segunda-feira, novembro 9
Estantes
Se não existissem estantes, não sei o que seria de mim; mas sei que todos nós, que gostamos de livros, louvamos a sua invenção e existência. Há quem as tenha sempre arrumadinhas (por ordem alfabética, por país, por género literário, por ordem cronológica...), e quem (como é o meu caso) nunca consiga tal proeza e esteja sempre a pousar os livros em cima dos que lá estão à espera de um dia em que haja tempo para os entalar no lugar correcto. Agora, que tantas actividades passaram a ser virtuais (mesmo assim, não creio que em Portugal a venda de e-books tenha aumentado significativamente), não consigo imaginar um futuro em que as estantes sejam transformadas em pequenos aparelhos que armazenam livros. Quem não vê as lombadas alinhadas, às cores, com os nomes dos autores e os títulos e os vincos marcados pela leitura, não é um verdadeiro bibliófilo. Mas, não há dúvida, será mais ecológico. Para já, porém, teremos estantes para todos os gostos, como esta, engraçada, que encontrei por aí.
domingo, novembro 8
Meus primos
Nós éramos uns 15 primos feios, 15 loucos e passávamos as duas férias do ano em Cachoeira Lisa, herança do nosso avô honrado, uma usina que, em 1924, não devia um tostão a ninguém mas que, em 1946, foi torrada nos cobres por dois vinténs, porque suas dívidas eram terríveis e insustentáveis. Dormíamos num apartamento enorme − sala imensa e um banheiro de bom tamanho − e em 15 camas de lona, com um lençol, uma baeta e um travesseiro para cada menino. Cada um tinha sua manta. R.A., por exemplo, adorava caçadas. Um dia lhe disseram que, na mata do sítio Curuzu, havia uma árvore, cujos frutos eram uma comida querida de todos os passarinhos da redondeza. Alguns caçadores, quando anoitecia, iam para lá, deitavam ao pé do tronco, cochilavam e, de manhã cedinho, acordavam com a cantoria dos bichos e cada tiro que davam era um juriti ou trocaz no embornal. R.A. resolveu ir também, mas como era, antes de mais nada, um comodista, levou cobertor, travesseiro, um colchão, candeeiro de querosene e um volume de "Os maias" (Eça de Queiroz) para ler, enquanto o sono demorava. Achamos graça em seu equipamento e, à sua saída, ainda perguntamos quando voltaria da África. No dia seguinte, entre oito e nove horas, R.A. deveria voltar com seus passarinhos mortos. Mas, deu dez horas, onze, meio-dia e nada. Ficamos sobressaltados e fomos para a mata de Curuzu, um pouco desconfiados que uma cobra ou um gato do mato o houvesse apanhado. Procuramos, gritamos seu nome, até que, uma hora depois, embaixo da tal árvore, R.A. dormia como um justo, coberto até o nariz, com o candeeiro aceso e o livro de Eça aberto na página que dizia: "Foi num sábado que Afonso da Maia partiu para Santa Olávia. Cedo, nesse mesmo dia, Maria Eduarda..." Com o seu comodismo, havia feito uma cama gostosa demais. Leu, adormeceu e, como a friagem da manhã estivesse muito gostosa, dormiu, perdidamente, até à uma da tarde, hora em que o encontramos, todo cuspido de passarinho.
R.G. era um demônio. Mais atleta, mais afeito à terra que qualquer um de nós, era uma espécie de Tarzan, filho do mato e do rio, diante da nossa meia tendência para o asfalto. Numa tarde, resolvemos caminhar pela estrada de ferro − e outra coisa não pretendíamos senão dar uma olhada na filha de um vigia novato, morena carregada, de olhos verdes e longas tranças que, de tardinha, lavava os pés, enfeitava a cabeça com uma flor e vinha para o patamar de casa tocar viola de 12 cordas e cantar "Sussuarana". No meio do caminho, demos com a ponte de ferro, feita de trilhos, dormentes e mais nada, onde só o trem podia passar. R.G. teimou que atravessar seria uma canja, andando por cima dos dormentes. E se o trem viesse? − aventamos essa perigosa possibilidade. Não ligou. Nós ficamos no barranco do Rio e ele começou, sozinho, a travessia. De repente, parecia coisa do diabo, o trem saiu da curva, a cem metros da ponte. R.G. ia exatamente na metade e não tinha tempo de correr para frente ou para trás. Fechamos os olhos, pensamos em Deus por sua alma de 16 anos. O trem passou, houve um minuto de pausa e, depois, R.G. apareceu no mesmo lugar, fazendo gestos vegetais e gritando que não seria a locomotiva da Great Western que o mataria tão jovem. Garoto de incrível presença de espírito, quando viu o trem à sua frente, agachou-se, segurou, com as mãos, um dos dormentes e deixou o corpo pendurado. Depois que passaram os 12 vagões, suspendeu-se como num exercício de barra e começou a rir do estado de pânico em que estávamos. O maquinista, ao chegar à estação de Gameleira, a dois quilômetros dali, entregou-se à polícia, confessando que tinha matado um menino da usina Cachoeira Lisa.
Primos e primas, seis moças e seis rapazes, resolveram passear a cavalo num engenho nosso, que se chamava Cuiambuca. Saíram de madrugada e prometeram voltar às três da tarde. Acontece que deu sete horas, estava quase escurecendo e nada deles voltarem. Como era negócio de moças e rapazes, embora primos, as mães ficaram meio assustadas. Eu e Tião, porém, sabíamos que o grupo voltaria são e salvo. Planejamos ir para Volta da Jaqueira, lugar frequentado por fantasmas e almas penadas. Quando os cavaleiros surgissem, Tião, embrulhado num lençol, iria para o meio da estrada e ficaria parado, rezando, aos berros, uma jaculatória pelo repouso dos espíritos desassossegados. Fiquei atrás da jaqueira e quando ouvi o tropel dos cavalos, mandei Tião, com o seu lençol, para o meio do caminho. Nossos primos, tomados pelo susto, em vez de correr, baixaram os rebenques no pobre do Tião que, durante 15 minutos, apanhava e gritava: "Não tem graça, não. Vocês sabem que sou eu". Do meu esconderijo, queria intervir, mas a crise de riso era tanta, que não conseguia sair do lugar.
São estas as pobres e perdidas recordações embora sem ternura para os outros de que me sirvo nos dias de saudade. Meus 15 primos, espalhados, desarrumados no mundo (um deles é frade dominicano, em Paris) são, hoje, nestas coisas que conto, minha única maneira de voltar ao moleque da campina, que não sabia nada e era rei de tudo, para quem o remorso foi uma simples palavra do catecismo, no tempo em que a reza da noite redimia as viagens impossíveis do sexo. Não desprezeis minhas humildes saudades, mas buscai, em vossa meninice, lembranças parecidas com estas e elas vos restituirão um certo apego, um pouco de bem-querer aos dias de hoje, tão sem graça em sua maioria.
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"
O caçador de elefantes invisíveis
Surpreenderam o caçador Lauro Tsatso a preparar uma armadilha junto a uma picada que leva ao Parque do Chimanimani. O homem reagiu defensivamente, pensando que esses que o abordavam eram fiscais da fauna e o tomavam por um caçador furtivo. Suspirou de alívio quando se apercebeu de que se tratava de uma brigada dos serviços de saúde. Vinham da capital da província, e o seu propósito era informar as comunidades remotas sobre a Covid-19. Falavam em português, mas tinham dois tradutores para a língua shona. A mensagem principal era a mesma que tinham usado na cidade: recomendavam que todos ficassem em casa, respeitassem o distanciamento social e obedecessem às normas de higiene.
– Ouvi falar dessa doença – disse, de imediato, o caçador. – Escutei na rádio do Zimbabwe. Eles transmitem na minha língua, o shona.
