domingo, junho 7

‘Tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais’

Lygia Bojunga não gosta de entrevista. Nem mesmo quando é para falar dos 50 anos de “A bolsa amarela”, seu livro mais querido e aclamado, que transformou a vida de gerações de leitores e, desde 1976, já vendeu aproximadamente um milhão de exemplares em 36 edições. Lygia não gosta de entrevista, gosta de conversar. O papo que começa com a pergunta objetiva sobre o encantamento ainda despertado pela história de Raquel, a menina que escondia na tal bolsa três grandes e libertadoras vontades (de crescer logo, de ser escritora e de ter nascido menino) vai e volta em diversas direções, indicando muitos caminhos. Passa pela infância da escritora gaúcha em Pelotas, traz memórias da carreira de atriz (dos trabalhos com Henriette Morineau e Fernanda Montenegro às “mambembadas” com as quais rodou o país, falando sobre sua vida e obra), relembra a paixão por casas (construiu a primeira, em torno dos 6 anos, em um galinheiro abandonado na chácara do avô) e livros (“para mim, livro e casa sempre se misturaram”, diz), e retorna sempre ao amor eterno pelo companheiro Peter, inglês que esteve ao seu lado por mais de cinco décadas e morreu em 2018.


A poucos meses de completar 94 anos, em agosto, Lygia se dá cada vez mais o direito de falar muito, ou nada. Ou pouco, como por exemplo ao comentar o episódio recente ocorrido em Brasília, quando pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II pediram a retirada de “A bolsa amarela” das atividades de leitura, alegando que o livro abordava questões de gênero e ideologia inadequadas para crianças. O episódio gerou grande repercussão e apoio à escritora nas redes sociais (que ela nunca acompanhou, nem quer acompanhar), mesmo depois de a direção do colégio alegar não ter havido censura, mas um “mal-entendido” em relação ao conteúdo da obra.

— Não leram o livro até o fim. Tem que entender o que a Raquel está falando, mas para isso precisava ler o livro inteiro. Se lessem, veriam que desde o início tudo conversa sobre uma luta por direitos iguais — resume Lygia, sem se estender muito para não deixar a polêmica ofuscar a celebração.

“A bolsa amarela” não é a obra de estreia da autora, que ganhou o Jabuti logo com seu primeiro livro, “ Os colegas” (1972), seguido por “Angélica” (1973). Assim como os dois primeiros títulos, “A bolsa amarela” carrega muito da fabulação de Lygia, marcada pela abordagem filosófica e lírica, sem linhas delimitadas entre imaginação e realidade, de sentimentos e vivências comuns a todo ser humano. Estão lá dúvidas, perdas, alegrias, a coragem de superar desafios e a crítica social, algo que é caro à escritora. Talvez por isso Lygia afirme que, apesar de ter “muita dificuldade para escrever, nunca um livro saiu tão natural e espontâneo” como “A bolsa amarela”:

— Não foi um discurso feminista, planejado. A primeira ideia que se impôs foi exatamente a que tive desde menina, de querer ser grande e independente. E de gostar e querer escrever, sem dúvida. Mas eu também ficava revoltada de ouvir, quando criança, ao experimentar chutar uma bola, que “isso não é coisa pra menina”. Então vinha a questão da vontade de ser garoto, de ter liberdade. Mesmo escrever, antigamente, era coisa para homem. O livro reflete isso. O anseio e a revolta que as pessoas sentem de verem os homens com tantos privilégios e as mulheres terem que lutar tanto para até hoje, na hora em que conseguem independência, sofrerem feminicídio. Temos muito chão para andar, o mundo ainda é muito patriarcal.

Primeira brasileira a conquistar o Hans Christian Andersen, principal prêmio para a literatura infantojuvenil do mundo, em 1982, e única brasileira a vencer o prestigioso Alma (Astrid Lindgren Memorial Award, do governo sueco), em 2004, Lygia, que em 2002 fundou a própria editora para abrigar sua literatura, tem negado novos pedidos de traduções ou adaptações de livros. Prefere deixar a Fundação Lygia Bojunga, que criou para gerir sua obra, com liberdade para fazer o que quiser depois que ela se for.

