sexta-feira, novembro 22

Sinalização

 


Manhã

Não tive uma vez uma juventude amável, heroica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro – muita sorte! Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!


Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.

Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros! – O Natal na terra!

O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Arthur Rimbaud, "Uma temporada no inferno"

Boa digestão

- Você ainda chegará à idade de reler. É só passar essa fome juvenil de novidades, típica dos jovens - todos uns sôfregos glutões. Reler é digerir.

Assim me dizia um velho mestre, que considerava um atrasadão. Hoje o atrasadão sou eu: ando mais relendo do que lendo. E a digestão tem sido bem feita.

Mário da Silva Brito, "Cartola de mágico"

Barracos de minha favela

Vó Rita dormia embolada com ela.

Vó Rita era boa, gostava muito dela e de todos nós.

Talvez, ela só pudesse contar com o amor de Vó Rita, pois de nossa parte, ela só contava com o nosso medo, com o nosso pavor.

Eu me lembro de que ela vivia entre o esconder e o aparecer atrás do portão. Era um portão velho de madeira, entre o barraco e o barranco, com algumas tábuas já soltas, e que abria para um beco escuro. Era um ambiente sempre escuro, até nos dias de maior sol. Para mim, para muitos de nós, crianças e adultos, ela era um mistério, menos para Vó Rita. Vó Rita era a única que a conhecia toda. Vó Rita dormia embolada com ela. Nunca consegui ver plenamente o rosto dela. Ás vezes, adivinhava a metade de sua face. Ficava na espreita, colocava a lata na fila da água ou punha a borracha na tina e permanecia quieta, como quem não quisesse nada. Ela aparecia para olhar o mundo. Ver as pessoas, escutar as vozes. E eu, de olhos abertos, pulava em cima (só os meus olhos).

Eu não atinava com o porquê da necessidade, do querer dela em ver o mundo ali à sua volta. Tudo era tão sem graça. Grandes mundos!... Uma bitaquinha que vendia pão, cigarro, cachaça e pedaços de rapadura. A bitaquinha era do filho dela. Ninguém gostava de comprar nada ali, o movimento era raro. Vendia também sabão, água sanitária e anil. E, fora a cachaça, estes eram os produtos que mais saíam.

Em frente da casa em que ela morava com Vó Rita, ficava uma torneira pública. A “torneira de cima”, pois no outro extremo a favela havia a “torneira de baixo”. Tinha, ainda, o “torneirão” e outras torneiras em pontos diversos. A “torneira de cima”, em relação à “torneira de baixo”, era melhor. Fornecia mais água e podíamos buscar ou lavar roupa quase o dia todo. Era possível se fazer ali o serviço mais rápido.

Quando eu estava para brincadeira, preferia a “torneira de baixo”. Era mais perto de casa. Lá estavam sempre a criançada amiga, os pés de amora, o botequim da Cema, em que eu ganhava sempre restos de doces. Quando eu estava para o sofrer, para o mistério, buscava a “torneira de cima”.

A torneira, a água, as lavadeiras, os barracões de zinco, papelões, madeiras e lixo. Roupas das patroas que quaravam ao sol. Molambos nossos lavados com sabão restante. Eu tinha nojo de lavar o sangue alheio. Nem entendia e nem sabia que sangue era aquele. Pensei, por longo tempo, que as patroas, as mulheres ricas, mijassem sangue de vez em quando.

Naquela época, eu menina, minha curiosidade ardia diante de tudo. A curiosidade de ver todo o corpo dela, de olhá-la todinha. Eu queria poder vasculhar com os olhos a sua imagem, mas ela percebia e fugia sempre. Será que ela, algum dia, conseguiu ver o mundo circundante, ali bem escondidinha por trás do portão? Talvez Como a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado!

Hoje, a recordação daquele mundo me traz lágrimas aos olhos.Como éramos pobres! Miseráveis talvez! Como a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado!

Havia as doces figuras tenebrosas. E havia o doce amor de Vó Rita. Quando eu soube, outro dia, já grande, já depois de tanto tempo, que Vó Rita dormia embolada com ela, foi que me voltou este desejo dolorido de escrever.

Escrevo como uma homenagem póstuma à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstuma ás lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela. Homenagem póstuma ao Bondade, ao Tião Puxa-Faca, à velha Isolina, a D. Anália, ao Tio Totó, ao Catarino, à Velha Lia, à Terezinha da Oscarlinda, à Mariinha, à Donana do Padim.

Homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos de minha favela.

Conceição Evaristo, "Becos da memória"

Lembrança

O livro era velho, já com décadas de existência.

Folhas amareladas e manchadas. A impressão apagada em algumas partes do texto. Rasgos, aqui e ali. Cheirava a mofo e poeira. Não era grande, nem extenso, sequer importante. Um qualquer entre tantos outros da Biblioteca Pública, no meio de estantes com diferentes títulos.

Um dia, fizeram confusão e lhe colocaram em outra seção — Arquitetura e Urbanismo. Por muito tempo, ninguém percebeu ou deu falta — é mais comum do que se imagina tal acontecimento. Imaginou estar destinado a cair no esquecimento para sempre, porém enganou-se: uma criança apareceu, procurando-o. Não uma, nem duas ou três vezes. Foram várias; incontáveis. No registro do sistema da biblioteca constava o exemplar como disponível, logo poderia consultá-lo e emprestá-lo. O problema é que nenhum dos funcionários conhecia o paradeiro do tal livro e, a cada visita da menina, a frustração aumentava, de pouquinho em pouquinho. O ápice foi quando decidiu procurar, sozinha, em cada uma das estantes, até o achar. O acervo, grande demais, não intimidou a pequena garota. Quando há determinação, nem mesmo os pesares da realidade são capazes de abalar uma convicção sólida.


E ela chegou perto, muito perto, de finalmente encontrá-lo, desfazendo a confusão acidental, mas justo quando mais deveria estar atenta, dormiu tarde na noite anterior e não reconheceu a lombada vermelha ao passar os olhos na sessão em que o livro foi erroneamente deixado.

Após isso, em um par de dias, não retornou a aparecer nas terças-feiras. Sumiu. Os bibliotecários, vez ou outra, se recordavam da menina, indagando-se das razões de ter abandonado a busca incansável do exemplar perdido. A resposta para tais perguntas nunca foi respondida.

Anos e anos correram, o livro perdeu completamente qualquer esperança. Só para, numa reviravolta do destino, de repente ser retirado da prateleira por um estudante de Arquitetura. Ao chegar no balcão e notar o erro, entregou-lhe para o bibliotecário devolvê-lo ao devido lugar. O homem mais de idade, digitando o nome do exemplar no sistema, surpreendeu-se. O livro misterioso finalmente na estante correta, junto de seus primos de igual gênero. A fofoca se alastrou e pensaram imediatamente na (já não mais) criança que outrora o procurava com tanto afinco. Utilizando o cadastro da biblioteca, entraram em contato. O retorno custou a vir, embora positivo. Assim, o velho e maltratado livro ficou no aguardo do ansioso encontro, pois iria descobrir o motivo de ser tão requisitado por aquela humana.

Não mais uma criança, a mulher adulta que o segurou com tanto cuidado, tal qual fosse a maior preciosidade no mundo, abraçou-o com lágrimas emocionadas de quem conquista um sonho. Ele, também, chorou — do seu próprio jeito. Enrolado em um tecido macio, quase aconchego, foi carregado gentilmente nos braços da humana. Não para uma casa bonita, com diversas plantas e cheiro bom saindo da cozinha, como imaginou. O lugar era inusitado, caminho de pedras, diversas lápides, enfileiradas. Cemitério. A moça ajoelhou-se diante de um túmulo com flores brancas frescas. Um nome escrito, embaixo duas datas. A voz dela, ao quebrar o pesaroso silêncio, era envolto da dor do luto e um alívio profundo.

“Oi, mãe. Eu consegui. Encontrei o livro que a senhora gostava de ler quando era criança e eu nem sonhava em nascer. A história que você sempre quis me contar na hora de dormir, e jamais pôde. Achei justo vir aqui e.... fazer por você o que não fez, por mim.”

Abriu com amor o livro antigo, de páginas envelhecidas pelo tempo. Respirou fundo e começou a leitura, esperando que suas palavras, de algum jeito, pudessem alcançar a mãe querida.

“Há muito tempo, quando ainda não existia nem dor, nem sofrimento, Aurora desceu dos céus e veio ao mundo. E, no dia em que nasceu, as estrelas dançaram em reverência, enquanto o sol demorou-se a surgir, tornando o amanhecer belo e repleto de cores, como se anuncia que uma pessoa cheia de amor, agora andava entre nós, humanos...”

