Ainda menino, Jean Genet (1910-1986), que era coroinha, tinha o costume de pegar dinheiro escondido da bolsa da mãe adotiva (a biológica era prostituta e o pai, desconhecido). Passou por reformatórios na adolescência, mas não perdeu o hábito de roubar. Entre 1938 e 1941, passou quase 700 dias na cadeia. No ano seguinte, foi detido novamente (por roubar livros) e condenado a sete meses de prisão. Encarcerado, escreveu suas primeiras obras: o poema “O condenado à morte”, o romance “Nossa Senhora das Flores” e a peça “Heliogábalo”, que permaneceu décadas perdida e foi publicada pela primeira vez no ano passado, na França.
A peça e uma nova tradução do romance acabam de chegar às livrarias brasileiras, convidando à redescoberta de um autor com fama de maldito, pioneiro do que hoje chamamos de autoficção, da representação do desejo homoerótico na literatura e capaz de descrever com lirismo o que há de mais violento no sexo. A obra de Genet já circulou por aqui no século passado, em edições da Nova Fronteira, e suas peças fizeram sucesso nos palcos brasileiros — ele próprio veio ao país assistir a uma montagem de “O balcão” produzida por Ruth Escobar (que reclamou do mau cheiro dos pés do francês). Mas desde o início dos anos 2000 suas obras não ganhavam nova edição no país.
Além de “Nossa Senhora das Flores”, a Todavia vai publicar “O milagre da rosa”, que recorda a experiência de Genet, ainda adolescente, numa colônia penal; “Querelle”, ficção povoada por marginais de todo tipo e levada ao cinema por Rainer Werner Fassbinder em 1982, e “Diário de um ladrão”, relato da vida de vagabundagem do autor na Europa dos anos 1930.
— Genet é um autor que dialoga com nosso tempo, que ganha se lido em contraste com a produção de hoje. Empreitadas como a autoficção, a literatura como performance, as poéticas do corpo e da sexualidade: tudo isso já aparece em Genet, de uma maneira ou outra — afirma Leandro Sarmatz, diretor editorial da Todavia.
Em 1949, já um autor festejado, Genet foi condenado à prisão perpétua por seus crimes, mas obteve o perdão presidencial graças a mobilização de intelectuais e artistas como Jean-Paul Sartre, André Gide e Pablo Picasso. Depois de Maio de 1968, engajou-se politicamente, foi solidário aos Panteras Negras americanos e à causa palestina, e sempre viveu abertamente a homossexualidade. Sua obra fala de sexo sem nenhum pudor e transforma criminosos em heróis, “revelando aos burgueses entristecidos que pela vida cotidiana deles passam rente assassinos encantadores”, nas palavras do narrador de “Nossa Senhora das Flores”.
O romance acompanha a trajetória de Divina, descrita pelo biógrafo Edmund White como “a primeira drag queen da literatura”, num bairro parisiense povoado de boêmios, delinquentes, prostitutas, cafetões (como Gostoso-de-Pé-Pequeno, amante da protagonista) e o cafajeste de olhos azuis conhecido como Nossa Senhora das Flores. De sua cela decorada com fotografias de bandidos recortadas de jornais e revistas, o narrador conta a história enquanto se masturba. “Prazer do solitário, gesto de solidão, que faz com que você seja suficiente para você mesmo, possuindo intimamente os outros, que servem a seu prazer sem disso suspeitarem”, diz ele. Sartre, que escreveu a hagiografia “Saint Genet: ator e mártir”, chamou o livro de “épico da masturbação”.
— Genet é um caso à parte na literatura erótica. Talvez o único que tenha conseguido transmitir a sordidez do ambiente carcerário com a mesma dose de poesia e sensualidade — afirma o escritor Glauco Mattoso, que encontrou no francês algumas de suas próprias obsessões, como “o sadomasoquismo e o fetichismo podólatra”. — Genet mantém esse equilíbrio entre o sórdido e o sublime o tempo todo, sem deixar cair a peteca, sem esconder, em nenhum momento, seu tesão pelos companheiros, por suas mazelas e taras.
