É engraçado pensar que todas aquelas pessoas se põem à mesa na mesma hora, vendo televisão! Eu passeava pelas ruelas. Um carro parou no fim de uma das que dão na pracinha. Um marido desce, pasta na mão, ar cansado; na certa chega de Istambul, entra em casa, parece contrariado por estar chegando tarde para o jantar na frente da tevê. Quando voltava da praia, ouvi a voz de Ismail:
“Loteria nacional! Só faltam seis dias!”
Não me viu. E eu não o chamei. Ele ia e vinha entre as mesas do restaurante, a cabeça balançava com força. Alguém o chamou de uma mesa, ele se inclinou estendendo os bilhetes para uma garotinha vestida de branco, as tranças presas com fitas. Ela examinava os bilhetes muito séria, seu pai e sua mãe sorriam, com um ar feliz. Dou as costas para eles, não os vejo mais. Se chamasse Ismail, se ele me visse, viria rápido até mim, mancando, e me diria, por que você não vem mais visitar a gente, e eu responderia, é que você mora longe, meu irmão, e a ladeira é muito íngreme, e ele me diria, claro, tem razão, quando o sr. Doğan nos deu aquele dinheiro eu devia ter comprado um terreno aqui, e não no alto da ladeira, devia ter comprado aqui, à beira-mar, e não lá em cima, a pretexto de que lá fica mais perto do trem, eu seria milionário hoje em dia, e eu diria a ele, pois é, pois é; sempre a mesma conversa. E sua mulher, tão bonita, que se contenta em ficar calada nos observando. Por que visitá-los? No entanto, me dá vontade de ir, principalmente nas noites de inverno, quando não encontro ninguém a quem dirigir a palavra, então eu vou, mas é sempre a mesma conversa.
Orhan Pamuk, "A casa do silêncio"

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