Fernanda Ribeiro

quarta-feira, novembro 20

Acesse o labirinto


 

Rua

Toda rua tem seu curso
Tem seu leito de água clara
Por onde passa a memória
Lembrando histórias de um tempo
Que não acaba.
Torquato Neto

Cidade

Sou um efémero e não demasiado descontente cidadão de uma metrópole tida por moderna porque elude qualquer gosto conhecido tanto nos recheios e no exterior das casas como no plano da cidade. Aqui não detectaríeis os traços de algum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas à sua expressão mais simples, finalmente! Estes milhões de pessoas que não têm necessidade de se conhecer conduzem tão igualmente a educação, o ofício e a velhice, que o curso da sua vida deve ser várias vezes menos longo do que o descoberto por uma estatística louca para os povos do continente. Da mesma maneira que, da minha janela, vejo espectros novos rolando através do espesso e eterno fumo de carvão — nossa sombra dos bosques, nossa noite de Verão! —, novas Erínias, diante do meu cottage que é a minha pátria e todo o meu coração uma vez que tudo aqui a tal se assemelha —, a Morte sem lágrimas, nossa ativa filha e criada, um Amor desesperado, e um lindo Crime que pia na lama da rua.

Jean-Arthur Rimbaud, "Obra Completa"

Por que só dez?

Pedem-me que indique os dez melhores romances que até hoje li. A resposta é evidente que é impossível. Porquê dez? Porque não doze, ou vinte ou cinquenta? Há, neste número, dez, um não sei quê de arbitrário. Seja como for , entremos no jogo. Suponhamos , por exemplo, que se trata de limites de espaço, de limites de bagagem...


Segundo André Gide, foi Jules Lemaître que lançou a moda destes jogos: "Tendo que passar o resto dos seus dias numa ilha deserta, quais os vinte livros que desejaria levar consigo?" Jules Lemaître era menos rigoroso: vinte em vez de dez, e livros, em geral, sem indicação de que devessem ser romances. Romances, limita. Por outro lado, esta escolha reflecte sempre as inclinações pessoais de cada um. Como dizia Somerset Maugham, a quem também perguntaram pelos seus dez, uma pessoa apaixonada por música tenderá a incluir livros que tenham que ver com esse mundo (o Doutor Fausto, de Thomas Mann, por exemplo). Um espanhol ou um francês, segundo Maugham, nunca se lembrariam de incluir o Pride and Prejudice, de Jane Austen que, para um inglês, é provável que se torne obrigatório. Por outro lado, a Princesse de Clèves, de Madame de Lafayette, inevitável para um francês , poderá ser esquecida pelo inglês, pelo espanhol ou pelo alemão. E por ai fora. Quis apenas dar uma ideia, ainda que superficial, das armadilhas que espreitam este tipo de escolhas.

Por outro lado, quando se ama profundamente um autor, a tentação é grande de escolher os livros todos desse autor e esquecer os outros. Porque não? Porquê escolher o Le Rouge et le Noir de Stendhal e deixar de fora La Chartreuse de Parme e o Lucien Leuwen?

Por que aceitar a convenção (arbitrária e, se calhar, injusta) de que se não deve seleccionar mais do que um livro de cada autor? Por que os Karamazov e não Os possessos , o Crime e Castigo ou O Idiota? Quase percebo a tentação em que se deixou cair um crítico inglês, quando lhe perguntaram quais os seis maiores romances deste século. respondeu, sem hesitar: "Quaisquer seis , desde que sejam todos de Conrad." A mim, quando um dia me perguntaram pelos meus três compositores preferidos, também não hesitei: " Mozart, Mozart e Mozart". Há que ter a coragem das nossas convicções.

Brasil perdeu mais de 7 milhões de leitores

Mais da metade da população brasileira não lê livros. É o que aponta a 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil, divulgada nesta terça-feira (19), que avalia o comportamento do leitor desde 2007, com resultados a cada cinco anos. Pela primeira vez desde o início da série histórica, a proporção de não-leitores foi maior do que a de leitores, com reduções todas as classes, faixas etárias e níveis de escolaridades. Foram mais de 7 milhões de leitores perdidos nos últimos cinco anos (e um total de 11,3 milhões desde 2015).

