sábado, maio 23
A tarde era de maio...
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| Ambrose Mcevoy |
A caminho do lotação, líamos um jornal que falava em maio, em Nossa Senhora, nas mães. Uma literatura comercial para que o povo carioca, já consumido de aflições, vivendo hoje uma estranha fase de um sentimento coletivo de insegurança, comprasse mais nos grandes magazines. Os sapatos falavam das mães, as bolsas falavam das mães, os liquidificadores teciam elogios às mães, as geladeiras, as enceradeiras, os sofás-camas, apelavam para os sentimentos filiais de todos. Haja dinheiro para os nossos bons sentimentos, pensei, exatamente quando chegava a uma das esquinas do docemente próspero e burguês bairro de Ipanema.
E na esquina, espojada no chão como um corpo morto, encontrava-se a mãe. Era de cor parda, beiços grossos e gretados, sem dentes, de quarenta anos presumíveis, o corpo envolto em trapos imundos.
Ressonava. Da boca, um fio de baba corria, descendo pelo colo, molhando os seus seios. Seu vestido levantado deixava à mostra a intimidade de seu corpo e suas pernas cheias de feridas. Moscas voavam sobre o seu ventre pojado, de onde, muito breve, deveria nascer um filho, o mistério indecifrável de um filho. Os passantes a olhavam com nojo, alguns com uma revoltante ironia. Em torno dela como que existia uma muralha de álcool barato. Talvez o filho nascesse morto. Talvez... Tudo aquilo era tão miserável, tão desagradável, tão patético, que é preferível botar nesta cena uma pedra. E sob esta pedra coloquemos também os nossos belos corações de filhos de uma época avara e hipócrita.
sexta-feira, maio 22
Só nos livros o amor racha corações em relâmpago
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| Mary Alayne Thomas |
Dinamene nascera um dia, experimentara o terrível prazer da precariedade. Às vezes, os olhos dos homens traziam-lhe um violento odor a lenha e leite, uma coisa que escaldava como sangue a jorros de pulsos abertos. Tentara rasgar a pele com uma tesoura funda, e de imediato ela se lhe mudara em granito escuro, brilhante. Meteu-se-lhe então na cabeça que a ilha havia de ter um buraco, um lugar por onde a queda pudesse ser definitiva. Há muitos anos, na escola, Dinamene aprendera a fugir de poços, grutas e covas porque no centro da terra ficava o inferno, mas agora ela não tinha qualquer ideia do que fosse uma escola. Correu a ilha toda muitas e muitas vezes, e quanto mais corria mais o seu corpo se afastava da terra. Pisava orquídeas e elas voltavam-se para o sol, como se em vez de pisadas tivessem sido acariciadas pela brisa do mar. Correu tanto que acabou por provocar os ventos e congregar as nuvens que andavam lá longe pelos continentes do mundo. A ilha pôs-se a baloiçar como uma alma confusa e entornou Dinamene para dentro de uma fortaleza de pedra roubada ao tempo dos piratas. A primeira sala parecia uma caixa de fósforos gigante, onde os fósforos desenhavam um labirinto de andaimes. Ao fundo da sala havia uma enorme mesa de madeira, daquelas de desenhar cidades ou meditar sobre o esplendor da verdade. Dinamene acabou por reparar que sempre que suspirava um dos fósforos caía e aparecia um desenho na mesa do fundo, que podia ser de frades ou arquitectos ou poetas. Queria tocar-lhes, mas os desenhos esfumavam-se, desfaziam-se em giz nas mãos dela. E o giz marcou o caminho da segunda sala, que era depois de uma ponte estreita, e quando ela entrou na segunda sala começou a nevar lá fora. Dinamene olhou para as mãos porque de repente o seu corpo fazia um barulho de livro desfolhado, e a pele desatou a encarquilhar-se muito depressa, até ficar cor de pergaminho, como os velhos ou os recém-nascidos. Não havia ali espelho que confirmasse a situação de Dinamene. De qualquer modo, Dinamene era imune aos espelhos. Só a água lhe reflectia os contornos, em dias de controlada luz. Deitou-se no chão, ao lado de uma espiral de flores que ali havia, e deixou-se cobrir pelas pétalas brancas e vermelhas, que lhe imitavam o frio da neve e o sabor metálico do sangue.
