15 DE SETEMBRO
Se a vida estiver lá fora, nessas vozes que desdenhei? E se o desvio da minha rota foi exatamente esse que escolhi? Mas haverá ainda tempo?
Fico olhando o besourinho lustroso, de pintas vermelhas no verde-esmeralda das asas. Atravessa minha mesa num andar enérgico, decidido - de onde veio e para onde vai? Toco-o com a ponta do dedo e imediatamente ele se imobiliza dentro da pequena carapaça, se faz de morto. Sua tática de defesa me emociona, também me fiz de morta tantas vezes. Tenho vontade de colher o besourinho na palma da mão e levá-lo até os potes de samambaia, não seria mais feliz lá? Fico vacilante, o que é bem para mim pode ser o mal para ele. A ambiguidade do Bem. Afasto-me para que ele não se sinta tolhido, quero-o livre. Observo de longe a bolinha verde-esmeralda que ressuscita e retoma sua marcha. Retomo a minha.
Lygia Fagundes Telles, "A disciplina do amor"
segunda-feira, outubro 9
Diário poético
A hortênsia é uma couve-flor pintada de azul.
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
Qualquer ideia que te agrade, é tua. O autor nada mais fez que vestir a verdade que dentro de ti se achava nua...
Há noites em que não posso dormir de remorso por tudo o que deixei de cometer...
Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas!
Leon Tolstoi fugiu de casa aos 80 anos. Não são todos os que podem realizar os grandes sonhos da infância!
Às vezes o túnel do sono é iluminado apenas pelos olhos verdes dos fantasmas.
Tudo o que acontece é natural. Inclusive o sobrenatural...
Depois de cada ilusão perdida, que estraordinária sensação de alívio!
Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.
Mário Quintana
*
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
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Qualquer ideia que te agrade, é tua. O autor nada mais fez que vestir a verdade que dentro de ti se achava nua...
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Há noites em que não posso dormir de remorso por tudo o que deixei de cometer...
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Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas!
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Leon Tolstoi fugiu de casa aos 80 anos. Não são todos os que podem realizar os grandes sonhos da infância!
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Às vezes o túnel do sono é iluminado apenas pelos olhos verdes dos fantasmas.
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Tudo o que acontece é natural. Inclusive o sobrenatural...
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Depois de cada ilusão perdida, que estraordinária sensação de alívio!
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Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.
Mário Quintana
É preciso descancelar Fernando Sabino
Sim, é verdade, ele disse que Zélia Cardoso de Mello, a ministra da Economia do governo Collor, era a personalidade pública mais fascinante que havia surgido no país desde Juscelino Kubitschek, e, não satisfeito, escreveu uma biografia autorizada em que 143 das 267 páginas eram dedicadas aos detalhes do envolvimento amoroso que a referida senhora manteve com outro ministro, um affair iniciado num evento público, diante de jornalistas, com o casal dançando “Bésame Mucho”.
O mineiro Fernando Sabino, morto em 2004, completaria 100 anos no próximo dia 12 e estava sentado à mão direita de Rubem Braga, o Deus supremo dos cronistas, quando em 1991 publicou “Zélia, uma paixão”. Tinha um currículo monumental. O romance “Encontro marcado” era um dos marcos da literatura brasileira, assim como a coleção de 20 livros (“Homem nu” chegou ao cinema) com textos às vezes bem-humorados, outras, filosóficos, que costumam ser rotulados de crônicas. Ao final das 267 páginas de “Zélia”, aquele monumento da mais fina, elegante e acessível prosa nacional estava ao chão. Foi, como se diz em mineirês, um trompaço.
No primeiro dia do governo Collor, a ministra boquiabrira o país com o confisco da poupança e aquilo era só o início de uma tragédia que culminaria com o impeachment do presidente. Em outubro de 91, quando o livro foi lançado, Zélia já estava fora do governo caótico, mas nem isso impediu que Sabino a definisse como uma nova Madame Bovary, a heroína de Flaubert.
A revista Veja classificou o livro como “escandalosamente ruim”, enquanto Millôr Fernandes preferiu perder a amizade, mas não a piada, e, no Jornal do Brasil, desenhou Sabino, seu parça de frescobol no Arpoador, carregando uma mala estufada de dinheiro. Em pânico com a unanimidade adversa, o biógrafo de Zélia trancou-se em casa.
Neste centenário a grande comemoração seria tornar prescrito o trompaço intelectual e descancelar Fernando Sabino, suspender o confisco de sua reputação literária. Devolver-lhe as merecidas glórias.
Aos que não perdoam, que ainda se ressentem da cumplicidade com a era Collor, recomenda-se a leitura de “A última crônica”, um comovente e solidário texto a respeito da desigualdade entre as famílias brasileiras. Num canto de bar, pai, mãe e filha, todos pretos, cantam parabéns para a menina, que assopra a velinha posta não no alto do bolo, mas num único e raquítico pedaço dele.
Mesmo trancado em casa, os fantasmas de “Zélia” – mais de 200 mil almas penadas, digo, livros vendidos – assombravam Sabino, e em seguida, radicalizando a vontade de ficar sozinho, os grandes amigos já todos mortos, ele separa-se de sua mulher há 17 anos, Lygia, a belíssima musa da canção de Tom Jobim. Pior. Revisa novas edições dos livros antigos, apagando o nome dela de todas as dedicatórias e das crônicas em que era musa – o que embaçou sua imagem de cavalheiro. O homem estava nu.
Tudo isso é triste, mas a obra deliciosa de Fernando Sabino paira acima de todos esses trompaços, e neste centenário é preciso resgatá-la. Saudá-la mais uma vez com a mesma alegria que proporciona. A madame Bovary agora mora em Nova Iorque, esquecida. Ficou, e para sempre ficarão, “A inglesa deslumbrada”, “A mulher do vizinho” e a amiga Clarice Lispector, a quem ele escrevia lindas, todas já publicadas, cartas de paquera-existencial. Sim, é preciso vestir Fernando Sabino.