Segundo o levantamento, 53% das pessoas não leram nem parte de um livro, em qualquer mídia (física e digital), e de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa. O número cai para 27% se for considerado apenas a leitura de livros inteiros.

A média de livros lidos também diminuiu, de 2,6 para 2,4. O número cai para 0,82% por entrevistado se for considerada apenas a leitura de livros inteiros.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), com uma amostra de 5,5 mil entrevistados em 208 municípios.


Coordenadora da pesquisa, a socióloga Zoara Failla aponta diversos fatores para a queda geral dos índices de leitura. Um deles seria a pandemia, com a quarentena impactando a alfabetização e o letramento dos mais jovens e na distribuição de livros.

Como consequência, as salas de aula deixaram de ser um lugar de leitura. Quando perguntados sobre os lugares onde costumam ler livros, a grande maioria cita a própria casa (85%). O espaço escolar foi citado por apenas 19%, o menor índice já registrado (e uma queda de 4% em relação a 2019).

Outro fator para a queda seria o aumento do tempo de tela entre a população: 87% do público leitor e e 70% dos não-leitores mencionaram usar a internet no seu tempo livre.

- O número de pessoas que usam o tempo livre para ficar na internet vem aumentando desde 2015 - explica Failla. - As telas estão roubando o tempo do livro. Na pós-pandemia, quem passou a ler mais já era leitor. Já a população que não lia ficou mais afastada do livro e do letramento. Há mais dificuldade de manter uma leitura em alto nível com capacidade crítica.

Segundo a pesquisa, a principal motivação para a leitura continua sendo o gosto pessoal, citado por 24% dos entrevistados. No entanto, o percentual daqueles que afirmam não gostar de ler subiu para 29%, superando os que dizem gostar muito (26%).

O desinteresse pela leitura cresce com a idade. Entre crianças de 5 a 10 anos, 38% dizem ler por prazer, índice que cai drasticamente para 17% entre adultos acima de 40 anos. Para Failla, os dados revelam que o Brasil está perdendo leitores potenciais, já que a queda de interesse e a ampliação no percentual de quem diz não gostar de ler é verificada a partir dos 14 anos.

Em sintonia com esses dados, a pesquisa também mostra que há uma proporção maior de pessoas que já ganharam livros da família (51%) do que entre não leitores (24%). Só que o hábito de presentear livros caiu de 63% em 2019 para 61% em 2024.

- As famílias estão dando menos livros de presente para os filhos e estimulando o entretenimento por telas - observa Failla.

A pesquisa buscou compreender também o papel da internet, das redes sociais e dos influenciadores digitais no hábito da leitura. No geral, apenas 2% dos leitores mencionaram que a indicação de um influenciador digital motivou a escolha de um livro para ler.

segunda-feira, novembro 18

Os pipeiros

 


Biblioteca à noite

Quem possui muitos livros e tem o hábito de, à noite, visitá-los, percorrendo as estantes para encontrar determinado título, aprende que os livros são danados para “andar”. É que quem gosta de livro e vai durante a noite atrás de um específico na estante, ao se deparar com outro que atrai sua atenção, coloca este fora da prateleira para no dia seguinte buscá-lo. E começa a fazer isso com tantos que esquece o lugar onde cada um estava. Assim ao encontrar determinado livro fora do seu lugar fica com a impressão de que ele caminhou.

José Sarney

Conto de Natal

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria…

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí…

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui…

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí…

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não…

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher…

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus…

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito…

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava…

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê…

— Uai! Péra aí…

O menino Jesus Cristo estava morto.

Rubem Braga, “Nós e o Natal”

Drummond registrou paixão pelo cinema ao longo de 60 anos

Quem se aventurar a escrever a história da crítica de cinema praticada por poetas dificilmente encontrará um ancestral do norte-americano Vachel Lindsay (1879-1931).

Um dos fundadores da poesia cantada moderna, o jazz poet de Illinois também foi o primeiro poeta a escrever sobre filmes e estética cinematográfica de que se tem registro, inclusive sob a forma de livro: seu pioneiro "The Art of the Moving Picture" foi posto à venda em 1915, quando Hollywood era pouco mais que um matagal seco e dispunha de apenas um estúdio de filmagem em funcionamento.

Já pelas bandas de cá, só na década seguinte o modernismo abriria espaço, na revista Klaxon, para que dois poetas da terra, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida, dessem vazão em público e letra de fôrma à sua paixão pelo cinema.

