sexta-feira, abril 17

Considerações

Desde os gregos a ética, de ethos, que quer dizer costume, caráter, destina-se aos valores e princípios vinculados à conduta humana na busca da felicidade. A ética reflete sobre as regras, orienta, a moral funciona no plano das normas práticas. E o que se conhece com essa amiga do saber nos campos de centeio da teoria nem sempre repercute com a mesma toada quando as regras se movimentam na dura lei da vida.

Aparentemente somos iguais, mas cada um dentro de si traz a sua fera na épica do cotidiano. O que temos visto durante anos é o ser humano usar sutilezas malignas para suscitar gradações baixas do ego. Não usa a palavra remorso quando recorre às façanhas negativas para operar o mal ou para fazer o elogio das atrocidades, chegando às raias do extermínio.

Na guerra sem testemunha do comércio literário, o poeta Carlos Drummond de Andrade, em célebre poema, com sua verve genial nos diz que o poeta municipal discute com o estadual para saber qual dos dois é o melhor para se bater com o poeta federal, enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.

Na luta pela conquista da fama, quem ainda não subiu a ladeira quer puxar para baixo o que está no topo. Não convém ao ciúme e à inveja admitir que o lugar ocupado pelo que está em cima não lhe pertença com exclusividade. O caminho mais fácil que se usa para se afirmar, derrubar quem está no alto, é negar o outro.

Certa vez ouvi de um poeta popular na feira estes versos: Quem disser que tem amigo/ tem de si pouca ciência/ amigo só existe aquele/ o da própria conveniência. Na ideia, esses versos dão a medida exata da formação de certas alianças, no dueto ou no grupo, com vistas a alcançar metas que ferem encobertos objetivos, de natureza egoísta e narcisista.

O mal gosta de atuar com tonalidades variáveis, de se apresentar com trajes diversos, inclusive o da inocência, o qual em muitos casos encobre a vilania.

A sanção surge quando se impõe a necessidade de frear a conduta que perturba o bem-estar do ambiente. Faz estrago por sectarismo ou desequilíbrio pessoal.

Contrário às normas saudáveis da vida, o infrator começa a ser apenado pelo julgamento de valor da própria sociedade. Se o ato antiético toma força contrária aos objetivos da norma jurídica, a sanção é coercitiva dentro dos padrões da regra penal e da reparação do dano pelo direito civil.

Embora tenha gente no mundo que goste de elogiar o diabo, acreditem, existem no reino dos humanos pessoas boas, ainda bem. Ressalte-se que até os santos de passagem por aqui na Terra, em carne e osso, nervos e sentimentos, os que transmitem suas verdades que abalam o mundo, mesmo esses não deixam de ter suas dúvidas no drama.

O mal não tem limite, coexiste com as agruras dos níveis mais terríveis, é de sua essência destruir e no final se destruir, e, quando vence, não convence. Conquanto tenha uma persistência incrível para se renovar com as atrocidades e perseguições caninas, tanto esteja nas vistas ou escondido atrás da cortina.

Com mãos nas mãos para plantar cirandas com as sementes da generosidade, a vida se torna viável, nos faz construtores da beleza, sujeitos da esperança e da ternura. O sectarismo pende para as divisões inconcebíveis com o seu personagem central das misérias e das desgraças.

Sigo então com Goethe quando diz que todos os dias a pessoa deve dizer uma palavra boa, ler uma poesia boa, ouvir uma música boa, olhar um bom quadro.

Por favor, faça isso, de vez em quando pelo menos.

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