quinta-feira, março 5
O último da fila
Daí que, sem perceber, a gente entra na fila. Fila para quê? Para onde? Não há placa que indique, seta que oriente. Não importa, algo ancestral nos manda ficar na fila. E, quando você entra numa delas, inevitavelmente é o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Você espicha a cabeça, procura enxergar até onde ela vai, constata que dobra o quarteirão, moleza. Só quando chega ali, vê que tem outro quarteirão mais à frente, e outro, e outro. Mas sempre aparece algum desastre, música ou show de calouros para a gente se distrair.
A princípio, a fila anda devagar. Os pés se arrastam, lentos, indecisos. Enfrentam as garoas, cozinham ao sol, buscam as sombras das árvores. Sem ter a menor ideia de que, com o tempo, um mecanismo misterioso os acelera e, mero número na fila, a gente obedece, vai sendo levado (iludido que não), até que, no final, vira atropelo de cena de filme mudo em preto e branco.
Numa fila, a gente olha mais para a frente. Só muito de vez em quando para trás e constata que, estranhamente, aquele cara de boné não está mais lá, mas sim uma senhorinha de bolsa estampada e, mesmo essa, será substituída por um vereador em campanha e, esse, por uma dançarina dos sete véus.
Mesmo dentro da fila, a gente entra em outras filas: fila do pão, do embarque, para entrar no estádio (essa, mais para tumulto), da imigração. É, essa coisa de uma fila dentro da outra ficou confusa, mas é assim mesmo. Passam amores, uns menores, outros vou contar; passam empregos, que pareciam a coisa mais preciosa do universo (não são), passam até alguns cachorros, que a gente nem sabia que podiam entrar na fila — mas que depois a gente vê que, sem eles, fica meio sem graça. O dinheiro vem e passa, a saúde vem e passa, a gente assobia Vai passar, do Chico, e arrisca algum livro de autoajuda para ver se.
Saudades de dar a mão para os pais ou para os filhos na fila.
A fila sobe e desce escada. Entra no mar e fura as ondas. Dorme em camas de hotel e se senta nos bancos escolares. Cai num buraco fundo, sai no Japão e volta. A fila na cabeça da gente. Os mais preparados e espertos chegam lá primeiro, e a gente vai ficando. O grandão tosco dá um chega pra lá e o lugar vira dele. Alguém cutuca nossos ombros e pergunta: “É essa a fila?” Respondemos que sim e, na maior sem-cerimônia, a pessoa entra na frente. Cadê o guarda? Cadê o segurança? Cadê Deus?
Por gentileza, a gente cede o lugar aos mais velhos, aos mais frágeis, aos perdidos. Por distração, a gente esquece de avançar. Por burrice, empaca. Como em toda fila que merece o nome, chega o vendedor de algodão-doce. Já estou escolhendo o rosinha, quando meu gastro, duas pessoas adiante, se vira e me olha com cara feia. Ainda bem que se pode beber na fila. E a gente sempre acaba exagerando, tomando três saideiras sem sair, mistura bebida, perde o rumo, faz besteira — você não?
Há o tropeço e o gozo. Há a risada e a lágrima que a gente esconde. Os advérbios e a fé na loteria. As prestações da casa e a correição das formigas. Carros com motor turbo e gasolina aditivada, mas que não são capazes de nos fazer ganhar posição alguma. A gente se gasta na fila. A gente se perde e reencontra. Consome nove sapatos, mas jamais se aborrece, pois prefere ficar descalço.
Um sujeito saiu da fila. Por que isso aconteceu?
E quando se descobre que sua fila era outra? — bem que você não estava reconhecendo ninguém ao redor. Aquele ali furou a fila. Aquela aproveitou para distribuir santinhos. Uma bola chegou quicando, bem na sua direção, você armou o chute, um mané chegou do nada e, catapimba, chutou primeiro. Onde fica a fila da reclamação? E a das sugestões?
Tanto passou, tanto aconteceu, gente do céu. Falta muito? Quem sabe? Quanto acontecimento na vida das minhas retinas tão fatigadas etc.
Olho ao redor. Continuo sendo o último da fila.
Esquecimento
O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.
O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.
O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.
O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.
Eu me lembro de muitos esquecimentos.
Hart Crane
Por não estarem distraídos
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Uma visita ao campo
Não sendo um cockney nato, não tenho quaisquer ilusões sobre o campo. As estradas onduladas e tortuosas, as sebes poeirentas, as valas com os seus cadáveres de cães, urtigas e nuvens de moscas venenosas, os grupos de crianças que trituram qualquer coisa, o camponês boçal e prematuramente envelhecido pelo trabalho, o vagabundo velhaco, os montões de estrume de cheiro nauseabundo, a cadeia de marcos miliários entre duas estalagens; por tudo isto eu passo apressado e ansioso de ver o primeiro post telegráfico indicando-me estar próximo o trem salvador. Da estrada do vilarejo à estação ferroviária, vai um salto de cinco séculos, desde uma tirania brutal da natureza sobre o Homem até ao domínio organizado deste sobre aquela.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
Bernard Shaw
quarta-feira, março 4
O Poema
Um poema
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
Mario Quintana
Perde o gato
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço.
E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua.
Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Como matar um leitor
É assustador, enquanto professora de Português, assistir diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento, afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano, os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
A serpente de ouro
Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista. Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
— Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
— Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado. Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda. Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
— Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
— Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
— Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
— O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
— Que concluís daí, ó filósofo?
— Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
— Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
Petrus Alphonsi, "Mar de Histórias"
terça-feira, março 3
Onde estão os leitores?
Estou em um café ao lado de uma pequena livraria em Ipanema. Um cantinho que tomo para mim em uma manhã roubada da rotina. Venho para a mesa de fora porque do lado de dentro dois homens falam alto. Quero silêncio. Trouxe para a leitura do momento: Quand tu écouteras cette chanson, de Lola Lafon, um livro premiado, lindo, que fala sobre a noite que a escritora em questão passou no Anexo, em Amsterdã, na casa clandestina de Anne Frank.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.
Janela sobre uma mulher 2
A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma maçã meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Uma água suja chove dentro de mim.
Eduardo Galeano, “Mulheres”
Aos deuses de tudo que existe
Não, os jardins não morrem no inverno, como os animais ou as pessoas, principalmente as mais velhas, apenas sofrem um pouco mais fundo do que de costume. Alguns, verdade, sucumbem. Minha vó Corruíra, por exemplo, costumava dizer: “Acho que deste agosto não passo”. E houve um do qual realmente não passou. Mas isso talvez fosse o destino, ou morre-se mais facilmente no inverno? sobretudo invernos gaúchos, quando o minuano vara frestas e fendas para cortar a pele feito navalha gelada. Enregelados, atravessamos agostos que parecem eternos e, nos setembros, suspiramos quase leves outra vez: “Meu Deus, passou”. O que vezenquando é puro engano: há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu
Brincar de pensar
A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.
Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Telas
Quando eu era menino, nas décadas de cinquenta/sessenta, só havia uma tela em casa: a da televisão Philco, dezesseis polegadas. Nela assistíamos, em preto e branco, aos programas que faziam sucesso na época. Geralmente à noitinha, depois de deixarmos a rua e tomarmos banho, já de pijama, antes do jantar e um pouquinho depois dele. O horário de dormir era rígido. Cedo para os padrões de hoje, estávamos deitados, em nossas camas, nos braços de Morfeu.
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
Voltando no tempo e tentando lembrar o que nos interessava na programação, sinto que a ingenuidade era bem maior. Provavelmente, as crianças do mundo atual achariam tudo muito sem graça: A turma do sete, Vigilante rodoviário, Rin-tin-tin, Sessão Zig-Zag, Gincana Kibon, National Kid, desenhos da Disney. A gente gostava bastante de televisão, mas preferia brincar com os amigos das casas vizinhas. Um tempo de quintais, calçadas, bicicletas pelo bairro, terrenos baldios, apostar corrida nas ladeiras, carrinhos de rolimã, jogar futebol até ficar cansado, comentar depois os golaços que marcávamos. Perigos nenhuns. Ao sermos convocados, no final do dia, para entrarmos — mamãe se esgoelando e nos chamando no portão —, negociávamos mais alguns minutos de ar livre. Bom mesmo era o que havia lá fora.
— Entrem, vocês estão imundos!
Hoje, tenho pena dos meus netos. Eles contam com inúmeras telas. As enormes das televisões de plasma, praticamente uma em cada cômodo. Aquelas dos computadores dos pais, dos iPhones, joguinhos instalados em todos os aparelhos. Aguardam ansiosos os momentos em que poderão divertir-se um pouco com toda a parafernália eletrônica da casa. Apenas alguns minutos por dia, ou não conseguiriam fazer outra coisa. E pedem, insistem, suplicam sempre por mais cinco minutos de uso. Ardilosos, tentam aliciar a gente, cheios de charme, pedindo emprestados nossos celulares.
— Não contem para o papai, nem para a mamãe!
Mesmo o mais novinho, com apenas um ano e meio, já demonstra um interesse absurdo por controles remotos, dispositivos com botões de ligar e desligar, sabe o que deseja assistir, geralmente o Palavra cantada. E pede por gestos, mesmo sem ainda saber falar.
Eles não brincam lá fora. Não possuem amigos em casas vizinhas. Aliás, as casas são poucas; vivem em prédios de apartamentos. Mas possuem muitas telas, de todos os tipos e tamanhos. Vigiadas e controladas. Prazer praticamente proibido. Acho estranho. Não é este o mundo que estamos oferecendo para eles?
segunda-feira, março 2
Minha estação de mar
Quando eu tinha 10 anos, o ano tinha mais de quatro estações, e todas elas ficavam nas minhas mãos. A estação dos piões deixava um anel caloso no fura-bolo, onde a fieira apertava, e um furo na unha do dedão, onde o prego do pião girava até esquentar. A estação das búricas marcava o nó do dedão, com um calo grosso, rachado igual terra seca. Logo começava a estação das rolimãs, e as rachaduras desse calo enchiam de graxa, ficavam ali entupidas até a estação das mangas. Então crescia na mão o limo das mangueiras, uma placa visguenta. Depois, a mão fedia: na estação dos papagaios eu vivia com alho no bolso; era só esfregar no dedo e segurar linha de papagaio alheio, dali a pouco despencava com a linha roída.
