quinta-feira, setembro 4

A morte de Pascoal

Dar nomes humanos a gatos e cachorros pode provocar situações embaraçosas. Quando alguém que não vemos há muito tempo nos liga e informa que o Pascoal morreu, não sabemos se damos os pêsames ou não. Qual era mesmo o nome daquele tio octogenário que torcia para o Juventus? E o daquele cachorro velho que não conseguia mais levantar a pata para desenhar com sua bisnaga ornatos no poste?

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Na última vez em que vi Marcos Rey, não sei o que mais me doeu: se o silêncio dele, imposto pela tirania da morte, ou se o meu silêncio, envergonhado por tantas palavras que lhe devia ter dito e que, inúteis naquele instante, me pesavam no peito com uma culpa que nem as lágrimas aliviaram.

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Pensou em sair para a noite rasgada pelos raios e sacudida pelos trovões. Pensou em erguer os braços e, desafiando Deus, gritar: “Me leva, me mata!” Ao chegar ao portão, recuou. Lembrou-se do desafio que Antero de Quental fez a Deus, e do desprezo com que Deus o recebeu. Por que ele, um reles Raul Drewnick, filho de obscuros imigrantes poloneses, cronista de meia-tigela e poeta de um real a dúzia, seria atendido? Voltou para dentro de casa e resignou-se a continuar sendo um mártir comum, desses condenados pela covardia a morrer vagarosamente, consumidos pelos miúdos reveses da vida.

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Às vezes, nos sonhos, reencontra-se menino, na fazenda, aspirando o aroma das flores e da relva, brincando com os primos que vieram da cidade para o grande encontro anual da família. Corre com eles, ensina-lhes como subir nas árvores, como imitar o canto dos passarinhos. Chega o momento, então, em que ouve os guinchos aterradores do porco sendo sacrificado para o almoço e lhe vêm uma repugnância, uma tristeza e uma dor que quando menino não sentia.

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