segunda-feira, março 2

Arca botânica

E
scolho as roupas que vou usar na montanha, e levamos tudo o que é necessário para poder trabalhar, evitando assim – na medida do possível – complicações. As plantas ficam. Já há algum tempo que, se uma morre, não tento substituí-la. Continuo a cuidar delas como sempre, claro, mas tenho consciência de que talvez haja alguma perda na minha ausência. 

Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.

Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.

Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.

Laura Agustí, "Furor Botânico"

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