E então Dinamene lembrou-se. As imagens acudiam-lhe em tropel, recortadas em riso, assimétricas, numas cores ferozes de vida. Tinha um enorme cravo vermelho no cabelo em forma de estrela do mar e as suas mãos pequenas, pacientes, construíam uma cidade de fósforos. Crescera em volta daquela cidade. Quando acabou de crescer verificou que a sua cidade estava rodeada por uma verdadeira muralha de papel. Pegou na primeira folha e leu o que estava escrito. Amor, amor, amor, ah, minha Dinamene, eternamente. Soltou uma gargalhada e caiu do céu uma luz que se ateou aos fósforos e reduziu a cinzas a sua infância inteira. Dinamene decidiu esquecer. Coleccionou fotografias até inventar uma família que lhe ficasse bem. Às vezes deixava-se arruinar, às vezes bordava panos para os barcos que partiam. Quando se cansou de imaginar começou a copiar gestos e sentimentos dos romances. Não corria o perigo da seriedade, porque tinha um guarda-roupa faustoso dentro da cabeça. Nada era para sempre, nada merecia o empenhamento de uma existência, tudo fogo que arde. Era a única mulher que gostava de envelhecer. Entediava-a a ideia de acordar todos os dias da vida com a mesma pele lisa dos objectos sem passado. Amava as imperceptíveis corrosões do tempo, talvez por isso parecia cada dia mais nova. Ganhou fama de bondosa por alheamento, tão determinada se apresentava sempre a estudar a sombra das nuvens no mar. Intrigava-a a persistência que as pessoas punham nos actos, para o bem como para o mal. Por isso mesmo, desencadeava paixões furiosas. Troçava da persistência das guerras e dos sentimentos, vivia o poder absoluto da indiferença material. Nunca saíra da ilha, que é o mesmo que dizer que jamais lhe pertencera, porque tinha todos os sentidos pousados nas substâncias passageiras. Divertia-a o jogo das intensidades, donde começou a murmurar-se que mentia. Numa hora beijava, na seguinte enxotava e ria. Até que os limites humanos do desengano coincidiram com os limites físicos da ilha, e a colecção de apaixonados transbordou numa multidão de revoltados.
Dinamene foi convidada para uma festa no alto do monte, num palácio onde morrera um rei estrangeiro. Quando ela entrou, com um vestido da cor do Tempo, todos – homens e mulheres – suspiraram de desejo e pavor. Avançaram para ela com uma garrafa cheia de um líquido dourado e pediram-lhe que bebesse aquele néctar feito de propósito para ela. Dinamene bebeu e rejuvenesceu. Parecia que aquela bebida continha a fórmula da felicidade eterna. De certa forma, era verdade. Naquele jarro estavam as lágrimas de todas as pessoas que a tinham amado. De madrugada, a pele de Dinamene desatou a escurecer. Como se o corpo tivesse decidido preencher-lhe todos os espaços em branco da vida.
Foi assim que Dinamene passou da vida à arte, de ser humano a parecer literal: a alma encheu-se-lhe de estruturas precárias, o corpo esvaziou-se-lhe em sucessivas acumulações de cor. Até ao instante em que, deitada sob pétalas, Dinamene se lembrou de tudo e depois esqueceu-se e nasceu a chorar.
Inês Pedrosa
Se este mundo fosse meu, eu reinventaria a vida
Neste estado de entressono em que nem velamos nem dormimos, alinhavei há pouco o texto abaixo, que agora arrumo como quem arma um brinquedo muito amado.
Se este mundo fosse meu, eu reinventaria a vida. As pessoas seriam mais tranquilas e pacientes - não demais, ou seriam moles e sem graça.
Se este mundo fosse meu, eu mudaria os amores, que seriam menos controladores, menos inseguros, menos egoístas e jamais cruéis. Não perfeitos, pois seriam amores humanos com todos os nossos jeitos e carências.