Os técnicos do ministério tinham a lição preparada e desbobinaram a receita. Explicaram, primeiro, que o vírus era invisível. O homem acenou com a cabeça, em vigoroso assentimento. Era a sua especialidade, as criaturas invisíveis. E sorriu, confiante. Estava, afinal, entre colegas. Porque não havia competência maior: os bichos que ele caçava surgiam na véspera como entidades sem corpo. Até o elefante aparecia mais pequeno do que o nada. São espertos os bichos deste mundo. Não se deixam ficar por um único tamanho, por uma única vida.
Educadamente, escutou as prédicas dos visitantes, aguardando o seu momento. Pediu as mais variadas licenças, porque havia ali gente de idade e géneros bem diversos. E apresentou, então, o seu método para vencer os seres que fingem ser invisíveis. Esse método tinha um nome: o sonho. Devia dizer no plural: a sua produção onírica era, na verdade, bem diversa. Os sonhos eram o laboratório de Tsatso. Eram o seu tubo de ensaio, o seu microscópio privado, a sua cabine de fluxo laminar. Os visitantes que estivessem à vontade para lhe pedir toda a colaboração. Podiam encomendar-lhe um sonho para ele descobrir por onde andava escondido o tal vírus.
Em silêncio, a brigada da saúde concordou que o melhor seria centrarem-se no essencial. Dedicaram-se, a seguir, a explanar sobre os mecanismos de transmissão do vírus. A transmissão aérea, as gotículas, os aerossóis. Tudo isso foi comentado. Lauro Tsatso encolheu os ombros.
– Fiquem descansados – disse ele –, eu raramente respiro. Durmo longe da minha mulher exatamente por isso. Ela farta-se de respirar. É de dia, é de noite, ela não se cansa.
Complacentes, os da saúde sorriram: a reação do caçador não resultava de qualquer intenção irónica. Havia apenas um erro de tradução. Mudaram o tradutor e, de uma assentada, falaram de tudo: do vírus, da pandemia, dos assintomáticos, do achatamento da curva, do retardar do pico. Usaram todos estes termos em português. As mãos do tradutor, em apressado desespero, tentavam compensar a complexidade do discurso. Os olhos de Tsatso eram intermitentes faróis perdidos entre as curvas e as contracurvas do discurso.
Um dos brigadistas explicou, numa espécie de representação teatral, a necessidade do distanciamento social. O próprio tradutor mostrou-se renitente. Tinham a certeza da relevância daquela instrução ali, no meio do deserto?
A recomendação seguinte foi mais concisa: o homem devia ficar em casa. E o caçador disse: – Mas eu já estou em casa. – E apontou a paisagem em volta. De novo, os da Saúde sorriram, complacentes. Uma das senhoras que trazia uns sapatos de tacão alto aproveitou para esmiuçar as instruções: sempre que chegasse do trabalho, ele devia deixar os sapatos à porta da residência. E ela até exemplificou, apoiando-se no ombro de Tsatso para erguer a perna e libertar-se do calçado. O caçador também se ergueu para executar uma vénia e inquirir, com o devido respeito: – Vão-me dar quando? – Os visitantes não entenderam. – Os sapatos, é para agora? – voltou a inquirir o caçador, já com o pé erguido para lhe tirarem as medidas.
Por fim, anunciaram o objetivo final das medidas de prevenção. Tratava-se de aliviar a sobrecarga nos hospitais, Tsatso voltou a interromper. Essa era uma das criaturas mais invisíveis naquela região: o hospital. Mesmo nos sonhos, ele não vislumbrava nenhum posto de saúde. O mais próximo ficava para além do alcance dos melhores dos sonhadores.
E confessou: já antes tinha chegado uma outra brigada com ordens de fechar a escola. Fechar é um modo de dizer. Como se pode fechar o que não tem paredes nem porta? Agora, por baixo do frondoso cajueiro restavam os bancos corridos, uma tábua pintada de preto e pedaços de mandioca seca que faziam de giz. Tudo desolado, vazio e solitário. Mas é assim, a vida é que manda. A escola é como o mundo dos vírus. Parece vazia. Mas há quem a povoasse. Quem sabe, daqui a uns dois meses, quando a reabrirem já as suas netas não voltem às aulas. Lugar de rapariga é em casa. Elas, sim, iriam ficar em casa. Agora e sempre. Que é para não apanhar a doença de sonhar. Nem com coisas visíveis e, menos ainda, com coisas invisíveis.
Os brigadistas juntaram numa mala a parafernália de materiais de educação: cartazes, panfletos, marionetas e um megafone. Foram caminhando com dificuldade, arrastando os pés na areia solta. E ainda escutaram os gritos do caçador. À distância, os braços erguidos, o homem clamava na sua língua materna. Observando melhor, ele sustentava um par de botas na ponta dos dedos. O tradutor apurou os ouvidos, encheu o rosto com um largo sorriso e explicou aos colegas:
– O homem está a perguntar se, desta vez, não lhe deixamos um frasquinho com álcool-gel.
– Ouvi falar dessa doença – disse, de imediato, o caçador. – Escutei na rádio do Zimbabwe. Eles transmitem na minha língua, o shona.
Os técnicos do ministério tinham a lição preparada e desbobinaram a receita. Explicaram, primeiro, que o vírus era invisível. O homem acenou com a cabeça, em vigoroso assentimento. Era a sua especialidade, as criaturas invisíveis. E sorriu, confiante. Estava, afinal, entre colegas. Porque não havia competência maior: os bichos que ele caçava surgiam na véspera como entidades sem corpo. Até o elefante aparecia mais pequeno do que o nada. São espertos os bichos deste mundo. Não se deixam ficar por um único tamanho, por uma única vida.
Educadamente, escutou as prédicas dos visitantes, aguardando o seu momento. Pediu as mais variadas licenças, porque havia ali gente de idade e géneros bem diversos. E apresentou, então, o seu método para vencer os seres que fingem ser invisíveis. Esse método tinha um nome: o sonho. Devia dizer no plural: a sua produção onírica era, na verdade, bem diversa. Os sonhos eram o laboratório de Tsatso. Eram o seu tubo de ensaio, o seu microscópio privado, a sua cabine de fluxo laminar. Os visitantes que estivessem à vontade para lhe pedir toda a colaboração. Podiam encomendar-lhe um sonho para ele descobrir por onde andava escondido o tal vírus.
– Não sou como os outros. Eu penso por sonhos.
Em silêncio, a brigada da saúde concordou que o melhor seria centrarem-se no essencial. Dedicaram-se, a seguir, a explanar sobre os mecanismos de transmissão do vírus. A transmissão aérea, as gotículas, os aerossóis. Tudo isso foi comentado. Lauro Tsatso encolheu os ombros.
– Fiquem descansados – disse ele –, eu raramente respiro. Durmo longe da minha mulher exatamente por isso. Ela farta-se de respirar. É de dia, é de noite, ela não se cansa.
Complacentes, os da saúde sorriram: a reação do caçador não resultava de qualquer intenção irónica. Havia apenas um erro de tradução. Mudaram o tradutor e, de uma assentada, falaram de tudo: do vírus, da pandemia, dos assintomáticos, do achatamento da curva, do retardar do pico. Usaram todos estes termos em português. As mãos do tradutor, em apressado desespero, tentavam compensar a complexidade do discurso. Os olhos de Tsatso eram intermitentes faróis perdidos entre as curvas e as contracurvas do discurso.
Um dos brigadistas explicou, numa espécie de representação teatral, a necessidade do distanciamento social. O próprio tradutor mostrou-se renitente. Tinham a certeza da relevância daquela instrução ali, no meio do deserto?
A recomendação seguinte foi mais concisa: o homem devia ficar em casa. E o caçador disse: – Mas eu já estou em casa. – E apontou a paisagem em volta. De novo, os da Saúde sorriram, complacentes. Uma das senhoras que trazia uns sapatos de tacão alto aproveitou para esmiuçar as instruções: sempre que chegasse do trabalho, ele devia deixar os sapatos à porta da residência. E ela até exemplificou, apoiando-se no ombro de Tsatso para erguer a perna e libertar-se do calçado. O caçador também se ergueu para executar uma vénia e inquirir, com o devido respeito: – Vão-me dar quando? – Os visitantes não entenderam. – Os sapatos, é para agora? – voltou a inquirir o caçador, já com o pé erguido para lhe tirarem as medidas.