O mineiro Fernando Sabino, morto em 2004, completaria 100 anos no próximo dia 12 e estava sentado à mão direita de Rubem Braga, o Deus supremo dos cronistas, quando em 1991 publicou “Zélia, uma paixão”. Tinha um currículo monumental. O romance “Encontro marcado” era um dos marcos da literatura brasileira, assim como a coleção de 20 livros (“Homem nu” chegou ao cinema) com textos às vezes bem-humorados, outras, filosóficos, que costumam ser rotulados de crônicas. Ao final das 267 páginas de “Zélia”, aquele monumento da mais fina, elegante e acessível prosa nacional estava ao chão. Foi, como se diz em mineirês, um trompaço.
No primeiro dia do governo Collor, a ministra boquiabrira o país com o confisco da poupança e aquilo era só o início de uma tragédia que culminaria com o impeachment do presidente. Em outubro de 91, quando o livro foi lançado, Zélia já estava fora do governo caótico, mas nem isso impediu que Sabino a definisse como uma nova Madame Bovary, a heroína de Flaubert.
A revista Veja classificou o livro como “escandalosamente ruim”, enquanto Millôr Fernandes preferiu perder a amizade, mas não a piada, e, no Jornal do Brasil, desenhou Sabino, seu parça de frescobol no Arpoador, carregando uma mala estufada de dinheiro. Em pânico com a unanimidade adversa, o biógrafo de Zélia trancou-se em casa.
Neste centenário a grande comemoração seria tornar prescrito o trompaço intelectual e descancelar Fernando Sabino, suspender o confisco de sua reputação literária. Devolver-lhe as merecidas glórias.
Aos que não perdoam, que ainda se ressentem da cumplicidade com a era Collor, recomenda-se a leitura de “A última crônica”, um comovente e solidário texto a respeito da desigualdade entre as famílias brasileiras. Num canto de bar, pai, mãe e filha, todos pretos, cantam parabéns para a menina, que assopra a velinha posta não no alto do bolo, mas num único e raquítico pedaço dele.
Mesmo trancado em casa, os fantasmas de “Zélia” – mais de 200 mil almas penadas, digo, livros vendidos – assombravam Sabino, e em seguida, radicalizando a vontade de ficar sozinho, os grandes amigos já todos mortos, ele separa-se de sua mulher há 17 anos, Lygia, a belíssima musa da canção de Tom Jobim. Pior. Revisa novas edições dos livros antigos, apagando o nome dela de todas as dedicatórias e das crônicas em que era musa – o que embaçou sua imagem de cavalheiro. O homem estava nu.
Tudo isso é triste, mas a obra deliciosa de Fernando Sabino paira acima de todos esses trompaços, e neste centenário é preciso resgatá-la. Saudá-la mais uma vez com a mesma alegria que proporciona. A madame Bovary agora mora em Nova Iorque, esquecida. Ficou, e para sempre ficarão, “A inglesa deslumbrada”, “A mulher do vizinho” e a amiga Clarice Lispector, a quem ele escrevia lindas, todas já publicadas, cartas de paquera-existencial. Sim, é preciso vestir Fernando Sabino.
Infância
A casa da minha infância foi um "monte" alentejano, próximo do rio Ardila, a cerca de quatro quilómetros da branca cidade de Moura. A frontaria dava para um pátio empedrado, de onde ainda se vêem, num alto, a eira, e mais perto, outras construções: a habitação do feitor, a cavalariça, a vacaria, o galinheiro, o curral dos porcos, o alpendre onde guardavam o trem, o churrião e vários carros de lavoura e alfaias agrícolas, a charrua, a debulhadora, o trilho... A toda a volta da casa, mansas oliveiras, quase cinzentas por tempo fosco, mas de prata quando o sol se mostra. E, quase encostada à casa, as olaias, muito visitadas pelos pardais sobretudo à noitinha, e a suave glicínia, trepando por uma parede caiada, junto a janelas de grega do quarto dos meus pais. Foi nesse cenário rústico, que de Inverno acordava muitas vezes branco de geada e onde a Primavera vinha cedo, de ouro e azul, sobre a verde germinação das searas, que decorreram os anos mágicos da minha infância, escutando os cantos e os dizeres dos camponeses, brincando com os pastorinhos das ovelhas e das vacas, galopando pelos montados do outro lado do rio, escalando cabeços cobertos de estevas e mistério, descobrindo os caminhos que levam ao Guadiana, a imensa herdade da Rola, aos longes de Espanha. Entre a catequização da minha professora, a D. Guilhermina, piedosa senhora docemente ridícula no seu outono de vida cheio de folhos, fitas e sonhos gorados, e a rebeldia franca dos trabalhadores ranchos, que pelo nosso "monte" passavam, vindos da Amieira e de Portel, comecei a tactear a vida, a dar pela injustiças sociais mesmo ao meu lado, a crescer entre cheiros e sons, visões, bem diferentes, mas misturadas, do paraíso e do inferno. Sentimentos em guerra nasciam dentro de mim e aos meus momentos contemplativos do fim do dia, após as horas de estudo ou os passeios pela beira do Ardila, a pé ou a cavalo, sucediam-se interrogações sem resposta. Deixara de acreditar nos mitos cristãos e procurava outras crenças, outros valores. Era o fim da minha infância, na altura em que meu pai ia ter de hipotecar a herdade (salvando-se anos depois do descalabro) e nós já víamos pela frente a partida para Lisboa, o liceu, o "exílio" entrecortado por breves férias no Alentejo.
Urbano Tavares Rodrigues , "A Casa da Minha Infância"
Urbano Tavares Rodrigues , "A Casa da Minha Infância"
sexta-feira, outubro 6
Menino jogando xadrez
Sala de espera dos que aguardam a vez para a sessão de fisioterapia.
Vi o menino no canto, sentado com o tabuleiro sobre os joelhos. Mexia com as peças do jogo.
Perguntei à mãe do menino:
– É xadrez que ele está jogando?
– Sim – ela respondeu.
– Mas é um jogo difícil, muita gente grande não sabe jogar, eu mesmo nunca consegui aprender como é que se joga – observei.
Ela disse:
– É o que ele mais gosta.
Disse ainda que ele se distraía muito durante o dia, jogando xadrez. Gosta de ensinar aos adultos. “Já me ensinou, ao pai, aos tios e a alguns amigos da família.”
– Foi mesmo?
– Sim.
Perguntei ao menino:
– Como é seu nome?
– Guilherme.
-Quantos anos?
– Tenho oito.
– Por que é que você gosta de ensinar aos adultos como jogar xadrez? – curioso perguntei.
