segunda-feira, julho 28

Vida de autor

Quando era criança e me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, eu respondia: “Bombeiro, astronauta”. Minha resposta nunca nem passou perto de: “Quero ser escritor de livros infantis”. Hoje, quando me encontro com leitores por todo o Brasil, já escuto com frequência crianças que sonham ser escritores. Isso, com certeza, tem a ver com o privilégio de uma geração de conhecer escritores e se identificar com eles. Aliás, não conheci nenhum escritor ao vivo na
minha vida escolar.


O que acontece nesses encontros com as crianças? É um momento em que conto os bastidores da minha criação literária, falo como cada história nasceu e como minhas filhas fazem parte desse processo. Por exemplo, o livro “Papai é Meu!” começou a ser gestado em um passeio ao parque, quando a menor começou a puxar meu braço dizendo: “Papai é meu!”.A mais velha reagiu: “Não, papai é meu!”. Começou um cabo de guerra com os meus braços que não aguentei e dei um grito: “Para!”. A pequena disse: “O que foi, pai?”. “Vocês querem me rasgar pela metade?”. A pequena, com espanto, perguntou: “O que ia acontecer?”. “Cada uma ia ficar com uma metade de pai!”. A pequena arregalou os olhos e disse: “Que legal!”. Abri um sorriso e comecei a construir o livro na minha cabeça. Para descobrir o resto, só lendo o livro.

Plenos de histórias


Os cientistas dizem que estamos cheios de átomos, mas um passarinho me contou que estamos cheios de histórias

Eduardo Galeano

Assim começa o livro...

Café preto

Hercule Poirot tomava o café da manhã no seu pequeno porém aconchegante apartamento em Whitehall Mansions. Tinha apreciado o brioche e a xícara de chocolate quente. Para surpresa de seu criado George, pois Poirot era uma criatura metódica que raramente variava a rotina do seu breakfast, o patrão pediu-lhe que preparasse uma segunda xícara de chocolate. Enquanto esperava por ela, relanceou de novo para a correspondência da manhã, pousada sobre a mesa.

Meticulosamente ordeiro como sempre, ele colocou os envelopes descartados numa pilha bem arrumada. Haviam sido abertos com cuidado, com uma espátula em forma de espada em miniatura que seu velho amigo Hastings lhe dera como presente de aniversário havia muitos anos. Uma segunda pilha continha aqueles comunicados que considerava de nenhum interesse – panfletos, principalmente -, que no momento oportuno pediria a George para dar um fim. A terceira pilha consistia naquelas cartas que exigiam algum tipo de respostas, ou pelo menos confirmação de recebimento. Cuidaria disso depois do desjejum e, em todo caso, não antes das dez horas. Poirot achava não ser muito profissional começar uma rotina diária de trabalho antes das dez. Quando estava envolvido num caso... ah, bem, claro que aí era diferente. Recordou-se daquela vez em que ele e Hastings levantaram bem antes do alvorecer a fim de...

Agatha Christie

domingo, julho 27

È preciso mastigar e digerir


Há livros de que apenas é preciso provar, outros que têm de se devorar, outros, enfim, mas são poucos, que se tornam indispensáveis, por assim dizer, mastigar e digerir.

Francis Bacon

A 'orelha' do inédito de Suassuna


Nos últimos 30 anos, Ariano Suassuna se dedicava ao livro mais caudaloso e importante da carreira literária, “O jumento sedutor”, que atingiu duas vezes a versão final, encaminhada para a editora. Com de cerca de 300 páginas, reúne romance, teatro e poema, além de ilustrações dele, tudo escrito à mão por Ariano e digitado posteriormente, como sempre fazia. "O livro está pronto. Ele não estava escrevendo o livro, mas fazendo modificações, que não sei o que eram", explica Maria Amélia de Mello, da José Olympio, responsável por todo o catálogo do artista, à exceção de “A pena e a lei” e “Auto da Compadecida”, ambos da Agir.
Leia mais sobre o livro