Se este mundo fosse meu, não haveria terras sem gentes nem gentes sem terras mas todos teriam um lar para viver, florestas para passear, campos para correr ou plantar, ruas para se encontrar, árvores para admirar. Mas ninguém tentaria tirar a terra do outro, pois haveria espaço de sobra para cada um.
Se este mundo fosse meu, haveria mais música e cantos do que gritos e xingamentos, mais palavras ditas com afeto, ou com sabedoria, com alegria. Mas haveria também segredos e prantos e chamados e confidências, porque, mais uma vez, seríamos apenas humanos... mas sem hipocrisia nem perversidade.
Se este mundo fosse meu, não haveria mães sem filhos nem filhos sem mães... e pais também. Porque arrancarem alguém assim do nosso lado é um horror que ninguém merece.
Se este mundo fosse meu, eu deletaria a mentira, a hipocrisia, a pobreza, a miséria, a fome e o abandono. Mas deixaria umas mentirinhas inocentes para depois a gente rir junto, tipo "claroooo que eu ainda te amo!". E deixaria alguma necessidade, alguma ambição e desejos para que sempre houvesse vontade de melhorar.
Se este mundo fosse meu, eu inventaria viagens para conhecer todos os lugares do mundo como em mil tapetes mágicos que nunca se chocariam nos ares porque seríamos espertos demais.
Se este mundo fosse meu, eu desinventaria a solidão e a morte. Pois todos teríamos ao menos um amor e várias amizades, e em lugar de adoecer e morrer, quando velhinhos mas ainda lúcidos e firmes, iríamos nos desvanecendo devagar, cada vez mais leves e transparentes, sem agonia ou desespero - porque todos saberiam que essa separação seria só transitória.
E, se este mundo fosse meu, seríamos no fim como fiapos de nuvens e novelos de cores pairando, girando ou voando em pura beleza, reflexos de luz e formas móveis, pelo espaço afora ou perto dos que nos amam. Se este mundo fosse meu, seria em tudo maravilhoso e bom.
Lya Luft
quinta-feira, maio 21
Livrarias e livreiros
No tempo em que eu me tornei leitora, as livrarias eram muito diferente das de hoje. Tinham à frente homens e mulheres que eram grandes leitores, ou pelo menos conheciam muito bem o que tinham dentro da loja. Estabeleciam frequentemente com os clientes um relacionamento pessoal, chamando a atenção para determinadas novidades que provavelmente lhes interessariam. Sabiam aconselhar livros para crianças de idades diferentes; e, por vezes, até telefonavam a um cliente específico a dizer que tinha chegado de longe aquele livro, que depois guardavam debaixo da mesa para não serem apanhados pela PIDE. Com honrosas excepções, esta espécie de livreiro já não se encontra, não só porque, com o aumento do número de leitores e pessoas escolarizadas, a edição se foi progressivamente transformando numa indústria, mas porque, para a maioria dos jovens, a cultura se tornou uma coisa muito mais superficial e as pessoas hoje estão, infelizmente, mais viradas para a informação e o conhecimento rápidos, e também mais dispostas a uma fruição rápida (meia hora de um episódio de uma série contra duzentas páginas de um romance). Em Portugal desapareceram as livrarias independentes quase todas, mas em Espanha, por exemplo, elas ainda contam muito, e dois escritores espanhóis quiseram prestar-lhes homenagem nestes tempos horríveis com um artigo maravilhoso que aqui vos deixo ("Elogio do livreiro", de Ernesto Pérez Zúñiga, e "Queridos livreiros e livreiras", Adolfo García Ortega, ambos em espanhol). Gostei muito de duas ideias: a do livreiro que escolhe os livros para o jovem cliente como quem escolhe flores para a abelha, estimulando o pólen da imaginação; e a ideia de que o escritor é uma ilha e o leitor um continente. Mas, por favor, leiam estes elogios aos livreiros, merecidíssimos, e honrem os vossos livreiros, se ainda os têm, partilhando-os com eles.