Na estação do "bafo" a mão criava calos nas bordas, e acabava com cheiro de pena queimada, de tanta cuspida pra grudar as figurinhas. Depois a estação do "bete", a das tampinhas, a dos saquinhos de areia, todas lavrando cortes, calos e cheiros nas mãos, além do calo que uma caneta deixa no pai-de-todos quando tem que copiar, na escola, duzentas vezes uma frase. Naquele tempo a escola era a única prisão que eu conhecia. Mas o pai comprou um carro e, depois do passeio inaugural com minha mão avisando de todas as placas e esquinas, ele anunciou na janta:
— Este ano vamos tirar um mês na praia.
Não me preparei, mas me acordaram no dia marcado, às cinco da madrugada, com tudo preparado para mim. Nem tive tempo de perguntar por que levantar tão cedo se íamos passear; a mãe e o pai distribuíam ordens. Eu devia levantar logo e me lavar, escovar os dentes e trazer a escova. Devia comer pão com manteiga, café com leite, um ovo cozido e uma banana, mesmo que não tivesse fome. Ninguém ia ficar parando na estrada pra eu comer. E ninguém ia ficar parando antes de Ibiporã pra eu urinar, então fui urinar e quase durmo de novo na privada. Mas ninguém ia ficar esperando a vida inteira, bateram na porta, batiam portas de armários, fechavam malas, enchiam sacolas. Coma logo isso que seu pai já levou as malas. Cadê a bolsa, alguém viu a bolsa?
Você tem certeza de que esse carro aguenta? Desliga esse rádio, moleque, rádio de carro só com o motor funcionando. Enfia esta blusa que ainda é madrugada; não quero saber, enfia logo. Não vamos esquecer de desligar a luz. Não seria melhor fechar também o registro da água? Vai pro teu lugar, moleque, lá atrás, sim senhor. Tira o pé do banco, não abre o vidro que dá dor de ouvido.
E assim partimos para o mar.
Dormi e acordei com o sol, as pernas querendo esticar e uma zoeira no ouvido. Alice acordou logo e brigamos nem lembro por quê, então ela passou para o banco da frente, junto da mãe, e eu fiquei sem ter o que fazer. Passavam os mais compridos canaviais e cafezais do mundo, comecei a empurrar os bancos da frente com os pés, mas não podia. Comecei a tirar fiapos do cochinil, mas não podia. Examinei o cinzeiro por dentro e por fora várias vezes, comi ovos cozidos e chupei laranjas, descascadas pela Linalva porque eu podia me cortar com a faca. Quando lembrei do rádio, a mãe falou logo que não suportava rádio em viagem, e o pai avisou que não ia parar pra erguer a antena, de modo que chupei mais umas laranjas e descobri que o tapete de borracha podia virar um megafone, mas não podia; de modo que descasquei mais um ovo com todo cuidado pra não triscar a clara e comi só a gema. Descobri tudo que não se pode fazer num carro. Ler chapas, por exemplo.
Quando li a chapa do primeiro carro na frente, a mãe aproveitou pra testar minha visão em comparação com a da Alice. Depois de umas duas ou três chapas, achou que eu e a Alice enxergávamos a mesma coisa na mesma distância, e que devíamos ter puxado os olhos do pai dela, que já estava caduco sem nunca usar óculos. Continuei a ler as placas em voz alta, repetindo a mesma placa enquanto o pai não podava o carro da frente, até que falou que aquilo já tinha enchido e sugeriu que eu lesse uma vez cada placa, e só. Não passou muito tempo e aquilo também encheu todo mundo, mas a Linalva sugeriu que eu podia ler as placas mentalmente quantas vezes quisesse.
Mas isso logo me encheu.
Quando descobri que só podia ficar ali sentado, também descobri que estava na segunda prisão da vida, com a mãe no lugar da professora apontando as paisagens e outras coisas bonitas que o mundo tem mas ninguém pára pra ver direito. O pai só foi parar quando a Alice realmente se irmanou comigo pela primeira vez na vida. Ficamos os dois com uma coceira que a mãe logo identificou como formiga na bunda ou foguinho no rabo.
Esticamos as pernas, urinamos e tomamos guaraná num bar de posto de gasolina, o pai botou gasolina e voltamos à prisão. Demônios devem rondar os postos de gasolina, porque naquela viagem a mãe garantia que eu sempre ficava com o demônio no corpo depois que parávamos num posto.
Quando a situação ficou infernal dentro do carro tive que reconhecer: realmente o pai pararia para dar um jeito em mim se eu continuasse encapetado. De maneira que resolvi comer mais um ovo, mas não podia porque estava chegando a hora do almoço. Laranjas ainda podia, até que o pai ficou cheio de abrir o vidro pra eu jogar fora os bagaços e as sementes, e a mãe falou que eu não tinha tampa, parecia um buraco sem fundo e acabaram-se as laranjas. Quando comecei a estalar a boca, o pai falou que a mãe devia fazer alguma coisa porque aquilo era a coisa mais irritante do mundo, e ela falou que estalando a boca pelo menos eu ficava quieto com o rosto, aí ele falou, que ela sempre estava de acordo com qualquer coisa quando era pra contrariar uma opinião dele, aí ela falou, ele falou, de repente estavam discutindo os hábitos e defeitos um do outro, e depois não falaram mais até a hora de escolher onde almoçar.
A mãe achava que devíamos entrar numa cidade, mas o pai achava que um restaurante de beira de estrada seria ótimo. Ela falou em higiene, perigo de uma intoxicação e talheres sujos, e ele falou de preço e distância, gasolina e tempo perdido, e ela mandou que ele parasse onde quisesse e fizesse o que quisesse porque ela já tinha mesmo perdido o gosto de viajar e — aliás — nem sabia mesmo porque tinha vindo naquela viagem e — quer saber duma coisa? — por ela, podiam voltar dali mesmo. Aí o pai também falou — quer saber duma coisa você também? — e fez meia-volta. Eu senti que nunca ia ver o mar.
O motor foi rodando enfezado naquele silêncio, cada vez mais enfezado, até que o pai teve que brecar numa curva e o carro dançou pra lá e pra cá. A mãe não abriu a boca mas todo mundo ficou ouvindo o silêncio dela, tão pesado que o carro começou a andar devagar, tão devagar que dava agonia. Até que o pai parou num posto de gasolina com churrascaria. Como o posto era do outro lado da estrada, ele teve que fazer outra meia-volta, de jeito que ficamos de novo na direção do mar.
O pai freou o carro e falou: essa mulher não vê que onde tem muito carro parado é porque a comida é boa, mas eu sei o que ela está querendo. Mas na verdade só tinha o nosso carro parado ali, fora uns trinta caminhões, e a mãe falou com uma cara que o pai chama de cara de mártir: descem vocês, meus filhos, vai com eles, Linalva, hoje vocês vão comer comida de motorista de caminhão. Aí o pai falou: isso, meus filhos, vamos que decerto o pai de vocês vai envenenar vocês. A Linalva saiu com a gente e a mãe falou: cuidado, Linalva, olha bem essas carnes e não deixa eles nem chegarem perto de maionese, fruta só lavada e água só mineral.
Comi carne com maionese com o pai olhando agradecido, mas quando pedi um gole de cerveja ele não deixou. A Linalva, depois que encheu o prato de ossos, começou a apertar as mãos e suspirar de agonia, até que o pai falou pra ela levar uma coxa de frango, um pão e um copo de leite pra mãe lá no carro. E completou que não existia comida que a mãe mais gostava do que coxa com pão e leite. Falei que nunca tinha visto a mãe comer coxa com pão e leite, e ele respondeu que foi antes deles casarem, e que ela ia lembrar.
Realmente a mãe lembrou, porque o copo voltou vazio e, quando voltamos pro carro, ela não estava mais com uma cara tão perto da morte. E, como o carro já estava na direção do mar, o pai tocou em frente e passamos pela mesma paisagem até o ponto de onde tínhamos voltado. A mãe perguntou ao pai se ele tinha bebido, ele disse que só uma cervejinha, aí começaram a falar de novo das paisagens, o pai perguntou se o frango estava bom, a mãe disse que sim e eu aproveitei pra elogiar a maionese. Aí a mãe azedou, virou a cabeça e ficou olhando a paisagem, passamos um túnel e ela continuou olhando a paisagem dentro do túnel. Depois avisou que não ia mexer uma palha se a gente ficasse com o intestino solto, e que eu podia cagar até as tripas que ela não ia nem se incomodar.
O pai lembrou que eu tinha misturado laranja e ovo na barriga a manhã inteira, comparou que maionese é mistura de ovos com limão e portanto quase a mesma coisa, portanto eu já estava cheio de maionese antes mesmo de almoçar. Mas a mãe não falou mais nada até que começou a chover.
O diabo, como disse a Linalva, é que a maionese começou a fazer efeito justamente quando o pai mandou fechar todos os vidros por causa da chuva. A primeira vez em que o cheiro ficou preso junto com a gente no carro, o pai perguntou quem foi, a mãe perguntou pra Alice se tinha sido ela, depois pra mim, e concluiu logo que tinha sido eu, embora eu lembrasse que a Linalva também tinha misturado ovos com laranja. De modo que ficou sendo eu mesmo e no começo foi até engraçado, o pai disse que eu parecia usina de cana, que mastiga o doce mas deixa o ar azedo, e a Linalva completou que lá no Norte uma comida que empesteia muito os intestinos é mistura de carne de bode com uma frutinha que ela não lembrava o nome.
