa! Pense bem: esta manhã estávamos lá nos confins do mosteiro e levamos o Higumeno no embrulho. Que a sua maldição nos caia em cima. Depois descemos, encontramos Dona Bubulina, ficamos noivos. Olhe aqui a aliança! Ouro de primeira. Ainda restavam duas libras inglesas, diz ela que quem deu foi o almirante inglês no final do outro século. Ela estava guardando para o enterro, mas preferiu mandar o joalheiro fazer as alianças.
 Estranho mistério que é o homem!

— Dumas, Zorba — disse eu. — acalme-se! Por hoje basta. Amanhã teremos uma solene cerimônia: vamos plantar a primeira pilastra do teleférico. Mandei dizer ao padre Stefânio para vir.

— Fez bem, patrão, não é bobagem, não! Que venha o padre-barba-de-bode, que venham também as maiorias da aldeia; vamos até distribuir umas velinhas para eles acenderem. Essas coisas causam impressão: consolidam os nossos negócios. Não olhe para o que eu faço, eu cá tenho um Deus pessoal e um Diabo pessoal. Mas as pessoas...

Pôs-se a rir. Ele não podia dormir, com o cérebro em ebulição.

— Olhe — disse ao cabo de um momento, — o meu velho avô... a terra lhe seja leve!... era também um debochado como eu; e mesmo assim, o velho sacripanta foi ao Santo Sepulcro e se tornou hadji. Deus sabe pra quê! Quando voltou à aldeia, um de seus compadres, ladrão de cabras que nunca fizera nada de limpo, lhe disse: “Então, compadre, não trouxe um pedaço da Santa Cruz do Sepulcro?” — “E como é que eu não trouxe! Diga, meu sabido compadre, acha que eu ia me esquecer de você? Vá esta noite lá em casa, leve o padre para abençoar e eu lhe entrego. Leve também um leitãozinho assado e vinho, vamos festejar o acontecimento.

De tardinha, meu avô chega em casa. Tira da porta, já toda carcomida, uma lasquinha de madeira, não maior que um grão de arroz, envolve num pouco de algodão, pinga em cima uma gota de azeite e espera. Logo depois, chega o compadre com o padre, o leitãozinho e o vinho. O padre põe a estola e dá a bênção. Ele faz a entrega do pedaço da madeira e depois todos se atiram ao leitão.

Pois acredite se quiser, patrão! O compadre se ajoelhou diante do pedaço de porta, depois pendurou-o no pescoço, e desse dia em diante virou outro homem. Mudou em tudo e por tudo. Foi para a montanha, juntar-se aos armatolas e aos cleftas (Tribos Guerreiras do Norte da Grécia, sob o domínio Turco), incendiar aldeias turcas. Corria, valente, no meio das balas. Por que devia ter medo? Trazia com ele um pedaço da Santa Cruz, o chumbo não podia atingir o seu corpo.
Zorba desatou a rir.

— A ideia é tudo — disse. — você tem fé? Então uma lasca de porta velha vira uma Santa relíquia. Você não tem fé? A Santa Cruz todinha vira porta velha.

Admirava esse homem cujo cérebro funcionava com tanta segurança e audácia e cuja alma, em qualquer ponto que se tocasse, lançava fagulhas.

— Já esteve na guerra, Zorba?

— E eu sei? — respondeu franzindo a testa. — não me lembro. Que guerra?

— Bem, quero dizer, você já foi lutar pela pátria?

— Se você mudasse de assunto, hein? Besteiras passadas, besteiras esquecidas.

— Chama isso de besteiras, Zorba? Não tem vergonha? É assim que fala da sua pátria?

Zorba levantou a cabeça e olhou-me. Estava estirado na cama e por cima de mim brilhava a lâmpada de azeite. Fitou-me um longo momento, com severidade; depois, agarrando os bigodes com ambas as mãos:

— Você é ingênuo e pedante, patrão... salvo o devido respeito — disse finalmente. — tudo o que digo é como se estivesse cantando.

— Como assim? — protestei. — compreendo muito, Zorba!

— Sim, você compreende com a cabeça. Você diz: “isto é justo, isto não é justo; é assim ou não é assim; você está certo ou está errado”. Mas isso leva a gente para onde? Enquanto você fala, eu observo seus braços, seu peito. Pois bem, que é que eles fazem? Ficam mudos. Não dizem nada. Como se não tivessem uma gota de sangue. Então, como é que você quer compreender? Com a cabeça? Pff!