Sem deixar de mexer nas peças do tabuleiro, ele disse:
– Quanto mais à gente grande eu ensinar, tenho mais amigos pra jogar comigo – ele observou.
Era verdade o que eu estava vendo naquele menino? Nem tudo no mundo estava perdido. Com amizade, fazendo da vida um jogo interessante, o mundo se torna viável.
O desaparecido
Tarde fria e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente, que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Rubem Braga, "Quadrante"
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Rubem Braga, "Quadrante"
Fosse no Brasil
Eu dirigia sem parar. Era bom. Era boa a sensação de estar em movimento. Sem saber para onde estava indo. Apenas dirigia. O tédio havia se apoderado de mim, logo de mim, que nunca me deixei afetar por ele. Nada que me passasse pela cabeça me animava. Por isso decidi fazer alguma coisa. Entrei no carro e fui para onde ele me levasse, se no caminho houvesse uma curva à esquerda ou à direita, eu virava à direita, e se, no cruzamento seguinte, pudesse virar à direita ou à esquerda, eu virava à esquerda. E continuei dirigindo assim. Acabei enveredando por uma estrada no meio da floresta, e os sulcos no chão foram se aprofundando até que senti o carro patinar. Segui em frente, até o carro finalmente empacar. Ensaiei dar uma ré mas não consegui, então estanquei de vez. Desliguei o motor. Fiquei sentado no carro. Pois bem, cá estou eu agora, cá estou eu agora sentado, pensei, e me senti vazio, como se o tédio tivesse se transformado num vazio. Ou, melhor dizendo, numa espécie de agonia, porque senti um medo em mim enquanto estava ali com o olhar fixo adiante, fitando o vazio, como estivesse diante do vácuo. Do nada. Que conversa é essa, pensei. Diante de mim está a floresta, só a floresta, pensei. Então foi até a floresta que esse ímpeto de dirigir me trouxe. Poderia dizer de outra maneira, que alguma coisa, não sei bem o quê, me conduziu a alguma outra coisa, fosse lá o que fosse, a uma coisa distinta. Contemplei a floresta à minha frente. A floresta. Sim, árvores próximas umas das outras, pinheiros, um pinhal. E entre as árvores o solo marrom, ressequido. Eu me senti vazio. E também com essa agonia. Do que eu sentia medo. Por que estava com medo. O medo era tamanho que não consegui nem sair do carro. Não me atrevi. Quer dizer, eu estava aqui, nessa estrada, no meio da mata, para onde dirigi e fiquei preso, quase onde a estrada termina. Vai ver por isso senti essa agonia, porque deixei o carro empacar no fim de uma estrada no meio da floresta, e bem aqui, no fim dessa estrada, não havia espaço para manobrar. Não lembrava, depois que peguei essa estrada, ter passado por algum trecho em que pudesse retornar. É bem possível. Sim, porque se eu tivesse avistado um retorno decerto teria parado o carro e dado meia-volta, pois dirigir por uma estrada tão estreita cortando essa paisagem de colinas onduladas não diminuía minha agonia, pelo contrário, só a aumentava. Mas não passei por nenhum retorno, provavelmente era isso que eu esperava acontecer o tempo todo, sim, avistar um lugar adiante para encostar o carro, engatar ré, avançar um pouco, talvez repetir esse movimento algumas vezes, sim, até conseguir manobrar e voltar para a rodovia, e então prosseguir para algum lugar, mas para qual, para um lugar em que tivesse gente, e lá eu pudesse comprar alguma coisa para comer, quem sabe um cachorro-quente, ou talvez, podia muito bem ser, chegar a uma lanchonete no acostamento da rodovia para fazer uma parada e comer. Era bem possível. De repente me dei conta de que já haviam se passado dias, não lembro quantos, desde a última vez que tinha feito uma refeição decente. Se bem que provavelmente é sempre assim com quem mora sozinho. Cozinhar é um estorvo, sim, é bem mais fácil recorrer ao que está à mão, uma fatia de pão, se houver pão em casa, com o que estiver na geladeira, na maioria das vezes maionese pura e simples e umas fatias de salame. Mas isso lá é coisa para ficar remoendo, como se eu não tivesse coisas mais importantes com que me preocupar. Mas com o que então. Que estupidez me perguntar, até mesmo pensar sobre isso. Estou com o carro preso numa estrada na floresta, não tem ninguém por perto, e não consigo tirá-lo daqui, então suponho que isso já seja o bastante para me ocupar, sim, ocupar a cabeça, como se diz, me ocupar imaginando como tirar o carro daqui. Pois o carro não pode ficar preso aqui como está agora. Óbvio que não. Tão óbvio que chega a ser uma bobagem pensar isso. Cá estou eu olhando para o carro e ele apenas me devolve o olhar, estúpido. Ou será que esse olhar estúpido é o meu. Repare como ele parece estúpido ali, enganchado num montinho, como se diz, no meio da estrada, que se prolonga mais alguns metros até se transformar numa trilha pelo coração da floresta. Que diabos eu vim fazer nesse lugar. Por que vim dirigindo até aqui. Por que eu tinha que inventar isso. Por que motivo agi assim. Nenhum motivo. Nenhum. E por que dirigi até essa estrada no meio da floresta. Por puro acaso, talvez. Sim, não há outro nome para isso. Mas o acaso, o que é mesmo. Não, não vou começar a pensar essas baboseiras. Nunca leva a nada. O que preciso agora é fazer meu carro andar. E depois manobrá-lo. Mas há outra coisa. Sim, porque não passei por nenhum retorno, se tivesse passado já teria feito esse retorno há muito tempo, porque dificilmente haveria lugar mais entediante para dirigir do que essa estrada no meio da floresta. Nada além de colinas suaves e de uma fazenda abandonada, sim, só podia estar abandonada, porque havia tábuas pregadas nas janelas da casa. A pintura, aliás, estava em péssimo estado, em alguns lugares já nem havia tinta. E metade do telhado do celeiro tinha desabado. É triste ver uma casa caindo aos pedaços. Lugares com os quais ninguém se importa. Mas por que alguém haveria de se importar. Antes de estar em ruínas era, sim, uma bela casa. Eu teria gostado de morar numa casa daquelas, gostaria de ter vivido naquela casa pela qual passei, mas mais cedo na vida, quando eu era jovem, não agora. Evidente que eu não moraria numa casa naquelas condições. No estado em que estava, é óbvio que ninguém moraria nela, nem pessoas nem sei lá o quê. Animais, talvez. Sim, talvez algum animal tenha se abrigado ali dentro. A casa deve estar tomada por ratos. Até ratazanas devem ter se mudado para lá.