Por fim, anunciaram o objetivo final das medidas de prevenção. Tratava-se de aliviar a sobrecarga nos hospitais, Tsatso voltou a interromper. Essa era uma das criaturas mais invisíveis naquela região: o hospital. Mesmo nos sonhos, ele não vislumbrava nenhum posto de saúde. O mais próximo ficava para além do alcance dos melhores dos sonhadores.
E confessou: já antes tinha chegado uma outra brigada com ordens de fechar a escola. Fechar é um modo de dizer. Como se pode fechar o que não tem paredes nem porta? Agora, por baixo do frondoso cajueiro restavam os bancos corridos, uma tábua pintada de preto e pedaços de mandioca seca que faziam de giz. Tudo desolado, vazio e solitário. Mas é assim, a vida é que manda. A escola é como o mundo dos vírus. Parece vazia. Mas há quem a povoasse. Quem sabe, daqui a uns dois meses, quando a reabrirem já as suas netas não voltem às aulas. Lugar de rapariga é em casa. Elas, sim, iriam ficar em casa. Agora e sempre. Que é para não apanhar a doença de sonhar. Nem com coisas visíveis e, menos ainda, com coisas invisíveis.
Os brigadistas juntaram numa mala a parafernália de materiais de educação: cartazes, panfletos, marionetas e um megafone. Foram caminhando com dificuldade, arrastando os pés na areia solta. E ainda escutaram os gritos do caçador. À distância, os braços erguidos, o homem clamava na sua língua materna. Observando melhor, ele sustentava um par de botas na ponta dos dedos. O tradutor apurou os ouvidos, encheu o rosto com um largo sorriso e explicou aos colegas:
– O homem está a perguntar se, desta vez, não lhe deixamos um frasquinho com álcool-gel.
sábado, novembro 7
Escritores e seus labirintos
Em crônica recente sobre as mudanças na arrumação de sua biblioteca, o jornalista e escritor Fernando Molica revelou uma pequena travessura literária. Ao organizar as estantes conforme a nacionalidade e o idioma, costumava dispor, lado a lado, autores que passaram a vida trocando rusgas fora (e às vezes também dentro) dos livros. José Saramago e Lobo Antunes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. “Assim, eles poderiam continuar as brigas pelas madrugadas”, justifica.
Mas o texto tratava justamente de uma mudança de critério. Como conta, Molica se dobrou à tradicional ordem alfabética, a partir do sobrenome. Foi assim que terminei parando ao lado de Alberto Mussa (salve, compadre!), em uma das prateleiras do apartamento do autor de Notícias do Mirandão. Logo na sequência, vem o Raduan Nassar. É quase certo que em obsequioso silêncio.
Ao ler a crônica, corri para minha biblioteca. Lá em casa, quando os títulos pertencem a campos como a música ou o cinema, a classificação ignora os nomes dos autores. Os livros são arrumados conforme a amplitude de seu conteúdo. Exemplo: um tratado sobre a história da música brasileira vem antes da biografia do Cartola. Do geral para o particular.
No caso de prosa e poesia, contudo, vigora a ordenação por nome, ou sobrenome, dependendo do modo como chamo o escritor. Kafka mora na fileira do “K”, e não no “F” de Franz. Já a obra de Machado de Assis ocupa boa parte do “M”. Os poetas estão todos juntos, enquanto os prosadores – em maior número – mantenho separados entre ficção brasileira e estrangeira.
Nessa lógica particular, o catalão Enrique-Villa Matas e inglesa Virginia Woolf ficam coladinhos, assim como o americano Robert Creeley e a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Armando Freitas Filho decerto gostará de saber que se mantém a poucos centímetros da amiga Ana Cristina César. E o Sérgio Rodrigues não vai se chatear por ter Sérgio Sant’Anna como companheiro de prateleira. Maurício de Almeida é outro que dificilmente reclamará da vizinhança. Marques Rebelo de um lado, Michel Laub do outro.
Por falar em Laub, ele também separa em sua biblioteca os livros de ficção brasileira – armazenados no escritório – e estrangeira – na sala. A despensa foi reservada ao que chama de “variados”, como me confidenciou há poucos dias. Flávio Izhaki e Cintia Moscovich seguem o mesmo modelo, mas ela guarda um nicho especial para os autores que sempre busca reler: Clarice Lispector, Italo Calvino, Amos Oz, Isaac Bashevis Singer.
Vencedor do Prêmio São Paulo, Rafael Gallo separa uma prateleira para as leituras prioritárias. Na seguinte, entram as obras das quais, sim, pretende dar conta, porém sem a mesma urgência. O resto do espaço está ocupado pelos demais títulos. Sem regra de sequenciamento.
“E há como encontrar um livro assim?”, eu poderia perguntar igualmente ao cronista Antonio Prata. Em sua estante, ele divide os títulos segundo o assunto. Mas no setor das obras ficcionais a confusão impera, a ponto de já ter começado a cogitar a convocação de algum profissional que lhe dê um auxílio. Talvez a Micaela Góes, do programa Santa Ajuda, como sugere outro Antonio, o Torres.
“Não tem nada aqui em ordem alfabética. Ainda consigo me achar na estante dos livros sobre o Rio de Janeiro, os da ABL, os de autores brasileiros em geral e dos amigos em particular. O resto é caos”, diz o acadêmico.
Devido à pouca visão, Maria Valéria Rezende criou um código próprio para se orientar em meio aos livros que espalha por toda a casa. Marcou as lombadas, conforme o gênero, com pedaços de fita colante colorida. Poesia é amarelo, romance é vermelho, conto é verde.
Outro critério peculiar é o de Flavio Carneiro. Professor, ficcionista e camisa 7 do extinto Pindorama Futebol e Literatura, ele pega de empréstimo o preceito usado pelo historiador de arte alemão Aby Warburg: a “boa vizinhança”. Na mesma rua, portanto, estão as narrativas de Ficções, de Jorge Luis Borges, os contos policiais de Dashiell Hammett, a obra de Edgar Allan Poe.
Motivado pela leitura da crônica do Molica, o papo com os colegas escritores deixou claro que os sistemas variam muito. Sujeitam-se a afetos, idiossincrasias. Mesmo nos casos em que o princípio é quase rarefeito.
Borges dizia que a biblioteca é ilimitada. Assim como o universo. “Se um viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem”, escreveu. E essa desordem, reiterada, acabaria por configurar uma ordem.
A ordem paradoxal do labirinto, que na conversa da semana passada, curiosamente, só um dos autores evocou. Questionado sobre seu critério, Sérgio Sant’Anna foi breve: “Meus livros simplesmente não passam por nenhuma espécie de organização”.
Mas o texto tratava justamente de uma mudança de critério. Como conta, Molica se dobrou à tradicional ordem alfabética, a partir do sobrenome. Foi assim que terminei parando ao lado de Alberto Mussa (salve, compadre!), em uma das prateleiras do apartamento do autor de Notícias do Mirandão. Logo na sequência, vem o Raduan Nassar. É quase certo que em obsequioso silêncio.
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| Dê Almeida |
Ao ler a crônica, corri para minha biblioteca. Lá em casa, quando os títulos pertencem a campos como a música ou o cinema, a classificação ignora os nomes dos autores. Os livros são arrumados conforme a amplitude de seu conteúdo. Exemplo: um tratado sobre a história da música brasileira vem antes da biografia do Cartola. Do geral para o particular.
No caso de prosa e poesia, contudo, vigora a ordenação por nome, ou sobrenome, dependendo do modo como chamo o escritor. Kafka mora na fileira do “K”, e não no “F” de Franz. Já a obra de Machado de Assis ocupa boa parte do “M”. Os poetas estão todos juntos, enquanto os prosadores – em maior número – mantenho separados entre ficção brasileira e estrangeira.