— Vamos, fale claramente, Zorba, não tente fugir! — exclamei para excitá-lo. — creio que você não se aflige muito pela pátria, hein, seu malandro?

Zangou-se e deu um soco na parede que fez ressoar a lataria.

— O papaizinho aqui, vociferou, tinha bordado com os próprios cabelos a Igreja de Santo Sofia num pedaço de pano que trazia pendurado no pescoço, contra o peito, como amuleto. Perfeitamente, meu velho, foi com essas grandes patas que eu bordei, e com esses pêlos aqui, que eram, naquele tempo, pretos como azeviche. Esse que lhe fala vagou com Pavlo Melas (oficial grego que se destacou na Guerra contra os comitadjis búlgaros) pelos rochedos da Macedônia — um rapagão, um colosso mais alto que esse barracão, que eu era — com minha fustanela, meu fez vermelho, meus berloques de prata, meus amuletos, meu sabre, minhas cartucheiras e minhas pistolas.

Estava coberto de ferro, de prata e de pregos e quando andava, os metais tilintavam como se passasse um exército! Veja, olhe... olhe... !

Abriu a camisa e abaixou as calças.

— Traga a luz, ordenou.

Aproximei a lâmpada do corpo magro e bronzeado: talhos profundos, cicatrizes de balas, golpes de sabre; seu corpo era uma verdadeira peneira.

— Olhe agora do outro lado!

Virou-se, mostrando as costas.

— Você está vendo, por trás nem um só arranhão. Morou? Então, leve a lâmpada.

— Bobagens! — urrou furioso. — uma vergonha! Meu velho, quando é que o homem vai virar verdadeiramente um homem? A gente veste calça, colarinho, chapéu, mas ainda somos umas mulas, lobos, raposas, porcos. Dizem que somos a imagem de Deus! Quem? Nós? Que piada!

Dir-se-ia que lembranças terríveis lhe vinham ao espírito e ele se exasperava cada vez mais, murmurando, entre os dentes moles e estragados palavras vacilantes.
Levantou-se, pegou a garrafa d’água, bebeu a grandes tragos; depois, refeito, acalmou-se um pouco.

— Onde você me tocar, eu grito — disse ele. — sou todo chagas e pisadelas, e você a me falar de mulheres! Eu, quando senti que era um homem de verdade, parei de olhar para elas. Tocava nelas um minuto, assim, de passagem, como um galo, e depois ia embora. Essas fuinhas sujas, dizia comigo, querem é sugar toda a minha força, puah! Que se enforquem!

Então, peguei meu fuzil e pé na estrada! Entrei para as guerrilhas como comitadji. Um dia, já escurecendo, fui dar numa aldeia búlgara e me escondi num estábulo, na casa do padre búlgaro que era, ele próprio, um feroz comitadji, uma besta sanguinária. De noite, tirava a batina, punha roupas de pastor, pegava nas armas e penetrava nas cidades gregas. Voltava de manhã, antes de clarear o dia, pingando lama e sangue, e ia dizer a missa. Alguns dias antes de minha chegada, ele tinha matado um professor grego na cama, enquanto dormia. Eu, então, entro no estábulo do padre, me deito na palha atrás dos bois, e espero. Lá pela tardinha, vem o padre dar comida aos animais. Aí eu me jogo sobre ele e o degolo como um carneiro; corto as orelhas e guardo no bolso. Eu fazia coleção de orelhas búlgaras, compreende você? Então, pego as orelhas do padre e dou no pé.

Alguns dias depois, volto à mesma aldeia; em pleno meio-dia, fingindo que era mascate. Tinha deixado as armas na montanha e vinha comprar pão, sal, sapatos para os camaradas. Defronte de uma casa, vejo cinco garotinhos, todos de preto, descalços, de mãos dadas, pedindo esmolas. Três meninas e dois meninos. O maior não devia ter mais de dez anos, o menor era ainda um bebê que a mais velha das meninas carregava no braço, beijando e acariciando para ele não chorar. Não sei como, sem dúvida, foi uma inspiração divina, tive ideia de chegar perto deles:

— Vocês são os filhos do padre? — perguntei em búlgaro.

O maior dos meninos levanta a cabecinha:

— Do padre que degolaram outro dia no estábulo — respondeu.