Jon Fosse, Nobel de 2023, lança "Brancura" (Editora Fósforo) no final do mês
quinta-feira, outubro 5
Quando chegar o dia, verás
Quando nada mais tiveres que cause a inveja dos homens e a atenção das mulheres, quando disseres adeus e não houver ninguém que te diga para ficar, quando os primeiros passos deres e começares a te afastar, verás como pode ser leve uma caminhada quando não se tem nada que cause a inveja dos homens e a atenção das mulheres.
Nem sempre o maior valor está ligado à alegria. Eu amava mais o amor no tempo em que o amor doía.
Ontem eu queria ser o melhor que poderia. Era um uma hora e outro outra hora. Ora era Pessoa, ora era Drummond, ora era outro que me seduzia. De um herdei o ceticismo, de outro o pessimismo. Com um aprendi a tristeza, com outro a melancolia. Com nenhum deles o mágico dom da poesia.
De todos os poetas, os concretistas são os que prezam mais os bens materiais.
Que bela cena é uma gata se espreguiçando, esticando-se languidamente, encompridando-se para alcançar seu sono no sofá.
Agora que o gato morreu e o sofá é ocupado apenas pelo avô, o sol tem aparecido só esporadicamente na sala.
A condessa tinha o sotaque de um marujo francês curtido em trinta anos de conhaque.
E chegou o momento, afinal, de trocarmos nossa burrice natural pela inteligência artificial.
Quando Pessoa morreu, que pena. Com ele morreu uma centena. Quando eu morrer, não haverá perda. Que falta há de fazer um zero à esquerda?
***
Nem sempre o maior valor está ligado à alegria. Eu amava mais o amor no tempo em que o amor doía.
***
Ontem eu queria ser o melhor que poderia. Era um uma hora e outro outra hora. Ora era Pessoa, ora era Drummond, ora era outro que me seduzia. De um herdei o ceticismo, de outro o pessimismo. Com um aprendi a tristeza, com outro a melancolia. Com nenhum deles o mágico dom da poesia.
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De todos os poetas, os concretistas são os que prezam mais os bens materiais.
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Que bela cena é uma gata se espreguiçando, esticando-se languidamente, encompridando-se para alcançar seu sono no sofá.
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Agora que o gato morreu e o sofá é ocupado apenas pelo avô, o sol tem aparecido só esporadicamente na sala.
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A condessa tinha o sotaque de um marujo francês curtido em trinta anos de conhaque.
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E chegou o momento, afinal, de trocarmos nossa burrice natural pela inteligência artificial.
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Quando Pessoa morreu, que pena. Com ele morreu uma centena. Quando eu morrer, não haverá perda. Que falta há de fazer um zero à esquerda?
Nas sombras das prateleiras...
Os livros se divertiam sombrios nas estantes como se preservassem as antigas leis férreas que somente os de casa compreendiam de verdadeGyula Krúdy, "O companheiro de viagem"
O homem que roubou a torre Eiffel
Não foi tanto o roubo da torre Eiffel que me criou dificuldades, mas sim colocá-la de volta antes que alguém notasse. Devo afirmar, sem falsa modéstia, que o plano foi muito bem arquitetado. Vocês podem imaginar o que me custou — uma frota de caminhões enormes para carregar a torre até um daqueles campos planos e desertos que se vêem a caminho de Chantilly. Lá a torre podia facilmente ser colocada na horizontal. Durante a viagem, em uma manhã nevoenta de outono, havia bem pouco tráfego, e o pouco que havia era insignificante. Ninguém que tentou ultrapassar meus 102 caminhões de seis rodas notou que eles eram unidos entre si pela torre, como as contas de um colar: Os carros particulares chegavam a fazer menção de ultrapassar, mas quando os motoristas dos Fiat e Renault viam aquela fila de caminhões à frente, desistiam e conformavam-se em seguir a procissão. Por outro lado, os carros que vinham em sentido contrário tinham a estrada toda para eles: meus caminhões transformaram o trajeto Chantilly—Paris em uma longa estrada de mão única. Os carros passavam a toda velocidade e nem tinham tempo de notar que a torre estava apoiada sobre cada caminhão da corrente, como numa espécie de berço de centenas de metros de comprimento.
Tenho muito carinho pela torre, e fiquei feliz em vê-la, depois de tantos anos de guerra, cerração, chuva e radar, em repouso. No primeiro dia da mudança caminhei ao seu redor, de vez em quando tocando um dos suportes: o quarto andar parecia um pouco desconfortável no pedaço que passava por cima de um afluente manso e lamacento do Sena, então coloquei-o mais à vontade. Depois voltei para sua sede original — ainda temia que alguém notasse. Os grandes blocos de concreto estavam lá, sem nada em cima. Lembravam tanto túmulos, que alguém já havia deixado um maço de flores para os heróis da Resistência. Um táxi parou trazendo os últimos turistas da estação antes de, como andorinhas, rumarem para oeste com a chegada do inverno. O homem estava com uma garota e cambaleava um pouco ao caminhar. Curvou-se para ver as flores e ao endireitar-se ficou vermelho nas bochechas lisas e empoadas.
— É um memorial — disse.
— Comment? — perguntou o motorista de táxi.
A garota acrescentou:
— Chester, você disse que poderíamos almoçar aqui.
— Não estou vendo torre nenhuma — disse o homem.
— Comment?
— Veja bem — tentou explicar, gesticulando para dar maior ênfase —, você nos trouxe para o lugar errado. Fez um esforço. — Ici n 'est pas la Tour Eiffel.
— Oui. Ici.
— Non. Pas du tout. Ici il n 'est pas possible de manger.
O motorista saltou do carro e olhou ao seu redor. Fiquei um pouco nervoso, com medo de que desse pela falta da torre, mas ele voltou para dentro do carro e virou-se para mim dizendo, melancólico:
— Vivem mudando o nome das ruas.
Falei com ele em tom confidencial.
— Eles só querem almoçar. Leve-os ao Tour d'Argent. — Partiram satisfeitos e o perigo passou.