No prefácio a “Heliogábalo”, o pesquisador François Rouget (que descobriu o texto na biblioteca de Harvard), escreve que a peça é “um testemunho comovente e singular dos primórdios literários de Jean Genet”. O protagonista é o jovem imperador romano Heliogábalo, que parece investido em dinamitar o próprio poder, ao ponto de a avó planejar seu assassinato para impedir que a família perca o trono. “Meu neto destrói a si mesmo. Tendo se identificado com o Império, ele destrói o Império”, lamenta a senhora, a reclamar da “facilidade” do “garoto imperador” de “se metamorfosear, se quiser chamar assim, em marginal, em cafetão, em prostituta”.
Heliogábalo zomba dos deuses, dos sacerdotes e dos soldados, e promete distribuir seus bens entre as prostitutas e os ladrões. “Deposito toda a minha glória em não ser respeitado”, insiste o imperador, que se veste de mulher para seu amante, o cocheiro Aeginus. A rejeição dos valores e da moral estabelecidos, assim como o elogio da desobediência e daquilo é que considerado vil, característicos do comportamento de Heliogábalo, são a marca da literatura (e da biografia) de Genet.
— Genet sempre esteve confortável na posição de marginal — afirma Régis Mikail, editor da Ercolaon e tradutor da peça. — É comovente a intimidade dele com a escrita. Não que ele escrevesse como uma forma de terapia ou para botar para fora. Ele parte da própria experiência, mas está sempre atento à experiência do outro, ao que pode ser universal.
Genet é uma das principais referências da autoficção contemporânea (sobretudo francesa) e inspirou autores como Annie Ernaux e Édouard Louis. A Nobel de Literatura pinçou uma frase dele (“Arrisco uma explicação: escrever é o último recurso quando se traiu”) como epígrafe de “O lugar”, livro que dá início a seu projeto “autossociobiográfico”. Louis fez o mesmo em “Mudar: método”: “Eu não sou nada além de um pretexto”.
O pesquisador Walmir Lacerda Gois ressalta as diferenças entre Jean Genet e os dois autores de autoficção que prestam homenagem ao escritor maldito em sua obra. Enquanto Annie Ernaux descreve a própria escrita como “plana” (objetiva e sem adornos) e Édouard Louis “constrói seu projeto autobiográfico contra a literatura”, deixando as figuras de linguagem de lado, Jean Genet aposta no lirismo.
— A partir da própria vida, Genet inventa um universo ficcional rico em imagens e em referências às literaturas clássica e popular. Diferentemente de Ernaux e Louis, que se concentram no relato biográfico. Ele faz uma literatura que convida à imaginação — afirma o pesquisador.
“Embora eu me esforce para ter um estilo descarnado, mostrando o osso, eu gostaria de enviar a vocês, do fundo de minha prisão, um livro carregado de flores, de anáguas brancas como neve, de fitas azuis”, escreve o autor em “Nossa Senhora das Flores”.
A obra de Genet volta às livrarias num momento em que o mercado editorial, atento à demanda do público por diversidade, resgata autores gays do passado, como Caio Fernando Abreu, James Baldwin e Christopher Isherwood. Genet, porém, é maldito também dentro da literatura queer. Ele não se interessava em contribuir para a normalização de sexualidades dissidentes, construindo personagens gays que parecessem aceitáveis ao público e imitassem a lógica das relações heterossexuais burguesas. Os homossexuais que povoam seus livros amam e também cometem toda sorte de crimes. Eles não se prendem a identidades fixas (Divina, a heroína de “Nossa Senhora das Flores”, é tratada tanto no feminino como no masculino) e buscam o gozo a todo custo.
Walmir Lacerda Gois explica que, embora valorize “identidades marginalizadas”, a obra de Genet não está comprometida em ser “resistência”, na contramão de boa parte da produção contemporânea.
— A literatura de Genet não tem nada a ver com esse discurso político da resistência. Genet é ataque. Inclusive, está aí uma lição política para o nosso tempo: quem resiste é porque está apanhando. Genet mostra que é preciso parar
de apanhar e atacar de volta.

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