Apresentação de livro inédito de Ariano Suassuna


Raimundo Carrero
Este livro é uma Revelação, assim mesmo com letra maiúscula e tudo, para ressaltar a questão reliogiosa-teológica, assim como histórico-literária; porque não é uma Odisséia nem uma Epopéia, no sentido de contar a história de um povo, com suas lutas e seus feitos heróicos; porque não é uma novela, com tudo de maravilhoso que se espera de um texto assim; como não é também um romance, por aquilo que supera em muitos pontos o que se diz numa obra de ficção, com os seres transtornados, felizes e as almas sacrificadas.
É mesmo uma Revelação ao trazer à luz o espírito vivo, mágico e grandioso do verdadeiro Brasil, a iluminar e esclarecer nossa formação inquieta e revolucionária, e ao desvendar, em estilo ou estilos que se consagram pela luminosa interpretação da cor, da raça e do sangue do brasileiro, seus amores, suas intrigas, e suas aventuras e, ainda mais, oferecendo-lhe um caminho e um destino como fizeram Dostoievski e Tólstói da Rússia, ou com Cervantes já fizera antes com a terra áspera e montanhosa da Espanha, transformada em Grande Teatro do Percy Lubock diz que Tólstoi escreveu Guerra e Paz com as duas mãos. Enquanto a esquerda escrevia a Epopéia russa, a direita redigia um romance. Ariano Suassuna, porém, escreve este livro com as duas mãos, o coração, a mente, os nervos e o sangue, dando-lhe a dimensão de notável obra-prima, dessas capazes de iluminar não apenas personagens e situações, mas de revelar os caminhos de um povo traça para formar a sua grandiosidade e sua força; por isso, está muito acima do que comumente se escreve neste e noutros países. Aqui, a literatura de ficção vai além daquilo que se convencionou chamar de textos literários, pelo menos no sentido que nós conhecemos. Personagens, por exemplo, não são apena metáforas e símbolos, assumem a dimensão de Mitos e se revelam e se transformam durante todo o livro.
O leitor que se prepare para ter visões deste Brasil que se levanta aqui e que, por razões óbvias, ainda não se dera totalmente a conhecer, mesmo em obras fundamentas como Os sertões, de Euclides da Cunha, ou Grande Sertão-Veredas, de Guimarães Rosa. Estruturado em canas teatrais, Repentes, Epístolas, cantares e cordel, o Livro se apresenta como um espetáculo de circo, ao mesmo tempo popular e erudito, com muitas variações e exibições que desafiam, grandemente o espectador. Porque aqui o leitor não é apenas um leitor, é muito mais do que isso, é leitor, participante e espectador, no que revoluciona toda a prosa brasileira, desde seus textos mais tradicionais e conservadores, passando pelas vanguardas, até o caminho pronto, a nos indicar o verdadeiro e definitivo destino da ficção nacional.

Então, o espectador, participante ou leitor, que se prepare para acompanhar as páginas que vão se agigantar revelando – para seguir a Revelação -, numa plena realização Estética, Social Religiosa e Profana, tudo isso que reunido forma a prosa literária e que é atributo dos escritores guiados pelo Espírito e pelo Sangue e não apenas pela caneta e pelo papel, como se dizia antigamente.E

sábado, julho 26

Imagem do Dia

Ai Suijyo (Japão)

Casas lotadas de livros?

“Com as prateleiras de casa lotadas, as pessoas começam a buscar cada vez mais livros digitais”

Talvez ninguém parou para pensar naquela frase do colunista, ou tudo entrou por um ouvido e saiu pelo outro, encantando-se o leitor com a fábula de números citadas. Um sucesso noticiado sob o absurdo de uma frase para um país onde pouco ou raramente se lê e lote de livros é mesmo apenas um montinho. 
Quem dera que nossas casas estivessem lotadas com livros. Pode-se contar quem hoje se dê a esse luxo de lotar a casa de livros, em que pese não ser nenhum luxo, mas um bom gasto financeiro e muita disposição para deambular atrás do seus queridos volumes, lidos e relidos.  

A vida são deveres



O ator Antonio Abujamra declama os versos de Mário Quintana

Victor Hugo para crianças

 A editora Gaivota está lançando o livro “Cantos para os meus netos”, de Victor Hugo (1802-1885), reúne oito poemas do escritor francês retratando o universo infantil. No primeiro deles, o leitor poderá acompanhar um diálogo de três crianças, de 5, 6 e 7 anos, discutindo sobre os animais de um zoológico. Em outro, acompanhará a relação entre um neto e um avô, transmitindo a infância com a imagem da felicidade.