Mário de Andrade escreveu sobre filmes, cineastas e tópicos cognatos entre maio de 1922 e janeiro de 1923, por vezes oculto por um pseudônimo. Guilherme de Almeida foi mais longe, assinando críticas de filmes periodicamente no jornal O Estado de S. Paulo, entre 1926 e 1942, e editando um livro, "Gente de Cinema", em 1929.

Tempos depois, Vinicius de Moraes, o concretista José Lino Grünewald e Van Jafa, este mais comprometido com a crítica teatral diária, ampliaram a linhagem em variados veículos da imprensa carioca; noves fora Caetano Veloso, que, antes de virar compositor, foi crítico de cinema na Bahia.

Antes deles, porém, outro poeta, justo o maior de todos, Carlos Drummond de Andrade, já se dedicava, intensamente, a refletir e escrever sobre cinema e os sortilégios de seus ídolos. O poeta de Itabira foi um ativo cronista cinematográfico em publicações de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, ao longo de praticamente seis décadas.


Tinha apenas 17 anos ao lograr uma oportunidade no modesto diário Jornal de Minas. Emplacou, em 15 de abril de 1920, um comentário sobre "a moral e o cinema", motivado pela histérica perseguição que a Liga Pela Moralidade mineira moveu contra o filme norte-americano "Diana, a Caçadora", após sua estreia no cinema Pathé, de Belo Horizonte.

Também colaborou no Diário de Minas, quando os filmes ainda eram mudos e Carlitos era chamado de Carlito, fixando-se em seguida no Minas Gerais, órgão oficial do governo do Estado, no qual publicou mais de uma centena de crônicas entre 1929 e 1934, oculto a princípio sob os pseudônimos de Antônio Crispim, Barba Azul e Mickey (como o camundongo recém-inventado por Walt Disney).

Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1934, novos horizontes se lhe abriram na imprensa carioca e paulista. O prestigioso matutino carioca Correio da Manhã abrigou seus escritos entre 1954 e 1969. Em seu derradeiro mirante, no Jornal do Brasil (1969-1984), Drummond completaria 30 anos de atividade ininterrupta, à base de três crônicas por semana, quase sempre em prosa, com ocasionais observações e devaneios em versos.

Até haicais ele cometeu ao refletir sobre a "sétima arte" ou a "décima musa", expressões que, aliás, sempre evitou usar, assim como nunca se identificou como "cinéfilo", francesismo, a seu ver, pernóstico e com similar nacional.

Éramos todos "cinemeiros" simplesmente, prosaicos fãs de cinema, "esse complemento audiovisual que consola, estimula, distrai, chateia, irrita e fascina", nas palavras do poeta, fiel devoto da mais poderosa (e politeísta) religião laica do século passado.

A ida ao cinema era a sua missa dominical. Buscava viver outra vida "sem perder as garantias da nossa". Juntar as duas e corrigir uma com os recursos infinitos da outra era sua mais infalível receita existencial.

Idolatrava mais as estrelas do silencioso do que suas sucessoras na mitologia cinematográfica, por ele injustamente reduzidas à categoria de "mitinhos" para espectadores adolescentes.

Às suas favoritas, fez declarações de amor explícitas, ora e vez incitando-as a recusar papéis não condizentes com seu tipo físico ou sua aura, como fez numa crônica de 1971, para o Jornal do Brasil, tão logo soube que o italiano Luchino Visconti tentava convencer Greta Garbo a voltar às telas, por ela abandonadas 30 anos antes, no papel da proustiana rainha de Nápoles numa adaptação cinematográfica de "Em Busca do Tempo Perdido". "Nem sequer recuse, responda com seu majestoso silêncio", recomendou o cronista.

Com frequência imaginava suas musas presentes na vida real, a encher de magia e glamour a insipidez provinciana das Alterosas e até mesmo a cosmopolita paisagem carioca. Sublimou Clara Bow embriagando-se com champanhe num baile do Automóvel Clube do Rio, Eleanor Powell dançando "num lugar feito de nuvens cinzentas", e Romy Schneider dando sopa na mesma avenida Atlântica de Copacabana em que vislumbrou um desfile com os artistas da tela mortos naquele ano, devidamente anunciados por um alto-falante.