Nessa lógica particular, o catalão Enrique-Villa Matas e inglesa Virginia Woolf ficam coladinhos, assim como o americano Robert Creeley e a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Armando Freitas Filho decerto gostará de saber que se mantém a poucos centímetros da amiga Ana Cristina César. E o Sérgio Rodrigues não vai se chatear por ter Sérgio Sant’Anna como companheiro de prateleira. Maurício de Almeida é outro que dificilmente reclamará da vizinhança. Marques Rebelo de um lado, Michel Laub do outro.
Por falar em Laub, ele também separa em sua biblioteca os livros de ficção brasileira – armazenados no escritório – e estrangeira – na sala. A despensa foi reservada ao que chama de “variados”, como me confidenciou há poucos dias. Flávio Izhaki e Cintia Moscovich seguem o mesmo modelo, mas ela guarda um nicho especial para os autores que sempre busca reler: Clarice Lispector, Italo Calvino, Amos Oz, Isaac Bashevis Singer.
Vencedor do Prêmio São Paulo, Rafael Gallo separa uma prateleira para as leituras prioritárias. Na seguinte, entram as obras das quais, sim, pretende dar conta, porém sem a mesma urgência. O resto do espaço está ocupado pelos demais títulos. Sem regra de sequenciamento.
“E há como encontrar um livro assim?”, eu poderia perguntar igualmente ao cronista Antonio Prata. Em sua estante, ele divide os títulos segundo o assunto. Mas no setor das obras ficcionais a confusão impera, a ponto de já ter começado a cogitar a convocação de algum profissional que lhe dê um auxílio. Talvez a Micaela Góes, do programa Santa Ajuda, como sugere outro Antonio, o Torres.
“Não tem nada aqui em ordem alfabética. Ainda consigo me achar na estante dos livros sobre o Rio de Janeiro, os da ABL, os de autores brasileiros em geral e dos amigos em particular. O resto é caos”, diz o acadêmico.
Devido à pouca visão, Maria Valéria Rezende criou um código próprio para se orientar em meio aos livros que espalha por toda a casa. Marcou as lombadas, conforme o gênero, com pedaços de fita colante colorida. Poesia é amarelo, romance é vermelho, conto é verde.
Outro critério peculiar é o de Flavio Carneiro. Professor, ficcionista e camisa 7 do extinto Pindorama Futebol e Literatura, ele pega de empréstimo o preceito usado pelo historiador de arte alemão Aby Warburg: a “boa vizinhança”. Na mesma rua, portanto, estão as narrativas de Ficções, de Jorge Luis Borges, os contos policiais de Dashiell Hammett, a obra de Edgar Allan Poe.
Motivado pela leitura da crônica do Molica, o papo com os colegas escritores deixou claro que os sistemas variam muito. Sujeitam-se a afetos, idiossincrasias. Mesmo nos casos em que o princípio é quase rarefeito.
Borges dizia que a biblioteca é ilimitada. Assim como o universo. “Se um viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem”, escreveu. E essa desordem, reiterada, acabaria por configurar uma ordem.
A ordem paradoxal do labirinto, que na conversa da semana passada, curiosamente, só um dos autores evocou. Questionado sobre seu critério, Sérgio Sant’Anna foi breve: “Meus livros simplesmente não passam por nenhuma espécie de organização”.
Gente boa e gente inútil
Conheci um rapaz que, há uns vinte anos, ganhou uma bolsa para estudar anatomia patológica nos Estados Unidos, e nunca mais voltou. Americanizou-se? Encantou-se? Ficou rico? Não, nada disso, mora numa cidadezinha gelada quase na fronteira do Canadá, tem um ordenado que lhe basta apenas para as despesas fundamentais, não se diverte, gasta os dias e boas horas da noite metido num laboratório. Foi incorporado aos pesquisadores de câncer. Notaram-lhe o talento, pediram-lhe que ficasse, ele ficou. Brilhante entre os mais brilhantes alunos que passaram pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, desistiu do futuro, largou tudo, fez-se anônimo e pobre, ingressou num claustro leigo, só deixando o seu trabalho para gemer um pouco de frio e de saudade do Brasil, antes de dormir.
Homens como o Doutor Albert Schweitzer, capazes de trocar um destino artístico ou literário por um devotamento humanitário, são os santos de nosso tempo. A frieza de um laboratório, no entanto, ainda me parece um mundo mais estranho e árido do que a África Equatorial Francesa. Amar os homens por detrás de um microscópio, sem sentir nunca a reciprocidade do gesto generoso, é fantástico e humilhante para mim, tíbio comodista.
Os fatos são duros. Aperta-se o cerco contra o câncer nos Estados Unidos e em outros países. A conquista do espaço interplanetário não é tão emocionante quanto esta luta contra a morte. Antigamente, as epidemias chegavam de repente e dizimavam povos inteiros. As pestes modernas tomam aspecto moderno. As estatísticas sabem que 450 mil americanos serão vítimas do câncer este ano; destes, 260 mil estão condenados à morte. Sabe-se ainda, por exemplo, que no Norte dos Estados Unidos diminui a mortalidade por leucemia, mas no Sul a incidência mortal vem sendo acrescida. O mal é misterioso e aterroriza. Só não aterroriza o cientista escondido entre paredes assépticas, a isolar vírus, a traçar esquemas táticos, a vislumbrar esperanças, a chocar-se contra desilusões, a repetir, com o poeta, que cada nova tentativa é um fracasso diferente. É preciso usar nesta guerra - fala agora um cientista famoso - de todas as coisas que conquistaram mundos.
Admiro gente assim com a mais pura e selvagem simpatia de meu espírito.
Visitei há alguns anos o Instituto Pavlov, perto de Leningrado. Lá, em uma sala modesta e também fria, fui apresentado a um homem muito magro, desleixado no vestir, cabelos despenteados e de uma timidez de quem não tem o hábito de falar muito. Era um cientista famoso, chamava-se Victor Fiodorov. Pacientemente, ele me explicou a natureza das experiências que vinha realizando há longos anos, no sentido de tentar obter uma informação mais precisa sobre o câncer e a transmissão dos caracteres adquiridos. Contou-me com certa ternura a vida dos ratinhos assustados que eu via dentro de um aparelho cheio de labirintos, detalhou-me suas idas e vindas indutivas e dedutivas, suas pistas falsas, seus equívocos, suas surpresas repentinas, suas observações novas para a ciência, fez-me enfim um relatório completo daquilo tudo que era a sua própria existência. Depois calou-se. Nesse ponto, naturalmente, ocorreu-me perguntar-lhe a que conclusão final chegara. O homem magro sorriu um sorriso decepcionado de criança que não ganhou presente, e respondeu-me: "Ainda não cheguei a qualquer conclusão; não há nada que me diga que eu haja contribuído para a cura do câncer."
Quando cheguei lá fora, num silêncio agravado pela neve e pelo grito estrídulo das gralhas no alto dos abetos, compreendi que não poderia esquecer aquele sorriso nunca mais. Não faço nada pelo bem de ninguém e, decerto, faço mal a algumas pessoas. Mas o sorriso do cientista Fiodorov, ao revelar-me a sua frustração ao longo de tantos anos de trabalho, pelo menos me acusa e não me deixa esquecer de que vim ao mundo causando dores e sem procurar diminuir a dor de ninguém. Um inútil. Resta-me a vaidade vulgar de saber que não presto para nada, pois o bonito entre os intelectuais de hoje é não ter compaixão da humanidade. Azar meu, que tenho, e nada faço.
Homens como o Doutor Albert Schweitzer, capazes de trocar um destino artístico ou literário por um devotamento humanitário, são os santos de nosso tempo. A frieza de um laboratório, no entanto, ainda me parece um mundo mais estranho e árido do que a África Equatorial Francesa. Amar os homens por detrás de um microscópio, sem sentir nunca a reciprocidade do gesto generoso, é fantástico e humilhante para mim, tíbio comodista.