Tratando de aspectos comuns ao universo infantil da época, os poemas advêm da convivência de Victor Hugo com seus dois netos. Mas, ao contrário do que se pode pensar, as crianças dos dias de hoje conseguem se identificar com o texto, pois tratam de temas frequentes, como as dúvidas frente às pequenas coisas da vida.

A linguagem poética transporta os leitores para um cenário lúdico, onde o romantismo é recriado por Laurent Cardon em tons pastéis. Além da versão em português, pela professora Marie-Hélène Catherine Torres, a segunda parte do livro também traz os poemas originais, em francês, e uma análise de cada um deles. As ilustrações são de Laurent Cardon.

Deus faz as perguntas e as crianças respondem 

 Os dois bichos mais engraçados desse mundo,
O gato e o rato, se odeiam. Mas por quê?
Explique-me isso, Jane’. E sem saber por quê,
Frente à sombra e ao espaço misterioso,
Jane começou a rir.

sexta-feira, julho 25

O bom leitor

Wonderland (1870), Adelaide Clayton
" Aquele que lê com a imaginação"
Marçal Aquino

Os evangelistas de Mälesskicher

Gabriel Mälesskircher, que morreu em 1495, quando a sífilis assolou a Europa, viveu, segundo alguns registros em Munique, onde teve vida ativa até como político.  Mas foi como pintor que ficou para a história. Entre seus trabalhos mais importantes estão os 13e retábulos encomendados para o monastério beneditino de Tegernsee, que no século XIX foi reformado e vendeu parte de seu acervo. As obras de Mälesskircher, bem documentadas e datadas, estão divididas entre várias coleções, entre elas as dos evangelistas, hoje no Museo Thyssen-Bornemisza, em Madri.


Dos oito painéis do mosteiro de Tegernsee, quatro apresentam os evangelistas trabalhando em seus estúdios, ocupados com a redação dos Evangelhos. São quatro representações bem detalhadas de como cada copista trabalhava em seus scriptorium
São Mateus

São Marcos

São João
São Lucas

À espera do leitor



Há quem pense que os livreiros só guardam velharia. Há mesmo aqueles que veem o sebista como um guarda de mortos. Não é à toa a aversão, principalmente das mulheres, a essas lojas. A desculpa é sempre da poeira e da velharia. Afinal, a maioria dos livros é de autores e leitores mortos, com muito pó guardado. Mas ainda assim quanta vida podem gerar. Os autores estão preservados, intatos, em ideias e texto. Os leitores marcaram de alguma forma os seus dias de leitura. Bem pode ser que livros mortos, mas estes já nasceram para virar pó. Tinham característica própria de que rapidamente acabariam num papeleiro ou, se resistissem mais, alimentariam traças. São minoria. Os livros resistem bem mais do que se pensa. Um reparo aqui e outro ali faz deles quase imortais. Alguns mesmo superam os próprios imortais. Estão nas prateleiras há quase tantos anos quanto o autor tem de morte. Esperam a mão, a curiosidade que guiará a mão do leitor para saborear um jeito de ser mais velho do que a própria vovozinha.  E ficam por lá, conservados em poeira, resguardados em teias. 

quinta-feira, julho 24

Imagem do Dia


Assim começa o livro

Nero

Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso... Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um lebrão descarado se fora aninhar debaixo da arcada das costelas de caçoada! Ah, sim, entre dois males... Já que não havia melhor, ficar ao menos ali.

(Conto de abertura de “Bichos”, de Miguel Torga)

Os dorminhocos

Sleeping, de John Tarahteeff
Os leitores são, por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo. Autor que os queira conservar não deve ministrar-lhes o mínimo susto. Apenas as eternas frases feitas.
Mario Quintana do Caderno H

Affonso Romano

Foto: Lina Faria
“Não saberia viver sem essa coisa que é o livro, seja em papel ou digital”

Ele é um dos intelectuais mais atuantes do país. Escreve crônicas para jornais e revistas há mais de meio século. É um dos principais poetas brasileiros, autor de dezenas de livros, entre os quais “Que país é este?” e “Textamentos”. Estudou a obra de Carlos Drummond de Andrade, o que resultou no livro “Drummond: o gauche no tempo”. Affonso Romano de Sant’Anna, mineiro nascido em Juiz de Fora em 1937, foi o segundo convidado de 2014 do projeto “Um Escritor na Biblioteca”.

