domingo, fevereiro 1

Para ler no jardim

 


Mundo imaginário

Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.

A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?

Emílio Moura

Nada há mais saudável do que estarmos vivos.

Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado)
– Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.
João de Melo, "Novas Fases da Lua"

A bravata

Z. M. sentia que a vida lhe fugia por entre os dedos. Na sua humildade esquecia que ela mesma era fonte de vida e de criação. Então saía pouco, não aceitava convites. Não era mulher de perceber quando um homem estava interessado nela a menos que ele o dissesse – então se surpreendia e aceitava.


De tarde – era primavera, primeiro dia de primavera – foi visitar uma amiga que a pôs em brios. Como então ela, uma mulher feita, era tão humilde? como é que não percebia que vários homens a queriam? como não percebia que devia, dentro de sua própria dignidade, ter um caso de amor? Disse ainda que a vira entrar numa sala onde todos eram conhecidos. E por acaso nenhum dos presentes chegava a seus pés. E no entanto entrou tímida como ausente, como uma corça de cabeça baixa. “Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente, cosmicamente diferente, então aceite que você não pode ter a vida burguesa, e entre numa sala com a cabeça levantada.” “Mas entrar sozinha numa sala cheia de gente?” “Exatamente. Você não precisa de companhia para ir, você mesma é bastante.”

Lembrou-se que no fim da tarde havia uma espécie de coquetel para os professores primários, em férias. Lembrou-se da atitude nova que desejava, não combinou a ida com nenhum professor ou professora – arriscar-se-ia toda só. Vestiu um vestido mais ou menos novo, mas a coragem não vinha. Então – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo.

Esse alguém era exatamente o que ela não era. Mas na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Toda vestida, com uma máscara de pintura no rosto – ah persona, como não te usar e enfim ser! –, sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia que previa que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-de-coragem, levantou-se e foi.

Pareceu-lhe que as torturas de uma pessoa tímida jamais foram completamente descritas. No táxi que rolava ela morria um pouco.

E ei-la de repente diante de um salão enorme com talvez muitas pessoas, mas pareciam poucas dentro do descomunal espaço onde se processava como um ritual moderno o coquetel.

Quanto tempo suportou de cabeça falsamente erguida? A máscara a incomodava, ela sabia ainda por cima que era mais bonita sem pintura. Mas sem pintura seria a nudez da alma. E ela não podia se arriscar nem se dar esse luxo.

Falava sorrindo com um, falava sorrindo com outro. Mas como em todos os coquetéis, nesse era impossível a conversa e quando ela viu estava de novo sozinha.

Viu um homem que tinha sido seu amante. E ela pensou: por mais amor que este homem tenha recebido, fui eu que lhe dei toda a minha alma e todo o meu corpo. Os dois se olharam, perscrutaram-se, ele com certeza espantado com a máscara de pintura. Não soube o que fazer senão perguntar-lhe se ele era seu amigo, se podia ser. Ele disse que sim, para sempre.

Até que sentiu que não suportava mais manter a cabeça de pé. Mas como atravessar a enorme extensão até a porta? Sozinha, como uma fugitiva? Então em meias palavras confessou seu drama a uma das professoras e ela levou-a pela enorme extensão até a porta.

E no escuro da noite primaveril ela era uma mulher infeliz. Sim, era diferente. Mas sim, era tímida. Sim, era supersensível. Sim, vira um amor passado. O escuro e o perfume da primavera. O coração do mundo batia-lhe no peito. Sempre soubera sentir o cheiro da natureza. Achou finalmente um táxi onde se sentou quase em lágrimas de alívio, lembrando-se que em Paris lhe acontecera o mesmo porém pior ainda. Foi para casa como uma foragida do mundo. Era inútil esconder: a verdade é que não sabia viver. Em casa estava agasalhante, ela se olhou ao espelho quando estava lavando as mãos e viu a persona afivelada no seu rosto: a persona tinha um sorriso parado de palhaço. Então lavou o rosto e com alívio estava de novo de alma nua. Tomou então uma pílula para dormir. Antes que chegasse o sono, ficou alerta e se prometeu que nunca mais se arriscaria sem proteção. A pílula de dormir começava a apaziguá-la. E a noite incomensurável dos sonhos começou.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

Os pães de centeio

Naquele tempo Nicolau Nerli era banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora já estava sentado em sua mesa de trabalho e ao soar a hora nona ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números em suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia.

Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estava provido de trancas e cadeados. No interior, as paredes eram pintadas por hábeis artesãos que ali representavam as Virtudes sob aparência de mulheres, os patriarcas, os profetas e os reis de Israel. Tapeçarias estendidas nos cômodos ofereciam, aos olhos, as histórias de Alexandre e de Tristão, tal como se relatam nas lendas.

Para ostentar sua riqueza na cidade, fundava Nicolau Nerli instituições piedosas. Construiu, fora do recinto murado, um hospital em cujo friso, de relevos pintados, eram representados os atos mais honrosos de sua vida. Em agradecimento à quantidade de prata que facilitou para que se terminasse Santa Maria a Nova, no coro daquela igreja achava-se pendurado o seu retrato. Viam-no ajoelhado aos pés da Santa Virgem, com as mãos juntas, e era facilmente reconhecível por seu gorro de lã vermelha, por sua capa forrada de pele, por seu rosto gorduroso e amarelado por seus olhinhos espertos. Sua bondosa mulher, Mona Bismantova, de aspecto triste e honrado, cuja aparência fazia supor que jamais havia agradado a alguém, achava-se do outro lado da Virgem, em humilde atitude de meditação. 
Aquele homem era um dos principais cidadãos da República; como nunca havia demandado contra as leis e tão pouco se havia preocupado com os pobres nem com aqueles a quem os poderosos dominantes condenam à multa e ao desterro, nada pôde diminuir, perante os magistrados, o alto conceito que, aos olhos destes, suas imensas riquezas o fizeram merecedor.