Na segunda vez o pai falou que a usina estava a todo vapor, a Alice riu e ficou olhando mecanismos e mistérios na minha barriga, e a mãe falou pro pai que, do jeito que ele falava, eu podia até acabar achando que aquilo era uma coisa muito bonita. Na terceira vez o pai não fez mais graça nenhuma e deu a caixa de fósforos pra mãe acender um. Na quarta vez o pai falou que agora já chegava e que eu parasse de gracinha porque não tinha graça nenhuma, mas aí a mãe falou que aquilo era uma coisa natural e ele não podia forçar o menino a segurar. Discutiram um pouco os intestinos e a natureza, a minha sem-vergonhice ou o mal que faz a maionese de restaurante. O pai começou a falar que a maionese de restaurante ainda nem me tinha chegado no intestino, mas teve que pedir pra mãe acender outro fósforo. Depois falou que tanto fósforo e tudo mais estava esquentando o ar e embaçando os vidros demais, abriu um pouco a janela mas a mãe lembrou que estava chovendo e era melhor sufocar do que arriscar um resfriado. Quando acabou a caixa de fósforo o pai falou que, por ele, eu podia até pegar pneumonia, abriu o vidro um minuto e fechou porque molhava até o ombro dele mesmo, e continuamos assim, a mãe dizendo que aquele cheiro dava vontade de vomitar o almoço e o pai abrindo e fechando o vidro de vez em quando. Em São Paulo a maionese parou de fazer efeito, estava anoitecendo e a Alice resmungava o tempo todo no colo da mãe, até que ela passou a ser uma menina cheia de nove-horas e eu menino quieto que devia ser imitado. Acontece que eu estava com sono ou qualquer coisa desse tipo, já nem tinha mais vontade de que o pai parasse ou de que os postos de gasolina tivessem confeitaria. Não sentia fome nem sede, tinha vontade de afundar mas, quando afundava a cabeça no colo da Linalva, dava vontade de levantar — até que acabei ficando de novo um moleque encapetado, a mãe falando que aquele carro estava um inferno e que ela não ia aguentar mais meia hora. Quando apareceram as luzes o pai falou — Eh São Paulo que não pára de crescer!… — e a mãe perguntou se ele ia saber dirigir na cidade. Ele falou que não precisava andar muito pra achar um hotelzinho mais ou menos, e conhecia a entrada como a palma da mão. A mãe lembrou que ele não ia a São Paulo desde solteiro, e que ninguém ia dormir em nenhum muquifo… Aí o pai falou bem compreensivo e devagar que a gente não precisava gastar um dinheirão pagando hotel de primeira pra dormir uma noite só, e a mãe falou que ninguém dorme mais de uma noite cada vez. Aí ele falou que numa noite de hotel em São Paulo a gente ia gastar mais que uma semana de aluguel de uma casa na praia. A Linalva começou a falar — vocês podem me deixar numa pensão mais barata e amanhã… — mas a mãe mandou calar a boca que de hotel quem entendia ela. O pai quis perder a paciência mas já estava numa rua com mais carro do que eu tinha visto na vida inteira.
Começaram a buzinar e a mãe falou que estavam buzinando pra nós, a Alice perguntou como é que sabiam que a gente ia chegar e o pai mandou todo mundo calar a boca porque tinha que se concentrar. A primeira placa de hotel que apareceu fui eu quem leu primeiro e dizia Hotel Paraíso, mas a mãe achou que não enganava ninguém só pelo jeito do prédio. Buzinaram pra nós e o pai continuou, mas aí já não sabia se contornava um tal de viaduto ou se ia em frente, de maneira que acabou virando antes do tal viaduto e acabamos numas ruas escuras onde disseram que hotel, do jeito que a mãe queria, o mais perto era do lado do tal viaduto. Quando o pai conseguiu achar de novo uma rua movimentada, buzinaram pra nós e ele perguntou se aqueles filhos da puta não podiam parar um minuto. A mãe falou que ele é que devia parar duma vez e perguntar pra um guarda. Discutiram isso uma meia hora com o carro andando mas, quando o pai parou e ela abriu a janela e botou a cara pra fora, o guarda apitou e mandou tocar em frente, tocar em frente, passamos de novo em frente o Hotel Paraíso e o pai xingou a mãe, São Paulo, os ônibus e o lazarento do espelho retrovisor que entortava toda hora.
Quando passamos pela terceira vez pelo Hotel Paraíso o pai falou — quer saber duma coisa? — e enfiou o carro no estacionamento. Depois, na portaria, o homem falou que dois quartos, do jeito que minha mãe queria, não tinha, mas desocupavam no outro dia de manhã. Ela perguntou mas que hotel é este que não tem nem pia nos quartos, mas meu pai falou que servia sem pia mesmo e o homem disse que pra qualquer coisa o banheiro era no fim do corredor e muito asseado. O homem subiu com a gente e a mãe reclamando da escada e dizendo que já estava sentindo o cheiro nojento do banheiro. Aí o homem abriu uma porta e ela falou que o cheiro de mofo do quarto só faltava derrubar a gente, meu pai falou para o homem desculpar que ela era assim mesmo. Aí ela empurrou a gente pra dentro e fechou a porta, dali a pouco o pai e a Linalva entraram com as malas, o pai abriu a janela e ficou olhando pra fora e ouvindo as buzinas e a mãe, abrindo as malas e reclamando que ela não era vaca pra ser "assim mesmo".
O pai saiu e trouxe pastéis, empadinhas com azeitonas dentro, quibe e um leite que vinha em saquinhos de papel. A mãe falou que pelo menos uma coisa ele tinha acertado porque assim não precisava usar nenhum copo imundo de hotel, lavou um saquinho na pia, enxugou com uma das toalhas que a gente tinha levado, rasgou a ponta do saquinho e me deu, e aquilo foi a grande coisa que conheci naquele dia de viagem.
Depois de vazios eu e a Alice quisemos guardar nossos saquinhos, mas a mãe falou que só serviam pra chamar baratas de noite. Quando o pai sentou na cama com um jornal que falava do Palmeiras, a mãe falou que ele tinha que mandar o homem trazer logo o tal berço pra Alice, e tinha que buscar um travesseiro pra mim no quarto da Linalva. O pai saiu parecendo que ia explodir ou então murchar até virar um rato no chão, e a mãe ficou reclamando da falta de cabides.
Quando o berço já estava no nosso quarto e a Linalva no quarto dela, eu e a Alice de pijama já deitando, a mãe falou pro pai fechar a janela que ia entrar pernilongo. Ele disse que se ela quisesse morrer abafada ele ia dormir em outro quarto, mas acabou fechando a janela e dizendo que ia sair. Ela falou que ele podia voltar bem tarde e ele falou que ia era pra um lugar onde mulher sabe tratar um homem, ela disse que ele podia ficar lá pra sempre e ele saiu batendo a porta.
Ela acendeu um abajur no criado-mudo e falou que aquilo parecia quarto não sei do quê, tinha até abajur cor-de-rosa. Eu perguntei quarto do quê, ela disse que eu devia era ficar quieto e dormir que a Alice já estava no segundo sono.
No dia seguinte buzinaram não sei pra quem e eu acordei. A mãe estava sentada na cama de casal com um mata-mosquito na mão, tão igual ao de casa que fui ver e era ele mesmo com as marcas que eu tinha feito pra cada mosquito que matei numa tarde de castigo na despensa.
Quando entramos no carro o pai e a mãe ainda discutiam a questão dos pernilongos, ele dizendo que de luz acesa não dormia e ela que não dormia com pernilongo no ouvido. Ele dizendo que, agora, se você pensa que vamos encontrar casa pra alugar com ar-condicionado, pode tirar o cavalo da chuva. E ela respondendo que é só você não ficar abrindo janela que não entra pernilongo. E ele dizendo que esse negócio de pernilongo você pegou de uns tempos pra cá, porque na viagem de casamento, por exemplo, sempre dormi de janela aberta e nunca ouvi reclamação. E ela respondendo que acontece que naquele tempo era besta feito Jó, teve dia de amanhecer com o corpo empipocado de coceira, o braço em carne viva de tanto coçar. E ele dizendo que, se fosse assim, esse povo da roça já tinha morrido de pernilongo, borrachudo, mutuca, muriçoca. E ela respondendo que, bom, eu nunca vivi na roça nem tenho o couro grosso da sua família.
De modo que começaram a discutir os hábitos e os defeitos das famílias de cada um, as sogras e os cunhados e cunhadas, e aproveitei pra tirar fiapos do cochinil até abrir uma clareira do tamanho de um palmo. A Alice também começou a esfiapar lá na frente e a mãe disse que não podia, mas a Alice disse que podia porque eu também estava esfiapando atrás. Aí o pai e a mãe pararam de discutir pra examinar os estragos e concordaram que eu era mesmo um capeta e que, no fim de contas, era eu que infernizava a vida de todo mundo. Falei que não infernizava a vida de ninguém, que eu só queria viajar na frente e não deixavam, e que a Alice ia sempre no melhor lugar, e acabei convencendo todo mundo que aquele era meu dia de ir na frente.
Quando a Alice parou de chorar no banco de trás, fui descobrindo que ali na frente havia tanta coisa a fazer como lá atrás, e que todos os botões do painel eram perigosos, não podiam ser puxados nem apertados nem tocados e eu devia esquecer aqueles botões para o resto da vida, de modo que abri o porta-luvas e a mãe quase se enfiou lá dentro como se o carro tivesse brecado de repente, tirou de lá um revólver e começou a abrir depressa a janela, o pai foi brecando e encostou o carro, ela jogou o revólver na ribanceira e falou que ele não abrisse a boca, que ele nem pensasse em abrir a boca, e eu aproveitei pra enfiar a mão no porta-luvas antes que ela pegasse a chave e fechasse.
