terça-feira, fevereiro 3

A inquietação do amor

Se ao menos o amor desse uma trégua e nos permitisse dormir uma hora ou duas. Se ele fosse paciente conosco e não nos sacudisse toda vez que começamos a fechar os olhos. Se ele nos desejasse boa noite. Se ele não nos flagelasse até nos sonhos. Se ele, se ele, se ele. Ele jamais fará isso. É da natureza do amor fazer-nos sofrer. Se ele nos desse paz, não seria amor, seria um entretenimento, um passatempo com dia e hora marcadas. Melhor assim, então. Não dormiremos, não descansaremos, porque ele amanhã vai querer nos ver assim, com estas olheiras, com este rosto pálido, essas marcas que ele permanentemente exige de nós. Ele nos cobrará isso e nós lhe prestaremos contas, como sempre prestamos. Estaremos mentindo se dissermos que fazemos isso de má vontade.

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Quando passarmos a dormir bem, a não nos inquietar, a sorrir como os outros, estaremos prontos para renegar o amor. O amor há de ser sempre aflição, instabilidade, insegurança. O amor não dorme em redes, não coça a barriga pachorrentamente. O amor está sempre naufragando sem barcos de salvamento, pulando de décimos andares sem rede. O amor estará sempre se lastimando, tentando expressar-se em poesia. O amor estará sempre morrendo. O amor não é um piquenique. O amor há de sempre aspirar à eternidade, embora sabendo que a perenidade é mortal para ele como as traças dentro de um livro. O amor é fluido, frágil, perecível. É dessa efemeridade que se faz sua essência. O amor nunca será encontrado em álbuns de família. Nunca será apontado como vovô Pedro ou vó Lucinda. O amor é sempre o abençoado transgressor que não aparece em foto nenhuma, a não ser naquelas escondidas bem no fundo das gavetas, guardadas num envelope no qual se lê “selos” ou “receitas”.

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O amor é um processo, não é uma meta. O amor não se perfaz, o amor é só um caminho. Não existe amor feito, perfeito. Fotos de pai, mãe e filhos são fotos de família, não são fotos de amor. O amor não é o passeio pelo campo num domingo. O amor é inquietação, tormento. O amor não é a bonança. O amor é a tempestade, a fúria das ondas, os gritos no convés.

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O amor, como eu o vejo, não pode nunca dar certo, e é isso que mantém, eu penso, sua mística. Há quem tenha do amor a imagem de uma família acomodando as malas, os filhos e os cachorros no carro, para uma viagem de férias. Não consigo acreditar que tudo o que os poetas vêm dizendo há séculos se refira a isso. O amor é aflição, é ciúme, é insônia, é insânia, é tormento. O amor é Werther. Tudo que fuja a esse script é acomodação, é arranjo social, é conveniência, é qualquer coisa menos amor. O amor precisa doer, machucar, ser uma dúvida e uma conquista de cada manhã, de cada tarde, de cada noite. O amor há de incomodar, jamais aliviar. No dia em que ele não atormentar mais, já não será amor. Amor em álbum de fotos, tenham paciência, pode haver maior disparate?

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