quarta-feira, outubro 8

A longilínea metáfora da morte

O homem completou sua caminhada pelo parque. Havia no ar um perfume único, quente, que ele só costumava sentir em raras noites do final da primavera e que tinha algo de aliciador, de malignamente salino, embora o mar estivesse pelo menos sessenta quilômetros distante. Quase chegando ao seu quarteirão, viu parar diante de um prédio um carro. Dele desceu uma loira majestosa, de cabelos longos e vestido também longo e preto. Enquanto ela entrava pela portaria, ele notou que o perfume da noite se tornara mais cálido, quase mormacento. Olhou para o homem, um cinquentão já, que do carro parado acenava ainda, e teve pena dele, por adivinhar que morreria nos braços daquela mulher. Depois da pena, porém, foi possuído por uma furiosa inveja do homem e da morte que teria, talvez numa daquelas próximas noites de fim de primavera, agonizando sob o perfume que ele, desditosamente excluído daquele destino, sentia ferir ainda suas narinas e supliciar sua alma, embora a mulher já tivesse desaparecido dentro do prédio.

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O homem tropeçou na escada rolante da estação Brigadeiro e, porque olharam para ele como se olha para alguém não habituado a utilizar equipamentos urbanos, ele se desforrou dizendo, alto: “No ano passado, eu dei um tropeção igual em Paris.”

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Estarão todos olhando para mim. Serei o protagonista, embora, pelo meu papel, não possa mexer sequer um centímetro do meu corpo. Esperarão isso de mim, a imobilidade que convém a um morto que se preze. E não poderei espantar a mosca que tentará escarafunchar meu nariz. Ainda me ocorrerá uma piada: como é difícil a vida de um morto. Depois me compenetrarei, como se compenetraram tantos outros antes de mim.

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“Deus te livre de um dia, por descuido teu ou artimanha do teu coração, pensares que talvez aquele homem (sabes de quem falo) possa não ser desprezível quanto imaginas. Deus te livre. E, se Deus não te livrar, que te salve aquele sexto sentido que nunca te abandona. Mas, se ele te abandonar, que te socorra a razão, essa que jamais te falhou, essa que é capaz de cheirar algo nocivo a quarteirões de distância, e até pelo telefone. Deus te livre, o sexto sentido te salve, socorra-te a razão e que o Diabo aniquile todos os homens, principalmente aqueles que tentam as donzelas com as melífluas palavras da poesia. E, se o Diabo, por ser deles comparsa, não os aniquilar, que Deus apodreça os lábios deles, de todos, um por um, sem poupar um maldito sequer que seja.”

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Desde quando era menino, acusaram-no de andar com más companhias. Essa fama perdurou pela vida afora. Na madrugada em que saindo do bar e entrando no carro foi seguido pela Morte até a esquina em que ela o jogou viaduto abaixo, seus maus companheiros, tendo dispensado a carona e ficado para uma última rodada, perderam a oportunidade de conhecer uma companhia ainda pior do que eles mesmos.

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