Os fatos são duros. Aperta-se o cerco contra o câncer nos Estados Unidos e em outros países. A conquista do espaço interplanetário não é tão emocionante quanto esta luta contra a morte. Antigamente, as epidemias chegavam de repente e dizimavam povos inteiros. As pestes modernas tomam aspecto moderno. As estatísticas sabem que 450 mil americanos serão vítimas do câncer este ano; destes, 260 mil estão condenados à morte. Sabe-se ainda, por exemplo, que no Norte dos Estados Unidos diminui a mortalidade por leucemia, mas no Sul a incidência mortal vem sendo acrescida. O mal é misterioso e aterroriza. Só não aterroriza o cientista escondido entre paredes assépticas, a isolar vírus, a traçar esquemas táticos, a vislumbrar esperanças, a chocar-se contra desilusões, a repetir, com o poeta, que cada nova tentativa é um fracasso diferente. É preciso usar nesta guerra - fala agora um cientista famoso - de todas as coisas que conquistaram mundos.
Admiro gente assim com a mais pura e selvagem simpatia de meu espírito.
Visitei há alguns anos o Instituto Pavlov, perto de Leningrado. Lá, em uma sala modesta e também fria, fui apresentado a um homem muito magro, desleixado no vestir, cabelos despenteados e de uma timidez de quem não tem o hábito de falar muito. Era um cientista famoso, chamava-se Victor Fiodorov. Pacientemente, ele me explicou a natureza das experiências que vinha realizando há longos anos, no sentido de tentar obter uma informação mais precisa sobre o câncer e a transmissão dos caracteres adquiridos. Contou-me com certa ternura a vida dos ratinhos assustados que eu via dentro de um aparelho cheio de labirintos, detalhou-me suas idas e vindas indutivas e dedutivas, suas pistas falsas, seus equívocos, suas surpresas repentinas, suas observações novas para a ciência, fez-me enfim um relatório completo daquilo tudo que era a sua própria existência. Depois calou-se. Nesse ponto, naturalmente, ocorreu-me perguntar-lhe a que conclusão final chegara. O homem magro sorriu um sorriso decepcionado de criança que não ganhou presente, e respondeu-me: "Ainda não cheguei a qualquer conclusão; não há nada que me diga que eu haja contribuído para a cura do câncer."
Quando cheguei lá fora, num silêncio agravado pela neve e pelo grito estrídulo das gralhas no alto dos abetos, compreendi que não poderia esquecer aquele sorriso nunca mais. Não faço nada pelo bem de ninguém e, decerto, faço mal a algumas pessoas. Mas o sorriso do cientista Fiodorov, ao revelar-me a sua frustração ao longo de tantos anos de trabalho, pelo menos me acusa e não me deixa esquecer de que vim ao mundo causando dores e sem procurar diminuir a dor de ninguém. Um inútil. Resta-me a vaidade vulgar de saber que não presto para nada, pois o bonito entre os intelectuais de hoje é não ter compaixão da humanidade. Azar meu, que tenho, e nada faço.
sexta-feira, novembro 6
Marimbondo Tapa-Goela
Tinha descoberto a goiabeira carregada de goiaba madura no quintal da casa da velha Maricota. Não disse nada aos amigos lá da rua. A turma daquela vez ia me ver com a capanga cheia de goiaba madura, sem saber onde era que eu tinha descoberto aquela mina. O quintal da casa da velha Maricota ficava na Rua da Jaqueira próximo à beira do rio. Era cercado com estacas velhas e arame enferrujado. Tinha no quintal também pé de carambola, abiu, fruta-pão, manga e jaca.
O pé de goiaba tinha nascido junto da parede nos fundos da casa. Nenhum menino queria se arriscar a roubar goiaba madura no quintal daquela velha resinguenta e cachimbeira. Tinha medo de ser flagrado pela velha quando estivesse lá em cima na goiabeira. Talvez nem conseguisse subir na árvore. Pela manhã, a velha Maricota ficava no pátio dos fundos lavando a roupa na bacia. Passava a manhã inteira lavando roupa para pendurar depois no quaradouro.
O pé de goiaba tinha nascido junto da parede nos fundos da casa. Nenhum menino queria se arriscar a roubar goiaba madura no quintal daquela velha resinguenta e cachimbeira. Tinha medo de ser flagrado pela velha quando estivesse lá em cima na goiabeira. Talvez nem conseguisse subir na árvore. Pela manhã, a velha Maricota ficava no pátio dos fundos lavando a roupa na bacia. Passava a manhã inteira lavando roupa para pendurar depois no quaradouro.
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| Jane Newland |
De tarde gostava de ficar no pátio, sentada numa cadeira de vime. Escutava os passarinhos fazer algazarra nas árvores, bicando as frutas maduras. Às vezes cantava umas cantigas tolas, que ninguém entendia. Dizia-se na cidade que ela ficou viúva cedo. O marido era dono de um caminhão velho. Morreu numa curva da estrada, já perto da cidade. O caminhão furou o pneu, descontrolou-se e desceu a ribanceira. Só parou lá no fundo do buraco enorme, que encobria um sobrado. Ninguém conseguiu retirar o caminhão lá de dentro, ficou lá no fundo do buraco como uma coisa velha amassada, a carroceria foi arrancada para fora. O motorista foi jogado para fora da boleia antes de o caminhão chegar ao fim da ribanceira.
Como não tinha filho, comentava-se que a velha Maricota ficava cantando aquelas cantigas tristes na cadeira de vime quando caía a tarde porque tinha saudade do marido. Uma gata arisca fazia companhia à velha, que andava nos passos arrastados. Para onde ela ia, a gata seguia, ora dando pinotes atrás, ora miando a seu lado. Parecia mais um desses cachorros que só não fica perto do dono quando ele não está em casa.
Mas tinha uma manhã que a velha Maricota não ficava em casa. Pensei nisso quando a vi uns três sábados seguidos com a cesta, comprando as coisas na feira, atrás da estação do trem. Aí tive a ideia de roubar as goiabas maduras no quintal da casa dela quando a velha fosse fazer sua feira no próximo sábado.
Quando chegou o sábado, pedi à mãe para me dispensar de ir para a feira com ela daquela vez. Disse que não estava me sentindo bem, tinha amanhecido com dor de cabeça. Ela me deu para tomar um comprimido de Melhoral para a dor de cabeça passar. Tomei o remédio com um copo d’água sem pestanejar, dando a entender à minha mãe que precisava ficar deitado na cama, quieto, para que a dor de cabeça não piorasse. Ela chegou a apalpar meu rosto para saber se eu estava com febre. Como não sentisse nada de mais em minha testa, disse que esperava que a dor de cabeça tivesse ido embora quando voltasse da feira.
Foi só minha mãe dobrar a esquina, ligeiro saí lá de casa, tomando na rua a direção da casa da velha Maricota. Lá chegando, verifiquei se a velha já tinha ido para a feira. Não havia dúvida disso. Todas as portas e janelas da casa estavam trancadas. A gata devia estar lá dentro ferrada no sono. Também não era aquela gata que ia atrapalhar meu plano de roubar muita goiaba madura no quintal da velha. Se ainda fosse um cachorro feroz, como aquele que guardava o quintal com árvores frutíferas da casa do coletor, aí não havia jeito mesmo de roubar goiaba ou outra fruta madura.
O pior da aventura estava para acontecer. Só fui saber disso quando recebi o enxame de picadas no pescoço. Saltei rápido da goiabeira para o chão, sem temer quebrar uma perna ou um braço. Comecei a correr com os olhos turvos, aflito, sem saber que direção devia tomar. Passava as mãos na cabeça e no pescoço várias vezes, sentindo que matava um bocado de bichinhos que continuavam ferroando meu couro cabeludo.
Quando minha mãe voltou da feira, encontrou-me na cama com febre alta. Eu tinha o rosto inchado, os olhos vermelhos, não conseguia dizer uma palavra. Ela chamou a vizinha para ver se descobria o que tinha acontecido comigo. Quando me viu com o rosto inchado, a vizinha ficou tão assustada quanto minha mãe. Não tinha ideia do que havia acontecido comigo. Eu não conseguia dizer uma palavra por mais que me esforçasse.