Obviamente havia sempre o risco de que os funcionários chamassem a atenção do público, mas eu havia pensado nisso. Eles recebiam semanalmente e quem seria bobo de admitir que seu local de trabalho desapareceu antes de esperar a semana terminar e ver se o dinheiro entrou normalmente? Os cafés das redondezas tornaram-se o grande ancoradouro dos funcionários da torre, mas todos evitavam sentar na mesma mesa de seus colegas de trabalho para não dar margem a conversas constrangedoras. Identifiquei um boné de uniforme por bistrô em uma área de uma milha quadrada: cada homem passava as horas de seu expediente sentado tranquilamente a uma mesa de bar, tomando uma cerveja ou um pastis dependendo do salário, levantando pontualmente para bater o ponto da saída. Não me pareceu que estivessem perplexos com o desaparecimento da torre. Era algo que podia ser convenientemente esquecido, como o imposto de renda. Melhor não pensar a respeito: se pensassem, alguém poderia esperar que tomassem uma providência.
Os turistas, obviamente, representavam o perigo maior. Aviões noturnos alegaram nevoeiro baixo, e o Ministério do Ar solicitou o "comentário" do Ministério das Relações Exteriores sobre várias reclamações de interferências no radar — um novo dispositivo russo na guerra fria. Mas logo espalhou-se a notícia, entre guias e motoristas de táxi, de que quando um turista pedisse para ver a torre Eiffel a melhor coisa a fazer era simplesmente levá-lo ao Tour d' Argent. A gerência do lugar não decepcionava, e a vista, nesses dias de outono, também era ótima, de modo que os turistas assinavam o livro de clientes a tanto por cabeça. Eu costumava ir para lá ouvi-los.
— Eu imaginava que era mais, como dizer... metálica — disse um deles. — Achei que dava para ver através dela.
— Expliquei-lhe que isso se aplicava perfeitamente ao estabelecimento em que se encontrava.
Férias nunca duram para sempre, e uma manhã, enquanto rodeava a torre aplicando um pouco de cuspe e polidor aos suportes, concluí que ela precisava voltar a funcionar antes que os empregados sentissem falta de seu salário. Só me restava esperar que, algum dia, ela encontrasse outra pessoa que, como eu, lhe desse a chance de passar uma temporada no campo. Garanto que não há risco nenhum. Ninguém em Paris admitiria que a ausência da torre passou despercebida por cinco dias — assim como um homem apaixonado não admitiria não ter notado a falta da amante.
Mesmo assim devolver a torre não foi fácil, tendo sido obrigado a lançar mão de alguns truques a fim de desviar a atenção das pessoas. Para facilitar, encomendei a um conhecido, que fazia figurinos teatrais, alguns uniformes da polícia, das Gardes Mobiles, das Gardes Républicaines e da Académie Française. Planejei uma reunião de poujadistes, uma rebelião de argelinos e um discurso pela morte de um crítico de teatro obscuro, que um amigo meu fez "disfarçado" de Ministro da Educação. Digo disfarçado, mas na verdade não havia a menor necessidade de mudar de nome, nem de cara, visto que ninguém lembrava quem ocupava essa pasta no gabinete de Monsieur Mollet.
Os turistas tiveram a última palavra e, curiosamente, enquanto admirava minha amada torre, que parecia dar piruetas na névoa da manhã, de volta a seu lugar, vi o mesmo americano chegando de táxi com a mesma garota. Ele olhou rapidamente ao seu redor e disse:
— Aqui não é a torre Eiffel.
— Comment?
— Ah, Chester — disse a garota —, onde é que nos trouxeram desta vez? Eles nunca acertam. Eu estou morrendo de fome, Chester. Estou sonhando com aquele Sole Délice que comemos.
Eu disse para o motorista:
— É o Tour d'Argent que eles querem — observei-os partir. A coroa para os heróis da Resistência havia murchado, mas eu peguei uma flor seca e desbotada, coloque lapela e acenei para a torre. Não ousei ficar mais tempo Poderia ficar tentado a roubá-la de novo.
Graham Greene
Tenho muito carinho pela torre, e fiquei feliz em vê-la, depois de tantos anos de guerra, cerração, chuva e radar, em repouso. No primeiro dia da mudança caminhei ao seu redor, de vez em quando tocando um dos suportes: o quarto andar parecia um pouco desconfortável no pedaço que passava por cima de um afluente manso e lamacento do Sena, então coloquei-o mais à vontade. Depois voltei para sua sede original — ainda temia que alguém notasse. Os grandes blocos de concreto estavam lá, sem nada em cima. Lembravam tanto túmulos, que alguém já havia deixado um maço de flores para os heróis da Resistência. Um táxi parou trazendo os últimos turistas da estação antes de, como andorinhas, rumarem para oeste com a chegada do inverno. O homem estava com uma garota e cambaleava um pouco ao caminhar. Curvou-se para ver as flores e ao endireitar-se ficou vermelho nas bochechas lisas e empoadas.
— É um memorial — disse.
— Comment? — perguntou o motorista de táxi.
A garota acrescentou:
— Chester, você disse que poderíamos almoçar aqui.
— Não estou vendo torre nenhuma — disse o homem.
— Comment?
— Veja bem — tentou explicar, gesticulando para dar maior ênfase —, você nos trouxe para o lugar errado. Fez um esforço. — Ici n 'est pas la Tour Eiffel.
— Oui. Ici.
— Non. Pas du tout. Ici il n 'est pas possible de manger.
O motorista saltou do carro e olhou ao seu redor. Fiquei um pouco nervoso, com medo de que desse pela falta da torre, mas ele voltou para dentro do carro e virou-se para mim dizendo, melancólico:
— Vivem mudando o nome das ruas.
Falei com ele em tom confidencial.
— Eles só querem almoçar. Leve-os ao Tour d'Argent. — Partiram satisfeitos e o perigo passou.
