Nunca me esqueci da sua imagem à beira do canal, contemplando a obra que ele – aquele criminoso, aquele monstruoso! – realizará. Só Deus sabe que, naquele momento, nenhum de nós era capaz de raciocinar. Ainda assim, lembro de saber muito bem o que se passa em seu pequeno cérebro vingativo e extraordinário.
Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.
Quando me aposentei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Descobrimos o que procurávamos próximo ao vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o trânsito no canal final, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.
Ali, num morro perto do canal, fizemos a casa que compramos, a poucos quilômetros da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na superfície suave da água. Não estávamos completamente isolados, pois havia algumas centenas de metros de distância fora de casa, bastante parecido com a nossa.
Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como sra. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpático, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.
Achei estranho como um jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.
Quando, alguns dias depois, passamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e abriu nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprir. E não era uma linda manhã? Também não achamos que aquela era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?
Ele falou com tanta excitação que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. É que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos tão encantados em ter um vizinho jovial.
Mas nossa paixão não durou muito tempo. Na realidade, não havia menor objeção a fazer Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…
Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre foi ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imagino como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.
Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que poderia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com uma pessoa tão devotada.
Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que faziam falta um filho. Ela me contou que a sra. Surgis desejava engravidar, e aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já havia perdido as esperanças.
Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditou ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar criação. Betty recusou um dos filhotes que uma amiga quis lhe oferecer por achar que não pensava cuidar dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para a sra. Surgis. Concordei, e na mesma noite pedi o que achariam de ter um filhote de cachorro. A Sra. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não pensei nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.
Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu exatamente o contrário daquilo que pensamos.
Tínhamos imaginado o cachorro como companheiro de uma mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contou, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.
Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. Às vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal noticiou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.
Havia uma única vantagem para nós: com cirurgia concentrada no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que a sra. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrou um novo ídolo para adorar, o que foi um enorme rompimento para ela.
Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi alcançado.
Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa preciso girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.
Preguiçoso, deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abandonou o rabo em resposta à saudação.
Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobri uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto deles, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n'água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando consegui não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Eles acabaram indo lavar sua roupa no outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.
Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.
Então chegou o dia em que tudo mudaria.
Havia algum tempo que precisávamos da impressão daquela sra. Surgis evitou qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.
– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolva quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.
Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou uma grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmou suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela tem um pouco de virulência por causa de sua ocorrência. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procure tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.
– Roger – eu disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediu se tivesse direito a um desejo?
Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.
– Quer saber o que eu pediria? Por quê?
– Certamente devo ter algum sonho!
– Mas o que é isso?
– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.
– Ai de mim se eu souber o que quero… Tenho tudo de que preciso: minha mulher, minha casa, minha profissão e minha…
Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos aquele animal diabólico.
– Bem, e o que será que a sra. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.
– O que ela poderia querer?
– Talvez algo mais que um cachorro.
Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.
Rimos. Sua ocorrência não nos surpreendeu.
Mas houve quem ficou surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe desviava. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse ao seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.
Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem correu por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.
Passou-se uma hora. A empregada trouxe uma tigela com a ração. Ele está desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.
Mas esperou em vão.
Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A sensação amarga ele teria à mesma noite, e na manhã e na noite seguinte – dia após dia.
O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreensão. Ficou nervoso e irritado. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e esse o primeiro passo para aproximar-se dele.
Na terceira semana, começou um mancar. Nas operações normais, a cirurgia teria sido chamada por um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou aquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentei uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também esses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele escolheu qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.
Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontramos, baixamos a cabeça e passamos direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.
Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques foram inúteis. Algo mudaria naquela casa que ele dominaria. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter foi condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.
Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria ocorrido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saiu de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tivesse cruzado seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.
Foi uma decisão acertada, pois o parto da sra. Surgis foi por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordou. Assim, todos estavam reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe da sra. Surgis, minha mulher e eu.
E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele estava atravancando o caminho de todos.
E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!
O que conta ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passou ali que ele não entendeu, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causava sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.
No momento em que a porta se abrisse, aquele apareceria – e não teria que escapar.
Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.
Dentro de casa, nem imaginávamos nada. Betty e eu fomos incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua motivação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico está abalado, sorridente.
– Bem, Sr. Surgis – disse –, venha e proteja sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.
Trêmulo, o homem estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.
O médico calçou as luvas para sair.
– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.
Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e foi que Júpiter estava no meio da sala.
Encarou Surgis. Seus pequenos olhos cor-de-rosa estavam estabelecidos na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.
Atacou, latindo furioso.
E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentei instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava ao seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.
Enquanto isso, Surgis recupera o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caiu nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos suas patas e arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.
E o que deve acontecer com Júpiter?
– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso a cirurgia teria que ser solicitada a um tratamento especial.
Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.
Mais tarde descobrimos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da normalidade absoluta. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por acaso, o médico descobriu que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.
Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobriu novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele da manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua era idolatria total.
Todos nós esquecemos de Júpiter – ele não passou de um pesadelo –, até, certa noite, eu serei lembrado dele por um acaso.
Por algum motivo, eu não consigo dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.
Assustei-me ao notar de repente uma sombra se incomoda sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.
Era Júpiter.
Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizamos antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Minha Copenhaga bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão escondido no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.
Fechei a janela, trancando-a.
No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passou de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi uma empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntando se ela vira Júpiter nos últimos tempos.
Ela respondeu que não queria contar nada para a sra. Surgis para não deixá-la preocupada, mas há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando eu estava passando com o bebê, um carro passou por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouviu um latido nervoso. Olhando para cima vi um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.
Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e pondera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquece nada. Eu o virei casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?
– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.
Mas eu fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, a rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?
Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.
O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impeçam a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu muito absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.
– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou seu dono? E pensei também no comerciante de artigos de ferro:
– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganho de presente e quero ficar com ele.
Assim, nada aconteceu. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.
Era uma belíssima tarde e nós íamos visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.
Depois de algum tempo, sra. Surgis nos chamaram para a casa, que ficaram uns cem pés acima do terraço interior:
– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!
Nós subimos e surgimos nos efeitos alguns instantes depois. Já estava sentado à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.
– O bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.
Jamais nos acorda à noite, nunca chora…
– Ela não está sol? – Disse a Sra. Surgis.
– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.
– Você deixou no terraço? – quis, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.
– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…
Tive um pressentimento ruim. Ele viu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor fosse rendensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.
– Ah, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse a sra. Surgis. – Você realmente está mais preocupado com aquela avó!
Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentesse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se enviou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então ouvimos o seu grito terrível e desesperado.
Ele não falou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais ouviu – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.
– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – Berrei.
Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.
O carrinho de bebê não estava mais no terraço.
Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.
E Júpiter estava ali.
Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia-se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d'água, empurrando-os com seus poderosos músculos.
Ali estava ele, assistiu como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.
O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo na água.
Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deu o bebê na margem. E Surgis já chegará. Ele abraçou a criança e abriu contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.
Surgis se ajoelhou. Os músculos do seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:
– Júpiter.
A mão estava cortada para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.
– Vem, meu velho!
Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.
Stefan Zweig
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