Fiquei com lágrimas nos olhos. A terra começou a girar como uma roda de moinho. Eu me apoiei na parede e ela parou de rodar.

— Venham cá, meus meninos — disse, — cheguem perto de mim. Tiro a bolsa do cinto; estava cheia de libras turcas e de medjidiês. Ajoelho e despejo tudo no chão.

— Tomem — grito eu, — tomem! Tomem!

As crianças se jogam ao chão e começam a catar libras e medjidiês.

— É para vocês, é para vocês! — eu gritava, — peguem tudo!

E ainda deixei com eles a minha cesta com as compras.

— Tudo isso também é para vocês, tomem!

E logo vou ter com camaradas. Saio da aldeia, abro a camisa, tiro a Santa Sofia que eu tinha bordado, rasgo, jogo para o ar, e pernas para que te quero! E até hoje ainda corro...

Zorba encostou-se à parede, voltando-se para mim:

— Foi assim que me libertei — disse.

— Libertou-se da pátria?

— Sim, da pátria — respondeu com voz firme e calma.

E pouco depois:

— Livre da pátria, livre dos padres, livre do dinheiro. Eu vou peneirando. Quanto mais eu vivo, mais eu passo na peneira. Eu me alivio. Como direi? Eu me liberto, viro um homem.

Os olhos de Zorba brilharam, sua boca enorme ria de satisfação.

Calou-se um momento e recomeçou. Seu coração transbordava, não podia mais controlá-lo.

— Teve um tempo que eu dizia: aquele é um turco, um búlgaro; este é um grego. Eu fiz pela pátria coisas que deixavam você de cabelo em pé, patrão. Degolei, roubei, queimei aldeias, violei mulheres, exterminei famílias. Por que? Pretextando que eram búlgaros, turcos. Puah! Vá para o Diabo, seu sujo, eu me xingo muitas vezes. Vá para o Diabo imbecil! Agora, olhe o que eu digo: este é um homem direito, aquele é um sujo. Tanto faz se é búlgaro ou grego, não faz diferença. É bom? É mau? É só o que me pergunto hoje. E mesmo assim, agora que estou envelhecendo, juro pelo pão que como, acho que nem vou perguntar mais. Meu velho, sejam bons ou maus, tenho pena de todos. Quando vejo um homem, mesmo que eu banque o indiferente, isso me dói nas entranhas. Olhe, o coitado, digo para mim, ele também come, bebe, ama, tem medo; ele também tem o seu Deus e o seu Diabo; ele também vai bater as botas, e se deitar bem esticado embaixo da terra e ser comido pelos vermes. Eh! Coitado! Somos todos irmãos. Todos carne para os vermes.
Nikos Kazantzakis, "Zorba, o Grego"

Morto em Resaca

O melhor soldado da nossa guarnição era o tenente Herman Brayle, um dos ajudantes de ordem. Não me recordo bem de onde o general o mandara vir; creio que de Ohio. Para não provocar ciumeira o invejas, o general escolhia seus auxiliares em outros regimentos e todos consideravam isso uma grande honra.

O tenente Brayle era um belo rapaz, de olhos azuis e de cabelos claros. Gostava de andar sempre com o uniforme completo; tinha modos cavalheirescos e uma coragem do leão.

Todos nós apreciávamos Brayle e foi com pesar que notamos — depois da primeiro combate em Stone's River — que ele possuía um torpe defeito: era vaidoso da sua coragem e tinha a mania de se mostrar o mais possível em locais perigosos, só se acautelando quando censurado pelo general. Este, porém, tinha mais que fazer do que tomar conta de seus subordinados.


Brayle montava admiravelmente. Nas refegas, quando os oficiais buscavam abrigo, ele enfrentava proposital e inutilmente o fogo. Enquanto ficávamos apequenados contra o solo por horas a fio, como se faz em luta de campo aberto. Brayle pavoneava-se como se estivesse num passeio. Se tinha de levar uma ordem na linha de fogo, em voz de ir de cabeça baixa e correndo, para evitar ser alvo de algum atirador, ia distraidamente como se estivesse em atividade de lazer. Mas, justiça seja feita, ele não fazia isso por deboche aos camaradas ou para depois se gaba; nunca falava de suas proezas. Apenas, uma vez, disse ao capitão:

— Se algum dia eu morrer por imprudência e por não ter ouvido os seus conselhos, prometa que alegrará os meus últimos momentos, dizendo: — Não lhe dizia eu?