O pai abriu a boca quando o carro já estava rodando de novo: o revólver tinha custado não sei quantos cruzeiros não sei quantos anos atrás, e agora ele queria ver se aparecesse um ladrão na casa da praia. A mãe falou que era preferível entregar tudo pra um ladrão do que arriscar uma criança dessas com uma arma na mão, e começou a contar pra Linalva como tinha morrido um menino perto da casa dela quando era solteira, com um tiro na boca brincando com um revólver. Depois que ela acabou de contar o caso, perguntou o que eu tinha na boca e falei que era uma bala. A Alice falou que também queria bala e o pai garantiu que não tinha comprado bala pra ninguém no bar onde a gente tinha tomado café. Aí a mãe me abriu a boca na marra e tirou a bala, e foram discutindo se uma bala tem ou não tem perigo de explodir na boca de uma criança, e eu comecei a dizer que era muito bonito viajar no banco da frente porque assim a Alice não ia perceber como era muito melhor no banco de trás.
Entramos em Aparecida e o pai rodou até a mãe escolher um restaurante de cara boa. Mas acabou não servindo porque os copos estavam manchados e um guardanapo tinha uma mancha amarela que a mãe logo desconfiou. Voltamos para o carro e aproveitei pra passar pro banco de trás, a Alice sentou na frente e ficou procurando as vantagens que eu tinha falado. O pai deu a partida, tocou o carro mas a mãe achou que o restaurante do lado, ali mesmo, servia bem pra nós, então o pai tornou a estacionar no mesmo lugar, descemos e comemos uma comida intragável conforme o pai, muito limpinha e é isso que interessa conforme a mãe. Alice e eu aproveitamos pra descobrir que num restaurante a gente podia ler o cardápio e pedir o que quisesse, desde que fosse a mesma coisa que o pai e a mãe iam pedir depois. Descobri que camarão devia ser comida mais perigosa que maionese, e no entanto vinha do mar para onde a gente ia, e o mar me parecia uma coisa cada vez mais ótima.
Quando o pai pediu café, eu e a Alice pedimos pra ir numa praça que tinha em frente, Linalva ficou sem café pra ir cuidar da gente e, quando eu descobri dois moleques com um jogo de palitos que eu nunca tinha visto, o pai já entrou de novo no carro e começou a buzinar. Fomos entrando no carro e encostou um homem vendendo lembranças de Aparecida, tinha chaveiro de montes, binóculos de fotografia, santinho, crucifixo, terço, tudo pendurado num cabo de vassoura e a Alice escolheu um espelhinho que era santinho do outro lado. O pai falou que aquilo era bobagem mas a mãe falou que não ia contrariar um gosto sagrado da menina, eu falei que já tinha visto um daqueles espelhinhos mas com mulher pelada do outro lado. A mãe virou pro pai e perguntou o que ele preferia, uma filha iludida com bobagem de religião ou um filho depravado desde cedo. O pai falou que preferia um filho depravado e ficou rindo, aí a mãe falou que eu também devia escolher uma lembrança de Aparecida, e fui apontando e o homem desamarrando do pau e dizendo o preço, até que escolhi o mais caro, uma estátua de Nossa Senhora em porcelana opaca conforme o homem, de gesso vagabundo conforme o pai. Aí o homem falou que o que valia era a devoção, o pai respondeu que então não valia nada mesmo. A Alice falou que a avó tinha falado que o pai ia morrer sofrendo porque não tinha religião. O pai perguntou que vó, mãe dele ou da mãe, e virou pra mãe dizendo que só podia sair da mãe dela uma besteira daquelas.
E foi assim que voltamos pra estrada discutindo religião, até o pai falar que nunca mais deu peixe no rio onde pescaram a santa, aí a Linalva falou Deus me livre, credo em cruz, e o pai falou que a comida tinha dado azia nele e a Linalva garantiu que era castigo de Deus. A mãe não deixou o pai falar mais nada porque se falasse também tratasse de arranjar outra empregada, e continuamos estrada afora.
Alice teve enjoo e vomitou no colo da mãe, o pai teve que parar numa paisagem muito bonita de umas montanhas com um rio lá embaixo se entortando feito uma cobra. Tinha uma mina de água que saía das pedras e a mãe falou que ali, na natureza sem ninguém cuidar, nascia avenca e samambaia mais bonita que em estufa de rico. O pai falou que preferia ser rico e não ter avencas nem samambaias, mas um carro que nem um que passou e ia chegar muito antes da gente conforme o pai, ia acabar se matando numa curva conforme a mãe.
Alice melhorou tão depressa fora do carro, que quase despenca na ribanceira uma hora que a mãe descuidou, queria ver o que tinha lá embaixo. Aí o pai falou pra ela que lá embaixo tinha o mar, vamos lá ver o mar — e já foi entrando de novo no carro e continuamos estrada afora na direção do mar lá embaixo torto feito uma cobra.
O pai saía duma curva e entrava em outra naquelas montanhas, Alice vomitou no colo da Linalva e a mãe falou — agora vai assim mesmo —, e fomos com o vestido grudando na coxa da Linalva e um cheirinho azedo que o vento não carregava. Quando as montanhas acabaram, veio de novo a estrada de sempre, tão igual que até a mãe perguntou se a gente não estava voltando. O pai riu e falou que, se a gente não parasse mais nem uma vez, tal hora essas crianças vão conhecer o mar. Aí eu perguntei se ele tinha algum compromisso no mar, porque ele sempre falava em tal hora, hora tal sem falta, quando tinha algum compromisso com alguém. Ele falou que eu não entendia essas coisas, que em viagem a gente tem que fazer o tempo render, porque a menos de 80 por hora gasta muita gasolina, e eu empurrei o banco dele com o pé e fui descobrindo de novo tudo que não podia fazer dentro de um carro. Mas já não tinha graça e acabei dormindo com o diabo no corpo, conforme a mãe, e com os ossos meio doendo conforme eu mesmo.
Quando acordei o pai tinha acabado de parar o carro e estava conversando com um homem na frente duma casa, numa rua de areia com muitas latas vazias. A mãe olhou pra mim e falou: esse moleque está com alguma coisa. Me botou a mão na testa, me avisou que ficasse quieto que estava queimando de febre, ficou ensinando a Linalva a fazer chá de alho contra resfriado. A Linalva perguntou se eu não ia ver médico, a mãe falou que era um resfriado à toa, culpou o pai porque apanhei chuva da janela, disse que era só eu guardar em casa o dia seguinte e pronto.
Perguntei se a gente não ia no mar, o pai veio vindo e enfiou a cabeça na janela, disse todo alegrão que o aluguel da casa era um absurdo mas a mãe achou que pelo menos tinha tela na janela contra pernilongos. De modo que a Linalva começou a descarregar as malas com o pai, a mãe foi botar roupa numa cama pra eu dormir e ninguém me dizia onde estava o mar. A mãe me enfiou um comprimido na boca, o pai disse que a mãe ainda ia viciar esse moleque com esses calmantes, dormi e acordei no outro dia com cheiro de café.
A Linalva estava na cozinha fazendo café igual em casa, até o bule era o mesmo e a garrafa térmica. Eu e a Alice passamos o dia no jardim e na rua, com a mãe ou a Linalva olhando da janela todo minuto. O pai montava e desmontava cama, arrumava descarga de privada, consertava tela de janela, a mãe arrumava as roupas no guarda-roupa, a Linalva emprestou uma vassoura da casa vizinha e um rodinho com pano de chão, e o pai desentupia pia, a mãe fez lista de compras e ele saiu pra comprar, mas foi sozinho porque disse que senão nem comprava as coisas nem cuidava de mim no supermercado, e a Linalva passou pano dentro dos armários e guarda-roupas, amontoou as baratas mortas num canto, e a mãe desinfetava tudo e reclamava como é que puderam deixar uma casa naquele estado, e só sei que no fim do dia a mãe falou que tinha trabalhado mais que numa mudança, e o pai falou que nem sabia porque tinha inventado aqueles dias na praia.
Alice e eu conhecemos todos os formigueiros da redondeza e perdemos muito tempo esperando sair da toca um bichinho, siri conforme a mãe, caranguejo conforme a Linalva e pituí conforme o pai. O bicho botava duas anteninhas pra fora do buraco, pareciam olhos saindo fora do corpo, via se eu e a Alice estávamos bem escondidos e então saía. A gente ia chegando perto, ele parava na areia, mexia as anteninhas e voltava pro buraco, sem pedra que conseguisse acertar o desgraçado no caminho.
Não vimos crianças, só umas de outra casa, que chegaram pro almoço e saíram depois, todo mundo de maiô, os homens com as costas vermelhas e as mulheres com o corpo inteiro melecado de creme, as crianças com boias e pés-de-pato e máscaras.
No outro dia o pai pegou a gente logo cedo, viramos a esquina e lá na frente, no fim da rua, apareceu uma coisa azul. Fomos andando e a coisa foi mexendo e às vezes embranquecia, o pai falou olha as ondas. Quando a rua acabou e aquilo já era a maior água que eu já tinha visto, entramos numa areia onde era preciso cuidado pra não pisar nas anteninhas, todos andando fora dos buracos, tão grandes que a Alice achou que eles podiam perfeitamente ficar dentro dos buracos em vez de ficar saindo.
E de repente erguemos a cabeça na frente do mar, Alice desandou num choro que só parou no colo do pai. O coração batia junto com as ondas, não sei quanto tempo ficamos ali, o mundo estrondando, até que Alice foi acalmando e continuamos ali, o coração batendo junto com as ondas e um vento que parecia subir da água, molhado e cheiroso.
A mãe chegou e estendeu uma toalha na areia, começou a tirar coisas da sacola e encheu a toalha. A Linalva ficou esquisita de vestido e calça comprida por baixo, foi molhar os pés e eu fui junto, mas a mãe foi me buscar pra passar creme, o pai começou a me avisar dos perigos do mar, a mãe concordando e dizendo escuta teu pai, escuta bem o que o teu pai está dizendo.
