Não é uma desgraça só brasileira. Pode-se andar por Roma durante dias sem encontrar uma livraria, além da Feltrinelli. Em Londres, o número de sebos na histórica Charing Cross Road caiu pela metade. E os antigos e generosos alfarrábios ao redor do largo do Camões, em Lisboa, extinguiram-se ou se converteram em áridos antiquários de livros e gravuras. Não conheço tanto essas cidades para saber que tipo de comércio os substituiu. Mas, no Rio, consigo acompanhar o que sucedeu a o quê. Muita coisa contribui: o abandono de velhos endereços, o comodismo da compra online, a agonia da palavra impressa.
Mas, às vezes, abre-se uma janela e entra a luz. Há pouco, em Laranjeiras, um dos bairros mais queridos da cidade, surgiram cartazes num muro dizendo: "Queremos livraria. Menos farmácias, mais livrarias". Era um pedido coletivo, um silencioso grito de socorro. Três amigas, Letícia, Martha e Carolina, passaram por eles e tomaram nota.
Dias depois, Carolina soube da desocupação de uma loja de material de construção nas proximidades. Lembrou-se dos cartazes e repassou a informação a Letícia e Martha, não por acaso sócias da pequena Livraria Janela, cujas lojas no Jardim Botânico e no Shopping da Gávea são um xodó de leitores e autores. O resultado será, em breve, uma Janela no coração de Laranjeiras, tão literária por natureza, berço de Lima Barreto e reduto de Cecília Meirelles, mas também tão carente de livros.
Ler pode ser um preventivo contra doenças de que só nos sabemos portadores quando entramos numa farmácia.
Ruy Castro

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