Desde vinte e um de junho vivemos o inverno. Por aqui, o frio começou antes; meu inferno particular, gelado, estava apressado. Há alguns dias, tenho andado cheio de roupas quentes, meias de lã, casacos, moletons, até mesmo gorros. Dizer que não gosto é pouco. As baixas temperaturas e o céu acinzentado parecem unir-se para me deixar triste, acabrunhado, infeliz. Muita gente afirma ser um período civilizado, época de andarmos vestidos elegantemente, com roupas e tons mais sóbrios. O problema é minha sobriedade interna excessiva no período. A alma transformada em picolé. De limão. Azeda!
No momento, enquanto escrevo, tenho à minha frente uma xícara de chá fumegante. Envolvo o recipiente com as duas mãos na esperança de aquecer os dedos. Respiro sobre o líquido para ver se descongelo o nariz. E nem sou muito fã de chás; considero o hábito britânico mais uma exibição de fleuma, um jeito de dizerem que são sofisticados. Como podem gostar daquela água quente na qual derramam um dedal de leite mais encorpado? Mas tive que apelar, buscando desesperadamente uma forma de me aquecer. Em vão! Os pés não encontram possibilidade de se comportarem adequadamente. Endurecem, dormentes; insistem na sensação de formigamento, tenho certeza de que estão, apesar de envoltos em meião grosso, arroxeados e frios.
Recentemente, estive na Finlândia. Para eles, é normal saírem ao relento em uma temperatura para nós impossível: – 23 °C. Passeiam, andam pelas ruas e matas, consideram importante levar uma vida normal apesar das implicâncias do tempo. Tentamos acompanhar os locais. Apesar de calçar sapatos com pregos, não fiz boa figura caminhando sobre o gelo. Inseguro, bambo, sentia-me como um ganso fora da água. Lento, vacilando, escorregando muito e tentando reequilibrar-me, não consegui evitar um tombo. De frente, de cara naquele chão duro, salpicado de neve. Na ânsia de proteger o rosto, joguei o tronco meio de lado e concentrei o impacto todo sobre as costelas. Fora a vergonha e a humilhação de saber-me estatelado naquele cenário branco, apenas uma dorzinha terrível lateral — provável trincamento do osso —, que duraria semanas. Levantei-me úmido, sujo, maldizendo a sensação de sentir-me como uma peça de carne pendurada no freezer.
Tenho um sol tatuado no braço. Talvez, considero vivamente a hipótese, venha a acrescentar ao corpo a imagem de um mandacaru estilizado. Tudo para dizer que tenho gravado atavicamente o calor em meu espírito. O agreste e o sertão circulam em meu sangue, fervem a minha alegria de viver. Agora, no final das festas juninas no querido Nordeste, terra de meus antepassados, todo encolhido aqui, no meu apartamento geladeira sulino, tiritando, imagino o som do acordeão chacoalhando um forró:
— Tá danado de bom! Tá danado de bom!
E deliro na voz imaginada do Gonzagão.
— Luiz, respeita Januário!
À tardinha, o sol avermelha o horizonte empoeirado, a caatinga rachada, e meu coração se enche de luz. Acho que é isso. Eu sou do tipo que precisa ser iluminado. Ou me apago nas sombras de um vento triste, uivando lá fora um inverno, inferno de mim.
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