Obviamente havia sempre o risco de que os funcionários chamassem a atenção do público, mas eu havia pensado nisso. Eles recebiam semanalmente e quem seria bobo de admitir que seu local de trabalho desapareceu antes de esperar a semana terminar e ver se o dinheiro entrou normalmente? Os cafés das redondezas tornaram-se o grande ancoradouro dos funcionários da torre, mas todos evitavam sentar na mesma mesa de seus colegas de trabalho para não dar margem a conversas constrangedoras. Identifiquei um boné de uniforme por bistrô em uma área de uma milha quadrada: cada homem passava as horas de seu expediente sentado tranquilamente a uma mesa de bar, tomando uma cerveja ou um pastis dependendo do salário, levantando pontualmente para bater o ponto da saída. Não me pareceu que estivessem perplexos com o desaparecimento da torre. Era algo que podia ser convenientemente esquecido, como o imposto de renda. Melhor não pensar a respeito: se pensassem, alguém poderia esperar que tomassem uma providência.
Os turistas, obviamente, representavam o perigo maior. Aviões noturnos alegaram nevoeiro baixo, e o Ministério do Ar solicitou o "comentário" do Ministério das Relações Exteriores sobre várias reclamações de interferências no radar — um novo dispositivo russo na guerra fria. Mas logo espalhou-se a notícia, entre guias e motoristas de táxi, de que quando um turista pedisse para ver a torre Eiffel a melhor coisa a fazer era simplesmente levá-lo ao Tour d' Argent. A gerência do lugar não decepcionava, e a vista, nesses dias de outono, também era ótima, de modo que os turistas assinavam o livro de clientes a tanto por cabeça. Eu costumava ir para lá ouvi-los.
— Eu imaginava que era mais, como dizer... metálica — disse um deles. — Achei que dava para ver através dela.
— Expliquei-lhe que isso se aplicava perfeitamente ao estabelecimento em que se encontrava.
Férias nunca duram para sempre, e uma manhã, enquanto rodeava a torre aplicando um pouco de cuspe e polidor aos suportes, concluí que ela precisava voltar a funcionar antes que os empregados sentissem falta de seu salário. Só me restava esperar que, algum dia, ela encontrasse outra pessoa que, como eu, lhe desse a chance de passar uma temporada no campo. Garanto que não há risco nenhum. Ninguém em Paris admitiria que a ausência da torre passou despercebida por cinco dias — assim como um homem apaixonado não admitiria não ter notado a falta da amante.
Mesmo assim devolver a torre não foi fácil, tendo sido obrigado a lançar mão de alguns truques a fim de desviar a atenção das pessoas. Para facilitar, encomendei a um conhecido, que fazia figurinos teatrais, alguns uniformes da polícia, das Gardes Mobiles, das Gardes Républicaines e da Académie Française. Planejei uma reunião de poujadistes, uma rebelião de argelinos e um discurso pela morte de um crítico de teatro obscuro, que um amigo meu fez "disfarçado" de Ministro da Educação. Digo disfarçado, mas na verdade não havia a menor necessidade de mudar de nome, nem de cara, visto que ninguém lembrava quem ocupava essa pasta no gabinete de Monsieur Mollet.
Os turistas tiveram a última palavra e, curiosamente, enquanto admirava minha amada torre, que parecia dar piruetas na névoa da manhã, de volta a seu lugar, vi o mesmo americano chegando de táxi com a mesma garota. Ele olhou rapidamente ao seu redor e disse:
— Aqui não é a torre Eiffel.
— Comment?
— Ah, Chester — disse a garota —, onde é que nos trouxeram desta vez? Eles nunca acertam. Eu estou morrendo de fome, Chester. Estou sonhando com aquele Sole Délice que comemos.
Eu disse para o motorista:
— É o Tour d'Argent que eles querem — observei-os partir. A coroa para os heróis da Resistência havia murchado, mas eu peguei uma flor seca e desbotada, coloque lapela e acenei para a torre. Não ousei ficar mais tempo Poderia ficar tentado a roubá-la de novo.
Graham Greene
quarta-feira, outubro 4
Os leitores não podem deixar de ser subversivos
De início, mantinha meus livros em rigorosa ordem alfabética, por autor. Depois passei a separá-los por gênero: romances, ensaios, peças de teatro, poemas. Mais tarde tentei agrupá-los por idioma, e quando, durante minhas viagens, era obrigado a ficar apenas com alguns, separava-os entre os que dificilmente lia, os que lia sempre e aqueles que esperava ler. Às vezes minha biblioteca obedecia a regras secretas, nascidas de associações idiossincráticas. O romancista espanhol Jorge Semprún mantinha Carlota em Weitnar, de Thomas Mann, entre seus livros sobre Buchenwald, o campo de concentração em que estivera, porque o romance começa com uma cena no Hotel Elefante, em Weimar, para onde Semprún foi levado depois de sua libertação. Certa vez, pensei que seria divertido construir uma história da literatura a partir de agrupamentos como esse, explorando, por exemplo, as relações entre Aristóteles, Auden, Jane Austen e Marcel Aymé (em minha ordem alfabética), ou entre Chesterton, Sylvia Townsend Warner, Borges, são João da Cruz e Lewis Carrol (dentre os que mais gosto). Parecia-me que a literatura ensinada na escola — na qual se explicavam as ligações entre Cervantes e Lope de Vega com base no fato de serem do mesmo século e na qual Platero e eu, de Juan Ramón Jiménez (uma história floreada da paixão tola de um poeta por um burro), era considerado uma obra-prima - era tão arbitrária ou constituía uma escolha tão aceitável quanto a literatura que eu mesmo podia construir, baseado nas minhas descobertas ao longo da estrada sinuosa de minhas próprias leituras e no tamanho de minhas próprias estantes. A história da literatura, tal como consagrada nos manuais escolares e nas bibliotecas oficiais, parecia-me não passar da história de certas leituras — mais velhas e mais bem informadas que as minhas, porém não menos dependentes do acaso e das circunstâncias.
Em 1966, um ano antes de terminar o colégio, quando se instalou o governo militar do general Onganía, descobri um outro sistema de organização dos livros. Sob suspeita de serem comunistas ou obscenos, certos títulos e determinados autores foram colocados na lista dos censores, e, nas batidas policiais cada vez mais frequentes em cafés, bares, estações de trem ou simplesmente na rua, tornou-se tão importante não ser visto com um livro suspeito nas mãos quanto estar com os documentos apropriados. Os autores proibidos - Pablo Neruda, J. D. Salínger, Maximo Gorki, Harold Pinter - formavam uma outra e diferente história da literatura cujas ligações não eram evidentes nem duradouras e cuja comunhão revelava-se exclusivamente pelos olhos meticulosos do censor. Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular (“Saia e vá viver!”, dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas. O marfim, de acordo com Virgílio, é o material de que é feito o Portal dos Sonhos Falsos; segundo Sainte-Beuve, é também o material de que é feita a torre do leitor.
