– Jaz, senhor, entre lágrimas e rezas. Inchado está, e de cor cinza. Já pôs a alma em paz com o escrivão e com o padre. As carpideiras esperam.
– Se tivesse eu o bálsamo de Ferrabrás.... Dois goles e no ponto sararia!
– Aos setenta anos que quase tem, e em agonia? Com seis dentes na boca e uma só mão que serve? Com cicatrizes tantas de batalhas, afrontas e prisões? De nada serviria esse feio Brás.
– Não digo dois goles. Duas gotas!
– Tarde chegaria.
– Morreu, dizes?
– Morrendo está.
– Descubra-se, Sancho. E tu, Rocinante, baixa a testa. Ah, príncipe das armas! Rei das letras!
– Sem ele, senhor, o que será de nós?
– Nada haveremos de fazer que não seja em sua alabança.
– Onde iremos parar, tão sozinhos?
– Iremos onde ele quis e não pôde.
– Onde, senhor?
– A endireitar o que torto está na costa de Cartagena, na ribanceira de La Paz e os bosques de Soconuco.
– Para que nos moam por lá os ossos.
– Hás de saber, Sancho, irmão meu de caminhos e correrias, que nas Índias a glória aguarda os cavaleiros andantes, sedentos de justiça e fama...
– Como foram poucas as chibatadas....
– ...e recebem os escudeiros, em recompensa, imensos reinos jamais explorados.
– Não os haverá mais perto?
– E tu, Rocinante, fique sabendo: nas Índias, os cavalos calçam prata e mordem ouro. São tidos por deuses!
– Depois de mil tundas, mil e uma.
– Cale-se, Sancho.
– Não nos disse nosso pai que a América é refúgio de malandros e santuário de putas?
– Cala, te digo!
– Quem às Índias embarca, nos disse, no cais deixa a consciência.
– Pois lá iremos, a lavar a honra de quem livres nos pariu no cárcere!
– E se aqui o choramos?
– Homenagem chamas semelhante traição? Ah, velhaco! Voltaremos ao caminho! Se para ficar no mundo nos fez, pelo mundo o levaremos. Alcançai-me o elmo! A adarga ao braço, Sancho! A lança!
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

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