segunda-feira, março 9

Cervantes

– Que novas trazes de nosso pai?

– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.

– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!

– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.

– Não digo dois goles. Duas gotas!

– Tarde chegaria.

– Morreu, dizes?

– Morrendo está.

– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!

– Sem ele, senhor, o que será de nós?

– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.

– Onde iremos parar, tão sozinhos?

– Iremos onde ele quis e não pôde.

– Onde, senhor?

– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.

– Para que nos moam por lá os ossos.

– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...

– Como foram poucas as chibatadas....

– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?

– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!

– Depois de mil tundas, mil e uma.

– Cale-se, Sancho.

– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?

– Cala, te digo!

– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.

– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!

– E se aqui o choramos?

– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

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