Maria do Rosário Pedreira
Maria do Rosário Pedreira
O que ando a ler nesta quarentena
Enquanto o futuro não descose as incertezas, o teatro só existe na leitura. Sandro William Junqueira tem aproveitado a quarentena para avançar com um dos seus rituais anuais: ler a obra dramatúrgica de Anton Tchékov. “É uma espécie de higienização mental, um recarregar de baterias”, garante. Entre mãos tem Platónov, a primeira peça do escritor russo, que só postumamente foi revelada e publicada. Seguir-se-ão outras, em espanto e júbilo sempre renovados.
A releitura, aliás, é um hábito, uma forma de conviver em permanência com os seus autores de eleição. Não resistiu à tentação de ir buscar à estante "Vozes de Chernobyl", da bielorrussa Svetlana Alexievich. Também hoje em dia o perigo é invisível, um vírus que se espalha sem que ninguém dê por ele, como foi outrora, na Ucrânia, com a explosão do reator nuclear.
“É um sentimento muito ambivalente ler livros que de certa forma abordam cenários semelhantes ao que estamos a viver, queremos e não queremos, atrai-nos e afasta-nos”, afirma o autor de "Quando as Girafas Baixam o Pescoço". Na dúvida, tem revisto os sublinhados do livro da Prémio Nobel de Literatura de 2015, tomando-os como guia para os dias correntes. "A Peste", de Albert Camus, outro clássico das pandemias literárias (além de um dos grandes romances da literatura mundial), ainda está fresco na cabeça, pois releu-o há pouco tempo.
Nas primeiras páginas está, por fim, A Única História, de Julian Barnes, autor que tem vindo a acompanhar com muito prazer e de cujo percurso destaca "O Ruído do Tempo" e "Os Níveis da Vida". Nele se defende a tese de que por mais experiências que tenhamos na vida, dela apenas tiraremos uma única história, aquela que contamos repetidamente aos outros. Para muitos, no futuro, talvez essa história venha a ser aquela que todos, juntos e separados, estamos a ler e a viver na primeira pessoa.
Que livros compravam Simone de Beauvoir, Joyce, Hemingway e Lacan em Paris?

Os papéis escritos a mão mostram os nomes dos clientes e os livros solicitados em empréstimo. Assim, revela que Hemingway levou, entre as 90 publicações anotadas em sua ficha, as memórias de Joshua Slocum, Sailing Alone Around the World (“Navegando sozinho ao redor do mundo”, 1900), ou inclusive um exemplar de um dos seus próprios livros, "Adeus às Armas" (1929). Stein, por sua vez, leu a novela romântica A Love in Ancient Day (“Um amor na antiguidade”, 1908), de Truda H. Crosfield, e a fantasia Equality Island (“Ilha da igualdade”, 1919), de Andrew Soutar, enquanto Benjamin pegou um dicionário alemão-inglês e The Physical and Metaphysical Works of Lord Bacon (“As obras físicas e metafísicas de lorde Bacon”, 1853), este último pouco antes de seu suicídio, em setembro de 1940, quando a polícia espanhola lhe comunicou que o entregaria à Gestapo. Lacan aproveitou o serviço para pedir um obscuro livro sobre a história da Irlanda durante sua leitura de Joyce, e Claude Cahun, sob o nome de Mlle Lucie Schwob, dedicou-se às obras de Henry James. Se atrasavam a devolução, a política era sempre a mesma: entregar ao infrator um desenho que retratava Shakespeare arrancando os cabelos.“Muitas coisas me surpreenderam”, diz Kotin. “Surpreendeu-me que Lacan lesse sobre a Irlanda, ou que Stein lesse romances de fantasia. Mas também pela diversidade das pessoas que eram sócias da livraria. E, por último, pela diversidade dos livros. Esperava que Joyce, Woolf e Mansfield fossem os autores mais populares, não achava que fossem Norman Douglas, Charles Morgan e Rosamond Lehmann”, acrescenta.
Hoje, o histórico de empréstimos desses escritores pode ser consultado livremente na página do projeto, com buscas por cliente ou por livro. Para Kotin, a grande quantidade de material consultado demonstra uma semelhança com nossos hábitos atuais. “Comparo suas leituras com nosso tipo de consumo: podemos ler romances e poemas sofisticados, mas ainda vemos coisas na Netflix.”