Talvez só num livro coubesse tudo o que em verso e prosa escreveu a respeito de Greta Garbo, a suprema deusa do seu devocionário. Definiu-a, em ocasiões diversas, como "mulher-fábula", "mulher enigma", "esfinge", "mito lunar", "ninfa-nenúfar". Admirava a renitência com que cultivava sua persona etérea e reclusa ("trancada em si mesma para preservar a intangibilidade do mito"), gostava até de seus "filmes deliquescentes", e chegou a incentivar os colegas de ofício a escrever sobre ela quando estivessem sem assunto.

Para protegê-la de qualquer ameaça, criou a Sociedade dos Templários de Greta Garbo, cuja presidência entregou a Manuel Bandeira, cabendo a Stéphane Mallarmé a "presidência metafísica" da entidade, a despeito de o poeta francês ter morrido sete anos antes de Greta Lovisa Gustafsson nascer.

Sua garbolatria desinibiu-se de vez em 1955, com a invenção de uma misteriosa viagem da atriz sueca à capital mineira, ocorrida 26 anos antes. Mais que misteriosa, delirante.

Segundo Drummond, em outubro de 1929, Garbo veio "dar com sua angulosa e perturbadora figura" em Belo Horizonte. O poeta Abgar Renault soubera da chegada da atriz, disfarçada de naturalista nórdica, por intermédio de um professor de sueco radicado nos Estados Unidos, e não resistiu à tentação de informar Drummond imediatamente.

O cinemeiro de Itabira não apenas ciceroneou a estrela pela cidade e arredores como se esmerou em mantê-la numa redoma, isolada até do círculo mais íntimo de amigos, e ainda a presenteou com um papagaio furtado do Parque da Cidade, que teria aprendido a falar "Hello, Greta!" e imitar a risada da atriz.

"Vimos descer do carro-dormitório, dentro de um capotão cinza que lhe cobria o queixo, e por trás dos primeiros óculos pretos que uma filha de Eva usou naquelas paragens, um vulto feminino estranho e seco, pisando duro em sapatões de salto baixo" —assim Drummond descreveu a chegada de Garbo à Estação Central de Belo Horizonte.

Por trás de seu par de "óculos pretos", ela olhou para ele como a um carregador, e disse: "I want to be alone." Revelou-se, contudo, cordialíssima, acrescentou o cronista.

Drummond admitiu que toda aquela história não passava de uma tremenda lorota na crônica "Sonho Modesto", mas o fez levando a brincadeira adiante. Segundo ele, a confissão tornou-se obrigatória apenas depois que o jornalista Pompeu de Sousa tentou persuadi-lo a relembrar o episódio numa entrevista ao Diário Carioca, suplementada por fotos, fac-símiles de bilhetes da atriz e outros souvenirs igualmente inexistentes.

Em defesa de sua musa suprema, Drummond terçou armas com Vinicius de Moraes, fã de Marlene Dietrich, por causa de um artigo de Vinicius no Diário Carioca, que, na opinião de Drummond, menoscabava o mito de Garbo, ousando comparar "uma mulher (a sra. Marlene Dietrich) com uma pura e transcendente abstração (Greta Garbo)".

Considerava a atriz de "O Anjo Azul" (1930) um mito puramente exterior, um fenômeno de fotogenia forjado em jogos de luz por um Pigmaleão vienense, chamado Josef von Sternberg.

Além de templário de Garbo, Drummond autodeclarou-se segundo tesoureiro perpétuo da Sociedade dos Amigos de Joan Crawford, xodó de outro poeta mineiro, Emílio Moura, que cuidava do livro de atas da agremiação.

É bem provável que Crawford, reconhecida por Drummond como "a única figura ou instituição que passou pela Segunda Guerra Mundial sem perda substancial de prestígio", tenha sido a segunda divindade do seu Olimpo.

Deixou-se enfeitiçar por sua "inteligência sensual", sobretudo por seus olhos grandes, meio esbugalhados, pelas sobrancelhas espessas, pela boca longa e úmida, pelo rosto quadrado, que, admitia, não era bonito. "Mas tudo que amamos verdadeiramente", ressalvou, "não é bonito, é intenso, e dói".

Comparou-a a uma "orquídea, cravo, trescalante", e, esgotado o jardim, a um verso de Baudelaire, a outro de William Blake e, turbinando a hipérbole, a uma equação einsteiniana.