Sorte foi o pai ter sido encontrado na rua do comércio e avisado sobre o que tinha acontecido com o filho. Ele não demorou em chegar lá em casa, foi direto para o quarto para me ver com o rosto arroxeado, sem poder dizer uma palavra. Pediu que eu mostrasse a língua. Estava inchada. Abrisse bem a garganta, que estava quase fechada. Viu minha capanga com algumas goiabas dentro. Perguntou se eu tinha apanhado as goiabas no quintal de algum vizinho. Balancei a cabeça, dando a entender que sim. Não pensou duas vezes, disse que aquilo tinha sido picada de maribondo tapa-goela. Quando picava, aquele tipo de maribondo deixava a vítima sem fala por alguns dias. Tinha acontecido com ele quando era menino.
Fiquei sem falar uns dois dias. No terceiro dia foi que comecei a dizer as primeiras palavras, que saíam roucas, sem que ninguém entendesse. A voz só foi clarear depois que tomei a quinta injeção sob recomendação do médico, um moderninho e de olhos vesgos.Tinha instalado seu consultório há pouco tempo na rua do comércio. A injeção doía muito quando a agulha penetrava o líquido oleoso em minhas carnes. A cada injeção que me era aplicada, fazia esforço para não urinar nem borrar o pijama.
Quem gostou que aquilo acontecesse comigo foi o Nando Corró. Ele disse que se os maribondos tapa-goela não tivessem me atacado, certamente a vítima seria ele. Tinha descoberto primeiro do que eu a goiabeira carregada de goiaba madura no quintal da casa da velha Maricota. Apenas estava aguardando uma boa oportunidade em que a velha não estivesse em casa para também encher sua capanga com aquelas goiabas madurinhas e docinhas. Só de olhar para elas, do lado de fora da cerca, dava água na boca.
Cyro de Mattos
Como não tinha filho, comentava-se que a velha Maricota ficava cantando aquelas cantigas tristes na cadeira de vime quando caía a tarde porque tinha saudade do marido. Uma gata arisca fazia companhia à velha, que andava nos passos arrastados. Para onde ela ia, a gata seguia, ora dando pinotes atrás, ora miando a seu lado. Parecia mais um desses cachorros que só não fica perto do dono quando ele não está em casa.
Mas tinha uma manhã que a velha Maricota não ficava em casa. Pensei nisso quando a vi uns três sábados seguidos com a cesta, comprando as coisas na feira, atrás da estação do trem. Aí tive a ideia de roubar as goiabas maduras no quintal da casa dela quando a velha fosse fazer sua feira no próximo sábado.
Quando chegou o sábado, pedi à mãe para me dispensar de ir para a feira com ela daquela vez. Disse que não estava me sentindo bem, tinha amanhecido com dor de cabeça. Ela me deu para tomar um comprimido de Melhoral para a dor de cabeça passar. Tomei o remédio com um copo d’água sem pestanejar, dando a entender à minha mãe que precisava ficar deitado na cama, quieto, para que a dor de cabeça não piorasse. Ela chegou a apalpar meu rosto para saber se eu estava com febre. Como não sentisse nada de mais em minha testa, disse que esperava que a dor de cabeça tivesse ido embora quando voltasse da feira.
Foi só minha mãe dobrar a esquina, ligeiro saí lá de casa, tomando na rua a direção da casa da velha Maricota. Lá chegando, verifiquei se a velha já tinha ido para a feira. Não havia dúvida disso. Todas as portas e janelas da casa estavam trancadas. A gata devia estar lá dentro ferrada no sono. Também não era aquela gata que ia atrapalhar meu plano de roubar muita goiaba madura no quintal da velha. Se ainda fosse um cachorro feroz, como aquele que guardava o quintal com árvores frutíferas da casa do coletor, aí não havia jeito mesmo de roubar goiaba ou outra fruta madura.
O pior da aventura estava para acontecer. Só fui saber disso quando recebi o enxame de picadas no pescoço. Saltei rápido da goiabeira para o chão, sem temer quebrar uma perna ou um braço. Comecei a correr com os olhos turvos, aflito, sem saber que direção devia tomar. Passava as mãos na cabeça e no pescoço várias vezes, sentindo que matava um bocado de bichinhos que continuavam ferroando meu couro cabeludo.
Quando minha mãe voltou da feira, encontrou-me na cama com febre alta. Eu tinha o rosto inchado, os olhos vermelhos, não conseguia dizer uma palavra. Ela chamou a vizinha para ver se descobria o que tinha acontecido comigo. Quando me viu com o rosto inchado, a vizinha ficou tão assustada quanto minha mãe. Não tinha ideia do que havia acontecido comigo. Eu não conseguia dizer uma palavra por mais que me esforçasse.
Sorte foi o pai ter sido encontrado na rua do comércio e avisado sobre o que tinha acontecido com o filho. Ele não demorou em chegar lá em casa, foi direto para o quarto para me ver com o rosto arroxeado, sem poder dizer uma palavra. Pediu que eu mostrasse a língua. Estava inchada. Abrisse bem a garganta, que estava quase fechada. Viu minha capanga com algumas goiabas dentro. Perguntou se eu tinha apanhado as goiabas no quintal de algum vizinho. Balancei a cabeça, dando a entender que sim. Não pensou duas vezes, disse que aquilo tinha sido picada de maribondo tapa-goela. Quando picava, aquele tipo de maribondo deixava a vítima sem fala por alguns dias. Tinha acontecido com ele quando era menino.
Fiquei sem falar uns dois dias. No terceiro dia foi que comecei a dizer as primeiras palavras, que saíam roucas, sem que ninguém entendesse. A voz só foi clarear depois que tomei a quinta injeção sob recomendação do médico, um moderninho e de olhos vesgos.Tinha instalado seu consultório há pouco tempo na rua do comércio. A injeção doía muito quando a agulha penetrava o líquido oleoso em minhas carnes. A cada injeção que me era aplicada, fazia esforço para não urinar nem borrar o pijama.
Quem gostou que aquilo acontecesse comigo foi o Nando Corró. Ele disse que se os maribondos tapa-goela não tivessem me atacado, certamente a vítima seria ele. Tinha descoberto primeiro do que eu a goiabeira carregada de goiaba madura no quintal da casa da velha Maricota. Apenas estava aguardando uma boa oportunidade em que a velha não estivesse em casa para também encher sua capanga com aquelas goiabas madurinhas e docinhas. Só de olhar para elas, do lado de fora da cerca, dava água na boca.
Cyro de Mattos
Vozes do Deserto
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| Rudolf Ernst, |
Ela não sabe o que dizer para atraí-lo. Teme que sua pele trigueira, os cabelos encaracolados, ofendam o homem com lembranças amargas. Seguindo as pautas do coração, ajoelha-se no chão, ao seu lado. Em rigoroso silêncio, dispõe de tempo para ouvi-lo.
O dervixe finge ignorar sua presença, mas, seguindo seu instinto apurado, demonstra conhecer a razão de sua visita. Não faz falta que o menino a seu serviço advirta-o sobre a jovem, para quem suas palavras iriam salgar e dar sabor à sua comida. O que poderia querer dele uma mulher sem liteira ou escravos, a caminhar sozinha pelo bazar?
Com gesto incisivo, insiste que ela lhe fale. Não lhe inflija um silêncio que é prerrogativa sua. Jasmine reconhece que vale capitular mediante a confissão de estar ali com o intuito de cobrar-lhe uma tarefa. Alterna mentiras e verdades até admitir, ao final, ter vindo à cata de peripécias. Carecia de ouvir aventuras que transportar para casa dentro do alforge, como pão fresco. Viera com a ilusão de escutar o que ele diria ao próprio Harum al-Rachid, caso este abássida ainda vivesse.