COLEÇÃO PARTICULAR

Lá em casa acontece uma coisa que também deve acontecer na casa de vocês. Volta e meia chega um operário ou um jornalista, o que é mais grave, e faz a pergunta: “O senhor já leu todos esses livros?”. É incrível, porque fazem sempre a mesma pergunta. Dependendo do dia, respondo: “É, eu já li. Esses aí e tem mais três cômodos de uma casa em Friburgo que também estão cheios de livros. E tem ainda os que eu não tenho, mas li em bibliotecas.” 

NOVOS LEITORES

Reportagens mostram que na Itália, na França, na Espanha, em qualquer país, os professores e os comunicadores afirmam que os jovens não sabem mais escrever. E não sabem por uma razão muito simples: por causa da cultura digital.  

NA PALMA DA MÃO

Temos que fazer uma campanha para que as pessoas descubram que todos têm uma biblioteca nas suas mãos. Quando você vai a uma lan house, o que se escuta? Uma barulheira incrível. Uma gritaria sem fim. O que passa? Os meninos estão jogando. São jogos de matar e morrer. Então, tem que ensinar esse pessoal a ler, seja no computador ou na tela do celular. Todo mundo está com o celular na mão, mas é joguinho ou palavra cruzada para matar o tempo, quando o sujeito poderia estar aproveitandoo tempo lendo algum livro de Dostoiévski, Cervantes ou Machado de Assis. É importante fazer uma campanha de descoberta da biblioteca digital. 

quarta-feira, julho 23

Morre Ariano Suassuna





Sou um escritor de poucos livros e poucos leitores. Vivo extraviado em meu tempo por acreditar em valores que a maioria julga ultrapassados. Entre esses, o amor, a honra e a beleza que ilumina caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos.
Ariano Suassuna

Imagem do dia


O alcoviteiro

Fungos, ácaros, poeira, quem sabe, ratos – não é à toa que o gato se tornou o melhor amigo do sebista. Pode ser assustador para quem adora a assepsia de ambientes refrigerados, bem decorados segundo as novas técnicas de venda. Mas nenhuma modernidade pode superar o encanto de um sebo. São anos dentro de um deles. Todos guardam um feitiço de velho baú, de um sótão, onde crianças travessas vasculham as histórias secretas dos ancestrais. O velho álbum da família humana está naquelas empoeiradas prateleiras. Comerciante com um pouco de criança, afinal somos nós. Sempre prontos com uma história na ponta da língua, um olho arregalado para a nova remessa que pode trazer tesouros impensados, e os ouvidos atentos à caixa registradora.

Pode parecer um retrato assustador. Mas tenham calma, fregueses. Em nenhum outro lugar se encontra tanta vida concentrada pronta para ser levada para casa que uma flanela e uma escova não deixem em perfeito estado de uso. Entre em um desses velhos sebos. A História já estará a recebê-lo no umbral centenário. Visite prateleira por prateleira. Tire um livro aqui, outro ali. Se detenha naquela onde está o assunto que mais lhe interessar. Tenha certeza de que descobrirá o mundo que ficou ali à espera de você.

Os livros têm essa magia da paciência infinda. Numa estante, esperam talvez inúmeros anos só por você. Por mistérios desconhecidos, trafegaram em estradas, viajaram mares, frequentaram ambientes onde talvez você nunca estará. Um dia há o encontro. É o verdadeiro amor à primeira vista. Então o autor encontra seu irmão em outro idioma. É você, que ali, talvez mesmo passado um século, descobre o encanto do encontro. E o livreiro, onde fica nesse caso de amor? Ele é apenas o alcoviteiro, que passou anos entre aqueles seculares fungos e ácaros para guardar e vigiar um momento único.   

Essas estranhas bibliotecas

Biblioteca adaptada de um carrinho de para venda de cachorro-quente