Com Crawford, sublimou uma conversa, a bordo de um navio, mas não a viu pessoalmente em nenhuma das vezes em que a atriz e empresária (herdeira da Pepsi-Cola) visitou o Brasil. Dela se despediu com um poema in memoriam, em maio de 1977, preito que não pôde prestar à sua amada Garbo, que viveu mais três anos do que ele.

De todo modo, foi com ela na cabeça que Drummond escreveu seu penúltimo poema, em 1987. Àquela altura, nem precisava mais confessar que havia "imaginado, maquinado, vestido e amado" Garbo, mas o fez, para que não pairasse qualquer dúvida a respeito.

Das estrelas que lhe apertaram a mão no plano da fantasia, Catherine Deneuve parece ter sido outra das que mais vivamente o impressionavam. Supostamente apresentados em Paris, teriam mantido uma breve correspondência, tão platônica quanto fictícia, envolvendo pedras semipreciosas colecionadas pela atriz e abundantes na fazenda de soja que Cyro dos Anjos tinha em Montes Claros, no norte de Minas.

Saudosista, nostálgico, eclético em suas preferências, Drummond era visceralmente contrário à dublagem de filmes estrangeiros, prática que, segundo ele, "serve antes de incentivo à cristalização do analfabetismo, pela preguiça mental".

Ao contrário de Vinicius de Moraes, não se meteu na polêmica defesa do cinema mudo frente ao sonoro. Ligou-se mais no confronto entre os filmes em preto e branco e em cores. Nos primeiros, a seu ver, "as coisas feias doem menos, e as bonitas continuam bonitas, com possibilidade de se vestirem com roupagens ainda mais belas, criadas pela nossa fantasia".

Achava o cinema em Technicolor "de um cafajestismo que ofende nosso pudor visual" e não recebeu o CinemaScope e outras telas esticadas com chá e simpatia.

Adentrou a década de 1960 remando contra a maré, a torcer o nariz para os figurões da modernidade cinematográfica. Chegou a pedir uma "vacina cultural contra os gênios cinematográficos, tipo Godard, Pasolini, Antonioni", que, segundo ele, "costumam tirar à gente o gosto de ir ao cinema, devido à genialidade excessiva de suas criações". Nem sequer de Bergman livrou a cara.

Sempre cordial com o cinema brasileiro e atento aos seus eternos problemas de produção e distribuição, qualificou um plano salvacionista elaborado pelo cineasta Alberto Cavalcanti na década de 1950 de "bem-intencionado, mas inábil", pela possibilidade de manter nossa indústria de filmes controlada além da conta pelo governo.

Era uma voz permanentemente solidária contra a censura e um entusiasta do que de melhor o cinema brasileiro produziu nas últimas quatro décadas do século passado.

Defendeu e celebrou Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Ruy Guerra e, com especial desvelo, Joaquim Pedro de Andrade, autor de "O Padre e a Moça", filme de 1966, inspirado num fragmento de seu poema "O Padre, a Moça", que a censura tudo fez para proibir em todo o território nacional, por considerá-lo "imoral e anticlerical". Também daquela vez os dois Andrades venceram a parada.

Sérgio Augusto, prefácio para "O Cinema de Perto", que reúne prosa e verso de Carlos Drummond de Andrade sobre o tema, entre 1920 a 1980

Contemplação da angústia

Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum ato humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.
Agustina Bessa-Luís, "Contemplação carinhosa da angústia"

Algumas coisas invisíveis

Ontem, perdi a carteira com todos os meus cartões e documentos.

Quero pedir-vos desculpas antecipadas por ter de voltar a escrever sobre a morte. Não é por mal. Não é porque queira perturbar-vos. Às vezes, perguntam-me se não tenho outro tema e chego a pensar que não. Perguntam-me se não me canso. Eu canso-me. Antes do verão, uma senhora disse-me: um escritor vê beleza nos lugares mais difíceis. Eu sorri, cobri a sua frase com silêncio e pensei: não é verdade.