Borges disse-me certa vez que, durante uma das manifestações populistas organizadas pelo governo de Perón em 1950 contra os intelectuais da oposição, os manifestantes gritavam: “Sapatos sim, livros não”. A resposta - “Sapatos sim, livros sim”- não convenceu ninguém. Considerava-se a realidade a dura, a necessária realidade em conflito irremediável com o mundo evasivo e onírico dos livros. Com essa desculpa, e com efeito cada vez maior, a dicotomia artificial entre vida e leitura é ativamente estimulada pelos donos do poder. Os regimes populares exigem que esqueçamos, e portanto classificam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos, e portanto proíbem, ameaçam e censuram; ambos, de um modo geral, exigem que nos tornemos estúpidos e que aceitemos nossa degradação docilmente, e portanto estimulam o consumo de mingau. Nessas circunstâncias, os leitores não podem deixar de ser subversivos.
Alberto Manguel, "História da leitura"
Alberto Manguel, "História da leitura"
Morrer com os livros
Há uns dias falei de destruir livros em bibliotecas e livrarias, e hoje o livro de que falarei vem a propósito. Diz-se que o autor checo Bohumil Hrabal afirmou ter vivido apenas para escrever Uma Solidão demasiado Ruidosa, romance que se tornou obra de culto para todos os que acreditam que os livros não vão morrer nunca, apesar de muitos os terem, ao longo do tempo, condenado à morte, sobretudo ditadores e líderes religiosos para quem o que traziam escrito podia ser uma ameaça ao seu poder. Mas nem a Inquisição nem a Censura fascista ou comunista foi capaz de matar a memória, e a palavra escrita e, até ver, os livros importantes continuam a ser escritos e lidos contra a barbárie e a arrogância da ignorância. Hanta, o protagonista deste romance de Bohumil, prensa livros e papel há trinta e cinco anos e, não resistindo a ler uma frase aqui e outra ali, acabou por tornar-se um homem extremamente culto que, entre a miséria e muitas canecas de cerveja, cita Hegel e Lao-Tsé. De há muito para cá, numa cave infecta e cheia de ratos (que também vão parar à prensa de vez em quando), separa das enormes pilhas de papel os livros que o mandam destruir e tem, por isso, toneladas de obras literárias no seu quarto de dormir, o que ninguém sabe e poderia perturbar realmente a sua paz. Mas eis que chega a grande prensa tecnicamente desenvolvida (que, na verdade, dispensará o seu trabalho manual), bem como os rapazes e raparigas com fardas coloridas e cursos superiores que são os novos prensadores a mando da nação... Que será do pobre Hanta e dos seus livros? Com um final inesquecível, este romance (que foi censurado na sua época, ensina que o riso silencioso dos livros se ouve sempre, mesmo entre as engrenagens de uma prensa).
A inesquecível Beatriz
Relembro hoje aquela a quem chamarei Beatriz, alegria de minha vista e de minha vida, saudade alegre, prazer de sempre, clarinada matinal, doçura.
Que sou eu em sua vida? Penso tranquilamente: nada, quase nada. Alguém que ela encontrou ao dobrar uma esquina e a acompanhou... lembro-me, eu devia levá-la apenas uma quadra adiante, porque nossos rumos eram diferentes. Mas a companhia era boa — fui um pouco mais adiante, era bom andar a seu lado na penumbra, eu era o Caminhante Premiado Pela Doce Companhia, fui andando. Quando nos separamos foi sem mágoa — Seja feliz! Seja feliz!
Dissemos isto com tanta vontade que acho que, afinal, temos sido felizes.
Ah!, quando penso em outras, que me dilaceraram o peito em troca de ilusões; quando penso em vós, minhas antigas amadas, agora que conheço Beatriz, tenho pena do que fui e do que sois, e pela primeira vez sinto-me infiel à vossa lembrança. Passai bem, princesas, adeus pastoras, rainhas das czardas, deusas que endeusei outrora, ainda hoje não vos quero mal, apenas sucede que sobreveio Beatriz; como alguém que viaja à noite em um trem e desperta porque o trem parou, e escuta o silêncio da noite e, no silêncio, o murmúrio de um córrego — assim é lua música, Beatriz: como a brisa que beija a cara do trabalhador cansado, suado, que se sentou um instante debaixo de uma árvore — assim é a tua mão, Beatriz; como, nas fainas de um barco negro, numa tarde de mar grosso, sobe à coberta o lúrido foguista, e olha o céu e vê o arco-íris, assim é a tua aparência, Beatriz. Entre tantas que trouxeram meu nome nos lábios (como a Liberdade de Rui Barbosa) e não me guardaram no coração; e as que me corroeram como ácidos (eu sorria!), as que traçaram com suas unhas estas rugas de minha cara; entre as que eu pensei terríveis e eram apenas vulgares; e as que amei de verdade e desamei devagar — entre todas, acima, casta, e fácil, alegre, linda e natural, eu te saúdo, Beatriz.
Pela tua risada, pela tua beleza, pela tua bondade, pela graça de teu corpo, pela tua amizade necessária e dada — entre todas te alcandoro e te abençoo, ó branca, ó alta, ó bela, inesquecível Beatriz!
Dissemos isto com tanta vontade que acho que, afinal, temos sido felizes.
Ah!, quando penso em outras, que me dilaceraram o peito em troca de ilusões; quando penso em vós, minhas antigas amadas, agora que conheço Beatriz, tenho pena do que fui e do que sois, e pela primeira vez sinto-me infiel à vossa lembrança. Passai bem, princesas, adeus pastoras, rainhas das czardas, deusas que endeusei outrora, ainda hoje não vos quero mal, apenas sucede que sobreveio Beatriz; como alguém que viaja à noite em um trem e desperta porque o trem parou, e escuta o silêncio da noite e, no silêncio, o murmúrio de um córrego — assim é lua música, Beatriz: como a brisa que beija a cara do trabalhador cansado, suado, que se sentou um instante debaixo de uma árvore — assim é a tua mão, Beatriz; como, nas fainas de um barco negro, numa tarde de mar grosso, sobe à coberta o lúrido foguista, e olha o céu e vê o arco-íris, assim é a tua aparência, Beatriz. Entre tantas que trouxeram meu nome nos lábios (como a Liberdade de Rui Barbosa) e não me guardaram no coração; e as que me corroeram como ácidos (eu sorria!), as que traçaram com suas unhas estas rugas de minha cara; entre as que eu pensei terríveis e eram apenas vulgares; e as que amei de verdade e desamei devagar — entre todas, acima, casta, e fácil, alegre, linda e natural, eu te saúdo, Beatriz.
