terça-feira, agosto 25

Os jovens e as ‘Noites brancas’ de Dostoiévski

Só quem não sofreu de amor na adolescência – quem não ouviu da menina mais linda da escola a frase “eu te quero como amigo” – pode estranhar o fascínio dos jovens pela história do rapaz dispensado por Nástiènka em “Noites Brancas”, a novela de Dostoiévski há mais de um ano na lista dos livros mais vendidos. O sofrimento amoroso dói, mas quando bem escrito esse inevitável ridículo da vida é bonito demais.

“Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?”, escreveu Antônio Maria.

“O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”, compôs Vinicius de Moraes.

O poeta mineiro sentado no calçadão de Copacabana me disse uma vez que o amor é isso que se está vendo: alguém que um dia beija, que amanhã já não beija e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Hoje é segunda-feira, eu acabei de ler essa história de Dostoiévski em que um jovem se apaixona ao encontrar a moça chorando numa ponte das noites claras de São Petersburgo. Posso dizer o seguinte: o amor é uma novela russa, um cenário de charme lúgubre recheado de ghosting e friendzone, nomes novos para as eternas trapaças da paixão. Acho que não dou spoiler – tudo acaba mal.

É um livro de educação sentimental, o primeiro amor, o coração aos pulos, e isso deve ter chamado a atenção dos jovens. O fracasso sentimental não costuma dar as caras no TikTok, a plataforma mundial de exibição de dancinhas e felicidades diversas. Foi de lá, no entanto, que veio essa onda capaz de transformar em best-seller um texto de 1848 – sem carícias, sem vias de fato, sem senta-e-toma, e com um final de infelicidade lindamente arrasadora. Lupicínio Rodrigues ia morrer de inveja da dor de cotovelo do chapa Dostói, tão dodói quanto ele.

É duro ter um amor, ter loucura por uma mulher – e essa é a história do livro, de todos os livros, de todos nós, o início, o fim e o meio de todas as canções. No penúltimo capítulo, quando tudo parece se aproximar do felizes para sempre e a lágrima furtiva já ameaça escorrer olho abaixo do leitor, eis que ela, a doce e confusa Nástiènka, abandona quem a acompanhou pelo livro inteiro – e se vai nos braços de outro qualquer. No TikTok, uma jovem mandou a real: “É um livro de terror!”.

Hoje, repito, é segunda-feira. Se Drummond, o poeta sentado de costas para o mar de Copacabana, disse não saber o que é o amor num dia desses, não sou eu que vou definir se é uma pegadinha que nos torna patéticos, a faca amolada no meio da aorta ou uma bet em que se apostam todos os Pix.

Estou passando aqui apenas para dizer que há adolescentes lendo novelas de amor e, num mundo dominado pela grosseria, isso é bom. Eles se reconhecem nas histórias. Quando são bem escritas, não se importam se terminam com um beijo na boca ou o torturante “eu gosto de você, mas te quero apenas como amigo”, dito naquele canto mais escuro do pátio, na hora do recreio, naquela veia mais sensível do coração.

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