Quatro dias depois eu tinha conhecido o mar. Tinha horário de entrar e de sair da água, horário de sol e horário de sombra, hora de passar creme e hora de tomar água, a fundura onde eu podia ir com a Linalva e a fundura até onde podia ir com o pai. A Alice descobriu um arroio cheio de conchinhas, mas a mãe desconfiou de onde devia vir aquela água e a Alice teve que acabar se conformando com as conchas quebradas da praia. Em casa não podia ficar tela aberta, de janela ou de porta, e à noite as casas afundavam na escuridão, a rua não tinha lâmpadas e a criançada não podia brincar fora de casa.
Um velho me mostrou como se pesca com linha, garrafa e anzol, mas levei um dia sem pegar nada, só um beliscão forte no fim da tarde. O velho falou que no dia seguinte eu decerto ia tirar peixe, mas de noite o pai falou:
— Uma semana de praia enjoa qualquer um.
A mãe deu a ideia de visitar uns parentes numa cidade perto, assim a viagem de volta não vai cansar tanto essas crianças, a gente sai cedo pra pegar o almoço e… O pai se entusiasmou e deu a ideia de passarmos também não sei onde, e começaram os dois a riscar a mesa com uma faca: a gente pára aqui, dorme aqui, almoça aqui, dorme mais um dia aqui e visita fulano, depois pára uns três dias na casa da tia fulana; e um ficava tirando a faca do outro pra riscar a mesa enquanto falavam, até que deixaram na madeira um mapa, parecia uma espinha de peixe. A mãe levantou e começou a dar ordens. Linalva pega aquilo, arruma isso, cadê a mala menor, e o pai saiu pra trocar o óleo do carro.
Na varanda a gente ouvia, no vento, as anteninhas roendo as costelas do mar, ondas estrondando no lombo de mar, espuma em cima e todos os peixes e mistérios lá embaixo. O vento continuava com um cheiro molhado e quente, tão forte que parecia que o mar rebentava logo depois da varanda, e meu peito foi inchando cheio de sal, siris e conchas, boias de cortiça, areia, até que desatei a chorar e o peito tornou a ficar pequeno depois.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, alguém começou a me sacudir. A mãe andava pela casa perguntando se ninguém estava esquecendo alguma coisa, e o pai já estava lá fora, esquentando o motor.
E a estação de mar acabou sendo a única que, nas mãos, não me deixou marca nenhuma.
Domingos Pellegrini Jr., "O moderno conto brasileiro"
Na estação do "bafo" a mão criava calos nas bordas, e acabava com cheiro de pena queimada, de tanta cuspida pra grudar as figurinhas. Depois a estação do "bete", a das tampinhas, a dos saquinhos de areia, todas lavrando cortes, calos e cheiros nas mãos, além do calo que uma caneta deixa no pai-de-todos quando tem que copiar, na escola, duzentas vezes uma frase. Naquele tempo a escola era a única prisão que eu conhecia. Mas o pai comprou um carro e, depois do passeio inaugural com minha mão avisando de todas as placas e esquinas, ele anunciou na janta:
— Este ano vamos tirar um mês na praia.
Eu conhecia o mar como uma lagoa grande, distante e sem graça nas figurinhas, onde aparecia às vezes verde e às vezes azul. Agora íamos conhecer o mar em pessoa, ia começar uma nova estação onde entravam todos — o pai, a mãe, Alice, eu e a Linalva, nossa empregada que já vira o mar de passagem quando viera do Norte. A estação do mar me encheu a cabeça. O pai começou a falar de ondas que rebentavam e a gente mergulhava dentro. Eu não conseguia imaginar, mas comecei a achar ótimo. A mãe ia tirando a mesa e, a cada vez que vinha da cozinha, lembrava os perigos do mar e dava conselhos. Sim, o mar devia ser uma coisa ótima. E o pai avisou, bicando a xícara quente de café: partida dali a três dias, todo mundo que se preparasse.
Não me preparei, mas me acordaram no dia marcado, às cinco da madrugada, com tudo preparado para mim. Nem tive tempo de perguntar por que levantar tão cedo se íamos passear; a mãe e o pai distribuíam ordens. Eu devia levantar logo e me lavar, escovar os dentes e trazer a escova. Devia comer pão com manteiga, café com leite, um ovo cozido e uma banana, mesmo que não tivesse fome. Ninguém ia ficar parando na estrada pra eu comer. E ninguém ia ficar parando antes de Ibiporã pra eu urinar, então fui urinar e quase durmo de novo na privada. Mas ninguém ia ficar esperando a vida inteira, bateram na porta, batiam portas de armários, fechavam malas, enchiam sacolas. Coma logo isso que seu pai já levou as malas. Cadê a bolsa, alguém viu a bolsa?
Você tem certeza de que esse carro aguenta? Desliga esse rádio, moleque, rádio de carro só com o motor funcionando. Enfia esta blusa que ainda é madrugada; não quero saber, enfia logo. Não vamos esquecer de desligar a luz. Não seria melhor fechar também o registro da água? Vai pro teu lugar, moleque, lá atrás, sim senhor. Tira o pé do banco, não abre o vidro que dá dor de ouvido.
E assim partimos para o mar.
Dormi e acordei com o sol, as pernas querendo esticar e uma zoeira no ouvido. Alice acordou logo e brigamos nem lembro por quê, então ela passou para o banco da frente, junto da mãe, e eu fiquei sem ter o que fazer. Passavam os mais compridos canaviais e cafezais do mundo, comecei a empurrar os bancos da frente com os pés, mas não podia. Comecei a tirar fiapos do cochinil, mas não podia. Examinei o cinzeiro por dentro e por fora várias vezes, comi ovos cozidos e chupei laranjas, descascadas pela Linalva porque eu podia me cortar com a faca. Quando lembrei do rádio, a mãe falou logo que não suportava rádio em viagem, e o pai avisou que não ia parar pra erguer a antena, de modo que chupei mais umas laranjas e descobri que o tapete de borracha podia virar um megafone, mas não podia; de modo que descasquei mais um ovo com todo cuidado pra não triscar a clara e comi só a gema. Descobri tudo que não se pode fazer num carro. Ler chapas, por exemplo.
Quando li a chapa do primeiro carro na frente, a mãe aproveitou pra testar minha visão em comparação com a da Alice. Depois de umas duas ou três chapas, achou que eu e a Alice enxergávamos a mesma coisa na mesma distância, e que devíamos ter puxado os olhos do pai dela, que já estava caduco sem nunca usar óculos. Continuei a ler as placas em voz alta, repetindo a mesma placa enquanto o pai não podava o carro da frente, até que falou que aquilo já tinha enchido e sugeriu que eu lesse uma vez cada placa, e só. Não passou muito tempo e aquilo também encheu todo mundo, mas a Linalva sugeriu que eu podia ler as placas mentalmente quantas vezes quisesse.
Mas isso logo me encheu.
Quando descobri que só podia ficar ali sentado, também descobri que estava na segunda prisão da vida, com a mãe no lugar da professora apontando as paisagens e outras coisas bonitas que o mundo tem mas ninguém pára pra ver direito. O pai só foi parar quando a Alice realmente se irmanou comigo pela primeira vez na vida. Ficamos os dois com uma coceira que a mãe logo identificou como formiga na bunda ou foguinho no rabo.
Esticamos as pernas, urinamos e tomamos guaraná num bar de posto de gasolina, o pai botou gasolina e voltamos à prisão. Demônios devem rondar os postos de gasolina, porque naquela viagem a mãe garantia que eu sempre ficava com o demônio no corpo depois que parávamos num posto.
Quando a situação ficou infernal dentro do carro tive que reconhecer: realmente o pai pararia para dar um jeito em mim se eu continuasse encapetado. De maneira que resolvi comer mais um ovo, mas não podia porque estava chegando a hora do almoço. Laranjas ainda podia, até que o pai ficou cheio de abrir o vidro pra eu jogar fora os bagaços e as sementes, e a mãe falou que eu não tinha tampa, parecia um buraco sem fundo e acabaram-se as laranjas. Quando comecei a estalar a boca, o pai falou que a mãe devia fazer alguma coisa porque aquilo era a coisa mais irritante do mundo, e ela falou que estalando a boca pelo menos eu ficava quieto com o rosto, aí ele falou, que ela sempre estava de acordo com qualquer coisa quando era pra contrariar uma opinião dele, aí ela falou, ele falou, de repente estavam discutindo os hábitos e defeitos um do outro, e depois não falaram mais até a hora de escolher onde almoçar.
A mãe achava que devíamos entrar numa cidade, mas o pai achava que um restaurante de beira de estrada seria ótimo. Ela falou em higiene, perigo de uma intoxicação e talheres sujos, e ele falou de preço e distância, gasolina e tempo perdido, e ela mandou que ele parasse onde quisesse e fizesse o que quisesse porque ela já tinha mesmo perdido o gosto de viajar e — aliás — nem sabia mesmo porque tinha vindo naquela viagem e — quer saber duma coisa? — por ela, podiam voltar dali mesmo. Aí o pai também falou — quer saber duma coisa você também? — e fez meia-volta. Eu senti que nunca ia ver o mar.
O motor foi rodando enfezado naquele silêncio, cada vez mais enfezado, até que o pai teve que brecar numa curva e o carro dançou pra lá e pra cá. A mãe não abriu a boca mas todo mundo ficou ouvindo o silêncio dela, tão pesado que o carro começou a andar devagar, tão devagar que dava agonia. Até que o pai parou num posto de gasolina com churrascaria. Como o posto era do outro lado da estrada, ele teve que fazer outra meia-volta, de jeito que ficamos de novo na direção do mar.