Pela tua risada, pela tua beleza, pela tua bondade, pela graça de teu corpo, pela tua amizade necessária e dada — entre todas te alcandoro e te abençoo, ó branca, ó alta, ó bela, inesquecível Beatriz!
Dezembro, 1956
Rubem Braga, "Recado de primavera"
segunda-feira, outubro 2
A casa do pastor
Passar por essa bela casa desperta em mim uma áurea de saudade e de nostalgia. Saudade de silêncio, calma e burguesia, nostalgia de camas confortáveis, bancos de jardim e olores de cozinha saborosa. Mais ainda, saudade de uma biblioteca, de tabaco e de velhos livros.
Para pessoas como eu, seria maravilhoso viver aqui e ser um pastor. Especialmente para alguém como eu.
Se fizesse tempo ruim, eu aqueceria intensamente a casa, e debruçado numa dessas lareiras azuis ou esverdeadas, de vez em quando, chegaria até a janela, balançando a cabeça comovido pelo tempo. Mas, pelo contrário, se o tempo fosse bom, eu permaneceria longamente no jardim, cortando e amarrando minhas videiras, ou chegaria até a janela escancarada e, de pé, ficaria olhando as montanhas cinzas e escuras retomarem sua cor rosada e brilhante.
Abreviando: nessa casa eu não seria nenhum pastor senão o mesmo, inofensivo e instável peregrino de agora. Não seria nunca um padre, mas, ora um teólogo fantástico, ora um gourmet tremendamente preguiçoso perseguindo as garrafas de vinho e as jovens damas, ora um poeta e um mímico, ora nostálgico com o pobre coração cheio de medos e amargura.
Abreviando: nessa casa eu não seria nenhum pastor senão o mesmo, inofensivo e instável peregrino de agora. Não seria nunca um padre, mas, ora um teólogo fantástico, ora um gourmet tremendamente preguiçoso perseguindo as garrafas de vinho e as jovens damas, ora um poeta e um mímico, ora nostálgico com o pobre coração cheio de medos e amargura.
Dá no mesmo, se eu fosse padre aqui ou vagabundo na rua, é tudo igual com exceção de algumas poucas coisas com as quais eu me importo muito. É sentir que a vida palpita em mim, quer seja na ponta da língua ou na planta do pé, quer seja no prazer ou na tortura, que meu espírito seja vivaz, que possa transformar-se em inúmeras fantasias e formas, em pastor e em peregrino, em cozinheira e em assassino, em crianças e em animais, principalmente em pássaros e árvores também. Isso é muito importante, isso eu quero e preciso para a vida, e se um dia não puder ser mais assim e eu tiver que viver na chamada "realidade", então preferirei morrer.
Hermann Hesse
Eu, mutilado capilar
Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Faz uns vinte anos que o espelho delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror.
Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
A frase de um amigo piedoso me consola:
— Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por ai.
Eduardo Galeano
Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
A frase de um amigo piedoso me consola:
— Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por ai.
Eduardo Galeano
Vovô imortal, até morrer
Com 100 anos e um dia de idade, vovô Jake despertou na manhã seguinte para um doce dia de primavera. Sentou-se na varanda com uma garrafa do Velho Sussurro da Morte para ajudar a tirar o furador de gelo que sentia dentro de seu cérebro desde a noite anterior, e, quando se sentiu pronto para mais 100 anos, preparou um grande ensopado de carne de veado com pãezinhos para o jantar. Depois do jantar, ele e Miúdo repartiram o último pedaço do bolo de aniversário que tinha sobrado da festa. Observou e deu conselhos, enquanto Miúdo esboçava algumas de suas ideias para os entalhes dos postes, e então foi dar sua caminhada noturna.
Podia sentir, pelo jeito como era levado, que não se tratava de anjos, não podia conceber que fossem anjos, tinha tanta certeza de que eram patos, que nem se incomodou em abrir os olhos. Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:
– Ora, com os diabos, fui imortal até morrer.
Esperou, mas não houve mais respiração. Sucumbiu por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem.
Jim Dodge, "Fup"
Quando voltou, tomou mais uns dois goles extras de uísque para enganar o frio, tirou as roupas até ficar só de ceroulas, foi para a cama, leu um artigo numa velha Argosy sobre um mercenário no Amazonas que fora adotado por uma tribo de caçadores de cabeças, casara-se com as graciosas filhas gêmeas do cacique, tivera cinco filhos e andava pelado até os missionários chegarem, e com eles o inferno e todas as nossas escapadas ousadas do fogo eterno. Não achou a matéria muito ruim, mesmo que fosse besteira. Apagou a luz e adormeceu.
Estava sonhando com as adoráveis irmãs gêmeas se aconchegando no seu corpo quando a lua cheia se ergueu sobre o rio, ofuscante e limpa. Ouviu um choro abafado, uma criança no outro quarto, anos atrás, e aí ouviu seu nome sussurrado, talvez Miúdo tentando acordá-lo, ou uma das belas filhas do cacique murmurando seu nome no sono. Escutou atentamente na escuridão, uma concentração que parecia tirá-lo de si mesmo em uma suspensão vazia. Escutou o próprio coração parar de bater, o último encher de pulmões deixá-lo em um silêncio luminoso. Esperou, totalmente quieto. Escutou seu choro suave retornar em sua carne, desvanecendo-se em direção à lua. E então um sussurro de asas enquanto era erguido.
Podia sentir, pelo jeito como era levado, que não se tratava de anjos, não podia conceber que fossem anjos, tinha tanta certeza de que eram patos, que nem se incomodou em abrir os olhos. Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:
– Ora, com os diabos, fui imortal até morrer.
Esperou, mas não houve mais respiração. Sucumbiu por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem.
Jim Dodge, "Fup"
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