Ao entardecer de um dia de inverno, entrando em seu palácio a uma hora mais avançada do que acontecia, na soleira da porta se viu rodeado por um grupo de mendigos seminus que lhe estendiam as mãos.

Repeliu-os com palavras rudes; a fome, porém, os obrigava a se mostrarem ariscos e atrevidos como lobos. Fizeram um círculo em torno de Nicolau Nerli e lhe pediram pão com voz queixosa e enrouquecida. Inclinava-se já para apanhar pedras do solo e atirá-las, quando viu chegar um de seus criados que trazia sobre a cabeça um cesto de pães de centeio destinados aos moços das cavalariças, da cozinha e dos jardins.

Indicou ao padeiro que se aproximasse, e, tirando do cesto os pães a mãos-cheias, os atirou aos miseráveis; depois entrou em seu palácio, deitou e dormiu. Enquanto dormia, teve um ataque epilético e morreu tão repentinamente que ainda se considerava em seu leito quando num lugar, "falto de toda luz", lhe apareceu São Miguel, iluminado pela claridade que irradiava seu próprio corpo!

Com a balança na mão, o arcanjo enchia os pratos. Ao reconhecer, no mais pesado, as joias das viúvas que guardava como garantia, os inumeráveis escudos que havia retido indevidamente, e algumas peças de ouro muito formosas que só ele possuía e que havia adquirido pela usura ou pela fraude, Nicolau Nerli supôs que era sua vida passada o que o arcanjo pesava naquele instante, pelo que se mostrou atento e temeroso.

— Messer São Miguel — disse — se colocais num lado todos os lucros que eu tive em minha vida, colocai no outro, se vos apraz, todas as formosas fundações pelas quais manifestei, magnificamente, minha devoção. Não esqueçais a cúpula de Santa Maria a Nova, para a qual contribui com uma boa terça parte, nega o hospital extramuros que mandei construir só com o meu dinheiro.

— Não tenhas temor, Nicolau Nerli — respondeu São Miguel — nunca esqueço nada.

E, com suas mãos gloriosas, colocou, no prato que pesava menos, a cúpula de Santa Maria e o hospital com seu friso de relevos pintados; o prato, porém, não baixava.

O banqueiro começou a inquietar-se profundamente.

— Messer São Miguel — insistiu — procurai mais. Não colocastes neste prato da balança, nem a formosa pia de água benta de São João, nem o púlpito de Santo André, onde o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo se acha representado em tamanho natural. É uma obra que me custou muito caro.

O arcanjo pós o púlpito e a pia de água benta sobre o hospital, no prato que, apesar de tudo, não baixava.

Nicolau Nerli começou a sentir sua testa inundada por um gélido suor.

— Messer arcanjo — perguntou — estais certo de que vossas balanças pesam bem?

São Miguel respondeu, sorridente, que ainda que não fossem construídas conforme o modelo das balanças que usam os lombardos de Paris ou os cambistas de Veneza, nem por isso deixavam de ser precisas.

— É possível — suspirou Nicolau Nerli angustiado — que minha cúpula, meu púlpito, meu hospital, com todas suas camas, não pesem mais do que um fiapo de palha, do que uma pena de pássaro?

— Assim, o vês, Nicolau — disse o arcanjo — o peso de tuas iniquidades é muito maior que o de tuas piedosas obras.

— Neste caso, irei para o Inferno! — disse o florentino.

Seus dentes batiam de pavor.

— Paciência, Nicolau Nerli! — retorquiu o pesador celeste. — Paciência! Não acabamos ainda; falta uma coisa.

E o bem-aventurado Miguel apanhou os pães de centeio que o rico havia atirado na véspera aos pobres, colocou-os no prato das boas obras que prontamente desceu enquanto o outro subia.

Os dois pratos ficaram na mesma altura: o fiel da balança não oscilava nem para a direita nem para a esquerda indicando a igualdade perfeita dos dois pesos.
O banqueiro não dava crédito aos seus olhos.

O glorioso arcanjo lhe disse:

— Tu o vês, Nicolau Nerli; não serves nem para o Céu nem para o Inferno. Tu o vês. Volta à Florença; continua repartindo pela tua cidade pães, como os que deu tua mão esta noite, sem que ninguém o veja e te salvarás, porque não é bastante que o céu se abra para o ladrão que se arrepende e para a prostituta que chora. A misericórdia de Deus é infinita! É capaz de salvar um rico! Sê tu o rico digno de salvar-se. Continua repartindo pães que pesam muito em minhas balanças. Vai-te.
Nicolau Nerli despertou, em seu leito, resolvido a seguir os conselhos do arcanjo e a repartir o pão entre os pobres para entrar no reino dos céus.

Durante os três anos que viveu ainda na terra, depois de sua primeira morte, mostrou-se piedoso com os desditados e deu muitas esmolas.
Anatole France, Revista Carioca (1947)