Beach publicou em 1922 a legendária novela de James Joyce, Ulisses, e manteve a Shakespeare and Company aberta até 1941, quando se recusou a vender o último exemplar de Finnegans Wake (1939) a um oficial nazista. George Whitman conseguiu reabrir a loja 10 anos depois e doou os arquivos a Princeton em 1964. A equipe de Kotin trabalha há seis anos no armazenamento desse infinito material e, apesar disso, o professor afirma que ainda estão em um ponto inicial. “Agora que temos o site, não vejo a hora de descobrir clássicos esquecidos ou comunidades de escritores unidos por seus gostos. E também informações sobre os americanos expatriados em Paris. Tenho muitíssimas perguntas. O projeto é uma ferramenta para respondê-las”, afirma. Nos próximos meses, o plano é incluir um mapa que mostrará onde os autores residiam e uma lista dos livros mais populares.
Sylvia Beach não quis cumprir a regra da Associação Americana de Bibliotecas que exige que essas instituições destruam os registros dos usuários para proteger sua privacidade. O resultado foi um arquivo de inestimável valor. “Era uma obsessiva colecionadora de informações. Nos anos vinte, a loja e a biblioteca já eram muito famosas. Ela sabia que as pessoas se interessariam pelos arquivos no futuro. Mesmo quando fechou, continuou emprestando livros”, conta Kotin.
quarta-feira, maio 20
Eu merecia
Merecia agora estar em Paris. Com Beatriz. No D’Orsay. Na suíte dos impressionistas. Pausar para um croissant na cafeteria do museu com o enorme relógio art déco ao fundo. Demorar-me na sala Van Gogh. E lá dentro passar o dia que lá fora deve estar um frio danado.
Não estou pedindo um novo Garrincha, o retorno do chiclete Ping Pong, um valor razoável pelo Plano de Saúde, a ressurreição de João, nada disso. Minha ambição é pateta. Minha lista é mixuruca, possível.
O que eu fiz para merecer? Não muito. Talvez esteja pedindo demais pelo pouco que fiz. Há quem queira em maior demasia: medalhas e troféus, aplausos e inveja, queima de fogos com banda de música. Merecimentos muito exagerados. Não é meu caso.

Um bom peixe com pirão e uma pimenta que não sufoque eu merecia. Caipirinha de limão galego com cachaça goiana. Um violão no escuro. Amor antes e depois de dormir. Uma charrete chacoalhenta em Tiradentes. Merecia uma história contada com muita calma.
Há quem duvide do meu merecimento: um antigo professor de Matemática torceria o nariz. Um tio que me achava completamente doido (completamente eu não diria, mas um bom tanto de razão ele tinha). O juiz que me deu ordem de prisão no Carnaval de 87 por cheirar lança-perfume. Os pais de duas namoradas que não iam com a minha cara, só porque eu… bom, deixa pra lá.
Há quem defenda que eu merecia mesmo era a humilhação de ser desmascarado. Que a farsa fosse revelada por inteiro, sem defesa possível. A esses, dou uma esperança: tenho feito umas bobagens, me expondo demasiado, esqueci como me cuidar, e desse jeito o segredo não demora a virar escândalo, com grande estardalhaço e matéria no Jornal Nacional.
Fui bom? Mal? Atirado? Covarde? Mereço? Não mereço? Sou sincero ou finjo descaradamente? Pouco importa agora, eu só queria mesmo algumas coisinhas. E cada vez menos.
Tudo resumido, peço poder escolher minhas batalhas, que elas não passem de minutos e façam pouco barulho. Ter o mínimo de domínio sobre meu tempo. Mais ouvir que falar. Em uma única palavra: a paz da rede na Bahia que ficou na primeira linha.
Mas que eu merecia poder voltar a comer empadinha, ah, isso eu merecia.
Cássio Zanatta
Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
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| Alexandru Ciucurencu |
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso,"O último volume"
terça-feira, maio 19
Há anjo pra tudo
Assim como há um anjo das bibliotecas, que indica o livro que a gente está procurando, assim também há um anjo que, entre mil papéis, põe o dedo no papel que interessa
Otto Lara Resende
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