Nesta semana que passou, na terça-feira, sentei-me no sofá da casa da minha irmã e estive a ver filmagens antigas. Metade das conversas eram: estás a filmar?, não me filmes, ela está a filmar?, não está a filmar, pois não? Depois, havia minutos longos em que esqueciam a máquina ligada e filmavam o chão: as pedras da rua, os passos mais lentos ou mais rápidos, a respiração. Está a filmar? Isto está a filmar? Havia partes em que estávamos todos juntos, todos mais novos. Entre nós, a falar connosco, a rir connosco, estavam os nossos mortos. A minha sobrinha, que agora se deprime e usa soutiens, era um bebé ao colo de um dos nossos mortos. Eu era um adolescente despenteado e desagradável, com um pulôver de lã. A minha mãe raramente se sentava. Como nós, os nossos mortos perguntavam: ela não está a filmar, pois não? E ouvia-se a voz da minha irmã, atrás da máquina, a dizer: olhe para aqui, diga lá qualquer coisa.


Cada vez que participo num programa de televisão em direto, tenho vontade de me levantar e de, a completo despropósito, dar uma estalada no apresentador. Não tenho nenhuma espécie de aversão para com qualquer apresentador. Pelo contrário. Normalmente, são pessoas que sabem fazer muito mais expressões faciais do que aquelas que mostram. A corrente que me puxa é a curiosidade acerca daquilo que aconteceria depois. Fazem-me perguntas: quando começou a escrever?, porque escreve?, quais são os autores que mais o influenciaram? Eu respondo devagar, e, por detrás de cada palavra, sinto vontade de levantar-me, ter a completa percepção de todos os meus movimentos e dar-lhes uma estalada.

Houve um dia desta semana em que perguntei aos nossos mortos se podia ser insensato. Eles disseram logo que sim.

No domingo, quando já começava a anoitecer, passei por uma criança que estava à espera, sozinha, dentro de um carro. Era um rapaz de seis ou sete anos. Estava sentado, muito direito, no banco de trás, e brincava com os dedos. Temo não ser capaz de explicar a opressão que senti no peito. Num instante, fui levado para um passado de há trinta anos atrás. Lembrei-me de ser aquele exacto menino e de não saber se os meus pais voltavam. Posso ir também? Não, espera aí. Por favor, posso ir também? Não, espera aí. O tempo passa de maneira diferente para as crianças. Cinco minutos é muito tempo, dez minutos é muito tempo, meia hora nunca mais acaba. Eu olhei para esse rapaz de seis ou sete anos, mas creio que ele não me viu. Melhor assim. Eu não iria querer um estranho a olhar para mim enquanto me doía o medo de ficar sozinho para sempre.

Perguntei aos nossos mortos se podia chorar. Eles disseram que sim, podia chorar o quanto quisesse.

Chorei dentro do carro com seis ou sete anos e chorei fora do carro, trinta e quatro anos, atrás de uma árvore, ridiculamente, a fingir que atava um sapato.

Quero pedir-vos desculpa por ter chorado.

Nestes últimos dias, nesta semana, no supermercado e noutros lugares bem iluminados, tem-me acontecido estar a conversar com a minha mãe ou com a minha sobrinha e, de repente, reparo que estou a falar para uma pessoa qualquer que não conheço e que olha para mim muito admirada. A minha mãe ou a minha sobrinha ficaram lá atrás a ver qualquer coisa e eu fico muito envergonhado por estar a demonstrar tanta familiaridade para uma desconhecida que só de modo remoto poderia ser confundida com a minha mãe ou com a minha sobrinha. Uma vez, só reparei nesse engano quando já ia começar a zangar-me por não me responder. Noutra vez, só reparei quando já estava a abanar-lhe o braço para que visse algum objecto que me parecia importante e que, agora, já não me consigo lembrar do que era.

Durante esta semana, várias vezes, também perguntei aos nossos mortos se podia fechar os olhos. Eles disseram que sim, claro que sim. E pediram para não lhes fazer mais perguntas, disseram que a resposta será sempre sim.
José Luís Peixoto, "Abraço"

sábado, novembro 16

Leitura coletiva

 


O presente inexistente

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.

Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

Blaise Pascal, “Pensamentos”

De como Itaguaí ganhou uma casa de orates

As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.

— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.

Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

D. Evarista mentiu às esperanças do dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis” — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.

— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.

A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do beneficio da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe “que estava com desejos”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.

— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Allah lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.

Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de orates.
Machado de Assis, "O alienista"

Amanhecer na biblioteca

São páginas à espera de serem folheadas, histórias à espera de serem descobertas. Cada livro é uma conversa íntima, um diálogo que transcende o tempo e convida a refletir sobre a nossa jornada.

João da Silva