E embora esteja cada vez mais arredia (“a vida cansa, mesmo tendo sido uma vida que considero muito privilegiada”), a criadora de tantas obras geniais para jovens leitores, além de romances e ensaios sobre o próprio ato da criação, continua inquieta. Decidiu renovar a carteira de motorista ano passado (“me senti como se tivesse 50 anos!”), acompanha diariamente o noticiário (“por mais que eu venha me retirando do mundo lá fora, quero saber o que acontece”), tem relido clássicos como Juan Rulfo (“não quero ler nada novo, não tenho mais paciência”) e, mais importante, continua a escrever. Tanto que pretende publicar, ainda este ano, o primeiro tomo de suas memórias, que por enquanto levam o título bastante sugestivo de... “A casa eterna”.

Lygia confessa que, como “mãe” de tantas outras obras, se sente um pouco traiçoeira com o que considera muito alarde em torno do cinquentenário de “A bolsa amarela”. A autora de “O sofá estampado” (“é um livro de que gosto muito, me afeiçoei demais ao Vítor”, diz sobre o tatu protagonista), “Tchau”, “A casa da madrinha” e “Corda bamba”, entre outros, sabe perfeitamente, porém, o lugar especial que o livro cinquentão ocupa no imaginário de seus leitores a partir de depoimentos que eles continuam a enviar até hoje, e de todos os cantos do mundo. Quase todos dizendo como Raquel e suas atitudes diante das vontades que ela escondia na bolsa ajudaram a mudar suas vidas.

Do Brasil e do exterior, aliás, chegaram mais de 600 inscrições para o concurso de textos inspirados no livro, a parte mais visível da comemoração do aniversário. A coordenação é da professora e escritora Ninfa Parreiras, que integra o conselho da Fundação Lygia Bojunga e está à frente das atividades promovidas pela instituição. Além de participantes de todas as regiões brasileiras, o concurso, que é voltado para falantes da língua portuguesa acima de 14 anos, recebeu inscrições de Alemanha, Angola, Espanha, Estados Unidos, Japão, Moçambique, Portugal e Suíça. Lygia será uma das leitoras dos textos, que ainda estão em fase de seleção.

Apesar de tamanho reconhecimento dos leitores, da crítica e de outros escritores (leia no box abaixo), Lygia diz que ainda fica “pasma” com o alcance de sua obra, pela qual nunca nutriu “grandes expectativas”.

— Desde muito cedo gostei do ato da escrita, de fazer letras, mas nunca tive facilidade com a narrativa. Escrevo, acho uma porcaria, desisto, rasgo.

E rasga mesmo. Durante a pandemia da Covid-19, retirada no sítio Boa Liga, refúgio que construiu na Região Serrana do Rio há décadas, ela escreveu cadernos e cadernos — muitos deles artesanais, feitos à mão, como ela própria já fez, presenteados por leitores e amigos. Alguns descansam sobre a escrivaninha do escritório na casa em Santa Teresa, mas outros, ela confessa, não sobreviveram à sua releitura.

Já o livro de memórias está devidamente abrigado no computador com o qual Lygia briga de vez em quando, assim como com o celular, que também teima em corrigir o que ela não quer. A irritação se estende às redes e a toda aceleração, para ela nociva, que chega junto com a tecnologia.

— Resolvi não me adaptar, porque não me faz bem. Depois de tantos anos de vida, por que eu vou me sujeitar a uma coisa que não me dá o menor prazer, que não está sendo construtivo?

Construtivo, para Lygia, é termo que se aplica fundamentalmente a casas, sua grande aventura ao lado dos livros. Além de planejar o sítio Boa Liga, do qual se orgulha não apenas por abrigar projetos sociais em torno da literatura, como principalmente pela recuperação de um grande volume de árvores, ela mesma fez o projeto de interligação de três casas em Santa Teresa — bairro adorado desde que o conheceu, aos 19 anos, ao fazer um teste para ser atriz (que deu certo), sabendo que um dia ficaria por lá. O espaço, que ocupa há décadas, e de onde desfruta a vista privilegiada da cidade onde chegou com os pais aos 8 anos, reúne sua casa e as sedes da editora e da Fundação.

— Para mim, casa e livro vieram juntos, se confundem. Muito cedo aprendi a ler e muito cedo gostei de desenhar e de querer casas — conta. — Consegui fazer o que eu queria, muito mais até do que imaginava. É bom poder dizer, a essa altura, que vou deixar um legado, não só dos livros, até porque esse não acho muito merecedor, mas sou orgulhosa de ter conseguido recuperar uma montanha de árvores na Boa Liga.
Mànya Millen 

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