Jasmine elegera-o entre tantos pobres pela sua cegueira. Nota, de perto, a expressão de cupidez que invade o rosto do velho frente às suas promessas. Aquele homem ama o ouro que as histórias lhe podem trazer. A perda da inocência acrescentara-lhe certa perversão e realismo aos dotes de contador. Para aliciar-lhe, pois, o desejo, a escrava deixa tombar alguns dinares no vasilhame de latão.
O dervixe sobressalta-se ao ruído das moedas tilintando, ainda que não tivesse apurado os ouvidos a tempo de saber o valor da contribuição, quantos pratos de comida aquelas moedas lhe cobririam. Ele recolhe uma moeda e a acaricia com um gozo talvez devido à sua condição de cego. Uma cegueira que lhe viera como castigo. Há muito anos, no deserto, a caminho de Samarra, apostara que poderia afastar-se da caravana sem perigo de perder-se, retornando a ela graças ao talento de farejar o caminho de volta. Sem medir as consequências do acto imprevidente, afastou-se dando risadas. Em pouco tempo, perambulando pelas areias exposto longamente ao sol, gritava pedindo socorro. Sem rumo, com crescente dificuldade de enxergar em torno, não atinava como regressar à caravana. Ao ser recuperado muito depois por uma tribo nômada, tinha perdido a visão. Os olhos, queimados, pareciam uma cratera vazia. Quando o deixaram em Bagdad, onde nunca estivera antes, imergiu na mais profunda miséria.
Interrompeu a sequência dos factos para confessar a Jasmine que, ao descobrir-se cego, chorara, lamuriando-se. Além de ser um homem afundado na absoluta escuridão, era pobre, inculto, despojado do saber existente nos centros de estudos das urbes islâmicas.
No início, confrontado com aquela situação, pensara em matar-se. Imprecara, furioso, contra os homens, não poupando Maomé. Em total desespero, suplicou que o santo homem o dotasse de algum talento capaz de atá-lo de novo à vida. Pois, abandonado à própria sorte, um mendicante a mais entre tantos em Bagdad, custava-lhe entender o que havia por trás do castigo.
Aguardou a primeira semana para o Profeta responder-lhe. Certa manhã, ao despertar, faminto e sujo, aflorou-lhe um ânimo inusitado. De repente, surgiu de dentro dele um homem a quem Maomé, perdoando-lhe as ofensas, oferecia inesperados recursos. Como a capacidade de recuperar detalhes preciosos da realidade circundante, de traduzir enigmas antes insolúveis, de desvendar a natureza secreta dos homens e dos objetos, mesmo não os podendo enxergar, de contar histórias afastando da boca resumos tristes que, apenas iniciados, prontamente se esgotam. Enquanto uma voz dizia-lhe que escutasse sobretudo os uivos imperativos da imaginação. Daí lhe resultando a faculdade de falar por horas sem dar prova de cansaço.
Mas com que história agora cativar uma mulher que lhe pagara antes mesmo de estipular o valor do seu trabalho? Embora seu repertório se tivesse ampliado nos últimos anos, conhecia suas limitações. Frequentemente, devido à sua escassa familiaridade com a Medina, evitava situar seus personagens no califado, não se atrevia a descrever a configuração urbana de Bagdad, que só conhecia por meio de descrições. Em suas histórias, os personagens percorriam apenas as quatro vias básicas, que davam acesso à urbe, a parte leste conhecida como Rusafah, navegando, ainda, até o estuário do rio Tigre.
Ao pagar-lhe bom preço, Jasmine aguardava recompensa. Premido, portanto, por uma curiosidade feminina que lhe cobrava, além de uma história, detalhes anteriores à sua cegueira, o ancião declinou-lhe sua outrora condição de oleiro. Um artesão a reclamar das privações e da argila grudada à pele, custando a sair. Desde a adolescência havendo nele uma amargura que se refletia na qualidade de seu trabalho. O que o fazia produzir potes, pratos, travessas quebrando-se a qualquer toque, a ponto de já nem conseguir vendê-los. A despeito, no entanto, de talento tão escasso, ele tinha a veleidade de riscar na superfície do barro, à guisa de expressão artística, traços da arte caligráfica, sempre com resultados finais nada tendo a ver com a arte islâmica da escritura.
Não lhe mencionara, porém, que, igual ao oleiro, seu ofício atual, de contador de histórias, obrigava-o a combinar palavras, a incrustá-las no barro da fantasia e levá-las ao forno. Em busca de figuras que, variando de peixe, cavalo, pedras preciosas a silhuetas femininas, ensejassem a criação de símbolos que, sem função aparente, representavam metáforas ou o aprimoramento de experiências místicas, como era o caso dos sufis.
A miséria do dervixe leva-o a deplorar em público o seu destino. Como se, esquecido das graças recebidas, houvesse perdido a fé no Profeta que operara em seu favor. Enquanto falava, quase não se mexia. Com movimentos limitados, no afã de explorar a emoção de Jasmine, passa seguidas vezes o dorso da mão nos olhos queimados pelo sol, atraindo atenção ao centro da sua dor. Reminiscências, porém, que pareciam molestá-lo.
Atenta às comiserações do dervixe, Jasmine controla a sede. Acompanha como cria um quotidiano ao qual ela deve associar-se se quer, de verdade, ouvir suas histórias. Aguarda, pois, que comece o relato. Mas logo diz-lhe que tem pressa, o marido a aguarda em casa. Homem desconfiado, que lhe cobra seguidas provas de fidelidade.
O dervixe, em cujos ouvidos ainda ecoa o ruído das peças de ouro caindo no vasilhame de latão, respira fundo, na expectativa de outras moedas lhe fartarem o estômago. Começa a contar, a voz soa-lhe aguda, não é o timbre desejado. Abranda o tom, o momento requer sussurro. Seu escopo é chegar ao fim e corresponder ao pagamento que Jasmine efetuara.
Nélida Piñon, "Vozes do Deserto"
quinta-feira, novembro 5
O homem que só pensava em bronze
Havia um homem que só conseguia pensar em bronze. E um dia teve uma ideia. Era a ideia da Felicidade que Mora no Momento , e o homem sentiu-se obrigado a expressar essa ideia. Mas todo o bronze do mundo já tinha sido usado , e embora procurasse em todo o lado , não conseguia encontrar nenhum pedaço. E o homem pensou que iria dar em doido se não desse expressão à ideia.
Então lembrou-se do pedaço de bronze com o qual esculpira a estátua no túmulo da mulher. No túmulo da mulher colocara ele a estátua, pois ela fora a única mulher que ele amara na vida. Era a estátua da Dor Eterna , da Dor que Mora em Todas as Coisas. E o homem pensou que enlouqueceria se não desse expressão à sua ideia.
Assim, postou-se perante a estátua da Dor Eterna , a Dor que Mora em Todas as Coisas. E, pegando na estátua, partiu-a e derreteu- a no fogo. E com o bronze da estátua da Dor Eterna construiu a estátua da Felicidade , da Felicidade que Mora no Momento.
Então lembrou-se do pedaço de bronze com o qual esculpira a estátua no túmulo da mulher. No túmulo da mulher colocara ele a estátua, pois ela fora a única mulher que ele amara na vida. Era a estátua da Dor Eterna , da Dor que Mora em Todas as Coisas. E o homem pensou que enlouqueceria se não desse expressão à sua ideia.
Assim, postou-se perante a estátua da Dor Eterna , a Dor que Mora em Todas as Coisas. E, pegando na estátua, partiu-a e derreteu- a no fogo. E com o bronze da estátua da Dor Eterna construiu a estátua da Felicidade , da Felicidade que Mora no Momento.
Oscar Wilde, "Histórias à volta da mesa"
O recado da poesia
Uma amiga me manda a foto de uma livraria antiga em Lisboa. Sabe o quanto gosto delas, em especial as livrarias de rua (alô, alô, Realejo!), de passear por entre os corredores, sentir os cheiros, folhear livros conhecidos, descobrir novos.
