quinta-feira, agosto 7

Porque escrevo

George Orwell
Desde muito novo, talvez desde os cinco ou seis anos de idade, eu soube que mais tarde gostaria de ser escritor. Entre os dezessete e os vinte e quatro tentei pôr de parte esta ideia, mas sabia que estava a violentar a minha verdadeira natureza e que mais tarde ou mais cedo teria de assentar e me dedicar à escrita. Fui o segundo de três irmãos, mas havia entre mim e eles um intervalo de cinco anos, e até aos oito anos só de longe a longe via o meu pai. Por este e outros motivos, fui uma criança algo solitária, e cedo desenvolvi algumas manias desagradáveis, que me tornaram impopular na escola. Tinha o hábito, típico das crianças solitárias, de inventar histórias e manter conversas com personagens imaginárias, e penso que desde o início as minhas ambições literárias se misturavam com a sensação de isolamento e o sentimento de não ser devidamente valorizado. Eu sabia que tinha facilidade em escrever e a capacidade de encarar factos desagradáveis, e sentia que isto criava uma espécie de mundo privado no qual me podia desforrar dos meus fracassos na vida de todos os dias. Apesar disso, o volume de escritos sérios — isto é, escritos com intenções sérias — que produzi durante toda a minha infância e adolescência não chegaria a meia dúzia de páginas. Escrevi o meu primeiro poema aos quatro ou cinco anos, ditando‑o à minha mãe. Só me lembro que era sobre um tigre e que este tinha “dentes como cadeiras” — um verso razoavelmente bom, mas suponho que se tratasse de um plágio do poema “Tigre, tigre” de William Blake. Aos onze, quando deflagrou a guerra de 1914‑18, escrevi um poema patriótico que foi publicado na gazeta local, tal como sucedeu com outro, dois anos mais tarde, sobre a morte de Kitchener. Mais adiante, escrevi ocasionais “poemas à natureza”, invariavelmente maus, de estilo georgiano e que em muitos casos ficaram por acabar. Por duas vezes tentei também escrever contos, sendo o resultado um pavoroso fracasso. A isto se resume a totalidade dos escritos pretensamente sérios que pus no papel durante todos esses anos. Contudo, durante todo esse período envolvi‑me de certo modo em atividades literárias. Antes de mais, houve as coisas feitas por encomenda, que produzia rapidamente, facilmente e sem grande prazer. Além dos trabalhos escolares, escrevi vers d’occasion, poemas semicómicos produzidos a uma velocidade que hoje me parece espantosa — aos catorze escrevi toda uma peça em rima, imitada de Aristófanes, em cerca de uma semana — e ajudei a editar revistas escolares, tanto impressas como manuscritas. Estas revistas eram a coisa mais pateticamente burlesca que imaginar se possa, e eu gastava menos tempo com aquilo do que hoje gastaria com o jornalismo mais reles. A par disto, porém, e durante quinze anos ou mais, levei a cabo um exercício literário de tipo completamente diferente: a contínua elaboração de “histórias” a respeito de mim mesmo, uma espécie de diário que só existia mentalmente. Creio que este é um hábito comum nas crianças e nos adolescentes. Quando era muito pequeno, imaginava ser digamos, Robin dos Bosques, e pintava‑me como herói de palpitantes aventuras; mas rapidamente a minha “história” deixou de ser tão cruamente narcisista e passou a tornar‑se, cada vez mais, numa mera descrição das coisas que estava a fazer ou a ver. Este discurso mental prolongava‑se durante minutos, em algo do género: “Ele abriu a porta e entrou na sala. Um raio de sol amarelo, filtrado pelas cortinas de musselina, incidia de viés sobre a mesa, onde uma caixa de fósforos, semiaberta, jazia ao lado do tinteiro. Com a mão direita no bolso, ele aproximou‑se da janela. Lá em baixo, na rua, um gato tricolor perseguia uma folha morta”, etc., etc. Este hábito prolongou‑se até por volta dos vinte e cinco anos, atravessando portanto todo o meu período não‑literário. Embora tivesse de procurar, e o fizesse de facto, as palavras certas, era como se este esforço descritivo se realizasse quase contra a minha vontade, sob o efeito de uma compulsão externa. Suponho que essas “histórias” terão refletido os estilos dos diferentes escritores que admirei ao longo desse período, mas, tanto quanto me lembro, tinham sempre o mesmo caráter minuciosamente descritivo.

George Orwell, "Porque escrevo"

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