O pai freou o carro e falou: essa mulher não vê que onde tem muito carro parado é porque a comida é boa, mas eu sei o que ela está querendo. Mas na verdade só tinha o nosso carro parado ali, fora uns trinta caminhões, e a mãe falou com uma cara que o pai chama de cara de mártir: descem vocês, meus filhos, vai com eles, Linalva, hoje vocês vão comer comida de motorista de caminhão. Aí o pai falou: isso, meus filhos, vamos que decerto o pai de vocês vai envenenar vocês. A Linalva saiu com a gente e a mãe falou: cuidado, Linalva, olha bem essas carnes e não deixa eles nem chegarem perto de maionese, fruta só lavada e água só mineral.
Comi carne com maionese com o pai olhando agradecido, mas quando pedi um gole de cerveja ele não deixou. A Linalva, depois que encheu o prato de ossos, começou a apertar as mãos e suspirar de agonia, até que o pai falou pra ela levar uma coxa de frango, um pão e um copo de leite pra mãe lá no carro. E completou que não existia comida que a mãe mais gostava do que coxa com pão e leite. Falei que nunca tinha visto a mãe comer coxa com pão e leite, e ele respondeu que foi antes deles casarem, e que ela ia lembrar.
Realmente a mãe lembrou, porque o copo voltou vazio e, quando voltamos pro carro, ela não estava mais com uma cara tão perto da morte. E, como o carro já estava na direção do mar, o pai tocou em frente e passamos pela mesma paisagem até o ponto de onde tínhamos voltado. A mãe perguntou ao pai se ele tinha bebido, ele disse que só uma cervejinha, aí começaram a falar de novo das paisagens, o pai perguntou se o frango estava bom, a mãe disse que sim e eu aproveitei pra elogiar a maionese. Aí a mãe azedou, virou a cabeça e ficou olhando a paisagem, passamos um túnel e ela continuou olhando a paisagem dentro do túnel. Depois avisou que não ia mexer uma palha se a gente ficasse com o intestino solto, e que eu podia cagar até as tripas que ela não ia nem se incomodar.
O pai lembrou que eu tinha misturado laranja e ovo na barriga a manhã inteira, comparou que maionese é mistura de ovos com limão e portanto quase a mesma coisa, portanto eu já estava cheio de maionese antes mesmo de almoçar. Mas a mãe não falou mais nada até que começou a chover.
O diabo, como disse a Linalva, é que a maionese começou a fazer efeito justamente quando o pai mandou fechar todos os vidros por causa da chuva. A primeira vez em que o cheiro ficou preso junto com a gente no carro, o pai perguntou quem foi, a mãe perguntou pra Alice se tinha sido ela, depois pra mim, e concluiu logo que tinha sido eu, embora eu lembrasse que a Linalva também tinha misturado ovos com laranja. De modo que ficou sendo eu mesmo e no começo foi até engraçado, o pai disse que eu parecia usina de cana, que mastiga o doce mas deixa o ar azedo, e a Linalva completou que lá no Norte uma comida que empesteia muito os intestinos é mistura de carne de bode com uma frutinha que ela não lembrava o nome.
Na segunda vez o pai falou que a usina estava a todo vapor, a Alice riu e ficou olhando mecanismos e mistérios na minha barriga, e a mãe falou pro pai que, do jeito que ele falava, eu podia até acabar achando que aquilo era uma coisa muito bonita. Na terceira vez o pai não fez mais graça nenhuma e deu a caixa de fósforos pra mãe acender um. Na quarta vez o pai falou que agora já chegava e que eu parasse de gracinha porque não tinha graça nenhuma, mas aí a mãe falou que aquilo era uma coisa natural e ele não podia forçar o menino a segurar. Discutiram um pouco os intestinos e a natureza, a minha sem-vergonhice ou o mal que faz a maionese de restaurante. O pai começou a falar que a maionese de restaurante ainda nem me tinha chegado no intestino, mas teve que pedir pra mãe acender outro fósforo. Depois falou que tanto fósforo e tudo mais estava esquentando o ar e embaçando os vidros demais, abriu um pouco a janela mas a mãe lembrou que estava chovendo e era melhor sufocar do que arriscar um resfriado. Quando acabou a caixa de fósforo o pai falou que, por ele, eu podia até pegar pneumonia, abriu o vidro um minuto e fechou porque molhava até o ombro dele mesmo, e continuamos assim, a mãe dizendo que aquele cheiro dava vontade de vomitar o almoço e o pai abrindo e fechando o vidro de vez em quando. Em São Paulo a maionese parou de fazer efeito, estava anoitecendo e a Alice resmungava o tempo todo no colo da mãe, até que ela passou a ser uma menina cheia de nove-horas e eu menino quieto que devia ser imitado. Acontece que eu estava com sono ou qualquer coisa desse tipo, já nem tinha mais vontade de que o pai parasse ou de que os postos de gasolina tivessem confeitaria. Não sentia fome nem sede, tinha vontade de afundar mas, quando afundava a cabeça no colo da Linalva, dava vontade de levantar — até que acabei ficando de novo um moleque encapetado, a mãe falando que aquele carro estava um inferno e que ela não ia aguentar mais meia hora. Quando apareceram as luzes o pai falou — Eh São Paulo que não pára de crescer!… — e a mãe perguntou se ele ia saber dirigir na cidade. Ele falou que não precisava andar muito pra achar um hotelzinho mais ou menos, e conhecia a entrada como a palma da mão. A mãe lembrou que ele não ia a São Paulo desde solteiro, e que ninguém ia dormir em nenhum muquifo… Aí o pai falou bem compreensivo e devagar que a gente não precisava gastar um dinheirão pagando hotel de primeira pra dormir uma noite só, e a mãe falou que ninguém dorme mais de uma noite cada vez. Aí ele falou que numa noite de hotel em São Paulo a gente ia gastar mais que uma semana de aluguel de uma casa na praia. A Linalva começou a falar — vocês podem me deixar numa pensão mais barata e amanhã… — mas a mãe mandou calar a boca que de hotel quem entendia ela. O pai quis perder a paciência mas já estava numa rua com mais carro do que eu tinha visto na vida inteira.
Começaram a buzinar e a mãe falou que estavam buzinando pra nós, a Alice perguntou como é que sabiam que a gente ia chegar e o pai mandou todo mundo calar a boca porque tinha que se concentrar. A primeira placa de hotel que apareceu fui eu quem leu primeiro e dizia Hotel Paraíso, mas a mãe achou que não enganava ninguém só pelo jeito do prédio. Buzinaram pra nós e o pai continuou, mas aí já não sabia se contornava um tal de viaduto ou se ia em frente, de maneira que acabou virando antes do tal viaduto e acabamos numas ruas escuras onde disseram que hotel, do jeito que a mãe queria, o mais perto era do lado do tal viaduto. Quando o pai conseguiu achar de novo uma rua movimentada, buzinaram pra nós e ele perguntou se aqueles filhos da puta não podiam parar um minuto. A mãe falou que ele é que devia parar duma vez e perguntar pra um guarda. Discutiram isso uma meia hora com o carro andando mas, quando o pai parou e ela abriu a janela e botou a cara pra fora, o guarda apitou e mandou tocar em frente, tocar em frente, passamos de novo em frente o Hotel Paraíso e o pai xingou a mãe, São Paulo, os ônibus e o lazarento do espelho retrovisor que entortava toda hora.
Quando passamos pela terceira vez pelo Hotel Paraíso o pai falou — quer saber duma coisa? — e enfiou o carro no estacionamento. Depois, na portaria, o homem falou que dois quartos, do jeito que minha mãe queria, não tinha, mas desocupavam no outro dia de manhã. Ela perguntou mas que hotel é este que não tem nem pia nos quartos, mas meu pai falou que servia sem pia mesmo e o homem disse que pra qualquer coisa o banheiro era no fim do corredor e muito asseado. O homem subiu com a gente e a mãe reclamando da escada e dizendo que já estava sentindo o cheiro nojento do banheiro. Aí o homem abriu uma porta e ela falou que o cheiro de mofo do quarto só faltava derrubar a gente, meu pai falou para o homem desculpar que ela era assim mesmo. Aí ela empurrou a gente pra dentro e fechou a porta, dali a pouco o pai e a Linalva entraram com as malas, o pai abriu a janela e ficou olhando pra fora e ouvindo as buzinas e a mãe, abrindo as malas e reclamando que ela não era vaca pra ser "assim mesmo".
O pai saiu e trouxe pastéis, empadinhas com azeitonas dentro, quibe e um leite que vinha em saquinhos de papel. A mãe falou que pelo menos uma coisa ele tinha acertado porque assim não precisava usar nenhum copo imundo de hotel, lavou um saquinho na pia, enxugou com uma das toalhas que a gente tinha levado, rasgou a ponta do saquinho e me deu, e aquilo foi a grande coisa que conheci naquele dia de viagem.
Depois de vazios eu e a Alice quisemos guardar nossos saquinhos, mas a mãe falou que só serviam pra chamar baratas de noite. Quando o pai sentou na cama com um jornal que falava do Palmeiras, a mãe falou que ele tinha que mandar o homem trazer logo o tal berço pra Alice, e tinha que buscar um travesseiro pra mim no quarto da Linalva. O pai saiu parecendo que ia explodir ou então murchar até virar um rato no chão, e a mãe ficou reclamando da falta de cabides.
Quando o berço já estava no nosso quarto e a Linalva no quarto dela, eu e a Alice de pijama já deitando, a mãe falou pro pai fechar a janela que ia entrar pernilongo. Ele disse que se ela quisesse morrer abafada ele ia dormir em outro quarto, mas acabou fechando a janela e dizendo que ia sair. Ela falou que ele podia voltar bem tarde e ele falou que ia era pra um lugar onde mulher sabe tratar um homem, ela disse que ele podia ficar lá pra sempre e ele saiu batendo a porta.
Ela acendeu um abajur no criado-mudo e falou que aquilo parecia quarto não sei do quê, tinha até abajur cor-de-rosa. Eu perguntei quarto do quê, ela disse que eu devia era ficar quieto e dormir que a Alice já estava no segundo sono.
