segunda-feira, agosto 4

Não conta pra ninguém

Gostaria de ser um menino. Gostaria de dizer àquela mulher coisas loucas, disparatadas, não lhe importando se as orelhas se incendiassem depois de dizê-las, gostaria de precisar segurar na frente uma pasta ou mochila para esconder a vergonhosa glória do seu sexo, gostaria de ser desmascarado apesar disso, gostaria de pedir desculpas, mesmo com palavras inseguras, e gostaria de, com as pernas tremendo, ser atraído pela mulher, puxado por ela, engolido pelos seus lábios e, sendo beijado, ouvir, sussurrada dentro de sua boca, a recomendação que, sugerindo pecado, enfurecesse ainda mais a dolorosa e agora escancarada latência do seu sexo: “Não conta pra ninguém, viu, menino?”

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Inveja Jerome David Salinger pela obstinada coerência que conservou quando decidiu afastar-se do mundo. Gostaria de isolar-se também, mas que charme teria um misantropo que não escreveu O apanhador no campo de centeio? A solidão anônima não gratifica o solitário.

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O amor já foi mais protocolar. Havia certas formalidades, determinados ritos que apavoravam os mais tímidos. Chegou a ser vendido, nas décadas de 1950 e 1960, em livrarias e bancas, um guia para os enamorados. Escrito por Fred Jorge, que era conhecido por verter para o português sucessos da música americana, trazia modelos de cartas prevendo várias passagens, desde a inicial, a da confissão de amor, até a derradeira, e triste, em que se declarava extinto o afeto (hoje denominado relação). Entre esses pontos extremos, uma infinidade de situações hoje inimagináveis, como a de pedir aos futuros sogros permissão para o namoro (!) e o noivado (!), além de cartas marcando ou desmarcando encontros e outras que ensinavam como louvar qualidades físicas e espirituais do ser amado. Enfim, em textos curtos (dez a quinze linhas!), um manual completo, útil nas várias etapas do convívio amoroso, desde a que atualmente se chama de ficada até o pé na bunda.

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Chegava a ser diabólico o poder da condessa sobre mim. Ela o usava em todas as situações. Como, por exemplo, quando comia azeitonas e cuspia indolentemente num pratinho os caroços que, ela sabia, logo estariam em minhas mãos e em minha boca febril.

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Na tarde em que sepultaram o famoso costureiro, o cachorrinho dele, com a licença outorgada pelos seus cinco anos de convivência com a celebridade, se pôs a urinar em todos os túmulos ao redor e derrubou de um deles um vaso, para beber a água que continha. Por um momento, já que se tratava de um animal aristocrático, imaginou-se que ele pudesse mastigar as flores também derrubadas, mas ele só as cheirou com desdém e as deixou intactas, o que foi atribuído ao fato de serem vermelhas, cor execrada pelo seu finíssimo dono.

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