É uma bela livraria, tem aquela personalidade que falta às livrarias de shopping, tão iguais. Mas, convenhamos, só para ficarmos em Lisboa, há livrarias mais interessantes. Eu acho.
Levo um tempo até descobrir o motivo pelo qual a foto me foi mandada. Eis que vejo colado na vitrine um recado escrito à mão numa cartolina: “Três dias a podar rosas com meu amigo Alfredo. Uma delícia. Reabro na terça.”
Pois, então, além de vender poesia, a livraria expõe poesia.
Até terça, ficará fechada. Para os amantes de livrarias, é uma pena. Em compensação, não imagino motivo mais justo: as roseiras têm urgência. Em geral, roseiras são plantadas em jardins, e desejo de coração que, entre uma poda e outra, haja duas cadeiras no jardim para uma pausa e uma boa prosa com o amigo Alfredo. Talvez até haja café e broas.
Nunca podei rosas. É uma falha na minha existência. Já plantei algumas árvores, mas nunca em companhia de um amigo Alfredo ou de qualquer outro. Plantei com Beatriz, elas cresceram e, todo ano, na época devida, dão flor e chamam passarinho. Se uma árvore não dá flor nem chama passarinho, e só colabora com aquele negócio de fornecer oxigênio e tal, ela perde muito enquanto árvore. Eu acho.
No Brasil há muitas árvores e jardins. Nesse quesito estamos bem. Mas não me conformo com nossas cidades de 50 mil, 80 mil habitantes, sem uma única livraria. O(a) leitor(a) dirá que se pode comprar pela internet. Claro que é muito útil, prático, mas não é a mesma coisa que fuçar nas prateleiras, conversar com o livreiro, um vendedor que saiba do seu ofício, recomende autores, dê dicas. Entrar numa livraria, em verdade, é visitar um amigo. Virginia, Paul, Gabriel, Mario, Cecilia, Rubem, Carlos, Manuel, Manoel, até, eventualmente, um Alfredo.
Muito diferente é uma venda de livros. Aquele lugar onde o vendedor não tem ideia do que está fazendo ali, não conhece os autores, pouco leu; se, em vez de livro, fosse jujuba, picles ou parafuso, para ele daria na mesma. Eu acho.
Uma livraria que se preza tem uma personalidade, algo indefinível, intocável, que está no ar. Alma, é essa a palavra. A boa livraria tem uma alma que zela por nosso espírito. Às vezes é visível naqueles pozinhos que dançam no ar quando entra uma luz de sol pela janela.
“Três dias a podar rosas com meu amigo Alfredo. Uma delícia. Reabro na terça.” Peço a algum amigo em Lisboa que vá terça-feira à livraria, quando reabrir; entre, ande um pouco pelos corredores (nem precisa comprar nada) e dê um abraço na boa criatura que escreveu o cartaz.
Há mais poesia no recado do que em muito livro. Eu acho.
Cássio Zanatta
É uma bela livraria, tem aquela personalidade que falta às livrarias de shopping, tão iguais. Mas, convenhamos, só para ficarmos em Lisboa, há livrarias mais interessantes. Eu acho.
Levo um tempo até descobrir o motivo pelo qual a foto me foi mandada. Eis que vejo colado na vitrine um recado escrito à mão numa cartolina: “Três dias a podar rosas com meu amigo Alfredo. Uma delícia. Reabro na terça.”
Pois, então, além de vender poesia, a livraria expõe poesia.
Até terça, ficará fechada. Para os amantes de livrarias, é uma pena. Em compensação, não imagino motivo mais justo: as roseiras têm urgência. Em geral, roseiras são plantadas em jardins, e desejo de coração que, entre uma poda e outra, haja duas cadeiras no jardim para uma pausa e uma boa prosa com o amigo Alfredo. Talvez até haja café e broas.
Nunca podei rosas. É uma falha na minha existência. Já plantei algumas árvores, mas nunca em companhia de um amigo Alfredo ou de qualquer outro. Plantei com Beatriz, elas cresceram e, todo ano, na época devida, dão flor e chamam passarinho. Se uma árvore não dá flor nem chama passarinho, e só colabora com aquele negócio de fornecer oxigênio e tal, ela perde muito enquanto árvore. Eu acho.
No Brasil há muitas árvores e jardins. Nesse quesito estamos bem. Mas não me conformo com nossas cidades de 50 mil, 80 mil habitantes, sem uma única livraria. O(a) leitor(a) dirá que se pode comprar pela internet. Claro que é muito útil, prático, mas não é a mesma coisa que fuçar nas prateleiras, conversar com o livreiro, um vendedor que saiba do seu ofício, recomende autores, dê dicas. Entrar numa livraria, em verdade, é visitar um amigo. Virginia, Paul, Gabriel, Mario, Cecilia, Rubem, Carlos, Manuel, Manoel, até, eventualmente, um Alfredo.
Muito diferente é uma venda de livros. Aquele lugar onde o vendedor não tem ideia do que está fazendo ali, não conhece os autores, pouco leu; se, em vez de livro, fosse jujuba, picles ou parafuso, para ele daria na mesma. Eu acho.
Uma livraria que se preza tem uma personalidade, algo indefinível, intocável, que está no ar. Alma, é essa a palavra. A boa livraria tem uma alma que zela por nosso espírito. Às vezes é visível naqueles pozinhos que dançam no ar quando entra uma luz de sol pela janela.
“Três dias a podar rosas com meu amigo Alfredo. Uma delícia. Reabro na terça.” Peço a algum amigo em Lisboa que vá terça-feira à livraria, quando reabrir; entre, ande um pouco pelos corredores (nem precisa comprar nada) e dê um abraço na boa criatura que escreveu o cartaz.
Há mais poesia no recado do que em muito livro. Eu acho.
Cássio Zanatta
quarta-feira, novembro 4
Na biblioteca
Basileu circunvagou os olhos, deslumbrados, pelas estantes que se enfileiravam no amplo salão da biblioteca. tudo muito baixo, ao alcance da mão dispensando escadas ou escabelos.
- Que fartura! explicou ele - A gente não sabe por onde começar , nem se vale a pena começar.
Livros e mais livros, todos encadernados em pelica ou marroquim, Os filósofos, os teólogos e os moralistas austeramente vestidos de nego; os juristas enroupados de vermelho; romancistas e poetas, em azul e em rosa; em verde claro as viagens e em verde escuro os historiadores e os memoralistas. Todos esperavam o almejado leitor que lhes comunicasse às páginas tipografadas uma breve palitação de vida. Esperavam em vão, pela maior parte. Quem sabe quanto tempo decorrerá, antes que alguém lhes faça um sinal de amizade e se disponha a retirá-los do esquecimento? Um dia, um mês, um ano? cinco, dez, vinte anos? Talvez mais. Talvez jamais. Só uma coisa é certa, e é que, como tudo neste mundo se destina a ser comido mais cedo ou mais tarde, os insetos bibliófagos não tardarão em repastar-se largamente naquela montoeira de papel impresso.
Eduardo Frieiro, "Basileu"
- Que fartura! explicou ele - A gente não sabe por onde começar , nem se vale a pena começar.
Livros e mais livros, todos encadernados em pelica ou marroquim, Os filósofos, os teólogos e os moralistas austeramente vestidos de nego; os juristas enroupados de vermelho; romancistas e poetas, em azul e em rosa; em verde claro as viagens e em verde escuro os historiadores e os memoralistas. Todos esperavam o almejado leitor que lhes comunicasse às páginas tipografadas uma breve palitação de vida. Esperavam em vão, pela maior parte. Quem sabe quanto tempo decorrerá, antes que alguém lhes faça um sinal de amizade e se disponha a retirá-los do esquecimento? Um dia, um mês, um ano? cinco, dez, vinte anos? Talvez mais. Talvez jamais. Só uma coisa é certa, e é que, como tudo neste mundo se destina a ser comido mais cedo ou mais tarde, os insetos bibliófagos não tardarão em repastar-se largamente naquela montoeira de papel impresso.
Eduardo Frieiro, "Basileu"
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