No dia seguinte buzinaram não sei pra quem e eu acordei. A mãe estava sentada na cama de casal com um mata-mosquito na mão, tão igual ao de casa que fui ver e era ele mesmo com as marcas que eu tinha feito pra cada mosquito que matei numa tarde de castigo na despensa.
Quando entramos no carro o pai e a mãe ainda discutiam a questão dos pernilongos, ele dizendo que de luz acesa não dormia e ela que não dormia com pernilongo no ouvido. Ele dizendo que, agora, se você pensa que vamos encontrar casa pra alugar com ar-condicionado, pode tirar o cavalo da chuva. E ela respondendo que é só você não ficar abrindo janela que não entra pernilongo. E ele dizendo que esse negócio de pernilongo você pegou de uns tempos pra cá, porque na viagem de casamento, por exemplo, sempre dormi de janela aberta e nunca ouvi reclamação. E ela respondendo que acontece que naquele tempo era besta feito Jó, teve dia de amanhecer com o corpo empipocado de coceira, o braço em carne viva de tanto coçar. E ele dizendo que, se fosse assim, esse povo da roça já tinha morrido de pernilongo, borrachudo, mutuca, muriçoca. E ela respondendo que, bom, eu nunca vivi na roça nem tenho o couro grosso da sua família.
De modo que começaram a discutir os hábitos e os defeitos das famílias de cada um, as sogras e os cunhados e cunhadas, e aproveitei pra tirar fiapos do cochinil até abrir uma clareira do tamanho de um palmo. A Alice também começou a esfiapar lá na frente e a mãe disse que não podia, mas a Alice disse que podia porque eu também estava esfiapando atrás. Aí o pai e a mãe pararam de discutir pra examinar os estragos e concordaram que eu era mesmo um capeta e que, no fim de contas, era eu que infernizava a vida de todo mundo. Falei que não infernizava a vida de ninguém, que eu só queria viajar na frente e não deixavam, e que a Alice ia sempre no melhor lugar, e acabei convencendo todo mundo que aquele era meu dia de ir na frente.
Quando a Alice parou de chorar no banco de trás, fui descobrindo que ali na frente havia tanta coisa a fazer como lá atrás, e que todos os botões do painel eram perigosos, não podiam ser puxados nem apertados nem tocados e eu devia esquecer aqueles botões para o resto da vida, de modo que abri o porta-luvas e a mãe quase se enfiou lá dentro como se o carro tivesse brecado de repente, tirou de lá um revólver e começou a abrir depressa a janela, o pai foi brecando e encostou o carro, ela jogou o revólver na ribanceira e falou que ele não abrisse a boca, que ele nem pensasse em abrir a boca, e eu aproveitei pra enfiar a mão no porta-luvas antes que ela pegasse a chave e fechasse.
O pai abriu a boca quando o carro já estava rodando de novo: o revólver tinha custado não sei quantos cruzeiros não sei quantos anos atrás, e agora ele queria ver se aparecesse um ladrão na casa da praia. A mãe falou que era preferível entregar tudo pra um ladrão do que arriscar uma criança dessas com uma arma na mão, e começou a contar pra Linalva como tinha morrido um menino perto da casa dela quando era solteira, com um tiro na boca brincando com um revólver. Depois que ela acabou de contar o caso, perguntou o que eu tinha na boca e falei que era uma bala. A Alice falou que também queria bala e o pai garantiu que não tinha comprado bala pra ninguém no bar onde a gente tinha tomado café. Aí a mãe me abriu a boca na marra e tirou a bala, e foram discutindo se uma bala tem ou não tem perigo de explodir na boca de uma criança, e eu comecei a dizer que era muito bonito viajar no banco da frente porque assim a Alice não ia perceber como era muito melhor no banco de trás.
Entramos em Aparecida e o pai rodou até a mãe escolher um restaurante de cara boa. Mas acabou não servindo porque os copos estavam manchados e um guardanapo tinha uma mancha amarela que a mãe logo desconfiou. Voltamos para o carro e aproveitei pra passar pro banco de trás, a Alice sentou na frente e ficou procurando as vantagens que eu tinha falado. O pai deu a partida, tocou o carro mas a mãe achou que o restaurante do lado, ali mesmo, servia bem pra nós, então o pai tornou a estacionar no mesmo lugar, descemos e comemos uma comida intragável conforme o pai, muito limpinha e é isso que interessa conforme a mãe. Alice e eu aproveitamos pra descobrir que num restaurante a gente podia ler o cardápio e pedir o que quisesse, desde que fosse a mesma coisa que o pai e a mãe iam pedir depois. Descobri que camarão devia ser comida mais perigosa que maionese, e no entanto vinha do mar para onde a gente ia, e o mar me parecia uma coisa cada vez mais ótima.
Quando o pai pediu café, eu e a Alice pedimos pra ir numa praça que tinha em frente, Linalva ficou sem café pra ir cuidar da gente e, quando eu descobri dois moleques com um jogo de palitos que eu nunca tinha visto, o pai já entrou de novo no carro e começou a buzinar. Fomos entrando no carro e encostou um homem vendendo lembranças de Aparecida, tinha chaveiro de montes, binóculos de fotografia, santinho, crucifixo, terço, tudo pendurado num cabo de vassoura e a Alice escolheu um espelhinho que era santinho do outro lado. O pai falou que aquilo era bobagem mas a mãe falou que não ia contrariar um gosto sagrado da menina, eu falei que já tinha visto um daqueles espelhinhos mas com mulher pelada do outro lado. A mãe virou pro pai e perguntou o que ele preferia, uma filha iludida com bobagem de religião ou um filho depravado desde cedo. O pai falou que preferia um filho depravado e ficou rindo, aí a mãe falou que eu também devia escolher uma lembrança de Aparecida, e fui apontando e o homem desamarrando do pau e dizendo o preço, até que escolhi o mais caro, uma estátua de Nossa Senhora em porcelana opaca conforme o homem, de gesso vagabundo conforme o pai. Aí o homem falou que o que valia era a devoção, o pai respondeu que então não valia nada mesmo. A Alice falou que a avó tinha falado que o pai ia morrer sofrendo porque não tinha religião. O pai perguntou que vó, mãe dele ou da mãe, e virou pra mãe dizendo que só podia sair da mãe dela uma besteira daquelas.
E foi assim que voltamos pra estrada discutindo religião, até o pai falar que nunca mais deu peixe no rio onde pescaram a santa, aí a Linalva falou Deus me livre, credo em cruz, e o pai falou que a comida tinha dado azia nele e a Linalva garantiu que era castigo de Deus. A mãe não deixou o pai falar mais nada porque se falasse também tratasse de arranjar outra empregada, e continuamos estrada afora.
Alice teve enjoo e vomitou no colo da mãe, o pai teve que parar numa paisagem muito bonita de umas montanhas com um rio lá embaixo se entortando feito uma cobra. Tinha uma mina de água que saía das pedras e a mãe falou que ali, na natureza sem ninguém cuidar, nascia avenca e samambaia mais bonita que em estufa de rico. O pai falou que preferia ser rico e não ter avencas nem samambaias, mas um carro que nem um que passou e ia chegar muito antes da gente conforme o pai, ia acabar se matando numa curva conforme a mãe.
Alice melhorou tão depressa fora do carro, que quase despenca na ribanceira uma hora que a mãe descuidou, queria ver o que tinha lá embaixo. Aí o pai falou pra ela que lá embaixo tinha o mar, vamos lá ver o mar — e já foi entrando de novo no carro e continuamos estrada afora na direção do mar lá embaixo torto feito uma cobra.
O pai saía duma curva e entrava em outra naquelas montanhas, Alice vomitou no colo da Linalva e a mãe falou — agora vai assim mesmo —, e fomos com o vestido grudando na coxa da Linalva e um cheirinho azedo que o vento não carregava. Quando as montanhas acabaram, veio de novo a estrada de sempre, tão igual que até a mãe perguntou se a gente não estava voltando. O pai riu e falou que, se a gente não parasse mais nem uma vez, tal hora essas crianças vão conhecer o mar. Aí eu perguntei se ele tinha algum compromisso no mar, porque ele sempre falava em tal hora, hora tal sem falta, quando tinha algum compromisso com alguém. Ele falou que eu não entendia essas coisas, que em viagem a gente tem que fazer o tempo render, porque a menos de 80 por hora gasta muita gasolina, e eu empurrei o banco dele com o pé e fui descobrindo de novo tudo que não podia fazer dentro de um carro. Mas já não tinha graça e acabei dormindo com o diabo no corpo, conforme a mãe, e com os ossos meio doendo conforme eu mesmo.
Quando acordei o pai tinha acabado de parar o carro e estava conversando com um homem na frente duma casa, numa rua de areia com muitas latas vazias. A mãe olhou pra mim e falou: esse moleque está com alguma coisa. Me botou a mão na testa, me avisou que ficasse quieto que estava queimando de febre, ficou ensinando a Linalva a fazer chá de alho contra resfriado. A Linalva perguntou se eu não ia ver médico, a mãe falou que era um resfriado à toa, culpou o pai porque apanhei chuva da janela, disse que era só eu guardar em casa o dia seguinte e pronto.
Perguntei se a gente não ia no mar, o pai veio vindo e enfiou a cabeça na janela, disse todo alegrão que o aluguel da casa era um absurdo mas a mãe achou que pelo menos tinha tela na janela contra pernilongos. De modo que a Linalva começou a descarregar as malas com o pai, a mãe foi botar roupa numa cama pra eu dormir e ninguém me dizia onde estava o mar. A mãe me enfiou um comprimido na boca, o pai disse que a mãe ainda ia viciar esse moleque com esses calmantes, dormi e acordei no outro dia com cheiro de café.
