Que aquele tempo encabulava muito porque eu não sabia o seu significado direito.
Soava como um escárnio.
Hoje eu sei que escrínio é coisa relacionada com joia, cofre de bugigangas…
Por aí assim.
Porém a cidade era em cima de uma pedra branca enorme.
E o rio passando lá embaixo com piranhas camalotes pescadores e lanchas carregados de couros vacuns fedidos.
Primeira vinha na Rua do Porto: sobrados remontados nas ladeiras, flamboyants, armazéns de secos e molhados
E mil turcos babaruches nas portas comendo sementes de abóbora…
Depois, subindo a ladeira, vinha a cidade propriamente dita, com a estátua de Antônio Maria Coelho, herói da Guerra do Paraguai, cheia de besouros na orelha.
E mais o Cinema Excelsior onde levavam um filme de Tom Mix 35 vezes por mês.
E tudo o mais.
Escrínio entretanto era a Negra Margarida.
Boa que nem mulher de santo casto:
Nhanhá mijava na rede porque brincou com fogo de dia.
— Mijo De veia não desaparta nosso amor, né Benzinho?
— Sim!
Um dia Nhanhá Gertrudes faz bolo de arroz.
Negra Margarida socava pilão.
E eu nem sei o que faz mesmo.
Veio um risonho negro e disse sem perder o riso:
— Você vai comigo, negra?
E levou Margarida enganchada no dedo pra São Saruê.
Daí eu fiquei naquele casamento que tinha noites de medo.
Nhanhá sonhava bobagens que eu fugi de casa pra ser chalaneiro no Porto de Corumbá!
O mijo de Nhanhá sentiu, no pingar, um vazio inédito e faz uma lagoinha boa no mosaico…
Desse tempo adquirir a mania de me olhar no espelho das águas…
Um Draga
A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, não.
Porto, como um pé de árvore ou uma duna.
— E que seria uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens.
Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
Ele de noite se arrastava pela beira das casas como um caranguejo trópego.
À procura de velocípedes.
Gostava de velozes.
Os bolsos do seu casaco andavam estufados de jias.
Ele esfregava no rosto as suas barriguinhas frias.
Geleia de sapos!
Só as crianças e as putas do jardim entenderam a sua fala de furnas brenhentas.
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo!
Ai que dor!
Ao literato cujo fez-lhe nojo a forma coloquial.
Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele…
O literato cujo, se não engano, é hoje senador pelo Estado. Se não é, merecia.
A vida tem suas descompensações.
Da velha draga
Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as Expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria
Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Holanda
Para que você se registre em seus léxicos
Pois que o povo já está registrado.
Manoel de Barros. Obra Completa

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