sexta-feira, agosto 1

Incrível, fantástico, extraordinário

Como todos sabem, aqui em Itaparica acontece de tudo. Em matérias sobrenaturais, por exemplo, acho difícil encontrar terra tão feraz e exuberante. Todo itaparicano já viu pelo menos uma alma, não necessariamente penada. Aliás, alma penada mesmo, das que ficam ululando na porta do cemitério ou assombrando por trás de jaqueiras velhas nas encruzilhadas, fazendo cada careta de arrepiar o espinhaço do mais valente, dessas até que temos poucas. A maior parte das nossas assombrações é muito pacífica, familiar até. Cuiúba mesmo já viu o finado Cuiúba, pai dele (toda família é Cuiúba e saíram com a cara de um pássaro chamado cuiúba, não dos mais belos com que nos dadivou a Natureza), assim passando pela cozinha ou encostado na mesa da sala. Foi Cuiúba quem nos salvou, ou, aliás, salvou meu livro mais recente, através de seus conselhos sobre coisas do Além.

Eu tinha interrompido o livro algum tempo e, agora que me via sozinho em Itaparica, com todo o tempo do mundo para escrever, não saía mais nada. Começou a me dar uma porção de maluquices e cheguei a ter visões de um futuro de absoluta decadência, tornando-me um ébrio e rolando na sarjeta, incapaz de escrever mais uma palavra e mal recebido pelas pessoas de bem. Um dia, tomando umas cervejinhas com Cuiúba em comemoração da sua dentadura nova, confessei-lhe minha triste condição. Ao que ele replicou, com muita naturalidade, que já esperava por isso.

— Seu avô — disse ele — era um homem sério, só escrevia coisas sérias, coisas históricas, belas palavras, bonitas declamações e letras finas. Você é um escritor tipo descarado, que uma pessoa não pode ler numa escola o que você escreve.

— Que é isso, Cuiúba, como é que eu sou escritor tipo descarado?

— Você sabe que é. Eu não sou contra, eu até aprecio uma descaraçãozinha, tem seu lugar. Mas seu avô não, seu avô era um homem sério que não admitia essas coisas. Ele podia fazer, mas nunca que escrevia, isso nunca!

— Está certo, mas o que é que meu avô tem a ver com meu livro?

— De vez em quando me admira você: tanto estudo e tanta ignorância da vida. Dona Madalena, sua professora, sempre disse que…

— Não interessa o que Dona Madalena disse, você vive repetindo isso.

— Ela disse que você era uma grande capacidade, mas tinha muitos problemas na ideia. O estudo demais amolece a ideia. O estudo demais…

— Cuiúba, eu não estou interessado nisso, eu já sei o que você vai dizer. Eu quero saber é dessa história de meu avô com meu livro.

— Mas é claro! Seu livro não se passa aqui em Itaparica?

— Se passa.

— Então? Seu avô também escrevia sobre Itaparica, mas sobre coisas heroicas, coisas belas. Então você acha que ele ia concordar com as coisas que você escreve?

— É, talvez ele não gostasse muito. Mas ele já morreu.

— E a alma? Ele não tinha alma, não, é?

— A alma? Você acha?

— Acho não, tenho certeza! Você acha de escrever na casa dele, na mesma sala onde ele trabalhava, e pensa que ele não vai querer que você escreva do jeito que ele acha certo? Você não conhece seu avô, não, rapaz? Um homem brabo daqueles, cheio de opinião? Naquela casa você só escreve do jeito que ele quiser, duvido que ele desgrude de você.

— Quer dizer que…

— É, meu amigo, ali é na lei dele. Se você não arranjar outro lugar para escrever, ele não larga seu pé.

Fui para casa, sentei diante da máquina, tentei continuar, não saiu coisa nenhuma. Olhei por cima do ombro para ver se via meu avô, mas não via nada. Mas será que Cuiúba não tinha razão? Olhei para o canto onde o velho costumava ficar escrevendo em pé seus artigos e declamando tudo numa voz regulada que só ele entendia, cumprimentei-o e pedi-lhe, muito delicadamente, que me deixasse continuar o trabalho, eu tinha um contrato a cumprir, tinha responsabilidade, vivia daquilo, ele por favor não ficasse espiando meu trabalho que eu não conseguia trabalhar assim etc. etc. Não adiantou nada. Consultei-me com Cuiúba novamente. Ele riu.

— Só mesmo na sua cabeça querer discutir com alma. Alma é o bicho mais teimoso que existe e, se seu avô já era teimoso em vida, imagine agora. Não vai adiantar nada, rapaz, eu já lhe expliquei que só você procurando outro lugar para trabalhar.

Procurei o lugar, arranjei meu saudoso escritório da praça, o velho deixou de se meter no meu livro, conseguiu terminar tudo como havia planejado. Minha mulher, que não é baiana, ficou impressionadíssima e passou a se assessorar com as melhores fontes da ilha. Hoje, modéstia à parte, estamos cobertos por todos os lados. No jardim, temos dois pinhões roxos, necessários para afastar maus olhados e outros eflúvios negativos. No pátio, temos a cágada Lili, que exerce funções semelhantes, acrescidas da responsabilidade de “chupar” as doenças da casa — pois é fato notório (Cuiúba ficou escandalizado quando descobriu que eu não sabia disso, acho que, se pudesse, dava um jeito de Dona Madalena cassar meu diploma do curso primário) que as doenças não fazem mal nenhum aos cágados, que assim podem chupá-las à vontade, que a doença quebra a cara. No setor de serviços, contamos com duas rezadeiras de absoluta confiança. No dia em que me rezaram pela primeira vez, foi um horror. Eu estava tão carregado que sequei vários ramos de arruda e botei duas para bocejar e se arrepiar que foi um espanto. Coisa difícil mesmo, trabalho para vários dias de descarrego. Foram recomendados banhos de sal grosso, banhos de folhas e outras medidas complementares, seguidas à risca. Os meninos também foram rezados, a mulher idem e, finalmente, tomamos a última providência, que foi descarregar a casa toda. Muita produção, coisa completa mesmo, até com efeitos especiais provocados pela queima de montinhos de pólvora nas soleiras das portas — minha mulher exigiu absolutamente todos os serviços, o kit integral.

Deu certo, claro. Estamos ótimos e Cuiúba garantiu que a cobertura ficou perfeita. O que bons especialistas não conseguirem, ninguém consegue. Até meu avô melhorou de humor, apareceu outro dia na sala muito sorridente, disse que estava bastante satisfeito comigo, elogiou os bisnetos e declarou que leu meu livro.

— Ah, é mesmo? — sorri eu. — E gostou?

— Também não vamos exagerar — respondeu ele, dando um acenozinho de despedida e desvanecendo junto da porta da varanda.

João Ubaldo Ribeiro

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