Pouco tempo depois, quando o capitão foi despedaçado por uma bala, Brayle, sem preocupar-se com as granadas, ficou longo tempo junto ao corpo, a recompor os membros esfacelados. Ato heroico fácil do censurar e... difícil de imitar...

Afinal chegou o seu dia. Foi em Resaca, na Geórgia, durante o movimento que resultou da captura de Atlanta. Em nossa frente a linha inimiga de terra corria através dos campos abertos sobre uma leve crista. Em cada momento e em cada ponto do terreno, estávamos próximo do inimigo, mas só poderíamos ocupar espaço quando escurecesse. Estávamos aproximadamente a um quilômetro e meio de distância, numa mata, em semicírculo. A linha inimiga achava-se em forma de uma corda de arco.

— Tenente, vá dizer ao coronel Ward que se aproxime com cautela o mais que puder, para não gastar munição desnecessária. Deixo aqui o cavalo.

Mas antes que alguém pudesse impedir, Brayle galopava em direção ao campo!
— Pare aquele idiota — gritou o general.

Um soldado raso, com mais ambição que do que cérebro, tomou um cavalo e partiu a correr; ele e o animal morreram em campo de honra.

Brayle galopava sem parar, sendo alvo de centenas de disparos, obrigando a nossa linha a ir socorrê-lo, pois ninguém podia suportar tanta brutalidade. Isto culminou em tiroteio dos dois lados e seguiu-se uma luta terrível. Brayle, no entanto, único responsável pela carnificina, estava de pé, o cavalo caído a pouca distância. Logo adivinhei porque ele estava parado. Como engenheiro topográfico eu havia, horas antes, feito um leve exame do terreno e me lembrei do que naquele ponto havia um profundo e sinuoso abismo invisível do local em que nos achávamos; Brayle, porém, ignorava isto.

A passagem era impraticável; mais dois passos e seria a morte. Assim que ele caiu o fogo cessou como que por milagre; só alguns tiros esparsos, do longe em longe quebravam o silêncio.

Entre os objetos encontrados nos bolsos de Brayle, estava uma velha carteira de couro oriunda da Rússia; o general me presenteou-a como recordação de um herói.

Um ano depois da guerra, em caminho para a Califórnia, tirando a carteira do bolso, abria-a e examinei-a. Continha uma carta sem envelope o sem endereço. Era letra de mulher e começava com uma palavra de carinho, mas não havia menção do remetente. Estava assinada em caracteres sublinhados: Querida. Abaixo da assinatura: Marian Mendenhall — São Francisco. Julho de 1862. Dizia a missiva:

“O senhor Winters, a quem sempre odiarei por isso, contou-me que numa batalha qualquer, em Virgínia, onde ele foi ferido, você se escondeu atrás de uma árvore. Penso que ele quer diminuir minha estima por você, pois sabe o quanto detesto a covardia. Prefiro saber da morte do meu amado soldado, a sabê-lo covarde”.
Foram estas as palavras que causaram a morte de uma centena de homens. E a mulher culpada?

Uma tarde lembrei-me de procurar a sra. Mendenhall, a fim de lhe devolver a carta. Tencionava dizer-lhe também qual tinha sido o resultado das suas palavras. Encontrei-a: era linda e gentil.

— A senhora conheceu o tenente Brayle? — indaguei estouvadamente. — Sabe decerto que ele morreu em combate; em sua carteira achei esta carta que lhe pertence.

— Foi muito amável — disse ela depois examinar o documento. — Sinto que tenha tido tanto trabalho por tão pouca coisa.

Depois, reparando numa mancha pardacenta sobre o papel:

— É sangue?... sangue? Não pode ser!

— Senhora — retorqui — é exatamente o sangue de um coração valente e nobre; o melhor coração que conheci.

— Não, não posso suportar a vista de sangue — gritou a moça, atirando a carta à chama do fogo. E depois mais calma:

— Diga-me; como foi que morreu?

Eu ainda tentei instintivamente salvar aquele papel tão sagrado para mim. Voltei a cabeça com a intenção de responder à pergunta. A claridade da chama refletiu-se no seu rosto, espalhando-se sobre toda sua fisionomia uma mancha rubra como se fora sangue.

Nunca vira coisa alguma mais linda do que aquela miserável criatura.

— BrayIe morreu — respondi fitando-a — picado por uma víbora.
Ambrose Bierce