A Linalva estava na cozinha fazendo café igual em casa, até o bule era o mesmo e a garrafa térmica. Eu e a Alice passamos o dia no jardim e na rua, com a mãe ou a Linalva olhando da janela todo minuto. O pai montava e desmontava cama, arrumava descarga de privada, consertava tela de janela, a mãe arrumava as roupas no guarda-roupa, a Linalva emprestou uma vassoura da casa vizinha e um rodinho com pano de chão, e o pai desentupia pia, a mãe fez lista de compras e ele saiu pra comprar, mas foi sozinho porque disse que senão nem comprava as coisas nem cuidava de mim no supermercado, e a Linalva passou pano dentro dos armários e guarda-roupas, amontoou as baratas mortas num canto, e a mãe desinfetava tudo e reclamava como é que puderam deixar uma casa naquele estado, e só sei que no fim do dia a mãe falou que tinha trabalhado mais que numa mudança, e o pai falou que nem sabia porque tinha inventado aqueles dias na praia.
Alice e eu conhecemos todos os formigueiros da redondeza e perdemos muito tempo esperando sair da toca um bichinho, siri conforme a mãe, caranguejo conforme a Linalva e pituí conforme o pai. O bicho botava duas anteninhas pra fora do buraco, pareciam olhos saindo fora do corpo, via se eu e a Alice estávamos bem escondidos e então saía. A gente ia chegando perto, ele parava na areia, mexia as anteninhas e voltava pro buraco, sem pedra que conseguisse acertar o desgraçado no caminho.
Não vimos crianças, só umas de outra casa, que chegaram pro almoço e saíram depois, todo mundo de maiô, os homens com as costas vermelhas e as mulheres com o corpo inteiro melecado de creme, as crianças com boias e pés-de-pato e máscaras.
No outro dia o pai pegou a gente logo cedo, viramos a esquina e lá na frente, no fim da rua, apareceu uma coisa azul. Fomos andando e a coisa foi mexendo e às vezes embranquecia, o pai falou olha as ondas. Quando a rua acabou e aquilo já era a maior água que eu já tinha visto, entramos numa areia onde era preciso cuidado pra não pisar nas anteninhas, todos andando fora dos buracos, tão grandes que a Alice achou que eles podiam perfeitamente ficar dentro dos buracos em vez de ficar saindo.
E de repente erguemos a cabeça na frente do mar, Alice desandou num choro que só parou no colo do pai. O coração batia junto com as ondas, não sei quanto tempo ficamos ali, o mundo estrondando, até que Alice foi acalmando e continuamos ali, o coração batendo junto com as ondas e um vento que parecia subir da água, molhado e cheiroso.
A mãe chegou e estendeu uma toalha na areia, começou a tirar coisas da sacola e encheu a toalha. A Linalva ficou esquisita de vestido e calça comprida por baixo, foi molhar os pés e eu fui junto, mas a mãe foi me buscar pra passar creme, o pai começou a me avisar dos perigos do mar, a mãe concordando e dizendo escuta teu pai, escuta bem o que o teu pai está dizendo.
Quatro dias depois eu tinha conhecido o mar. Tinha horário de entrar e de sair da água, horário de sol e horário de sombra, hora de passar creme e hora de tomar água, a fundura onde eu podia ir com a Linalva e a fundura até onde podia ir com o pai. A Alice descobriu um arroio cheio de conchinhas, mas a mãe desconfiou de onde devia vir aquela água e a Alice teve que acabar se conformando com as conchas quebradas da praia. Em casa não podia ficar tela aberta, de janela ou de porta, e à noite as casas afundavam na escuridão, a rua não tinha lâmpadas e a criançada não podia brincar fora de casa.
Um velho me mostrou como se pesca com linha, garrafa e anzol, mas levei um dia sem pegar nada, só um beliscão forte no fim da tarde. O velho falou que no dia seguinte eu decerto ia tirar peixe, mas de noite o pai falou:
— Uma semana de praia enjoa qualquer um.
A mãe deu a ideia de visitar uns parentes numa cidade perto, assim a viagem de volta não vai cansar tanto essas crianças, a gente sai cedo pra pegar o almoço e… O pai se entusiasmou e deu a ideia de passarmos também não sei onde, e começaram os dois a riscar a mesa com uma faca: a gente pára aqui, dorme aqui, almoça aqui, dorme mais um dia aqui e visita fulano, depois pára uns três dias na casa da tia fulana; e um ficava tirando a faca do outro pra riscar a mesa enquanto falavam, até que deixaram na madeira um mapa, parecia uma espinha de peixe. A mãe levantou e começou a dar ordens. Linalva pega aquilo, arruma isso, cadê a mala menor, e o pai saiu pra trocar o óleo do carro.
Na varanda a gente ouvia, no vento, as anteninhas roendo as costelas do mar, ondas estrondando no lombo de mar, espuma em cima e todos os peixes e mistérios lá embaixo. O vento continuava com um cheiro molhado e quente, tão forte que parecia que o mar rebentava logo depois da varanda, e meu peito foi inchando cheio de sal, siris e conchas, boias de cortiça, areia, até que desatei a chorar e o peito tornou a ficar pequeno depois.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, alguém começou a me sacudir. A mãe andava pela casa perguntando se ninguém estava esquecendo alguma coisa, e o pai já estava lá fora, esquentando o motor.
E a estação de mar acabou sendo a única que, nas mãos, não me deixou marca nenhuma.
Domingos Pellegrini Jr., "O moderno conto brasileiro"
Arca botânica
Escolho as roupas que vou usar na montanha, e levamos tudo o que é necessário para poder trabalhar, evitando assim – na medida do possível – complicações. As plantas ficam. Já há algum tempo que, se uma morre, não tento substituí-la. Continuo a cuidar delas como sempre, claro, mas tenho consciência de que talvez haja alguma perda na minha ausência.
Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.
Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.
Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.
Laura Agustí, "Furor Botânico"
Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.
Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.
Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.
Laura Agustí, "Furor Botânico"
A mestra e os alunos
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana, "Caderno H"
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mario Quintana, "Caderno H"
Mulher de segurar navio
Prometi apanhá-lo com meu carro às duas e meia em ponto. Às três e quinze sai da estação de Saint Pancras o ônibus que o levará às docas de Londres. Ele embarca para Portugal hoje, com toda família.
Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito vai - assegura-me.
Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.
Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, como sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.
Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvado. A menos que ...
- Vamos voltar - exclama ele, já a meio caminho.
Era o que eu temia.
- O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.
A mulher comparece com a solução.
- Não há tempo. Toma um táxi que a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.
Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?
- Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?
Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas isso é um desaforo - decidiu ela: pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suspensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas, completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira? Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabaria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssimo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.
Olho-a furtivamente pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.
Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pela sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e extremamente inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.
Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.
Volto para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.
Fernando Sabino, "A inglesa deslumbrada"
Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito vai - assegura-me.
Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.
Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, como sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.
Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvado. A menos que ...
- Vamos voltar - exclama ele, já a meio caminho.
Era o que eu temia.
- O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.
A mulher comparece com a solução.
- Não há tempo. Toma um táxi que a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.
Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?
- Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?
Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas isso é um desaforo - decidiu ela: pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suspensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas, completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira? Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabaria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssimo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.
Olho-a furtivamente pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.
Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pela sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e extremamente inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.
Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.
Volto para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.
Fernando Sabino, "A inglesa deslumbrada"
domingo, março 1
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill
Os jeguinhos de minha mãe
Quem entrasse na sala de estar via logo aquela mesa especial no canto. De madeira maciça encerada, móvel pesado, a tampa grossa e lustrosa, nem escura nem clara, distinção na medida certa. Sobre ela, espalhados, os jeguinhos de minha mãe. De todos os tipos, para os gostos mais variados, bonita coleção. Grandes, médios, pequenos, feitos com materiais diversos. Os de porcelana, pintados, talvez fossem os mais românticos.
Eu quase sempre parava e ficava olhando aquela maravilha. Às vezes percebia uma nova aquisição. Podia ser de pano, palha; ela expunha todos, sem fazer diferença.
Virou um hábito na família. Quando viajávamos, ficávamos atentos. De repente, sem aviso prévio, encontrávamos o jumentinho que seria levado de presente. Em uma loja, feiras populares, certa ocasião encontrei vários sobre uma canga estendida na areia de uma praia. Feitos em arame por um rapaz com aparência que lembrava os hippies dos anos setenta. Caros. O artista sabia se valorizar. Comprei logo dois. Belíssimos!
— Por que você gosta tanto de burrinhos em cima dessa mesa, mãe?
Ela ria e não respondia imediatamente. Fazia certo charme.
— Por quê, hein?
— Porque não posso pôr meus filhos em cima dela.
Foi como uma febre. A coleção hoje não existe mais. Aos poucos, D. Marise foi perdendo a vontade de cuidar dos bichinhos, parou de reclamar quando algum, por desventura, caía e se quebrava. A tropa foi minguando sobre o tampo do aparador. Ela espalhou os poucos que sobraram pelos mais variados cantos do apartamento; a burricada deixou de ser exibida em conjunto. Pena!
Eu nunca entendi direito o que faz uma pessoa desejar colecionar alguma coisa. Como jamais possuí o hábito, estranhei aquela disposição acumulativa de minha mãe. O fato de ter tido começo e fim. E lamentei a interrupção. Sem graça andar por aí sem procurar jeguinhos para D. Marise. Era um hábito prazeroso.
Gosto de livros. Além de ganhar muitos, existe a compulsão de adquiri-los. Entrar em livrarias é sempre um desafio; dificilmente saio sem carregar comigo algum volume. Mas não me considero um colecionador de livros. Orgulho-me de minha biblioteca, mas bibliotecas não podem ser chamadas de coleções de livros. Ou será que podem?
O fato é que se aproxima o Natal. Espalham-se pela cidade presépios, e neles sempre existem os jericos. Afinal, eles carregaram Maria e o menino Jesus. Quando os vejo, sinto falta dos jeguinhos de minha mãe.
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